Política

Atuações policiais excessivas e desproporcionadas

Fui dos poucos que contestaram a desproporcionalidade da carga policial na manifestação no dia da última greve geral, em frente ao parlamento. Esclareci, junto de amigos e outros, que me parecia adequado que a polícia tivesse isolado a meia dúzia de provocadores que, perfeitamente identificados, apedrejou, inaceitavelmente, a polícia durante mais de uma hora. Acrescentei que a carga policial que se seguiu foi desproporcional e também inaceitável.

Afinal, não sou o único a defender tal posição. Guilherme da Fonseca, juiz conselheiro do Tribunal Constitucional, tem a mesma opinião, e transmitiu-a assim, segundo o “Expresso”:

“As atuações policiais [foram] excessivas e desproporcionadas, contrariam os limites constitucionais. Esta atuação policial, pelo excesso que revela, merece a censura constitucional e não tem cobertura na lei de segurança interna”.

Só para que conste…

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Política, Trabalho

Desculpas…

Manifestação da Greve Geral no Lg. da Misericórdia, em Setúbal

O que mais me surpreende em dias de greve são as justificações encontradas por muitos para não parar. Uns dizem que um dia de greve nada resolve: “se fosse uma semana, até fazia”; outros acrescentam que isto só lá vai com a invasão da assembleia da república e, supõe-se, umas porradas nos deputados; há quem se desculpe com a falta de um fundo de greve que pague o dia de salário perdido e acrescente o exemplo dos estivadores; muitos garantem que se fosse para ir por umas bombas na sede do governo até iam de bom grado. Têm todos em comum não fazerem greve e desprezarem o esforço que fazem aqueles que têm a coragem de prescindir do salário de um dia de trabalho com a desculpa de que um dia só nada resolve.

Cada vez tenho menos paciência para estas desculpas e, de todos os que não fazem greve, apenas respeito, profundamente, os que, ganhando 450 ou 500 euros por mês rejeitam a greve porque, simplesmente, não podem mesmo perder aquele dinheiro. Os outros, os que se desculpam, mas continuam a ser desrespeitados, explorados e enganados, deixaram de ter respeito por si próprios. Tal como os que, conscientemente, levando para casa ao fim do mês o maior de todos os salários do local onde trabalham, são os primeiros a furar a greve e a gabarem-se disso. Esses, só podem ser apelidados de uma coisa…

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Política, Trabalho

Aqui também se faz greve!

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Geral, Internacional, Política, Trabalho

Da greve portuguesa à huelga general espanhola

Espanha cumpre no dia 29 de Março um dia de greve geral, que é convocada sob o lema "Querem Acabar com Tudo, com os Direitos Laborais e Sociais". Declara-se contra “a reforma que elimina direitos históricos dos trabalhadores e a política de retenções que envolve o desmantelamento dos serviços públicos” – lá como cá.

Uma semana após a greve geral portuguesa, os sindicatos espanhóis avançam com a mesma forma de luta, apontando contra as profundas alterações nas relações laborais que ali se perspectivam e que tem muito em comum com as soluções impostas aos portugueses. Há pontos comuns entre as duas situações, mas também há diferenças.

Os pontos comuns.

A crise da dívida soberana e as condições (taxas de juros) de acesso ao re-financiamento aproximam Espanha do grupo de que Grécia, Irlanda e Portugal fazem já parte – o dos países intervencionados e com a sua soberania condicionada.

A ligação da crise da dívida soberana ao problema dos deficits dos Estados nacionais, conduziu à imposição de uma cartilha ideológica que vê a solução na fragilização dos vínculos laborais de milhões de trabalhadores e no embaratecimento do factor trabalho. A par da retracção ou abandono da prestação de importantes serviços públicos pelo Estado. Em Espanha, como em Portugal.

Aos governos socialistas que iniciaram, em ambos os países, o ciclo da austeridade e da desregulação das relações laborais, sucederam-se, com um intervalo de poucos meses, governos de direita legitimados por sufrágios eleitorais – ambos com maioria absoluta, embora no caso português assente numa (facilmente conseguida) coligação pós-eleitoral.

A superestrutura do sindicalismo de ambos os lados da fronteira estrutura-se em torno de duas grandes centrais sindicais com orientações políticas similares. Em Espanha é Confederação Sindical CCOO (Comisiones Obreras), tradicionalmente próxima do PCE/Izquierda Unida, e a UGT (Unión General de Trabajadores), de influência socialista.

A huelga general espanhola foi convocada por ambas as centrais sindicais, tal como por cá o foi a greve geral de Novembro passado.

As diferenças.

A Espanha não está sob “resgate” financeiro internacional – porventura por a sua economia ser de uma dimensão incomportável para o sistema europeu -, mas o seu Governo, também acossado pela pressão de diminuir o deficit, decidiu aplicar um conjunto de medidas na área laboral que se aproxima das condições impostas pela troika em Portugal – e de que já aqui se deu eco. Continuar a ler

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justiça, Política

Era só o que nos faltava…

Foto tirada daqui - http://goo.gl/ovUwn

A condenação, hoje, a penas suspensas, de dois dos sete detidos na manifestação de 24 de Novembro, dia de Greve Geral, em frente à Assembleia da República é mais um poderoso sinal do descalabro em que está o país, traduzido, neste caso, numa profunda crise do exercício justo da autoridade.

Num país onde vendedores de droga são presentes a tribunal e imediatamente libertados, em que agressores saem das salas da justiça mais depressa que as autoridades, em que Isaltinos saltam de recurso em recurso para se safarem à prisão e Valentins se safam com ajudas obscuras, em que líderes de clubes de futebol instigam sistematicamente à violência, a condenação destes dois participantes na manifestação, porque terão abanado umas grades e ofendido uns polícias é um insulto à inteligência, uma ofensa à democracia e ao povo português.

São abundantes os relatos e as imagens que demonstram a responsabilidade nos distúrbios de um punhado de agentes policiais à paisana no papel de provocadores, numa acção que custa a crer não tenha resultado de uma orientação directa do Governo e do Ministro da Administração Interna.

Daria um enorme jeito que os distúrbios tivessem atingido maior dimensão, mas tal não aconteceu. Por isso, foi necessário forçar um simulacro de violência, o que, aliás, nem é novo. Novidade é a candura com que o Ministro reagiu aos acontecimentos. Novidade é que ignorem que as pessoas não são parvas e saibam distinguir quem está para provocar e quem está para, legítima e democraticamente, manifestar-se, ainda que em tom mais elevado.

Com o PSD no Governo concretiza-se, finalmente, a aspiração da antiga líder Ferreira Leite de suspensão da democracia. Só não sabemos se temporária ou definitiva.

Já tínhamos perdido uma enorme fatia dessa democracia, por que tanto lutámos, com o Memorando de “Entendimento” assinado com os agiotas da Troyka; preparamo-nos para, muito provavelmente, aceitar um governo económico europeu, no qual nada poderemos mandar; agora, temos os tribunais a sancionar a actuação provocadora da PSP, que, aliás, está bem documentada em variadíssimas imagens que circulam pela Internet.

A técnica é velha e está também muito bem documentada noutros países. Veja-se este video publicado no Youtube a propósito de uma manifestação em Barcelona e a forma como polícias disfarçados de manifestantes tentam gerar um clima de violência. É preciso ver até ao fim, porque a evidência de que são mesmo polícias vem mesmo no fim.

Nos acontecimentos de Lisboa também há imagens dos agentes provocadores a atacar as grades da polícia e, depois, a espancar um jovem. Curiosamente, os polícias em Lisboa e em Barcelona têm as mesmas atitudes, vestem da mesma maneira… Só não disfarçam o cabelo curtinho e a forte compleição física.

A polícia é um elemento fundamental de um Estado de direito democrático que deve ser valorizado e dignificado. Eles, tal como nós, sentem a iniquidade e o desequilíbrio destas políticas suicidas e, tal como nós, protestam e manifestam-se. Estão, naturalmente, sujeitos a um regime de disciplina e hierarquia que os obriga a colaborar com decisões menos justas. Esta não é uma declaração desculpablizadora, mas sim uma constatação de facto, assim como é uma constatação afirmar que o Governo, ao empurrar a PSP para isto, prestou um péssimo serviço às forças da autoridade, manipulando-as de forma vergonhosa.

Querem fazer de nós um povo violento, que provoca distúrbios nas manifestações pacíficas. Estão com dificuldades em alcançar esse objectivo, mas assim ainda se arriscam a conseguir.

Era só o que nos faltava…

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economia, Internacional, Política

O aviso da greve geral

Portugal na imprensa internacional

Não podemos saudar democraticamente a chamada ‘rua árabe’ e temer as nossas próprias ruas e praças” (manifesto Novo Rumo)

A greve geral foi, quaisquer que sejam os números utilizados, uma forte manifestação de descontentamento e irritação de uma parte significativa dos portugueses. O seu impacto social foi indesmentível e o protesto mereceu cobertura generalizada nos media internacionais. Mas surgem sinais de que a contestação pode começar a extravasar a lei alterando a imagem do país tranquilo.

Os protestos dos portugueses, como os que se têm registado noutros países europeus, devem ser ouvidos pelos verdadeiros soberanos: o eixo franco-alemão que domina a resposta política da UE e as entidades que compõem a troika. Mas são protestos de que os governos nacionais – como o nosso – têm obrigação de ser intérpretes junto de quem efectivamente decide. Bem como tem a obrigação de usar inteligentemente a escassa margem de decisão de que dispõem para proteger o seu povo.

Coincidência ou não a greve geral realizou-se no exacto dia em que a agência de notação financeira Fitch divulgou a classificação da dívida soberana portuguesa como lixo. Baixa de rating a que até agência chinesa Dagong se associou. Registe-se a ironia do “castigo” imposto pela Fitch, já que a agência norte-americana até considera o Orçamento para 2012 “bem desenhado”, embora não deixando de notar que tal não deixará de implicar mais austeridade e mais recessão no próximo ano. É a actualização da Crónica de Uma Morte Anunciada do colombiano Gabriel Garcia Marquéz!

A unidade na acção entre as duas centrais sindicais e o prestígio dos sindicatos.

Em trinta e sete anos de regime democrático não tem sido frequente a unidade das duas centrais em movimentos nacionais desta amplitude, ultrapassando divergências e encontrando plataformas comuns. A confluência registada nas greves de 2010 e deste ano contribui para o prestígio – tão posto em causa nos últimos anos – dos sindicatos e reforça a sua importância como representantes incontornáveis das classes trabalhadoras. Um prestígio e uma representatividade absolutamente fundamentais para a credibilidade do seu papel de interlocutores no necessário diálogo social que, mais que nunca, é agora absolutamente necessário.

Perante a precarização das relações de trabalho, o aumento dos flagelos do desemprego e do empobrecimento em curso, a existência de sindicatos fortes e modernos volta a estar na ordem do dia – porventura como não o havia estado nas últimas décadas. Todos teremos que dar mais importância aos nossos sindicatos, participar mais nas suas vidas, corrigir-lhes vícios e ajudá-los a ultrapassar rotinas. Alertá-los para a necessidade de desenvolver novas formas de de participação jovens, desempregados e pensionistas. É que não temos outras formas de representação que possam substituir os sindicatos e sem eles a parte fraca das relações laborais, os trabalhadores, sê-lo-á ainda mais.

Sector público versus sector privado.

A participação do trabalhador numa greve representa um sacrifício e um risco que tendem a ser desvalorizados. Sacrifício porque perde a remuneração de um dia de trabalho – uma verba de que pode em absoluto necessitar para a sua economia familiar. E um risco porque, sendo contratado a prazo, poderá não lhe ser renovado o vínculo. Para não referir outras retaliações, mesmo a trabalhadores com situações mais estáveis.

Enquanto no sector público há um patrão, o Estado, e um conjunto de normas legais geralmente cumpridas, no privado a heterogeneidade regulamentar e contratual é enorme. Coexistem empresas altamente qualificadas com negócios de “vão de escada”. Há empresas onde fazer greve não afecta o ligação jurídica do assalariado enquanto noutras o exercício desse direito é apontado como um “crime”. Isto leva a que, muitos, em consciência, concordem com os motivos da greve mas não possam exercer tal direito.

E há também muitos sectores em que micro e pequenas empresas lutam pela sua sobrevivência diária. Em que as receitas de cada hora ou dia de trabalho contam.

Para que serve a greve? Resolve alguma coisa?

A greve teve lugar no período sensível em que decorre a discussão do Orçamento do Estado para 2012 na especialidade, garantida que está a sua aprovação na generalidade. Há assim ainda espaço para a correcção de profundas injustiças (a iniquidade fiscal aludida pelo Presidente Cavaco Silva) e de medidas de forte impacto negativo, de que avultam os cortes dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos ou a prevista aplicação de taxas máximas de IVA na restauração e nos espectáculos, de entre outros.

Não mata mas mói”, diz o aforismo popular. Nenhum governo democrático pode ser insensível aos movimentos sociais e às suas legítimas formas de expressão. Podem esses governos fingir que o são e escudar-se na sua legitimidade eleitoral. Mas sabem que, mais cedo ou mais tarde, uma contestação social generalizada traduzir-se-á em resistências sectoriais e a seu tempo em resultados eleitorais. Quantos casos são precisos citar? Alguns bem recentes.

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Política, Trabalho

Diferenças

Qual a diferença entre os manifestantes da Praça Tahrir, as mílicias armadas líbias, os manifestantes argelinos, os sírios que contestam Al Assad e os manifestantes que, em São Bento, em dia de Greve Geral, atiraram três garrafitas de cerveja aos polícias que representam um poder político que mente e rouba descaradamente os trabalhadores do seu país?

Uns são lutadores pela liberdade e democracia, os outros são provocadores

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Política, Trabalho

A “compreensão” da direita para a Greve Geral

Concentração de trabalhadores em Greve no Largo da Misericórdia, em Setúbal, no dia 24 de Novembro

No rescaldo da Greve Geral de 24 de Novembro, sem dúvida uma das maiores paralisações de sempre em todo o país, os responsáveis do CDS-PP e do PSD desdobram-se me declarações de compreensão pela “impaciência” dos trabalhadores, de respeito pelos “direitos”, declarações que quase nos fazem pensar se não teriam também eles, com tanta compreensão, feito greve. Mas não.

Uma das declarações mais interessantes, que replica, aliás, uma argumentação recorrente em dias de greve, é a de Nuno Magalhães, deputado do CDS-PP eleito por Setúbal. Magalhães manifestou respeito pelos grevistas, claro, mas também por aqueles que queriam ir trabalhar e não o conseguiram. Ainda assim, foi uma declaração moderada face a outras posições assumidas pelo CDS no passado, partido avesso a greves, mas apaixonado por comícios populistas e visitas a feiras de alcofa.

Nuno Magalhães, que se assume aqui como o símbolo de uma certa direita mais radical, apenas replica o mais recorrente argumento dos que contestam as greves: o de que os grevistas não respeitam o direito ao trabalho dos outros. Não deixa de ser absurdo ver a questão desta forma, uma vez que não há outra forma de fazer greve que não a de parar de trabalhar, o que, no caso dos trabalhadores dos transportes, por exemplo, se traduz na paralisação desses mesmos meios de transporte. Os partidos de direita, porém, acompanhados pelo PS, quando está no poder, não se cansam de reproduzir tal argumento.

Estranhamente, Nuno Magalhães nunca se terá interrogado sobre a razão que leva a que muitos trabalhadores não façam, ou melhor, não possam fazer greve. Estranhamente preocupa-se com os que não podem ir trabalhar, mas não se preocupa com o que obriga a ir trabalhar aqueles que, e não são poucos, querem, legitimamente, fazer greve.

O deputado do CDS-PP omite que muitas centenas de milhares de trabalhadores têm vínculos precários e vivem com o permanente receio do despedimento, que centenas de milhares de trabalhadores recebem salários de miséria. Magalhães sabe, mas não quer dizer, que as causas desta precariedade, destes baixos salários residem, em grande escala, nas políticas que o CDS-PP e PSD, com o PS, praticaram e praticam no Governo há mais de três décadas, na destruição do aparelho produtivo nacional que nos faz depender do exterior, na alteração, sempre favorável ao patronato, da legislação laboral, na desregulação de horários e direitos.

Ontem, num piquete de greve, um jovem trabalhador dizia-me que não podia fazer greve porque só ganhava 485 euros por mês e que se dispensasse o salário de um dia de trabalho passaria fome e teria de ir arrumar carros. Ao lado, outro, ainda que tivesse o mesmo problema, defendia-se com o argumento de que faria greve, mas só se fosse por três dias e para ir a Lisboa “partir tudo”.

Os que querem ir trabalhar e muitos dos que foram ontem trabalhar podem, de facto, contestar a greve, mas seguramente haverá um número muito maior daqueles que querem fazer greve, mas não podem. A esses, Magalhães não endereça uma palavra de compreensão, a palavra, aliás, que está mais presente nos discursos dos responsáveis do PSD e do CDS-PP neste dia de rescaldo da greve geral, o que indicia que os comunicólogos do Governo poderão ter delineado previamente a estratégia da “compreensão” para minimizar os ataques de que seriam alvo. A estratégia da “compreensão”, da empatia, permite quase que o Governo se mostre ao lado dos trabalhadores, no que é, sem dúvida, uma das maiores manifestações de hipocrisia política de que há memória.

Na verdade, a lição que a Greve Geral de ontem nos deixa é de que o único caminho é o da luta persistente e sem tréguas às injustiças que este Governo nos impõe.

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Geral

Serviços Mínimos

Dado o momento de crise que o país atravessa, o governo decreta que no dia de greve geral todos os trabalhadores têm o direito a, durante o horário normal, usarem uma faixa atada à cabeça de cor vermelha ou branca, com largura máxima de 5 centímetros, tipo de letra helvética ou futura, tamanho 40, negrito itálico ou normal, na cor amarela ou vermelha, conforme a cor da faixa por que optaram, com os seguintes dizeres:

ESTOU A TRABALHAR CONTRARIADO! ESTOU EM GREVE !


Não é permitido o seu uso fora dos locais de trabalho.
A Bem da Nação
(assinaturas ilegíveis)

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Greve Geral a 24 de Novembro

As duas centrais sindicais acabam de anunciar a realização de uma greve geral no dia 24 de Novembro.

Será apenas o primeiro passo para um processo de luta e de contestação ao verdadeiro roubo que está a ser feito aos portugueses e a primeira oportunidade para mostrar ao Governo que nos rouba que não estamos dispostos a ser permanentemente atacados nos nossos mais básicos direitos.

Não faltará quem diga que nada se resolve com greves, que o país precisa é de trabalho e não de greves, que são os comunistas que estão por trás disto. Não faltarão os que tudo farão para quebrar o ânimo daqueles que apenas têm a arma da greve para protestar contra os que os roubam e exploram.

Mas nós também não faltaremos à greve. Cá estaremos!

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Política

Novos sinais da Igreja Católica? A propósito da greve geral

“Um dia de greve é muito pouco. O povo português terá que se habituar a uma Democracia mais participada e mais responsável e manifestar-se não apenas nesta conjuntura mas também diante de determinadas leis que são prejudiciais para a sociedade” assim se expressou D.Jorge Ortiga, em representação da Conferência Episcopal Portuguesa a propósito da greve geral. Acrescentando que “É preciso muito mais que o voto“.

Pela segunda vez num curto espaço de tempo a Conferência dos bispos portugueses surpreende pelo vigor das suas posições em matéria político-social. Ainda há poucos dias a C.E.P., havia denunciado o escândalo das “remunerações, pensões e recompensas exorbitantes”, de que aqui se deu nota.

Durante muito tempo a Igreja Católica Portuguesa evitou tomar posições frontais sobre os problemas sociais em geral e laborais, em particular, que afectam as classes trabalhadoras nacionais. O empobrecimento generalizado para que a sociedade portuguesa está agora ser empurrada, parece ter acordado a hierarquia superior da Igreja Portuguesa de uma longa letargia histórica. Letargia que se fundava na sua tradicional ligação à defesa dos interesses das classes possidentes e à sua associação ao poder conservador-corporativista do Estado Novo. Foram os tempos de uma igreja cristalizada na época que antecedeu o aggiornamento do concílio Vaticano II (1962-65). Ressalve-se, também em abono da verdade histórica, que no interior dessa mesma igreja desde há muito que se movimentam sectores ligados às questões sociais das classes trabalhadores, casos da Liga Operária Católica ou da sua versão juvenil.

Parece assim estarem enterrados os tempos em que a incómoda voz de D. Manuel Martins, o emérito Bispo de Setúbal, era praticamente a única (salvo excepções bem conhecidas, como a do já falecido Bispo de Porto, Dom António Ferreira Gomes) que se distinguia no seio da hierarquia episcopal da Igreja Portuguesa na denúncia das situações de rotura social no mundo do trabalho. O que lhe valeu, aliás, o título de “Bispo Vermelho”. Facto que nunca o parece ter incomodado; postura que, com duas décadas de avanço, abriu o caminho que a Igreja parece agora querer trilhar.

A Igreja Católica, através das suas diversas entidades de intervenção social, conhece bem a realidade com que o país se confronta. E está presente a uma escala microscópica na sociedade através das suas paróquias. Exerce em paralelo uma importante acção de apoio social junto de vastos sectores da população. Segundo dados da Igreja, a partir de um inquérito realizado pela Universidade Católica Portuguesa, “As instituições sociais da Igreja Católica dão resposta a mais de meio milhão de situações de carência e empregam mais de 23 mil pessoas, um número que poderá ser maior, uma vez que o voluntariado, não quantificado”  – dados estes, já seguramente  desactualizados, dada a evolução registada ao longo deste ano.

Estranhava-se pois que esse profundo conhecimento da Igreja – que autoriza e fundamenta o exercício de um papel político – não se traduzisse em correspondentes posições públicas. Precisamos de uma Igreja que, com o peso da sua credibilidade, seja uma voz escutada pelos decisores, nomeadamente por aqueles que vêm nela uma referência fundamental para as suas opções e para a sua prática.

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Política

A voz do dono

Vi, estupefacto, o telejornal da tarde da RTP. A Greve Geral de 24 de Novembro, movimento laboral que, a crer nos sindicatos, movimentou milhões de pessoas, foi tratada a correr, com uma declaração da senhora ministra do Trabalho a abrir, pois claro, para nos dizer que isso dos milhões não é bem assim, ainda que não tenha dito quantos foram os grevistas, de acordo com a rigorosa análise governamental. Seguiram-se os líderes das centrais sindicais, a correr, e pronto, já está, que a minha política é o trabalho. O trabalho… e os assobios aos derrotados do Benfica à chegada ao aeroporto, tema que seguiu no alinhamento do jornal televisivo deste dia 25 de Novembro e que mereceu quase tanto tempo como a greve. Isso sim, até porque, como toda a gente a sabe, há em Portugal seis milhões de benfiquistas, encartados ou não, e, por isso, é muito mais notícia a abada ao pessoal da Luz, por muito que isso me contente, do que uns quantos maduros que se chatearam com o Governo.

Nas outras televisões, o tema da greve estendeu-se de tal forma que, continuava a RTP falava de Benfica, e ainda a SIC e a TVI continuavam a mostrar estações de metro encerradas, comboios parados, autocarros imóveis nas estações de recolha, aviões por partir, hospitais desertos, escolas fechadas. Jorge de Jesus, esse, mostrava semblante carregado. Certamente não por causa da greve…

Uma vez mais, a RTP comporta-se como a voz do dono, bem comportadinha e sem fazer ondas… É a tradição que vem de longe.

Ainda bem que sabemos que a Greve foi muito maior do que nos queria fazer crer a TV do Governo. Sabemos porque a vimos e estivemos nela.

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Política

Baralhar números

O governo analisa a greve geral.

Dois governantes de serviço.

Um, Helena André, nunca esquecer que fez carreira como sindicalista amarela, daí o ter sido escolhida para, evidentemente, maquilhar o governo.
O outro, Gonçalo Castilho, é cara (mal enjorcada, mas disso o coitado não tem culpa) de vários ataques descabelados aos trabalhadores da administração pública, debitando parvoidades à velocidade da luz, enquanto os ameaça torto e direito com a vergasta.

Falam dos números da greve geral.

A ministra tem uma saída fantástica, dizendo que a adesão à greve foi significativa e que variou entre os 5,9% e os 95%. Na frutaria ao lado da minha casa a adesão foi de 0%. Estavam lá os proprietários e únicos trabalhadores, um casal simpático que se queixava da crise. Um número à atenção da senhora ministra: a greve geral variou entre os 0% e os 95%. Espertalhona avança umas banalidades e escusa-se aos detalhes, atirando a bola para o secretário de Estado.

O homem não se fez rogado, é daquela estirpe de gajos sempre prontos a orientar a arrumação dos carros no parque de estacionamento de S.Bento, correndo para ser o primeiro a abrir a porta do automóvel do senhor primeiro-ministro e estar atento ao brilho dos sapatos.

Contra todas as evidências, depois de muitas contas que lhe deram a volta ao bestunto (o que deve ser difícil dada a quantidade, a qualidade é melhor nem ser referida) conclui com um número: a adesão foi de 22, 25%.

Já quase ninguém o ouviu. Um número que só será notícia no Inimigo Público.

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