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Grécia, a morte anunciada

OXI

O que, de certo modo pelo andar dos acontecimentos, seria expectável aconteceu. O Syriza abandonou a sua fachada de esquerda que a conservadora e reaccionária Europa adjectiva de radical, para assumir a sua matriz social-democrata.

Depois de fazer um referendo em que os gregos disseram claramente NÃO, Tsipras e o Syriza, a maioria do Syriza, aceitaram tudo, quase integralmente tudo o que a troika exigia. Aumento do IVA, grandes cortes nas reformas, privatização dos transportes, dos portos e dos aeroportos, etc. Uma capitulação em toda a linha, submetendo-se a todas as medidas que dizia rejeitar, depois de ter sido eleito com um programa em que afirmava que nunca iria aceitar. No Parlamento grego faz um discurso vergonhoso, trocando os pés pelas mãos, numa releitura miserável do resultado do referendo. Votaram NÃO às propostas da troika, mas NÃO votaram a favor da saída do euro. Para não sairmos do euro, temos que aceitar as medidas contra as quais se votou no referendo. Para a miséria moral, a vigarice intelectual ser completa, faz uma pirueta e inventa uma nova treta “este acordo levará a um programa europeu. O FMI terá apenas papel de consultor técnico. A troika, como a conhecemos, chegou ao fim.”. Para o quadro das tretas, mentiras e mentirolas ficar completo orgulha-se de evitar o grexit e de se ir discutir pela primeira vez a sustentabilidade da dívida, quando todo o mundo sabe que a dívida grega é impagável

Com o que vai desabar novamente sobre a Grécia, sem que o problema estrutural da dívida seja resolvido, o país vai entrar nos cuidados paliativos, com a morte anunciada. Ficará para sempre a lição de dignidade do povo grego que, contra todas as miseráveis  e violentas chantagens, votou NÃO, uma lição de democracia, de luta contra os poderes dominantes! O povo não cedeu. Cedeu o governo e o partido em que o povo tinha confiado.

Para uma certa esquerda que embandeirou em arco com o Syriza, as esperanças que se iria mudar a face política da Europa esfumaram-se com o desabar do castelo de cartas do programa Syriza. Esperanças infundadas se tivessem olhado atentamente as práticas do governo de Tsipras que nada fez para adquirir força nas negociações, Se atentassem ao seu demissionismo que os fez não se dotar com as ferramentas mínimas que seriam uma base, mesmo frágil, para reverter a situação catastrófica em que a Grécia estava mergulhada. Ferramentas e meios que tinham quando assumiram o governo e que desprezaram por vício ideológico, como referimos aqui no blogue.

Para a direita e direitinhas, o grande gozo de terem quebrado o Syriza. Verem-no de braço dado com a direita e centro-direita grego, a Nova Democracia, o Pasok, o To Potami, além do Anel, com quem já estavam coligados. É a alegria do triunfo da Europa, afirmando-se como um espaço não democrático. Da exibição pública de uma Europa subordinada ao grande capital e aos seus interesses financeiros, especulativos.

O Syriza colocou a Grécia em estado de coma profundo, ligada à máquina. Um dia, não será muito longínquo, a máquina será desligada para mal do povo grego. Farfalharem esperanças numa nova política que nunca existiu por não terem dado um passo, um só passo firme nessa direcção. Uma política de muitas parras sem um bago de uva, para entretém das hostes de esquerda por esse mundo fora. Uma política que enganou sem absolvição o povo grego, comprometendo o seu futuro. A História não lhes perdoará a traição.

Para a esquerda no seu todo, da mais firme à mais vacilante, é uma derrota. Para uns, o Syriza anunciava uma grande vitória sobre a Europa de burocratas sem alma nem sentido político, guiados por falsos pragmatismos que os transformam em eunucos de guarda ao harém do grande capital. O que não aconteceu, nem aconteceria. Para outros o abrir de uma pequena brecha na cidadela política e ideológica da CEE, do BCE, do FMI, fazendo entrever uma vereda no beco sem saída em que está estacionado em estado agónico o mundo actual. O que poderia ter acontecido.

Estes seis meses de tropeções, ambiguidades, vacilações Syriza, as ilusões que borboletearam, demonstram a actualidade do Radicalismo Pequeno Burguês de Fachada Socialista, de Álvaro Cunhal. Impõem-se reler a sua Introdução de uma meridiana clareza na análise ideológica e política que faz da emergência desses grupos, nos seus aspectos positivos e negativos.

Para a esquerda, para as esquerdas, analisar, estudar e perceber as lições syrizas é trabalho urgente. A História também não lhes perdoará se não o fizerem.

PS. Por cá, os porcos refocilam no chiqueiro. Numa das linhas da frente um idiota contabilista que agora julga que o decorrer dos sucessos lhe dão razão. Publica um tweet de um amigo o aconselhava a mudar de opinião em relação à Grécia. O amigo é um tonto como ele. Ele não mudou, nunca mudaria, nem mudará. A noz de massa cinzenta que lhe ocupa o crânio não lhe dá hipótese. Para ele um tweet: Zé, li o teu tesxto a agradecer o pacote de austeridade ao Syriza. Continuas estúpido como sempre! Nem vale a pena recordar-te que a dívida grega é impagável A dívida grega como a portuguesa, são impagáveis! É a verdade, estúpido! Impagáveis e com as políticas do PSD/CDS/PS/SYRIZA/PASOK/NOVA DEMOCRACIA ou outros quejandos, a agravar a vida de portugueses e gregos! A economia nunca sairá da cepa torta! As tuas contas são uma merda! Tentas enganar o pagode! Nem para isso tens jeito! Se tivesses alguma vergonha e um minimo sentido de auto-crítica já tinhas deixado de debitar parvoidades! O Brassens é que te topa , a ti e aos teus parceiros de ginjeira! 

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vigaristas,aldrabões e todos os outros ões

burro

Desta gente espera-se tudo! mesmo tudo! já nada nos devia espantar! A realidade ultrapassa sempre a ficção.

Ontem Paulo Portas, à boleia da crise grega, faz um discurso nas Jornadas parlamentares PSD/CDS digno de um vendedor da banha da cobra! Hoje ouve-se Passos Coelho tirar da cartola este coelho com mixomatose: “O discurso do medo era o trunfo do governo, os gregos destrunfaram esta maioria”

Nenhuma evidência trava esses vigaristas intelectuais, esses vendedores de vigésimos premiados que todos os dias vendem nos meios de comunicação social. Claro que o pano de fundo da comédia grotesca que essa gente caricata escreve, encena e representa, é o imenso fracasso das suas políticas austeritárias que nos empurram para o buraco grego. A transpiração de medo que a solução que for encontrada para crise grega, qualquer que seja, ainda que contra a vontade dos burocratas com sangue de barata instalados em Bruxelas, será a negação do que andaram a vender nos últimos quatro anos. O relatório do FMI, que  tentaram esconder, aponta nessa direcção. Mesmo que seja insatisfatória a solução, não deixará de haverá uma reestruturação da dívida e medidas para ultrapassar ima austeridade estúpida. Quem vende gato por lebre convencido que nunca será descoberto, continuará  a palavrear de mentirolas quase inocentes a gravosas e enormes mentiras. Há gente presa, há gente interdita por muito menos. A realidade é que haverá sempre gente que ainda compra a esses Oliveiras da Figueira (o homem que vendia frigorificos aos esquimós e sobretudos aoa congoleses) um automóvel em primeira mão. O pior é que é garantido que o carro não tem motor e a carroceria é de baquelite!
Oliveira da FigeiraMesmo o mais medíocre farsante, como são estes senhorecos, terá sempre espectadores, neste Portugal do Burro em Pé(*) . O Portugal visto tal e qual é. Uma sociedade desapiedada em que os pobres são abandonados, em que as crianças passam fome, em que os velhos são mesmo tratados como trapos. O Portugal de antanho que Passos Coelho  e Paulo Portas revisitaram e ressuscitaram.

Espera-se, deseja-se que a lucidez conquiste cada vez mais portugueses!

(*) Burro em Pé, José Cardoso Pires, publicado em Dezembro de 1979, pela Moraes Editores, ilustrada com pinturas de Júlio Pomar e capa de Sebastião Rodrigues.

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Syriza por lá e por cá

bandeira grega

O que se está a assistir na Grécia com o Syriza, não é novo. Pelo contrário, tem anos de histórias variantes que acabaram sempre em desastre. Constroem citadelas que dizem inexpugnáveis e acabam por ruir com maior ou menor estrondo, com maior ou mais graves consequências para o povo. O Syriza, desde que se transformou em partido, repetia proclamações que atearam as esperanças dos gregos submetidos à violenta austeridade imposta pela troika: “(…) nunca iremos baixar a cabeça, nunca iremos aceitar a continuação dos programas de austeridade(…) Se ganharmos estas eleições, o pessoal da troika nunca mais pisará o chão de Atenas . Tinha chegado a “Hora da Mudança” , palavra de ordem repetida à exaustão.

A crença na determinação do Syriza, ultrapassou fronteiras. Correu mundo. Os teóricas de uma esquerda moderna e alternativa, entre outros Naomi Klein, Toni Negri. Atílio Boron. Noam Chomsky, deleuzianos e guatarianos de várias cambiantes, embandeiraram em arco. Alexis Tsipras era o heroi libertador das esquerdas ortodoxas e dos extremismos esquerdistas, como se uma coisa e outra fossem compatíveis, apesar de todas as alianças tácticas, sempre possíveis. Finalmente, depois de tantas vezes anunciado e tantas vezes falhado, tinha chegado o Messias, o fundador da Esquerda do Século XXI A imprensa, dominada pelo capital, é bom não esquecer, colava o código de barras que garantia que o Syriza era um partido de esquerda radical. O New York Times chegou a escrever que Tsipras era o “Hugo Chavez helénico, capaz de tira a Grécia da União Europeia e romper com o euro”. coisa que ele nunca disse. Uma farandola bem ao gosto dos tempos que correm que se agarram às tábuas do acessório para que o essencial sobreviva.

Passada a euforia do triunfo eleitoral, triunfo ganho contra uma desenfreada campanha de chantagem sobre os gregos, reafirmadas as promessas de ir de peito feito contra a ditadura neo-liberal da troika, a dupla de argonautas pós-modernos, Tsipras e Varoufakis, irrompem Europa fora, embalados pela maioria conquistada. Quase dois meses decorridos o que resta? Pouco, muito pouco. A vaguíssima promessa de o ordenado mínimo ser aumentado a partir de Setembro, mesmo assim às fatias. Privatizar o que já estava decidido com o governo anterior, com a afirmação que não haverá mais privatizações o que, pelo vento que sopra, é bastante improvável. Voltar a repor um sistema de saúde e um programa de apoio aos desempregados e aos imensos pobres que os programas da troika fomentaram, o que continua em banho maria. Das bandeiras que desfraldaram durante três anos, os panos rompem-se, os buracos crescem ameaçam ser um enorme buraco. O Programa de Salónica do Syriza, Setembro de 2014, foi totalmente rasgado por Alexis Tsipras e Yannis Varoufakis quando, em nome de “um compromisso histórico em moldes europeus”, assinaram um Memorando, uma reedição, vagamente melhorada, do assinado pelo governo anterior da Nova Direita de Samaras.

É por demais evidente que o Syriza, não tem ideologia, não tem programa. Tem um discurso de ruptura que, na situação de países como a Grécia e países que enfrentam as crise económicas com programas de austeridade violentos e que se manifestam inúteis, é aliciante, resulta num momento, mas pode ter sequências que se podem revelar muitíssimo perigosas. Na medida em que o discurso vacilava capturado pela realidade, dizem deliciados os esmagados, uns mais outros menos, pelo pensamento único em todas as suas nuances, o que fica de uma suposto radicalismo de esquerda, é a imagem de Tsipras e Varoufakis desengravatados no meio dos hirtos e engravatados burocratas e políticos europeus. Fica uma imagem de marca, muito pouco para as esperanças que o povo grego neles depositou, com ecos em muitos outros povos europeus, embalados por um fraseado de fachada revolucionária contra os bombardeamentos neoliberais. A contestação na Grécia a essa submissão do Syriza aos programas de austeridade atrelado ao euro, inicialmente corporizada pelo Partido Comunista Grege (KKE), que desde o primeiro minuto denunciou as ilusões semeadas pelo Syriza, alastra ao próprio Syriza, onde as organizações de esquerda que o integram, dos vários grupos trotskistas aos maoistas, dos revolucionários do KEDA aos grupos ambientalistas e feministas, votaram contra o acordo assinado com as instituições, um nome mais aceitável para a troika, e começam a vir para a rua, contestando o fracturado Comite Central do Syriza.

Anote-se que mesmo esse discurso de ruptura frágil, como se veio a demosntrar, colocou em polvorosa os troca tintas coelhos e rajoys, roxos de raiva a assistirem aos deplantes iniciais daqueles gajos quem têm o que eles não têm: apoio popular e tomates, apesar de muito pequenos como agora se vê, e o apoio popular se estar a evaporar

Limpo o palavreado de radicalismos, o Syriza revela-se o que sempre foi. Um partido social democrata mais à esquerda que os seus pares europeus, mas que não trai a sua matriz, a não ser na fraseologia e uns deslavados laivos eurocomunistas, colhidos quando os eurocomunistas já não se faziam passar por comunistas,

Desde sempre mostrou incapacidade em propor mudanças estruturais. Nunca considerou essencial acabar com a propriedade privada de sectores chave da economia como as finanças ou a energia. Nunca percebeu que o grande capital especulativo capturou as economias de todo o mundo. Que a chamada dívida soberana, nos tempos que correm em que os Estados deixaram de ser soberanos, é utilizada para sustentar o grande capital financeiro. Que utilizam os programas de austeridade, os ajustamentos e umas proclamadas reformas estruturais que , tudo junto mais não é que processos de cortar drásticamente os direitos sociais, precarizar o trabalho, tirar rendimento aos trabalhadores, aos pensionistas, aos pequenos e médios empresários. Dinheiro que desaparece da economia e não se sabe para onde vai. Ou antes sabe-se, desaparece nos labirintos complexos que os grandes megapólos financeiros construiram para o ocultar. Quer dizer, no papel até parecia saber embora logo aí tenha abdicado de ser governo com poder real, porque, com eles, o poder económico continuaria em poder dos menos de 1% da população grega onde se acoitam os grandes fugitivos ao fisco. Por vício ideológico, o Syriza nunca percebeu que sem a detenção de poder económico, o poder real é sempre reduzidíssimo. Que se, o poder económico continua nas mãos dos grandes grupos financeiros, industriais, do grande comércio, o verdadeiro poder está nessas mãos, que dominam o poder judicial, o poder financeiro e económico, os grandes meios de comunicação social. Esse um problema com que se debatem, ainda hoje, as revoluções bolivarianas, apesar dos avanços feitos. Por isso estão debaixo do fogo do capitalismo imperialista que os quer derrubar antes que se consolidem.

O resultado é esta capitulação, em quase toda a linha, perante os próceres neo- liberais.

Dos escombros dessa fragorosa derrocada, fica a alegria retórica dos fogachos. Finalmente discutiu-se política, dizem políticos, comentadores políticos, comentadores dos comentadores políticos, salivando nostalgias! Discutiu-se? Ou foi mais fraldas de fora?

Por cá, neste Portugal/ feira cabisbaixa/ meu remorso/ remorso de todos nós, os nossos syrizas, por mais que encham o peito de syrizices, nem arriscam. Sentam-se à sombra do Partido Socialista, prudência e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém que queira ter a garantia de trilhar as estradas conhecidas, talvez com menos pedras e buracos, da Europa Connosco com o socialismo engavetado! O que se pode inferir, com toda a propriedade, ao espremer as declarações de António Costa, quando foi anunciada a vitória do Syriza nas eleições gregas “A vitória do Syriza nas eleições na Grécia é “mais um sinal” da mudança da orientação política que está em curso na Europa(…)É mais um sinal da mudança da orientação política que está em curso na Europa, do esgotamento das políticas de austeridade da necessidade de termos uma outra política que permita fazer com que a moeda única seja efetivamente uma moeda comum” Foi esse o caminho que Tsipras e Varoufakis seguiram com os resultados que estão à vista. O necessário não é uma mudança de orientação política é uma MUDANÇA DE POLÍTICA!

Voltando às viagens na nossa terra, ao Bloco de Esquerda, Livre e o alfobre de partidos e associações que estão a surgir como cogumelos, à sombra cada vez mais reduzida dos syrizas europeus. É patético ouvir e ver os danieis oliveiras, os ruis tavares, joanas e anas mais a restante tropa fandanga muito bem acolhida e protegida pela comunicação social estipendiada, que aquilo é gente gira que só faz cócegas ao poder. Parafraseando Luiz Pacheco na Carta a Gonelha: o que eles querem sabemos nós de ginjeira: tachos e cacau.

A abdicação do Syriza, a humilhação que lhe estão a impor, Schaulbe esfrega as mãos em público por Merkel não o poder fazer, é uma derrota para a esquerda, o que não pode alegrar ninguém que seja de esquerda, mas é um motivo para vasta e funda reflexão.

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Pior cego é aquele que não quer ver

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Quem fala verdade?

“Pecámos contra a dignidade dos povos, especialmente na Grécia e em Portugal, e muitas vezes na Irlanda” – Jean-Claude Juncker.

“A dignidade de Portugal nunca esteve em causa durante o processo de ajustamento e a dignidade dos portugueses também não.” – Pedro Passos Coelho.

Depois da hecatombe que se abateu sobre os portugueses com o memorando da troika, P. Coelho tem a desfaçatez de desmentir um dos principais responsáveis pelo atentado, J-C Juncker, o anterior presidente do Eurogrupo.

De desfaçatez foi também o papel que uma ministra do governo português se prestou a desempenhar contra a Grécia, um Estado aliado. Acolitando o ministro alemão  Schauble, foi bem o exemplo da indignidade e da falta de espinha de quem representa um país.

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A Grécia, a CEE os seus mandantes, seus mandaretes e monicas lewinskis

A ESPERA DOS BÁRBAROS

— Que esperamos na ágora congregados?

 

Os bárbaros hão-de chegar hoje.

Porquê tanta inactividade no Senado?

Porque estão lé os Senadores e não legislam?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje.

Que leis irão fazer já os Senadores?

Os bárbaros quando vierem legislarão.

 

Porque se levantou tão cedo o nosso imperador,

e está sentado à maior porta da cidade

no seu trono, solene, de coroa?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje.

E o imperador espera para receber

o seu chefe. Até preparou

para lhe dar um pergaminho. Aí

escreveu-lhe muitos títulos e nomes.

 

— Porque os nossos dois cônsules e os pretores

saíram hoje com as suas togas vermelhas, as bordadas

 

porque levaram pulseiras com tantas ametistas,

e anéis com esmeraldas esplêndidas, brilhantes;

porque terão pegado hoje em báculos preciosos

com pratas e adornos de ouro extraordinariamente cinzelados?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje;

e tais coisas deslumbram os bárbaros.

 

– E porque não vêm os valiosos oradores como sempre

para fazerem os seus discursos, dizerem das suas coisas?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje;

e eles aborrecem-se com eloquências e orações políticas.

 

– Porque terá começado de repente este desassossego

e confusão. (Como se tornaram sérios os rostos.)

Porque se esvaziam rapidamente as ruas e as praças,

e todos regressam as suas casas muito pensativos?

 

Porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.

E chegaram alguns das fronteiras,

e disseram que já não há bárbaros.

 

E agora que vai ser de nós sem bárbaros.

Esta gente era alguma solução.

                                                               Konstandinos Kavafis

(tradução Joaquim Manuel Magalhães/Nikos Pratsinis)

ovelhas

 

Os cônsules, pretores que entre dois partidos sozinhos ou coligados, se sucediam na Grécia, impondo ao povo grego as soluções dos bárbaros foram democraticamente derrotados. As iníquas reformas estruturais, um saco de mentirolas que nada reestrutura e tudo destrói,  que garrotavam a economia, aumentavam a dívida, mantinham os privilégios da oligarquia, aprofundavam  a corrupção, atiravam cada vez mais gregos para a miséria e o desemprego, foram democraticamente derrotadas. Quem venceu pelo voto, propõe outro caminho para sair da crise, caminho dentro do quadro político, económico e social dos bárbaros. Nem isso os bárbaros aceitam. Inquietam-se porque não querem que seja sequer possível pensar que há outras saídas para a crise económica dos países que se debatem com dívidas que são impagáveis, consequência da crise mais geral da Europa tatuada no sistema que se arrasta agónico mas que se julga eterno, sem alternativas.

Governantes e seus sequazes querem ditar, impor as suas leis sobre os países devastados por uma estúpida cegueira que alimenta os oligopólios financeiros, promove uma crescente desigualdade social, instala um desastre económico e social de proporções inquietantes. Mentem manipulando as estatísticas para travestir o desastre. Mentem. mentindo sempre e, sem pudor,  fazem circular a mentira por uma comunicação social mercenária ao seu serviço.

Na CEE, os países que se sujeitaram às receitas das troikas, viram as suas dívidas em relação ao PIB aumentar exponencialmente entre 2007 e 2014. Irlanda 172%, Grécia 103%, Portugal 100%, Espanha 92%. A dívida mundial que em 2007 era de 57 biliões de dólares, em 2010 foi de 200 biliões de dólares, ultrapassando em muito o crescimento económico. Tendência que continua o seu caminho para o abismo, em benefício dos grandes grupos financeiros, entrincheirados nos chamados mercados. O chamado serviço da dívida, os juros, são incomportáveis. São esses os êxitos de uma política cega submetida à ganância usuária que não tem fronteiras ou qualquer ética.

Os governos deixaram de estar ao serviço dos seus povos, nem estão sequer dos seus eleitores. São correias de transmissão dos oligopólios financeiros que se subtraem a qualquer escrutínio democrático ou outro de qualquer tipo. Traçam um quadro legal que os suporta e legitima a ilegitimidade. A democracia é uma chatice, um entrave, um pauzinho nessa gigantesca engrenagem que nos atira barranco abaixo, com efeitos devastadores para a humanidade. Nada interessa a não ser o lucro de quem especula sem produzir nada. As pessoas são uma roda nessa engrenagem.

chaplin

Charlie Chaplin, TEMPOS MODERNOS

Quem não caminha ordeiramente nesse rebanho, quem se opõe, mesmo que mandatado e sufragado democraticamente, é considerado irresponsável, como disse o ogre Wolfang Schauble, ministro da economia da Alemanha, em relação à Grécia. As suas enormidades ecoam pela boca dos seus bufões, das suas monicas lewinskis por todos os cantos de uma Europa submissa aos diktats do bando de arruaceiros financeiros que rouba a tripa forra países e povos. Em Portugal, as nossas monicas lewinskis são mais fatelas, mais rascas com se tem visto e ouvido de Cavaco a Passos Coelho, de Portas a Pires de Lima mais a matilha dos seus sarnentos rafeiros de fila. Espumam raiva, ódio dos ecrãs televisivos às ondas radiofónicas. Quem se atreve a riscar, ainda que levemente, essa realidade em que nos enforcam é logo atacado e silenciado quanto baste por essa matilha de pensamento ulcerado.

Os burocratas europeus dogmáticos, leitores e intérpretes da cartilha neoliberal dizem que a realidade é assim mesmo! Será?

A realidade nunca é a realidade que nos querem impingir como Aragon tão bem descreveu. Há mais vida para lá desse biombo com que a querem esconder qualquer luz, mesmo bruxuleante, de esperança para a humanidade.

ISTO È UMA OVELHA,escultura de João Limpinho

 

AS REALIDADES

Era uma vez uma realidade

com as suas ovelhas de lã real

a filha do rei passou por ali

e as ovelhas baliam que linda ai que linda está

a re a re a realidade

Era uma vez noite de breu

e uma realidade que sofria de insónia

então chegava a fada madrinha

e placidamente levava-a pela mão

a re a re a realidade

No trono estava uma vez

um velho rei que muito se aborrecia

e pela noite perdia o seu manto

e por rainha puseram-lhe ao lado

a re a re a realidade

 

CODA: dade dade a reali

dade dade a realidade

A real a real

idade idade dá a reali

ali

a re a realidade

era uma vez a REALIDADE.

Aragon

(tradução António Cabrita)

ceci nést pas une pipe

pintura de Magritte

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Política

Saída? E limpa?

O guião requeria um final feliz para os protagonistas instalados no poder em Portugal e na UE. Por isso o final do memorando de entendimento com a troika foi classificado como “saída limpa”. Quanto à sua relação com a realidade, é como se a melodia que nos dão a ouvir não correspondesse às notas escritas na pauta.

Primeiro.

Porque foi forçada pelos nossos parceiros europeus, com a Alemanha à cabeça, mais preocupados com as respetivas situações nacionais que com a propalada solidariedade. Uma saída sem “a rede” de um “apoio cautelar” – coisa que, aliás, também nunca se percebeu o que seria.

Desde há tempos que era previsível a indisponibilidade europeia – já o tinha sido aquando da “saída limpa” irlandesa. O que induziu o Governo a constituir uma reserva financeira que dará para um ano, dizem P. Coelho e M. Luís Albuquerque, com o país a suportar elevados custos em juros para manter a “almofada financeira”.

Uma saída assistida seria ainda a confissão de um falhanço que a troika não quer ver e cuja responsabilidade também não quer assumir.

Segundo.

Apesar da recente evolução positiva de alguns indicadores, nomeadamente a inversão da quebra do PIB, que se prolongou por dez (!) trimestres, e da taxa oficial de desemprego, a situação económica e financeira mantém-se em estado crítico.

No final do ano passado a contracção total da economia reportada ao final de 2010 era de 5,83% e a taxa oficial de desemprego, então cifrada em 16,3%, estava 5,5% acima da verificada três anos antes. Isto é, mais 273 mil e trezentos desempregados! E mesmo à luz dos critérios do pacto orçamental atente-se no rácio da dívida que se situa próximo dos 130% do PIB.

Terceiro.

A mesma ganancia do “efeito de manada” que conduziu os mercados financeiros a cobrarem altas taxas de juro à dívida pública portuguesa em 2011, está agora a conduzi-los a valores historicamente muito baixos. Não só para a dívida portuguesa como para as de todos os outros países sob “resgate”. Mesmo que as agências de rating continuem a classificá-las de lixo…

Há pois um momento de acalmia nos mercados da dívida soberana que ninguém sabe quanto tempo durará.

Quarto.

“O país está melhor” dizem algumas luminárias do Governo, apesar de haver hoje muitos mais portugueses a viverem muito pior que antes do “ajustamento”. O desemprego aumentou massivamente. A emigração aumentou massivamente. As falências aumentaram massivamente. Os imigrantes estão de regresso aos países de origem.

A pobreza agigantou-se e as filas para a sopa do Sidónio avolumam-se enquanto diminuem os apoios sociais a desempregados e outros sectores vulneráveis. Fecharam-se serviços e impuseram-se taxas elevadas. Venderam-se importantes activos estratégicos nacionais por meia dúzia de patacos. E mais se perspectiva – até a água.

Quem pode, ou a isso é obrigado, emigra. Nomeadamente jovens com formação superior – coisa de partir o coração. E o país envelhece ainda mais rapidamente do que antes!

Quinto.

O trabalhador foi e continua a ser a principal vítima. O “ajustamento” foi feito à custa de um “enorme aumento de impostos” (Vítor Gaspar dixit), sobretudo sobre os rendimentos de trabalho. Mas também pelo desinvestimento em amplas áreas de interesse público, de onde se destacam os cuidados de saúde e conexos.

Os trabalhadores do sector público, nomeadamente os das Administrações Públicas, os reformados e pensionistas foram (e são) dos mais flagelados com sucessivos cortes de salários e de pensões. A que numa clara manobra demagógica juntaram, para os funcionários públicos, o aumento de horário de trabalho, assim ampliando o efeito de perca de rendimento. Sem a intervenção corretora do Tribunal Constitucional teriam também eles teriam engrossado as filas de cidadãos às portas dos Centros de Emprego.

Mas, como já se percebeu, esta será a mesma carne para canhão que, tal como tantas vezes no passado, será utilizada para brilharetes governamentais em vésperas das eleições que se aproximam. Por isso dizem alguns em tom jocoso que deveriam haver eleições todos os anos.

Sexto.

O “resgate” acaba no dia 17 de Maio! O “resgate” continua no dia seguinte…

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Geral

O socialismo democrático do Clube Bilderberg

tumb

(imagem)

Bem pode o PS fingir que está interessado em convergências à esquerda, que está preocupado com o crescimento e o desenvolvimento económico do país e com a necessidade de libertar o povo português das políticas de austeridade e recessão.

Bem podem determinados sectores do PS, mais experientes nestas coisas de no momento certo (leia-se na oposição e a precisar de ocupar lugar à esquerda) mascararem-se de socialistas, aparecer em Encontros com as esquerdas e fazerem uns discursos inflamados contra os senhores da finança e a direita.

Se mais provas e argumentos fossem necessários para caracterizar a social-democracia portuguesa e o seu Partido, o PS, a sua opção de classe e os seus compromissos com o capital e a direita, a sua total convergência com o Pacto de Agressão assinado com a troika, com as políticas da União Europeia e a sua identificação com os interesses dos grandes grupos económicos e com esta notícia tudo ficaria esclarecido.

Por mais que tentem retocar a imagem, já a máscara caiu por completo há muito.

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Política

Encenações

mascaradosPolítica e teatro têm muito em comum. Infelizmente algumas das principais encenações políticas a que temos assistido ultimamente são bastante medíocres, destinando-se apenas a esconder o óbvio – o completo fracasso do chamado programa de “ajustamento” e a desorientação dos governantes.

Atenhamo-nos às encenações mais recentes.

Tribunal na fogueira

O “chumbo” de quatro normas do orçamento do Estado para 2013 pelo Tribunal Constitucional não foi sequer uma surpresa. O aviso já vinha de semelhante declaração em normas orçamentais de 2012, embora o Governo tivesse então beneficiado do “bónus” de as respetivas consequências financeiras não terem aplicação prática – ao invés do agora acontece.

O TC foi rapidamente transformado, pasme-se, no responsável pelo previsivel falhanço da recuperação económico-financeira do país. Para acentuar o dramatismo e pressionar o Tribunal, Passos Coelho havia já anunciado que não haveria plano B – viu-se agora o quanto isso era pouco avisado ou mesmo falso. Pouco faltou para o TC ser atirado para a fogueira pelos partidos da maioria parlamentar e pelos seus diligentes comentadores televisivos. Curiosamente numa decisão em que não se manifestou a tradicional distinção entre juízes de esquerda e de direita.

Com o país suspenso das palavras do primeiro-ministro, Passos Coelho anunciou em tom dramático e solene que iria deslocar-se em peregrinação ao Palácio de Belém. Assim o fez, com os resultados pífios que se viram – alguém verdadeiramente esperaria que o seu compagnon Presidente Cavaco Silva retiraria a confiança a um primeiro-ministro que, por duas vezes, violava de forma tão grosseira a Constituição que ele, Cavaco Silva, jurara cumprir e fazer cumprir?

Mas a encenação produziu os seus efeitos: para os espectadores menos atentos os juízes do TC eram uns irresponsáveis.

Quereriam o quê? Que o Tribunal Constitucional prescindisse do exercício das suas funções e deixasse passar inconstitucionalidades flagrantes? Até parece a estória do criminoso que acusa o juiz dos crimes que ele próprio cometeu. Que gente mais insana e perversa!

Pas de deux

Perdidos e atordoados pelos seus sucessivos falhanços e por terem atirado a economia para o fundo – nem sequer podem culpar a oposição, minoritária no parlamento, enquanto beneficiam ainda de um plácido mas ameaçador “sossego” social – aparecem-nos agora com uma outra encenação. A encomenda foi certamente dos credores.

A narrativa encomendada é agora a de retomar o casamento entre o PS e o Governo, tendo por primeiro e último fim convencer os portugueses a aceitarem pacificamente e sem resistência a continuação do massacre e do descalabro resultantes da aplicação do memorando com a troika.

É verdade que chegou a haver casamento, mas os cônjuges cedo se começaram a afastar. A. José Seguro deixou de ver vantagens em continuar uma relação de saldo negativo, isto é, não estar no Governo e não ter as vantagens de ser oposição. Por isso tudo tem feito para o divórcio, até uma moção de censura… atada a uma carta de “conforto” para os soberanos poderes europeus.

O outro cônjuge, Passos Coelho, também de há muito que se desinteressou do romance. Com pouca paciência para aturar as “necessidades de ser oposição” do seu parceiro, deixou de com ele conviver, tendo-lhe mesmo feito algumas desfeitas, deixando de o convidar para chá e bolos.

Mas os padrinhos FMI, BCE e UE estão renitentes e chamam-nos agora à razão. À razão deles, padrinhos, entenda-se. Tratam pois de tentar levar os socialistas ao redil. A ver vamos o resultado. Mais uma vez A. J. Seguro quer ter um pé dentro, ser fiel ao memorando e ao programa de “ajustamento”, e ter o outro pé fora, ser oposição e capitalizar votos. Vai ter escolher.

E lá esteve o país suspenso de tanta emoção!

Estamos num beco sem saída. Enquanto o FMI-bom já avisou urbi et orbi que a persistência em políticas de austeridade na Europa apenas acentua a crise e a recessão, o FMI-mau, com a UE e o BCE à sacola, manda carregar na austeridade, na recessão e no afundamento da economia e do país. Pelo meio um Governo desacreditado, abatido pelos sucessivos falhanços, corroído internamente e incapaz de ver a realidade e de se assumir como o representante do povo que o elegeu.

E, também já todos percebemos, que a receita concebida pelas luminárias da troika, tão diligentemente levada à prática pelos seus “bons alunos” portugueses, é um fracasso total: a dívida, o desemprego e os impostos continuam a aumentar, o PIB e os rendimentos a diminuir, etc, etc.

É que com maus professores e maus programas é muito, muito difícil haver bons alunos.

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O INAUDITO REGRESSO AOS MERCADOS

SLAVE MARKET   Em Portugal ainda se vive a ressaca de ontem! Voltámos aos mercados! Ouviram bem, voltámos aos mercados, berrava e continua berrar a comunicação social estipendiada ao serviço dessa manobra de propaganda !!! Com tanta notícia, um frémito orgástico atravessou como um ciclone o país! Os mercados refastelavam-se pelas faldas das terras lusitanas abrindo as pernas sem pudor! Finalmente tinham voltado para grande alegria e festança governamental e dos seus patrões conhecidos e ocultos.

As notícias de alguns incidentes não ensurdeciam os acordes que se faziam ouvir anunciando a boa nova. Nem o desastre de um investidor enlouquecido de euforia a cavalgar os quinhentos cavalos do seu Ferrari rumo ao leilão de dívida pública a cinco anos colocada no mercado pelo governo português, que se despistou quando um cisco das faíscas provocadas pela actividade frenética despoletada por essa emissão nos mercados, lhe entrou olho dentro atravessando a cabeça, saindo disparada para o paraíso da especulação onde disparou o alarme da boa nova: Portugal tinha voltado aos mercados. Nem o gigantesco engarrafamento que provocou e impediu milhares de portugueses de chegarem a tempo de manifestarem a sua alegria no Terreiro do Paço.

Em São Bento o primeiro, com a sua voz de barítono hesitante, rezava acocorado debaixo da secretária: Mercados nossos, que estais algures; venham a nós os vossos investimentos; cobrem-nos os juros que quiserem, agora e sempre. Os investimentos de cada dia nos dai hoje; especulem o que puderem porque nós estaremos sempre de cu para o ar recebendo as vossas ordens de compra, não nos abandoneis mais nem nos livreis do vosso mal. Ámen que vou convocar um Conselho de Ministros de celebração e para saber o que andaram a fazer para comemorar tão magno acontecimento.

O ministro da Solidariedade e Segurança Social convocou uma marcha de todos os desempregados para irem a pé a Fátima, rezar no altar dos Mercados. A sua esperança era que sendo muitos e estando muito deles no limite do escanzelamento, os óbitos equilibrassem as contas cumprindo as metas do FMI. Nos gabinetes faziam-se previsões. Colocam-se as metas a atingir. Calculava-se que acelerando o passo o número de óbitos poderia ter um crescimento positivo na ordem dos 5 ou 6%. Transmitiam-se ordens para marcar o ritmo do andamento.

Ao Ministério da Saúde chegavam números promissores. A exaltação provocada pela chegada aos mercados provocara uma afluência inusitada nas urgências dos hospitais. Apoplexias, ataques cardíacos, violentas arritmias tinham originado essa correria. Muitos não seriam atendidos por não terem meios para pagar as taxas moderadoras. Os mortos juncavam as portas das urgências, O ministro pedia números para transmitir rapidamente aos seus pares para se fazerem os cálculos de quanto se ia, no imediato, poupar em pensões. Paralelamente arrepelava os cabelos. Tivesse tido a coragem de aumentar mais cinco cêntimos as taxas, os números seriam muitíssimo melhores.

O ministro da Economia e do Emprego estava descoroçoado. Os número diário das falências mantinha-se estável, perto de 65. Devia ter aumentado uns 2, 3% assim não tinha serviço para mostrar, uma chatice num momento daqueles em que todos os seus pares mostravam trabalho, empenho e sabiam de cor a cartilha do FMI. Sentia-se um cábula, ele professor emigrado numa obscura universidade, só não tão obscura por estar do outro lado do Atlântico.

No Terreiro do Paço a multidão era compacta. Nunca tanta gente, nem mesmo com o Tony Carreira, tinha acorrido aquele espaço para festejar o regresso aos mercados. A gritaria era mais que muita.

Mães elevavam as crianças nos braços para que os mercados as vissem e, se possível, as abençoassem. O ministro do Estado e das Finanças discretamente espreitava entrincheirando atrás dos cortinados o seu sorriso salazarento. Gaguejava telefonicamente o relato do estado de excitação da nação aos ouvidos do FMI, congratulando-se com o bom rumo dos acontecimentos que tornavam obsoleto o seu último relatório. A ida aos mercados alterara positivamente a situação, A confirmarem-se os números já disponíveis o número de pensionistas tinha baixado radicalmente tornando a segurança social quase sustentável. O número de utentes do SNS levara um corte substancial. Iam-se poupar milhões na saúde.

Com a festa que decorria à frente do seu ministério muitas mães e pais tomados de arrebatamento largavam crianças que caiam ao rio sem que ninguém ou quase ninguém desse por isso tal o alarido que fazia confundir os gritos de aflição com os de alegria. Mandara discretamente os seus assessores ao telhado do ministério para fazer uma estimativa das crianças que eram tragadas pelas águas. Iria comunicar o número ao Ministro da Educação do Ensino Superior e da Ciência para se avaliar quanto se iria poupar nos próximos anos com este sucesso, extensível a outras capitais de distrito, por informações filedignas que chegavam hora a hora ao seu ministério.

Todos esses acontecimentos davam grande satisfação a quase todos os governantes: Nem todos. Os moedeiros falsos que
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Política

Movimentos sociais orgânicos e inorgânicos

O deputado do PSD Carlos Abreu Amorim disse, na AR, que, a manifestação do passado sábado (15 de setembro), foi uma “manifestação de desilusão, não tanto com o Governo ou com a situação última (?), mas, sobretudo, (com) uma desilusão com a política e (com) os caminhos que a nossa democracia tem tomado nos últimos anos”. Para aquele deputado “aquela não foi uma manifestação do BE, do PCP, do PS ou de um sindicato. Aquela manifestação não tem dono, não pode ser titulada, não pode ser apropriada por ninguém, porque isso seria falsear por completo os desígnios da esmagadora maioria das pessoas que se manifestaram”.

Também o primeiro-ministro se pronunciou, embora de forma menos burilada, dentro da mesma linha de argumentação.

Este tipo de discurso político, em que não será difícil descortinar uma autodefesa em estado puro de negação, exige, contudo, uma análise mais profunda da atual situação política e social e, neste caso, daquilo que representam os movimentos sociais inorgânicos e, sobretudo, saber como poderão eles, por si próprios, operar transformações progressistas que se sobreponham às políticas neoliberais.

Esta análise é importante também numa outra vertente, que é a de saber como devem atuar as organizações político-partidárias e sindicais, histórica e ideologicamente mais importantes e coerentes. Com particular destaque para o PCP e a CGTP-IN.

Antes, porém, dizer que as manifestações de vigoroso repúdio têm alvos inquestionáveis: o atual governo, a política por ele prosseguida, e os ditames da Troika expressos no Memorando, conhecido como Pacto de Agressão!

E, portanto, dizer-se que “aquela não foi uma manifestação do BE, do PCP, do PS ou de um sindicato” e que, por isso, “não tem dono”, sendo verdadeira, destina-se, apenas, a chutar a bola política para fora. Aliás, o referido deputado do PSD não hesita em ir mais longe dizendo que se tratou de uma “manifestação de desilusão, não tanto com o Governo ou com a situação última, mas … com a política e com os caminhos que a nossa democracia tem tomado nos últimos anos”, dando gás à perigosa deriva que por aí grassa contra “os políticos, a política, e a democracia”, metendo tudo e todos no mesmo saco e abrindo portas a soluções antidemocráticas, eventualmente de cariz tecnocrático. Continuar a ler

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Política

Vai-se a ver e ainda somos nós os culpados…

Ou porque trabalhamos de menos, ou porque ganhamos demais, ou porque não pagamos mais impostos, ou porque não abdicamos das férias, ou porque pagamos pouco de renda da casa, ou porque consumimos de menos, ou porque comemos demais, ou porque vamos muito ao hospital, ou porque gastamos muitos remédios, ou porque…

Ou por tudo isto junto

Culpados é que eles não são: a troyka e o governo.

Pois…

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economia, Política

Crónica de um desastre anunciado

De vitória em vitória até ao desastre final bem parece ser o que caracteriza o rumo do país no último ano e meio. Entenda-se por vitórias os aumentos de exportações, ou a diminuição das taxas de juro exigidas à dívida soberana e por desastre o cortejo de flagelos associados à recessão em que o país está mergulhado.

Tempo de balanço, agora que a troika nos inspeciona pela quinta vez.

E o mundo mudou

A verdade é que Sócrates acertou quando num belo dia de Maio de 2010 subitamente reparou que o mundo tinha mudado. E o que é que tinha mudado? Forçados por uma crise financeira nascida no outro lado do Atlântico mas que rapidamente se propagou à economia real, os Estados membros da UE, mais pobres ou mais ricos, foram estimulados a injectar capitais nas suas economias. Não dispondo desses meios financeiros, o recurso ao crédito continuou a ser a via rápida. Pouco tempo se passou para que a fúria especulativa dos mercados (os famosos algoritmos!) desabasse sobre os países com economias mais frágeis, sob a forma de elevadas taxas cobradas pelo financiamento das dívidas soberanas. Foi pois quando já tudo desabava que Sócrates e os seus ajudantes perceberam que o mundo mudara. Mas, que esperar de políticos que se limitam “a navegar à vista”?

Rapidamente se percebeu que, mais cedo ou mais tarde, os “homens de negro” haviam de aterrar na Portela para por ordem nas finanças. Vinte e oito anos depois e agora integrando duas instâncias europeias, o FMI lá fez a sua estrondosa chegada ao país, diante de uma comunicação social “babada” diante de tão elevados representantes do poder financeiro, enquanto o país saboreava os seus feriados de Junho.

As receitas também já eram previsíveis: cortar despesas, aumentar impostos, privatizar e, como não podia deixar de ser, “menos Estado”, a velha máxima ideológica dos mesmos que o “engordaram” e que dele se serviram à tripa forra, fazendo os mais diversos e desvairados negócios. Continuar a ler

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Costumes, Geral

Sorriso Amarelo

O governo comemorou um ano de malfadada existência aproveitando para dizer, em vários tons e com as mais variadas formulações, que vai continuar com contumácia a degradar a vida dos portugueses, a aumentar o desemprego, a fazer regredir os salários e os direitos dos trabalhadores até à fronteira da servidão, talvez mesmo ultrapassar essa linha civilizacional. O Borges, o não ministro com super-pastas governativas que ganha dezenas de milhares de euros pagos pelos contribuintes, falou sem papas na língua quando disse que era “uma urgência baixar os salários”, o que valeu nalguma imprensa, aplausos de alforrecas pensantes que devem achar o trabalho degradante e por isso se dedicam á escrita de opiniões que nem em papel higiénico merecem ser impressas mesmo tendo garantido o final mais consentâneo com o seu teor. Não falou sozinho. Com cambiantes mais coloridas ou mais sombrias o mesmo foi dito por outros., Decifre-se o que o Gaspar disse, as curvas e contra curvas do Coelho, as cambalhotas do Álvarito, até a invenção Impulso Jovem apresentada pelo grande Relvas que, com as liberdades dadas para desempregar, vai provocar um aumento dos despedimentos substituindo alguns dos “dispensados” por jovens desempregados a baixo custo e subsidiados pelo dinheiros dos contribuintes, e a inevitável troika que vem descobrir que a razão para o aumento do desemprego é a mais improvável, os salários e as leis laborais, quando Portugal é o país na Europa onde é mais fácil e barato despedir e praticam-se salários que são dos mais baixos, o que só atesta a perseguição de um objectivo ideológico por mais estúpidos e falsos que sejam os argumentos.

Quando a indignação faz crescer a raiva nos dentes, fechando as hipóteses a qualquer gota de humor, descobre-se um facto que faz abrir a boca de espanto e desenha um sorriso amarelo: somos um país altamente monitorizado. Quem diria? Quando as previsões falham sistematicamente, quando se demonstra o cúmulo da incapacidade de fazer previsões, de supervisionar o que quer que seja pela boca do senhor Constâncio que reafirma que não era possível calcular os custos da “nacionalização” do BPN e que a supervisão andou anos a ver passar os comboios de dinheiro debaixo dos seus olhos sem perceber o que se passava, numa demonstração da ineficiência que ele acha natural. Como deve achar natural que dez mil milhões de euros se evaporem nos cofres do BPN sem deixar rasto. Como se evaporaram quinhentos mil euros no Freeport que os investigadores detectaram ter desaparecido só que não sabem para onde. Pronto, desapareceram para parte incerta, como desapareceram milhões de euros no BPP, como voaram e continuam a voar milhões para offshores sem que nenhum radar dê por ela. Isto acontece num país que tem serviços de informações que esmiuçam a vida dos cidadãos, onde se encontram instalados e em funcionamento centenas de observatórios que observam tudo e mais alguma coisa. Devia dar vontade de rir! Pelo menos traça um sorriso amarelo, também pode ser de outra cor, ler esta lista de observatórios onde se devem produzir relatórios detalhados sobre as matérias a que se dedicam. Leiam, não se sabe se escapou algum, o que se fará com tão certamente doutos relatórios produzidos por tantos olhos experimentados é que já é um mistério.

A lista é longa, deve estar incompleta. Se aos observatórios se somarem os institutos, as autoridades reguladoras e mais não se sabe bem o quê de entidades que se dedicam a essas actividades, temos um país visto ao microscópio, minuciosa e cientificamente esquadrinhado!

Ai vai uma lista provisória: Continuar a ler

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Costumes, Geral

Grito!!!

Um grito contra o sucesso de Portugal afirmado pela Troika e reiterado por Passos Coelho,que  manifestou ontem uma “grande admiração” pela atitude dos portugueses no último ano, que considerou ser de entrega à mudança, de exigência e, ao mesmo tempo, de paciência. com a esperança de mais uns diazitos de tréguas sociais por euforia foleiramente patriótica!!!

Que se desengane essa gente e rapidamente se dê um pontapé no cu desse gangue de farsantes que ainda a goza com a malta, enquanto esbulha os nossos bolsos!!!Image

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Ferreira Leite viu finalmente o óbvio

A antiga ministra das finanças e líder do PSD, Manuela Ferreira Leite (MFL), viu finalmente o óbvio. Compreendeu, até, o que os comunistas andam a dizer há mais de um ano, com uma diferença: os comunistas falam em renegociação da dívida, Ferreira Leite defende uma consolidação das contas públicas “mais lenta”.

Vale a pena comparar o que disse a ex-lider do PSD hoje em Setúbal, de acordo com uma notícia da Lusa reproduzida no “Expresso”, e o que disse o deputado do PCP Agostinho Lopes (AL) na Assembleia da República, no passado dia 1 de junho, no debate agendado pelo PCP para discutir a renegociação da dívida pública. Constata-se, no essencial, um alinhamento no discurso, apenas com o desfasamento de mais de um ano…

A ex-ministra social-democrata Manuela Ferreira Leite defendeu hoje, em Setúbal, que a consolidação das contas públicas devia ser feita de uma forma “mais lenta, mais pausada, para não se matar o doente com o tratamento”.

O que disse Agostinho Lopes

Há que travar este caminho. Há que criar um outro rumo, uma alternativa patriótica que rompa com o Memorando da Troika, uma alternativa de esquerda que rompa com as políticas do Pacto de Agressão.

Uma alternativa que, tal como fizemos em Abril de 2011 e hoje atualizamos, estabelece as orientações a usar pelo Governo para renegociar a dívida pública, determinando a sua origem, legitimidade e natureza, fixando um serviço de dívida compatível com as condições de crescimento da economia portuguesa que inclua adequados períodos de carência, prazos alargados de amortização e pagamentos anuais de juros indexados ao crescimento das nossas exportações.

“Do meu ponto de vista, há apenas uma saída que eles [a troika] deveriam considerar: era, sim senhor, este é o caminho, esta é a direção, esta é a receita, este é o tratamento, mas não tratamento de choque, um tratamento mais lento, mais pausado, para não matarmos o doente pelo tratamento, em vez de o deixarmos morrer pela doença”, disse.

O que disse Agostinho Lopes

Esta é uma constatação que não surpreende o PCP. Como a vida comprova, as políticas de empobrecimento da Troika estão a provocar a forte diminuição da atividade económica e uma queda das receitas fiscais e das contribuições, e o aumento das prestações sociais para fazer face à evolução dramática do desemprego. Esta espiral negativa está mais uma vez a conduzir ao disparar do défice orçamental, estimado em 7,4% no final do primeiro trimestre, 40% do valor total previsto para todo o ano, 2,9 p.p. acima do défice previsto pelo Governo para 2012 (4,5%)!

“Acho que vai ter que haver aqui uma solução que obviamente deverá ser considerada pela troika no sentido de não nos desmoronar completamente. Porque a taxa de desemprego significa que o sistema produtivo se está a desmoronar. Por isso não há capacidade de aumentar um determinado tipo de coisas”, acrescentou.

A ex-líder do PSD, que falava em Setúbal, no ciclo de conferências sobre “Consolidação, Crescimento e Coesão”, promovido pelo PSD em todo o país, considerou também que o memorando com a troika “estabeleceu determinado número de regras que não se adaptam à realidade do país”.

Segundo Manuela Ferreira Leite, a receita da troika para a consolidação das contas públicas portuguesas não teve em conta a estrutura produtiva do país, constituída essencialmente por pequenas e médias empresas que, muitas delas, poderão não sobreviver às dificuldades económicas que estão a enfrentar.

O que disse Agostinho Lopes

Um ano depois o País está bem pior e, como então tínhamos avisado, nem mesmo a dívida pública desceu, bem pelo contrário. Em 2011 pagamos mais de 6200 milhões de euros de juros e encargos, com uma taxa média superior à de 2010 (4,1%). Apesar disso, a dívida pública continuou sempre a aumentar, subiu para 184 mil milhões, mais 23 mil milhões de euros que em 2010.

“Nós para recuperarmos a credibilidade evidentemente que temos que o cumprir [o acordo com a troika], mas isso não impede de considerar que a troika estabeleceu determinado tipo de regras que nem sempre se adaptam ao nosso país, nem se poderiam adaptar na medida em que a receita que utiliza para os diferentes países é mais ou menos sempre a mesma”, argumentou.

O que disse Agostinho Lopes

Ao contrário do que PS, PSD e CDS insinuaram há um ano, a dívida pública não está nem vai diminuir. Pelo contrário, vai continuar a aumentar. Em 2014, o País vai pagar 8300 milhões de euros de juros e encargos para que a dívida suba para um valor de 200 mil milhões de euros. É o próprio Governo quem o diz!

“A troika quando analisou o nosso país, não tomou em consideração a nossa estrutura produtiva e social. É extremamente difícil pensarmos que estas consequências não teriam efeitos arrasadores em termos de crescimento económico”, acrescentou.

O que disse Agostinho Lopes

O País soube ontem que a queda na receita dos impostos indiretos totais foi muito maior do que o Governo admitira na execução orçamental de Abril. Afinal, os impostos indiretos não caíram só 3,5%; caíram 6,8%! A receita não caiu só 233 milhões de euros! Caiu 472 milhões, o dobro do que o Governo dissera.
Pior: estima-se já um previsível descalabro na execução orçamental.

Manuela Ferreira Leite salientou também a “especificidade” do tecido social português, onde só a classe média e média baixa paga impostos.

 A antiga ministra das Finanças explicou que uma grande parte da população portuguesa não paga impostos, porque não tem rendimentos que o justifiquem, e que há uma outra parte com rendimentos elevados, mas que são poucos, pelo que só a classe média e média baixa é que pagam impostos.

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Béu-Béu

Quando a insuspeita OCDE ridiculariza as previsões de Victor Gaspar, quando a carga fiscal aos portugueses é um roubo que completa o roubo que tem sido feito aos funcionários públicos em geral e aos outros trabalhadores em particular, quando a actividade económica decresce brutalmente e os números do desemprego ultrapassam todos os números pensáveis e continua crescer sem se prever que estanquem, quando a destruição do tecido económico nacional, exceptuando os grandes grupos, é uma realidade que se vê a olho nu, tudo em resultado do pomposa e manhosamente chamado Pacto de Estabilidade e Crescimento, um tal Passos Coelho, primeiro-ministro de um país chamado Portugal, cãozinho amestrado do grande capital e o preferido do canil da senhora Merkel, vem dar umas dentadas nas pernas da oposição em Portugal, desde os que o querem ajudar a sair do buraco que ele convictamente cava aos que se opõe convictamente às políticas desastrosas que desembocaram na situação pavorosa em que nos encontramos, e aproveita para dar umas mordidelas nas canelas do senhor Hollande, um homem que faz timoratas propostas para safar a Europa Unida do caminho para o abismo, ladra aos quatro ventos o seu empenho em cumprir as metas da troika que afundam completamente o nosso país. Claro que o rapaz, afundado na tempestade dos números que traduzem, não em toda a sua extensão, uma realidade que demonstra a estupidez de uma política económico-financeira desastrosa e iníqua, está é a trabalhar para o seu futuro, para não ir parar ao desemprego para onde atira milhões de portugueses. Faz tudo o que for necessário para que a sra Merkel, garanta o prometido lugar de almoxarife das latrinas do Reicsthag. O que não é fácil garantir com o currículo que tem, mas, os amigos são para as ocasiões, e por isso o Chihuahua da chanceler, não perde uma ocasião para ladrar e morder, para não perder uma oportunidade, como tem explicado ao país moribundo lendo o seu borda de água de filosofias rasteiras.

Quanto tempo mais vamos aturar o seu ladrar?

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Farsantes!

O bando de pantomineiros que tem visitado regularmente Portugal para impor as condições brutais de um pacto de agressão ao povo português em benefício do grande capital e dos ditames de uma política que procura ressuscitar o capitalismo financeiro moribundo,  agora abriu a boca de espanto com os números galopantes do desemprego. O que se verifica em Portugal, não muito diferente do que acontece no mundo, é consequência directa das políticas económicas e financeiras que eles nos impuseram e a que se submeteram os partidos que nos têm governado nos últimos trinta e cinco anos. Estes porteiros do capital não são estúpidos. Sabem melhor que ninguém que as políticas por eles impostas teriam esse resultado mais que óbvio!

Porque terão ficado surpresos? Claro que não ficaram nada surpreendidos. Como vigaristas intelectuais experimentados simularam a surpresa para logo a seguir tirarem a carta do baralho que já traziam preparada e marcada:  “falta de flexibilidade salarial”. Naquelas cabecinhas já nem o retorno a condições de trabalho similares às so século XIX, são suficientes é preciso ainda condições de trabalho mais gravosas. Quem sabe as dos servos da gleba da Idade Média, talvez a escravatura. A única coisa que lhe interessa é salvar os lucros do capital.

Istro não é um caso de insensibilidade social, como alguns acusam. É não olhar aos meios para atingir os fins. É cumprir as ordens para sustentar uma ordem ecómica-fina«ceira mundial cada vez mais insustentável mas que vai tripudiando direitos duramente conquistados em séculos de lutas pela dignidade humana.

Essa gente, sem escrúpulos com sangue de barata, são batoteiros profissionais. Baralham e distribuem cartas viciadas com um objectivo bem definido. Sabem o resultado de cada jogada. Como têm as cartas todas marcadas, vão subindo a parada. Existindo um governo que lhe sirva de guarda-costas e uma oposição que lhe abre alas mesmo quando eleva timidamente a voz, ficam imparáveis esmagando o povo trabalhador, proletários , pequenos e médios comerciantes ou industriais. Esmifram até ao último cêntimo, à última gota de sangue. Tudo para glória do grande capital financeiro e triunfo dos direitos humanos.

A gente desta, vigaristas e batoteiros profissionais travestidos de tecnocratas, que viajam a soldo do grande capital semeando a miséria e plantando lucros, devia-se dar um castigo público. Eram besuntados de alcatrão e cobertos de penas. É o que lhes temos que fazer antes que Portugal seja um cemitério de destroços. Façamos ouvir a nossa indignação!

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Irlanda sim,Irlanda não / as intermitências da comunicação social

Dos países que obtiveram empréstimos externos, na nossa comunicação social que alguns insistem em classificar de referência, não se percebe porque bulas, fala-se da Grécia, dos perigos de contágio da Grécia, por vezes reportam cenas de violência que ocorrem nos cenários de uma luta intensa e quase sem paragens que decorre na Grécia, enquanto a brutalidade das imposições da troika e as suas consequências sociais e económicas são parcimoniosamente referidas. Na generalidade, referem-se factos picarescos que transformam os trabalhadores gregos nuns privilegiados a ganhar muito para o pouco ou nada que produzem. Muito vagamente ou mesmo nunca se refere por onde se escoou e onde foi aplicado o dinheiro que provocou aquele défice astronómico.

Do outro país que foi assistido, a Irlanda, havia referências elogiosas ao modo como o governo e o povo se empenhavam em cumprir as metas e as imposições dos troikanos. As moscas que zunzunam comentários por tudo o que é sítio chegaram a dar a Irlanda como exemplo. Uma dessas cassandras disse por várias vezes que a Irlanda era outra loiça, porcelana fina, comparada com a louça nacional, porcelana rasca. De há uns tempos a esta parte não se ouve falar da Irlanda. Melhor, quase não se ouve falar da Irlanda, tirando uma breve referência à decisão do governo de coligação irlandês, conservadores, centristas e trabalhistas, terem decidido fazer um referendo ao Pacto Orçamental, imposto pela Alemanha e aceite por 24 países da União Europeia que impõe valores máximos para os défices, na base de premissas que nada têm a ver com ciência económica, nem se sustentam em factos. È uma opinião de direita, não mais do que isso, a que se quer dar força de lei. È um truque totalitário que transforma em fora de lei quem não concorde com um número esotérico, basta olhar para a dívida pública dos EUA (151% do PIB) ou do Japão (230% do PIB) que tornam os números de défice orçamental dos países com assistência financeira da troika quase irrelevantes, sem que os mercados precisem de tomar calmantes ou atirem os juros para valores especulativos, para se perceber que o que está por detrás desta manobra da direita política e dos economistas neoliberais, que querem matar definitivamente Keynes, ao que isto já chegou, e tornar um crime de pensamento, pensar de maneira diferente. Isto é fascismo! Por cá PS, PSD, CDS convergem e divergem alegremente sobre este assunto não tocando no fundo só na forma. Nem sequer é uma operação estética, é só maquilhagem.

Voltando à Irlanda, tanto silêncio parecia suspeito. E era.

Neste momento está em curso uma revolta fiscal. Mais de metade dos contribuintes irlandeses recusa pagar uma taxa adicional de cem euros no equivalente ao IMI. O boicote fiscal põe em causa as metas acordadas com a troika que, depois de quatro anos de crise e de austeridade, deveria reduzir o défice orçamental para 8,6% em 2012. O que, sem essa taxa adicional será impossível alcançar. A Irlanda depois de um débil crescimento entrou novamente em recessão e a taxa de desemprego voltou a crescer, em Fevereiro 14,7%. Tudo número que reduzem a capacidade de captar receitas por via fiscal, como está a acontecer por cá. Para quem acenava a bandeira da Irlanda como exemplo do bom caminho para sair da crise, na base do receituário neoliberal versão troika, bem pode rasgar as bandeiras e queimar os paus. O sol sempre foi muito fraco e, como agora se vê, de muito pouca dura.

Da Irlanda vem um bom exemplo: os êxitos que os boicotes fiscais conseguem.

A este boicote da taxa extraordinária, o governo desmultiplicou-se em ameaças, tanto aos contribuintes como aos municípios. Uns com duras penalizações, ameaças de execução fiscal. Outros com pau, pressionando as entidades municipais em prol da cobrança da taxa para não sofrerem cortes orçamentais nas transferências do governo para elas e cenouras, favorecer as cidades e municípios que fossem mais diligentes n cobrança fiscal. Agora o tom baixou. De não mostrar qualquer complacência com os relapsos passou-se para a necessidade de rectificação de eventuais erros na imposição da taxa. Pelo andar da carruagem que anda atrelada à troika, o caminho que isto vai seguir será provavelmente o que aconteceu a um anterior imposto, 50 euros por fossa séptica, também boicotado e que acabou fixado em 5 euros.

Bons exemplos irlandeses pouco ou nada falados na nossa suposta imprensa de referência.

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Primeiro Ano de Um Assalto à Mão Armada

Faz hoje um ano que desembarcou em Portugal, a troika. Um bando de conhecidos assaltantes das economias de vários países para as subjugar e colocá-las a render em benefício do grande capital especulativo, entrincheirado numa coisa abstracta a que chamam mercados.

São especialistas do crime perfeito. Emprestam a juros que fariam os agiotas dos romances de Dickens ficar roxos de inveja. Impõem condições para a canalização desses empréstimos, dedicando uma grossa fatia para a banca. Dos 78 mil milhões de euros de empréstimo a Portugal, 12 mil milhões são para a banca, na esteira do que faz um dos seus mandantes, o Banco Central Europeu que emprestou nos últimos meses biliões de euros, em Dezembro foram 420 mil milhões de euros, na semana passada 550 mil milhões de euros a vários bancos europeus, portugueses incluidos, a juros muito favoráveis, perto do zero, com fez questão de acentuar seu presidente Mário Draghi. Bancos que irão realizar fabulosos lucros emprestando depois esse dinheiro a juros altíssimos aos agentes económicos, Estado incluído, dos vários países. É a financerização da economia, uma das receitas da troika, ou não fossem eles um dos braços armados do grande capital.

Para o quadro ser completo impõem igualmente um número de remédios, a que chamam medidas estruturais, que têm um único objectivo: arranjar um exército de mão de obra barata, no caso muito dela bem qualificada, destruir o tecido produtivo para o entregar de mão beijada às multinacionais, tornar o Estado irrelevante como agente económico. Ensinamentos colhidos numa besta apocalíptica da economia chamado Friedman, que habita a mesa de cabeceira de Vitor Gaspar, e experimentou as suas teorias no Chile de Pinochet, organizando uma pilhagem sustentada pela ferocidade da ditadura.

Passado um ano os resultados não enganam ninguém. Continuar a ler

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Esta Política que Mata

“O governo de ocupação aniquilou literalmente a minha capacidade de sobrevivência, baseada numa pensão que paguei durante 35 anos. Não encontro outra solução para um fim digno, antes de começar a procurar no lixo com que me alimentar”

O homem que escreveu isto, um farmaceutico grego de 77 anos, suicidou-se com um tiro na cabeça na praça Syntagma, centro dos maiores protestos contra as medidas de austeridade adoptadas pela Grécia em troca dos empréstimos do FMI e da União Europeia.

O porta-voz do FMI veio publicamente manifestar a imensa tristeza da instituição pelo sucedido. A doblez desta gentalha não tem fronteiras. Há muitos anos que sabem mais que perfeitamente que as políticas económicas que preconizam e têm imposto por todo o mundo são desumanas,que tem deixado um rasto de milhares de vítimas com o único objectivo de manterem a especulação capitalista que nada produz e que se alimenta da agiotagem. Uma política de sanguessugas que parasita a energia vital dos povos de todo o mundo, posta em prática por uma camarilha bem paga de gangsteres tecnocratas que sabem que as práticas económicas que preconizam são ineficazes, sustentam a ganância, nada contribuiem para o desenvolvimento económico, antes pelo contrário. Como bons e bem pagos mercenários, continuam a vender como boas as más políticas.

Agora, é esta canalha que enquanto mata silenciosamente continua a festejar publicamente os seus pirrónicos êxitos económicos que, sem um pingo de vergonha, vem verter na praça pública lágrimas de crocodilo, fazendo strip-tease da sua tristeza. Com o dinheiro que têm espoliado ao povo grego provavelmente ainda enviam uma gigantesca coroa de flores com os sentidos pesames do FMI.

O que os preocupa é a notícia correr mundo. Não se preocupavam enquanto os meios de comunicação social, sobretudo os ditos de referência, não davam eco das crianças que nas escolas gregas desmaiavam com fome, com o aumento exponencial dos suicídios provocados pelo desespero da falta de condições e perspectivas de vida, com a violenta angústia que atravessa a Grécia e os países submetidos á sua ditadura. Continuariam a fria e inflexivelmente debitar o seu receituário criminoso condenando os países a políticas económicas que destroem as economias e alimentam a especulação capitalista., sem precisarem de colocar por segundos a mascarilha da tristeza. Nem se preocupariam com a evidência da inutilidade do caminho que prosseguem, com a fixação de burros arreados com antolhos de MBA’s e doutoramentos alinhados com as políticas económicas neo-liberais, se não tivesse explodido com a imagem de suicídio na praça pública, resultante da desumanidade que é o seu adn. Carpir publicamente as tristezas que nunca terão, animais castrados e com linfa em vez de sangue, é para eles uma perca de tempo necessária para reduzir a um cisco a perda de uma vida humana. A desvergonha é absoluta, conta com a benevolência da comunicação social estipendiada ao serviço do pensamento dominante, ainda que por um instante, um breve instante sòmente, arranhe suavemente a sua pele. As vítimas são milhares. Felizmente, para eles, morrem sem o ruído de um tiro. Sem que o sangue pingue numa folha de jornal.

Essa casta de gente é a primeira linha dos serventuários do grande capital. Dá ordens aos mangas de alpaca que nos países fingem governar e que mais não são que as suas marionetas. Por vezes esse jogo de ventríloquos falha, como esta semana se assistiu em Portugal a propósito do corte dos subsídios de férias e de natal, com o Gas-par-a di-zer-e-des-di-zer-se-com-pou-cas-ho-ras-de-inter-va-lo, desmentindo o primeiro-ministro por sua vez desmentido pelo Relvas e todos eles finalmente metidos na ordem pelo chefe adjunto da missão da troika, o sr. Peter Weiss, que os tratou como uns tontos contadores de histórias da carochinha: os cortes dos subsídios de natal de férias e da natal são permanentes (troika dixit). Logo a seguir, mostra-se surpreendido pelos números do desemprego, pelo desanimo que atola o crescimento económico, pela falta de confiança dos investidores. Será o senhor Peter Weiss parvo? Que é que ele esperava? Tiques da imensa hipocrisia desta gente! Para continuarem a vender a banha da cobra fingem não saber que ela é um insidioso veneno que mata a mais resistente árvore.

A Grécia, já entrou na camara de gás do fascismo financeiro. Nós estamos à porta, a ser empurrados por esta tropa fandanga que finge governar e que está ao serviço da troika e dos seus mandantes.

Está na hora de dar cabo desta gentalha inútil que vive à tripa forra do mal das nações!

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