Ana Gomes, Eurodeputados, Jean Ziegler, Jornalistas,denunciantes e defensores do direito à informação, Julien Assange, Nestlé, Paraísos Fiscais, Piratas, Rui Pinto, União Europeia, wikileaks, Yasmine Motarjemi

DE PERNAS PARA O AR

Hoje em dia, as pessoas não respeitam nada.

Dantes, punham-se num pedestal a virtude, a honra, a verdade e a lei.

A corrupção campeia na vida americana dos nossos dias.

Onde não se obedece a outra lei, a corrupção é a única lei.

A corrupção está a minar este país.

A virtude, a honra e a lei esfumaram-se das nossas vidas”

declarações de Al Capone ao jornalista Cornelius Vanderbilt Jr.

revista Liberty de 17 de Outubro de 1931, alguns dias antes de ser preso

Causa alguma perplexidade que os eurodeputados do Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde, tenham atribuído o prémio “Jornalistas, denunciantes e defensores do direito à informação”, que vai na sua segunda edição, a Julian Assange, o fundador da Wikileaks, Yasmine Motarjemi, denunciante de falhas de segurança alimentar da Nestlé e ao português Rui Pinto, por participação no Football Leaks.

Estranho por se fazer equivaler as denúncias de Assange e Motarjemi às de Rui Pinto. Estranheza multiplicada pelo método processual de cada um dos premiados e pelo seu percurso na defesa do direito à informação. Os dois primeiros desvendam os mecanismos que suportam o funcionamento do estado burguês. Assange apresentou as evidências contemporâneas da verdadeira natureza e do real funcionamento do estado imperialista e seus lacaios. Assange e a Wikileaks desmontaram a face humana do imperialismo que todos os dias é vendida pela comunicação social mercenária que a transacciona sem pudor por todos os canais mediáticos ao seu serviço e ao serviço da plutocracia que a comprou, estripando o jornalismo de investigação, uma raridade cada vez mais rara, de qualquer independência e isenção, para que o pensamento dominante transforme a democracia numa fábrica de retóricas inúteis, despolitizando as sociedades com o objectivo de que a esperança numa sociedade outra morra antes de nascer. Comprovaram e desmontaram as tramoias da política externa e interna dos estados burgueses. O que Assange e a WikiLeaks fizeram é um feito histórico. Puseram a nu o funcionamento do Estado burguês, do Estado imperialista, a hipocrisia, a brutalidade, as práticas desonestas a que recorrem rasgando as normas mais básicas do direito internacional para assegurar a continuidade da exploração pelo capital. Contra todas as evidências, sem argumentos perseguiram-no sem tréguas até, finalmente, o prenderem.

Yasmine Motarjemi, vice-presidente adjunta da Nestlé, responsável mundial pela segurança sanitária dos produtos Nestlé, foi demitida por denunciar as falhas da multinacional, na sequência de um escândalo de uma epidemia de salmonelas noutro grande grupo mundial de produtos lácteos, a Lactalis, em que os defensores dos direitos dos consumidores questionaram a inexistência de qualquer sinal de alerta havendo quase a certeza de ser praticamente impossível que um caso de tal dimensão escapasse aos responsáveis de segurança alimentar da Lactalis.

Corajosamente Yasmine Motarjemi, denunciou falhas de segurança da Nestlé por laxismo nos processos de controle por os interesses económicos se sobreporem às normas de segurança sanitária. Foi imediatamente perseguida, vilipendiada. Ela explicou com grande clareza porque é que nessa área as denúncias são raras : “ o problema é que o assédio psicológico, o licenciamento abusivo a que se sucede o desemprego, ameaça todos os que ousam denunciar as negligências. A perseguição psicológica é utilizada para exercer represálias contra quem faz os alertas, mas essa perseguição tem igualmente repercussões sobre os outros trabalhadores, fragiliza a segurança sanitária dos produtos de múltiplas maneiras”. A perseguição faz-se de muitas formas o que desenrola um espesso manto de silêncio, silenciando quem os poderia delatar. Um dilema que ela bem conhece. Depois de vários anos a fazer avisos internos sem consequências decidiu torná-los públicos. Perdeu o emprego. Antiga responsável pela segurança sanitária dos produtos alimentares da Nestlé, foi forçada à pré-reforma por alegadamente ter violado normas de confidencialidade da multinacional.

Que há de comum entre Assange, Motarjemi e Rui Pinto a quem os eurodeputados decidiram elevar no mesmo patamar dos Jornalistas, Denunciantes e Defensores do Direito à Informação”? Nada, rigorosamente nada a não ser que aceitem por boas as preocupações éticas de Al Capone.

Rui Pinto é um ladrãozeco, como Lopo Xavier revelou no programa Circulatura do Quadrado contando os roubos feitos pelo pirata informático a bancos. Foram sendo conhecidas outras incursões do Pinto. A mais badalada a do Caledonian Bank, das ilhas Caimão, que ele explica com umas desculpas esfarrapadas impossíveis de comprovar por se entrincheirar num acordo de confidencialidade, por isso não sabe quanto lhe rendeu. Em relação à tentativa de extorsão à Doyen, caso por que está em prisão preventiva a aguardar julgamento, e outras, umas já conhecidas outras por conhecer, os seus actuais advogados afirmam com candura desarmante, que o rapaz desistiu voluntariamente da extorsão! Com estes antecedentes fica-se por saber porque decidiu e qual a extensão da sua colaboração no Football Leaks, no mundo obscuro da economia relacionado com o mundo do futebol que não deixou por isso de ser menos opaco. Os resultados tem-se traduzido em acordos de várias eminências futeboleiras com as autoridades tributárias de vários países, que pouco ou nada afectam a opacidade da economia do futebol. Releia-se A Suiça Lava mais Branco de Jean Ziegler (editorial Inquérito, 1990) em que o futebol é apontado como uma das melhores máquinas para a lavagem de dinheiro. Do Football Leaks tem como resultado exclusivo ganhos para diversos fiscos, num toma lá dá cá de lances mediáticos pouco abonatórios.

Rui Pinto excita muito personagens como Ana Gomes o que não provoca espanto sabendo-se por onde ela anda. São processos de barrelas morais da ainda eurodeputada que se esganiça espantada por ainda ninguém ter sido preso no caso BES mas esteve mais que silenciosa quando o BES foi privatizado em detrimento do bem público, com favores inomináveis, que iniciou o caminho vertiginoso que acabou como todos conhecemos (conheceremos de facto a sua real extensão? Viremos algum dia a conhecê-la na sua totalidade?) e que andamos todos a pagar. Que se excita com os panama papers que na realidade acabaram por favorecer e engordar outros paraísos fiscais deixando impune um sistema global criminoso de fuga ao fisco que continua o seu caminho imparável. Que nunca denunciou as privatizações de empresas nacionais o que possibilitou que agora tenham as suas sedes sociais na Holanda, Luxemburgo, Irlanda, onde se subtraem a pagar impostos em Portugal. É a dupla moral que ataca árvores que lhe rendem dividendos populistas mediáticos mas deixam intacta a floresta na era das privatizações e do mercado livre em que o dinheiro governa sem intermediários, o que não a desassossega. Há que relevar a sua coerência. Defende Rui Pinto com a mesma convicção com que gritava “nem mais um soldado para as colónias” o que iluminava o monóculo de Spínola a negociar rodésias e áfricas do sul com minorias brancas de Angola e Moçambique, de que resultaram brutais acontecimentos como o de Setembro de 1974 em Lourenço Marques que originou incontáveis mortos. Garante-lhe mais presença mediática – a que preço? – para outros comentários todo o terreno onde se desbarata em argumentários politicamente disléxicos, nada inocentes que alinham com o coro reaccionário da maioria dos comentaristas encartados dos media.

Essa fúria e essa dupla moral tem vários antecedentes na história. O mais celebrado é o do pirata Francis Drake que Isabel I condecorou cavaleiro, nomeou vice-almirante do Reino de Inglaterra, para continuar a saga da sua vida dupla em que a de oficial da armada inglesa coexistia com a de corsário. Só que nem Rui Pinto é sequer um mais que pindérico Drake nem Ana Gomes uma ultra-rasca Isabel I.

O que não é aceitável, a não ser num mundo de pernas para o ar, nestes tempos neoliberais em que a justiça social se reduz à justiça penal, o Estado se submete ao mercado exercendo funções de vigilância e castigo, em que o poder pratica a injustiça social enquanto os direitos públicos minguam. Basta olhar para dentro das fronteiras da Europa Connosco em que às grandes empresas, aos grandes monopólios se concedem escapatórias para evadir-se às suas obrigações tributárias em offshores declaradas e outras encapotadas com os benefícios fiscais concedidos por alguns dos países que se sentam na mesma mesa da Comissão Europeia do luxemburguês Juncker do Luxleaks, do Eurogrupo comandado por Mário Centeno guardião do Tratado Orçamental. Em que o Banco Central Europeu concede empréstimos a juro zero à banca privada para a banca privada os emprestar a altos juros aos países onde estacionam. Olhe-se para os lucros do Santander Totta que entre janeiro e março deste ano obteve um lucro de 137 milhões de euros, 50 milhões na “gestão da carteira da dívida pública”.

Só essa dupla moral explica porque se coloca despudoradamente no mesmo pódio Assange, Motarjemi e Rui Pinto. Dupla moral que nos deve inquietar e importa denunciar.

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Banco de Inglaterra, Geral, James Bolton, Luiís Amado, Mike Pompeo, Novo Banco, Santos Silva, Venezuela

O Engraxador do Palácio das Necessidades

Na Venezuela a comunidade portuguesa fez uma manifestação que decorreu em frente ao consulado português, a pedir o dinheiro do Estado venezuelano bloqueado pelo Novo Banco. O chefe da diplomacia nacional comentou sem uma ruga de dúvida: “Portugal é um estado de direito, uma democracia política e uma economia de mercado e os bancos não obedecem aos governos.”

Santos Silva, o putativo ministro dos Negócios Estrangeiros na realidade um factotum da política norte-americana, tem a lata – coisa abundante no personagem como se pode verificar nas suas andanças por vários cargos ministeriais por onde já passeou o seu sobrolho franzido como sinal de inteligência – de fazer esta afirmação sabendo muito bem que o Novo Banco faz o confisco de 1 543 milhões de euros de dinheiro do estado venezuelano obedecendo ao ditames do governo dos EUA e não por quaisquer outras razões.

Novo Banco sublinhe-se que, entregue a um fundo abutre norte-americano, foi salvo e sobrevive com dinheiro extraído dos bolsos dos contribuintes portugueses. Já lá vão mais de 1 800 milhões de euros, estando previstos mais uns milhares de milhões nos próximos anos.

A falta de vergonha dessa gente não tem fronteiras, julga que todos nós somos parvos e engolimos os sofismas cínicos e hipócritas que debitam com a agravante de demonstrar que o governo de um país estrangeiro dita ordens a um banco com sede em Portugal, o que acaba por ser natural quando o ministro dos Negócios Estrangeiros não é mais que um engraxador dos sapatos de Pompeo, Bolton & companhia.

Entretanto são confiscados directamente à Venezuela mais de 4 mil milhões de euros, em Portugal e em Inglaterra. O Banco de Inglaterra congelou ouro que pertence ao governo da Venezuela com um valor de 1, 5 biliões de dólares. A Blomberg noticiou que a decisão de não autorizar o pedido de retirada de ouro foi feita depois que altos funcionários dos EUA, inclusive o secretário de Estado, Mike Pompeo, e o conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, pressionaram seus homólogos britânicos a bloquearem o acesso a ativos no exterior por Maduro, necessários para a compra de medicamentos, alimentos e outros produtos de primeira necessidade para a sobrevivência da população do país. Santos Silva nem precisou de ser pressionado, bastou um estalar de dedos sabendo bem de mais os dignatários norte-americanos que o Silva é a voz do dono e espera amestrado o que soa na corneta acústica, como no logo da HMV, para tudo justificar com conversas da treta.

É de lembrar que esta política dos EUA começou com Obama, quando em Portugal um digno antecessor de Santos Silva, o inefável Luís Amado que rastejava nos tapetes por onde passeava Hilary Clinton, para depois ser recompensado com um lugar na administração do Banif até o levar à falência.

As sanções à Venezuela, violando todas as normas do direito internacional, já lhe custaram mais de 300 mil milhões de euros impondo enormes sacrifícios ao povo venezuelano. Um cerco que faz parte da política imperialista de tentar submeter toda a América Latina.

Por cá os seus lacaios. Gente sem dignidade que nem sequer sabe o que é dignidade que arrastam Portugal para estas aventuras do imperialismo desprezando as comunidades portuguesas da diáspora.

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Cultura, Estado Islâmico, EUA, imperialismo, Iraque, Notre-Dame, património, Património Classificado UNESCO, Património Monumental, Síria

Proteger o Património Cultural

Notre-Dame consumida pelas chamas

O recente incêndio da Notre-Dame provocou emocionadas ondas de choque por todo o Mundo estupefacto por tal ter acontecido numa Europa onde supostamente o património se encontra mais protegido que noutros lugares do universo. As chamas consumiram a Notre-Dame depois de, em 2018, ter terminado o Ano Europeu do Património Cultural que teve por objectivo sensibilizar para os valores europeus e reforçar o sentimento de identidade comum europeia.

Objectivo explicitamente político de afirmação da cultura eurocêntica que agora abre a sua identidade a outras identidades e diferenças depois de séculos em que a tentou impor unilateralmente, dedicando-se paralelamente ao tráfico de bens culturais não só de outros continentes mas dentro da própria Europa. Recorde-se os frisos do Pártenon traficados por Lord Elgin, as obras pilhadas por Napoleão e pelos nazis. Apesar de, após a derrota do regime napoleónico, se ter firmado um tratado para devolver o espólio roubado aos países originalmente detentores, um primeiro passo na sua defesa, o Casamento de Caná, de Paolo Veronese, continua em exposição no Museu do Louvre, os frisos do Pártenon no British Museum, muitas das obras roubadas pelos nazis estão em paradeiro incerto.

O alarme gerado pelo incêndio da Notre-Dame, para lá do mediatismo que teve com o público abrir dos cordões das bolsas das famílias mais ricas do mundo e de empresas de artigos de luxo, num total de mais de 600 milhões euros para a reconstrução do icónico monumento, o que não deixa de ser chocante quando coincide com a sua indiferença com o desastre temporalmente coincidente que aconteceu em Moçambique – para essa gente refinada um pináculo vale muito mais que a perda de centenas de vidas e as incalculáveis devastações que afectaram centenas de milhares de pessoas –, alerta para os perigos a que tem estado sujeito o património cultural material e imaterial em todo o Mundo e para a escandalosa desigualdade do derramamento de notícias sobre as destruições sucedidas nos últimos anos.

Com as guerras do império norte-americano e seus sequazes no Médio-Oriente, Iraque e Síria, e no Afeganistão a destruição de monumentos, a pilhagem, o tráfico ilegal de artefactos históricos têm efeitos muitíssimo mais devastadores que o incêndio da Notre-Dame. A sua memória vai-se diluindo, os autores desses crimes lesa património cultural vão ficando impunes. Convém sublinhar que quem de facto os perpetrou, os talibãs no Afeganistão, os jihadistas na Síria, são extensões, armas de arremesso dos EUA e seus aliados que os armaram e financiaram.

Não se pode esquecer que os talibãs que destruíram com alarde os Budas gigantes de Damyan são uma invenção norte-americana, que os apelidava de combatentes da liberdade contra o governo não confessional do Afeganistão e seus aliados soviéticos. Na Síria, os jihadistas de diversos grupos alinhados com o Estado Islâmico atacaram a cidade de Palmira, provocando destruição gravíssima num dos primeiros locais a ser considerado Património da Humanidade pela UNESCO. A guerra instalada na Síria pelas potências ocidentais por interpostas forças mercenárias danificaram, destruíram e pilharam centenas de outros locais históricos. No Iraque a situação evoluiu para uma situação semelhante embora no seu início a pilhagem dos museus e monumentos tenha sido realizada pelas tropas invasoras.

Cuidar do património cultural é uma responsabilidade de todos. Protegê-lo da sua destruição – uma das formas de o alienar é pela privatização, recorde-se o que acontece actualmente na Grécia – é um dever universal. A emoção pelo incêndio da Notre-Dame deve ser um sinal de alerta para as destruições que todos os dias sucedem. Apesar de diferentes pontos de vista, esses actos devem ser condenados. Os seus autores, os de facto e os morais, devem ser punidos.

A cidade de Palmira destruída pelos jihadistas
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capitalismo, Geral, Ideologia de Direita, imperialismo, Julian Assange, wikileaks

11 Abril DIA MUNDIAL da INFÂMIA

O dia 11 de abril de 2019 deve ser proclamado como o DIA MUNDIAL DA INFÂMIA!

Os chamados valores civilizacionais do Ocidente, os Direitos Humanos e outras tretas que os governantes dos EUA e seus lacaios apregoam cinicamente enquanto promovem guerras em todos os azimutes, lançando bombas materiais e imateriais que matam e condicionam milhões de pessoas para que os seus interesses geoestratégicos se mantenham intocados, o que fazem com uma ferocidade crescente em função do seu declínio económico, mostram que são uma farsa. Essa gente mostra, mais uma vez, sua verdadeira face.

Julian Assange, cofundador da WikiLeaks, foi detido porque os EUA assim o exigiam. O governo britânico prendeu-o escudando-se nas leis, no direito que é sempre o direito do mais forte à liberdade e pouco tem a ver com a justiça. Bem podem declarar candidamente que não pressionaram o Equador a revogar o pedido de asilo de Assange e que a justiça segue o seu curso . Uma declaração doblez por bem saberem que os EUA esqueceram, como por magia, os problemas financeiros do Equador, ordenando ao FMI que proceda ao empréstimo de uns providenciais 4,2 mil milhões de dolares. São caros os trinta dinheiros do Judas Moreno. Imediatamente depois disso, os diplomatas equatorianos “convidam” a Polícia Metropolitana de Londres a entrar na sua embaixada e prender o seu hóspede de longa data.

O que Assange e o WikiLeaks fizeram é um feito histórico. Puseram a nu o funcionamento do Estado burguês, do Estado imperialista, a hipocrisia, a brutalidade, as práticas desonestas a que recorrem rasgando as normas mais básicas do direito internacional para assegurar a continuidade da exploração pelo capital.

O que Assange fez foi apresentar evidências contemporâneas da verdadeira natureza e o real funcionamento do estado imperialista e dos seus lacaios. A comprovação das tramóias da política externa e interna dos estados burgueses. Contra todas as evidências e sem argumentos perseguiram-no sem tréguas. Nunca perderem um segundo até o conseguirem prender.

Assange e o WikiLeaks desmontaram a “face humana” do imperialismo que todos os dias é vendida pela comunicação social mercenária que a transacciona sem pudor por todos os canais mediáticos ao seu serviço e ao serviço da plutocracia que a comprou estripando o jornalismo de investigação, uma raridade cada vez mais rara, de qualquer independência e isenção, para que o pensamento dominante transforme a democracia numa fábrica de retóricas inúteis, despolitizando as sociedades com o objectivo de que a esperança numa sociedade outra morra antes de nascer.

O que Assange demonstrou é o que Orwell tinha antecipado “para sermos corrompidos pelo totalitarismo, não temos que viver num país totalitário”. As sociedades ocidentais estão profundamente corrompidas como as revelações do Wikileaks demonstraram.

Daniel Ellsberg, um dos muitos raros jornalistas de investigação que ainda existem, perseguido por em 1971 ter revelado os Documentos do Pentágono, expondo as mentiras da administração Jonhson sobre guerra do Vietnam, ocultando os inúmeros crimes de guerra dos EUA, já havia advertido em 2017: “Obama abriu a campanha legal contra a imprensa, perseguindo as raízes das investigações jornalísticas sobre segurança nacional e Trump vai perseguir os investigadores”.

Sério aviso e se o governo dos EUA conseguir extraditar Assange, processá-lo e encarcerá-lo, legitimará o seu direito de perseguir quem quer que seja, de qualquer modo, em qualquer parte, em qualquer altura.

Os “media livres”, durante os anos em Assange esteve refugiado na embaixada do Equador em Londres, procuraram desacreditá-lo por todos os meios, mesmo com o recurso a fake news. No seu melhor, a comunicação social dita de referência enredou-se em argumentários jurídicos para concluir que “o caso Assange é uma teia confusa”. Têm dúvidas sobre se teria o direito de publicar coisas que não deveriam ser publicadas por desnudarem as práticas criminosas atiradas para debaixo dos tapetes dos segredos de estado . Umas tartufices para ocultar que as “coisas” que Assange divulgou, que se encontram no site do Wikileaks, são a verdade sobre o modo homicida como o império actua, a revelação de Hillary Clinton enquanto apoiante e beneficiária do jihadismo no Médio Oriente, a pormenorizada descrição da actuação de embaixadores americanos e outros enviados especiais para derrubarem governos na Síria, na Ucrânia, na Venezuela e mais, muito mais, sempre muito mais. Querem estar protegidos contra os Assange, intimidando quem corajosa e honestamente se proponha continuar esse trabalho revolucionário de denúncia das mentes e das práticas criminosas ao serviço do imperialismo.

Exigir a liberdade de Julian Assange é defender a nossa liberdade.

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arquitectura, Artes, artes visuais, Bauhaus, Cultura, Design, Hannes Meyer, Mies van der Rohe, Walter Gropius

100 ANOS da BAUHAUS

Há cem anos, no dia 1 de Abril, a Bauhaus abriu as suas portas em Weimar, na Turíngia. De 1919 a 1933 a Bauhaus desenvolveu uma actividade teve uma enorme influência na história da arquitectura e das artes em particular no design. Alterou radicalmente metodos de ensino e currículos escolares nessas áreas que continuam a ser aplicados.

Este texto, publicado no AbrilAbril — dividido em dois por motivos editoriais — é uma opinião crítica sobre a história da Bauhaus.

https://www.abrilabril.pt/cultura/cem-anos-de-bauhaus-i

https://www.abrilabril.pt/cultura/cem-anos-de-bauhaus-ii

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Artes, artes visuais, Cultura, Guilherme Parente, Júlio Pereira, João Hogan, Sérgio Pombo, Setúbal, Teresa Magalhães, Virgílio Domingues

5+1 , uma Constelação de Artistas

da esquerda para a direita: Virgílio Domingues, Teresa Magalhães,Júlio Pereira, João Hogan, Guilherme Parente, Sérgio Pombo

Em Setúbal, na Galeria Municipal do 11, um colectivo de seis artistas, que iniciou a sua actividade em conjunto nos anos 1976 e esteve activo até o princípio dos anos 80, revive esse passado decorrido quase meio século. Eram os 5+1. Quatro ainda estão vivos, três bastante activos.

Descodifique-se 5+1. Nos géneros artísticos são cinco pintores e um escultor. No género, são cinco homens e uma mulher. Na política estão na esquerda, cinco pluralmente mais à esquerda, um assume deslocação mais moderada para o centro. Nas opções estético-artísticas o que os une é aparentemente nada. Há mesmo situações limite. Sérgio Pombo nunca pintou uma paisagem. A figuração humana, sobretudo a feminina, é o núcleo do seu trabalho, atravessa todas as experimentações da sua obra plástica mesmo quando está ausente ou quando adquire volume numa forma escultórica suporte da pintura libertada dos limites da tela. João Hogan coloca-se no extremo oposto. A figuração de pessoas ou objectos vai desaparecendo na sua pintura até se apagar completamente na arquitectura dos silêncios obsessivos das suas paisagens, que procuram infatigavelmente um estado primordial em que a vida é uma pulsação subterrânea de ventos invisíveis que as vão moldando. Se ambos parecem encontrar-se por recusar contar histórias, sequer enunciar uma narrativa, por ambos explorarem uma pulsão sensual que fere o olhar de quem olha as suas obras, voltam a ter atitudes diametralmente opostas porque enquanto Hogan tem uma ostensiva indiferença, uma quase hostilidade às correntes estéticas internacionais e seus ecos regionais, Sérgio Pombo faz incursões variadas com tal sucesso que o colocam, em várias situações e vários contextos, na linha da frente das artes nacionais e mesmo internacionais.

Entre estes dois pontos, que se podem considerar extremos, situam-se os outros artistas, Guilherme Parente, Júlio Pereira, Teresa Magalhães, Virgílio Domingues, assim por ordem alfabética.

Guilherme Parente é um narrador impossível de deter. Cada um dos seus quadros, desenhos ou gravuras é, desde o primeiro que mostrou até ao próximo que ainda não pintou, uma história para se decifrar, uma história que aconteceu ou está para acontecer, por onde a mão do pintor viaja carregada de lirismo, sem nunca encontrar um ponto final mesmo quando o artista dá a obra por acabada. Em todos os quadros de Guilherme Parente há a deslumbrante incompletude de um caminho que se faz caminhando sem nunca se desviar por uma vereda.

Júlio Pereira, caldeireiro de profissão, o Júlio Pintor de Arte do Montecarlo e da Brasileira, chega tarde, aos quarenta anos, à pintura onde faz explodir uma energia contida durante décadas, sendo o seu primeiro tema recorrente as mulheres, pintadas de todas as formas a tinta-da-china, óleo ou pastel, que subitamente desaparecem para dar lugar à mais rigorosa e icónica abstracção.

Teresa Magalhães tem um universo muito próprio e particular por onde obstinadamente deambula sem nunca se perder nas múltiplos caminhos que percorre. A sua pintura é sempre passado, presente e futuro e todos os saberes que vai colhendo em cada uma das suas experimentações, do neo-figurativismo ao abstraccionismo, acrescentam valor no quadro que irá pintar. Na pintura de Teresa Magalhães se nada se perde também nada se repete, é um acto de permanente criação e renovação. É o percurso fascinante de um trabalho sem quebras, em que a pintora se reencontra constantemente para se reinventar sem um traço de fadiga.

Virgílio Domingues estende uma fina e sofisticada rede de escuta sobre o mundo para decifrar o argumentário dos protagonistas da comédia humana dos etecéteras passados presentes e futuros. Contrariando o que eles querem, Virgílio não lhes perdoa. não leva esses actores a sério, mas torna dramaticamente sérias as situações que protagonizam. Inicialmente as suas esculturas registavam os momentos, as circunstâncias, os seus intervenientes. Progressivamente torna as situações menos reconhecíveis, os protagonistas mais personalizáveis em anatomias que se decompõem sem que nenhum traço as humanize, para que os personagens quanto menos forem identificáveis mais transpirem a abjecção do seu poder social. Paralelamente o escultor ironiza sarcasticamente a estatuária comemorativa que invade o espaço público com figurações academizantes, sejam figurativas ou abstractas. Um trabalho em contínuo, que se foi depurando formalmente sem nunca se desviar do seu norte.

São estes seis artistas, tão diversos entre si, que decidem organizar-se em grupo para realizar várias exposições. O que os une, além da amizade, é a pulsão da arte, o serem artistas que dispensam adjectivos, o percepcionarem que o seu trabalho individual adquiria densidade e singularidade em cada um desses encontros. Paradoxalmente enquanto entre eles, nessas exposições colectivas, é cada vez menos possível definir uma tendência mais geral que os relacione, tornava-se cada vez mais impressivo que o trabalho de cada um ampliava, e muito, o que se podia fazer com as artes visuais. Esse é o grande impacto dos 5+1 no panorama das artes nacionais.

As exposições dos 5+1 foram um percorrer de caminhos que se iam descobrir progressivamente mais distintos, em que todos eles se afirmavam para se confirmarem na história contemporânea de arte portuguesa, o que os colocam entre os mais significativos das suas gerações.

Os 5+1 revisitados estarão na Galeria do 11, em Setúbal, até ao dia 30 de março

(publicado em AbrilAbril, 3 de março 2018)

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Geral

O ESTADO DA ARTE

A Máquina de Chilrear / Paul Klee

Alguns dos artistas plásticos subscritores da carta entregue ao primeiro-ministro em Outubro do ano passado, colocando pertinentes questões sobre o estado das artes visuais em Portugal, convocaram uma reunião. Em substância, propõem-se discutir o modelo de uma Comissão de Aquisições de Arte Contemporânea que faça a gestão do programa anual de aquisição de obras de arte contemporânea anunciado por António Costa, inscrito no Orçamento de Estado com valor inicial de 300 mil euros.

Percebe-se que esse objectivo, com efeitos a curto prazo, seja uma das preocupações dos artistas plásticos, mesmo que uma parte, não despicienda, dos subscritores da carta não esteja excluída das listas de compras públicas e privadas dos últimos anos.

A aquisição de obras de arte é importante mas não é a questão fundamental das artes visuais em Portugal. Será sempre objecto de controvérsias, maiores ou menores, porque é inevitável que essa comissão, por mais esclarecida que seja, vá nas suas decisões cometer injustiças por mais que faça justiça. Deve-se ainda questionar se a aquisição de obras de arte pelo Estado, se a gestão de uma colecção de arte pública, deva ser feita fora dos museus de arte contemporânea.

O que não se percebe nem se compreende é que muitas das questões levantadas na referida carta pareçam ter sido colocadas em planos mais recuados, como se não fossem centrais na definição das políticas culturais. São questões que afectam todos os artistas plásticos, independentemente do seu estatuto, cotação, aceitação crítica e outros parâmetros do mercado das artes que, no estado actual, é quem de facto define a situação dos artistas numa sociedade que faz os detentores de actividades simbólicas descer ao nível da realidade, da dependência directa dos imperativos económicos por já não sentir a necessidade de manter a sua relativa autonomia.

Preocupações justas,
soluções limitadas

Um modelo de apoio às artes visuais de aceitável razoabilidade não parece possível sem colocar em causa as sucessivas e catastróficas fusões a que têm sido sujeitas as estruturas do Ministério da Cultura, o que fez uma razia em todas as áreas e fez entrar em coma profundo as artes plásticas, com a fusão do Instituto Português das Artes do Espectáculo com o Instituto de Arte Contemporânea numa Direcção-Geral das Artes em estado de confusão permanente. Reestruturar o Ministério da Cultura é tão importante como lhe dar maiores meios financeiros, para lhe conferir operacionalidade na definição de políticas culturais, uma inexistência actual. Em relação ao Estado, essa é a questão central.

A fragmentação dos artistas plásticos, sem nenhuma estrutura representativa, bem visível quando a contestação aos concursos da DGArtes congregou várias manifestações de artistas de outras áreas em que a ausência dos artistas plásticos foi uma evidência, não é iludida por esta carta. São justas as suas preocupações, mas mais preocupante é – depois da cobertura mediática do encontro com António Costa – que o silêncio só tenha sido rompido com a convocação de uma reunião em que o ponto aparentemente único é o da forma de concretizar as prometidas aquisições pelo Estado, sabendo-se que actualmente o valor venal do objecto artístico resulta dos trânsitos das actividades promocionais em que a arte é sempre, e só, mercadoria.

Não deve haver ilusões sobre o que representa a arte, as artes, para esta sociedade. Como não deve haver ilusões sobre os impasses, mesmo que dificilmente ultrapassáveis ou mesmo inultrapassáveis, que o seu modelo impõe. A questão central é como devem ser enfrentados para colocar em igualdade todos os artistas no plano dos direitos sociais, em particular o enquadramento fiscal e a segurança social, e das condições de trabalho, considerando as assimetrias regionais, para depois, com maior ou menor justiça, promover concursos para apoiar projectos. Será sempre uma discussão em aberto.

(publicado no Avante! 2360/21 fevereiro)

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