Geral, Política, Cultura, música, Literatura, Artes, teatro, Fausto Neves, Mão Morta, Músicos do Tejo

Sugestões Culturais Julho

Leonardo da Vinci

 

 

Sugestões Culturais para o mês  de Julho publicadas no AbrilAbril e texto do comunicado do MPPM cujo link falhou

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Geral

Qual a necessidade do PSD mentir aos Setubalenses?

Na reunião da Assembleia Municipal de Setúbal, realizada na quinta-feira, dia 6 de Julho, foi apreciado o conteúdo de uma petição de cidadãos sobre as taxas de IMI praticadas no concelho de Setúbal.

A referida petição, tendo como primeiro subscritor Nuno Carvalho, candidato do PSD à Presidência da Câmara Municipal de Setúbal, defendia a redução das taxas, assumindo como um dado adquirido a possibilidade do Município o fazer sem com isso infringir o enquadramento legal imposto aos municípios que recorreram a contratos de reequilíbrio financeiro.

Na reunião da Assembleia Municipal, a bancada da CDU apresentou uma proposta de deliberação que remetia a petição à Câmara Municipal para que esta tivesse em conta o proposto, no caso de o Governo esclarecer de forma cabal e inequívoca a possibilidade do município baixar as taxas.

O PSD apresentou, igualmente, uma proposta de deliberação defendendo que a Assembleia recomendasse à Câmara a redução das taxas de IMI e o envio desta deliberação para o Governo.

Face à apresentação destas duas propostas de deliberação, a CDU e o PSD entenderam ser possível chegar a um consenso que resultasse da fusão das duas propostas, tendo então sido apresentada uma proposta de deliberação subscrita pelas duas bancadas que, no fundamental, mantinha a proposta da CDU acrescentando o parágrafo da proposta do PSD que sugeria o envio da deliberação para o Governo de forma que este se pronunciasse sobre o assunto.

Ou seja, com os votos favoráveis da CDU, do PSD e da Presidente da Junta da União de Freguesias de Azeitão, foi aprovada uma deliberação que, reafirmando o desejo de se proceder a uma descida das taxas de IMI em Setúbal, faz depender essa descida de um esclarecimento cabal e inequívoco do Governo sobre a possibilidade legal dessa decisão.

Na prática, o PSD reconhece a necessidade de se obter um esclarecimento para que os órgãos autárquicos possam decidir em liberdade e plenamente conscientes da legalidade dos actos a praticar.

Se estes foram os factos, como pode o PSD Setúbal e o seu líder, Nuno Carvalho, difundir hoje uma nota sobre os acontecimentos dizendo coisas como:

  • «Nuno Carvalho, candidato a Presidente da Câmara Municipal de Setúbal pelo PSD, obrigou a Assembleia Municipal de Setúbal, que reuniu na passada quinta -feira, dia 06 de Julho, a deliberar sobre a proposta de redução do IMI e de adopção do IMI Familiar no concelho»;
  • «A Assembleia Municipal adoptou uma recomendação, proposta pelo grupo do PSD»;
  • «Somos o único partido que tem defendido esta decisão»
  • «É importante sublinhar que os dois governos anteriores liderados pelo PSD assumiram essa possibilidade e permitiram ao Município de Setúbal baixar o IMI».

Como resulta das evidências dos factos, Nuno Carvalho e o PSD mentem aos Setubalenses:

  • Nuno Carvalho não obrigou a Assembleia a nada, até porque não o poderia fazer e são os membros da Assembleia que decidem quando e se discutem certa matéria;
  • A Assembleia Municipal não deliberou sobre qualquer proposta de redução das taxas de IMI ou de adopção do IMI Familiar;
  • A Assembleia não aprovou qualquer recomendação, aprovou uma deliberação que remete para a Câmara a petição e faz depender uma eventual descida das taxas do cabal esclarecimento do Governo sobre essa possibilidade.
  • Essa deliberação foi apresentada em conjunto pela CDU e pelo PSD e não apenas pelo PSD;
  • Quem sempre defendeu esta posição foi a CDU que continua a insistir, por um lado na necessidade de baixar o IMI e por outro na necessidade do governo prestar todos os esclarecimentos sobre esta matéria, de forma a dissipar todas as dúvidas que possam existir;
  • Nenhum governo assumiu essa possibilidade de forma conclusiva, facto que tem conduzido, também, o PSD a questionar o Governo.

 

A pergunta que fica por responder é que razões levam o PSD a mentir aos Setubalenses?

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Geral

O estado do Estado

Nas últimas semanas milhentos escreventuários têm debitado de forma compulsiva acerca das falhas do Estado.
Inspirados na desgraça do ardido e na suposta incúria militar, malham forte e feio naquele que consideram o mostrengo.
Muito bem!
Ou seja, muito mal, porque estamos perante o mais desbragado oportunismo populista.
De facto, estes comentadores e analistas avençados, jagunços políticos, jornalistas alienados, diletantes arco-íris e vendedores de arenga moralista, quando se trata de botarem discurso sobre o Orçamento, só têm um ponto de vista: cortar nas supostas gorduras e ao serviço do sacrossanto controlo do deficit.
Isto é, para eles, os professores, enfermeiros, polícias, sistemas de videovigilância, médicos, guardas florestais e mais um infindável rol de funções e serviços vitais para os cidadãos e território, são tecido adiposo que deve ser sempre e cada vez mais desbastado.
Agora, fariseus da Lapa e do Caldas, aí estão, apontando o dedo ao estafermo enfezado em que transformaram o Estado, sugando-o, depauperando-o e aproveitando-se dele!
O Estado não deve ser governado, mas, sim, gerido pela governança.
O Estado não deve ser forte, mas sim resiliente.
O Estado social é coisa feia, o empreendedorismo é que está a dar.
O Estado não deve atrapalhar a “economia circular”, nem prejudicar a “economia compartilhada”, seja lá isso o que for.
A visão de Estado da cambada modernaça, bem-falante e inovadora, é a velhíssima perspetiva predatória e exploradora que há seculos exaure o planeta.
À tarde, manifestam-se preocupados com o aquecimento global.
À noite, frescos e aliviados com mais um negócio renovável, brindam com gim tónico apimentado e vociferam: abaixo a contratação coletiva, viva os CMEC’s!
E, quando põem a pata na poça, inventando suicídios para alimentar a sua tese ideológica, logo algum diácono de turno os tranquiliza e absolve: todos erramos, irmãos, deixemos arder que há por aí muitos pais de família que são bombeiros!

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Almada Negreiros, Artes, Cultura, Geral

ALMADA NEGREIROS- ser sempre moderno

 

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Almada Negreiros é caso muito particular nas artes portugueses e no contexto do modernismo que tinha o centro irradiante em Paris, contaminava o mundo, adquiria expressão nos países periféricos com singularidades distintivas. Um caldo de cultura febril que Almada, autodidacta, artista multidiversificado, percorre cunhando toda a sua obra com o selo de uma modernidade contraditória, híbrida, complexa.

Almada, com uma energia criativa invulgar presente em toda a sua obra de poeta, ficcionista, conferencista, ensaísta, desenhador, pintor, artista gráfico, muralista, ceramista, vitralista, cenógrafo, coreógrafo, bailarino, geómetra, está sempre em estado de performance narcisista. Assim se classifica na assinatura do poema A Scena do Ódio: José de Almada-Negreiros (poeta sensacionista e narciso do Egypto.

António Ferro que com Duarte Pacheco procurou, com êxito efémero, soldar uma modernidade europeia de raiz fascista ao bafiento salazarismo percebeu como poucos o ecletismo de Almada: «José de Almada Negreiros faz tudo o que quer, é o grande saltimbanco da arte moderna portuguesa (…). A arte é para Almada Negreiros uma vitrina de brinquedos. Dá corda a este, dá corda àquele – mas não se decide por nenhum… Almada não se decide por nenhuma arte, toda a arte, contudo, se decidiu por ele.»

Essa atitude o distingue de Fernando Pessoa e Amadeo de Souza-Cardoso, dois pilares do primeiro modernismo em Portugal. Pessoa e seus heterónimos é um solitário, um introvertido. Souza-Cardozo vai para Paris para conquistar Paris com o seu enorme talento, só não conquista porque morre prematuramente. As suas genialidades confinam-se ao que genericamente se designa por artes maiores. Almada está nos antípodas. Deliberadamente não quer saber de fronteiras entre artes maiores ou menores. A arte para ele é só uma, o seu espaço o espaço público. Um provocador que usa e fabrica extravagâncias como armas de arremesso para afirmar a arte em movimento perpétuo a atirar pedradas para os charcos do convencionalismo.

Tem a vertigem de causar impacto, de conquistar audiências, saltando das tertúlias que frequenta e anima, dos salões de exposição onde mostra as suas obras, das editoras que o publicam para os jornais, para os espaços públicos que são as suas ruas, as ruas onde está a gente que desafia num espectáculo sempre em cena de que é figura central. Tudo para ele é um palco onde exibe talento multifacetado.

Anuncia-se precocemente nos meios artísticos lisboetas com desenhos humorísticos. Participa na I e II Exposição dos Humoristas Portugueses e, em 1913, com 90 desenhos tem a sua primeira exposição individual. Essa exposição coloca-o em contacto com Fernando Pessoa que escreve uma crítica na revista Águia. Colabora como ilustrador em vários jornais, publica a sua primeira obra poética, um primeiro projecto de bailado, influenciado pelos Ballets Russes de Diaghilev, pelo ecletismo de Stravinsky. São anos em que se integra nos primeiros modernistas portugueses, com textos e desenhos desde o primeiro número da revista Orpheu. Partilha ideias e projectos com Santa-Rita pintor e Souza-Cardoso que proclama em estilo altissonante, “a primeira descoberta de Portugal no séc. XX”. Anos em que se afirma como um escritor original. Desanca os academismos no Manifesto Anti-Dantas: Basta Pum, Basta! Uma geração. Que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi! É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero! Abaixo a geração! Morra o Dantas, Morra! Pim!”. Radicalismo estético em contraponto com a opção política assumida como director artístico do semanário monárquico Papagaio Real, o que não o embaraça. É e não é artista do Estado Novo. Os seus murais para obras do arquitecto Pardal Monteiro, emblemáticas da política do espírito e do gosto de António Ferro, fazem ranger os dentes aos puristas fascistas ao verem na porta de entrada de Lisboa saltimbancos a pedir esmola, emigrantes a fugir à miséria, varinas com traços negroides, descoroçoados santos nos vitrais da Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

É um genial intuitivo que na obra literária antecipa muitos ismos. Leia-se Nome de Guerra que Herberto Helder considera «um dos apenas três ou quatro romances portugueses deste século que se podem ler sem desbaratos de tempo», o conto O Kágado, o texto Saltimbancos que nenhuma pontuação interrompe. a novela A Engomadeira, surrealista antes do Manifesto Surrealista de Breton.

Almada possuidor de vigorosa energia criativa, sempre em estado de performance narcisista, desenha em qualquer suporte com grande virtuosismo e criatividade, um risco expcecional que orienta murais e pinturas que, com menor fulgor, realizou. Almada que é tudo em simultâneo, para quem” moderno não é um movimento a que se pertence – é o que se faz, é o que se é” deixa um extenso legado, não tem discípulos, tem seguidores que com ele aprenderam a rasgar as convenções.

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Artes, cinema, Cultura, Geral, Literatura, música, museus, teatro

Sugestões para os Tempos mais Próximos

Sugestões culturais sem milagres, visões e aparições. Aqui os milagres, visões e aparições são realidades bem palpáveis, visitáveis, legíveis, audíveis.

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Comece-se pelo livros, motivo e opção óbvios, a morte de Baptista-Bastos. Sem ele e a arte e prazer de o ouvir contar estórias ao vivo ficam os livros. Vários dos seus melhores romances, entre outros No Interior da Tua Ausência, A Colina de Cristal, Cão Velho entre Flores, Cavalo a Tinta da China, encontram-se disponíveis (estarão todos?) nas livrarias. O que se espera é que se faça uma reedição da Biblioteca Baptista-Bastos que a Asa pela mão de um editor atento e esclarecido, o Manuel Alberto Valente, realizou no alvorecer do séc. XXI, que agora deveria abranger os últimos romances e crónicas. Fica a sugestão.

No cinema o destaque vai para os últimos dias do IndieLisboa, com propostas cinematográficas bem interessantes a decorrer nos cinemas São Jorge, Ideal e Cineteatro Capitólio, na Cinemateca Portuguesa e na Culturgest. Consulte o programa  http://indielisboa.com/programacao-2017/ , até dia 14 quando encerra ainda tem muito por onde escolher. O outro destaque é para o ciclo Kenji Mizoguchi no cinema Nimas, Lisboa e no Teatro do Campo Alegre, Porto e terá continuidade em Coimbra, Braga, Setúbal e Figueira da Foz. São os melhores filmes desse realizador que em Contos de Lua Vaga, fez um retrato sem concessões da animalidade e barbárie do homem em situações limite de guerra no contexto da  guerra civil no século XVI, na origem do Japão actual. Uma obra- prima que ganhou o Leão de Prata em Veneza o que deu impulso significativo ao culto da cinematografia japonesa e de Mizoguchi. A crueldade humana volta a ser tema, agora em tempo de paz, nos Amantes Crucificados.

 

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Os Amantes Crucificados, Kenji Mizoguchi

Todo o amor sofre castigo até ser condenado à pena de morte por crucificação. Um filme em que o amor é exaltado optando os amantes pela morte para não renegarem a paixão em que se consomem. A crueldade já não física mas social e moral continua a ser  seu tema em As Mulheres de Quem se Fala, num belíssimo cenário arquitectónico de uma casa de gueixas. O ciclo completa-se com outros filmes  como Festa em Gion, A Senhora Oyu, A Imperatriz Yang Kwei Fei, O Intendente Sansho, Rua da Vergonha (1956) e O Conto dos Crisântemos Tardios. Um ciclo a não perder para ver ou rever Mizoguchi. Consultem os programas onde já está a decorrer em Lisboa http://medeiafilmes.com/eventos/ver/evento/ciclo-kenji-mizoguchi-espaco-nimas/, e no Porto http://medeiafilmes.com/eventos/ver/evento/ciclo-kenji-mizoguchi-teatro-campo-alegre/ . Nas outras cidades referidas, cinéfilos estejam atentos.

No teatro o grande destaque é para Teatro O Bando com uma leitura bem original do O Inferno da Divina Comédia de Dante, com encenação de João Brites, até 4 de junho no Teatro Nacional Dona Maria II. A 19 de maio no Teatro Municipal de Almada- Joaquim Benite, uma oportunidade para quem não conseguiu ver, as salas estiveram sempre esgotadas, Jardim Zoológico de Vidro de Tennessee Williams, dos Artistas Unidos com encenação de Jorge Silva Melo.

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Nas exposições continua até 5 de Junho, José Almada Negreiros, uma Maneira de ser Moderno. Outra exposição que merece toda a atenção é Victor Palla e Bento d’Almeida Arquitecturas de Outro Tempo, até 4 de junho no Centro Cultural de Belém, sobre a  obra do atelier desses dois arquitectos que se celebrizaram pela introdução em Portugal do modelo americano do snack-bar, o Galeto é exemplar no seu desenho que resiste ao tempo. Foram responsáveis pela modernização de inúmeros estabelecimentos comerciais, fábricas, escolas primárias, habitação permanente (moradias unifamiliares e edifícios de habitação multifamiliar) e temporária (hotéis e aldeamentos turísticos). Victor Palla pelo seu notável trabalho em muitas outras áreas, design de equipamento e gráfico, pintura, fotografia em que se destaca um livro feito em colaboração com Costa Martins,

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Lisboa, Cidade Alegre e Triste, com poemas de Armindo Rodrigues, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, José Gomes Ferreira e um texto de Rodrigues Miguéis, uma obra-prima de fotografia e de arranjo gráfico, merece uma exposição retrospectiva de toda a sua extensa obra.

Agora quando o fascismo, que está sempre nas entranhas do capitalismo, volta a rondar em força  o mundo, para sabermos o que todos sabemos que Portugal não é um país de brandos costumes e porque não se deve nunca  apagar a memória dos anos negros da ditadura do Estado Novo e dos seus safanões a tempo, são de ver as exposições Estranhos Dias Recentes de um Tempo Menos Feliz, no Atelier-Museu Júlio Pomar, tendo por ponto de partida o Almoço do Trolha de Júlio Pomar e os tempos de crise e austeridade, apresenta obras de artistas contemporâneos, André Romão, Carlos Bunga, Igor Jesus, Joana Bastos, João Leonardo, João Pedro Vale & Nuno Alexandre Ferreira, Pedro Barateiro e Rodrigo Oliveira. Lembrando tempos mais remotos que continuam a ter ecos na actualidade, casos de escravatura continuam a existir em Portugal sobretudo no trabalho agrícola, vejam-se as exposições Racismo e Cidadania, no Padrão dos Descobrimentos e Testemunhos da Escravatura na Academia Militar no âmbito de Lisboa, Capital Ibero-Americana da Cultura.

No Museu Nacional de Arte Antiga duas exposições a ver: A Cidade Global- Lisboa no Renascimento e Giovanni Antonio Canal IL CANALETTO

“O Canal Grande a partir do Campo San Vio”,

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um pintor que usava um sistema nas origens muito remotas das máquinas fotográficas para reproduzir as imagens que depois transpunha para a pintura com grande rigor o que permitiu que o centro de Varsóvia completamente arrasado pelos nazis fosse reconstituido a partir das pinturas de Canaletto.

A não esquecer o próximo dia 18 é Dia Internacional dos Museus, comemorado em todos os museus do país. Uma oportunidade a não perder.

Para os alfacinhas, antecipando as Festas da Cidade, inaugurou no dia 9  no Museu da Cidade-Santo António, uma interessante exposição sobre Santo António em Banda Desenhada. José Garcês, Raphael Bordalo Pinheiro, Carlos Botelho, Filipe de Abranches, João Paulo Cotrim e Pedro Burgos, Marcos Farrajota, Nuno Saraiva, Vítor Silva entre outros estão extensivamente representados.

A fechar exposições de artes deixando muitas dentro da gaveta, a de Helena Lapas  Matéria do Tempo na galeria Ratton e Sérgio Pombo Agora,  no Teatro da Politécnica.

Na música, na Casa da Música no Porto compositores portugueses contemporâneos, com obras recentes outras em estreia, encomendadas por essa instituição, podem ser ouvidos em três concertos com o título genérico O Estado da Nação. A Orquestra Sinfónica, o Remix Ensemble e a Orquestra Jazz de Matosinhos, visitam um reportório onde se encontram novas versões de obras de João Pedro Oliveira e Pedro Amaral,  Luís Tinoco, Cândido Lima, Jorge Peixinho e Daniel Moreira entre outros.

britten

Um alerta com alguma expectativa para Peter Grimes de Benjamin Britten no Teatro Nacional São Carlos nos dias 30 de maio, 1,3, 5 e 7 de Junho. É uma das grandes óperas do séc. XX que está em todos os reportórios operáticos depois do seu sucesso inicial, que é também o primeiro grande sucesso de Britten junto do público e da crítica. O cenário é uma aldeia piscatória fictícia em que o pescador Grimes enfrenta a acusação da morte do seu aprendiz debatendo-se em grande angústia e solidão contra o veredicto da sua comunidade. Acentuando a exclusão social do personagem central, Britten deixa ao público decidir qual a verdadeira natureza de Peter Grimes.

A fechar, na Antena 2 aos sábados às 22h00 com repetição às 2ª feiras às 13h, o programa de rádio Ao Correr do Som, de Marcos Magalhães e Marta Araújo, os promotores e directores de Os Músicos do Tejo. Um programa para descobrir a música em perspectivas cruzadas, algumas bastante inesperadas, que abrem novos horizontes para audições musicais estimulantes. Esta semana o 7º episódio, os anteriores podem ser encontrados na RTP-Play.

( sugestões feitas em AbrilAbril  http://www.abrilabril.pt/ 12 de Maio)

 

 

 

 

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A FRANÇA ESTÁ A ARDER

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A Liberdade Guia o Povo, Delacroix

Ontem percorrer os diversos canais de televisão e ouvir os diversos opinadores que sisudamente debitavam “inteligentes” comentários no rescaldo das eleições presidenciais francesas foi exercício penoso e inquietante. Hoje segue-se naturalmente mais uma enxurrada de textos dos mesmos e mais uns outros pares que, desta vez, não tiveram assento nos tablados televisivos e radiofónicos. A ruminação irá continuar triturando a miséria das filosofices de pacotilha, com maior ou menor conhecimento local, o que pouco acrescenta além de uns dourados na moldura. Feito um balanço de tanto falazar, conclui-se que ler previsões astrológicas, os profissionais dessa área são igualmente numerosos e habilitados, até será mais produtivo. Entretanto a extrema-direita avança na Europa e no mundo por sobre os destroços das crises do capitalismo e da globalização, as consequências das políticas ditas de ajustamento, as traições dos socialistas e sociais-democratas submetidos aoa globalistas, as euforias das esquerdas caviar, enquanto a direita vai ajustando as suas rotas para não ficar fora das órbitas do poder. As preocupações que se expressam com os riscos do fascismo que se perfila seriamente no nosso horizonte são inconsistentes enquanto se meter a cabeça na areia e se procure curar um cancro em adiantado estado de desenvolvimento e com inúmeras metástases com comprimidos de melhoral, o tal que não faz bem nem faz mal. Dito isto à laia de prólogo, anexo a reflexão sobre as eleições francesas publicado no AbrilAbril  http://www.abrilabril.pt  de hoje.

 

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A Jangada da Medusa , Gericault

 

 

NO RESCALDO DAS ELEIÇÕES FRANCESAS

 

Os ventos da história que abalam a Europa e o mundo são fortes e estão poluídos. Mais uma vez, depois das eleições em França, sopraram mais fortemente com a contribuição dos violentos suspiros de alívio das medíocres classes políticas e seus felizes apaniguados alegremente satisfeitos com a eleição de Macron. Repetiram o alívio pulmonar que as eleições na Holanda, onde um populista bom ganhou a um populista mau, tinha estimulado. A vista curta dessas cortes, com amplo acesso a uma comunicação social estipendiada, satisfaz-se com a derrota de Le Pen, uma fascista das mais bem estruturadas nos campos da direita mais extrema. Não se detém no facto da Frente Nacional ser actualmente o maior partido francês que só não tem maior representação na Assembleia Nacional de França por via de um enviesado sistema eleitoral, o que não é motivo nem de orgulho nem de repouso. Os chamados partidos do sistema, socialistas e republicanos, estão esfrangalhados pelos escândalos mas, sobretudo, pela pauperização ideológica. O perigo próximo é Macron, nos próximos anos de mandato, adubar o caminho para Le Pen. Um percurso semelhante nas suas diferenças com o de Obama que facilitou a chegada ao poder de Trump, e Le Pen é bem pior que Trump, só que com menor arsenal, financeiro e militar, à sua disposição.

O cenário de fundo é a crise actual do capitalismo que promove os fascismos, como já aconteceu na história recente, em formato diferente, com Mussolini, Hitler, Franco, Salazar. A retórica da extrema direita, bem documentada nas declarações eleitorais de Le Pen, oculta o que o fascismo foi e é, um sistema de governo em conluio com grandes empresas, que favorecem economicamente com a cartelização do sector privado, os subsídios às oligarquias financeiras e económicas. Só idiotas inteligentes com demagogia populista por vezes sofisticada, por cá Lobo Xavier na Quadratura do Círculo é um bom exemplo, é que metem no mesmo saco as propostas económicas, políticas e sociais da esquerda com as das variadas Le Pen’s. É a direita a cavalgar os perigos reais do fascismo em benefício próprio e do capital que a apoia e sustenta. Sabem, bem sabem que propostas aparentemente similares na forma divergem radicalmente nos conteúdos, nos propósitos e nas práticas. Sabem, até bem de mais que quem está mais próximo das Le Pen’s são eles. É gente não olha a meios para alcançar os seus fins. Estão entrincheirados numa comunicação social controlada pelo capital financeiro globalizado que oculta que a extrema direita usando e abusando dos tiques populistas, seja Le Pen, Wilders, Farage, Petry, consegue mobilizar os cidadãos porque eles estão decepcionados e sentem-se traídos pelas políticas de ajustamento impostas pelos poderes supranacionais, FMI, Banco Central Europeu, Banco Mundial, União Europeia. Que isso acontece porque os partidos tradicionais republicanos, socialistas e sociais-democratas na Europa se associaram e submeteram às políticas económicas e sociais dos globalistas.

O enorme perigo que o robot da globalização Macron representa são as políticas económicas e sociais enunciadas no seu programa que já tinha defendido enquanto secretário-geral adjunto da Presidência da República no consulado Hollande e ministro da Economia de Manuel Valls. Os trabalhadores, as classes médias só podem esperar o pior. O quanto pior melhor alimenta populismos, tanto de esquerda como de direita, em particular da extrema direita. Só quem está longe da realidade e tem vistas curtas é que pode pensar que as crises abrem necessariamente mais espaço à esquerda e fica sentado à espera de colher os frutos pútridos quando caírem. As lutas pelos direitos políticos e sociais não se reforçam com as crises, que alargam sempre o fosso entre ricos e pobres. Quem se reforça são os populismos de todos os matizes. Quando as crises rebentam as pessoas humanamente interrogam-se sobre o dia de amanhã. A reacção mais imediata e espontânea é o receio pelo seu futuro. Se num primeiro impacto os princípios da sociedade que os impôs são postos em causa, a seguir regressam em força, pela mão dos agentes mais violentos do capitalismo. É o que se observa na Europa. Há sempre um recrudescimento da direita, da extrema-direita, do fascismo que floresce catalisado pelo quanto pior melhor. As esquerdas, em particular os comunistas, são as mais visadas por essa política de choque que tem a intenção deliberada de aterrorizar os cidadãos, preparar activamente o terreno para a liberalização radical do mercado.

A grande interrogação é se a esquerda, as esquerdas conseguem, nos espaços de interregno que se vão seguir às eleições na Europa, de algum modo regenerar-se. As dúvidas são muitas e legítimas. O passado recente faz temer o pior. É ver o quase terror que atravessa algumas hostes socialistas quando um homem como Jeremy Corbyn é eleito líder do Labour Party, tentando inverter, mesmo com alguma timidez, as desgraçadas políticas dos lideres trabalhistas thactherianos.

No momento actual há um dado político e ideológico fundamental. Enquanto a proletarização avança a passo largo em todo o mundo e o conflito central continua a ser o da luta entre o trabalho e o capital, o eclectismo político invadiu essas esquerdas, é um forte aliado do capital e da burguesia, o que é um triunfo ideológico da direita bem expresso tanto nas variegadas terceiras vias que colonizam os partidos socialistas e sociais-democratas, seja qual for a sua sigla, como também quando as lutas ditas fracturantes, pondo a tónica na exaltação das diferenças, ocupam lugar central em vez do lugar secundário que justamente deviam ter, confundindo lutas por mudanças de atitudes sociais com lutas por mudanças sociais de fundo.

Muito se fala em crise do sistema democrático, raros são o que colocam o dedo na ferida, o que também é uma forma de sustentar e favorecer as direitas com o fascismo perfilado ao fundo do túnel. O que se assiste é o acentuar da indiferenciação ideológica e programática entre esquerda e direita que se iniciou logo no fim da II Guerra Mundial e se acelerou, entre outros sucessos, com a generalidade dos partidos comunistas a consumirem-se autofagicamente na voragem do eurocomunismo. Na Europa, a evolução dos sistemas partidários aproximou-os cada vez mais do sistema partidário norte-americano em que o que separa democratas de republicanos é mais a forma que o conteúdo. A democracia representativa deixou de ser o lugar da luta de classes por via pacífica, como era proclamado pelos primeiros revisionistas sociais-democratas. A apologia da democracia tende a confundir-se com os partidos tanto mais quanto menos a realidade partidária corresponde ao ideal democrático. Os partidos tornaram-se numa finalidade em si-próprios, reduzem praticamente a sua acção e medem a sua representatividade em função dos resultados eleitorais. Deixaram de ser instrumentos ao serviço dos eleitores, o que é bem expresso pelo abismo que normalmente existe entre as promessas eleitorais e as práticas governativas mal alcançam o poder. São prolongamentos do aparelho de Estado, representando determinados interesses económicos que lhes dão apoio variável. São organizações eleitorais sem definição nem mobilização ideológica, confinando substancialmente a sua práxis política ao exercício da conquista do voto, o que é um gravíssimo retrocesso político-ideológico.

Nesse quadro, que se agrava tanto mais quanto mais a actividade política fica enclausurada nos momentos eleitorais, os cidadãos afastam-se da política, dos partidos políticos, descrentes das virtudes de um sistema democrático em que não se sentem representados. Essa é que é a crise do sistema, a real e dura crise do sistema iludida por retóricas de pacotilha, em que os grandes beneficiários são a direita, a extrema direita, no fim da linha, os fascismos. Tende a inflacionar-se se os partidos socialistas e sociais-democratas persistirem em continuar por essa vereda, destruindo lance a lance eleitoral a democracia representativa. Os fantasmas de, entre outros, Blair e Hollande, deviam ser um semáforo de aviso. O perigo, mesmo que adiado por uns tempos, vai continuar a assombrar a Europa e o mundo. Há que corajosamente enfrentá-lo.

 

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fascismo, Geral, Guernica, Guerra, guerra civil de Espanha, Picasso

A Guernica de Picasso

 

 

guernicaO jornal on-line AbrilAbril assinalou os oitenta anos do brutal bombardeamento de Guernica, comentando esse sucesso no editorial que se transcreve e com um texto que escrevi sobre a Guernica de Picasso.
O Precedente Imoral de Guernica
Por um lado, o ataque aéreo foi um ensaio geral das forças aéreas alemã e italiana para a Segunda Grande Guerra que se aproximava. Por outro, a forma encontrada pelo ditador Franco de, com a ajuda dos seus aliados, Hitler e Mussolini, atacar o lado republicano e a liberdade que este garantia às diferentes comunidades, nomeadamente os bascos. Um acto hediondo dos fascistas na Guerra Civil Espanhola, que contaram ainda com o apoio do vizinho Salazar, que assim esperava prosseguir de forma tranquila a sua ditadura, deste lado da Península.

Ocorrido numa segunda-feira, dia de mercado e de mais gente nas ruas, o massacre que reduziu a pó e cinza a pequena localidade biscaína fica para a história da guerra como um caso inovador. Foi a primeira vez que um ataque desta dimensão foi infligido a uma população desarmada e indefesa. Mas foi também na sequência de Guernica que o uso de contra-informação desenvolvida pelas potências agressoras, desde logo a propósito da autoria do ataque, ganhou pujança.

Da negação do bombardeamento à imputação deste crime aos comunistas, vários foram os mitos criados, inclusive o de que Guernica se havia auto-bombardeado, num país que desde Julho de 36 estava dividido por republicanos e falangistas, enquanto na Europa o fascismo avançava, galopante.

A simbólica árvore de Guernica, figura da resistência e da sobrevivência do povo basco, foi das poucas que sobreviveram ao massacre. Segundo as estatísticas oficiais, da combinação de bombas incendiárias e de explosão resultaram 1654 mortos e 889 feridos. Um cenário que Picasso tão bem compilou na sua Guernica, conforme explica hoje Manuel Augusto Araújo neste artigo, a não perder.

Oitenta anos volvidos, a luta contra o fascismo, a agressão e a guerra continua a ser uma exigência, num tempo em que a paz, o progresso e o desenvolvimento continuam a ser negados a milhões de seres humanos.

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