No âmbito de um trabalho entre as disciplinas de História e Geografia de Portugal e de Português e em parceria com o museu do trabalho de Setúbal, foi apresentado aos alunos do 5.º ano da escola Luísa Todi, uma pequena biografia de Luísa Todi, a cantora na sua época e a sua ligação a Setúbal.
O museu do trabalho realizou e representou a peça de teatro “Luísa Todi apresenta-se”.
Para situar a cantora no tempo e a ligar à história de Setúbal, fiz este pequeno vídeo para os alunos e que aqui partilho.

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Let´s do it

Uma destas manhãs ouvi na rádio uma canção interpretada por Chico Buarque e Elza Soares, com o título “Façamos”.

Não me lembrava desta interpretação de Chico Buarque, embora a música e o tema não me fossem desconhecidos. Depois de uma breve investigação (é fantástico o poder da internet, para o bem e para o mal), descobri que era uma versão do original da canção “Let´s do it” do grande Cole Porter.

Continuei a investigação e só no fim percebi que o meu conhecimento desta canção não vinha do original de Cole Porter, mas sim de uma das minhas cantoras de eleição: Ella Fitzgerald.

Com este final de tarde tão húmido e cinzento a convidar a permanência no aconchego do lar, ouçamos estas duas versões do “let´s do it” ou como dizem Chico Buarque e Elza Soares: Façamos.

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Os reformados e os trabalhadores que paguem a crise!

“Chegou o dia em que um velho homem, já doente e muito cansado, teve de partir para a montanha. Assim era hábito quando chegava a hora da despedida deste mundo.

O filho carregou alguns mantimentos para o velho se alimentar durante uns dias e também uma manta para este se abrigar da noite. Os lobos encarregar-se-iam do resto se entretanto o frio não o fizesse. Era assim o fim de todos os velhos.

Chegada a hora da despedida, o pai disse ao filho para rasgar a manta ao meio e levar uma metade. Curioso com tal pedido do pai pergunta-lhe para que quer ele a metade que vai levar para casa. Consternado mas cheio de sabedoria, o velho diz ao filho que essa metade serviria para o dia em que também o filho do seu filho o levasse à montanha e o abandonasse para ali morrer.

Meditou o filho nas sábias palavras do pai e pegando-lhe no braço ajudou-o a descer a montanha.”

Os mais antigos lembrar-se-ão decerto desta história, que este bando que nos desgoverna se encarregou de atualizar e aplicar aos nossos tempos. Só que enquanto a “estória” nos revela um filho que acabou por agir de forma humana, a nossa realidade apresenta-nos um poder arrogante, cego, surdo e mudo, perante as dificuldades daqueles que entraram na derradeira fase da sua passagem por este planeta.

Não são decerto os idosos e os reformados os únicos vítimas deste desgoverno. Os trabalhadores por conta de outrem, funcionários públicos ou privados, também sentem na “pele” as malfeitorias que estes tipos impunemente cometem.

Qual BPN, qual BPP, qual BCP, quais Swaps, quais rendas pagas às energias, quais ordenados multimilionários pagos a alguns, qual aumento desenfreado da riqueza dos poucos já imensamente ricos em contraste com o aumento do número de pobres, qual assalto dos “boys & girls” aos cargos do estado, quais PPP, etc. Que tal ser liberal à custa dos dinheiros que se suga ao estado? onde está o Freeport? e os submarinos? etc. etc. etc.

Mas nada disso é importante. Este desgoverno constituído por marionetes, construiu e aplicou, a solução do agrado dos que verdadeiramente mandam: Os reformados e os trabalhadores que paguem a crise. 

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O(s) Panteão Nacional

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Um Panteão começou por ser um templo que os gregos e romanos consagravam a todos os deuses, sendo actualmente um edifício consagrado à memória dos homens ilustres e onde se depositam os seus restos mortais.

Em Portugal existem dois panteões nacionais. O de Lisboa, na igreja de Santa Engrácia, que passou a ter esta função a partir de 1916, e o de Coimbra, no Mosteiro de Santa Cruz, a partir de 2003.

 

O panteão em Coimbra deve este estatuto à presença tumular dos dois primeiros reis: D. Afonso Henriques e D. Sancho I.

 

No panteão, em Lisboa, estão sepultadas as seguintes personalidades:

 

  • Almeida Garrett, escritor (1799-1854)
  • Amália Rodrigues, fadista (1920-1999)
  • Aquilino Ribeiro, escritor (1885-1963)
  • Guerra Junqueiro, escritor (1850-1923)
  • Humberto Delgado, opositor ao Estado Novo (1906-1965)
  • João de Deus, escritor (1830-1896)
  • Manuel de Arriaga, presidente da República (1840-1917)
  • Óscar Carmona, presidente da República (1869-1951)
  • Sidónio Pais, presidente da República (1872-1918)
  • Teófilo Braga, presidente da República (1843-1924)

 

Este panteão abriga ainda os cenotáfios (monumento sepulcral erigido em memória de um morto sepultado noutra parte) de alguns dos grandes nomes da história de Portugal:

 

  • Nuno Álvares Pereira (1360-1431)
  •  Infante D. Henrique (1394-1460)
  •  Vasco da Gama (1460?-1524)
  •  Pedro Álvares Cabral (1467-1520)
  • Afonso de Albuquerque (1453-1515)
  •  Luís de Camões (1524-1580)

 

Tudo isto vem a propósito da grande discussão do momento: deve ou não o corpo de Eusébio ser sepultado no panteão nacional? Suponho que o de Lisboa.

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Devo confessar que não sou isento em relação a Eusébio. Foi, é e será um dos meus ídolos. Não têm conta os momentos de pura felicidade que ele me deu.

 

Pense-se a questão central: quem deverá ser sepultado ou estar simbolicamente presente no panteão nacional? Penso que todos concordaremos com a seguinte resposta: os grandes heróis ou mitos da nossa história.

 

Pelo que se tem dito e escrito nestes últimos dias pela grande maioria das pessoas, parece que Eusébio quase que faz a unanimidade: já entrou na categoria dos imortais. Utiliza-se normalmente, em relação a ele, o mesmo tipo de argumentos que serviram para levar Amália para o panteão nacional: foram os dois únicos faróis portugueses que se avistavam em todo o mundo durante o período fascista; são conhecidos em todo o planeta; a sua obra, os seus feitos são impossíveis de ser esquecidos; elevaram o nome de Portugal a um patamar de reconhecimento internacional que nenhuma personagem lusa no século XX conseguiu; estão profundamente enraizados no coração dos portugueses. Reconheço estes argumentos fortes e verdadeiros.

 

Depois aparecem os poucos que são contra. Utilizam o mesmo tipo de argumentos que serviram para tentar impedir o acesso de Amália ao panteão nacional: reconhecem o valor de cada um deles, a sua contribuição para elevar o nome de Portugal, mas … não passam de um simples futebolista ou de uma simples fadista. Por outras palavras, elevam o fado e o futebol a uma categoria menor. Importantes são os políticos, os escritores, e outros que tais. Não me revejo neste tipo de argumentação. Não existem actividades “maiores” e actividades “menores”. Existem pessoas “menores” ou “maiores” em cada actividade.

 

Este tipo de argumentos não devem, no entanto, ser vistos a “preto e branco”, pois senão teríamos também um movimento forte para levar José Saramago para o panteão nacional, principalmente por aqueles que consideram a escrita como uma actividade nobre, a “crème de la crème”. Saramago foi um dos maiores escritores de sempre em língua portuguesa. Terá algum defeito de fabrico … político.

 

Olhemos para os nomes daqueles que têm os restos mortais no panteão de Lisboa. Exceptuando Almeida Garrett e João de Deus, todos viveram mais ou menos anos no século XX e os anos mais importantes das suas vidas em termos de reconhecimento público foram passados no mesmo século.

 

Façamos agora um exercício de imaginação: pensemos num tratado histórico monumental, digamos de 1000 páginas, para a história do século XX português: que espaço ocuparia cada um deles? Será que teríamos de consultar a cronologia existente no final do livro para enfim aparecer o nome de algum deles? Façamos o inverso; um pequeno livro de 100 páginas que retratasse todo o século XX. Quem lá caberia?

 

Faça-se um exercício de imaginação ainda maior: um tratado de 9000 páginas, 1000 por cada século da nossa história enquanto país, pois já vamos com a venerável idade de 870 anos. Será que algum destes nomes nem na cronologia final teria lugar? E o contrário; toda a nossa história em 500 páginas. Quem lá apareceria?

 

Olhemos agora para os cenotáfios: alguém tem dúvidas que as figuras que simbolicamente representam têm lugar reservado em qualquer tratado da nossa história?

 

 Passemos para o panteão de Coimbra. Existirão dúvidas do lugar central que seria atribuído a D. Afonso Henriques? E mesmo D. Sancho I não teria direito pelo menos a duas ou três linhas para realçar o seu papel fundamental no povoamento das terras conquistadas aos mouros? 

 

Observemos os escritores que estão no panteão nacional, não para lhes tirar méritos, mas para reflectirmos sobre as razões de lá faltarem escritores como Gil Vicente, Eça de Queiróz ou o padre António Vieira. Não se sabe dos corpos? Coloquem lá os seus cenotáfios.  Não, não me esqueci de Fernando Pessoa, cuja ausência é para mim incompreensível.

 

Falando apenas nos casos recentes dos nossos mortos com estatuto nacional e mundial: será que Eusébio deveria ir para o panteão nacional? E Saramago? E Amália deve lá estar?

 

Devo confessar que não sei. Se fosse pela emoção, pelo sentimento, por tudo o que me deram, o que nos deram e pelo que deram ao país, diria já que sim, convictamente.

 

Mas o panteão nacional não é isso, não é o momento, a emoção fugidia, o cavalgar da onda. O panteão nacional deveria ser um lugar para homenagear os portugueses que se destacaram para lá do que se evidenciaram os portugueses extraordinários. O panteão nacional deverá ser um lugar de excelência ou corre o risco de se tornar um lugar banal.

 

Só existe uma forma de avaliar essa excelência: o tempo. Talvez uma geração, talvez duas gerações, se calhar mais, para se perceber a diferença entre a espuma dos dias, as notas de rodapé da história e o que fica para a eternidade.

 

Termino com duas notas de rodapé.

 

  1. A frase extraordinária da senhora que ocupa o segundo lugar da hierarquia do estado, como presidente da Assembleia da República, a explicar que o transladar um corpo para o panteão nacional saía muito caro. Infeliz pátria que tem figuras de topo que não sabem diferenciar entre dinheiro e valor simbólico.
  2. Agora que estamos quase a comemorar os 40 anos de Abril, este governo e os seus acólitos têm conseguido tirar o “25 de Abril” do panteão nacional e estão quase a lançá-lo para a vala comum. Talvez se enganem, não se esqueçam que temos um ditado que diz que a vida começa aos quarenta.

 

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A minha homenagem a Mandela é uma gota de água comparada com “o todo” que por aí anda, mas é feita de coração.
Leio os comunicados oficiais desses javardos que se governam à nossa conta e que de repente descobrem Mandela e logo botam discurso em nome do país, com uma “faladura” que se pode aplicar a qualquer personagem importante que morra, independentemente dos seus méritos.
Mas o que esses gajos não sabem nem sonham é que Mandela entrou definitivamente na categoria dos imortais. Mandela já não conta como ser mortal, entrou definitivamente na categoria dos que irão agitar gerações e gerações, pois representa uma ideia, um sonho, um aperfeiçoamento do ser humano.
A par de Gandhi, representa um ideal das ideias humanas, na forma de lidar com os seus inimigos. Curiosamente um ideal herdado do cristianismo, o perdão. Só que este perdão, esta aceitação do “outro”, é forjado na luta, na resistência, na negociação e também por vezes na não-violência.
Não falo de Mandela enquanto “Homem”, não me interessa essa faceta, falo dele enquanto símbolo.
O meu contacto com a luta do povo sul-africano contra o apartheid deu-se por volta dos anos 80, não sei exactamente quando. O despertar do meu conhecimento foi uma canção de Peter Gabriel, denominada Biko, em homenagem a um activista sul-africano, assassinado nas prisões da África do Sul. Curiosamente a mando de um governo que era apoiado pelo actual chefe da nossa banda, na época com o posto de subchefe. O actual subchefe, nessa época andaria provavelmente a traulitar as canções de um conjunto feminino foleiro, muito em voga nesses anos.
Steve Bantu Biko foi um conhecido activista do movimento anti-apartheid na África do Sul, durante a década de 1960. Nasceu em 1946 e foi assassinado em 1977 a mando do governo racista da África do Sul.
Ouçamos então uma versão dessa canção, cantada pelo próprio Peter Gabriel. Junto a letra em português da canção.

Setembro de 1977
Clima agradável no Porto Elizabeth
A rotina era a mesma
Na sala policial 619

Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Yihla Moja, Yihla Moja – O homem está morto.

Quando tento dormir à noite
Meus sonhos são vermelhos
Lá fora o mundo é negro e branco
Com apenas uma cor morta.

Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Yihla Moja, Yihla Moja – O homem está morto.

Tu podes assoprar uma chama
Mas não podes fazê-lo com uma fogueira
Uma vez que as fagulhas incendeiam algo
O vento as tornará maiores.
Oh, Biko, Biko, Por que Biko?

Yihla Moja, Yihla Moja – O homem está morto.
E os olhos do mundo agora estão vigilantes.

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Brotoeja

Existem coisas que me causam brotoeja e uma delas é o estado fascista português, em português suave denominado estado novo. Pensando na minha idade actual, chego à conclusão que uma quarta parte dela foi vivida no consulado de Salazar, Caetano e Tomás. 

Vi e vivi muita miséria, muita pobreza, ilhas de pobreza, bairros de lata com esgotos a correr a céu aberto em regos junto às barracas, pé descalço, crianças condenadas a serem miseráveis por causa da sua condição de nascimento, miséria como hoje não existe no nosso país (para lá caminhamos de novo). Soube de um tio preso e torturado pela pide, senti, embora ao longe, o colonialismo e a guerra colonial, o antiparlamentarismo (hoje de novo na moda), as garras afiadas da igreja católica … enfim comi muito bacalhau com feijão-frade (pelo menos não passei fome).

Portanto este apelo do gajo que se governa à nossa conta, para uma nova união nacional, sinónimo de fascismo, ausência de liberdade, prisões arbitrárias, miséria, deu-me uma sensação de náusea que pela minha experiência de vida já não deveria sentir, pois tudo é possível vindo de quem vem, sabendo que tem a cumplicidade do reformado manhoso que em tudo teoricamente manda.

 

PS: O Blogue Praça do Bocage tal como foi concebido pelos seus autores apresenta-se como um blogue e cito: “de conversa sobre o que nos dá na real gana … O que aqui se escreve apenas vincula o autor”.

Para mim isto é bem claro. Naquilo que aqui escrevo assumo a total responsabilidade. Nunca aqui escrevi e não vou escrever sob pseudónimo … até porque isso me causa brotoeja. 

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