economia, Geral, Setúbal

De comboio a burro *

Com um desprezo que julgávamos fazer parte do passado, a CP anunciou com a maior das ligeirezas a eliminação da paragem em Setúbal das ligações ferroviárias InterCidades entre Lisboa e o Algarve e do serviço regional de passageiros para Tunes.

Uma decisão que significa que não haverá ligações ao serviço InterCidades no troço compreendido entre Pinhal Novo e Grândola, uma distância de cerca de 85 quilómetros e onde se incluem os concelhos de Setúbal e Alcácer do Sal.

A eliminação destas ligações ameaça fazer recuar muitas décadas a ligação de Setúbal ao sul do país. Ligação que faz parte da identidade histórica de Setúbal, terra que mantém importantes relações com diversas localidades da beira-mar algarvia – como o atesta a numerosa comunidade sadina com raízes em sítios como Olhão, Fuzeta, Portimão ou Alvor. É ainda uma decisão que representa um inqualificável acto de desqualificação de uma cidade capital de distrito, com importantes funções económicas e de articulação regional no sul da península de Setúbal e nas zonas ribeirinhas do Sado.

Não é irrelevante que Setúbal veja a sua posição no sistema de ligações ferroviárias ao Sul ser esmagada pela decisão da CP de concentrar em Pinhal Novo o acesso ao serviço, obrigando os utentes de Setúbal a fazer ligações até àquela cidade do concelho de Palmela que dista cerca de 20 quilómetros da cidade do Sado. Também o concelho de Alcácer do Sal é penalizado por esta solução, forçando os seus utentes a deslocar-se a Grândola.

A incongruência é tanto maior quando se constata que a estação ferroviária de Setúbal e as respectivas zonas circundantes foram recentemente objecto de obras de remodelação e modernização que representaram um investimento na ordem dos 14,3 milhões de euros. Mais um exemplo da inconsequência…

Curiosamente – ou talvez não – e ao invés das autarquias de Setúbal e Alcácer do Sal, que condenaram a solução agora adoptada pela CP, a administração da empresa terá tido o cuidado e a “simpatia” de pedir para ser recebida pelas Câmaras Municipais de Santiago do Cacém, Odemira e Ourique. Não fosse ter nestes concelhos entendido por bem permitir o acesso ao InterCidades em Ermidas-Sado (Santiago) e Santa Clara (Odemira) – como compensação pelo encerramento da ligação regional a Setúbal/Tunes – mantendo ainda o já existente acesso em Funcheira (Ourique).

Resultados?  A CP afirma que irá encurtar o tempo de viagem Lisboa-Faro em 30 minutos. Setúbal e zona ribeirinha do Sado ficarão com menos acesso ao serviço ferroviário e um inestimável contributo para a sua periferização. Será certamente de recordar à CP que o transporte ferroviário é um serviço público e que Setúbal, apesar de estar na margem sul do Tejo – mas norte, do Sado, não é propriamente um deserto.

* Título retirado, com a devida vénia, do Jornal da Região de Setúbal.

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