"geringonça", António Costa, Anticomunismo, Assunção Cristas, BE, Bolha Imobiliária, Catarina Martins, CDS, CDU, Cidade-Neoliberal, Comunicação Social, Eurocomunismo, Geral, lisboa, Maioria de Esquerda, Mário Soares, Media, NATO, Neo Liberalismo, PCP, Pedro Santana Lopes, PS, PSD, Ricardo Robles, Rui Rio

ROBLES, DO OUTRO LADO DO ESPELHO

O que está verdadeiramente em causa é o saudosismo nada ocultado pela governação Passos-Portas, o seu autoritarismo, a sua subordinação aos interesses do capital, o seu desprezo pelo mundo do trabalho.

Robles

O caso Robles tem empapado noticiários, redes sociais, internet. A esmagadora maioria dos comentários navega na espuma dos factos variando entre os das esquerdas que, fazendo contorcionismos quase impossíveis, tentaram e tentam desresponsabilizar o dirigente do BE, aos de outros que, com o oportunismo que caracteriza a direita, agitam as bandeiras de princípios morais que nunca tiveram, para o condenar e por arrasto condenar o BE, não por causa do BE mas visando mais longe para tentarem acertar na «geringonça» que eles bem sabem ter tido o seu tiro de arranque por iniciativa do PCP (o que tem sido ocultado em benefício do BE), como foi esclarecido, certamente não por acaso, preto no branco, por António Costa, num dos últimos debates na AR, depois de afirmar ter a «geringonça» na cabeça e no coração – o que será comprovado nos tempos próximos.

Uma insanável contradição ética

Robles não cometeu nenhuma ilegalidade, nem cometeu nenhum crime económico. Envolveu-se num negócio imobiliário especulativo que se inicia quando participa num leilão em que o Estado aliena património público ao desbarato. Para quem diz defender políticas públicas de habitação esse foi o primeiro passo para se negar, adquirindo para si um património que devia pugnar para que se mantivesse público. Os passos sequentes estão em conformidade.

Na recuperação do imóvel os apartamentos variam entre os 30 e os 25 metros quadrados, segundo a descrição do anúncio que o colocava no mercado. Robles poderá não ter noção do que é uma habitação de 30, 25 metros quadrados. Poderá não ter, mas certamente saberá quantos metros quadrados tem a sala da casa onde vive e não é de crer que tenha menos de 20 metros quadrados, o que já lhe dá um razoável padrão comparativo.

Há ainda outro aspecto no projecto de recuperação do imóvel que, aparentemente, viola o PDM, artigo 42-3 d, em que «se admite o aproveitamento da cobertura em sótão e a alteração da configuração geral das coberturas, desde que contida nos planos a 45 graus passando pelas linhas superiores de todas as fachadas do edifício, não seja ultrapassada a altura máxima da edificação, seja assegurado o adequado enquadramento urbanístico». Pelas fotos divulgadas, o aproveitamento da cobertura não cumpre essa norma, com largo benefício para a sua área útil. Robles disso não se deve ter apercebido. Deve desconhecer o PDM ou leu-o na diagonal, 45 graus é um ângulo estranho que deve ter dificuldade em calcular. Sendo vereador na CML e defendendo publicamente, com grande alarde, políticas urbanísticas não especulativas deveria, no entanto, cuidar-se para não incorrer em riscos suplementares aos riscos de se ter enredado no processo em que se envolveu.

 

Robles e a campanha da direita

 

Os oportunistas de direita não perderam tempo a colocar a prancha na crista da onda e o BE, pouco habituado a maus tratos comunicacionais, andou aos zigues-zagues. Também houve quem aproveitasse a balbúrdia para atirar umas pedras ao PCP, nada inesperado nem inusual. Não sendo essa a questão central, a direita por interposto Robles apontava o dedo às esquerdas partindo do princípio de que quem é de esquerda tem que fazer votos franciscanos. Um equívoco idiota. Quem é de esquerda, no contexto desta sociedade, pode ser rico, Engels era, o que não limita a capacidade de intervenção social e política, de lutar ao lado dos trabalhadores desde que não se ofenda quaisquer princípios éticos nem deixe de defender essas frentes de luta mesmo que os seus bens patrimoniais sejam atingidos. A direita, com o seu oportunismo contumaz, confunde moralismo, ética e ilegalidade. Tem outro problema, a corrupção, os crimes políticos e económicos, os que estão escrutinados e alvo de processos judiciais mais os que andam a pairar ou estão submersos em nuvens de suspeição, são praticamente um exclusivo do PS, do PPD e do CDS. Têm a seu favor a artilharia jurídica, sabendo-se que entre a justiça e o direito o abismo não é pequeno e que o direito é o direito do mais forte à liberdade. Robles era um alvo à sua medida mesmo sabendo-se que não tinha cometido nenhuma ilegalidade. Tinha incorrido numa fortíssima e insanável contradição ética.

A campanha que decorreu e continua a decorrer é da baixa politiquice, prenhe de truques xico-espertos e populistas que procuram ocultar a dura realidade das inquietações que assaltam os grandes interesses económicos e os políticos que os representam.

A questão central da direita é a necessidade, até urgência, em romper com a convergência que parlamentarmente tem sustentado a solução governamental que, desde as últimas eleições, foi encontrada. Pressionados pelo grande poder económico e politicamente desorientados, fazem esses fogachos enquanto não encontram líderes capazes de a romper. Rui Rio não os satisfaz por parecer estar mais interessado em ressuscitar um bloco central, o sonho desejado por Marcelo, que desde o seu primeiro dia de presidência o tinha colocado por debaixo da mesa em que discutia os problemas do dia-a-dia governativo com António Costa. Assunção Cristas é aquela coisa que abana a cabeça de um lado para o outro sem uma ideia consequente. Aparecem agora um ressuscitado Pedro Santana Lopes que tem ideias que sem o concurso dos concertos de violino de Chopin não consegue afinar. Pedro Duarte a saltar pimpão para o palco, faltando saber se tem estaleca para enfrentar Rio e é capaz de corporizar os desejos não ocultos do grande capital.

A direita, atarantada por estar longe de exercer o poder e de no horizonte próximo essa possibilidade se configurar difícil, fragmenta-se, o que não significa que não continue a ser perigosa. Os comentadores que lhe são afectos e que dominam o panorama dos meios de comunicação social, da estipendiada propriedade dos plutocratas ao chamado serviço público – com destaque para a televisão onde se encontram bem representados –, aproveitam o caso Robles para colar pedaços e atacar sem detença a «geringonça» de caras ou de cernelha, como o têm feito desde o primeiro momento em que se percebeu que poderia haver uma solução governativa PS com apoio parlamentar do PCP, BE e PEV. Esse o alvo e o grande objectivo.

Alvos: entre o preferencial e o interposto

Num primeiro momento, de forma continuada, o PCP foi o alvo preferencial, em linha com que sucede desde o pós Revolução de Abril. O PCP abrir a porta para esta solução governativa destruía a velha e relha tese do PCP «na sua lógica imutável do “quanto pior, melhor”». Uma cassete da direita adoptada por muitos que se dizem de esquerda mas alinham sistematicamente com a direita. O PCP, na sua longa história, não teve nem tem vistas curtas pelo que nunca poderia pensar que as crises abrem necessariamente mais espaço à esquerda.

As lutas pelos direitos políticos e sociais não se reforçam com as crises, que alargam sempre o fosso entre ricos e pobres. Quem se reforça são os populismos de todos os matizes. Quando as crises rebentam as pessoas interrogam-se sobre o dia de amanhã. A reacção mais imediata, espontânea e humana é o receio pelo seu futuro. As pessoas que vivem pior e enfrentam situações que precarizam a sua vida estão humanamente mais fragilizadas, mais vulneráveis. Se num primeiro impacto os princípios da sociedade podem e devem ser postos em causa, a seguir regressam em força, pela mão dos agentes mais violentos do capitalismo. O colar o «quanto pior melhor» ao PCP é uma ideia feita da direita e de malta dita de esquerda formatada e em deriva ideológica. Esse bordão tinha ficado em estilhas, pelo se entrincheiraram nos desvios do PCP «à fidelidade de princípios». O que muito os incomodava, porque seria a única virtude que reconheciam a esse partido, ainda que essa virtude representasse para eles um claro sinal de envelhecimento. Para quem não tem, nunca teve, nem nunca terá princípios de qualquer género, para quem os princípios são instrumentais, ter princípios e a eles não falhar é qualquer coisa incompreensível, inaceitável. Esbarrava essa argumentação no empenho negocial do PCP em dar continuidade à «geringonça» sem recuar em nenhuma luta e nas críticas às vacilações das políticas sociais e económicas do governo, sem deixar de condenar a sua subordinação aos ditames da UE e à política belicista da NATO.

Com o BE, a questão era outra. Desde o anúncio da sua formação o BE beneficiou de desvelados carinhos mediáticos. Largos espaços de antena, dos jornais às televisões lhe foram concedidos, muitas das suas mais conhecidas individualidades foram e continuam a ser recrutadas para comentadores, mesmo os que saíram do BE para o Livre não perderam essas sinecuras, o que torna, curiosa mas não inesperadamente, o Livre num partido de quase nula expressão a ter desmesurada presença nos media. O BE alimentava a esperança de uma movida política, de ser o anticiclone dos Açores a impulsionar o ar fresco que varreria um PCP que não abdicava da sua identidade ideológica, reconfigurando o lado esquerdo do espectro político em Portugal, normalizando-o. O BE foi incapaz de cumprir esse desiderato. Desde a sua fundação andou sempre a balançar entre a recuperação aggiornata dos ideais dos primeiros sociais-democratas, para quem a democracia era o território da luta de classes pacífica, e um difuso eurocomunismo pop em que se começa pelos fins e se acabam os princípios. O seu modelo anda aos solavancos entre os Verdes alemães, o Syriza grego, o Podemos espanhol. As cenas de namoros com esses partidos têm vários episódios, alguns tornaram-se pouco recomendáveis. De qualquer modo continuava e continua a beneficiar da complacência mediática em larga escala e num amplo espectro.

O caso Robles abriu uma fissura e a oportunidade para os comentadores da direita mais reaccionária iniciarem uma campanha de descredibilização do BE, que as tergiversações de Catarina Martins & companhia facilitaram. É gato escondido com o rabo todo de fora. Há que sublinhar a traço muito grosso que o alvo dessa campanha era a «geringonça» por interposto BE, em que visionavam uma inevitável ruptura nos seus equilíbrios internos e as dificuldades que o BE teria na lógica da aspiração das suas elites intelectuais em participar num futuro governo, no que concorrem com os seus ex-militantes agora enfileirados num Livre eleitoralmente irrelevante mas muito activo nos tabuleiros desse mercado.

 

O saudosismo descarado da direita

 

O que está verdadeiramente em causa é o saudosismo nada ocultado pela governação Passos-Portas, o seu autoritarismo, a sua subordinação aos interesses do capital, o seu desprezo pelo mundo do trabalho, o ódio à peste grisalha, o ataque desenfreado aos direitos sociais e laborais, o acentuar os desequilíbrios entre a remuneração ao capital e ao trabalho, o atribuir qualquer sucesso económico, por menor que fosse, ao mundo empresarial e nunca aos trabalhadores, o dividir os portugueses entre empreendedores, sempre altamente beneficiados, e os «piegas» que se queixavam das cada vez mais duras condições de vida e de trabalho e da deterioração das relações laborais. O ódio aos sindicatos que conseguiram travar com êxito muitas lutas para que o pior não fosse ainda pior. O elogio do empobrecimento da generalidade dos portugueses enquanto a minoria dos mais ricos continuava a enricar a galope. Em simultâneo também estavam confortáveis com um PS e um BE que muito os criticavam e diziam que o país estava péssimo, mas não saíam das variantes de jogos de salão.

O PSD, com golpes populistas, ganha as eleições mas perde a maioria parlamentar e os alarmes disparam quando, à saída de uma reunião entre o PCP e o PS, Jerónimo de Sousa diz que «o PS só não será governo se não quiser». Não era só o tradicional e bafiento arco governativo que estava em causa, era sobretudo o PS abrir um interregno na sua matriz soarista-reaccionária e haver a possibilidade de um entendimento à esquerda.

Desde que esse entendimento se concretizou os ataques tem sido uma constante. O caso Robles deu-lhes um novo impulso sobretudo agora que a legislatura se aproxima do fim e se vai discutir o seu último orçamento. O único objectivo desta campanha é minar os possíveis e nada fáceis entendimentos à esquerda para, num primeiro passo, reduzir e, a médio prazo, anular o peso político do PCP, do BE e do PEV nas acções do Estado, desbravando as veredas por onde a direita mais reaccionária possa avançar. Atacar a «geringonça», até, se possível, torná-la inviável, é também dar força dentro do PS aos saudosos do soarismo-reaccionário que odeiam militantemente a esquerda e aos que estão contrafeitos na barca da «geringonça».

O capital está inquieto com a possibilidade de haver uma reedição dos entendimentos à esquerda. Por isso avança todos os seus peões nesta altura, que não é um momento qualquer. As tensões comerciais internacionais multiplicam-se e têm desenvolvimentos imprevistos. Advinha-se uma nova crise económica mais devastadora do que de 2008, a qual politicamente favoreceu a expansão dos populismos e dos autoritarismos. A frágil economia portuguesa é e será muito sensível às variações internacionais e, enquanto não recuperarmos muita da soberania que alienámos, ainda mais expostos estamos. Com o governo PS subordinado à UE e à Nato o caminho de recuperação de independência nacional está adiado e as medidas socialistas não saíram de gaveta fechada a sete chaves, ainda que se tenha metido uma chave na fechadura. Neste contexto as questões que se colocam à esquerda não são nada fáceis, confrontada como está entre a renovação ou não de um acordo semelhante ao que está em vigor, conhecendo as habituais flutuações do PS, as suas sujeições à UE e NATO, o polme dos seus militantes sempre prontos a se deixarem fritar em conjunto com a direita, a qual, mesmo a que aparenta ser mais civilizada, não perde os genes seláquios.

As alternativas são fáceis de desenhar no actual contexto nacional e internacional e a bem visível voracidade da direita não deixa margem para dúvidas. O saudosismo pelas celebradas medidas estruturais que mais não são que o ataque desenfreado a todos os direitos que ao longo destes 44 anos foram conquistados e defendidos, não é iludível. O governo Passos-Portas foi uma variante dura dos anos cavaquistas e soaristas. O que se pode prever nos actuais desentendimentos da direita, que são mais concorrência interpares do que divergências de fundo, é que uma próxima oportunidade de um governo dessa gente será ainda pior. A leitura do seus arautos é esclarecedora. É com essa realidade que a esquerda tem de se confrontar, que tem de enfrentar, com coragem e audácia, para continuar as batalhas pela reconquista dos direitos políticos, sociais e económicos que, por mais magroas que sejam, são conquistas que têm revertido, ainda que muitas vezes insatisfatoriamente, o caos insalubre que a direita tinha implantado.

(publicado em AbrilAbril,  http://abrilabril.pt 10 de Agosto 2018)

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Alain Resnais, Artes, Bomba Atómica, cinema, Doutrina truman, EUA, Geral, Harry Truman, Hiroshima, Literatura, Marguerite Duras

Hiroshima, Meu Amor

 

 

Hiroshime meu amorAlain Resnais tinha realizado um notável documentário sobre os campos de concentração nazis “Noite e Nevoeiro”.Encomendaram-lhe outro sobre Hiroxima, um documentário sobre e contra a bomba atómica. Fazia todo o sentido. O mundo vivia o pesadelo da ameaça nuclear, depois de os EUA terem desnecessariamente bombardeado Hiroxima e Nagasáqui, com Truman a declarar que «a bomba atómica é mais uma arma no arsenal da justiça» e de ter pontuado o discurso ao Congresso em que estabeleceu o que ficou conhecido como Doutrina Truman, com frases do tipo «Deus guiou os Estados Unidos da América quando lançou a bomba atómica» que ainda hoje devem fazer ficar roxos de inveja os califas do estado Islâmico, qualquer defensor da paz e cooperação mundial estava justificadamente alarmado apesar da União Soviética ter reposto o equilíbrio armamentista com o primeiro teste da bomba atómica em 1949 e da bomba de hidrogénio em 1955. A corrida às armas nucleares estava aberta. Uma espada de Dâmocles estava presa por um fino fio sobre o universo.

Resnais decidiu não correr o risco de fazer uma variante de“Noite e Nevoeiro”, por mais excelente que fosse. Conhecendo bem os romances de Marguerite Duras encomendou-lhe o guião de que resultou Hiroxima, Meu Amora primeira longa-metragem do realizador. A protagonista diz uma frase muito perturbadora naquela época «Se podemos fazer filmes para vender sabão, por que não para vender a paz?», premonitória dos nossos tempos em que as estratégias de marketing invadem e substituem os debates políticos, Trump e Macron aí estão para o demonstrarem.

«Hiroxima, meu amor» é uma história de paixão entre uma actriz francesa que vai a Hiroxima rodar um filme sobre a paz, e um arquitecto japonês que participou da reconstrução da cidade destruída pela bomba. Resnais mostra-a nos corpos das vítimas calcinadas pelas cinzas, deformados pelos efeitos das radiações. Violência sublinhada pelo obsessivo recitativo entre os dois amantes em que ela repete que viu tudo e ele insiste em que ela nada viu: «Sim, eu vi tudo em Hiroxima», «Não, não viste nada em Hiroxima.» A violência desumana da bomba é excessiva para ser visualizada.

É uma história de amor impossível, condenada pelas circunstâncias, o arquitecto é casado tem vida estabilizada, ela abandonará o Japão acabado o seu trabalho. Amores impossíveis em contextos políticos complexos, nada inesperados em Duras, refiram-se O Amante, O Amor, Moderato Cantabile que o faz sempre ainda que muitas vezes de forma subliminar.

História de amor progressivamente substituída por memórias e pela impossibilidade do esquecimento. As memórias recentes e visíveis do ataque nuclear despertam as memórias vividas pela actriz na II Guerra Mundial em França, em Nevers, sua terra natal. O romance proibido do seu primeiro amor, tinha dezoito anos, por um jovem oficial da Wehrmacht. No final da guerra, ele é morto pelos resistentes, a ela rapam a cabeça. Vive o opróbio e a loucura do seu amor escondida pelos pais numa cave.

Memórias que se cruzam durante todo o filme numa relação poética entre a catástrofe colectiva e a tragédia pessoal que Resnais utiliza de forma extraordinária para representar e condenar a inominável dor provocada pelo absurdo ignóbil e inqualificável que foram os bombardeamentos de Nagasáqui e Hiroxima.

Alain Resnais em Hiroxima meu Amor, realiza um filme superlativo em que filma o que é irrepresentável e indizível, contestando Adorno que tinha afirmado que depois de Auschwitz os poemas eram impossíveis. O texto obsessivo de Duras, as elipses narrativas a captar o que parece impossível, a montagem de associações e analogias, a utilização radicalmente inovadora do flash-back, a sucessão entre tempos rápidos e lentos, fazem deste filme, que é um filme sobre a instabilidade de um mundo em decomposição, um filme sem precedentes e único na história do cinema.

(publicado em Avante!, 9 Agosto 2018)

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Geral, História da Imprensa Portugal, História do Movimento Operário Portugal, Intelectuais Portugueses séc XX, José Manuel Tengarrinha, Políticos Potugueses séc XX

José Tengarrinha,uma vida de resistências

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O Zé Tengarrinha morreu há um mês. Na altura nada disse com mais essa perca na minha vida, como é sempre o desaparecimento de um amigo. Não disse porque inevitavelmente, movido pela urgência, iria sobrepor e repetir o que sobre o sucesso se ia escrevendo. Conhecia-o razoavelmente até nos tornarmos amigos. Os nossos caminhos cruzavam-se com frequência nas lutas públicas contra o fascismo, pela democracia e liberdade. Tudo mudou quando ficámos vizinhos, no mesmo prédio, no mesmo andar. Um edifício muito particular na rua Penha de França, recuado em relação ao perfil da rua, uma situação que proporcionava e proporciona uma vista deslumbrante a 360º sobre Lisboa. Ficámos mais próximos, a amizade a adubar-se. O que pressupunha ouvindo as suas intervenções públicas, adquiria outra dimensão. O Zé Tengarrinha na intimidade do nosso convívio sem relógios a controlarem-nos, era ainda mais incisivo e claro, sempre naquele tom sereno que o caracterizava. Não abdicava um milímetro na sua argumentação e não abdicava para melhor ouvir os argumentos contrários e rever ou não as suas teses. O que era difícil era não se acabar numa ampla convergência de opiniões.

Com essa nossa proximidade territorial as artes, as letras, a música eram campos de longas derivas em tarde e noites bem regadas. O Zé Tengarrinha tinha cultura vasta e sofisticada. Muita leitura e muitas revelações literárias dele sou devedor. Algumas de todo inesperadas. Ele tinha uma colecção de uns “lençóis” de papel com poemas de fazer chorar as pedras da calçada que antigamente, na minha infância, os acompanhantes dos cegos que tocavam acordeão cantavam com requebros sentimentais que mais acentuavam as desgraças anunciadas. “Poemas” que o Zé Tengarrinha dissecava com humor finíssimo colocando-os no contexto da alienação da poesia popular.

Semanas antes do 25 de Abril bem reconhecíveis e intrusivos ferrabráses da PIDE vigiavam o prédio onde morávamos. Uma vigilância ostensiva, uma evidente manobra de intimidação com fim imprevisível. Não sabíamos por onde andávamos subterraneamente embora o cálculo fosse fácil. Nem sabíamos, nem nos interessava saber se essa actividade eram de ramos da mesma ramada já que o tronco certamente não seria outro. Conjecturámos se aquele cerco vigilante seria para um, para ou outro ou para os dois. Finalmente aquela gente decidiu-se e o Zé Tengarrinha foi preso. Preso pela sexta vez. A 26 de Abril conheceu a liberdade por que sempre tinha lutado e iria continuar a lutar. Apesar do vendaval que foram os anos seguintes ao 25 de Abril, encontrávamo-nos com regularidade, as vertentes dos convívios centravam-se natural e obviamente sobretudo na área política. Adivinhava-se no Zé Tengarrinha uma inquietação subliminar pelo tempo que a actividade política lhe retirava à investigação científica que era de facto a sua paixão, até por ter voltado a ser professor de história na Universidade de Lisboa de que fora afastado pela ditadura.

Pelas curvas da vida perdemo-nos de vista. Quase simultaneamente abandonámos o prédio da rua Penha de França, onde ainda hoje vivem as nossas ex-mulheres. Por vários acasos fomos para fora de Lisboa. Foi conhecendo muito parcial e imprecisamente o seu percurso político, pressupondo as mágoas que teria mas que nunca publicamente expôs. Muitos anos depois contactei-o para que interviesse numa série de colóquios que estava a organizar. Recusou por indisponibilidade de tempo, não se queria desviar dos trabalhos de investigação em que estava empenhado. Não queria afastar-se do seu local de trabalho e do computador onde registava as conclusões que retirava das leituras de documentação e livros que lhe ocupavam o resto das horas do dia. Mesmo assim foi mais de uma hora de feliz conversa que lhe abriram um buraco nesse dia. Estava a trabalhar na História do Movimento Operário em Portugal, deveria ser esse o nome final da investigação que estava a realizar submetendo-se a uma disciplina operária. Pelo que publicou só se poderiam esperar novas perspectivas, novos olhares a iluminar a história e a revisar teorias estabelecidas como já o tinha feito com Nova História da Imprensa Portuguesa, José Estevão: o Homem e a Legislação do Brasil colonial, O início da Ofensiva Operária em Portugal, para referir três notáveis estudos. Muito trabalho deve existir nos seus arquivos que não devia ser negligenciado. Mesmo inacabada essa História do Movimento Operário em Portugal deve ser fundamental para a compreensão dos períodos que teve tempo de estudar e sementes vitais para lhe dar continuidade.

Quando fez oitenta anos, a Helena Pato, organizou uma homenagem. Uma bela jornada de confraternização no que foi o mais que justo reconhecer um homem que marca uma época e é uma das referências intelectuais e políticas do séc. XX em Portugal.

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Artes, Geral, Museu Nacional de Arte Antiga, museus

Ver o(s) Retrato(s)

retratoOs retratos tornaram-se uma vulgaridade depois do advento da fotografia, quando as máquinas fotográficas entraram com naturalidade no quotidiano. Hoje, com os telemóveis, são um excesso que os desvaloriza inundando as redes sociais. Já nem será assombroso que na galeria dos Presidentes da República Portuguesa, o actual presidente opte por uma selfie que não desmerecerá da aberração que é o retrato do anterior depois de um belíssimo retrato feito por Júlio Pomar e outro mais discutível pintado por Paula Rego. O retrato entrou em acentuado declínio em que as excepções sobressaem da vulgaridade nesta sociedade cercada e afundada pelas imagens.

É neste contexto que O Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) organiza uma exposição surpreendente e notável tendo por tema o retrato, organizada por Anísio Franco, Filipa Oliveira, Paulo Pires Vale que avisam que “esta é uma exposição falhada porque haverá sempre retratos ausentes que poderiam ter sido escolhidos”. Não são essas ausências, mais que expectáveis, que retiram fulgor a este “inquérito ao retrato português”, subtítulo de Do Tirar Polo Natural, o título da exposição recuperado do primeiro tratado sobre a arte do retrato, escrito pelo pintor Francisco de Holanda.

São três os núcleos, Afectividade, Identidade e Poder, em que se agrupam as obras que cruzam obras de épocas muito diferentes e das mais diversas técnicas. Inicia-se no átrio com uma estátua de D. João III e uma obra de Helena Almeida, introduzindo o que se vai ver, e termina nos painéis de Nuno Gonçalves, a obra mais representativa da arte nacional do retrato. Num percurso extremamente bem organizado desde o século XV até à atualidade,encontram-se obras tão diversas como a pintura de Domingos Sequeira da condessa de Linhares retratando o marido, o de José Cardoso Pires por Júlio Pomar, a recuperação de uma parede de Vihls onde fixou as imagens de três moradores do Bairro 6 de maio, na Amadora, os de Aurélia Sousa e o seu paradigmático auto-retrato, o Grupo do Leão de Columbano, os de Nikias Skapinakis que na época fizeram furor, Malhoa, o emblemático Ecce Homo de António Carneiro, os do grupo KWY que se auto-retrataram como personagens dos Painéis de São Vicente, até mesmo uma colecção de cromos de futebol da equipa do mundial de 1966. Nada é irrelevante da coleção de retratos (moeda incluída) em que está representado D. João VI, o primeiro rei português a perceber a importância da sua imagem, ao não retrato de Fernando Calhau ou ao 48, filme ensaio de Susana Sousa Dias com as fotos tiradas pela PIDE aos presos políticos para os seus ficheiros.

Dito nesta sequência de acaso, outra seria possível, poderá parecer que com tamanha disparidade de épocas, estilos, géneros os visitantes se dispersem e mesmo tenham algumas perplexidades ou equívocos. Nada de mais errado. A lógica pela qual os retratos são expostos proporciona uma séria reflexão do papel nuclear do retrato na sua expressividade, da afectiva ou à da imagem do poder político que se começou a afirmar na Renascença.

Haverá ausências mas a falta de uma qualquer obra, seja qual o motivo de não estar incluída, não se sente nas sequências de cada um dos núcleos sistematizados por um critério sólido que torna esta exposição sobre o retrato excepcional num tempo em que, como já se referiu, o retrato se banalizou ameaçando tornar-se irrelevante. Exposição no MNAA a ver até finais de Setembro.

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Artes, Eduardo Galeano, Geral, Literatura

UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO

UM PROFETA QUE NEGA FAZER PROFECIAS

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Eduardo Galeano, portador da memória colectiva do continente americano cuja brutal exploração, desde a sua descoberta até aos nossos dias denunciou num livro que é um clássico, As Veias Abertas da América Latina, é um escritor que percorre memórias vivas que recolhe para as transformar em histórias que passam a fazer parte da nossa memória colectiva. Forja com os pequenos heroísmos do dia a dia toda a grandeza da vida e “ escreve para aqueles que não me podem ler. Os de baixo. Os que esperam há séculos na fila da história os que não sabem ler ou que não têm como.” Os outros, osque o lêem aprendem a amar o mundo na sua incrível rudeza porque a vida vale a pena ser vivida com a emoção e a beleza que Galeano sabe delicadamente extrair de todos os seus pequenos sucessos para construir a infatigável esperança das lutas quotidianas para que a vida valha a pena ser vivida.

Assim é este Livro dos Abraços em que se dedilha a alma humana em memórias, sonhos, fábulas, onde o real e o fantástico se misturam para a realidade ser ainda mais real, numa escrita de grande economia de processos que dá voz aos zés-ninguéns, aos nenhuns, aos amordaçados, aos resistentes, aos esquecidos aos que são os triturados pela economia, pela política, pela sociedade, que são exilados pela cultura que se fecha sobre si-própria para se proteger e nos proteger do vazio que se vai apoderando da vida.

O mundo que o exilou e o condenou aos seus miseráveis cárceres não conseguiu que a sua voz, possuída por uma imensa ternura e um intenso humanismo, alguma vez falhasse aos condenados da terra para inscrever a esperança no futuro na linha de horizonte da história. Em Galeano “ assobia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contra-vento, e sou o vento que bate em minha cara.”

(publicado no Guia de Eventos Setúbal Julho/Agosto)

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Bolha Imobiliária, Direito à Cidade, Direito à Habitação, Geral, Henri Lefébvre, Marchas populares, Poder Local, Políticas Urbanas

Lisboa, em “Marchas” atrás

Marchas-Populares-2013

As Marchas Populares são uma tradição inventada por Leitão de Barros, enquadrada no espírito de António Ferro, de quem era colaborador próximo, que via Portugal como uma “Caravela de Sonhos”, “Uma Canção Cheia de Redondilhas”. Uma invenção que fez o seu caminho, ganhou raízes em Lisboa e até, mais tarde, se propagou para outras cidades. Quando em 1932, Leitão de Barros organiza as primeiras Marchas Populares tinha vários objectivos em carteira: o mais imediato reanimar o Parque Mayer, o outro, mais importante e que foi alcançado, implicar colectividades de cultura e recreio numa actividade de divertimento que lhes ocuparia tempo e energia, reduziria os tempos das actividades culturais e educativas, olhadas com alta desconfiança e que estavam a ser rigorosamente controladas por serem uma forma de resistência à ditadura em fase de estabilização do seu modelo fascista,

No primeiro concurso, os participantes Alto Pina, Bairro Alto e Campo de Ourique, exibiram-se no Parque Mayer na véspera do dia de Santo António, feriado municipal. O sotaque lisboeta, que se dizia ser o motor do evento, desaparecia sob os trajes minhotos da marcha vencedora, Campo de Ourique, prenúncio de um folclore que anos mais tarde iria fazer vencimento na RTP pela mão de Pedro Homem de Mello, outro inventor de tradições muito e bem satirizado por Fernando Lopes-Graça.

O êxito desse espectáculo patrocinado pela empresa do Parque Mayer, foi enorme. Quinze dias depois, no dia de São Pedro, repetiu-se com a participação de mais três ranchos: Alfama, Madragoa e Alcântara. Leitão de Barros, um excelente animador cultural e jornalista de sucesso, consegue forte cobertura mediática que pressiona o reconhecimento oficial das Marchas Populares. No Diário de Lisboa (!3/Junho/1932) escreve-se “lançaram-se os fundamentos para uma grande festa anual, tipicamente portuguesa e popular, a organizar com extensão e superior critério, e que a Câmara Municipal devia tomar a si”. Um dia depois o Diário de Notícias insiste: “As municipalidades têm, além de outras missões, também a de cultivar as tradições, aproveitando o manancial inesgotável de fantasia e de alegria do povo, a fim de, por vezes, quebrar a monotonia da cidade, essa espécie de tristura contemporânea que deforma, afinal, a verdadeira índole da nossa gente”. O fascismo estava a por em prática uma política contra a “tristura contemporânea”. Nada como tornar o país fechado a sete chaves, pobrete mas alegrete. Em 1935 inaugura-se a FNAT- Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, no dia 13 de Junho, quando em Lisboa as Marchas Populares tinham saído para a rua, eram um espectáculo com grande apoio popular. Já em 1934 tinham marchado do Terreiro do Paço até ao Parque Eduardo VII, 12 bairros e 800 marchantes, uma assistência calculada em 300 mil pessoas. Em 1935, a Câmara Municipal de Lisboa dá posse a uma Comissão de Festas da Cidade e assume o patrocínio da Grande Marcha da Cidade, a celebrizada Lá Vai Lisboa de Norberto Araújo e Raul Ferrão. Leitão de Barros tinha conseguido, percorrendo todos os bairros da cidade, originar um folclore local, em que cada bairro procurava encontrar os traços específicos da sua identidade. O enorme êxito das Marchas Populares só foi interrompido pela II Guerra Mundial, sendo imediatamente retomado, tendo alcançado o seu ponto máximo nos anos 50, com a participação do município e de membros do governo. Segue-se um período de menos brilho e o seu desaparecimento no pós-25 de Abril, por se ter considerado as marchas uma manifestação do antigo regime, o que era um facto que não atendeu a que a tradição inventada tinha criado fortes raízes que virão a ser ressuscitadas pela EGEAC nos anos 80, com sucesso que só tem paralelo aos dos seus anos mais brilhantes. Ressurgiram nos seus moldes mais tradicionais em que letras, músicas, coreografias e encenações estão alheios ao envolvimento sócio-político. Nem os violentos anos da troika fizeram bulir as Marchas que desfilam como se durante aqueles dias tivesse sido decretada uma trégua olímpica.

Tudo continuaria a correr sem sobressaltos de maior para os arcos balões e passos de danças e contra-danças se as políticas urbanas que se tem implementado em Lisboa não começassem a ser uma térmita das Marchas Populares. As Marchas bem tentam mostrar uma realidade dos bairros que é cada vez mais uma ficção. Começa a ser uma pesada evidência que a maioria dos marchantes foi excluída dos bairros que continuam a representar. O futuro das Marchas, na sua configuração em que o espírito bairrista é o pulsar de cada marcha, independentemente do que se possa analisar ou mesmo criticar sobre a sua génese, está ferido pela deslocalização forçada dos lisboetas por políticas urbanas que pensam a cidade não em função dos seus munícipes mas de uma cidade calculada a preço metro quadrado em que a monocultura do empreendedorismo turístico e da especulação imobiliária é dominante, espalhando os seus tentáculos por todo o lado, como se pode ver pelas alterações aos planos de urbanização, a desqualificação de edifícios de interesse público, no traçado proposto para o metropolitano que só tem essa justificação, por mais contorções e habilidosos sofismas do presidente da Câmara de Lisboa a travestir a realidade que é a de Lisboa estar entregue a um conluio de políticos e especuladores imobiliários que ofertam a cidade a essa melancólica multidão solitária que atafulha o eléctrico 28 e o elevador de Santa Justa, deambula entre fotos e selfies, colecciona magras recordações. O turismo, um importante sector de negócio, é também um mal que está a matar Lisboa, tal como está a matar outras cidades europeias que seguem o mesmo modelo em que os seus patrimónios perdem significado histórico são vendidos nos mercados dos bens culturais, o sentido de as habitar não tem qualquer importância.

Os marchantes resistentes serão cada vez menos, as memórias dos seus descendentes já serão outras. Com a manutenção dessas políticas subjugadas pelos interesses imobiliários em breve veremos os edis que dirigem os destinos da Câmara de Lisboa a presidirem com sorrisos de plástico, que sempre são mais baratos, a desfiles de marchas contratadas nos arredores para manter uma tradição que se vende a pataco. Bem podem começar a preparar uma marcha multicultural verde alfacinha para desfilar em 2020, quando Lisboa for Capital Verde Europeia, encabeçada pelo “cheerleader” zé que não faz falta a Lisboa e um exército de marchantes mercenários recrutados entre lisboetas corridos para as periferias, para onde a bolha imobilíária com epicentro na capital começa a alastrar, e não lisboetas suburbanos, a engrossar os elencos marchantes que podem mesmo desconhecer o bairro sob que bandeira desfilam. Nada como continuar a marchar para alegria do parque de diversões em que a cidade se está a transformar. Marchem, continuem a marchar cantando e rindo enquanto a monocultura do turismo vai esvaziando Lisboa dos seus habitantes, à imagem e semelhança do que está a acontecer em muitas outras cidades da Europa, para criar a ilusão que a cidade não se está a transformar num museu em que se degradam as relações vivas entre os seus habitantes e as memórias da cidade se estratificam para serem visitadas, dando-lhe a vitalidade económica que é também a causa do seu suicídio. Marchem, não deixem morrer as marchas para iludir o desmantelamento da cidade pelo seu progressivo despovoamento alinhando Lisboa por esse modelo global em que habitar perde sentido, as cidades se tornam idênticas terras de ninguém para o turismo. Marchem, não deixem morrer as marchas para fingir que a cidade está viva. Marchem, com marchantes que desçam à cidade de onde foram excluídos por rendas impossíveis, para sustentar a enorme falácia em que se tornou o direito à cidade.

As cidades não podem estar condenadas a essa danação em que os seus centros históricos se transformaram nuns buracos negros de políticas urbanas sem qualidades que os transformam em parques temáticos em que se acotovelam visitantes de sociabilidades massificadas de um cosmopolitismo fruste que borboloteia entre pólos de atracção onde desembarcam em maratonas com tempos cronometrados, fachadas recuperadas do seu património edificado de onde são progressivamente excluídos os seus habitantes e os grandes eventos, que antes de o serem já assim são anunciados, acumulam-se, repetem-se concorrem entre si nas mais diversas geografias. Cidades de actividade económica pauperizada por uma unicultura da Cidade-Empresa do pensamento único, em que a ideia de Cidade e de Poder Local se esvaziam tomados de assalto pelo neo-liberalismo, transformando-as num território de negócios desvinculado das necessidades humanas.

Os fortes sinais de alarme contra essa cultura que deixa morrer as cidades privatizando-as para oferecer as suas imagens e as suas obras ao consumo, são antigos, tiveram eco na altura, rapidamente foram sepultadas pelas cáfilas de políticos e especuladores imobiliários que sempre marcharam de braço dado pelas alcatifas dos gabinetes em que se riscam as políticas urbanas. Agora, a um passo do abismo em que muitas cidades europeias, Lisboa em franca aceleração para ficar na linha da frente, é de relembrá-los. Foram enunciados nos finais dos anos 60 sobretudo por Henri Lefébvre, em O Direito à Cidade e Contra os Tecnocratas(*), dois textos a reler com urgência que se tem repercutido noutros igualmente importantes (**) de avisos sérios para este estado de coisas da alienação das cidades, em que vender a cidade se tornou o objectivo central do Poder Local. Dois textos que também fazem renascer a esperança de que as ciências humanas, em particular a sociologia e a psicologia, saiam do pântano do pensamento inutilitário em que, nestes tempos pós-modernos, se têm afundado.

                                                                                           (publicado em  http://www.abrilabril.pt/ )

(*) O Direito à Cidade, Henri Lefébvre, Letra Livre, 2012

Contra os Tecnocratas- Acabar com a Ficção Científica, Henri Lefébvre, Moraes Editores, 1968

(**) Le Capitalisme contre le Droit à la Ville, David Harvey, Amsterdam, 2011

Naked City, The Death and Life of Authentic Urban Places, Sharon Zukin, Oxford University Press, 2010

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Os Reguladores, regulam?

jongleur2O mês de Maio de 2018 foi, em termos de preço da eletricidade transacionada no mercado grossista (MIBEL/OMEl), o mais caro desde 2008, apontando para os 62 €/MWh.

Aliás, em 2017, o MIBEL foi a segunda “bolsa” de eletricidade mais cara da Europa, com um valor ponderado anual de 53 €/MWh, que compara, por exemplo, com os 45€/MWh, valor correspondente em França!

Estamos com preços altíssimos e fortes repercussões socioeconómicas nos cidadãos e empresas consumidoras. Sao necessárias explicações claras e urgentes.

Os fervorosos adeptos do mercado diziam, há alguns anos atrás, que a liberalização e privatização das empresas de eletricidade trariam o paraíso aos consumidores e aos contribuintes portugueses: os preços diminuiriam e a qualidade dos serviços bens desceriam!

Sabemos que isto não se concretizou, ou seja, não é verdadeiro. As tarifas/preços da eletricidade (e do gás natural) são, em Portugal, das mais elevadas no contexto europeu.

Na vida real as grandes empresas instaladas no setor energético têm tido, nos últimos anos, incluindo aquelas que atuam a coberto do lobby das energias renováveis, lucros que, pela sua escala, são escandalosos e atentatórios dos interesses comuns. Não considerando a hipótese de haver atuações que venham a ser merecedoras de condenação judicial. De facto,  o que se passa à sombra da legalidade que foi sendo construída é, em si mesmo, politicamente criminoso, porque o conteúdo  dos diplomas legais fundamentais violenta grosseiramente os interesses nacionais.

Em princípio, de acordo com a teoria dos mercados, a formação dos preços da eletricidade seria influenciada por vários fatores, designadamente:

  • A estrutura de produção em termos de tecnologias empregues (mix tecnológico);
  • Os preços e condições de energia primária;
  • O regime hidrológico;
  • O mercado de licenças de emissão de CO2;
  • A procura de eletricidade;
  • A capacidade/disponibilidade produtiva.

A constituição do parque electroprodutor é um factor crítico na formação dos preços de eletricidade na medida em que pode condicionar a sua vulnerabilidade a aspetos específicos das energias primárias ou das condições hidrológicas, solares e eólicas.

Não obstante a crescente produção a partir de centros produtores eólicos e Fotovoltaico, estimulados pela compra obrigatórias e protegidos por preços subsidiados numa proporção artificialmente empolada, a maior parte da eletricidade produzida em Portugal é, em termos do diagrama de base, proveniente de centrais térmicas, nomeadamente de centrais a carvão e gás natural, e, também, da produção hidroelétrica.

Em Portugal, como em outros países, estamos sujeitos à volatilidade dos mercados internacionais de energia primária, sendo a formação dos preços de eletricidade no mercado grossista influenciada por eles.

Como a eletricidade não nos pode chegar de camião, navio ou avião, a capacidade de interligação à rede espanhola e, indiretamente, francesa e europeia, é importante, pelo menos no plano teórico. Coisa que não é dominável unilateralmente, não obstante as declarações políticas muito esperançosas repetidas nos últimos tempos.

A acrescer aos preços internacionais de energia primária, o “mercado” das emissões de CO2 veio a criar um mecanismo que pressiona os preços finais da eletricidade, isto porque a questão climática (diferente da ambiental) passou a refletir-se na estrutura de custos das centrais térmicas, nomeadamente nas centrais a carvão, onde o nível de emissões de CO2 é mais elevado.

Este novo “custo”, internalizado no preço final da eletricidade, veio a constituir-se como um importante factor na definição de políticas energéticas tendo em consideração a preocupação, muito acarinhada na Europa, a respeito das alterações climáticas.

Na produção hidroelétrica, a valia da água tem um custo de oportunidade que varia com o nível de armazenamento e o regime hidrológico verificado (ano húmido ou seco).

No presente, o preço do petróleo está nos 68 USD/barril quando já esteve, há alguns anos atrás, acima dos 140 USD/barril. O preço do carvão importado (steam coal) tem variado bastante, com tendência a descer desde janeiro 2018 e inclinando-se mais recentemente para os 80 €/ton.

Ficou registado que o mês de Maio de 2018 foi, em termos de preço da eletricidade transacionada no mercado grossista (MIBEL/OMEl) o mais caro desde 2008. Ora, há dez anos havia menos 30% de capacidade de produção eólica instalada em Portugal, ou seja, chegava ao mercado grossista muito menos eletricidade de origem renovável.

Por outro lado, a hidraulicidade está, em maio de 2018, 20% acima do ano médio, havendo, portanto, muito potencial elétrico armazenado nas albufeiras.

No dia 10 de junho, domingo e feriado, a eletricidade chegou a cerca de 63 €/MWh às 23 horas, quando havia grande produção eólica.

Desconhecem-se restrições importantes nas interligações entre Portugal e Espanha, e, também não há registo de indisponibilidades significativas no parque electroprodutor ibérico, inclusive nas centrais nucleares.

Não obstante a significativa disponibilidade de hidroeletricidade e eólica, e tendo ainda em conta o custo marginal da eletricidade produzida na central de Sines (a carvão), que andará nos 42 €/MWh, os preços estão nos já referidos valores.

Como se explicam tais preços elevadíssimos? Que tipo de anomalias estão a ocorrer? As autoridades reguladoras, ERSE e Autoridade da Concorrência, já indagaram? E, se já analisaram a situação, quais são as conclusões?

Que o atual “mercado” grossista de eletricidade é uma coisa opaca, difícil de “ler” e dominada por meia dúzia de centros de decisão empresarial (há três fornecedores e cerca de trinta comercializadores, mas, de facto, centros empresariais independentes são muito menos). Mas, o aqui referido empolamento é exagerado.

Tudo parece indicar que há, no mínimo,  uma falha grosseira de mercado.

Acrescentar que os célebres CMEC –  que os consumidores portugueses pagam através da aditividade dos CIEG – estão “apenas” relacionados com as centrais hidroelétricas. Que pertencem, no fundamental, à EDP. É certo que, entretanto, esta figura teria dado lugar a uma indemnização fixa por dez anos (a questão está em contencioso entre a ERSE e a EDP).

Quanto maior fosse o preço da eletricidade comercializada na pool/MIBEL mais a EDP ganhava no âmbito dos CMEC, independentemente do preço das matérias primas energética (gás natural e carvão) nos mercados internacionais.

Sabendo-se que o preço no MIBEL esteve acima dos 50 €/MWh durante o ano de 2017 (continuando à volta dos 60 €/MWh em 2018) e, por outro lado, continuando ainda em vigor o referencial relacionado com os ex-CMEC, pergunta-se: por que razão, e à luz de que critério, se mantém a EDP a receber um subsídio indemnizatório fixo que, no fundo, prolonga o espírito dos CMEC sem qualquer relacionamento com o preço na pool? A ERSE? A secretaria de Estado?

A EDP deveria, de facto, retornar dinheiro ao sistema, sempre que a eletricidade estivesse acima dos 50 €/MWh. Isto de acordo com o que está legislado, que, a não ser respeitado, nos conduz a rendas não só excessivas, como, também, abusivas!

Os fundamentalistas do mercado neoliberal acham que os Reguladores têm nas suas mãos a resolução destes problemas.

Mas, será que os Reguladores, regulam bem?

Mais, há que perguntar se, na matriz das entidades Reguladoras, está, de facto, a defesa dos interesses comuns.

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