Geral

Vira o disco e toca o mesmo

Álvaro Cunhal, quando é preso aos 23 anos. Tirado daqui http://visao.sapo.pt/actualidade/portugal/alvaro-cunhal-o-homem-que-recusou-ser-comum=f756581

O jornal “O Setubalense” ofereceu-nos, no princípio desta semana, um texto de opinião sobre Álvaro Cunhal com o qual se pretendia contestar a opção municipal de homenagear, numa avenida da cidade, o histórico dirigente comunista.

Na verdade, teria sido importante que o texto de opinião fosse mesmo sobre Álvaro Cunhal. Mas não foi. Nos 3270 carateres em que o articulista, que foi mandatário da candidatura do CDS à Câmara Municipal, em 2017, tenta, sem sucesso, contestar a opção da autarquia, apenas 945 (um terço) são dedicados ao dirigente do PCP. O resto do texto limita-se a tocar a velha cassete fascista dos que foram derrotados em Abril, aqueles contra quem o antigo secretário geral do PCP lutou e, por isso, foi encarcerado por longos anos nos cárceres salazaristas e forçado ao exílio.

Se tivesse querido escrever sobre Álvaro Cunhal, o articulista, aparentemente despreocupado com as perseguições fascistas de que o líder comunista e seus camaradas foram alvo enquanto defendiam um país melhor, mais justo e democrático, teria — mesmo afirmando a sua discordância com as opções ideológicas do Partido Comunista Português –recordado o papel que o dirigente do PCP desempenhou na luta contra um regime que oprimiu e perseguiu os que se atreviam a pensar de forma diferente e pela construção da moderna democracia portuguesa em que hoje vivemos. Um regime que fez de Portugal um país atrasado, isolado, incapaz de compreender os tempos e conivente com as piores ditaduras fascistas europeias.

Se quisesse falar de Álvaro Cunhal e do partido que dirigiu, teria, pelo menos, mencionado que o PCP sempre se submeteu a eleições e respeitou escrupulosamente os seus resultados. Teria mencionado, mesmo ao de leve, que o PCP é um dos fundadores do sistema constitucional português e do nosso moderno estado de direito democrático (a este propósito, recomenda-se ao articulista a leitura desta parte do programa do PCP, para ver se compreende, de uma vez por todas, o que defendem os comunistas portugueses).

Se quisesse falar de Álvaro Cunhal teria destacado, mesmo discordando das orientações seguidas, o trabalho que os comunistas, ao longo dos mais de quarenta anos de democracia, desenvolveram nas autarquias portuguesas.

Se quisesse falar de Álvaro Cunhal, o autor do texto teria, certamente, recordado o contributo que o dirigente dos comunistas deu à literatura portuguesa, quando escreveu sob o pseudónimo ManuelTiago, e às artes plásticas, com os notáveis desenhos que fez na prisão e que hoje são reproduzidos em Setúbal na avenida com o seu nome.

Se quisesse falar de Álvaro Cunhal, não expondo o mais básico ódio anticomunista reproduzido a partir da velha cassete, não precisaria de falar nem da Coreia do Norte, nem de Cuba, nem da URSS nem de qualquer outro país, cuja história e processos revolucionários desconhece profundamente, limitando-se a reproduzir não apenas a cassete de outros, mas também o mesmo velho disco riscado de sempre.

Isto seria o que o que teria escrito, se quisesse falar de Álvaro Cunhal. Mas não era do velho e histórico líder que o articulista queria falar. Não. Apenas queria fazer prova de fé do seu anticomunismo, quem sabe para expiar o pecado de, há bem pouco tempo, nas páginas do mesmo jornal, ter produzido elogios, pelo menos por duas vezes 1,2 , a uma presidente de câmara que é comunista, admiradora de Álvaro Cunhal e corresponsável pela decisão de homenagear o secretário-geral do PCP. Se era isso que desejava, então terá, com certeza, atingido o seu objetivo. Porém, aqueles que estão atentos, que são comunistas e democratas, recordarão sempre a ofensa que zelosamente reversou nas páginas de um jornal que se tornou livre e democrático com a revolução que aquele que é hoje alvo do seu ódio ajudou a construir, a concretizar e a desenvolver.

1  “(…) não tenho qualquer dificuldade em salientar que V. Exa. (Maria das Dores Meira) foi, até à presente data, a melhor presidente que a Câmara Municipal de Setúbal teve”, Giovanni Licciardello, in “O Setubalense”, 9 de outubro de 2017”.

2  “É da mais elementar justiça democrática salientar que, com Maria das Dores Meira, a cidade e o Concelho de Setúbal, tem vindo a ter um dinamismo que não tiveram no passado, quer com o PS, quer com a própria CDU.” Giovanni Licciardello, in “OSetubalense”, 12 de julho de 2017”.

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Setúbal

Outra vez a Feira de Sant’iago

Imagem da Feira na noite de 2 de Agosto

A Feira de sant’iago é um tema discutido em Setúbal ininterruptamente há mais de trinta anos. Primeiro, antes de 2004, quando mudou para as Manteigadas, a discussão anual girava em torno da necessidade de retirar a feira da avenida Luisa Todi por manifesta falta de condições, quer de espaço e de circulação e estacionamento automóvel, quer de salubridade e incómodos para os negócios de restauração. Depois de 2004, a discussão foi mantida e o que se debate desde então é a necessidade de fazer regressar a feira à avenida Luisa Todi. Com o tempo, todos perceberam que não era viável esse regresso. Uns lançaram a ideia de a fazer na zona ribeirinha, outros apenas dizem que se devia era fazer no centro da cidade e ainda há mais alguns que encontraram a saída airosa de defender um referendo para ocultar as próprias responsabilidades na decisão de mudança da feira. “Somos um partido. que não cristaliza as suas posições“, foi o que disse, mais coisa menos coisa, o candidato do PS à câmara de Setúbal sobre a proposta do referendo, quando confrontado com a questão simples de saber por que razão não fez o PS tal referendo em 2001, quando estava no poder e escreveu no plano estratégico do POLIS que a feira iria mudar para as Manteigadas para se fazer o arranjo da avenida Luisa Todi. E pronto, todos os problemas relacionados com a feira ficariam resolvidos no passe de mágica do referendo local. Nada mais simples. Era só estalar os dedos e pôr os setubalenses a referendar a feira e tudo se resolveria.

Em comum têm os defensores destas teses a incapacidade de explicar como se fazia a feira no centro da cidade. Por um lado, ninguém sabe como funcionaria na zona ribeirinha, por outro ninguém diz em que outro espaço se poderá fazer a festa. Outro ponto comun é que já ninguém defende a realização da feira na avenida Luisa Todi. Ninguém mesmo.

Temos, assim, um debate artificialmente empolado apenas por puro oportunismo eleitoral, num caso, e por falta de seriedade política, noutro.

Depois da relocalização da feira em 2004 já se realizaram três eleições autárquicas e sempre a força política que promoveu a mudança venceu. Evidentemente que não se pode dizer, simplesmente, que tal representa um apoio à mudança. Porém o eleitorado sabe perfeitamente qual é a posição da CDU sobre a matéria e sempre a apoiou com o seu voto. E por que é não é exagero afirmar isto? Porque em ano de eleições o tema da feira tem sido sistematicamente transformado em tema central da campanha eleitoral e nem assim se convenceram os setubalenses a votar contra quem defende que a feira tem de ser nas Manteigadas.

O que é importante é que a Feira de Sant’iago continua a ser a mesma coisa de sempre, só que agora num espaço diferente. Além disso, sempre houve pessoas que não gostavam de ir à feira na avenida, pessoas que gostavam de ir, pessoas que iam apenas para comer a bifana, outras para ir aos carrinhos de choque, outras para ver outras pessoas, outras porque sim e outras porque não.

Pretender que há um motivo universal para ir ou não ir à feira é pura e simplesmente destituído de sentido. O que vi na noite de 2 de agosto (quarta-feira), por exemplo, foi uma feira a abarrotar de gente nos carrinhos de choque, no espetáculo do AGIR, no Seninho, na Luisinha, nas cuecas dos indianos, no frango assado do restaurante da Urra. E tenho a certeza de que vi isto, ou seja, vi muitos milhares de pessoas naquele espaço onde agora podem ir a pé as pessoas que moram ali nas redondezas, e são muitas.

O que parece é haver por aí muito preconceito social escondido por causa de a feira ser na Bela Vista, onde moram os ciganos e os pretos. O que muita gente se esquece é que ali moram muitos mais do que apenas esses.

Esta conversa da feira já cheira tão mal que muita gente já nem liga e vai lá divertir-se, alheando-se desta polémica que tem sido artificialmente mantida.

Ainda bem, porque aquela é e continuará a ser a festa de Setúbal e de todos os que dela gostam, e esses são muitos. São cada vez mais.

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Política, Setúbal

Por que é que as taxas de IMI estão no máximo em Setúbal?

Perguntas e respostas contra a demagogia do PSD

O PSD setubalense fez da taxa máxima de IMI a única bandeira política e eleitoral no concelho de Setúbal, utilizando de máxima demagogia e mantendo no mínimo os esclarecimentos devidos para que se conheça a verdade.

Contra a demagogia, em especial a promovida pelo PSD setubalense, aqui fica um guia de perguntas e respostas para melhor entender a questão do IMI em Setúbal.

 O QUE É O IMI?

O IMI – Imposto Municipal sobre Imóveis (antiga Contribuição Autárquica) é o imposto que o Estado cobra aos proprietários de imóveis e transfere por inteiro para as autarquias para financiar despesas municipais com as infraestruturas, ruas e estradas, escolas, equipamentos desportivos, parques e jardins, iluminação pública, limpeza pública e todas as despesas e investimentos que se relacionam com a administração dos concelhos.

SETÚBAL É A CÂMARA MUNICIPAL QUE COBRA O IMI MAIS ELEVADO DO PAÍS? Continuar a ler

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Setúbal

Os matraquilhos da Taberna do Luciano

 

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Antiga Taberna do Luciano, na Rua Ladislau Parreira. Foto de Maurício Abreu.

Descobri há dias esta foto a circular nas redes sociais setubalenses. A única coisa que tem de interessante é retratar um tempo que foi o da minha infância, com os personagens que subitamente recordamos daqueles tempos das nossas vidas em que tudo parecia possível. Era o tempo em que, vindos da escola, parávamos para, ainda antes do almoço que as mães tinham já na mesa, jogar ruidosamente aos matraquilhos que estão no meio do estabelecimento de venda de tinto e branco a copo. Dez tostões, dez bolas, dois para dois e muita risota com a azelhice dos parceiros e adversários de ocasião. Os jogos prolongavam-se até se esgotarem os dez tostões que sobravam nos bolsos, ou porque não tínhamos comido a sandes na escola ou porque tínhamos poupado no bilhete da camioneta da carreira. Sempre era uma forma de adiar a pescada cozida com brócolos que as nossas mães, estranhamente, naqueles tempos tanto gostavam de cozinhar…

Era assim num tempo em que os miúdos entravam em tabernas, mas não as frequentavam. Este era um dos pretextos que nos permitia lá entrar. O outro era ir ao vinho para o almoço, tarefa reservada aos rapazes. Aquele era o reino masculino onde alguns dos membros mais agressivos da espécie ditavam todas as regras ou mesmo a ausência de lei. Já bastava que lá em casa elas mandassem e todos quisessem pensar que nelas mandavam eles. A taberna não era, por isso, o sítio mais adequado para raparigas. Isso era coisa apenas para as mulheres já adultas que nem sempre estavam dispostas a deixar o marido a fermentar na mesa onde, isolado, se destacava o mesmo copo repetidamente esvaziado.

Na rua da Taberna do Luciano – o taberneiro que, de cotovelos no balcão sorri para foto, acompanhado pelo filho, o jovem que se encontra entre o naipe de velhos tabernistas que posam sérios e compenetrados – conviviam a frutaria, a leitaria, a mercearia do César, a regataria da Elvira, mais à frente a mercearia do Botão (acho…), o relojoeiro, o carvoeiro, a loja de roupa, o estofador, o electricista e vendedor de eletrodomésticos e ainda uma panificação com alguma importância. Era a Rua Ladislau Parreira, que, com a Vasco da Gama e o Largo da Fonte Nova, eram o centro comercial do bairro de Tróino. Havia também a papelaria, a Drogaria, o fotógrafo, o Hugo Alfaiate na Vasco da Gama, a retrosaria, a farmácia e o funileiro. E havia as tabernas. Com a do Luciano eram para cima de cinco, e sempre com clientela.

Era o meu bairro. Continuar a ler

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Setúbal

As novas elites

Quem segue com mediana atenção o que acontece nas redes sociais, esse ecossistema permanentemente em fogo, sabe que é lá que vivem os seres mais perfeitos, capazes e competentes do planeta.

A nova elite política, artística, técnica, científica, intelectual e desportiva tem intensa vida nas redes. São os membros desta classe que conhecem, como ninguém, o que é melhor para a cidade e para o país e que identificam de imediato, sem margem para dúvidas, tudo o que está mal. A nova elite não dá opinião sobre os temas. Não. Isso é para quem nada sabe das questões. Estes especialistas sabem, de ciência certa, o que está mal, embora não saibam como o fazer bem. Sabem por onde o país e a cidade não devem ir, mas não sabem que outros caminhos devem seguir. Mas isso pouco importa aos novos elitistas. O que interessa é, a cada momento, postar sentenças sobre tudo e sobre todos. É a democracia, dizem; é a liberdade de expressão, estúpido, acusam. É isso tudo e muito mais. É, acima de tudo, a exposição da ignorância embrulhada em arrogância e, muitas vezes, em anonimato confortável.

A democracia das redes sociais é, hoje, a mais perfeita contradição com o que deve ser a democracia, um sistema em que, de preferência, todos têm informação para poderem dar opinião e decidir em consciência. Porque, na verdade, todos temos a liberdade de falar, mas também de ficar calados. É ali, nas caixas de comentários do Facebook e dos jornais, que se percebe a dimensão da desinformação em que vivemos, a fragmentação do conhecimento, a incapacidade de relacionar e procurar informações, a exuberância e atrevimento da ignorância. Os media, neste tempo de notícias falsas, de factos alternativos, de pós-verdade, também ajudam pouco. A este propósito é, aliás, interessante citar uma frase proferida há dias por um famoso ator norte-americano, a quem pediam para comentar um rumor, manifestamente falso, sobre a sua atividade política. Respondia Denzel Washington aos jornalistas que, quando não se lê jornais, está-se desinformado; mas quando se lê jornais, então aí está-se mal informado. Questionado sobre qual seria a alternativa, Denzel responde que essa é a grande questão e pergunta qual será, a longo prazo, o efeito do excesso de informação em que vivemos hoje. Um dos efeitos, para o ator, é que os jornalistas apenas querem ser os primeiros a dar a notícia, esquecendo a necessidade de ser rigoroso, ou, como ele diz, de “dizer a verdade”. A grande responsabilidade é ser rigoroso, e não apenas ser o primeiro a dar a notícia. E esta deve também ser a responsabilidade de quem comenta nas redes sociais, independentemente do nível de responsabilidade e visibilidade que tem nesses comentários.

Nunca como hoje tivemos tanto acesso à informação, às notícias. Temos canais noticiosos 24 horas por dias, sites na Internet que apenas dão notícias, jornalismo cidadão, imagens de tudo e de nada. Porém, a realidade é enganadora. Dominique Wolton, sociólogo francês considerado um dos mais destacados estudiosos das questões da comunicação, afirma que “hoje, o que é preocupante, é que há muito mais tecnologias, mas a diversidade do que é produzido e difundido é escassa. É uma espécie de falhanço: muitas tecnologias, muita informação, mas menos comunicação. Isto é um problema politico”.

Wolton classifica a Internet como “um espaço de liberdade de expressão”, mas isso, garante, “não é comunicação. Comunicação é o recetor estar interessado no que diz o emissor. Posso não estar de acordo com o que diz, mas respondo, e há uma discussão. Na internet, na maior do tempo não há discussão. Cada um conta a sua vida, mas não é porque toda a gente se exprime que toda a gente comunica. Cada um está só e podemos chegar a uma situação em que há seis mil e 500 milhões de internautas autistas. Há aqui um desafio político e cultural. Ou, então, o capitalismo vai prosperar com a internet e com as novas possibilidades dos big data, a partir dos quais as grandes corporações vão ficar a saber dos gostos de cada um e dar-nos todos os programas de que gostamos no nosso smartphone”. O sociólogo acrescenta uma ideia pouco consensual, mas que merece debate aprofundado: “não existe regulamentação da internet e são precisas leis nesse sentido”.

Este é um retrato fiel do que se passa hoje nas sociedades da informação, ou melhor, da desinformação.

Convencionou-se que todos podemos e devemos comentar tudo, mesmo que pouco saibamos dos assuntos em debate. E todos nos transformamos assim em especialistas; todos ascendemos a uma nova elite capaz de opinar sobre o que quer que seja, a elite que sabe que aprofundar o canal de navegação do Porto de Setúbal é uma asneira porque sim, que sabe que fazer ciclovias é um erro porque ninguém anda de bicicleta, que sabe que David Chow, o homem que quer fazer uma marina em Setúbal, está falido porque se confunde perdas líquidas com falência, apenas para citar três exemplos retirados dos comentários que se fazem sobre a vida setubalense.

Muitos cidadãos, ansiosos por participar e ter um papel ativo na vida das suas comunidades, confundiram, irremediavelmente, o ato de cidadania que é ter opinião e manifestá-la nos locais adequados com os posts que fazem no Facebook. A democracia é bem mais exigente do que isso. Participar requer informação, exige que se emitam opiniões nos locais certos, perante aqueles que elegemos para nos governar, e não apenas nas urnas de quatro em quatro anos e, agora, no Facebook. A cidadania não se confina às redes sociais, ainda que seja forçoso reconhecer que estas redes são importantes espaços de manifestação de opinião, embora também sujeitos a sérias manipulações e distorções.

Os meios disponíveis para participar na vida das comunidades existem e nem estão distantes. Para falar apenas na vida da nossa cidade, a cidadania pode ser exercida nas coletividades, em comissões de bairro para resolver problemas concretos, nas assembleias de freguesia, nas assembleias municipais e reuniões públicas da câmara municipal. Além destes canais, há todo um mundo de possibilidades que se abrem, mesmo recorrendo aos novos media e às redes sociais, para que possamos exercer, responsavelmente, a cidadania.

Hoje, muitas autarquias disponibilizam canais de comunicação eficientes para que os cidadãos possam transmitir opiniões, ideias, reclamações. Infelizmente, assistimos a uma tremenda falta de participação nestes fóruns, enquanto assistimos à ascensão das arrogantes e ignorantes novas elites das redes sociais que se confrontam, sistematicamente, com aqueles que exercem os mandatos para os quais foram eleitos e são vistos como os incapazes desta equação.

Claro que as redes sociais são instrumentos importantes para exercer a liberdade de expressão e uma forma expedita de divulgar informação e exercer a cidadania. Mas não são a única nem a mais importante. O grande desafio dos nossos dias é sermos capazes de sair de casa, abandonar o teclado do computador ou do telemóvel e começar a participar mais ativamente, cara a cara, sem anonimato e sem medo de dar opinião, na vida das nossas cidades e sociedades.

Podemos fazê-lo na rua, na reunião de câmara, na coletividade, nos sindicatos, nos escuteiros, nos clubes de futebol, olhos nos olhos. Descobriremos, certamente, que é muito mais interessante, animado e recompensador do que apenas escrever umas coisas no Facebook…

 

PS – Já depois de publicado este texto na Gazeta Setubalense, jornal online para o qual foi expressamente escrito, lembrei-me, a propósito da última frase, desta cena do filme Ocean’s Eleven que descreve muito bem o que se passa hoje nas sociedades ocidentais, em que a realidade, mesmo que esteja ao lado ou à frente dos nossos olhos, é substituída pelas redes sociais pelas imagens, pela intermediação. Tal como no filme, preferimos cada vez mais estar sentados em frente ao ecran do computador do que participar ao vivo nos acontecimentos.

 

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Sectarismo

Leio quase sempre Teresa de Sousa no Público. Hoje, por mero sectarismo, certamente, distraiu-se no panegírico soarista que quis escrever antes que o homem morra para afirmar que Mário foi um lutador contra a economia de casino. Seria engraçado se não fosse trágico. Soares, é bom recordar, foi quem trouxe de volta Ricardo Salgado ao BES nacionalizado, banco que, na privatização, foi entregue à família com os resultados de casino que se conhecem. Salgado lá esteve detido em casa, coitado, mas aqueles que nele confiaram perderam parte significativa das suas poupanças e da sua vida. Por isso, ler coisas destas só mesmo para rir, para não ter de chorar.

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Política, Setúbal

Como protestar contra a tua autarquia

volvo_logo_detailQueres protestar contra a tua câmara municipal e não sabes como?

Fácil. Segue os seguintes passos e terás grande sucesso na tua carreira profissional.

1 – Verifica que carro tem o teu autarca. É um Volvo? Estás safo. Repete no Facebook até à exaustão que o autarca tem um Volvo, ignorando que custa o mesmo que alguns Renaults e passa ao passo seguinte. Se o autarca tiver um Renault, desiste já.

2 – Verifica se há algum ganso aprisionado no jardim da cidade e assegura-te de que os patos do lago desapareceram. Se a resposta for afirmativa estás safo. Faz um post no facebook a mostrar a tua indignação, ignorando que o ganso está resguardado para ser protegido das obras que decorrem no jardim. Passas assim por grande entendido nas matérias da cidade e, simultaneamente, por grande defensor dos animais. É o dois em um. Acrescenta que o autarca anda de Volvo e que o carro deve ter sido comprado com o dinheiro da venda dos patos.

3 – Se tiver sido substituído algum bebedouro de brecha da Arrábida no jardim da cidade, faz outro post no Facebook e insinua logo que alguém abarbatou o bebedouro. Passa a chamar-lhe fonte para dar grandiosidade à coisa. O sucesso é garantido. Passas a estrela do Facebook instantaneamente, mesmo que o bebedouro tenha sido substituído porque já não oferecia as mínimas garantias de salubridade. Insinua que alguém meteu o bebedouro dentro de um Volvo e o levou para casa.

4 – Se a câmara quiser fazer mais uma rotunda, junta-te ao grupo dos que protestam contra as rotundas e acusa algum autarca de estar a meter dinheiro ao bolso com a empreitada da obra para comprar mais um Volvo.

5 – Se a câmara quiser aumentar o estacionamento, recorda sempre que o Volvo do autarca pode estacionar em todo o lado sem pagar. Ignora que o carro é da câmara e não do autarca e não faz sentido a câmara pagar estacionamento a si própria, assim como o facto de quem se desloca em trabalho ter normalmente as despesas de estacionamento pagas pelas suas empresas.

6 – Se houver um descarregamento no porto de lixo importado para tratamento numa empresa especializada, criada por iniciativa de um qualquer governo com o qual até simpatizaste, ignora este último facto e acusa a câmara de estar distraída a comprar Volvos e não ter visto passar o barco com o lixo, mesmo que a autarquia não tenha qualquer responsabilidade no licenciamento de tais empresas, não controle o tráfego marítimo e nem sequer tenha autoridade para proibir o que quer que seja nesta matéria.

7 – Se a câmara não faz obra, protesta com veemência recordando só há dinheiro para Volvos.

8 – Se a Câmara faz muitas obras, protesta com veemência, garantindo que são obras desnecessárias, assim como o Volvo do autarca.

9 – Se for asfaltada uma qualquer rua da cidade, insinua de imediato que só é feita aquela obra porque o Volvo do autarca passa muito por ali.

10 – Se arranjarem uma qualquer avenida, apressa-te a garantir que o que deviam fazer era arranjar a rua do lado, mas não o fazem porque o Volvo do autarca não passa por lá.

12 – Repete até caíres para o lado que a tua cidade tem o mais alto IMI do país, mesmo que tal realidade ocorra em mais 32 câmaras municipais, na maior parte dos casos por imposição legal. Acrescenta que deve ser para os autarcas andarem de Volvo e comprarem mais Volvos.

13 – Argumenta que o IMI só não baixa porque os autarcas não querem. Não precisas referir que até agora nunca nenhum governo se quis comprometer, preto no branco, que a Câmara da tua cidade pode baixar o IMI porque sabem que há um quadro legal que a impede de baixar o imposto e, na verdade, preferem deixar os autarcas andarem de Volvo, mas arder em lume brando.

Cumpriste todos estes passos?

Serás um profissional de sucesso no protesto contra a tua autarquia e podes começar a pensar em prestar serviços noutras cidades.

Talvez até consigas comprar um Volvo…

Nota 1– A Volvo não patrocina este texto.

Nota 2 – Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

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Uber, o novo inimigo da classe operária

A Uber, a julgar pelo que se vai lendo aqui e acolá, é o novo inimigo da classe operária.

A luta dos taxistas e a forma como a conduziram há-se ser um case study de como conduzir um processo reivindicativo, ter razão — melhor, ter mais do que razão — e perdê-la em ações de violência e boçalidade sem paralelo. O pior é que na classe dos taxistas será maioritária a gente séria e educada que, seguramente, não se revê no que aconteceu ontem. Porém, meia dúzia de bestas deram cabo de tudo, pioraram ainda mais a imagem de uma classe profissional que tem de se relacionar diariamente com o público e hipotecaram todas as possibilidades de, nas próximas décadas, recuperarem qualquer centelha de confiança.

Há que reconhecer que era difícil fazer pior: ter toda a razão e continuar a tê-la, mas criar no público a perceção de que não se tem razão nenhuma.

A luta dos taxistas é justa, mas é injusto não reconhecer que é um setor que parou no tempo, muito por culpa das associações patronais, mas também por gente desqualificada, que não será a maioria, que vive com a ideia de que terá sempre o monopólio do transporte de passageiros em viatura ligeira.

A Uber e restantes plataformas têm de ser reguladas, têm de ter as mesmas obrigações do que os taxistas. Porém, pensar que é possível impedi-las de existir é como pensar que se pode parar um furacão com as mãos.

Mais estranha é a quase conversão da Uber em principal inimigo da classe operária portuguesa e a defesa, praticamente acrítica, que alguns fazem, dos taxistas.

É preciso equilibrar os pratos da balança.

Se a Uber é, de facto, uma ameaça, na forma em que funciona hoje, à existência do setor do táxi, agindo num quadro de completa e inaceitável desregulação, também é verdade que os taxistas sempre recusaram agir num quadro mais rigoroso de comportamento a bordo das suas viaturas e sem que se note que tenham um código de conduta ou que as suas associações se queiram constituir como poderes reguladores da qualidade do serviço prestado.

Exige-se mais equilíbrio no tratamento desta questão, nomeadamente na procura de soluções que favoreçam o futuro do setor, criando regras de conduta e funcionamento mais rigorosas que permitam recuperar a confiança perdida nos taxistas. Ainda que não passe de um fait diver, a verdade é que o episódio do taxista que diz, para as câmaras de televisão, que as leis são para ser violadas, tal como as meninas virgens, fez mais pelo desprestígio da classe do que mil taxistas a acelerar loucamente pela Avenida da República.

Não deveria ser possível defender a justeza da posição dos taxistas e esquecer este tipo de episódios ou o ataque, praticamente no limiar do linchamento do motorista — e isso, sim, mais importante — a uma viatura da Uber.

Por mim, continuarei a andar de táxi sempre que precise.

Mas muito mais desconfiado…

E não, a Uber não é novo inimigo da classe operária.

 

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economia, Política

O maior sucesso do capitalismo

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O maior sucesso do capitalismo foi conseguir criar uma enorme massa de pobres que nem sabem que o são e se empenham em defender os ricos, provavelmente porque acham que também um dia o poderão ser.

A reflexão — pouco original, é certo — vem a propósito da recente onda de indignação com a ideia de taxar suplementarmente patrimónios imobiliários superiores a um milhão de euros, valor elevadíssimo se tivermos em consideração que o Valor Patrimonial Tributário dos imóveis, sobre o qual incidirá uma futura taxa, é algo muito diferente do valor de mercado. Mas isto, claro, é um factor que pouco interessa nas acaloradas discussões que, como agora se diz. “incendeiam” as redes sociais, esse etéreo espaço onde tudo acontece e nada se resolve e onde, frequentemente, se classifica detentores de patrimónios avultados simplesmente como “classe média”. Nesse caso, onde me situarei eu?

Claro que é naturalmente necessário ponderar se é apenas o património imobiliário que deverá ser taxado acima destes valores ou se será mais justo que a este património se acrescente também os valores mobiliários, como defende, corretamente, o PCP.

A indignação de quem é pobre, e se acha membro de uma indefinida classe média, com a ideia de taxar quem tem património avultado, solução agora em estudo no governo PS, apoiado pelo PCP e pelo BE, ao invés da solução praticada pelo PSD e CDS de reduzir salários, retirar subsídios de natal e de férias, reduzir pensões, limitar prestações sociais imprescindíveis à sobrevivência, aumentar preços dos serviços públicos de saúde, aumentar o IVA, que afecta tudo e todos, não é, de todo, surpreendente. É apenas mais uma manifestação desse grande sucesso do capitalismo e dos meios que o servem na capacidade de enganar os que mais dificuldades têm.

Colocada a questão com a maior simplicidade possível, estamos perante gente que prefere perder parte do salário e prestações sociais essenciais à sua sobrevivência do que ver detentores de avultados patrimónios, dos quais se retira rendimentos avultados, taxados com maior justiça fiscal. Ou seja, quem mais pode, mais paga, ao contrário do que aconteceu no Governo Passos/Portas, no qual quem menos podia, mais pagou.

Crer que aqueles que possuem património imobiliário superior a um milhão de euros são, por regra, a classe média nacional é uma ideia que não cola com a realidade portuguesa. A classe média nacional é composta por quem pagam com enorme esforço, um empréstimo ao banco durante 25 anos para comprar um T3 de 100 ou 200 mil euros (e esta já é uma fasquia elevada) e ainda sofre mais quatro ou cinco para comprar um carro ligeiro.

Perante a discussão que se gerou em torno da ideia de taxar património imobiliário e a indignação que a ideia gerou em alguns setores de remediados, há que reconhecer que é um sucesso tremendo do capitalismo ter conseguido pôr pobres a defender ricos…

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Setúbal

A Baixa de Setúbal está deserta…

Nunca há nada em Setúbal, a baixa está deserta, não há segurança, nunca há nada para fazer na cidade, isto é um atraso de vida, tenho medo de sair à noite, nada do que se faz presta. A Praça do Bocage até mete medo, a Rua dos Ourives é de fugir, do Largo da Misericórdia nem se fala. Já não há montras para ir ver à noite. Um deserto…

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Ala dos Namorados na Casa da Baía, no sábado, dia 17 de setembro

 

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Orquestra Metropolitana de Lisboa, no Forum Municipal Luisa Todi, onde, em quatro dias, apresentou todas as sinfonias de Beethoven

 

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Animação da baixa, durante as comemorações bocageanas

 

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Homenagem à Fadista Piedade Fernandes, na Praça do Bocage, no sábado, dia 17 de setembro

Fotos CMS

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Setúbal

Monumento à desonestidade política

Sem TítuloO grupo parlamentar do CDS-PP respondeu a uma carta de um setubalense que se tem manifestado contra o alargamento do estacionamento tarifado na cidade de Setúbal proposto pela autarquia. O texto da carta foi partilhado pelo próprio num conhecido grupo do Facebook, o que nos permite perceber que a resposta dada ao munícipe é, toda ela, um refinado e falacioso exercício de oportunismo e hipocrisia.

Recorda o CDS-PP que até é a favor do estacionamento tarifado, mas só no centro da cidade, embora mais à frente se perceba que não é bem assim. O diabo está nos detalhes…

Não é de estranhar que seja a favor. Afinal foi o parceiro de coligação do CDS-PP na câmara Municipal, o PSD, que, com o PS, introduziu, há 22 anos, a obrigatoriedade de pagar pelo estacionamento em Setúbal.

Mas adiante…

O que é verdadeiramente interessante na resposta é o parágrafo respeitante ao estacionamento tarifado em novas zonas na cidade. Escreve um funcionário do grupo parlamentar do CDS-PP, mandatado pelo líder do grupo, o deputado Nuno Magalhães, que, por acaso, até foi eleito na Assembleia Municipal de Setúbal: “Tratando-se de bairros da cidade com mais de cinquenta anos, com estacionamento privativo muito diminuto e em que devem ser salvaguardados lugares para os moradores tendencialmente gratuitos para estes moradores (principalmente para a 1ª viatura), deveremos continuar a pugnar para que a câmara não leve avante a sua intenção.”

Lá está. São os detalhes que tramam tudo.

Aqui, o detalhe é a singela palavra “tendencialmente” que, no passado, já foi usada pelos partidos de direita para retirar da Constituição da República Portuguesa o direito à prestação gratuita de cuidados de saúde no Sistema Nacional de Saúde. A CRP, antes de 1989, defendia no seu artigo 36º que “o direito à protecção da saúde é realizado pela criação de um serviço nacional de saúde universal, geral e gratuito”. A partir de 1989, com a ajuda do CDS-PP, o texto mudou. A CRP passou a determinar que o direito à protecção da saúde seria realizado “através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito“. E assim se abriu a porta à criação de taxas moderadoras, cujos valores atingiram, como é sabido, valores máximos no último governo em que o CDS-PP participou.

A resposta do CDS-PP é, pois, mais um gato escondido com o rabo de fora. Por um lado, garantem ser contra o estacionamento tarifado nas zonas residenciais, mas sempre vão escrevendo, para deixar ampla liberdade de escolha para futuras posições, que “devem ser salvaguardados lugares para os moradores tendencialmente gratuitos para (principalmente para a 1ª viatura)”  pelo que o CDS-PP deverá “continuar a pugnar para que a câmara não leve avante a sua intenção”.

Há que reconhecer que não é fácil escrever algo tão contraditório e falacioso. Por um lado, o partido é contra — o CDS deverá “continuar a pugnar para que a câmara não leve avante a sua intenção” — mas por outro assume que até se pode vir a cobrar o estacionamento aos moradores, porque este apenas deve ser tendencialmente gratuito, ou seja, também pode ser pago. E acrescentam algo ainda mais interessante: é que esse estacionamento só deve ser tendencialmente (“principalmente“, como está no texto) gratuito para a primeira viatura, abrindo assim a porta à cobrança pelas restantes viaturas registadas na mesma habitação.

A falácia é óbvia e obscena. Mas, na verdade, não poderia o CDS-PP defender outra coisa, pois sabe que há câmaras municipais onde partilha o poder ou onde já exerceu a presidência da Câmara em que existem sistemas que cobram o estacionamento em várias zonas, nomeadamente zonas residenciais.

Melhor teria feito o CDS-PP se tivesse guardado tal carta na gaveta. Ficamos assim a saber que são contra, mas até acham que tendencialmente deve ser pago o estacionamento, excepto para a primeira viatura.

Se isto não é desonestidade…

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Política

Imprensa de referência?

Captura de Ecrã (17)É na linguagem que se combatem as primeiras batalhas. O “Expresso” sabe-o muito bem. Nota-se isso com toda a clareza na perpetuação da utilização do termo “geringonça” para denominar o atual governo. A SIC, do mesmo universo editorial/empresarial adotou também o termo e utiliza-o, com a naturalidade de quem bebe água, nos seus serviços noticiosos.

O título de hoje na edição online do “Expresso” mostra que o jornal, a que chamam de referência, tomou, definitivamente e com toda a clareza, partido. Quando titula “Como a esquerda está a impor a agenda fraturante“, o “Expresso” — que sempre omitiu nos últimos anos a palavra “direita” quando se referiu às políticas do Governo de Passos — quer agora, por via da linguagem, colar às propostas dos partidos que apoiam no parlamento o Governo, e não inocentemente, a palavra “fraturante” como indicativo de discordância profunda da sociedade portuguesa em relação a estas questões.

Afirmar que se está a “impor” uma agenda é outro truque baixo. As propostas a debater são apresentadas por partidos com legitimidade eleitoral e parlamentar para o fazer num quadro democrático e, por isso, não se pode dizer que são impostas. Resultam sim do apoio apoio parlamentar, neste sistema representativo em que vivemos, que obtiverem.

Na verdade, não é de admirar que o jornal que sempre serviu a direita portuguesa utilize estes truque baixos. Assim como não foi motivo de admiração que nunca tivesse classificado as políticas do governo de Passos como fraturantes.

E, é inegável: essas sim, foram fraturantes.

Fraturantes nos milhares de trabalhadores que mandaram para o desemprego; fraturantes nos milhares de portugueses que enviaram para a emigração; fraturantes quando cortaram salários, subsídios de férias e de natal a funcionários públicos; fraturantes quando impuseram horários de 40 horas semanais na função pública; fraturantes quando acabaram com feriados consolidados de grande importância simbólica; fraturantes quando retiraram complementos de reforma dados a trabalhadores para os convencer a reformarem-se antecipadamente. .

Para o “Expresso” nada disto foi fraturante. Já o aborto, problema resolvido há anos, é uma causa fraturante. Para o “Expresso”, fraturante quer, aparentemente, dizer que são coisas sagradas (para a direita portuguesa) em que não se deve mexer. Pena é que não considerem sagradas as garantias de segurança de um trabalhador no que diz respeito ao seu salário e ao seu horário de trabalho, apenas para dar dois exemplos.

De futuro, quando alguém classificar o “Expresso”, ou todo o universo empresarial de Balsemão, como imprensa de referência, é melhor morder a língua duas… não, três vezes.

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Setúbal

Aldrabices

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Na troca de argumentos partidários utiliza-se muitas vezes a acusação de falta de seriedade política, embora nem sempre se entenda o que se quer dizer com tal denúncia. Há, porém, casos em que a falta de seriedade, e não apenas a política, é tão evidente que quase não é necessária qualquer explicação adicional.

Um desses casos ocorreu este fim de semana, em pleno facebook, com o PSD setubalense, abusando da distração de muitos e da nossa boa fé, a garantir que teria sido uma petição na internet por ele lançada que tinha assegurado a retirada da ordem de trabalhos da última reunião da assembleia municipal setubalense de uma proposta de lançamento de um concurso público para o estacionamento tarifado na cidade.

Rufaram tambores e ecoaram trombetas porque que o PSD teria conseguido, com uma petição online sem qualquer credibilidade quanto à validade das suas assinaturas, que o concurso fosse anulado e que nem sequer se pensasse mais na proposta de concurso público.

É lamentável que se lance para a praça pública tão grande “aldrabice”.

Claro que não foi a petição a responsável pela retirada da proposta do concurso público do estacionamento tarifado; claro que não foi o PSD que o conseguiu. Quem apresentou a sugestão, por todos aprovada, de retirada do concurso público da ordem de trabalhos da última assembleia municipal realizada no dia 29 de abril foi o PCP e o PS quase em simultâneo. Por essa razão, e apenas por essa, não se deliberou nesta reunião lançar o referido concurso público enquanto estivesse a decorrer o período de discussão pública do regulamento municipal de estacionamento de Setúbal, período em que todos os cidadãos podem propor alterações ao documento.
Quem disser o contrário está a aldrabar, embora a isso, à meia verdade que se converte rapidamente em mentira inteira, tenhamos sido de há muito habituados por gente para quem a seriedade política não passa apenas de uma inconveniência que é preciso contornar.

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Política, Setúbal

Pagar ou não pagar o estacionamento em Setúbal, eis a questão…

Parquimetro

A discussão sobre o estacionamento pago está animada em Setúbal. Alguns querem fazer crer que apenas aqui se paga estacionamento e que são os comunistas os maus da fita. O costume. Porém, era bom que olhassem para outras realidades, como a que é descrita hoje no Diário de Notícias. A Câmara de Lisboa, que foi presidida por António Costa e continua nas mãos do PS, vai tarifar mais 30 mil — repito, 30 mil estacionamentos — em toda a cidade, incluindo, naturalmente, zonas residenciais. Só os oportunistas e os sedentos de protagonismo querem fazer de Setúbal um caso de excepção, recusando entender que o estacionamento pago é a melhor forma de regular o estacionamento nas cidades e libertar espaços de estacionamento para os moradores, instituindo rotatividade naqueles espaços, de forma a que não sejam ocupados sempre pelos mesmos todos os dias. Em Lisboa, os comunistas apoiam a decisão da Câmara. E o PSD também, mostrando total sentido de responsabilidade.

E em Setúbal, como foi?

O PS e o PSD, sempre entretidos em crochets políticos, estão a tentar denegrir a solução proposta, confundindo a extensão do estacionamento a zonas residenciais com a taxação do parqueamento em todas as ruas destas zonas, quando do que se trata, e eles sabem-no, é apenas do estacionamento nas vias mais sujeitas à procura de estacionamento. Além disso, os moradores não pagam estacionamento nas suas suas zonas de residência.

Como sempre, vale tudo para confundir. Até afirmar, como fez um vereador do PS citado pelo “Setúbal na Rede”, que os moradores teriam de pagar um determinado valor mensal pelo cartão de morador que garantiria o estacionamento gratuito nas respetivas zonas de residência, quando, na verdade, esse valor é anual.

O mais curioso é que a solução de taxar o estacionamento na cidade de Setúbal foi imposta por uma câmara governada pelo PS em 1994. Numa das reuniões públicas de câmara em que se debateu o assunto, o presidente de então, Mata Cáceres, disse que a “continuidade da instalação [de parquímetros] irá ser progressiva futuramente tendo em conta outros lugares onde eventualmente se venha a verificar a necessidade da implementação de mais equipamento desta natureza, de acordo com o desenvolvimento da cidade”. Ou seja, já em Maio de 1992, quando Mata Cáceres proferiu estas declarações em reunião de Câmara, o PS defendia um maior alargamento do estacionamento tarifado na cidade, provavelmente também em zonas residenciais, estacionamento que, agora, em mais uma manifestação do habitual oportunismo político, vem contestar.

(a talhe de foice, vale a pena recordar que, em 1992 o PCP não foi contra o estacionamento tarifado, defendendo que deveria ser una empresa municipal a gerir o sistema)

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Política

A editorialização fotográfica do “Expresso”

É desnecessário elaborar teoricamente sobre a edição fotográfica dos últimos tempos no Expresso Online. As imagens falam, de facto, por si. Nota-se a vontade permanente de hostilizar, não no texto, mas sim pelas imagens, os protagonistas do novo governo, que surgem, invariavelmente em estranhas poses, com caras ridículas, no que revela uma criteriosa escolha destinada a criar a ideia de que os novos governantes são gente pouco aconselhável. O “Expresso”, por muitos considerado jornal de referência, é, de facto, uma referência, mas sim da arte manipulatória e do frete. Vejam-se as imagens que vão em baixo, recolhidas, ao longo das últimas semanas e compare-se com as que vão no fim e percebe-se melhor a intencionalidade dos editores fotográficos do jornal. E, sobretudo, quem fica sempre bem no retrato. Por que será? Continuar a ler

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