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Refugiados, Europa, EUA, NATO, Teoria do Caos

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OS REFUGIADOS E A UNIÃO EUROPEIA

A crise desencadeada na Europa pelas sucessivas vagas de refugiados, provocada pelo caos político e económico que foi instalado no norte de África, na África subsahariana e no Médio Oriente é gravíssima. É um drama humanitário brutal, com uma dimensão inusitada, de enormes consequências ainda não totalmente mensuráveis.

Todos os dias notícias e imagens registam episódios alarmantes desse exodo que parece não ter fim. A Europa, a União Europeia começou por não se aperceber da real dimensão da crise dos refugiados. Com o aumento do afluxo diário de homens , mulheres e crianças, com a evidência dos perigos e das mortes provocadas pelas precárias condições que enfrentam os que fogem às guerras e à desordem instalada pela guerra nos seus países de origem, a coesão e solidariedade europeias estalaram o verniz que escondia o que, de facto, não existia na Europa Connosco já bem vísivel nas políticas de austeridade impostas pela Alemanha por interposta Comissão Europeia e suas extensões. Julgavam mal e, vamos dar-lhes o benefício da dúvida, ingenuamente os europeístas mais convictos que os países da UE partilhariam auas responsabilidades a que a pertença ao espaço comunitário automaticamente obrigaria. Toda a história, sobretudo a mais recente, demonstra que essa partilha de responsabilidades no espaço comunitário é uma quase ficção, digna de romances policiais. As disputas económico-financeiras entre os países comunitários, nos mais diversos níveis, são o palco onde essa solidariedade é traída e assassinada com requintes de tragédias shakespereanas.

Em relação à vaga de refugiados acabou por se estabelecer um regime de quotas que só abrange 66 mil desses refugiados, adiando-se para um futuro próximo o destino de outros tantos que, teoricamente serão sujeitos às mesmas regras de proporcionalidade. A aprovação dessa medida vinculativa para os 28 ignorou a oposição às quotas propostas por Bruxelas dos que votaram contra: Eslováquia, Roménia, República Checa e Hungria, a Finlândia absteve-se. No passo seguinte Robert Fisco, primeiro-ministro eslovaco, disse logo que não aceita qualquer imposição da UE relativamente ao acolhimento de refugiados e que irá violar as regras europeias. Disse o que outros pensam e irão certamente fazer, apesar das ameaças, muito pouco diplomáticas do ministro do Interior alemão de cortar fundos comunitários aos países que não acolhessem refugiados. Sanção aos que recusassem aceitar os fugitivos, ao arrepio da súbita generosidade de Ângela Merkel, que abre o coração aos refugiados com a mesma facilidade com que o fechou a cadeado aos gregos. Mistérios pouco misteriosos para quem estiver atento às declarações da confederação patronal germânica. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Órban nunca escondeu ou disfarçou a sua convicção que os refugiados são uma ameaça para a Europa e sempre agiu em conformidade. O partido de Órban integra o Partido Popular Europeu, a que pertencem a CDU de Angela Merkel, o PSD e o CDS, eles que se entendam como se têm entendido em relação às políticas de austeridade. Os já referidos europeístas gostariam que dentro do PPE se demarcassem os campos em relação a essa questão. Um modo de salvar a face democrática na defesa dos chamados valores da civilização ocidental. Um processo também de distrair o mundo sobre as reais razões que provocaram esta crise dos refugiados, de não assumir as responsabilidades sobre o desencadear desta crise, de ocultar as políticas que conduziram a esta crise, em que a Europa comunitária é sujeito activo e passivo.

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A TEORIA DO CAOS

Não é de estranhar que no meio da lava noticiosa que se derrama sobre o mundo, pouco ou mesmo nada se refira sobre o que provocou esta hetacombe. Mesmo as notícias da actualidade sobre a Síria, um dos maiores contribuintes para a onda de fugitivos, mascaram a realidade. Se desde o principio o objectivo de derrubar Assad, em nome dos direitos humanos e da democracia, era de uma hipocrisia extrema e escondia o verdadeiro objectivo de os EUA redesenharem o mapa do Médio Oriente para o submeterem totalmente aos seus interesses geo-estratégicos e conómicos. Assad é um ditador, a Síria não é uma democracia como o Ocidente a entende, mas Assad é, se comparado com aliados árabes dos EUA, quase um democrata. Por esse caminho, estamos conversados. A guerra civil instalada na Síria pela mão dos EUA, NATO e seus aliados árabes e turcos foi montada com exércitos mercenários que rapidamente se passaram com armas e bagagens para a Al-Qaeda e para o Estado Islâmico. Nos últimos dias os soldados treinados, financiados e municiados pelos EUA, para engrossarem as fileiras de um suposto exército de libertação da Síria afecto à oposição “moderada” ao regime de Assad, mal passaram a fronteira turca-síria foram, versão oficial estadodinense “capturados” pela frente Al-Nostra, a Al-Qaeda síria, o que é contrariado por uma mensagem no twitter de um homem forte dessa Frente, Abou Fahd al-Tunis: “o novo grupo da Divisão 30 que entrou na Síria ontem (dia 21) emtregou todas as suas armas à Frente Al-Nostra. Entregaram uma grande quantidade de munições, armas e pick-ups artilhadas.” Todos os antecedentes tornam a versão oficial rísivel e dão razão a Putin e às suas propostas de combate ao Estado Islâmico, a que os EUA fazem orelhas moucas.

Esse é mais um episódio de uma estratégia que vem de longe e que teve os seus últimos desenvolvimentos no Afeganistão, Balcãs, Iraque, Líbia, Síria, Iemen, Ucrania, para referir os teatros de guerra mais sangrentos. Estratégia que se desenhou há dezenas de anos. As estratégias são desenhadas a longo prazo os desnvolvimentos táticos é que são diversos. É a Teoria do Caos imposta pelos neo-conservadores, os neo-cons, que se instalaram no poder nos anos Reagan e Georges W. Bush. Tem sido, com geometrias variáveis, posta em prática pelos sucessivos inquilinos da Casa Branca, uma demonstração das virtualidades da bipolarização, da transmissão de poderes entre os partidos ditos do arco governativo como se pode apreciar em todo o mundo.

A Teoria do Caos que tem por mentor intelectual Leo Strauss. Foi iniciada nos anos 90 a seguir ao desmembramento da União Soviética., a sua teorização é muito anterior e surge em paralelo com a entrada em cena dos neoscons. O acento tónico é colocado na política externa dos EUA para manter a supremacia mundial como superpotência. Vem de mais longe, já em 1979 Irving Kristol, um intelectual e jornalista ex-trotskista, foi o primeiro a afirmar-se como neoconservador e explicou ao que vinha numa artigo com o sugestivo título “Confessions of a True, Self-Confessed ‘Neoconservative”, nas entrelinhas podia-se advinhar o que aí viria.

O grande teórico dessa política pós-moderna neoconservadora é Leo Straass que tem uma enorme influência nesse poderoso grupo da inteligentsia norte-americana. Encapota-se e é apresentado como um demoliberal, um defensor da democracia liberal. Uma leitura, mesmo rápida, do seu livro mais famoso e mais difundido, Direito Natural e História (Edições 70/2009), revela que ele considera que as massas não são capazes de aceitar a verdade, nem de ser livres e que entregar esses valores ao vulgo é quase como atirar pérolas a porcos. Que a condição natural humana não é a liberdade mas a subordinação, o serem conduzidos por políticos sábios. O direito natural é o direito das mentes superiores e esclarecidas governarem os inferiores, dos empreendedores sobre os empregados, mesmo dos maridos sobre as esposas. Leo Strauss, democrata? Com uma enviesada concepção de democracia. Mas não ficam por aqui os teoremas de Strauss. Como admirador de Maquiavel, vai além de Maquiavel. Os meios justificam os fins mas é imperioso o mais completo segredo para proteger as élites de possíveis dúvidas e/ou represálias. As mentiras são necessárias sempre que os resultados as justifiquem. Claro que Leo Strauss não nega as mentiras que explicaram a invasão do Iraque. Achou correcto que a administração Bush as utilizasse para mudar o regime iraquiano. Christopher Hitchens, um seguidor de Strauss, na primeira linha dos defensores da invasão do Iraque, escreveu um artigo com um título que não deixa lugar a dúvidas  Machiavelli in Mesopotamia. Leo Strauss um demoliberal? Uma maquiavélica mentira.

É nesse caldo de cultura, nessa escola intelectual de Leo Strauss, que se formam os neoconservadores e parte substancial da administração norte americana, democrata ou republicana. É aí que se encontram as raízes das teorias de Fukuyama, O Fim da História e o Último Homem (Gradiva/1999) Um dos seus mais destacdos representantes é Paul Wolfowitz, embaixador dos EUA na Indonésia na altura da invasão de Timor que aprovou os massacres em Dili, poderoso Secretário da Defesa do governo de Georfes W. Bush, mais tarde governador do Banco Mundial. Um defensor acérrimo da supremacia militar norte-americana, opõe-se decidamente a todas as potências rivais, nomeadamente a aliada União Europeia.

Aqui entra Teoria do Caos. Em que é que a União Europeia pode comstituir um perigo para a supremacia dos EUA? Firme aliado e seguidor das políticas atlantistas, a UE inventa uma moeda, o euro, que vai concorrer com o dolar. Faça-se uma rápida e sintética revisão histórica. No fim da Segunda Guerra Mundial , na  Conferência de Bretton-Woods, julho de 1944, foi imposto o padrão dolar-ouro. Nessa conferência foram criados o  Banco Mundial, o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o GATT( Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras). Os objectivos eram estimular o desenvolvimento capitalista, bem como a reconstrução e estabilidade económica global. Nos anos 60 a economia dos EUA tem sinais de crise. A Guerra Fria, o desenvolvimento económico de outros países, nomeadamente do Japão e da Alemanha, o crescente endividamento começam a preocupar a administração dos EUA. Sinais que se foram agravando ao longo da década. Nos finais dos anos 60, a libra esterlina, ainda usada, embora residualmente, como moeda nas trocas internacionais sofre um forte ataque especulativo, deprecia-se e desaparece de cena. Estão criadas todas as condições para Richard Nixon, presidente dos Estados Unidos em 15 de agosto de 1971, acabar com a paridade dólar-ouro, decisão ratificada, oytra coisa não seria de esperar, pelo FMI em 1973. Dali por diante, a moeda norte-americana seria apenas uma “fiat currency” ou seja, o ouro não seria mais o garante do valor do dólar, seria , foi substituído pela palavra do governo americano, respaldada no seu tesouro nacional. Essa manobra possibilitou uma outra de ordem contabilistica que, de uma assentada, reduziu em 35% a dívida dos EUA. O dolar, depois os petrodolares, estavam com o campo livre e aberto para todas as manobras financeiras, a maior das quais a de obrigarem indirectamente os países do mundo inteiro a financiarem o seu endividamento crescente, que atinge hoje números astronómicos: 60 biliões de dolares, um quarto da dívida mundial.

O euro surge como uma ameaça para o império do dolar. Ameaça agora agravada pelo progressivo abandono do dolar como moeda de troca no comércio internacional. Dos dois maiores pilares em que assenta a política de supremacia mundial dos EUA, o poder militar e a moeda, um está em risco, em rico muito sério de um dia vermos a nota verde com o valor das notas do jogo do monopólio.

Para continuar a manter essa supremacia mundial, Strauss e os seus seguidores neocons, estabelecem que a forma mais eficaz dos EUA defenderem os seus interesses, garantindo o acesso regular às matérias primas, à definição do seu preço de mercado e ao domínio dos mercados mundiais é pelo cerco a esses países ou blocos de países, instalando o caos nas suas fronteiras.

Wolfowitz, apurou essa teoria, defende que a defesa supremacia global norte-americana exige o controlo militar, político e económico sobre a União Europeia, para que esta não se torne uma potência capaz de rivalizar com os Estados Unidos. Um aliado para trazer pela trela. É pela mão de Wolfowitz que se tramam as invasões do Afeganistão e Iraque, sempre com a NATO implicada, com ou sem apoio legitimado pela ONU. Vale tudo mesmo as cenas patéticas de Colin Powell a ver se endrominava o Conselho de Segurança com mapas falsificados. Nada, nem nenhum vício lógico, trava essa gente. Depois dele todos os outros, de Condoleza Rice a John Kerry passando por Hilary Clinton, têm semeado o caos nos Balcãs, na Somália, na Líbia, no Mali, na Nigéria, na Síria, no Iémen, na Ucrânia.

Quem ainda possa pensar que a Teoria do Caos de Strauss e a sua sucessora delineada por Wolfowitz, são delírios conspirativos na base de um quadro mental que só consegue olhar com desconfiança para os beneméritos democratas norteamericanos, devia por um minuto desligar a cabeça para a reactivar emergindo da ganga propagandistica amestrada e difundida pelas inúmeras agências dos EUA, o seu braço armado NATO, os seus aliados que prestam um inestimável serviço aos desígnios estratégicos do império.

A hetacombe que desaba na Europa, com toda a tragédia humana que provoca, o caos que se vive na Europa que está e atravessa as suas fronteiras associado a um perigosíssimo recrusdecismento da xenofobia e do terrorismo nazi-fascista é real. Vê-se á vista desarmada e só quem é ignorante ou ingénuo ou se quer fazer passar por ignorante ou ingénuo é que não vê que os resultados beneficiam o complexo militar, político, económico e financeiro que domina o mundo sob as bandeiras dos Estados Unidos e da NATO.

A Teoria do Caos não é um mito. Existe, está escrita e teoricamente desenvolvida para quem a quiser ler. Alguns dos seus escaninhos mais tenebrosos até já foram parcialmente revelados em artigos publicados no New York Times e no Washington Post, na base de alguns documentos desclassificados. Uma conspiração secreta ameaça o mundo. Os sinais são cada vez mais evidentes.

Uma terceira guerra mundial está em marcha por interpostos países. Até o Papa Francisco já denunciou, na Semana Santa, que se está a viver uma Terceira Guerra Mundial em pedaços.

Não denunciar este estado de coisas, pensar que são delírios conspirativos, é caminhar num barranco de cegos. Ser cúmplice mesmo que com alma sangrando ao ver fotos de crianças mortas nesta fuga desesperada.

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A Europa Connosco em 7 pontos

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1. Angela Merkel e Wolfang  Schaulbe têm um número treinado, bem afinado conhecido há séculos. O do pide bom e do pide mau, com a experiência gestapo. Está em cartaz há vários anos na Europa Connosco. Torturam os povos europeus por interpostos governantes submissos. Sujeitam os recalcitrantes para tudo andar pelos carris das suas ordens.
2. Hollande, Renzi acreditam na primavera merkelliana. Opõem-se até cederem e cedem sempre. Na última representação do teatro de sombras que são as reuniões dos governantes europeus, ficaram muitos satisfeitos por evitar o grexit. A que custos para os gregos e para quê? Salvar o euro que não a Grécia. Remendar os buracos do pano de cena que oculta o palco onde, em sessões contínuas, está em cartaz a comédia-dramática Os Últimos Dias da Europa.
3. Pedro, o Super-Homem de plástico, teve uma ideia e salvou a Europa. Primeira nota, o Pedro também tem ideias, o que o deve deixar exausto, pior do que estar exposto a kriponita. Segunda nota ter ideias para ajudar ao saque e ao esbulho não honra ninguém, mesmo um Passos Coelho.
4.  Marisa Matias tinha a mão no tapete, mas não o puxou com a ilusão que o Syriza e o seu querido Tsipras conseguiriam que a sua (má) proposta fosse aceite pela Alemanha e seus submissos pares europeus. Nada melhor do que ter fé! Depois de Fátima há que acreditar em milagres mesmo contra todas as evidências! E agora, Marisa?
5. A mulher de Alexis Tsipras vai pedir o divórcio? Divorciado do povo grego e de todas as esperanças que andou a espalhar pela Europa já ele está. Merkel e Schaulbe estriparam-nas a sangue frio. Esquecem-se, Tsipras também, que há sempre alguém que resiste.
6. 6. Nas estratégias militares às vitórias de Pirro adicionou-se um novo paradigma: as derrotas de Pirro.
7. No horizonte da Europa anuncia-se um futuro radioso. Depois da derrota do III Reich, o triunfo do IV Reich. Em marcha a transferência efectiva de Bruxelas para Berlim. Os países que não se declararem aliados serão submetidos e transformados em protetorados. A Grécia foi o primeiro. Outros se seguirão. A Solução Final avança!

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Grécia, a morte anunciada

OXI

O que, de certo modo pelo andar dos acontecimentos, seria expectável aconteceu. O Syriza abandonou a sua fachada de esquerda que a conservadora e reaccionária Europa adjectiva de radical, para assumir a sua matriz social-democrata.

Depois de fazer um referendo em que os gregos disseram claramente NÃO, Tsipras e o Syriza, a maioria do Syriza, aceitaram tudo, quase integralmente tudo o que a troika exigia. Aumento do IVA, grandes cortes nas reformas, privatização dos transportes, dos portos e dos aeroportos, etc. Uma capitulação em toda a linha, submetendo-se a todas as medidas que dizia rejeitar, depois de ter sido eleito com um programa em que afirmava que nunca iria aceitar. No Parlamento grego faz um discurso vergonhoso, trocando os pés pelas mãos, numa releitura miserável do resultado do referendo. Votaram NÃO às propostas da troika, mas NÃO votaram a favor da saída do euro. Para não sairmos do euro, temos que aceitar as medidas contra as quais se votou no referendo. Para a miséria moral, a vigarice intelectual ser completa, faz uma pirueta e inventa uma nova treta “este acordo levará a um programa europeu. O FMI terá apenas papel de consultor técnico. A troika, como a conhecemos, chegou ao fim.”. Para o quadro das tretas, mentiras e mentirolas ficar completo orgulha-se de evitar o grexit e de se ir discutir pela primeira vez a sustentabilidade da dívida, quando todo o mundo sabe que a dívida grega é impagável

Com o que vai desabar novamente sobre a Grécia, sem que o problema estrutural da dívida seja resolvido, o país vai entrar nos cuidados paliativos, com a morte anunciada. Ficará para sempre a lição de dignidade do povo grego que, contra todas as miseráveis  e violentas chantagens, votou NÃO, uma lição de democracia, de luta contra os poderes dominantes! O povo não cedeu. Cedeu o governo e o partido em que o povo tinha confiado.

Para uma certa esquerda que embandeirou em arco com o Syriza, as esperanças que se iria mudar a face política da Europa esfumaram-se com o desabar do castelo de cartas do programa Syriza. Esperanças infundadas se tivessem olhado atentamente as práticas do governo de Tsipras que nada fez para adquirir força nas negociações, Se atentassem ao seu demissionismo que os fez não se dotar com as ferramentas mínimas que seriam uma base, mesmo frágil, para reverter a situação catastrófica em que a Grécia estava mergulhada. Ferramentas e meios que tinham quando assumiram o governo e que desprezaram por vício ideológico, como referimos aqui no blogue.

Para a direita e direitinhas, o grande gozo de terem quebrado o Syriza. Verem-no de braço dado com a direita e centro-direita grego, a Nova Democracia, o Pasok, o To Potami, além do Anel, com quem já estavam coligados. É a alegria do triunfo da Europa, afirmando-se como um espaço não democrático. Da exibição pública de uma Europa subordinada ao grande capital e aos seus interesses financeiros, especulativos.

O Syriza colocou a Grécia em estado de coma profundo, ligada à máquina. Um dia, não será muito longínquo, a máquina será desligada para mal do povo grego. Farfalharem esperanças numa nova política que nunca existiu por não terem dado um passo, um só passo firme nessa direcção. Uma política de muitas parras sem um bago de uva, para entretém das hostes de esquerda por esse mundo fora. Uma política que enganou sem absolvição o povo grego, comprometendo o seu futuro. A História não lhes perdoará a traição.

Para a esquerda no seu todo, da mais firme à mais vacilante, é uma derrota. Para uns, o Syriza anunciava uma grande vitória sobre a Europa de burocratas sem alma nem sentido político, guiados por falsos pragmatismos que os transformam em eunucos de guarda ao harém do grande capital. O que não aconteceu, nem aconteceria. Para outros o abrir de uma pequena brecha na cidadela política e ideológica da CEE, do BCE, do FMI, fazendo entrever uma vereda no beco sem saída em que está estacionado em estado agónico o mundo actual. O que poderia ter acontecido.

Estes seis meses de tropeções, ambiguidades, vacilações Syriza, as ilusões que borboletearam, demonstram a actualidade do Radicalismo Pequeno Burguês de Fachada Socialista, de Álvaro Cunhal. Impõem-se reler a sua Introdução de uma meridiana clareza na análise ideológica e política que faz da emergência desses grupos, nos seus aspectos positivos e negativos.

Para a esquerda, para as esquerdas, analisar, estudar e perceber as lições syrizas é trabalho urgente. A História também não lhes perdoará se não o fizerem.

PS. Por cá, os porcos refocilam no chiqueiro. Numa das linhas da frente um idiota contabilista que agora julga que o decorrer dos sucessos lhe dão razão. Publica um tweet de um amigo o aconselhava a mudar de opinião em relação à Grécia. O amigo é um tonto como ele. Ele não mudou, nunca mudaria, nem mudará. A noz de massa cinzenta que lhe ocupa o crânio não lhe dá hipótese. Para ele um tweet: Zé, li o teu tesxto a agradecer o pacote de austeridade ao Syriza. Continuas estúpido como sempre! Nem vale a pena recordar-te que a dívida grega é impagável A dívida grega como a portuguesa, são impagáveis! É a verdade, estúpido! Impagáveis e com as políticas do PSD/CDS/PS/SYRIZA/PASOK/NOVA DEMOCRACIA ou outros quejandos, a agravar a vida de portugueses e gregos! A economia nunca sairá da cepa torta! As tuas contas são uma merda! Tentas enganar o pagode! Nem para isso tens jeito! Se tivesses alguma vergonha e um minimo sentido de auto-crítica já tinhas deixado de debitar parvoidades! O Brassens é que te topa , a ti e aos teus parceiros de ginjeira! 

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OXI

Não! Não, os gregos não querem morrer de pé!

Querem viver de pé!

OXI

Grande lição de dignidade e de democracia que a Grécia deu a uma Europa pantanosa que vende honra, dignidade e princípios na mesa do orçamento, na contagem dos euros!

Em que um país, a Alemanha, o maior incumpridor de dívidas no século XX, que tem dívidas por saldar a vários países que saqueou, destruiu e roubou, dá ordens a uma Europa Connosco submissa e sem vergonha!

No dia seguinte ao OXI, não vamos fazer grandes divagações políticas, registe-se a perplexidade e a estupidez contumaz dos mangas-de-alpaca europeus. A Grécia, o povo grego resistiu a todas as miseráveis chantagens, ao aperto do garrote que durante uma semana aumentaram exponencialmente.

As declarações que se ouvem, alguns de tão engulhados ainda nem sequer abriram a boca, desnudam a abjecção que os corrompe como um vírus. Entre todos ouça-se com desprezo as declarações do periquito e da pinguim reunidos de emergência em Paris, enquanto Varoufakis sai de cena de pé e pelo seu pé.

Por cá, muitos dos nossos comentadores alinham com aquele contabilista anão que debita números e inanidades (um tal José Gomes Ferreira, quando escrevo este nome fica à beira da maior náusea em memória desse enorme intelectual, escritor e poeta de cujo nome ele se apropria, devia ser proibido de o usar com tal propositada coincidência!) e os nossos governantes, primeiro-ministro e vice primeiro-ministro, na primeira linha, iguais a si-próprios e ao “seu” Portugal

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,

 

linda vista para o mar,

 

Minho verde, Algarve de cal,

 

jerico rapando o espinhaço da terra,

 

surdo e miudinho,

 

moinho a braços com um vento

 

testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,

 

se fosses só o sal, o sol, o sul,

 

o ladino pardal,

 

o manso boi coloquial,

 

a rechinante sardinha,

 

a desancada varina,

 

o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,

 

a muda queixa amendoada

 

duns olhos pestanítidos,

 

se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,

 

o ferrugento cão asmático das praias,

 

o grilo engaiolado, a grila no lábio,

 

o calendário na parede, o emblema na lapela,

ó Portugal, se fosses só três sílabas

 

de plástico, que era mais barato!

 

                             Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,

 

rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,

 

não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,

 

galo que cante a cores na minha prateleira,

 

alvura arrendada para ó meu devaneio,

 

bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

 

 

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,

 

golpe até ao osso, fome sem entretém,

 

perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,

 

rocim engraxado,

 

feira cabisbaixa,

 

meu remorso,

 

meu remorso de todos nós…(*)

Não, basta! Não seremos feira cabisbaixa, nem Portugal será o nosso remorso!

Seremos tão gregos, quanto os gregos são portugueses!

(*) Ó Portugal se fosses só três sílabas, Alexandre O’Neil

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Uma bomba de relógio ameaça a europa e a democracia

heratfield É miserável o espectáculo das negociações entre a Grécia e a CEE, BCE e FMI, as reuniões do Eurogrupo e dos primeiros ministros. Uma comédia cínica em que a tragédia grega se consome. Um banquete mal encenado de abutres que em público se disfarçam de pelicanos, com a comunicação social domesticada a sustentá-los, de forma directa ou sinuosa. Nós, portugueses, somos enxovalhados e envergonhados pelas declarações da múmia paralítica que habita em Belém, do texugo Passos Coelho com as suas frases estereotipadas e fedorentas da assexuada pinguim Maria Luís Albuquerque (concorrer com a Merkel não é fácil!) a grasnar inanidades. Todos com a mesma contumácia com que aqui dentro mentem, cometem os maiores desaforos. Olham e lêem a realidade com os seus olhinhos infantis de bandido, a ver se a miséria que plantam, o ogre que alimentam, continuam à solta. Os últimos anos de roubos ao povo português, os rombos no erário público, a venda ao desbarato dos bens públicos, resultaram num enorme e rotundo fracasso. Um gigantesco e assustador monolítico avança a grande velocidade para Portugal, ameaçando-nos: a dívida já é 130% do PIB, há quatro anos era 95%! Os cofres voltaram a estar cheios, mas agora de passivos, de dívidas! A economia continua em coma! A dívida, o serviço de dívida continua imparável, foi empurrado para mais longe! É o caminho certo para o desastre! No horizonte, se não se mudar de política, o caminho de pedras dos gregos.

Cá como lá , a questão de fundo não é económico-financeira! É política! Olhe-se para a Grécia, os números já pouco interessam. Como já tem pouco interessa que a Grécia tenha chegado ao fundo do buraco onde está pela mão do PASOK e da Nova Democracia que, durante seis anos, aplicaram o receituário da troika que provocou a catástrofe actual. Nem interessa se as estratégias negociais da Grécia/Syriza foram incipientes e, por isso, as negociações se complicaram por erros de encenação e representação no teatro de sombras da diplomacia. Nem sequer o mais importante do que está em jogo são os milhões que a Grécia tem que receber para não entrar em bancarrota. Há argumentos que banzam pela falsidade, pela perfídia. Agora, sendo difícil continuar a apoiar as exigências das instituições, apareceu uma nova cáfila de comentadores e jornalistas que dizem compreender a inflexibilidade do FMI, por não ser um organismo político (esta é de morrer a rir!) e por o dinheiro do FMI ser duzentos países, pelo que deve ser seu guardião e defensor. O FMI enquanto ameaça a Grécia se não pagar dois mil milhões de euros, empresta mais 40 mil milhões, a somar a um primeiro empréstimo de 15 mil milhões, à Ucrânia já depois da Rada, o parlamento desse país dirigido por uma camarilha corrupta nazi-fascista, ter aprovado uma lei em que se decreta o não pagamento aos credores! A Ucrânia está e declara-se em bancarrota, o FMI, a CEE e os EUA continuam despreocupadamente a conceder-lhe créditos, sem uma carquilha de hesitação.

É falso que a dimensão da crise grega seja principalmente económica e financeira. A Grécia representa menos que 2% do PIB da CEE. Uma irrelevância! Discutir e encharcar os noticiários com danças e contradança dos números e das medidas propostas ée contrapropostas, é falsear a realidade. A crise grega é uma crise política! A humilhação que a matilha neoliberal quer infligir à Grécia é para que a Grécia se torne um exemplo de como a democracia só existe, só interessa e é aceite se cumprir as regras impostas pelos mandaretes do grande capital, a direita e seus aliados, os socialistas tipo Hollande ou Blair e outros, conjunturalmente mais moderados na via da infidelidade à sua matriz. A esquerda que, mesmo timidamente e sempre de cedência em cedência, ousou enfrentar esses padrões está condenada ao ostracismo. Um aviso aos eleitores dos outros países europeus, votem, votem sempre para fingir que a democracia é um valor universal da civilização ocidental. Se votarem num partido mais à esquerda ficam condenados a serem excluídos da nossa grande famíglia, que procura que o modelo eleitoral se vá apurando até alcançar a grande mistificação do modelo norte-americano em que se escolhe entre hilarys e bushes. Para essa gente o voto só é válido se legitimar o trânsito entre uns e outros, outros e uns que só se diferencia nos pormenores. A máfia democrática o que quer , humilhando o povo grego, a sua vontade expressa nas urnas é condicionar a liberdade de escolha, a liberdade de voto, violar a consciência cívica e política dos cidadãos. O que se quer impor é uma democracia fortemente vigiada.  A democracia do campo de concentração do grande capital, a ditadura dos mercados. Nada disto devia ser inesperado. Se o Syriza acreditava que a Europa iria aceitar a vontade do povo grego, que a solidariedade europeia era mais que uma declaração inscrita num papel é porque não estava preparado para enfrentar a Europa.

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Mudam as marionetas, não mudam os bonecreiros

Foi armado de slogans, atirar-se ao mar de tubarões que a Europa é com os seuss dirigentes marionetas dos grandes grupos financeiros. A crise grega, estes últimos cinco meses, contém grandes ensinamentos e deve provocar grandes preocupações na Esquerda. O Syriza, enredado nos seus ziguezagues ideológicos, está a perder uma oportunidade histórica com uma política de sucessivos recuos, sem ter cavado uma trincheira bem armada onde pudesse resistir e, eventualmente, contra-atacar. A derrota do Syriza, como se está a desenhar, é uma derrota para toda a esquerda, sem poupar nenhuma força de esquerda, das mais coerentes ás mais vacilantes. Do ponto de vista prático não se percebe como é que o Syriza assim que foi empossado não tomou medidas para evitar a fuga de capitais, chegaram aos mil milhões por dia. Como não nacionalizaram bancos, deixando-os em roda livre em conluio com o BCE. Conluio alargado ao Banco Central da Grécia. Sem ferramentas financeiras os 50 000 milhões que existiam no tesouro, nos bancos e nos depósitos, quando formaram goiverno, começaram a desaparecer, antes de mais para pagar a dívida que tonitruantemente diziam não ir pagar ou não pagar com as condições que até aí tinham sido impostas. O plano anti-austeridade do Syriza foi sendo ruidosamente roído pelas instituições, até se chegar a este beco. Deixaram que os recursos que inicialmente dispunham,  fossem pilhados pela União Europeia e seus comparsas, o BCE e o FMI. Enquanto isso, julgavam que a Europa se preocupava com o efeito da saída da Grécia no euro? Ou, do ponto de vista político, que a Europa se assusta com um possível reforço da Aurora Dourada, que Tsipras e Varoufakis a espaços, acenaram? Pensavam que as instituições se comoveriam com o voto do povo grego num programa que punha em causa, a austeridade, apesar de, em muitos pontos, ser evasivo? Depois de a banca privada, sobretudo a alemã e a francesa, ter ficado a salvo de possíveis incumprimentos gregos, para isso serviram os últimos empréstimos e não para apoiar a Grécia a sair do ciclo vicioso que a tritura à meia década, atingido esse desiderato, era previsível que a troika apertasse os cordões à bolsa, continuando a apertar o garrote com medidas de estruturais que são a pirataria mais descarada da economia, das infra estruturas, da já depauperada soberania dos países a bem dos mercados e do capital financeiro.

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A coluna vertebral é a mesma, os protagonistas é que mudam

O maior peso da direita mais radical até ao nazi-fascismo na Europa, mesmo no mundo, não é coisa que cause grande preocupação, tal como num passado ainda recente, aos corifeus europeus. O grande capital europeu e trasantlântico foram grandes suportes da subida de Hitler ao poder, enquanto a esquerda se dilacerava. A história tem sempre lições que não devem ser esquecidas. Para essa gente a vontade de um povo é zero se não estiver em consonância com o poder político a mando do capital financeiro. Não é surpreendente que o Syriza, tal como o Podemos, em Espanha, o Cinco Estrelas, em Itália e o mais que aparecer por essa Europa sempre que necessário, tenha sido acarinhado como uma alternativa à esquerda classificada de tradicional O que não deixa de ser surpreendente é que se descredibilize por culpa própria e seja descredibilizado de maneira tão rápida. Perderam utilidade para os mandatários e ideólogos do pensamento único. Num primeiro momento ainda devem ter calculado que, ao aliarem-se com um partido de direita xenófoba, o ANEL, acabariam por ser aceites. Nos primeiros meses, tudo parecia correr de feição, enquanto o Syriza ia deslocando as suas linhas vermelhas até à beira do abismo de perderem completamente a confiança do povo grego, sobretudo os seus votantes. Terá acreditado o Syriza que a troika se comoveria com a vontade do povo grego e que havia um ponto em que, depois de tantas cedências, aceitaria um programa completamente desfigurado,  mas que mesmo assim, não correspondia totalmente às suas exigências? Aparentemente foi o caminho que seguiram em cinco meses de negociações que lhes demonstravam o contrário. A inépcia política, os princípios cambaleantes, os radicalismos de pacotilha, são o caldo de cultura para, quando chega o momento das decisões estratégicas, seguir sempre o caminho da colaboração, muitas vezes já sem regras, que acaba por deixar os povos sem alternativa.

A Europa range os dentes ao referendo que é a tábua de salvação de um Syriza, de uma certa esquerda, perante um naufrágio anunciado. O referendo é o último recurso para voltarem a ter algum crédito. O problema é que podem ganhar o referendo mas se continuarem pela mesma via a derrota do povo grego está garantida.

A grande ilusão que os Syrizas espalham, que a Grécia demonstra de forma ineludível, é que quando um governo de esquerda chega ao poder tem que assumir medidas para ter poder real. Está condenado à derrota se não as assume. Poder real que só se consegue com o controle, ainda que parcial,  do poder económico, com o controle das alavancas essenciais do poder económico para terem poder político. Sem armas para controlar ou fortemente influenciar o complexo financeiro- industrial, o grande comércio, a grande agro-indústria, os meios de comunicaçâo social, que dominam o aparelho de Estado, ficsm de mãos atadas. Ao não assumir essa frente de luta o Syriza começou por ser saudado, nos grandes órgãos de comunicação social da Europa de da América do Norte, pelo seu realismo político. Os elogios ampliaram-se quando enfrentou internamente, dentro da sua coligação, as tendências de esquerda (Plataforma de Esquerda, Tendência Comunista, Ambientalistas) em nome de um acordo com a Europa, justificando cedências consideráveis, sem perceber, por inépcia política e débil preparação ideológica, que a Europa, tinha por único objectivo prolongar, continuar os programas de austeridade que tinham arrasado a Grécia, atirando-a para níveis de pobreza inimagináveis. O realismo político de Tsipras, o marxismo errático e libertário de Varoufakis, passeando essa nova política de reunião em reunião, de concessão em concessão, foram demonstrando que o que havia de facto de novo era o sem-gravatas, as fraldas da camisa de fora.

A inefável Europa Connosco, através da crise grega, está a enviar um sério aviso aos povos europeus. Deixem-se dessa treta da democracia, da vontade popular. Não podem votar em quem, mesmo que timidamente, belisque os interesses do grande capital. Não se tolerará nem sequer um Syriza! Em Portugal, para esses ditadores de fachada democrática, votar no Partido Comunista Português e seus aliados ou no Bloco de Esquerda só será aceite se a discriminação for garantida. Se forem encerrados num ghetto onde podem esbracejar, vociferar desde que não saíam do ghetto por o ghetto estar bem cercado. Gente avisada, a gente gira de o Livre/Tempo de Avançar preparou-se para a bênção da farsa democrática. Já fez a primeira comunhão. A comunhão solene seguir-se-á. Sabem que Bruxelas, atenta à voz de Berlim, recompensa os traidores.

A derrota do Syriza, por mais fortes e justas críticas que se lhe façam, será uma derrota para toda a Esquerda, não só na Europa mas no mundo. A Esquerda, sem ter que alinhar com o Syriza mas serm necessariamente excluir o Syriza, vive um momento histórico na luta contra a direita de fachada democrática e seus aliados do centro e de uma esquerda latrinária que de esquerda só tem o nome. A procura de alianças à esquerda, por mais difícil e dolorosa que seja, é necessária, sem quebras de princípios fundamentais, com o objectivo bem definido de enfrentar e derrotar a direita e seus comparsas. Tendo bem claro que o poder abstracto, não escrutinado do capital financeiro ocupa largos territórios, que a sua ditadura é bárbara e totalitária. Que já tem, nas linhas recuadas, o nazi-fascismo perfilado no horizonte. Cresce em toda a Europa. Já está no poder, de facto ou lateralmente, na Hungria, na Croácia, na Polónia, nos países bálticos, na Ucrânia. O ovo da serpente está a ser chocado. A luta vai ser áspera e muito dura. A esquerda tem que se realinhar. Será que a lição do Syriza será aprendida? As ilusões espalhadas por esse revisionismo de esquerda, pagam-se caro, e são pagas por toda a esquerda.

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Só não vê o perigo quem não quer ver

As ilustrações utilizadas, do grande artista que foi John Heartfield, devem ser olhadas com a devida distanciação histórica, apesar da sua actualidade

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Geral

Libido 4

Depois do acordo de princípio, alinhavado entre o governo grego e a CEE, das múltiplas declarações entre os protagonistas e o que os nossos (des) governantes foram comentando em desbragada linguagem, recomendamos um fim-de-semana alucinante à espera dos próximos capítulos desse teatro escabroso em que se procura esfolar a democracia.

WOLFANG E MARIA LUIS

“Campo de Concentração Austeridade”, “Loucos por Coligações ou São Bento e os 120 Dias de Sodoma”, ”Portugueses mais um esforço para continuarem a ser Esmifrados” e ”Contos para Adultos dos Tarados das Reformas Estruturais”, quatro filmes para maiores de dezoito anos, recomendados para um fim-de-semana acabrunhante, à espera da lista grega a ser entregue em Bruxelas.

Os dois primeiros são protagonizados por Maria Luís Albuquerque e Wolfang Schaulbe e Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, duas das duplas mais famosas no mundo da pornografia financeira, do cinismo político e da crueldade social. Os dois últimos são grandes orgias, celebrando os infortúnios da austeridade com os quatro protagonistas e narração de Cavaco mergulhado no fundo do Poço de Boliqueime, Opções adicionais discursos, entrevistas, declarações dos protagonistas, não recomendadas por questões de higiene mental.Coelho POrtas

Aviso muito importante: os filmes contém cenas sadomasoquistas que podem ferir a mais empedernida sensibilidade, mesmo dos mais experimentados.

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Geral

A Grécia, a CEE os seus mandantes, seus mandaretes e monicas lewinskis

A ESPERA DOS BÁRBAROS

— Que esperamos na ágora congregados?

 

Os bárbaros hão-de chegar hoje.

Porquê tanta inactividade no Senado?

Porque estão lé os Senadores e não legislam?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje.

Que leis irão fazer já os Senadores?

Os bárbaros quando vierem legislarão.

 

Porque se levantou tão cedo o nosso imperador,

e está sentado à maior porta da cidade

no seu trono, solene, de coroa?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje.

E o imperador espera para receber

o seu chefe. Até preparou

para lhe dar um pergaminho. Aí

escreveu-lhe muitos títulos e nomes.

 

— Porque os nossos dois cônsules e os pretores

saíram hoje com as suas togas vermelhas, as bordadas

 

porque levaram pulseiras com tantas ametistas,

e anéis com esmeraldas esplêndidas, brilhantes;

porque terão pegado hoje em báculos preciosos

com pratas e adornos de ouro extraordinariamente cinzelados?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje;

e tais coisas deslumbram os bárbaros.

 

– E porque não vêm os valiosos oradores como sempre

para fazerem os seus discursos, dizerem das suas coisas?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje;

e eles aborrecem-se com eloquências e orações políticas.

 

– Porque terá começado de repente este desassossego

e confusão. (Como se tornaram sérios os rostos.)

Porque se esvaziam rapidamente as ruas e as praças,

e todos regressam as suas casas muito pensativos?

 

Porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.

E chegaram alguns das fronteiras,

e disseram que já não há bárbaros.

 

E agora que vai ser de nós sem bárbaros.

Esta gente era alguma solução.

                                                               Konstandinos Kavafis

(tradução Joaquim Manuel Magalhães/Nikos Pratsinis)

ovelhas

 

Os cônsules, pretores que entre dois partidos sozinhos ou coligados, se sucediam na Grécia, impondo ao povo grego as soluções dos bárbaros foram democraticamente derrotados. As iníquas reformas estruturais, um saco de mentirolas que nada reestrutura e tudo destrói,  que garrotavam a economia, aumentavam a dívida, mantinham os privilégios da oligarquia, aprofundavam  a corrupção, atiravam cada vez mais gregos para a miséria e o desemprego, foram democraticamente derrotadas. Quem venceu pelo voto, propõe outro caminho para sair da crise, caminho dentro do quadro político, económico e social dos bárbaros. Nem isso os bárbaros aceitam. Inquietam-se porque não querem que seja sequer possível pensar que há outras saídas para a crise económica dos países que se debatem com dívidas que são impagáveis, consequência da crise mais geral da Europa tatuada no sistema que se arrasta agónico mas que se julga eterno, sem alternativas.

Governantes e seus sequazes querem ditar, impor as suas leis sobre os países devastados por uma estúpida cegueira que alimenta os oligopólios financeiros, promove uma crescente desigualdade social, instala um desastre económico e social de proporções inquietantes. Mentem manipulando as estatísticas para travestir o desastre. Mentem. mentindo sempre e, sem pudor,  fazem circular a mentira por uma comunicação social mercenária ao seu serviço.

Na CEE, os países que se sujeitaram às receitas das troikas, viram as suas dívidas em relação ao PIB aumentar exponencialmente entre 2007 e 2014. Irlanda 172%, Grécia 103%, Portugal 100%, Espanha 92%. A dívida mundial que em 2007 era de 57 biliões de dólares, em 2010 foi de 200 biliões de dólares, ultrapassando em muito o crescimento económico. Tendência que continua o seu caminho para o abismo, em benefício dos grandes grupos financeiros, entrincheirados nos chamados mercados. O chamado serviço da dívida, os juros, são incomportáveis. São esses os êxitos de uma política cega submetida à ganância usuária que não tem fronteiras ou qualquer ética.

Os governos deixaram de estar ao serviço dos seus povos, nem estão sequer dos seus eleitores. São correias de transmissão dos oligopólios financeiros que se subtraem a qualquer escrutínio democrático ou outro de qualquer tipo. Traçam um quadro legal que os suporta e legitima a ilegitimidade. A democracia é uma chatice, um entrave, um pauzinho nessa gigantesca engrenagem que nos atira barranco abaixo, com efeitos devastadores para a humanidade. Nada interessa a não ser o lucro de quem especula sem produzir nada. As pessoas são uma roda nessa engrenagem.

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Charlie Chaplin, TEMPOS MODERNOS

Quem não caminha ordeiramente nesse rebanho, quem se opõe, mesmo que mandatado e sufragado democraticamente, é considerado irresponsável, como disse o ogre Wolfang Schauble, ministro da economia da Alemanha, em relação à Grécia. As suas enormidades ecoam pela boca dos seus bufões, das suas monicas lewinskis por todos os cantos de uma Europa submissa aos diktats do bando de arruaceiros financeiros que rouba a tripa forra países e povos. Em Portugal, as nossas monicas lewinskis são mais fatelas, mais rascas com se tem visto e ouvido de Cavaco a Passos Coelho, de Portas a Pires de Lima mais a matilha dos seus sarnentos rafeiros de fila. Espumam raiva, ódio dos ecrãs televisivos às ondas radiofónicas. Quem se atreve a riscar, ainda que levemente, essa realidade em que nos enforcam é logo atacado e silenciado quanto baste por essa matilha de pensamento ulcerado.

Os burocratas europeus dogmáticos, leitores e intérpretes da cartilha neoliberal dizem que a realidade é assim mesmo! Será?

A realidade nunca é a realidade que nos querem impingir como Aragon tão bem descreveu. Há mais vida para lá desse biombo com que a querem esconder qualquer luz, mesmo bruxuleante, de esperança para a humanidade.

ISTO È UMA OVELHA,escultura de João Limpinho

 

AS REALIDADES

Era uma vez uma realidade

com as suas ovelhas de lã real

a filha do rei passou por ali

e as ovelhas baliam que linda ai que linda está

a re a re a realidade

Era uma vez noite de breu

e uma realidade que sofria de insónia

então chegava a fada madrinha

e placidamente levava-a pela mão

a re a re a realidade

No trono estava uma vez

um velho rei que muito se aborrecia

e pela noite perdia o seu manto

e por rainha puseram-lhe ao lado

a re a re a realidade

 

CODA: dade dade a reali

dade dade a realidade

A real a real

idade idade dá a reali

ali

a re a realidade

era uma vez a REALIDADE.

Aragon

(tradução António Cabrita)

ceci nést pas une pipe

pintura de Magritte

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Internacional

Eleições gregas: o regresso da política à Europa

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Escultura grega “Laocoonte e seus filhos” (I AC a DC)

A vitória do Syriza na Grécia impõe uma importante mudança nos termos do debate político europeu e constitui, para já, a esperança de que é possível mudar de rumo. Um caminho das pedras de resultados imperscrutáveis.

Porquê?

Porque, em primeiro lugar, rompe com o rotativismo partidário instalado na Grécia e em grande parte da União Europeia, que tem sido conivente com o radicalismo suicida do pacto de estabilidade (deficit e rácio da dívida), que empurrou os países do sul para a beira do caos social. Apesar de todas as pressões e chantagens a que foram sujeitos, os eleitores gregos optaram por um outro caminho.

Segundo. A vitória eleitoral do Syriza gera fortíssimas expetativas. Quão longe poderá ir o impacto das propostas de reestruturação da dívida dos novos governantes de Atenas? Tudo está em aberto neste momento, entre o que poderá continuar ser a inflexibilidade (alemã) das condições a que os gregos estão actualmente sujeitos e a ameaça de não pagamento que os helénicos podem activar.

Terceiro. A Grécia não pode estar sozinha. A já anunciada intenção de realizar uma conferência internacional sobre a dívida pública, deve propiciar uma concertação entre os países objecto de intervenções externas – Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha. Mas também de França e Itália, que se confrontam com pesados custos sociais resultantes das imposições do pacto de estabilidade. Países onde estão instalados governos socialistas, já sujeitos a fortes contestações e erosões eleitorais e que poderão seguir o destino dos seus colegas do PASOK.

O consenso centrista que permitiu a progressiva dominação da política e dos interesses dos povos pelos interesses financeiros e pela “mão invisível” dos mercados pode estar em causa. As eleições que se aproximam noutros países poderão vir a demonstrá-lo, com significativas alterações de equilíbrio interno. Casos de Espanha, com a afirmação do Podemos (à esquerda), e do Reino Unido e da França, com o UKIP e a Frente Nacional (à direita).

Porque ganhou o Syriza?

Os poderes dominantes da UE, sob determinante influencia alemã, decidiram castigar e humilhar os gregos, forçando o país a uma quebra do seu PIB na ordem dos 25% e a uma taxa oficial de desemprego a aproximar-se dos 30%, criando uma catástrofe social de proporções desconhecidas na Europa em tempo de paz.

Humilhadados e sem perspectivas, forçados à pobreza e à emigração, como também vemos e Portugal, os gregos responderam “dentro do sistema”, com o voto.

Foi a derrocada dos socialistas que mais propiciou a vitória do Syriza. Foi o governo PASOK quem chamou a troika e foram os socialistas quem, como segunda força da coligação com a ND agora derrotada, continuaram a suportar as politicas que tanto dano tem infligido aos gregos.

A coligação Syriza conseguiu constituir-se, sobretudo desde as eleições de 2012, como uma alternativa real e credível para protagonizar a governação. A que não terá sido alheia a sua afirmação clara de quererem ser os protagonistas. E o eleitorado grego, confrontado com a incompetência dos partidos centristas, parece tê-lo percebido.

É relevante o Syriza ter-se coligado com o Anel, um partido da Direita nacionalista? No actual contexto de emergência que se vive na Grécia, em que avulta o previsível embate com os poderes europeus sobre a questão da dívida, posição partilhada por ambos, não parece incompatível e demonstra um primado de pragmatismo que às vezes falta na Esquerda.

As diferenças políticas entre parceiros não deixarão de poder produzir algumas fricções, casos da imigração, relações entre o Estado e a Igreja ou política fiscal. Mas também se sabe o quanto o cheiro do poder cimenta as coisas. E claro que a desproporção de forças entre os parceiros e a fragmentação do espectro parlamentar funcionará a favor do Syriza.

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Geral

John McCain, O Estado Islâmico, O Comentário de um leitor

McCain

Li no meu “smartphone” um comentário de Manuel Rodrigues ao meu post “O Califado Islâmico e os Estados Unidos da América”. Queria-o aprovar para lhe responder. Por um lapso e pouca destreza nessas manipulações, são dois “botões” Aprovar/Spam,contíguos, carreguei em spamj. Apaguei, contra vontade, o comentário de Manuel Rodrigues. Tentei em vão recuperá-lo. Por outras actividades fui adiando a resposta que, hoje faço por considerar importante esclarecer alguns pontos.

O comentário de Manuel Rodrigues, cito de memória,me cingindo-me ao essencial do seu comentário tem dois pontos centrais:

1- Michel Chossudovsky, seria um louco com a mania da perseguição e por isso foi demitido da universidade

2- A foto que anexei de John McCain, em que também figurava Abu Bakr al-Baghdadi, o actual proclamado Califa do Estado Islâmico era uma hoax, pelo que eu deveria ter , no futuro cuidado com as minhas fontes de informação.

  1. Michel Chossudovsky, foi demitido da Universidade onde ensinava por causa de se opor ao pensamento dominante nas suas múltiplas faces e intervenções, não por ser louco” nem ter “a mania da perseguição”. È por essa ser a prática comum, normal, regular das universidades norte-americanas e canadianas, quando se ultrapassam as linhas consideradas admissíveis, pela “democracia”, num determinado momento histórico. Alain Badiou, num seminário sobre Platão, na École Normale Superieur, em 2008, fez uma interessantíssima consideração sobre esse tema:”O objectivo da propaganda inimiga não é aniquilar uma força existente (função que em geral é confiada às forças da polícia) mas antes aniquilar uma possibilidade desapercebida da situação”. Por isso a propaganda inimiga de uma política emancipatória ou que ponha em causa alguns dos seus aspectos estruturais , que coloquem em questão as suas acções, as suas estratégias que visam perpetuar o eatado das coisas, uma convicção resignada de que o mundo em que vivemos, sem ser o melhor dos mundos, é o único possível. Quando se ultrapassam as linhas demarcadas, põe-se em marcha sistemas de força, em último recurso o uso das forças policiais. Quando consideraram que Michel Chossudovsky tinha ultrapassado o ponto em que já não era só perigoso quanto baste, demitiram-no, o primeiro passo da intimidação. O processo é conhecido, lembre-se Norman Finkelstein, também professor emérito, demitido da universidade onde ensinava, State University of New York por ter enfrentado o poderosíssimo lobie judaico dos EUA, publicando o livro “ A Indústria do Holocausto- Reflexões sobre a Exploração do Sofrimento dos Judeus”. Filho de sobreviventes do gueto de Varsóvia e dos campos de concentração nazis, anti-sionista convicto, faz uma fundamentada denúncia dos mecanismos de que os sionistas se servem para retirar proveitos tanto económicos como políticos. do Holocausto. É mais um judeu a quem a direita, a extrema direita judaica e os seus aliados não perdoam, como não perdoaram a Hanna Arendt e a Michel Chossudovsky. Uma longa linhagem de académicos, jornalistas, políticos que o Império e seus aliados pretendem silenciar, usando dos arsenais de que dispõem, usando-os nas doses que consideram necessárias em cada caso.

    Manuel Rodrigues deveria ler “Globalização da Pobreza” de Michel Chossudovsky. Leia a entrevista que deu ao I avisando para os perigos de uma 3ª guerra mundial. Verá que louco não tem nada. Agora, até Paul Craig Roberts, antigo membro do governo Reagan, considera a 3 ª Guerra Mundial, uma possibilidade real. Mais real, quando o dólar perde terreno aceleradamente. Na última semana mais um país deixou de comerciar com a China em dólares, a Alemanha. A lista começa a ser extensa e a atingir insuspeitos países. O desmoronar do império , assente no petrodolar, no dolar como moeda de troca e de reserva mundiais, está cada vez mais iminente. Demorará anos, quantos será díficil prever. Só que o império é a maior potência militar, dispondo de uma extensa rede de bases militares espalhadas por todo o mundo.

  2. As minhas fontes de informação são variadas. Achei interessante e bem sintetizada a situação nos 26 pontos em que por Michel Chossudovsky as fixou. Acabam por estar todos contidos nos artigos publicados no The Independent de Robert Fisk, provavelmente o mais bem informado jornalista e comentador político em questões do Médio Oriente. Não sei se algum daqueles pontos lhe merece contradita, ou mesmo todos, o que se pode pressupor do modo como classifica o autor, arrumando de uma penada o assunto.

  3. A foto de John McCain, não foi logo denunciada como uma montagem. O primeiro passo foi o do senador, meios próximos do senador, alegavam que nessa e outras fotos, como outra onde figura Mohammad Nour,, da Frente Tempestade do Norte ,da Al-Nosra, a Al-Qaeda da Síria, se terem infiltrado e John McCain não os conhecia. Vamos admitir que essa versão é verdadeira. John McCain poderia não os conhecer mas as fotografias foram publicadas na sequência de reuniões com o estado maior do Exército Sírio Livre (ESL) organizadas pela Syrian Emergency Task Force (SETF), curiosamente uma organização sionista dirigida por um funcionário palestino Mouaz Moustafa, um perito do Washington Institute for Near East Policy, uma das várias organizações criadas AIPAC, o lobie pró-israelita nos EUA.

    John McCain foi, ilegalmente à Síria, a convite SETF, reuniu-se, nos arredores de Idleb, em 27 de fevereiro o estado-maior do chamado Exército Sírio Livre. O comandante era o general Salim Idriss, um dissidente do regime de Assad. Nessa altura faziam parte desse estado- maior, o braço sírio da Al Qaeda e do EIL. Todos figuram nessa fotografia agora “denunciada” como montagem. O que seria muito estranho é que os membros do estado-maior do Exército Sírio Livre não participassem nessa reunião. John McCain, na sequência dessa reunião afirmou que os responsáveis do Exército Livre da Síria, “eram moderados em que se podia confiar”(…)”a organização era composta exclusivamente por sírios, que combatiam pela liberdade contra a ditadura alauíta”. Isto numa altura em que já era claro que brigadas de jihadistas, cometiam barbaridades na luta contra as forças governamentais da Síria.

    Refira-se que, embalados pelo apoio e financiamento dado pelos EUA directa e indirectamente ao Estado Islâmico, a Arábia Saudita, segura, forte e antiga aliada dos EUA na região, reivindicou, no seu canal público de televisão, Al-Arabiya, que o Emirado Islâmico estava colocado sob a autoridade do príncipe Abdul Rahman al-Faisal, irmão do príncipe Saud al Faisal (Ministro dos Negócios Estrangeiros) e do príncipe Turki al-Faisal (embaixador saudita nos Estados Unidos e no Reino Unido). Agora também se demarcam.

    Sublinhe-se que um mês antes, Ibrahim al-Badri, com o nome de guerra Abu Bakr al-Baghadi, tinha criado o estado Islâmico do Levante (EIIL) , continuando a pertencer ao “muito moderado” estado-maior do Exército Sírio Livre. Sublinhe-se também que desde 4 de Outubro de 2011, Ibrahim al-Badri, também conhecido por Abu Du’a, figura na lista dos cinco terroristas mais procurados pelos EUA, que ofereciam uma recompensa de 10 milhões de dólares a quem ajudasse à sua captura. Nem o Exército Sírio Livre, nem a Syrian Emergency Task Force, nem o senador nem os seus acompanhantes reclamaram a recompensa. Pelo contrário cosnspiravam contra o regime sírio com esse membro efectivo do “muito moderado” estado maior do ESL.

    Mais tarde, John McCain numa entrevista à Fox News admite estar em permanente contacto com as forças que combatem Bashar al-Assad. nomeadamente o EILL. Dá o exemplo da sua experiência no Vietname, para reforçar a ideia que se deve continuar a apoiar todas as forças rebeldes no terreno, que lutam contra a República Síria. Será uma montagem da Fox News?McCainObama

  4. John McCain, candidato derrotado por Obama em 2008, agora como seu opositor, tem a melhor cobertura que poderia ter. Continua a viajar por todo o mundo, excepto países onde por causa das suas actividades a sua entrada está interdita trabalhando de facto como um agente da política de Washington. É o homem político dos EUA que mais viaja. Está em todas, seja na Venezuela num falhado golpe de estado contra Hugo Chavez, na Ucrânia com um bem sucedido golpe de estado contra Vytor Yanukovych, seja nas “primaveras árabes”

    É presidente do International Republican Institute (Instituto Republicano Internacional-ndT) (IRI), uma ONG que é o ramo republicano do NED/CIA , desde Janeiro de 1993. Essa pretensa «ONG» foi criada, oficialmente, pelo presidente Ronald Reagan para alargar certas actividades da CIA, em cooperação com os serviços secretos britânicos, canadianos e australianos. Contrariamente às suas alegações é, de facto, uma agência inter-governamental. O seu orçamento é aprovado pelo Congresso, numa rubrica orçamental dependente da Secretaria de Estado Homem sem escrúpulos, e um consumado manipulador, Se os seus interlocutores aprovam as políticas da Casa Branca, promete-lhes auxílio, se as combatem, atira as responsabilidades para cima do presidente Obama.

    A sua ligação à Síria, não sendo recente, tem um ponto próximo importante em 4 de Fevereiro de 2011 quando se reuniu, no Cairo, para apoiar o eclodir das primaveras árabes na Líbia e a Síria. Foi um dos destacados participantes nesse encontro, presidindo a algumas sessões desse simpósio. Entre outros destacados participantes estava Mahamoud Jibrill, antigo número dois do governo de Kadhafi, e uma larga delegação da oposição síria no exílio.

    A 22 de Fevereiro estava no Líbano com membros da Corrente do Futuro, partido de Saad Hariri que encarregou de supervisionar as transferências de armas para a Síria. Foi inspeccionar a fronteira libanesa-síria. Escolheu Ersal e algumas outras aldeias para servirem de base da retaguarda da guerra que se ia desencadear.

  5. Nos tempos mais próximos o califado apelida o senador McCain de “inimigo” e “cruzado”. O senador contra atacou rapidamente, publicando um comunicado em que qualifica o Emirato de ser “o mais perigoso grupo terrorista do mundo”. Dessas cambalhotas John McCain tem vasta experiência. Ontem inimigos, hoje amigos, amanhã, novamente inimigos, depois de amanhã logo se verá.

    No Cairo, a regar e adubar as primaveras árabes, também esteve reunido com dois membros do International Republican Institute, John Tomalaszewki e Sam LaHood, que tiveram que se refugiar na embaixada dos EUA acusados de pertencerem ao comité, em que participavam os Irmãos Muçulmanos, que preparou o golpe que derrubou Hosni Mubarak. Foram libertados por Mohamed Morsi, quando este se tornou presidente e antes de ser preso e dos Irmãos Muçulmanos serem agora podados de terroristas. Não conhecemos nenhuma declaração de John McCain declarando os Irmãos Muçulmanos terroristas.

    A galeria entretém-se com estes inquietantes espectáculos públicos e gratuitos que levantam nuvens de areia para os palcos onde movem os peões dos tabuleiros geo estratégia do império que não têm quaisquer escrúpulos ou ética.

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Internacional, Política

Atenas, Lisboa…

Nas ruas de Atenas queimam-se bandeiras da União Europeia e protesta-se hoje violentamente contra a visita da chanceler A. Merkel, representante máxima de um Estado oficialmente amigo. Quanto tempo faltará para vermos o mesmo noutras capitais?

Um destino comum parece unir Portugal, Grécia, Espanha, Irlanda e Chipre, os “resgatados” (ou em vias de o ser).

Por mais que os dirigentes de cada um desses países pretendam afastar a companhia dos outros povos, há como que uma praxis comum que os empurra para o desastre. Uma inevitabilidade acelerada por sucessivas más decisões europeias aplicadas por governos nacionais, cegos e insensíveis. Todos vemos o abismo a aproximar-se e muitos já lá caíram.

O que esperam as lideranças desses países –que congregam cerca de 71 milhões de habitantes – para sintonizar posições no interior da União Europeia? Para exigirem a solidariedade que o projecto comunitário europeu prometeu? Para reclamarem o acesso a empréstimos em condições razoáveis e sem as taxas de usura que estão a ser praticadas? Para discutirem os critérios impraticáveis do Pacto de Estabilidade?

Para exigirem que os povos estejam primeiro que os mercados.

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Internacional, Política

Grécia: Corrupção e Fuga de capitais superam valor dos cortes

Antonio Cuesta, 21.Jul.12

Na Grécia, na maioria dos casos, falar de corrupção é referir um mal endémico, idiossincrático do Estado que atravessa todas as esferas da vida pública, e graças ao que se justificam as políticas de austeridade impostas contra a generalidade da população. No entanto, raramente é argumentada contra uma classe política que perpetuou um sistema fraudulento com o qual beneficiou durante décadas, em detrimento dos cofres públicos.

O exemplo mais paradigmático da corrupção entre a classe política foi o grande negócio das Olimpíadas de Atenas em 2004. Com um orçamento oficial de 9 mil milhões de euros, os custos foram-se multiplicando até atingir um montante próximo dos 28 mil milhões euros que ninguém, até hoje, conseguiu explicar onde foram parar.

Um relatório recente publicado pelo diário Kathimerini assegura que o custo anual da corrupção na Grécia supera em valor os cortes que foram feitos em 2012 nas pensões e nos salários. De acordo com esta investigação o montante superaria os 4 mil milhões de euros por ano, a que terá de se acrescentar a vultuosa, e até agora legal, fuga de capitais.

As estimativas mais conservadoras calculam que desde a data do primeiro empréstimo em 2010, mais de 60 mil milhões de euros saíram do país na senda de bancos suíços ou paraísos fiscais, uma quantia que representa 27% do PIB grego. Quem o explica é o economista Leonidas Vatikiotis, para quem a famosa «livre circulação de capitais» significa a permissividade dos diferentes governos para uma elite financeira que, para fazer o branqueamento dos seus capitais, roubam ao país a capacidade produtiva. «Esta prática – diz o economista – deve-se a uma série de medidas e regulamentos que datam dos anos 80 e 90, e que agora é altura de rever», impondo controlos aos movimentos especulativos de capitais, como fizeram nos últimos anos a Argentina, o Brasil, a Coreia do Sul. As grandes fortunas gregas – armadores e proprietários de grandes grupos de comunicação principalmente – aproveitaram essas leis impostas por organismos como o Fundo Monetário Internacional, a OCDE, o Banco Mundial e a União Europeia para retirarem as suas fortunas com total impunidade e, além disso, evitar o pagamento de impostos.

Por último, as constantes ameaças lançadas pelas instituições financeiras internacionais de que o país poderia ver-se fora da eurozona se não cumprisse as draconianas medidas de ajuste exigidas só serviram para fomentar a evasão de capitais, calculada em 5-6 mil milhões de euros mensais, chegando ao seu ponto mais elevado no passado mês de Outubro (com a renúncia do primeiro-ministro Papandreu), que chegou a duplicar aquela quantia, de acordo com Vatikiotis.

A corrupção na administração

Esta conivência de âmbito internacional existe também a nível local, onde as empresas gregas aceitam com normalidade o pagamento de comissões ilegais a uma classe política ávida por dinheiro, e em que chegaram a estar implicadas multinacionais como a Siemens.

Para a secção grega da ONG Transparência Internacional, o volume de subornos pagos a funcionários públicos durante o passado ano superaria os 500 milhões de euros, e uma quantia idêntica refere o último relatório do Banco Mundial referente a 2010: 436 milhões de euros para «facilitar» a obtenção de permissões ou licenças, evitar inspecções fiscais, ou conseguir contratos ou concessões das diferentes administrações públicas.

O estudo feito junto de 550 firmas gregas concluiu que 21,6% delas pagavam habitualmente para conseguir acelerar a tramitação administrativa, 55,9% faziam-no para esconder problemas com a Fazenda e 14,5% das empresas sondadas asseguraram que o suborno era uma condição sine qua non para conseguir um contrato estatal.

De acordo com este estudo, as empresas destinavam em média 0,2% do seu volume de vendas para «olear» os diferentes escalões da administração e uns 0,8% como contribuição nos processos de concursos, licitações ou contratos públicos.

Um dos últimos casos descobertos, há apenas um mês, tem como protagonista o ex-ministro da Defesa do PASOK, Akis Tsojatzopulos (amigo e colaborador íntimo de Andreas Papandreu), acusado de «branqueamento de capitais procedentes de actividades ilícitas», para além de ter cobrado importantes comissões à indústria armamentista entre 1997 e 2001, com o que acumulou uma importante fortuna investida em propriedades imobiliárias.

A fraude de branqueamento de dinheiro duplicou o ano passado e os montantes descobertos pela Brigada de Delitos Financeiros indicam que cerca de 3 mil milhões de euros por ano foram utilizados para o comércio ilegal de drogas, álcool e tabaco, e ainda no contrabando de armas e combustíveis.

As quantidades evidenciam a falta de vontade política para pôr fim a uma prática que só beneficia os mais ricos e que supera amplamente o montante dos cortes sociais aplicados contra a maior parte da sociedade grega.

Este texto foi publicado em:
www.gara.net/paperezkoa/20120528/343588/es/La-corrupcion-fuga-capitales-superan-valor-recortes-Grecia
Tradução de José Paulo Gascão

E, por cá? Todos bem, muito obrigado!

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Geral

O que é a Syriza?

De forma resumida o que é a Syriza e o que promete o seu líder se ganhar as eleições no dia 17 de Junho.

Actualmente, fazem parte da Syriza doze organizações. A corrente maioritária é o Synaspismos, uma antiga coligação de comunistas que abandonaram o PCG após o fim da URSS. As outras organizações são a AKOA (Esquerda Comunista Ecológica e Renovadora, membro observador do Partido da Esquerda Europeia); DEA (Esquerda Internacionalista dos Trabalhadores, próxima da tendência trotskista internacional IST, fundada por Tony Cliff); DKKI (Movimento Democrático Social, corrente que saiu do PASOK em 1995); KOE (Organização Comunista da Grécia, de inspiração maoísta, integrou a Syriza em 2007); Kokkino (Vermelho, corrente de inspiração trotskista); Ecosocialistas da Grécia; Cidadãos Activos (corrente fundada pelo herói da Resistência Manolis Glezos); KEDA (Movimento pela Esquerda Unida na Ação, cisão do PC grego em 2000); Rizospastes (Radicais, cisão dos Cidadãos Activos, sublinham o patriotismo no discurso); Omada Roza (Grupo Rosa, esquerda radical); e APO (Grupo Político Anticapitalista, corrente de inspiração trotskista).

A Origem da SYRIZA

Face ao crescimento eleitoral da Syriza, surge inevitavelmente a pergunta:O que representa tal agrupamento político?

A coligação formou-se em 2004 através da aglutinação de diversas pequenas organizações de esquerda, a maioria delas advindas do KKE (Partido Comunista Grego); algumas do PASOK (como a DKKI), outras do maoísmo (como a KOE) e ainda algumas do trotskismo, como a KOKKINO, a APO, e a DEA (esta proveniente da corrente internacional IST, fundada por Tony Cliff). A sua principal organização, que a dirige, é a Synaspismos (“Coligação dos Movimentos de Esquerda e Ecológicos”), liderada por Alexis Tsipras, o porta-voz da Syriza. Continuar a ler

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Internacional, Política

França e Grécia, que lições para a Esquerda?

Ressalvadas as profundas diferenças entre a França e a Grécia, os resultados eleitorais registados em ambos os países mostram eleitorados profundamente descontentes com as opções políticas dos seus governantes. Se em França, pela primeira vez desde há muitos anos, um presidente é despedido a meio dos tradicionais dois mandatos, na Grécia a habitual representação parlamentar foi quase por completo estilhaçada.

Quer a vitória de Hollande, ditada numa segunda volta, quer a fragmentação partidária registada na Grécia, demonstram o profundo mal-estar que assola a Europa. Onde todos os governantes em exercício têm sido derrubados nas urnas. Casos da Irlanda, de Portugal, da Espanha e agora da Grécia, sem esquecer a Itália desde há meses governada por um ex-alto funcionário (M. Monti) imposto pela União Europeia. Apenas para referir os que nos são mais próximos geográfica ou culturalmente.

Hollande sim, mas…

A vitória de F. Hollande carrega um importante capital de esperança num futuro melhor. A expectativa de que são possíveis alternativas às políticas exclusivamente centradas na restrição orçamental e na austeridade e que assentem no que se designa genericamente por uma agenda de crescimento e emprego. Por toda a Europa aguardam-se os passos do novo presidente francês, porque ele é o líder do único país europeu com escala comparável à da Alemanha de Merkel.

Mas é uma expectativa que deve ser restrita e sujeita a escrutínio. Os socialistas e os social-democratas que antigamente constituíam a Internacional Socialista foram demasiado coniventes, co-responsáveis mesmo, pelas opções europeias nos trouxeram ao actual estado de coisas. Assistiram passivamente ao absoluto e completo controlo do poder financeiro sobre a economia, a política e a sociedade.

A auspiciosa vitória do “normal” F. Hollande em França – que, se mobilizou a maioria de um eleitorado assustado que vê a França a caminho da decadência, revelou também a rejeição do estilo frenético de one man show de N. Sarkozy – esconde uma potencial alteração de fundo na política francesa. A emergência da direita nacionalista e xenófoba de Marine Le Pen (6,5 milhões de votos na primeira volta) que, nas eleições legislativas do próximo mês de Junho, disputará a liderança da Direita aos sectores agora humilhados nas urnas com a derrota do presidente em exercício.

Disputando-se a eleição num sistema maioritário a duas voltas, veremos como se vai (ou não) a direita clássica (UMP e  outros) entender com os candidatos “marinistas” nas segundas voltas. Farão acordos entre si para impedir uma maioria da esquerda? O sistema eleitoral francês tem garantido a transferência de votos entre os diversos sectores da esquerda e mantido a Front National (que se vai agora travestir em rassemblement bleu marine !!) afastada da assembleia nacional francesa devido à recusa de acordos da direita “clássica”. O partido do clã Le Pen não é já um epifenómeno, é uma realidade política estabelecida na sociedade francesa que carece de respostas à altura. A Esquerda francesa que se cuide.

O aviso grego

Na Grécia a rejeição das opções políticas dos governantes não podia ser mais clara. Uma coligação de partidos de Esquerda quase conseguia ser a mais votada, enquanto a dupla que tem dominado a vida política do país nas últimas décadas se viu reduzida ao seu mais baixo resultado de sempre: a Nova Democracia – 18,86 % e 108 lugares, dos quais 50 de bónus eleitoral e o PASOK – 13,18% e 41 lugares.

Também aqui a extrema direita xenófoba (Alvorada Dourada, 6,97%, 21 lugares) – porventura revestida de um folclorismo que os dirigentes da sua congénere francesa já abandonaram – fez a sua entrada em cena, capitalizando a tradicional rejeição dos emigrantes, mesclada com sentimentos de insegurança, que sempre impera quando o clima económico se degrada.

Apesar do significativo crescimento eleitoral à esquerda do PASOK, também na Grécia parece não ter havido capacidade para construir uma alternativa credível de poder pré-eleitoral. Quer a Coligação Syriza (16,77%, 52 lugares), quer o Partido Comunista (8,48%, 26 lugares) aumentaram significativamente as suas votações. Acrescente-se a Esquerda Democrática (DIMAR) – 6,10%, 19 lugares. Uma capacidade reforçada de oposição às políticas de austeridade que se pode constituir como alternativa.

Os resultados gregos devem ainda ser interpretados como a rejeição de um modelo que falhou. O dramático empobrecimento de sociedades que acederam a patamares de bem estar coloca em causa, em primeiro lugar, os protagonistas políticos dessa época e dá acesso a novos actores. Há esquerda como à direita. Mas com um cenário de desemprego e empobrecimento aumenta a perspectiva de soluções menos pacíficas.

Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma (A. de Lavoisier). E as formações partidárias apenas servem as configurações políticas e sociais das suas épocas. E este é um tempo de mudança.

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Negócios da grécia

Da Grécia contaram-se e contam-se as mais mirabolantes histórias para demonstrar como os trabalhadores eram uns privilegiados, os serviços públicos e as empresas estatais primavam pela má gestão e por dar benefícios extraordinários aos seus funcionários. Todos se lembram dos celebrados 15 meses de ordenado, que supostamente os assalariados gregos recebiam e que afinal mais não era que o subsídio de férias ser cumprido em duas faias iguais. Histórias não faltaram na comunicação social para demonstração urbi et orbi de que o povo grego era preguiçoso e andava a viver à tripa forra, era o grande culpado do défice público que colocara a Grécia á beira da bancarrota. Esse jornalismo estipendiado e mercenário existe para prestar serviço ao poder do capital. Aliás deve-se consultar quem são os accionistas da comunicação social para percebermos o que é a liberdade de imprensa e para que servem os critérios jornalísticos. As montagens noticiosas constroem imagens falsas para fazer uma barragem de fumo sobre a realidade. Se a queremos conhecer, ainda que parcialmente, temos que respigar por todo o lado para construir um puzzle que nos aproxime dela.

Em relação à Grécia o que é actualmente relevante, demonstrador do enorme cinismo dos que lêm impões pacotes de austeridade sobre pacote de austeridade, é que, submetida a um apertado controlo da troika, com a imposição de um brutal empobrecimento e de perdas de direitos  que atingem o povo grego sem dó nem piedade, continuem a ser feitas despesas que agravam  o endividamento enormemente. Num país a sofrer uma crise tão desmesurada, é autorizada a compra, aos EUA, de 400 tanques Abrams e de três fragatas à França , para grande raiva da Alemanha que, depois de vender dois submarinos (nos últimos anos tem vendido mais uns tantos) se vê preterida neste negócio da grécia. Continuar a ler

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O Espectro do Referendo Grego assombra a Europa

A democracia ficou em sobressalto mal Papandreou anunciou que a Grécia iria referendar as novas e gravosas medidas de austeridade. O sexto pacote de austeridade que vem embrulhado na total perca de soberania orçamental, o que significa a submissão absoluta do povo grego aos ditames dessa coisa abstracta que dá pelo nome de mercados, através dos seus lacaios em Bruxelas, essa nomenclatura de comissários políticos que são conduzidos à trela pela Sra. Merkel e o seu criado Sarkozy.
Estão “consternados” (Sarkozy), “irritados e furiosos” (os alemães e o FMI), pela decisão de recorrer ao voto popular para que os gregos decidam democraticamente o seu futuro. Subitamente alarmam-se com o exercício da democracia. Democracia sim, mas só com os parâmetros e enquadramento que os favoreça. Os referendos são bons desde que não aconteça, como é previsível acontecer, que o povo grego diga legitimamente não contra os interesses dos mais fortes. dos que acham que só eles têm o direito à liberdade, a deles, e a fazer leis que a cimentem.

Do lado de Irlanda e Portugal podem dormir descansados, não haverá recurso a nenhuma prática democrática. O que as troikas decidirem está bem decidido. Ou em Portugal não tivéssemos dois ministros, fervorosos adeptos de Milton Friedman que, com os seus boys, pode fazer um exercício sem tropeços das suas teorias num Chile de democracia assassinada por Pinochet. Nada como não apagar a memória para nos lembrarmos a tempo que só assim, o barbarismo das teorias económicas dessa gente conseguiu ser posto em prática. Continuar a ler

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Europa: end of the line?

Agora que a Grécia está prestes a ser empurrada para o abismo da bancarrota, perguntamo-nos se a seguir não seremos nós. Será o fim de um sonho dourado que termina em pesadelo? O fim da Grande Ilusão em que os portugueses viveram despreocupadamente ao longo das últimas quase três décadas?

O problema grego (e o português, o irlandês, o espanhol, o italiano… o europeu) põe a nu as graves falhas de um projecto federal sem uma arquitectura e sem instrumentos federais. E começa já a empurrar milhões de pessoas para a pobreza, por via de medidas de austeridade que amplificam os efeitos das recessões instaladas .

O momento é de desânimo perante a manifesta incapacidade dos principais dirigentes da UE e dos maiores Estados nacionais. Poucos duvidam que a falta de apoio à Grécia arrastará Portugal e outros países num turbilhão de imprevisíveis consequências para o futuro dos povos e do próprio relacionamento entre as nações europeias.

Nós e “eles”

Bem podemos agora dizer que a culpa foi “deles”, como tantas vezes fazemos quando as coisas não correm bem. A culpa do estado a que chegámos não foi deles. Foi nossa. Nossa porque fomos nós, povo, enquanto eleitores, que maioritariamente votámos nos partidos e nos políticos que fizeram as opções que agora toda a gente constata erradas.

E continuamos a votar nos mesmos que agora se desdizem e que afirmam o contrário de tudo o que antes fizeram: o Presidente Cavaco Silva é o exemplo coroado desse transformismo. Aquele que agora apela ao regresso à agricultura e fala de uma economia do mar foi o mesmo que, quando primeiro-ministro, contemporizou e aceitou o desmantelamento de importantes sectores da agricultura e das pescas portuguesas.

E que dizer dos políticos do centrão, que enxamearam o país com empresas municipais (como Paulo Anjos já aqui lembrou) para contornar as leis da administração pública de que foram primeiros subscritores e que agora lançam anátemas sobre as suas próprias criações. Idem aspas para as Fundações e outras figuras criadas ao longo dos anos para sacar financiamentos ao Estado. Caricato!. É a fase da negação. Continuar a ler

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Internacional, Política

Grécia

“Crise da Dívida: Grécia em Roda Livre?” titula um jornal. Desfilam os números. Nada de novo. Oculta-se que políticas conduziram a essa situação e que políticas são aplicadas pelos espertos do costume, um bando de corvos também anda por cá, para a (não) resolver.

POVOS DA EUROPA, POVOS DO MUNDO! ACORDEM!
Preciso lavar os olhos, os neurónios. A correr vou buscar Ritsos à estante.
.OS MODELOS (*)

Não esqueçamos nunca — disse — as boas lições, aquelas
da arte dos Gregos. Sempre o celeste lado a lado
com o quotidiano. Ao lado do homem, o animal e a coisa —
uma pulseira no braço da deusa nua; uma flor
caída no chão. Recordai as formosas representações
nos nossos vasos de barro — os deuses com os pássaros e
com outros animais, e juntamente a lira, um martelo, uma maçã, a arca, as
[tenazes;
ah!, e aquele poema em que o deus, ao terminar o trabalho, retira o fole de junto do fogo, recolhe uma a uma as ferramentas
dentro da arca de prata; depois, com uma esponja, limpa o rosto, as mãos, o pescoço nervudo, o peito peludo.
Assim, limpo, bem arranjado, sai à tardinha, apoiado nos ombros de efebos todos de oiro — trabalhos de suas
[mãos
que têm força, e pensamento, e voz; — sai para a rua,

mais magnífico que todos, o deus coxo, o deus operário. Continuar a ler

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economia, Internacional, Política

A lição grega

Será que nos esperam acontecimentos trágicos e perturbadores como os que por estes dias se registam na Grécia? Contestação social a um ponto desconhecido até agora, violência nas ruas, uma população desiludida, zangada e descrente no futuro?

Há um ano atrás o então recém-eleito governo grego, curiosamente dirigido por um socialista, substituía um governo de direita e, de imediato, denunciava as manipulações estatísticas dos anteriores ocupantes do poder. Nomeadamente as que tinham que ver com os valores do deficit e a despesa pública (onde é já vimos isto?). Muito rapidamente o problema da dívida soberana grega tomou a dianteira na gula dos “mercados”, com os valores dos juros exigidos a subirem rapidamente e a tornarem insustentável a situação do país . A Grécia tornou-se a primeira presa desses mercados. E o governo grego também rapidamente se convenceu que o recurso ao FMI e à UE era a solução. A receita, iniciada há um ano, foi semelhante à que Portugal também já começou a aplicar mas que irá reforçar com as medidas que constam no acordo com a troika. Melhor ou pior o governo grego empenhou-se em levar a receita à pratica.

Ao fim de um ano de aplicação da receita, a Grécia está à beira da explosão. Mas não são os únicos. Os irlandeses, a braços com uma profunda crise oriunda da conjugação da “bolha” imobiliário com a banca, voltaram a emigrar massivamente. E em Espanha os números do desemprego são alarmantes quando associados aos cortes nos apoios sociais e a todas as medidas que os socialistas espanhóis no governo se aprestaram a tomar. A contestação já está nas ruas. Ainda quanto a dívidas soberanas mais sinais nos chegam de países tão robustos como a Itália e a Bélgica.

Portugal segue-lhes na esteira. Prepara-se para aplicar uma receita recessiva que se traduzirá, inevitavelmente, na diminuição do PIB e de todas as receitas associadas, ao aumento de desemprego e na descapitalização da segurança social, por via da prometida diminuição da taxa social única. Tudo factores que farão a economia decrescer e criarão maiores incertezas no futuro.

Como pagará o país o seu volume de dívida em tais condições? Não se divisa como, num país que está e irá continuar em recessão. O futuro primeiro-ministro promete “fazer o que for preciso”, isto é, sujeitar a população às duras penas da austeridade, para daqui a dois anos “regressar aos mercados”. Financiando-se com recurso a uma panóplia de privatizações – algumas das maior imoralidade, caso da água.

Melhor seria que, desde já, se dissesse aos portugueses que país não vai ter condições para pagar a dívida, tais os montantes atingidos e taxas de usura que sobre a dívida da República impendem.

A solução terá que ser global, discutida e negociada à escala europeia. Os países afectados, uma mancha que alastra, deveriam concertar posições e interesses para uma negociação política, que envolva também os credores. Com parte importante da população da UE à beira da pobreza, as lideranças europeias entretém-se a adiar o que já todos perceberam – as dívidas soberanas terão que ser reestruturadas, isto é, diminuídos os seus montantes e alargados os prazos de pagamento. Sob pena de derrocada do euro – para alguns já algo de inevitável – e daquilo que temos conhecido como União Europeia.

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