Geral

UM TEMPO GROTESCO

Com o neoliberalismo capitalista a servir doses rituais de violência, a verdadeira catástrofe é o imobilismo: impõe-se a obrigação militante de combater as turbulências das falácias que o sistema moribundo manipula sem parar.

Imagem de «Ghosts» (1934), de George Grosz 
Imagem de «Ghosts» (1934), de George Grosz Créditos

Ursula von Leyen foi perorar ao Parlamento ucraniano expurgado de todos os partidos de oposição ao nazi-fascistas no poder, o que para ela e por extensão a Comissão Europeia a que preside deve ser um exemplo de democracia, para lembrar que é necessário que a Ucrânia acelere os procedimentos contra corrupção. Uma grossa piada, um grotesco número de rasca comédia não só pela composição dos parlamentares, mas por se conhecerem as íntimas relações da máfia dos oligarcas ucranianos com o poder, a começar pelo seu presidente, o pinóquio Zelensky. Ainda que hoje, até nos anos mais próximos por um calculismo sem um pingo de ética, se desconheçam o estado das contas nos paraísos fiscais de toda essa gentalha, pode-se presumir que, com esta guerra e a cornucópia de maravedis todos os dias despejada à ordem de Kiev, devem estar a aceleradamente engordar, a que não deve ser alheio, entre outras fontes de rapinagem, o denunciado contrabando de armas, noticiado por jornais completamente alinhados com a narrativa ocidental, que alguns dizem afectar um terço das enviadas. A senhora Ursula von Leyen afivela a máscara de um inexpugnável ar sério para dar estes conselhos numa charla a um parlamento que só representa a clique mais radical que assaltou o poder na Ucrânia e que, ao sabor das conveniências, ela deve considerar representativo e democrático.

«A presidente da Comissão Europeia, esse órgão de autocratas da UE que nem sequer se maquilha com batons eleitorais, remete, com o maior cinismo, a defesa do Estado de direito democrático para o caixote de lixo, subvertendo os residuais princípios democráticos que a UE tanto aclama, colocando-os na prateleira dos bens que se negoceiam ao sabor das conveniências.»

Fê-lo com o mesmo ar conspícuo, até contra a opinião expressa de alguns dos seus vice-presidentes, com que anunciou libertar para a Polónia 36 mil milhões de euros do programa de combate aos efeitos da pandemia sem que esse país tenha dado um único passo para que o poder judicial deixe de estar subordinado ao poder político, o que era e é apontado como uma gravíssima violação do Estado de direito, isto mesmo quando se sabe, até bem demais, que o direito, mesmo no mais democrático dos países, é um valor variável e é sempre o direito do mais forte à liberdade. A presidente da Comissão Europeia, esse órgão de autocratas da UE que nem sequer se maquilha com batons eleitorais, remete, com o maior cinismo, a defesa do Estado de direito democrático para o caixote de lixo, subvertendo os residuais princípios democráticos que a UE tanto aclama, colocando-os na prateleira dos bens que se negoceiam ao sabor das conveniências. Ursula von Leyen não é uma ocidental voz solitária, está bem acompanhada pelos seus pares que, em manada nos mais diversos fóruns ou nos encontros de geometrias variáveis em que se têm desdobrado para espelhar uma unidade sempre à beira de fissurar, têm revelado o pior do relativismo em política.

Tudo isto acontece enquanto a Europa vai sucumbindo económica, militar e politicamente, ficando cada vez mais dependente dos EUA, que vão adiando a sua decadência principalmente com os compromissos que a UE assume, fazendo exercícios de respiração assistida a um dólar cada vez mais frágil, contribuindo para os crescentes lucros do complexo industrial-militar-económico e financeiro do império, salvando da falência a indústria do fracking, o processo mais poluente de extracção de gás e petróleo, que vai vender à Europa a preços quatro ou cinco vezes superiores aos actuais, o que compromete quaisquer hipóteses de crescimento económico e atira para as calendas a tão acarinhada descarbonização com a prevista reactivação de centrais eléctricas a carvão e outros itens que estão a estilhaçar a fé na economia verde e na luta contra as alterações climáticas. Estes são entre outros os sinais que se acumulam no incerto horizonte da Europa.

«Tudo isto acontece enquanto a Europa vai sucumbindo económica, militar e politicamente, ficando cada vez mais dependente dos EUA, que vão adiando a sua decadência principalmente com os compromissos que a UE assume, fazendo exercícios de respiração assistida a um dólar cada vez mais frágil»

Uma Europa, unida como nunca na defesa dos valores atlanticamente partilhados, que é a mesma que alinha na imposição de sanções urbi et orbi decididas pelos EUA para sustentar as normas do excepcionalismo ocidental que, variando e adequando-se aos ventos da história, tem de forma brutal explorado colonialmente o resto do mundo desde o séc. XVI e que, num arremedo desse seu brutal passado, quer continuar a subverter o direito internacional e o conceito básico e elementar de igualdade entre países e povos. Europa de facto mais submissa e subordinada aos interesses imperialistas dos EUA e do seu braço armado, a NATO. NATO a que presumivelmente se vai agregar a Suécia e a Finlândia, que, para a integrarem, abandonam o seu estatuto de refúgio para perseguidos políticos de outros países ditatoriais ou de democracias iliberais, provando que Georges Orwell tinha toda a razão quando escreveu que «ninguém precisa viver num país totalitário para ser corrompido pelo totalitarismo».

Um futuro senão de nuvens negras de cinzento muito escuro que sobrevoam os países da União Europeia que cederam a sua soberania social, económica, militar e política a um grupo de medíocres e não eleitos autocratas que pontapeiam os valores democráticos que tanto proclamam para inglês ver, já sem se preocuparem com as aparências das públicas virtudes vícios privados. Georges Orwell escreveu: «vivemos numa das piores ditaduras impostas ao homem, todavia esta se dissimula utilizando o pseudónimo “Democracia”», num tempo em que a corrupção das liberdades e da democracia eram enunciadas e as dissidências, sátiras, investigações jornalísticas sérias ainda eram permitidas pelos poderes dominantes.

«Nada é mais desigual que a igualdade entre desiguais a quem, nas mais liberais sociedades, é oferecida a possibilidade de votar regularmente em quem os vai explorar durante um período em que se remetem ao vazio submisso dos que se deixam enrolar pelos malabarismos da propaganda, que é sempre o que vence se isso for permitido.»

Desconhecia a impetuosa concentração dos meios de comunicação social e a escravidão digital de hoje. Desconhecia o actual jornalismo, mero rufar dos tambores do proselitismo do pensamento dominante, e o jornalismo de investigação, ser residual, só muito raramente não serve os desígnios de quem está de facto nos comandos da sociedade neoliberal puxando os cordéis às suas marionetas a partir de Davos, Bilderberg e outros fóruns onde se estabelecem as fronteiras do mainstream, para que todas as falsificações sejam aceitáveis, vertidas em moldes de controle social que se quer voluntário, viciante, envolto em ilusões de liberdade pessoal, para que a vigente exploração neoliberal com contornos neo-feudais continue o seu percurso triunfante num mundo cada vez mais desigual, em que 1% dos mais ricos tem uma riqueza igual a 70% do resto da população e continuam acumular riqueza a velocidades cada vez mais aceleradas. Nada é mais desigual que a igualdade entre desiguais a quem, nas mais liberais sociedades, é oferecida a possibilidade de votar regularmente em quem os vai explorar durante um período em que se remetem ao vazio submisso dos que se deixam enrolar pelos malabarismos da propaganda, que é sempre o que vence se isso for permitido. Um sofisticado processo em que se descartam os impulsos autoritárias das antigas ditaduras substituídos por um fluxo constante de informação que gera uma aparência de liberdade cada vez mais controlada pelos algoritmos do universo digital, das redes sociais, das cada vez mais presentes ferramentas informáticas, em que se vai sabendo o que sucede, depois de muito filtrado e manipulado para que se corra atrás da informação sem alcançar saber nem obter conhecimento. O alvo é degradar a autonomia do ser humano para destruir o sujeito crítico e torná-lo num indivíduo autista, consumidor e indiferente à dimensão política da existência. A vida social é esvaziada, o que reprime a variedade humana, para que se torne mais pobre, menos pensante, mais previsível.

No campo político faz-se a apologia de uma democracia que se confunde com os partidos quanto menos a realidade partidária corresponde ao ideal democrático, por uma crescente indiferenciação ideológica e programática em que a representatividade se mede pelos resultados da competição eleitoral, em que as convicções, os ideais, as ideias se reduzem à conquista de votos a qualquer preço. Em que os partidos deixaram de ser instrumentos ao serviço dos interesses dos eleitores, são uma finalidade em si-próprios, prolongamentos do aparelho de Estado, representando os interesses económicos instalados que lhes dão apoio variável1. Assente nesses pilares, o neoliberalismo capitalista tecno-feudal impõe um estado de sítio de violência ritual, política e ideológica que intenta desenraizar qualquer humanismo, exilar os humanos de si-próprios.  

«No campo político faz-se a apologia de uma democracia que se confunde com os partidos quanto menos a realidade partidária corresponde ao ideal democrático, por uma crescente indiferenciação ideológica e programática em que a representatividade se mede pelos resultados da competição eleitoral, em que as convicções, os ideais, as ideias se reduzem à conquista de votos a qualquer preço.»

Estes cenários são escuros e catastróficos? São, claro que são, mas a verdadeira catástrofe é o imobilismo. É não perceber que o conceito de progresso assenta na ideia de catástrofe. É deixar as coisas como estão 2. Olhe-se para o Angelus Novus de Paul Klee 3, descrito por Walter Benjamin, em que o Anjo empurrado pelos ventos da história deixa atrás de si os escombros do mundo em que vive e é empurrado pelo vendaval do progresso que o arrasta para o futuro. É esse o nosso mundo, em que temos que ser firmemente dialécticos para aproveitar nas velas os ventos da história, em que as velas são os conceitos mas em que não basta saber içá-las. Tem é que saber como as içar para viajar num mar povoado de escolhos sem ter nenhuma certeza mas também sem nunca perder o Norte 4.

Como alguém já referiu, vive-se o momento Moby Dick do neoliberalismo capitalista tecno-feudal, em que se revisitam quase diariamente versões actualizadas da Lição de Anatomia de Rembrant, dissecando o cadáver das crises, qualquer que seja o formato em que se apresentem, possam ou não eclodir em guerras, que a comunicação estipendiada nos vende em folhetins nas suas variantes pós-moderna e performativa. Um oceano de turbulentas vagas informativas que procuram condicionar a opinião pública registando as acções do capitão Ahab dos EUA/NATO e seus subservientes sequazes. Temos que avançar contra as alterosas vagas por onde estamos a ser arrastados pela baleia branca arpoada e sem hipóteses de sobrevivência que vai continuando a vitimar Ahab e os tripulantes do Pequod, enquanto nós, sem sabermos quando esta jornada termina temos que ser como Ismael, o sobrevivente da Moby Dick de Melville, com a obrigação militante de combater, sem ter tempo nem espaço para descanso, as turbulências das falácias, das ficções, das fraudes, das farsas que o sistema moribundo manipula sem parar.

Uma luta multifacetada de avanços e recuos, luta que se trava todos os dias, hora a hora, palmo a palmo, com uma duração incerta mas que nos lembra e demonstra que a luta de classes continua a movimentar a vida e a preparar o salto de tigre no céu livre da história 5, com a certeza de que a utopia não é o desejo do impossível mas daquilo que ainda não foi possível realizar.

  • 1.Excelente e recente exemplo é o 40.º Congresso do PSD/PPD, que entronizou como seu chefe Luís Montenegro, com discursos de um vazio ideológico total embrulhado em frases-chavão, em que o único objectivo perceptível é a conquista de votos a qualquer preço para regressar ao poder ao serviço dos interesses económicos instalados. Congresso em linha com os anteriores a esse e de outros partidos, em que a contabilidade dos votos é o doping de banais semânticas. A comunicação social dominante, jornalistas, directores de informação, editores e comentadores políticos espremem esse vazio para encontrar novidades nas coisas velhas e relhas, atinarem diferenças que, no essencial, em nada diferenciam entre si esses partidos. É a mediocridade instalada, vendida em folhetins diários numa sucessão de lugares-comuns.
  • 2.«o conceito de “progresso” tem de assentar na ideia da catástrofe. Que as coisas continuem como estão é isso a catástrofe. Ela não é aquilo que a cada momento temos à frente, mas aquilo que já foi. Assim em Strinberg (A Estrada de Damasco?): o inferno não é nada que tenhamos à frente – é esta vida aqui em baixo» (Walter Benjamin, Questões EpistemológicasTeoria do Progresso, in As Passagens de Paris, Obras Escolhidas de Walter Benjamin, edição e tradução de João Barrento, Assírio & Alvim, 2019, p. 603).
  • 3.«Há um quadro de Paul Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas e que é tão forte que o anjo já não as consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos progresso é este vendaval. (Walter Benjamin, Sobre o Conceito da História, Tese IX, in O Anjo da História, Obras Escolhidas de Walter Benjamin, edição e tradução de João Barrento, Assírio & Alvim, 2010, p. 13, 14).
  • 4.«ser dialéctico é ter nas velas o vento da história. As velas são os conceitos. Mas não basta dispor das velas. Decisiva é a arte de as saber içar». (Walter Benjamin, Questões EpistemológicasTeoria do Progresso, ed. cit., p. 603.)
  • 5.A história é objecto de uma construção cujo lugar é constituído não por um tempo vazio e homogéneo, mas um tempo preenchido pelo Agora (Jetztzeit). Assim, para Robespierre a Roma antiga era um passado carregado de Agora, que ele arrancou ao contínuo da história. E a Revolução Francesa foi entendida como uma Roma que regressa. Ele citava a velha Roma tal como a moda cita um traje antigo. A moda fareja o actual onde quer que se mova a selva do outrora. Ela é o salto de tigre para o passado. Acontece que ele se dá numa arena onde quem comanda é a classe dominante. O mesmo salto, mas sob o céu livre da história, é o salto dialéctico com que Marx definiu a revolução. (Walter Benjamin, Sobre o Conceito da História, Tese XIV, in O Anjo da História, ed. cit., p. 17, 18).

(publicado em AbrilAbril AbrilAbril | O outro lado das notícias )

Standard
Geral

A Pax Americana de Pacheco Pereira

Sem ter a coragem de o assumir frontalmente, Pacheco Pereira considera que a Europa detém uma cultura única que lhe dá o direito e até a missão, comandada pelos cruzados dos EUA/NATO, de dirigir o mundo conforme a sua vontade.

Os Cegos, Pieter Brueghel
«A Parábola dos cegos» (1568), de Pieter Brueghel, dito o Velho (c. 1525-1599)CréditosPieter Brueghel

O texto de José Pacheco Pereira intitulado «A “paz” para uma guerra abstracta, sem invasores e invadidos», publicado no sábado, dia 25, no jornal Público é must de sofismas para de forma encapotada e cavilosa se colocar fratalmente, nada como lá estar sem ser visto, na primeira linha dos defensores da ordem unipolar imposta pelos EUA e o seu braço armado NATO, que desde há dezenas de anos tripudia o direito internacional, impondo as suas regras assumidas como os valores ocidentais, os do Ocidente que desde o séc. XVII exploram as matérias-primas e humanas do resto do mundo em seu proveito.

Pacheco Pereira tem o desplante de a dado passo escrever: «Confesso que não entendo, ou entendo bem demais, a começar pela fórmula de abertura “Independentemente de opiniões diversas sobre os desenvolvimentos no plano internacional”. O que é que isto significa a não ser tornar a guerra, que se pretende condenar em termos genéricos, uma completa abstracção?»

Quem o lê é percebe bem demais que quem considera a guerra, que na Ucrânia se iniciou em 2014, uma completa abstracção, contra todas as brutalidades daí decorrentes e outras actividades com ela correlacionadas, como a Ucrânia se ter tornado campo de treino das milícias nazi-fascistas da Europa, EUA e Canadá, é o Pacheco Pereira que esteve oito anos em cerrado silêncio completamente surdo, cego e mudo contra todas as evidências que o Conselho Português para a Paz e Cooperação, e já agora o PCP, iam denunciando, a par de outras guerras e outros atentados contra a Paz que sucediam no mundo. 

Não é um acaso, como não é um acaso o autor escrever «ou se se quiser, do “imperialismo americano”», entre aspas evidentemente, porque para ele esse imperialismo é justificável e irrefutável, deve ser aceite como guardião dos chamados valores ocidentais recorrendo a sanções, golpes de estado, sabotagens para subverter o direito soberano dos povos se libertarem das suas garras e, sempre que esse arsenal se mostrar insuficiente, impô-lo à mão armada fomentando guerras de forma directa ou indirecta, como é o caso actual da Ucrânia.

Isso para Pacheco Pereira é justificável porque o essencial é que o «se se quiser “imperialismo americano”» continue a ser o grande defensor da cidadela que ele habita com a janela escancarada para os poderes da burguesia que bem sabem que ele lá estará sempre para os defender e justificar mesmo quando os critica, nos vários órgãos de comunicação social em que abundantemente debita. 

«(…) para ele esse imperialismo é justificável e irrefutável, deve ser aceite como guardião dos chamados valores ocidentais recorrendo a sanções, golpes de estado, sabotagens para subverter o direito soberano dos povos se libertarem das suas garras e, sempre que esse arsenal se mostrar insuficiente, impô-lo à mão armada fomentando guerras de forma directa ou indirecta, como é o caso actual da Ucrânia.»

Pacheco Pereira é, nesse seu Portugal, três sílabas de plástico, que é mais barato, como escreveu O’Neill, o mais acabado exemplo de intelectual orgânico. Nessa função tem escrito ultimamente até coisas inesperadas e interessantes, a par de textos como este último, um contínuo de escritos paradoxalmente em contradição com uma ideia que importou de França e que em certa altura andou a propalar, a da morte dos intelectuais universais, que desmente com contumácia quando continua com as suas copiosas teorizações a desempenhar um papel que dizia estar extinto, com pontos de vista sobre a história em que se assume como um gestor de existências, uma forma de enganar o público bem denunciada por Pierre Bourdieu, mas também por Derrida.

  São as contradições das teias de aranha em que estão presos os intelectuais orgânicos. Como Gramsci extensamente teorizou e demonstrou, numa sociedade de classes não existem intelectuais completamente autónomos em relação à estrutura social. Nas relações de produção hegemónica das diferentes etapas do desenvolvimento histórico, as sociedades criam para si uma ou mais camadas de intelectuais que lhes proporcionam homogeneidade e consciência da sua própria função no campo político, social e económico. Esses intelectuais têm uma ligação vital com a classe que lhes deu origem. Para esse teórico marxista, a formação de uma massa de intelectuais não se justifica, apenas, pelas necessidades da produção económica, por meio de formação de técnicos, mas pelas necessidades políticas do grupo dominante. A relação dos intelectuais com o mundo da produção não é, como a dos grupos fundamentais, imediata. É mediatizada pelo conjunto das superestruturas das quais o intelectual é funcionário. Gramsci observa que em nenhum momento do desenvolvimento histórico real foi elaborada uma quantidade tão grande de intelectuais como na moderna sociedade burguesa. Um facto que se tornou mais óbvio nos nossos tempos com a proliferação de think tanks, gabinetes estratégicos, laboratórios de ideias, etc., etc., que se multiplicam mais que espécies invasoras. 

«Como Gramsci extensamente teorizou e demonstrou, numa sociedade de classes não existem  intelectuais completamente autónomos em relação à estrutura social. Nas relações de produção hegemónica das diferentes etapas do desenvolvimento histórico, as sociedades criam para si uma ou mais camadas de intelectuais que lhes proporcionam homogeneidade e consciência da sua própria função no campo político, social e económico.»

Mais que muitos outros e melhor que muitos outros, Pacheco Pereira enquadra-se nesta definição gramsciana. Os seus textos surpreendentes e mesmo surpreendentemente relevantes devem ser lidos com essa lupa. Mas há sempre um momento em que tem a necessidade de ocupar lugar de destaque na defesa dos valores da sociedade de que faz parte e o sustenta. Nunca a trairá. Empenhado na defesa da ordem unipolar, «se se quiser, do “imperialismo americano”», como se isso não fosse o que tem comandado o mundo nos últimos decénios, não seja a mão visível e invisível dos conflitos armados, das «guerras na Ucrânia, no Iémen, na Síria, na Líbia ou no Iraque, entre outros conflitos que flagelam o mundo» e «da situação na Palestina ou no Sara Ocidental», como refere o comunicado que apelava à manifestação pela Paz que tanto incomoda Pacheco Pereira.

Para ele só há uma guerra, a que sucede no território da Ucrânia, que é de facto uma guerra entre os EUA/NATO e a Rússia, por interposta Ucrânia, uma guerra que se iniciou em 2014 e culminou com a invasão da Rússia ao território ucraniano, o que ele oculta para justificar a arenga. Não deixa de ser curioso, embora seja bastante revelador, que um historiador abdique de contextualizações para alinhar no mais rasca e barato argumento de haver um país invasor e um país invadido, como se isso fosse um jogo de matraquilhos. Igualmente revelador é o facto de Pacheco Pereira denunciar que «o nome “Ucrânia” está lá no apelo, numa lista que mistura Palestina, Saara Ocidental, Iémen, Síria, Líbia e Iraque, onde a actual guerra é nomeada de passagem e sem relevo, como se fosse uma entre muitas comparáveis na sua dimensão e actualidade» 

As outras guerras referidas no comunicado, no Iémen, na Síria, na Líbia ou no Iraque, com mortes, devastações, refugiados, crises humanitárias incomparavelmente maiores que as que se registam na Ucrânia, para ele são cousas menores. Em relação à Palestina e ao Saara, nunca falou abertamente de uma das maiores injustiças da história moderna, pelo que faz uma miserável desvalorização do direito à auto-determinação desses povos e da importância da sua luta no contexto da paz. 

Percebe-se, encara essas guerras e o direito à auto-determinação desses povos com a lógica do homem branco que Aimée Cesaire tinha denunciado: «sim, valeria a pena estudar, clinicamente, no detalhe, as trajectórias de Hitler e do hitlerismo e revelar ao burguês do século XX, muito distinto, muito humanista, muito cristão, que ele carrega um Hitler que se ignora, que Hitler mora nele, que Hitler é seu demónio, que se ele o vitupera é por falta de lógica, e que, no fundo, o que ele não perdoa a Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem, não é a humilhação do homem em si, é o crime contra o homem branco, e de ter aplicado à Europa procedimentos colonialistas que até agora eram exclusividade dos árabes da Argélia, dos collies da Índia e dos negros da África.» 

«Não deixa de ser curioso, embora seja bastante revelador, que um historiador abdique de contextualizações para alinhar no mais rasca e barato argumento de haver um país invasor e um país invadido, como se isso fosse um jogo de matraquilhos.»

Pacheco Pereira de forma subliminar, sem ter a coragem de o assumir frontalmente, considera que a Europa detém uma cultura única que lhe dá o direito e até a missão, comandada pelos cruzados dos EUA/NATO, de dirigir o mundo conforme a sua vontade. A tralha do seu texto são encadernados sofismas em que a Paz, desde que não seja a Pax Americana, não interessa, pelo que mistura alhos com bugalhos com grande à vontade, num texto minado de tretas, em que a memória histórica é bombardeada com napalm, em que a questão central é combatida como se o autor do texto fosse ideologicamente detergentado para que se fique pela superfície das coisas e o alvo imediato, a luta pela Paz, se esvazie de significado.

Acaba o texto com o desafio de uma coboiada, propondo um duelo ao sol nos ecrãs televisivos, um dos aquários onde deposita regularmente os seus pensamentos. Arma-se em Shane, mas como não passa do excêntrico Lee Clayton, se, ao contrário do filme de Arthur Penn conseguir sobreviver, pode esperar solitariamente sentado por seriedade intelectual, ninguém irá responder ao desafio.

(texto publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/ 27 Julho)

Standard
Geral

O TRIUNFO DA MANIPULAÇÃO

Começa a ser grotesca a contrafacção que hora a hora, minuto a minuto nos é vendida sobre a guerra na Ucrânia com a entronização do seu oportunista presidente, mesmo com as mais bimbas imagens, e a sua corte de oligarcas que, por um milagre mais perfumado que o das rosas, foram beatificados no papel espessamente couché da Forbes como multimilionários. São as vantagens e o preço de servir de mula a uma guerra entre dois impérios capitalistas, os EUA e a Rússia.

Vários e múltiplos são os episódios detergentados pela comunicação social mercenária, um paradigma do servilismo ao império em que muitos dos seus escreventes são pagos, directa ou indirectamente pela CIA, como documentos desclassificados manifestam, que sem revelar nomes revelam a quantidade, nos anos setenta eram mais de oitocentos os que figuravam na folha de pagamentos, a que há que acrescentar todos os colaboradores dessa prestimosa agência que agora são comentadores residentes.

Hoje o Público, esse jornal dito de referência que só continua a existir porque os azevedos empenharam-se de pais para filhos, em investir a fundo perdido na propaganda comunicacional, noticia em duas páginas a pré-publicação do tosco panegírico Vlodymyr Zelensky: Biografia, um relato de uma rasca moralidade, parcialidade e manipulação da vida do presidente da Ucrânia que todos os dias, nas nossas televisões e outras mundo fora, faz conversas em família em que lê, com os seus dotes de comediante, os teletextos que as agências de informação ao serviço dos EUA/NATO impingem contribuindo para a desinformação em curso e para a sua farsa de estadista. O livro é uma das peças do triunfo da vigarice intelectual para dulcificar a imagem de Zelensky e de um país dominado pelos oligarcas seus comparsas que vão enchendo as suas e as dele contas offshore, as que foram conhecidas na investigação dos Pandora Papers e outras ainda com paradeiro desconhecido, em que a interferência e o comando de forças externas é a normal anormalidade de um estado que é dos mais corruptos do mundo, onde a corrupção continua a prosperar, que tem um sistema eleitoral de que são excluídos dezenas de milhares de cidadãos, onde o apartheid se tornou lei, onde as milícias armadas nazi-fascistas foram legalizadas, onde foi e é feita a reabilitação histórica de líderes nazis, que é desde 2014 o campo de treino dos fascistas europeus, norte-americanos e canadianos, onde prospera a perseguição, o medo, o assassinato político e a ilegalização dos partidos políticos que se opõem ao poder instituído submetido às potências do circulo imperialista, em que as forças de segurança e os militares se dão ao desplante de publicarem vídeos das torturas que infligem aos seus adversários sejam ucranianos ou soldados russos. Com um descaramento que não conhece alguma fronteira Sergiuu Rudenko escreve uma pseudo biografia de Zelensky atribuindo-lhe excelsas qualidades bem maiores do que aquele que conseguia transformar água em vinho, limpando a imagem de arrivista sem escrúpulos patente num filme que até de algum modo pretendia elogiá-lo e foi exibido por cá em dois canais televisivos. Para esse biógrafo assoldadado a Ucrânia é uma variante de paraíso terrestre atacado pelas forças do mal, a que seu presidente resiste com a heroicidade de um super homem dos Monty Python.

Na operação de branqueamento e de lavagem em curso vale tudo, a começar pela imagem de uma guerra em que de um lado só há civis mortos e torturados e do outro bárbaros soldados que não conseguem acertar num único soldado inimigo, só em mulheres e crianças, nem em alvos militares só escolas, creches, hospitais e e edifícios residenciais. Em que o que ainda há poucos anos eram descritos como brutais milícias nazi-fascistas agora são endeusados como cruzados dos valores ocidentais. Quando na realidade a Ucrânia consegue ser pior que a Rússia de Putin, o que não é fácil e em nada justifica a invasão e esta guerra. Guerra que para o Ocidente que a alimenta é um pesado fardo económico e militar, mas que interessa sobremaneira aos EUA que como usualmente tripudiam o direito internacional impondo a sua lei utilizando as sanções, para no imediato conseguirem que a sua indústria de fracking, o mais poluente modo de produzir gás e petróleo, que estava à beira da falência colocando em risco o sistema bancário que a tinha financiado, os vá vender à Europa a preços três vezes superiores aos actuais, sem contar com as instalações logísticas necessárias para os processar. É um procedimento de a curto prazo atrasarem a sua decadência, continuando a fazer pagar aos países amigos, inimigos e assim-assim parte do seu crescente e impagável défice sem ir à ruína. Os autocratas imbecilizados da Comissão Europeia, que de macroeconomia nada sabem, nem percebem que isso vai impossibilitar o desenvolvimento europeu, colocando-o na dependência dos EUA. Só mesmo falta, como Michael Hudson ironizou, desistirem do euro e adoptarem o dólar. Essa é só uma parte dos grandes benefícios económicos-financeiros, os outros, até mais visíveis, são os das indústrias armamentistas, do complexo militar-industrial-económico-financeiro e tecnológico que dá corda à vez a democratas e republicanos.

Dando páginas a livros deste jaez na molhada de notícias fraudadas que de um dia para o outro alteram a realidade, o jornalismo mercenário sobrevive fazendo-se pagar directa e indirectamente ou costurando pro bono a sua sobrevivência contribuindo para a normalização do nazi-fascismo que está em marcha na tentativa de esmagar qualquer hipótese de resistência ao capitalismo neoliberal. Os sinais multiplicam-se das notícias aos comentários de uma tropa fandanga de estrategas, politólogos, biógrafos, think-tanks, nas mais miseráveis e desbragadas manobras de uma vasta acção psicológica para validar, como alguém já referiu, o actual momento Moby Dick do neoliberalismo capitalista tecno-feudal, em que se revisitam quase diariamente versões actualizadas da Lição de Anatomia de Rembrant dissecando o cadáver da desta guerra mundial ainda que territorialmente localizada, que a comunicação estipendiada nos vende em folhetins na sua variante pós-moderna e performativa. Um oceano de turbulentas vagas informativas pra condicionarem a opinião pública registando as acções do capitão Ahab dos EUA/NATO e seus subservientes mordomos, muito empenhados em arpoar a baleia branca que sem hipótese de sobrevivência vai continuando a vitimar Ahab e os tripulantes do Pequod, enquanto nós, como Ismael, o sobrevivente da Moby Dick de Melville, temos a obrigação militante de combater, sem ter tempo nem espaço para descanso, os ventos das falácias, das ficções, das fraudes, das farsas que o sistema moribundo manipula sem parar.

Standard
Geral

Todas as Crianças são Iguais?

Todos os dias os canais televisivos exibem um anúncio da Unicef, tem sido utilizado com o mesmo fim por outras empresas, que alerta para a situação das crianças na Ucrânia, solicitando apoio. Nada mais justo e correcto. As crianças são as mais frágeis vitimas emocionais das barbaridades da guerra a que são sujeitas. São as suas mais indefesas vítimas e os choques psicológicos que sofreram e sofrem mesmo quando subtraídas às mais violentas imagens tendo sido refugiadas noutros lugares não se apagam. As marcas de todas as situações que viveram, de que tenham maior ou menor memória em função da sua idade, vão acompanhá-las ao longo da vida. O trabalho que a Unicef desenvolve na Ucrânia inscreve-se no trabalho que ao longo dos anos tem realizado em mais de 190 países, para salvar a vida de crianças, defender os seus direitos, apoiando-as da infância à adolescência. Faz bem a Unicef em chamar a atenção para a situação actual da Ucrânia. Faz bem, fazendo mal porque a situação das crianças na Ucrânia está muito longe de ser nos dias de hoje a mais alarmante, a mais grave vivida pelas crianças noutras partes do mundo, o que é reconhecido pela própria Unicef quando traça o quadro catastrófico vivido no Iemen, em que neste momento 12 milhões de crianças, mais que a população de Portugal, precisam de assistência humanitária. Em que uma criança em cada dez minutos morre à fome ou por doenças que podem ser prevenidas, em que cerca de 2 milhões de crianças (com menos de 5 anos) sofrem de subnutrição aguda grave; 37% das crianças com menos de 1 ano não estão vacinadas; 2 milhões de crianças não têm acesso a educação; existe quase um milhão de casos suspeitos de cólera. A Unicef está no Iemen a fazer um trabalho de grande envergadura em condições extremamente adversas. O que é estranho é que sendo as condições de vidas das crianças iemenitas muitíssimo mais calamitosa que a das crianças ucranianas nunca tenhamos visto um anúncio, nem sequer semanal ou mensal, sobre essa situação enquanto o das crianças ucranianas é várias vezes exibido diariamente. É evidente que deve ser exibido, mas acentua a diferença de tratamento mediático entre uma e outras o que não é caso isolado, lembrem-se as crianças no Iraque, as que sobreviveram às quinhentas mil assassinadas pelos EUA que Madeleine Allbright justificava como danos colaterais, às da Síria sujeitas às violências do Daesh – Estado Islâmico, noutras partes do mundo como se pode ler nos relatórios da Unicef. A diferença, a diferença abismal está no tratamento mediático desses relatórios, em linha com a tremenda diferença com que os media corporativos tratam os problemas dos refugiados conforme a sua origem. A diferença, em relação à Unicef está no desvelo, não o desvelo de tratamento físico, mas o desvelo colocado pelos muitos anúncios que chamam e bem a atenção para um caso específico enquanto outros, até mais graves e impondo cuidados mais urgentes e imediatos não merecem ser publicitados, ficam na nuvem do olvido, entregues à boa consciência de relatórios que poucos lêem. Diferença que se fará sentir no volume de donativos, isso a Unicef não ignora, não pode ignorar.

Pano de fundo o mesmo problema de sempre: o eurocentrismo imposto pelos países mais ricos que construíram a sua riqueza, o seu progresso pelo domínio que o Ocidente exerce desde o séc. XVI explorando brutalmente o resto do universo, as suas riquezas em matérias-primas a sua mão de obra, durante séculos escravizada. Exploração que lhe possibilitou ser arauto de valores civilizacionais que continua a negar aos outros e que sempre manifestou em alta grita, das mais variadas formas cínicas e hipócritas. Lembre-se o que Aimé Cesaire, esse extraordinário poeta negro e introdutor com Leopold Senghor do conceito de negritude, escreveu sobre o Holocausto: «basicamente o que o burguês não perdoa a Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem…é o crime contra o homem branco!». Ao olharmos para o anúncio da Unicef sobre as crianças ucranianas e pensarmos nos milhões de crianças que em todo o mundo estão a sofrer violências, iguais, maiores ou menores, sem direito a uma imagem publicitária nos media a actualidade de Aimé Cesaire é flagrante, devía-se sentir alguma vergonha, mesmo sem se extrapolar e inscrever esse anúncio de apelo suavemente emotivo, na desinformação diária dos enviados especiais que só estão de um lado a fazer perguntas capciosas; nas conversas em família de Zelensky a ler pior ou melhor os teletextos que alguém escreve com objectivos precisos; os números de stand-up comedy dos informes da Casa Branca, aos tempos de antena conferidos à propaganda fascista feita por presidentes ou não de associações ucranianas ou de uma embaixadora que goza de imunidade diplomática e a explora perante a passividade de um governo que parece desconhecer a pouca soberania que ainda pode exercer. Em relação à Unicef que tem uma vocação universal e que desde a sua fundação tem enfrentado e superado inúmeras dificuldades para cumprir o seu mais que meritório trabalho, não se entende esta tónica quando tão ou mais graves e emergentes situações enfrentam noutras partes do mundo. O mínimo exigível era uma chamada de atenção para elas.

Standard
Geral

NÃO À GUERRA, SIM À PAZ.

Não se entende em que se possa criticar a posição do PCP sobre a invasão e guerra na Ucrânia. https://www.pcp.pt/pcp-apela-promocao-de-iniciativas-de-dialogo-paz-na-europa. Condenar esta guerra não é incompatível com a simultânea condenação do comportamento dos EUA e da UE desde a queda do muro de Berlim. Nenhuma guerra é inevitável em qualquer realidade social, em que como de resto em qualquer outra, não há determinismos. Ao contrário de muito pensamento viciado quer impingir, e que vai do mais linear e vulgar anti-comunismo da extrema-direita e direita o que é de esperar, ao de socialistas, sociais-democratas e radicais pequeno-burgueses entrincheirados em verdades, meias-verdades e mentiras, usado para denegrir a posição de condenação da guerra e do imperialismo feita pelo PCP, a posição do partido está em linha com os mais variados sectores anti- imperialistas em todo o mundo. Alguém de esquerda pode discordar desta análise? : «A actual situação e seus desenvolvimentos recentes são inseparáveis de décadas de política de tensão e crescente confrontação dos EUA e da NATO contra a Federação Russa, nos planos militar, económico e político, em que avulta o contínuo alargamento da NATO e o sistemático avanço da instalação de meios e contingentes militares deste bloco político-militar cada vez mais próximo das fronteiras da Federação Russa.»? Isto não justifica a invasão e a guerra da Ucrânia como o PCP tem repetidamente condenado, que se distingue de quem também a condena mas é incapaz de ultrapassar as fronteiras das vagas conversas de palavras enroladas que não bastam para deter as organizações militaristas tanto da EUA/NATO, com a Europa a reboque, como da Rússia, nesta guerra que é mais um episódio da guerra mais funda e generalizada, que se tem desenvolvido em vários planos desde a queda do Muro de Berlim, para impor um mundo unipolar que viola sistematicamente a Carta das Nações Unidas e o direito internacional e que está agora a fissurar.

Cada vez mais é menos possível a capacidade para se ficar impassível com o desequilíbrio mediático no tratamento deste assunto, tanto nos media como nas redes sociais, em que se assiste ao derrapar de muita gente que se diz de esquerda. O único caminho para quem é de esquerda é um lúcido não-alinhamento que se distinga dos alinhamentos acríticos para um lado ou para outro. Nem é concebível nem aceitável que alguém que se diz de esquerda alinhe em vagos e patéticos humanismos para se arrumar num desses lados ou se escude em argumentos insustentáveis justificativos desta cinicamente chamada «operação militar especial» para, até disfarçadamente, alinhar com o outro.

A cuidadosa, fundamentada e corajosa posição do PCP tem sido terreno aberto para a mais viciosa campanha anti-comunista. É um dos mais grotescos espectáculos a que se tem assistido nos últimos anos, agora catalisados por esta guerra. Felizmente entre essa turba multa, em que os detratores se misturam acríticamente ou fazendo críticas falaciosas, há algumas vozes desassombradas que se destacam nesse panorama inquietante em que nos deparamos com muita gente que merece consideração mas que enfileira com esse tom generalizado, alinhando sofismas sobre sofismas para desculparem a sua posição que trucida sem vergonha as posições do PCP, reafirmadas por Jerónimo de Sousa no comício realizado no Campo Pequeno: « O PCP não apoia a guerra. Dizer o contrário é uma vergonhosa calúnia. O PCP tem um património inigualável na luta pela paz. O PCP não tem nada a ver com o governo russo e o seu presidente. A opção de classe do PCP é oposta à das forças políticas que governam a Rússia capitalista e dos seus grupos económicos (…) Em nome da guerra está em curso a mais desbragada intolerância e difusão de ódio fascizante, a criminalização do pensamento e de toda e qualquer opinião que questione a ditadura do pensamento único, a instituição da censura, o condicionamento do acesso à informação a limitação de liberdades, direitos e garantias.»

Uma dessas lúcidas e corajosas excepções, num território que não é o dos militantes do PCP e seus companheiros de estrada, é Carmo Afonso, que se auto intitula “social-democrata da velha guarda” e que em relação à guerra escreve: « É preciso atender às vozes que dizem que os recentes avanços da NATO, em direção à Rússia, concretizados na adesão de novos países vizinhos, contrariaram entendimentos vigentes e que seguravam a paz» e em relação ao PCP: «Tristes tempos em que uma guerra é pretexto para diminuir uma força política que tem estado no lado certo das lutas que os portugueses travaram. É sobretudo um partido dos trabalhadores (…) Pode dar-se o caso de os portugueses já não precisarem da luta. Mas, voltando ao que faz sentido, é mais certo que estejam a ser distraídos por quem quer acabar com ela»(…) «As posições assumidas pelo PCP foram o pretexto para uma manifestação de anticomunismo digna da Guerra Fria, período em que os anticomunistas afirmam que o partido está. O regresso à história está ao virar da esquina». Será que quem se diz de esquerda não percebe o que esta “social-democrata dos bons velhos tempos” lucidamente entende, continuando a insistir na mentira sobre o apoio do PCP à invasão de Putin, uns sem se aperceberem mas outros compreendendo bem, que a propaganda em curso está objectivamente ao serviço do neoliberalismo armado e fazem-no atacando o PCP.

Por toda a Europa os sinais de fascização são evidentes. Como dizia um personagem do filme de João César Monteiro, Le Bassin de John Wayne «hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas». O que ficou bem manifesto no número mediático protagonizado pelo comediante presidente, na sua digressão instrumentalizadora dos vários parlamentos, no parlamento grego que o Syriza afirmou ser «uma provocação com um apelo claro à normalização do fascismo» e que mereceu mesmo a crítica dos partidos gregos equiparados ao PS e PSD que a classificaram de «vergonha histórica» Uma cena que à posteriori, só dá razão ao PCP ao votar contra um convite formal ao presidente Zelensky para intervir no parlamento português, por videoconferência, que foi aprovada na passada quarta-feira pela Assembleia da República.

Putin é um crápula e a sua guerra é infame. Os apoiantes de Putin são abjetos. Mas são tanto como aqueles que se sentam nas cimeiras da NATO e se dizem democratas e defensores dos direitos humanos. Não há distinções nem gradações entre uns e outros. A guerra na Ucrânia é um bárbaro espetáculo de perdas humanas por conveniência do imperialismo russo em que a Ucrânia é uma marioneta dos EUA/NATO. O único caminho de quem é de esquerda é ser contra o expansionismo russo e o do EUA/NATO com a UE a reboque.

NÃO À GUERRA, SIM À PAZ.

Standard
Geral

Vitor Palla / Sempre uns Passos à Frente do seu Tempo

Quem em Lisboa quiser comer a qualquer hora pode escolher um dos espaços icónicos da capital que há mais de cinquenta anos serve refeições fora de horas durante 20 horas em cada dia: o Galeto. É uma das mais de setecentas obras de arquitectura, escolas, moradias, edifícios, fábricas, lojas de comércios diversos, da dupla de arquitectos Vitor Palla e Bento de Almeida, marcantes no Movimento Moderno da Arquitectura. A última obra de Vitor Palla em colaboração com o escultor Jorge Vieira é o Memorial Mausoléu às Vitimas do Tarrafal, no cemitério do Alto de São João.

Militante do PCP desde os anos quarenta, quando integrou o MUD Juvenil e fez parte das comissões de organização das Exposições Gerais de Artes Plásticas que, nas décadas de 40 e 50, desempenharam importante papel na resistência cultural ao fascismo, Vitor Palla tinha múltiplos e bem escorados talentos que deixaram forte marca na cultura nacional.

Como arquitecto, com o seu parceiro de sempre Joaquim Bento de Almeida, dos muitos e marcantes projectos que realizaram sobressaem pela diferença que marcaram na época os snack-bares. Lugares para rápidas refeições onde as mesas desapareceram e foram substituídas por balcões extensos desenhados para ter função dupla. Do lado do cliente, havia uma prateleira para pousar o chapéu e outros pertences, do lado do empregado existia um espaço para manusear uma série de alimentos e condimentos. Eram espaços inovadores que de algum modo estavam em oposição ao café das tertúlias, onde as pessoas se sentavam demoradamente. O primeiro que desenharam, foi o Bar Expresso Terminus segue-se o Pique-Nique no Rossio, em que integram um painel de Júlio Pomar e apuram o desenho do balcão para melhorar e ampliar as suas funcionalidades com uma preocupação que vai ao ponto de desenharem todos os pormenores de cada projecto, do mobiliário aos suportes dos galheteiros, sempre com um grande e cada vez maior rigor ergonómico, bem visível no Galeto.

A arquitectura, o design e a pintura eram as suas actividades principais, mas estavam longe de esgotar a transbordante imaginação, o talento, a fúria de modernidade de Vitor Palla. Na principio da década de 50, com José Cardoso Pires inicia a primeira colecção de livros de bolso em Portugal para a editorial Gleba, “Os Livros das Três Abelhas”, onde se editaram grandes autores nacionais e estrangeiros e que ainda hoje continua surpreender pela diversidade e qualidade das suas capas, inicialmente todas de Vitor Palla, que

também foi tradutor de algumas das obras editadas. A sua ligação à literatura faz com que seja um dos impulsionadores em Portugal do romance policial e ele próprio escreve contos policiais que foram distinguidos na Black Mask, quando ainda era uma prestigiada revista onde escreviam entre outros Raymond Chandler e Dashiell Hammett.

É ainda Vitor Palla que recupera a revista Arquitectura de que é director a partir de 1952 e onde publicou importantes textos teóricos e de crítica.

Arquitecto, designer de equipamento e gráfico, pintor, a sua vastíssima obra fica ainda notabilizada na fotografia com cerca de duzentas fotos que, com o arquitecto Costa Martins seu camarada do PCP,

escolheram entre mais de seis mil, que reuniram num livro Lisboa – Cidade Triste e Alegre, notabilíssimo não só pelas fotos e grafismo como pelos poemas inéditos escritos por Armindo Rodrigues, Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, José Gomes Ferreira e um texto de Rodrigues Miguéis, um livro que pertence hoje ao cânone mundial dos livros de fotografia.

Victor Palla, de que este ano se comemora o centenário, é um homem que estava sempre uns passos à frente do seu tempo por mais que o tempo persistisse a correr atrás dele.

(publicado em Avante!2521/ 24-03-2022)

Standard
Geral

Plurarismo, SA

Decalcomanie, 1966, óleo sobre tela, MAGRITTE

Hoje o director de o Público publicou um artigo em que atira para o caixote do lixo todos os ilusionismos que têm usado para se fingir independente travestindo o seu reaccionarismo estrutural. Disso ninguém já deveria ter alguma dúvida lendo-o ou ouvindo as suas trôpegas intervenções na televisão, onde por vezes o farsola lá tentava vender gato por lebre sem conseguir de facto solapar que faz parte da camarilha de cruzados do pensamento único, que se quer impor como dominante, alinhados nos pelotões de analistas, especialistas, pivôs, entrevistadores, pseudo-jornalistas e mesmo mentirosos profissionais, de cores diferentes mas todos com o mesmo paladar, que germinam como venenosos cogumelos na comunicação social nacional e internacional intoxicando a opinião pública para que deixe de ser possível pensar, num controlo avassalador que arrasa de vez a capacidade crítica de quem quer que seja atirando quem tenha a veleidade de o fazer mesmo da maneira mais limitada, mesmo só colocando dúvidas, para as colónias penitenciárias em que se exterminam quaisquer liberdades democráticas com as ferramentas dos mecanismos em que a realidade é triturada para que os povos fiquem incapazes de perceber os reais fogos políticos, substituindo-os pelos fogos fátuos em que o império dominante retira proveitos com o empobrecimento moral, intelectual e económico dessa situação, em que o neoliberalismo como sistema económico-político de abrangência global é suportado pela formatação da uma opinião única sobre o funcionamento da sociedade.

O Público, como outros meios de comunicação social nacionais, faz à nossa e periférica escala, parte desse gigantesco aparelho globalizado. Não pode perder ocasião para calçar saltos altos, de se por em bicos de pés, para os grandes patrões mundiais do sistema perceberem que estão dentro do redil e merecem que de quando em quando um afago que ressarcise o zelo. É nesse quadro que se deve ler este artigo que é um bom justificativo e justifica bem porque é que o capital continua a investir a fundo perdido nos media – a Sonae ganhou alguma vez dinheiro com o Público por mais ginástica contabilística que faça? quantos jornais não são deficitários apesar das entradas de capital, das preferências não inocentes das inserções publicitárias e da redução das despesas nomeadamente com os despedimentos efectuados? – na propaganda em que se tornou a comunicação social em que se paga largamente aos torquemadas que garantem que nada descarrila, sejam indigentes mentais ou tenham um pouco mais de sofisticação como os manueiscarvalhos, sem que seja necessário exagerar porque as suas qualidades policiescas não exigem grandes argúcias. Melhores ou piores, são os cães de fila da tirania da comunicação social como lhes chamou Ramonet, os seus mercenários de serviço que escrevem quilómetros de textos manipuladores largamente estudados e denunciados por Chomsky. Um dos truques dessa gente para se fingir democrática, é de quando em quando deixar publicar nas páginas que controlam críticas aos poderes de que são serventuários. Desta vez, no Público, o artigo de Boaventura Sousa Santos logo colocado no pelourinho para execução sumária. Dias antes os generais Raul Cunha, Carlos Branco e Agostinho Costa tinham sido objecto de infames calúnias no Expresso, uma das vozes do grupo Bilderberg através do grupo Impresa em Portugal, só por fazerem análises de indole de estratégia militar sobre a condenável guerra que decorre na Ucrânia depois da invasão russa, que não eram coincidentes com o que a propaganda em grande alarido queria impor. As mensagens mais primárias, com as mais duvidosas origens até na sua formulação, usam colossais meios de difusão e quem ousar uma dúvida é logo cremado pelos censores, os sempre de serviço e os que surgem a retalho sobretudo nas redes sociais.

São truques mas para que a ilusão seja a realidade estão muito bem montados e bem explicados nos manuais da CIA, que aprenderam e aprofundaram as teorias de Goebels, que deve dar voltas e reviravoltas roxo de inveja no inferno em que de estar a arder, e banaliza o Grande Irmão de Georges Orwell.

O objectivo deste bombardeio, com a mais densa desinformação e propaganda, é que os mais avisados fiquem paralisados pela dúvida já que a maioria está pronta a se deixar iludir por esses fogos reais de desinformação que têm a enorme virtude de fazer de fachada para uma cerrada censura sem recurso a lápis azuis o que é melhor conseguido quando pelo meio de um quadro impecável e uniformemente pintado introduzem uns calculados riscos para induzir um falso efeito de abertura e liberdade. Nas últimas dezenas de anos o pluralismo informativo é uma das farsas desta sociedade mais bem montada. A malha tem-se apertado sufocando a tão apregoada independência de informação, que quanto mais é alardeada menos existe. Um recente estudo do ISCTE elaborava uma estatística centrada na quantidade de comentadores de direita e esquerda nos últimos anos nos media nacionais e mesmo com um critério de esquerda de larguíssima malha, que até considera Sérgio Sousa Pinto ou Francisco Assis como de esquerda só porque estão inscritos no PS, muitos outros exemplos seguem o mesmo critério, demonstrava como a direita era cada vez mais dominante na comunicação social. O pluralismo e a independência de informação é cada vez mais atirado para as urtigas, até com grande complacência do chamado serviço publico como é visto com clareza pelos comentadores a que recorre e que não foge ao padrão dos media privados.

Se lançarmos um olhar mais universal não sabemos se a CIA, que nos anos cinquenta tinha na sua folha de pagamentos directos mais de 700 jornalistas em todo o mundo e mais uns milhares pagos indirectamente por várias prebendas, as maneiras de pagamento são as mais diversas na sua maioria procuram camuflar a sua origem, em que moldes a continua essa prática. Pelo estado actual dos media até se deve ter acentuado, as fusões são mais que muitas e o desaparecimento ou a censura a outras fontes de informação tem-se acentuado. Há ainda o suplemento de muitos reformados da CIA serem hoje comentadores principais na CNN, Fox, New York Times, Washington Post, etc. Há que esperar pela próxima desclassificação de alguns documentos que só revelam uma pequena percentagem da realidade, mas sempre levantam a ponta da manta dessas acções secretas. O que gostaríamos chamar a atenção dessas instâncias é que a quantidade de merecedores se não de benesses mais ou menos vultuosas mas de pelo menos umas gorgetas tem aumentado em grande número porque a concorrência aumentou ferozmente, num sistema em que a ameaça de despedimento está ao abrir da porta, a precariedade é vulgar e nem sempre o abanar a cauda a editores e directores é garantia suficiente, pelo que se podem perder alguns talentos.

Tem que se funcionar de acordo com a lei da sobrevivência no pântano em que a comunicação social se tornou. O capital neoliberal, que domina os media no chamado mundo livre e as múltiplas agências, das mais secretas às menos secretas ou até públicas e festivas como as ONG’s, que lhe dão apoio logístico, deve ter alguma atenção aos serviços prestados por essa gente e se não os podem recompensar a todos com cargos bem remunerados devem pelo menos, brindá-los de algum modo. É o mínimo que podem, devem fazer honrando os bons hábitos relacionais da aristocracia com a criadagem que não se devem perder nos tempos modernos. Seria mais que uma deselegância, seria mesmo um sinal de arrogância de pensarem de lá por os terem pela arreata ficarem dispensados de lhe dar pelo menos meia cenoura.

Standard
Geral

As Trombetas do Liberalismo

Fantasmas, George Grosz

O editorial do director do Público do dia 12, é extraordinário por desnudar as urgências da direita pelo que se perdem as estribeiras e a vertigem da manipulação passa de pés de veludo para patadas de elefante. Diz ele, em linha com outro pensador de fundo, João Miguel Tavares, que «há uma lufada de ar fresco que o torna mais respirável. Desiludam-se os que consideram esta impressão (é essencialmente disto que se trata, até porque as impressões são cruciais em política) como o reconhecimento de um virar de página que afunda um regime nefasto e funda outro libertador. Não é isso. O que muda é o foco do discurso dominante. Pela primeira vez em muitos anos, estamos a discutir a sério a criação da riqueza e não apenas a sua redistribuição. E não, a mudança não se explica apenas pelos ganhos de credibilidade do PSD ou pelo fortíssimo impacte do discurso da Iniciativa Liberal. Também o PS parece livre dos espartilhos da “geringonça” e recupera o seu programa matricial, em que consta o crescimento, as exportações, a fiscalidade ou, em síntese, a criação de riqueza. Para os que passaram os últimos anos a denunciar o esoterismo da discussão política, esta é uma boa notícia. O equilíbrio na discussão entre o Estado e a sociedade, entre o crescimento económico e a redistribuição a iniciativa privada saltou os muros da tradicional fronteira entre a esquerda e a direita.»

Num jornalista, a qualquer jornalista deve ser exigido um mínimo de rigor, ter uma réstia de ética. Manuel Carvalho tem sido muito dado a fingimentos para iludir a sua falta de rigor e ética, embora escorra miudamente para as meias verdades e mentirolas para levar água aos moinhos da direita onde habita. Há que reconhecer que por isso e para isso é que foi escolhido para director do Público, para isso é que lhe pagam e também para isso é que o grupo Sona, tão cioso em fazer investimentos rentáveis, investe a fundo perdido no Público, à semelhança do que acontece com outros meios de comunicação social. A rentabilidade que extraem desses investimentos é outra, por isso porque lhes importa estarem em contradição com os princípios que tanto trombeteiam.

Ora se Manuel Carvalho fosse um jornalista sério e credível o que teria apontado nos debates e nos argumentos do PSD, da IL, para não falar do CDS e Chega, é a grande mentira que todos eles, de um ou outro modo, gritam aos quatro ventos sobre o peso do Estado ser dominante em Portugal, e no mais que falso argumento que se vive em socialismo, o que só merece uma sonora gargalhada.

É consonante o director do Público com a maioria dos comentadores a pataco e direitolas, raríssimas são as excepções, que acabam por ter maior tempo de antena que os intervenientes nos debates. Nenhum denuncia a grande mentira que ressalta no debate entre o PSD e o IL: a mantra de Portugal estar submetido ao socialismo e a um peso insuportável do Estado que esses cruzados irão combater para o libertar. Deve ser essa cruzada que é «um virar de página que afunda um regime nefasto e funda outro libertador» celebrado por Manuel Carvalho no seu editorial!

É a grande manipulação em que o director de o Público alinha a quatro patas porque a realidade é bem outra. Portugal, números do Eurostat, é o país da União Europeia em que o peso económico das empresas públicas em percentagem do PIB é de 3,55%, menor só a Irlanda, 3,51%. Nas duas economias mais fortes da UE, Alemanha e França as percentagens são respectivamente de 6,71% e 12,89%. Na Finlândia, tantas vezes referida como exemplo, a percentagem é de 40,14%. Os números da percentagem de funcionários públicos no emprego total também é de referir, em Portugal é de 14%, a média europeia é de 18%. Menor que Portugal, só Itália, Luxemburgo, Países Baixos. Mais significativo ainda é que em Portugal, o Estado gasta menos do que a média da Zona Euro, -4.5%. Proteção social, -2,9%, Saúde, -0,6%, Educação, Transportes,Habitação e Equipamentos Comunitários, Cultura e Recreação,-0,2 %, Protecção Ambiental -0,1%. Em linha com a média da UE, Ordem Pública e Segurança e muito acima 4,5% Operações de Dívida Pública. São números indesmentíveis dos serviços estatísticos da UE que destroem sem complacências a narrativa da direita.

Mais escabrosas são as propostas de política fiscal propostas pela IL, em linha com o Chega e com o apoio tíbio do PSD, em que, com a taxa única do IRS, beneficia larga e descaradamente os mais ricos, procurando iludir a classe média. Deveriam ser arrasadas por essa gente se não estivessem vendidos ao grande capital.

Sabemos bem que, como escreve João Rodrigues no blogue Ladrões de Bicicletas, «a presença do Estado, indissociável de qualquer forma de capitalismo, permite sempre aos liberais responsabilizar esse mesmo Estado pelo fracasso das suas políticas. O liberalismo é uma utopia com consequências distópicas e que se furta ao real: das alterações climáticas à multiplicação dos serviços de cuidado para tanta gente vulnerável, a presença do poder público actuante para lá do nexo-dinheiro é cada vez mais urgente.»

É esta realidade que a tropa fandanga instalada na comunicação social estipendiada nunca dirá e procura por todos os meios ocultar.

A isto os manueiscarvalhos dizem nada, empenhados em fazer propaganda ao virar a página dos últimos anos da “geringonça” que, apesar das suas fragilidades e debilidades vitimas das “contas certas” de António Costa bem mandado pelos tecnocratas liberais de Bruxelas, contrariou muito do que era negativo na austeridade herdada da troika. Fê-lo sobretudo pelo que o PCP, o BE e o PEV empurraram o PS para a esquerda. O que querem é abrir a página do fanatismo dos liberais, que tem sido em doses variáveis dominante em Portugal, bem visível sobretudo nas políticas económicas de Cavaco Silva e Passos Coelho, mas também no socialismo que Mário Soares meteu na gaveta. São os serventuários do grande capital que lhes paga para fazerem esse trabalho, que desempenham com maior ou menor capacidade. O que é perverso e inadmissível é que essa gente tenha lugar cativo, de destaque, sejam maioritários no serviço público da comunicação social.

Standard
Geral

João Abel Manta: A Máquina das Imagens

Ver ou rever a obra gráfica de João Abel Manta na exposição “João Abel Manta: A Máquina das Imagens” (a partir do título de um artigo de José Luís Porfírio de 1992) é ser-se confrontado com o poder das imagens em centenas de desenhos, cartoons, ilustrações, design gráfico – algumas das obras expostas ainda eram inéditas – que evidenciam o lugar único de um artista de excepção, não só nessa área mas em todas as outras das artes visuais, com um saber e conhecimento técnico, que domina sem qualquer cedência a maneirismos, que transpõem para o papel a realidade, as realidades filtradas por uma inteligência cortante e subtil ancorada uma vasta e sempre actualizada cultura.

João Abel Manta é tão capaz de radiografar à velocidade do pensamento o que estava a acontecer no período acelerado que Portugal viveu entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro como demoradamente refletir sobre os quase cinquenta anos de fascismo salazarista expondo a violência ditatorial, não só a mais evidente mas a que se introduzia no tecido social, cultural e histórico de um país assolado por uma pandemia ideológica que se queria mentalmente paralisante.

É um impiedoso cartógrafo que nos obriga a ser acareados com as evidências, recusando os facilitismos das ironias ou dos sarcasmos para que os mapas que traça com detalhes que desassossegam não permitam leituras fáceis ou distraídas. Cada desenho, cada cartaz, cada cartoon é um ensaio crítico que adquire peso específico próprio e lhe confere intemporalidade. Esse é o traço fino e distintivo do seu trabalho de designer gráfico, desde o primeiro publicado na revista de Arquitectura aos que se seguiram no Almanaque, no suplemento literário do Diário de Lisboa ou nas ilustrações do “Dinossauro Excelentíssimo”, personagem que criou em parceria com José Cardoso Pires em que se retratava sem clemência Salazar-o-Botas, parceria que continuou no “Burro em pé”, uma peregrinação pelas comarcas de Portugal em demanda dessa personagem difusa mas muito popular por essas paragens.

A implacável violência com que retrata as imposturas dos tempos da ditadura nas “Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar” é uma barreira de coral intransponível para os que se afadigam a tentar por vagas a rever a história, reduzindo-os a uma absoluta insignificância. É sempre com olhar feroz que açoita a moral marialva ou as misérias dos burgueses, sejam grandes ou pequenos, os anacronismos virais do pensamento de baixa velocidade de circulação do provincianismo. Nada escapa à sofisticada rede com que João Abel Manta peneira o universo com o bisturi carregado de tinta da china que tanto desenha com humanismo extremo os retratos de José Dias Coelho, Bento de Jesus Caraça ou Fernando Lopes-Graça, faz leituras críticas de finíssimo recorte de Shakespeare e das artes e letras nacionais nos “Diálogos Confidenciais”, ou sacode virando do avesso e zurzindo sem contemplações a má-literatura, a má pintura, a má arquitectura, a má política.

João Abel Manta: A Máquina das Imagens é a mais extensa exposição do seu trabalho gráfico, tanto de obras únicas como de séries temáticas, que se pode e deve visitar no Palácio da Cidadela de Cascais – até 16 de Janeiro — que, mais uma vez, mostra a excelência do trabalho deste artista que ocupa um merecidíssimo lugar no panteão dos maiores designers gráficos e ilustradores de todo o mundo.

(publicado em Avante! 2508 -23/12/2021)

Standard
Geral

As Mentiras das Meias Verdades

Ferro Rodrigues, com o peso institucional de ainda ser Presidente da Assembleia da República, dá uma entrevista na RTP em que afirma que nas negociações entre o PS e os partidos à sua esquerda, que desigualmente tem sustentado a governação desde 2015 quando o PCP abriu as portas do poder a António Costa e ao PS, o PS cedia às pretensões do PCP e do BE e logo a seguir esses partidos aumentavam as suas exigências até a um ponto em que o PS já não podia ceder mais. Diz isso sem que uma ruga de desaforo se vislumbre. Acrescentou que, como Presidente da Assembleia da República, ia sendo informado desses lances, que os ouvia com preocupação. A consequência que extraía do malogro dessas negociações para aprovar o OE 2022 era, obviamente, a necessidade de o PS obter uma maioria absoluta nas eleições marcadas para 30 de janeiro.

Ouvindo o seu tom afável, espaldado no alto cargo político que exercia, até se pode acreditar nas suas falas. Nada mais falso, ainda mais perigosamente falso por se apoiar em meias-verdades para garantir o quilate das mentiras. Com muita boa vontade pode-se conceder o benefício da dúvida no pressuposto que quem o informava do andamento das negociações o enganava. O que perante algumas evidências, e se ele estava atento às posições políticas assumidas pelo PS na Assembleia da República, se torna dificilmente acreditável.

Dois exemplos em duas áreas sensíveis, o Trabalho e a Saúde. Em relação ao Código do Trabalho herdado da troika, o PS não só boicotou todas as propostas de alteração que revertessem as suas medidas de maior monta como até as agravou aumentando o período experimental de 90 dias, para a generalidade dos trabalhadores, para 180 dias para os trabalhadores que exerçam cargos de complexidade técnica, elevado grau de responsabilidade ou que exijam uma qualificação especial; desempenhem funções de confiança; estejam à procura de primeiro emprego ou desempregados de longa duração. Esmiuçando essa língua de pau, na prática para todos os trabalhadores. Alterar esta e outras disposições igualmente penalizadoras dos trabalhadores como a caducidade da contratação colectiva ou a precariedade , exigências feitas nas negociações do OE 2022, foram inaceitáveis para o PS e, pelos vistos, para Ferro Rodrigues.

Em relação ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) os partidos à esquerda do PS queriam não só o reforço das condições para que o seu exercício fosse mais efectivo, em meios humanos e materiais, mas também acabar com o decreto-lei do PS que tende a destruir o SNS tal como está instituído em vez de o valorizar e aprofundar. Propõe o PS acabar com o regime de dedicação exclusiva, como o opcional dos profissionais de saúde como até hoje, embora mal, estava instituído, alargando-o a todos os profissionais de saúde. Na prática escancarar a porta giratória entre sector público e privado que estava em funcionamento, para os privados beneficiarem de um amplo mercado de recrutamento de mão de obra que é qualificada às custas do Estado. Mas os benefícios ao sector privado não ficam por aqui. Num dos artigos deste decreto-lei que tem estado em discussão pública, facilita-se praticamente sem qualquer limitação a alienação de instituições hospitalares públicas para o sector privado. É esta destruição do SNS que os partidos de esquerda nas negociações com o PS quiseram travar. São estas e outras disposições de timbre similar que PCP, BE e PEV, a que adicionam exigências de cumprimento de compromissos assumidos pelo governo PS, para não suceder o que em anos anteriores tem sido a prática contumaz do PS que os inscreve no OE para depois, com a maior desfaçatez, os cativar faltando à sua palavra.

É esta constante deriva à direita do PS, mais evidenciada ao longo destes anos de legislaturas em que tem mais votado ao lado do PSD, CDS, IL e Chega contra as iniciativas da esquerda parlamentar do que apoiado as propostas de lei do PCP, BE e PEV. Um espectáculo a que Ferro Rodrigues tem assistido desde 2015, que o deviam ter posto de sobreaviso sobre o que lhe estavam a contar sobre o estado das negociações do OE 2022, o que atira às malvas o benefício da dúvida que se lhe poderia conceder e a imagem de esquerda com que se mascara.

Mas Ferro Rodrigues é como muitos outros militantes socialistas, alguns até mais à direita que ele, um dos sócios daquele albergue espanhol social-democrata que tem o socialismo metido na gaveta. Quando aparecem nas pantalhas é para se travestirem de esquerda para poderem prosseguir as suas políticas de direita, de preferência com a esquerda a vê-los passar. Quando se atinge um ponto de saturação em que não é mais possível à esquerda continuar a ausentar-se para que prossigam as políticas de direita, vão para a praça pública armados em virgens púdicas para se vitimizarem com o mesmo descaro exibido por Ferro Rodrigues na sua entrevista na RTP, numa campanha de caça ao voto que começou no minuto seguinte ao OE ter sido chumbado e que tem colhido algum apoio naquela gente de esquerda patética e tontamente hesitante por mais profissões de fé nos princípios que façam.

Standard
Geral

DOIS CENTENÁRIOS: José Saramago/Jorge Vieira

Hoje faziam anos Jorge Vieira e José Saramago, que nasceram no mesmo dia e no mesmo ano, 16 Novembro 1922. São dois dos mais notáveis artistas portugueses. um escultor outro escritor. Dois centenários que hoje se iniciam com sorte e impacto diverso por um deles ter sido e justamente distinguido com o galardão máximo da literatura, o Nobel, o que dá origem a celebrações de repercussão nacional. Tanto na escultura como na literatura os dois deixaram-nos uma obra que, na sua totalidade, têm impacto indelével nessas duas áreas artísticas.

Hoje, no teatro São Luís, abriram-se as portas do centenário de José Saramago, com um concerto em que foi tocado As Sete Últimas palavras de Cristo na Cruz, de Joseph Haynd, em que os textos originais seleccionados a partir dos Evangelhos segundo São Mateus, São João e São Lucas, que eram o suporte para o rito de Cadiz, foram substituídos pelos textos originais de José Saramago escritos especialmente para ilustrar a interpretação dessa obra pelo Le Concert des Nations de Jordi Savall. O escritor já tinha publicado, em 1991, O Evangelho segundo Jesus Cristo que narra a vida de Jesus como um homem com perfeições e defeitos. A parte mais substancial do romance são os diálogos entre Deus, Jesus e o Diabo, os três confinados numa pequena embarcação durante quarenta dias e noites em que Deus revela ao Filho os seus projectos expansionistas, o Diabo revolta-se por servir de contraponto a Deus e à sua suposta bondade, Jesus insurge-se com o destino que Deus lhe reserva para consumar os seus feitos nobres e bondosos que não são nada nobres nem bondosos. É uma revisitação dos Evangelhos escrita por um ateu que os parodia ironicamente, invertendo a história sagrada substituindo na anunciação a Maria o anjo Gabriel pelo Diabo, descrevendo a intensa vida sexual de José e Maria e de Jesus com Maria Madalena, entre outros sucessos virados do avesso.

Essa será o ponto de partida para Saramago escrever as Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz. São sete magníficos textos de grande beleza e profundidade.

Na Sexta Feira Santa, A Hermandad de la Santa Cueva comemorava a Sexta Santa de forma muito particular, no que ficou conhecido como o rito de Cadiz, celebrando-a numa capela com as paredes cobertas por panejamentos negros, iluminada por sete gigantescas velas ou tochas que se iam apagando a cada uma das palavras de Cristo proferidas pelo bispo entre intermezos musicais. No fim a escuridão invadia o espaço. Em 1785, José Saenz de Santamaría que tinha herdado de seu pai o título, a fortuna e o ficar à frente da Hermandad, decide renovar a Capela, encarregando para isso vários pintores entre eles Goya, e encomendar uma grande obra musical a substituir os intermezos até aí utilizados. Escolhe Haydn para esse empreendimento. O compositor, com renome no universo musical, corresponde escrevendo uma obra-prima composta por uma Introdução e sete sonatas todas sensivelmente com a mesma extensão, em média 7 minutos, acabando a última com Il Terremotto, um Presto com tutta la forza que se contrapõe aos anteriores andamentos, entre o Grave, o Largo, o Adagio.

Il Terremotto evidencia toda a genialidade de Haydn e a atenção que tinha pela música de Mozart e Beethoven de quem tinha sido amigo, mentor e tutor. É o culminar de uma das obras mais representativas do Iluminismo que mantém intacto too o seu potencial expressivo, hoje mais sublinhado pelos admiráveis textos de Saramago que acabam com uma frase que sintetiza o que foi expondo desde a primeira palavra «Deus,Pai, Senhor aqui me tens. Aqui me tens , por fim, neste monte árido a que chamam de Gólgota para onde, passo a passo foste encaminhando a minha vida para que se cumprissem todas as profecias. Estou crucificado nesta cruz alta, a que está ao centro, e os homens que fazem companhia, um de cada lado, são dois vulgares ladrões, daqueles que se contentam em roubar pouco, porque se fossem daqueles que roubam muito tenho a certeza que não acabariam crucificados» até como finaliza a sétima e última palavra « Acabámos. Representei o meu papel o melhor que podia. O futuro dirá se o espectáculo valeu a pena. E agora deus, pai, senhor, uma última pergunta: quem sou eu? Em verdade, em verdade quem sou eu?»

Dois centenários de dois meus amigos e camaradas que hoje se iniciam e que aqui singelamente relembro ao som do final desta obra de Haydn.

Standard
Geral

DERIVAS MULTICULTURAIS

O debate político é tragado pelo debate multicultural em variadas e autónomas vertentes que acabam por arranhar as elites que detêm o poder sem contestarem as estruturas económicas e políticas que as sustentam.

A Persistência da Memória, Salvador Dalí, 1931 CréditosSalvador Dalí

Activistas com ligações ao MeeToo exigem a rectificação de mais um escândalo que, depois de muitas horas de exibição em pantalhas por todo o mundo, tem passado sem punição: o beijo com que o príncipe acordou Branca de Neve não foi um beijo consentido!

É um, mais um, evidente caso de violência sobre o sexo feminino, de evidente assédio sexual. Celebre-se João César Monteiro, sempre muitíssimo atento à moral e aos bons costumes, que tapou a objectiva com um pano negro para que a impudicidade da cena não fosse vista. Dizia o realizador aos interpelantes que não tinham percebido a demanda: «Queriam o quê? Telenovela? Fadinho?». Queriam e querem. O que se está a assistir e a acontecer sob a capa do multiculturalismo, com os estudos feministas, queer, racistas, etc., e a sua repercussão social, nos meios universitários, laborais, artísticos, é inquietante. Tão patético quanto o beijo do príncipe foram os apelos para que Gaugin fosse excluído dos museus, acusado de ser um pedófilo de mentalidade colonialista, encabeçando um índex que incha sem tino e em que são poucos os que escapam a essa fúria persecutória. Até Dante lá foi parar por ter escrito Divina Comédia, considerada obra homofóbica, racista, anti-islamista e anti-judaica. Estes e outros sucessos são tão excessivos e folclóricos, tonteiras tão tontas (passe o pleonasmo), tão passíveis de serem imediatamente comparadas às fogueiras inquisitoriais de torquemadas pós-modernos por um muito amplo arco de forças políticas e sociais, que, de algum modo, menorizam as lutas identitárias, que até lhes são úteis, mas sobretudo rasuram as lutas de classe em que as lutas identitárias deveriam e estão integradas, com o objectivo de nivelar tudo para que a realidade, nos seus termos actuais, seja não só aceitável como mesmo desejável. Não devem ser consideradas um acaso estas manifestações extremas de um radicalismo pequeno burguês que mais não é que um mimetismo proletário das camadas burguesas decadentes. Acabam por se tornar topos de divertimento, de chacota, que distraem para desfocar as análises a fundo do que está na sua origem, que deve ser séria e severamente analisado pelo seu poder de inquinar as lutas de esquerda e das forças progressistas que não fazem concessões às elites que detém o poder.

«Acabam por se tornar topos de divertimento, de chacota, que distraem para desfocar as análises a fundo do que está na sua origem, que deve ser séria e severamente analisado pelo seu poder de inquinar as lutas de esquerda e das forças progressistas que não fazem concessões às elites que detém o poder»

Nesse universo convulsionado e fragmentado, uma das acções que mais frutos colheu e colhe é a da chamada escrita inclusiva. No mundo em que o conhecimento da língua se desgasta nas vulgaridades lexicais das redes sociais e dos tweets, cresce a obsessão pelas regras gramaticais em que se procura impor a igualdade entre homens e mulheres, esbater as diversidades étnicas. As neo-feministas defendem a imposição de regras para que, no dizer delas, a gramática deixe de invisibilizar as mulheres. Títulos, funções, graus e ofícios devem passar a obrigatoriamente a usar o feminino e o masculino por dupla inflexão ou outro qualquer método. Essa seria agora uma das grandes frentes de luta do combate feminista, mais preocupado com os símbolos do que com a realidade das desigualdades e outras violências exercidas sobre as mulheres. Uma luta que ultrapassa fronteiras. Por cá Francisco Assis, que dá cobertura aos burocratas do patronato no CES a que preside para serem força de bloqueio aos acordos parlamentares sobre as leis do trabalho e contratação colectiva, torna-se um campeão da escrita inclusiva, o que lhe valeu inúmeros elogios nos media. Pouco interessa que ele pouco se preocupe que em Portugal as mulheres ganhem em média cerca de 15% menos do que os homens, diferença que aumenta para 26% nos quadros de topo, não discutindo essa questão no CES como quer a CGTP. Algumas universidades inglesas e norte-americanas surfam as ondas da escrita inclusiva admitindo os erros ortográficos como um esforço positivo para reduzir diferenças de aproveitamento entre estudantes brancos e de outras etnias pregando que isso seria forma de reduzir taxas de desistência porque «construir uma voz académica significa adoptar um modo de expressão particular de uma elite do norte europeu, branca, masculina, dependente de um alto nível de proficiência técnica em inglês escrito e falado» e que tal «modo de expressão» obscurece as particularidades de cada aluno, nomeadamente os estrangeiros, de minorias étnicas e os mais pobres. Em vez de considerar a individualidade e a diversidade cultural dos alunos estendem o tapete da escrita inclusiva para aí esfregaram as solas dos seus sapatos impregnados de um insuportável paternalismo colonialista.

As lutas identitárias ditas fracturantes espalharam-se praticamente por todo o universo, o que foi facilitado pela aculturação promovida por uma cultura dominada pelas leis do mercado e subordinada ao normativo anglo-saxónico. Começaram a invadir o ensino universitário onde se preparam as elites. Na Universidade de Oxford, a mais antiga e prestigiada universidade de língua inglesa, estão em cima da mesa do seu conselho científico propostas para a reforma do ensino da música pressionado pelo movimento Black Lives Matter. As primeiras notícias fizeram soar sirenes de alarme, anunciando mesmo o descartar o reportório clássico, Bach, Beethoven, Mozart para que o estudo da música «perdesse as suas conexões coloniais», se tornasse mais inclusivo, afastando-se dos currículos musicais a «conivência e cumplicidade com a supremacia branca». Bem estranha essa preocupação quando Beethoven, como escreve Romain Rolland, «ama a liberdade com orgulhosa consciência de quem se liberta da mordaça do velho mundo podrido dos seus senhores e dos seus deuses, mostra-se digno da sua nova liberdade», ou quando Mozart, que tem uma primeira referência anti-racista nos diálogos da Flauta Mágica, quando Papageno diz que «se há aves pretas, porque não hão-de existir homens pretos» (Acto I/ Cena 14). Evidentemente que a notícia era um excesso especulativo porque nunca seria possível um ensino musical que pusesse em causa intransigentemente a notação e a leitura de partituras clássicas, mas foi provocada por estar em marcha um movimento para o «estudo de uma maior variedade musical»  que não se sabe até onde irá até porque os ventos que andam a varrer o ensino universitário, impulsionados pelas lutas identitárias tem aberto várias janelas. Na universidade de Yale está em marcha a revisão do curso de Arte do Renascimento à Actualidade, porque alguns mestres repararam agora no mais que manifesto facto de os pintores renascentistas serem brancos e masculinos. Um azar que Iago, em vez de intrigar e manipular Otelo, não se tenha dedicado à pintura tendo por modelo Desdémona para concorrer com Ticiano porque, apesar de continuar a ser um representante masculino, pelo menos não era branco. Decidem que é preciso tirar a arte ocidental do seu pedestal, colocá-la no contexto mais amplo «das questões do género, da classe, da raça e também das alterações climáticas»!!! Não menos grave é a English Touring Opera, conhecida companhia de ópera itinerante, ter decidido licenciar metade dos seus efectivos para promover a diversidade étnica dos seus membros sobrepondo esse critério aos critérios de mérito musical.

«[o multiculturalismo,] mais do que criticar as estruturas responsáveis pela exclusão e marginalização de vastas franjas sociais e integrar as lutas contra essa exclusão e marginalização no contexto mais vasto das lutas de classe, as desintegrou nas lutas identitárias ditas fracturantes que se são importantes nos contextos de mudança de atitudes sociais acabam por ser irrelevantes na alteração radical da sociedade»

Já nos anos 50, muito antes de Fukuyama decretar o fim da história, o sociólogo Daniell Bell, analisando a ausência de comprometimento político nos meios artísticos e intelectuais dos EUA, decretou que o período do pós-guerra tinha marcado o «fim das ideologias»,1 prenunciando o estado actual do multiculturalismo que se tornou um fim em si, em que mais do que criticar as estruturas responsáveis pela exclusão e marginalização de vastas franjas sociais e integrar as lutas contra essa exclusão e marginalização no contexto mais vasto das lutas de classe, as desintegrou nas lutas identitárias ditas fracturantes que se são importantes nos contextos de mudança de atitudes sociais acabam por ser irrelevantes na alteração radical da sociedade, pelo que rapidamente são absorvidas, até aceites com complacência pelo poder e pelo pensamento dominantes, que soube e sabe ler e explorar com agudeza que se estava a abandonar a análise das raízes profundas dos problemas sociais e económicos, identificando as mudanças estruturais necessárias para os superar, para as substituir pelo expandir de direitos e procurar oportunidades dentro do sistema. Ignora-se desse modo que o capitalismo é uma ordem social institucionalizada pelo que essas práticas políticas, sociais e económicas se tornam incapacitantes, desviadas das lutas contra as estruturas fundamentais que assim se desgastam, mesmo perdem, a possibilidade de uma crítica radical do capitalismo atirada para um labirinto de identidades desarticuladas em que se desbarata o conceito de classe e de alienação em que tudo se torna relativizável.

O debate político é tragado pelo debate multicultural, nas variadas e autónomas vertentes entrincheiradas na excelência dos debates semiológicos pós-estruturalistas que acabam por arranhar as elites que detêm o poder, sem contestarem as estruturas económicas e políticas que as sustentam. Muitas das suas manifestações são happenings que a comunicação social dominante transmite enlevada. É a integração das lutas identitárias e fracturantes na política espectáculo o que é perfeitamente entendido pelas forças que suportam o poder e que se traduz no espaço mediático que ocupam nos media corporativos, no apoio económico que fundações, como as de Soros, Rockfeller, Ford, etc., concedem ao MeeToo, Black Lives Matter, outras organizações similares e ONG’s. Nancy Fraser, filósofa ligada aos movimentos feministas, descreve como o neoliberalismo progressista já dominava a política estadunidense ainda antes de Trump: «isso pode soar como um oxímoro, mas era uma aliança real e poderosa de dois companheiros de cama improváveis: por um lado, as correntes liberais mainstream dos novos movimentos sociais (feminismo, anti-racismo, multiculturalismo, ambientalismo e direitos LGBTQ); por outro lado, os setores “simbólicos” e financeiros mais dinâmicos da economia dos EUA (Wall Street, Silicon Valley e Hollywood)». Aliança que tem por objectivo último liberalizar e globalizar a economia capitalista, consolidando a sua hegemonia, o que é desde sempre o objectivo do liberalismo na sua pluralidade, de que essas esquerdas desbussoladas acabam por ser objetivamente aliadas.

Russell Jacoby faz uma análise contundente: «despojados do seu vocabulário socialista, esbulhados das suas esperanças utópicas, os progressistas e os esquerdistas bateram em retirada, em nome do progresso, para celebrar a diversidade. Não tendo ideias para enfrentar o futuro, aderiram a todas as ideias. Sob as vestes do multiculturalismo, o pluralismo tornou-se num albergue espanhol, o alfa e o ómega do pensamento político, o ópio dos intelectuais desiludidos, a ideologia de uma época sem ideologia».2

«um idealismo estéril em que a luta por uma mudança radical da sociedade, das suas estruturas sociais, políticas e económicas, das suas diversas opressões, é travada no território das imagens e da linguagem, em que aquela nunca é atacada na sua base social, política e económica»

Ficam prisioneiros de um idealismo estéril em que a luta por uma mudança radical da sociedade, das suas estruturas sociais, políticas e económicas, das suas diversas opressões, é travada no território das imagens e da linguagem, em que aquela nunca é atacada na sua base social, política e económica. Para amortecer as energias das lutas contra o clima neoliberal dominante, um dos processos mais vulgarizados é o do silenciamento das forças de esquerda mais consequentes, o que é facilmente detectável em todos os media corporativos estipendiados. Outro, mais subtil, é uma variante do replay que vemos quase diariamente nos serviços noticiosos quando recorrem a correspondentes geograficamente distantes. Quanto maior for a distância maior é o tempo que o receptor leva a perceber a questão e a ela responder. Essa inevitabilidade física é usada por algumas forças de esquerda que aproveitam os acalantos que a comunicação social lhes disponibiliza. Tornaram-se vulgares propostas feitas nos mais diversos palcos, institucionais e não institucionais, para corrigir e atacar os desmandos deste estado de sítio, serem noticiadas e assumidas não pelos proponentes mas por outros com dois objectivos: o primeiro é tornar os proponentes invisíveis, o segundo é esvaziar o conteúdo do seu valor activo. Isto faz com que essas esquerdas surjam a falar para os grupos oprimidos, para as minorias como se elas fossem a sua preocupação maior. Essa é a falácia porque o efeito pretendido é desviar as lutas das organizações de massas e dando visibilidade às lutas, esterilizá-las em discursos fortemente centrados em grupos autonomizados de trabalhadores, feministas, minorias étnicas, LGTBI+, etc., que nunca atacam a raiz dos problemas embora se dediquem à poda, uma actividade que se bem orquestrada apresenta a esquerda como um projecto afectivo e moral o que, por vezes, até se torna aliciante nas esquerdas mais empenhadas nas transformações sociais, mas que é um sucedâneo que substitui o projecto de libertação humana com o fim da sociedade de classes que deve ser sempre o objectivo da esquerda e das forças progressistas.

Há que perceber e afirmar que o multiculturalismo é sempre gerador de múltiplas identidades privadas, individualizadas, definidas em termos antagónicos e interseccionais com o objectivo de desarticular a luta de classes e as hipóteses de uma crítica estrutural e radical do capitalismo, inquinando a consciência colectiva e o militantismo político.

Como escreveu Pepe Escobar, sintetizando brilhantemente o momento actual em que vivemos «somos empurrados pelas ondas de uma baleia já arpoada, sem qualquer ideia de como, onde ou quando isto vai terminar. Como o Ismael de Melville, temos que sobreviver enquanto, sem descanso, combatemos contra os ventos da falácia, da ficção, da fraude e da farsa que o sistema moribundo manipula sem parar».3

(publicado em AbrilAbril http://www.abrilabril.pt)

Standard
Geral

Moedeiros Falsos

Imagem do Filme de Benoît Jacquot, Moedeiros Falsos, baseado no livro de André Gide, edição portuguesa Ambar, 2004, tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira

Quando se poderia julgar que no PSD haveria alguns personagens que teriam capacidade, ainda que residual, de pensarem qualquer coisa algures nos territórios de uma social-democracia thatcherista próxima da direita do PS, aparece um tal José Eduardo Martins, a quem é concedido um tempo de antena desmesurado em relação ao raio de circulação do seu intelecto (é o Portugalito, o que tem por brasão o galo de Barcelos, no seu melhor com os seus media na mesma escala), a tirar quaisquer ilusões a quem ainda as tivesse. É lê-lo numa entrevista que um diário lhe fez esta semana. Alguém que tem< deleite intelectual> em ir almoçar com Passos Coelho só pode ser um grunho ainda que envernizado pelo império das ilusões da cultura anglo-saxónica, como faz questão de sublinhar, o que em política se plasma na pornografia para lá da troika do governo PSD-CDS que julgávamos, pelos vistos bem mal, de que ele seria de algum modo crítico. Afinal era tudo dança no varão do neoliberalismo capitalista para iludir a malta, mesmo dando as mais ousadas cambalhotas, insuficientes para dar velaturas no mais obsceno striptease de um direitinha que só se distingue do Chega, da Iniciativa Liberal, do CDS, do PSD, da direita do PS no manobrismo linguístico em que o rapaz é um poker de ases de um baralho viciado que só ludibria quem já está enconchado na direita. Há que saber lê-lo para lá das diatribes com que nos distrai e até diverte. Nada como um bom vendedor de vigésimos premiados, são os melhores (piores) moedeiros falsos, os que sabem como melhor angariar votos no pantanal do totalitarismo democrático. Não há vício lógico que os trave.

Standard
Geral

Afeganistão a ferro e fogo

Os talibãs que agora derrotaram fragorosamente o exército e o poder do Afeganistão, ali colocados há vinte anos pelos EUA e seus aliados da NATO são os mesmos que, com o forte apoio dos Estados-Unidos combateram o governo secular e democrático e os seus aliados soviéticos que concederam os mesmos direitos às mulheres e aos homens, que iniciaram uma reforma agrária para erradicar as plantações de papoilas, agora o negócio mais florescente daquele território quando o seu controle era partilhado pelos novos e pelos velhos aliados dos EUA.

O que os múltiplos comentadores de todos os media mercenários que se desdobram em declarações sobre a chegada intempestiva e rápida dos talibãs a Cabul, tomando de facto o poder, nunca referem é que os talibãs são uma criação dos EUA que investiu uma verba multibilionária para os treinar, armar, equipar e subsidiar, dirigida por Zbigniew Brzezinski, conselheiro de segurança nacional de Jimmy Carter, com um currículo invejável ao serviço do imperialismo norte-americano, por exemplo foi dinamizador da Comissão Trilateral, trabalhou de 1966 a 1970 na embaixada norte-americana em Praga, etc.

Nada disto é referido por essa gente que agora parece muito surpreendida com a bagunça instalada. Muito menos referem que quando os soviéticos se retiraram do Afeganistão o exército afegão resistiu durante três anos e só sucumbiu quando Boris Ielstin cortou todo o apoio ao governo afegão abrindo caminho aos talibãs amigos dos EUA. Um cenário completamente inverso do actual, o que diz tudo ou quase tudo sobre o resultado de vinte anos de ocupação dos Estados-Unidos e Nato e o do poder exercido pelos sucessivos afegãos de Bush, Obama, Trump e Biden que o governaram.

No Ocidente, as declarações são como normalmente cínicas. Enchem a boca com os direitos humanos, em particular das mulheres e raparigas. Como se isso alguma vez lhes tivesse interessado e não houvesse responsabilidades do império norte-americano com a sombria ironia de esta luta final ser entre duas forças por eles apoiadas conforme os seus interesses geopolíticos. Nada disto será lido, ouvido ou visto nos media estipendiados como se a intervenção dos EUA no Afeganistão se resumisse aos últimos vinte anos, depois do 11 de Setembro. A manipulação e a hipocrisia não tem limites nem fronteiras.

Poucos referem que, com os talibãs no poder, chegam ao poder os pashunts, a maior tribo do universo, que foi artificialmente dividida entre o Paquistão e o Afeganistão pelo império britânico, useiro e vezeiro nesse corte e costura de fronteiras procurando acautelar os seus interesses futuros depois de ser obrigado a se retirar. Pode ser uma situação altamente explosiva, um catalisador de instabilidade numa região que nunca foi muito estável, basta olhar para as fronteiras do Afeganistão e os potenciais conflitos directos e indirectos que podm eclodir.

Standard
Geral

Finalmente!!!

O oportunismo político do Rui Tavares que se mascara de esquerda ainda que de uma esquerda prozac completamente controlada e amarrada ao pensamento prevalecente, o Rui Tavares que nunca saí da arena que lhe oferecem para fazer os seus rodeos de pantominas, o Rui Tavares que desde sempre soube e bem explorar em proveito próprio as causas identitárias e das minorias, a ser pró-Nato, a incensar a União Europeia como se não fosse uma construção das classes dominantes e o Euro como se não fosse um sistema de opressão austeritária, a ser pró- todas as invasões humanitárias, o Rui Tavares lambe botas dos oligarcas que controlam a comunicação social e lhe dão espaço para se exibir, o Rui Tavares e etc., e etc., finalmente, finalmente tem uma primeira recompensa política pública – a outra no Parlamento Europeu já ninguém se lembra, se calhar nem ele mesmo depois das cenas que protagonizou em que a única memória que deve restar foi o rasto na conta bancária – com um novo pelouro Cultura, Ciência, Conhecimento e Direitos Humanos, um autêntico supermercado de alhos e bugalhos onde terá a oportunidade de lhe pagarem para vender em vigésimos premiados o seu parlapié de pacotilha sobre tudo e sobre nada.

Rui Tavares, embora a concorrência seja intensa, é um dos exemplos mais acabados da Formiga Bossa Nova do Alexandre O’Neill

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

(– Obrigado, formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe…)

Standard
Geral

ISRAEL, Apartheid e Limpeza Étnica

Desde a fundação de Israel, os sionistas puseram em prática uma continuada limpeza étnica que continua até hoje, continuará amanhã, contando com a complacência do mundo ocidental que os deixa tripudiar todas as decisões da ONU sobre Israel e a Palestina. O que a comunicação social corporativa pouco refere é que Israel é um estado em acentuada degradação e crise política que provocou deliberadamente a actual escalada de violência em que há um directo beneficiário, um primeiro-ministro acusado de corrupção. Por mais foguetes que o Hamas lance nada apaga essa realidade.

O estado sionista tem o apartheid inscrito na sua constituição, pratica a limpeza étnica. O que sistemáticamente é ocultado é a sua longa história de colaboração com os nazis e que há que sempre que distinguir os judeus sionistas dos muitos judeus que vivem em Israel, na diáspora judaica e as vitimas do Holocausto.

A promiscuidade entre o nazismo de Hitler e o sionismo de Theodor Herzl, têm a mesma raiz ideológica. Hitler que afirmava e decretava a supremacia racial da raça ariana, que concretizou num dos piores massacres com milhões de vítimas em que se destacam os judeus, era um apoiante do sionismo que, por seu turno, pratica uma política segregacionista, de forma diversa mas igualmente condenável, na base da raça judia e da nação judia que já massacrou mais de seis milhões de palestinianos. A documentação é extensa, pouco ou mesmo nada referida. A Federação Sionista da Alemanha, em 1933, enviou uma declaração ao Congresso do Partido Nacional-Socialista em que afirmava que “um renascimento da vida nacional como o que está a acontecer na vida alemã (…) deve também acontecer na nação judaica. A base de um novo Estado Nazi deve também ocorrer na formação de um Estado Nacional Judaico. Com os princípios de um novo Estado Nazi fundado no princípio da raça, devemos enquadrar a nossa comunidade com natureza similar para que se possa estruturar e desenvolver uma Pátria Judaica”. A pátria judaica era Israel, nos territórios históricos de fronteiras redescobertos na leitura do Genésis. São muitos e bem documentados os textos que evidenciam como são ideologias análogas centradas na etnicidade e no nacionalismo. Os interesses entre o Nacional Socialismo da Alemanha Nazi e o Sionismo Judaico cruzam-se, interceptam-se. Hitler não os desdenhava, tinha entre os seus primeiros financiadores bancos maioritariamente de capitais judeus. A relação entre o sionismo, apartheid e nazismo tem longo historial que os sionistas hoje, empurrados pelos ventos da história, procuram por todos os meios ao seu alcance ocultar, no que são bastante eficazes, mas que é desmentido, contundente e diariamente, pelas suas práticas e pelos conúbios calhordas e sornas que plantam. Bastante eficazes mas sem poderem apagar nem escusar, ainda que sejam pertinazes em negar todas as evidências, que na introdução às leis raciais proclamadas pelos nazis em Nuremberga 1935, que anteciparam o Holocausto esteja escrito: “Se os judeus tivessem o seu próprio Estado, onde encontrariam o seu próprio lar, o problema judeu poder-se-ia considerar resolvido já no dia de hoje e pelos próprios judeus. Os verdadeiros sionistas são os que menos se têm oposto às ideias básicas das leis de Nuremberga, sabem que estas leis são a única solução válida para o povo judeu”. Nem rasurar o que Reinhardt Heydrich, chefe dos Serviços de Segurança das SS, depois nomeado Protector dos territórios checoslovacos incorporados no III Reich, escreveu em O Inimigo Visível: “Devemos dividir os judeus em duas categorias: os sionistas e os partidários da assimilação. Os sionistas defendem uma concepção de estado rigorosamente racial, mediante a emigração para a Palestina, prontos para construir o seu próprio Estado(…) Os nossos melhores votos e a nossa melhor boa vontade oficial para que o consigam

Encapotam que em 1941, o Herut. partido político de Itzhak Shamir, hoje Likud, concluiu um pacto militar com o 3º Reich alemão com objectivo de fundar um Estado, mesmo que fosse sob a sua égide colonial. A colaboração já vinha do Imperador Guilherme II que os tinha apoiado financeiramente. Em 1944, o movimento sionista faz um acordo com Adolf Eichmann. David Ben Gurion, do movimento sionista, enviou um seu representante, Rudolph Kastner, para se encontrar com Eichmann na Hungria para concluir um acordo em que os sionistas concordaram em manter silêncio sobre os planos de exterminação de 800 mil judeus húngaros e anular resistências, como a tentada sem êxito e brutalmente reprimida no gueto de Varsóvia. A moeda de troca era 600 líderes sionistas serem libertados pelos nazis e enviados para a Palestina. Um historial sórdido de acordos e colaboração entre sionistas e nazis, enquanto os nazis exterminavam milhões de judeus no Holocausto. Para lavar essas suas cumplicidades e traições aos judeus, mais tarde a Mossad, a polícia secreta israelita, andou pelo mundo a caçar nazis como se os nazis não fossem seus comparsas ideológicos e como se durante o nazismo os sionistas não mantivessem com eles infamantes conivências.
Os judeus têm direito a uma pátria mas não esta que nega esse direito aos palestinianos, que inscreve o apartheid na sua Constituição, que persegue desde a sua fundação uma continuada limpeza étnica.

Standard
Geral

100 Anos / 100 Artistas

A exposição «100 Anos de Luta / 100 Artistas», que está patente na Gare de Alcântara até dia 30 de Abril (1) , é uma das exposições de artes contemporâneas mais representativas de artistas portugueses realizadas nos últimos anos em Portugal, provavelmente também o será nos próximos anos, que sem ser exaustiva reúne uma pluralidade de obras bem dessemelhante nas opções estéticas e técnicas aí representadas, bem pela diversidade dos artistas que nela intervém.

Assinala um centenário, o do Partido Comunista Português (PCP), a que 100 artistas por vontade própria se associaram, independentemente das suas opções políticas e da proximidade ou distância que tenham em relação aos seus princípios, num reconhecimento do lugar central que o PCP ocupou e ocupa desde a sua fundação na luta pela democracia e pelas mais amplas liberdades, combatendo durante 48 anos contra uma brutal ditadura e, nos anos subsequentes, na defesa das conquistas de Abril. É uma exposição celebrativa desse centenário que também celebra a cultura e as artes, que sempre foram um dos campos de acção do PCP, por vezes em conflito mas sempre em unidade no que é nuclear na defesa do património cultural e na democratização da cultura.

São 100 os artistas – um número simbólico que colocou uma fronteira que acaba por injustiçar muitos outros artistas que por direito e vontade própria poderiam até deveriam estar presentes – em grande dispersão de obras, matérias, poéticas e de gerações, do mais velho João Abel Manta, que nasceu em 1928 à mais nova, Catarina Lopes Vicente, nascida em 1991. São três gerações, dos que viveram os tempos repressivos do fascismo-salazarista aos que nasceram com a liberdade conquistada com a Revolução do 25 de Abril.

Uma exposição bem representativa das artes contemporâneas, uma categoria fluída e genérica que continua a alimentar por todo o mundo as maiores controvérsias e interrogações, que resulta nas imensas disparidades do que é dado ver mas que é o espelho de um tempo, o nosso tempo, que não é linear nem homogéneo e como ele se reflecte nas práticas artísticas, aqui das artes visuais, na imensa variedade, multiplicidade e diferenças entre as obras destes cem artistas que, sublinhe-se, estão todos vivos, são portanto nossos contemporâneos.

Não foi objectivo desta exposição fazer história. O seu objectivo é celebrar cem anos de lutas pela liberdade e pela democracia em que os artistas e os escritores estiveram sempre, com as massas populares, na linha da frente das lutas antifascistas. A luta pela cultura, pela liberdade criativa é impartível da luta pela liberdade e é inseparável, ontem como hoje, do aprofundamento da democracia e do progresso, porque as artes, na sua inultrapassável diversidade, no seu perpétuo nascimento e renascimento são processo nuclear da construção do humano que nos torna mais humanos.

Como escreve José Luís Porfírio no catálogo « os 100 artistas aqui e agora presentes sempre viveram essa liberdade, primeiro no seu foro íntimo e, depois, publicamente, liberdade dispersa, diversa, múltipla, que também passa por cada um dos 100 anos de vida do Partido Comunista Português».

Uma exposição que se impõe ser visitada e que, sem surpresas, tem sido silenciada pela comunicação social corporativa, mesmo a que ainda dá espaço ao que apelidam de cultura. A liberdade, a democracia, a cultura e as artes continuam a incomodar muita gente desde que ultrapasse os seus códigos normativos e restritivos. É o azul invisível do lápis da censura política mascarada de critérios editoriais.

(1) todos os dias das 15 às 20h, cumprindo-se as normas sanitárias em vigor

  • publicado em Avante! 22/04
Pode ser uma imagem de interiores

Standard
Geral

150 ANOS DA COMUNA DE PARIS:O ASSALTO AOS CÉUS

A revolta estalou apoiada na Guarda Nacional, maioritariamente formada por operários, a que se juntaram milícias populares de cidadãos e soldados que se amotinaram (…) o que foi possível um dia o será de novo, ainda que noutro contexto sujeito às condições objectivas e subjectivas do momento e das circunstâncias históricas em que eclodirá.

«A barricada da Praça Branca, defendida por mulheres» (Maio de 1871). Litografia de Hector Colomb, dito Moloch (1849-1909), Museu Carnavalet, Paris, França.
«A barricada da Praça Branca, defendida por mulheres» (Maio de 1871). Litografia de Hector Colomb, dito Moloch (1849-1909), Museu Carnavalet, Paris, França.Créditos/ blog de Michèle Audin

Éestranho ou mesmo paradoxal que a canção emblemática da Comuna de Paris (18 de Março a 28 Maio de 1871), a primeira revolução em que a classe operária partiu «ao assalto dos céus por reconhecidamente ser a única que era capaz de iniciativa social e política»1, seja uma cançoneta de amor – escrita em 1866 por Jean-Baptist Clément (letra) e Antoine Renard (música) – sem o ímpeto das outras que desde as primeiras revoltas camponesas e operárias até aos dias de hoje cintilam no vasto cancioneiro revolucionário que continua inacabado. No contexto histórico daquela epopeia que explodiu os dias calendarizados num tempo sem tempo, concentraram-se todas as imensas esperanças do proletariado, da classe operária. Le Temps des Cerises ouve-se com a emoção de se saber que os amanhãs são sempre possíveis, mesmo quando derrotados circunstancialmente.

O Assalto aos Céus

A historiografia contemporânea reaccionária procura fazer uma revisão de todos os sucessos históricos das lutas operárias, das lutas de classes, menorizando-os como singularidades de circunstâncias únicas, contingentes, para que a sua coerência se dilua em micro subjectividades, negando todas as evidências. A Comuna de Paris, a Revolução de Outubro e muitos outros sucessos históricos, por cá e noutra escala o fascismo-salazarista ou o 25 de Abril, são objecto de branqueamento e limpeza que desvirtuam do que lhes é nuclear e essencial. Deve-se estar atento à calhordice cínica desses académicos alinhados na direita mais enquistada que, disfarçada de uma mais que falsa seriedade científica, promove nos meios universitários, em revistas com auras de seriedade, nos media corporativos, teorias falazes com urdidoras embustices que fazem caminho sem olhar a meios para atingirem os seus fins. A comemoração dos 150 anos da Comuna de Paris, como seria de esperar, não escapa a essas gralhas reaccionárias. Há que repor a verdade histórica. A importância que teve e tem na história de todas as lutas pela libertação da exploração burguesa do trabalho humano.

«A herdeira das revoluções europeias que incendiaram a Europa em 1848, no que foi considerado a Primavera dos Povos, foi afogada num banho de sangue de brutalidade inominável. É um marco na longa linha de lutas e insurreições operárias e camponesas do séc. XIX, num mundo de mudanças económicas e modernização capitalista»

A Comuna de Paris não aparece por geração espontânea. As suas raízes históricas mais próximas encontram-se na Revolução Francesa, nos seus episódios mais decisivos, como a Tomada das Tulherias, o fim da monarquia, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, o preâmbulo da nova Constituição. É a herdeira política da ala mais radical dirigida por Robespierre, que acaba guilhotinado pelos conjurados corruptos do Thermidor, inspira-se na Conspiração para a Igualdade de Babeuf2. A herdeira das revoluções europeias que incendiaram a Europa em 1848, no que foi considerado a Primavera dos Povos, foi afogada num banho de sangue de brutalidade inominável. É um marco na longa linha de lutas e insurreições operárias e camponesas do séc. XIX, num mundo de mudanças económicas e modernização capitalista. Será a última desse século, a primeira a triunfar, mesmo que por um pequeno lapso de tempo, em que se ergueram em simultâneo as bandeiras do patriotismo e do internacionalismo. Um marco histórico para as revoluções que lhe sucederam, nomeadamente a Revolução de Outubro.

«Derrube da coluna Vêndome» (1872), xilogravura. O monumento, que simbolizava o poder imperial de Napoleão, foi derrubado a 16 de Maio de 1871 Créditos

Foi a primeira revolução socialista da história da humanidade, numa Paris que vivia situação turbulenta depois de Napoleão III ter assinado a rendição na guerra entre a França e a Prússia, num contexto de agitação insurreccional generalizada. Os operários franceses, que viviam sob duras condições de trabalho e não concordavam com a rendição da França, mais revoltados ficaram quando o governo, para resolver os custos da guerra, lançou novos impostos sobre os trabalhadores para solucionar os problemas das dívidas contraídas.

A revolta estalou apoiada na Guarda Nacional, maioritariamente formada por operários, a que se juntaram milícias populares de cidadãos e soldados que se amotinaram. Um governo revolucionário foi organizado na base de comités de bairro que elegeram um Comité Central, onde figuravam representantes da Federação dos Bairros, blanquistas, proudhonistas, membros da Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em 1864 por impulso de Karl Marx. Confluíram várias tendências políticas, dos socialistas aos anarquistas, proletariado e pequena burguesia, artistas e escritores. O vácuo político deixado pelo governo – o qual, impotente para conter a revolta, tinha fugido para Versalhes – foi ocupado pelos revolucionários.

A Comuna foi proclamada. O seu primeiro édito é esclarecedor: «abolição do sistema de escravidão do salário de uma vez por todas». O sistema eleitoral sofreu uma viragem integral. A democracia directa foi instituída em todos os níveis da administração pública. A polícia foi abolida e substituída pela Guarda Nacional. A educação foi secularizada. A previdência social foi instituída. O poder da burguesia foi pela primeira vez posto radicalmente em causa. O alarme na Europa alastrou com violência.

«a história mundial seria, aliás, muito fácil de fazer se a luta fosse empreendida apenas sob a condição de probabilidades infalivelmente favoráveis. […] Com a luta de Paris, a luta da classe operária com os capitalistas e o seu Estado entrou numa nova fase. Corra a coisa como correr no imediato, está ganho um novo ponto de partida de importância histórico-mundial »

KARL MARX

O governo de Thiers, depois de humilhado pela Prússia, com a coroação do imperador Guilherme II no palácio de Versalhes, negociou com o Império Alemão a libertação dos soldados franceses, para recompor o exército e atacar Paris. A desproporção de forças não podia ser maior. Cem mil soldados a mando de Versalhes contra 18 mil milicianos da Comuna. A cidade, apesar de heroicamente defendida, foi tomada de assalto. A repressão que se seguiu foi de uma imensa brutalidade, como tem sido sempre, ontem e hoje, contra quem ousa afrontar o instituído poder da burguesia mesmo pelo uso do voto, como se assistiu no Chile ou quando, na Indonésia, Suharto massacrou um milhão de militantes comunistas que ameaçavam vencer as eleições.

Vinte mil communards foram imediatamente executados. 40 mil foram presos, torturados e executados. Esses eram os considerados «contumazes» pelos Conselhos de Guerra de Versalhes, que julgaram e condenaram 13 450 cidadãos. Contam-se nos autos 80 crianças, 1320 mulheres, 12 050 homens. O número de mortos às mãos do governo de Thiers é calculado em 80 mil.

A Comuna de Paris acabou por ser uma causa desesperada. Uma causa indispensável na luta de massas, pelo que se aprendeu para lutas futuras. Como escreve Marx a Ludwig Kugelman3:

«a história mundial seria, aliás, muito fácil de fazer se a luta fosse empreendida apenas sob a condição de probabilidades infalivelmente favoráveis. Ela seria, por outro lado, de natureza muito mística se as “casualidades” não desempenhassem nenhum papel. Estas casualidades ocorrem elas próprias naturalmente no campo geral do desenvolvimento e são de novo compensadas por outras casualidades. Mas a aceleração e o retardamento estão muito dependentes de tais “casualidades”, entre as quais figura também o “acaso” do carácter das pessoas que no início estão à cabeça do movimento.

Desta vez, o “acaso” decisivamente desfavorável não deve de modo nenhum procurar-se nas condições gerais da sociedade francesa mas na presença dos prussianos em França e na sua posição mesmo às portas de Paris. Isto sabiam-no os parisienses muito bem. Mas sabiam-no também os canalhas burgueses de Versalhes. Precisamente por isso colocaram os parisienses perante a alternativa de aceitarem a luta ou de caírem sem lutar. A desmoralização da classe operária neste último caso teria sido uma desgraça muito maior do que a morte de qualquer número de “chefes”. Com a luta de Paris, a luta da classe operária com os capitalistas e o seu Estado entrou numa nova fase. Corra a coisa como correr no imediato, está ganho um novo ponto de partida de importância histórico-mundial.»

«Até à morte» (1871). Comunardos batem-se nas ruas de Paris. Xilogravura de um jornal inglês de época Créditos

Apontar para o Futuro

Pela primeira vez na História da Humanidade, simples operários ousaram tomar nas suas mãos os privilégios dos que se julgam seus «superiores naturais». Ousaram formar, com os seus iguais, o seu próprio governo.

É admirável a actividade legislativa da Comuna. Em semanas introduziu mais reformas que os governos nos dois séculos anteriores. Era o ímpeto revolucionário de corte integral com o passado, o triunfo dos sans-culottes sobre os jacobinos que os tinham traído na Revolução Francesa.

«Pela primeira vez na História da Humanidade, simples operários ousaram tomar nas suas mãos os privilégios dos que se julgam seus “superiores naturais”. Ousaram formar, com os seus iguais, o seu próprio governo. É admirável a actividade legislativa da Comuna. Em semanas introduziu mais reformas que os governos nos dois séculos anteriores»

Os principais decretos da Comuna de Paris são referências que apontam para o futuro. O trabalho nocturno foi abolido; oficinas que estavam fechadas foram reabertas para que cooperativas fossem instaladas; residências vazias foram desapropriadas e ocupadas; todos os descontos em salário foram revogados; a jornada de trabalho foi reduzida, propõe-se a jornada de oito horas; os sindicatos foram legalizados; instituiu-se a igualdade entre os sexos; projectou-se a autogestão das fábricas; o monopólio da lei pelos advogados, o juramento judicial e os honorários foram anulados; testamentos, adopções e a contratação de advogados tornaram-se gratuitos; o casamento foi simplificado, tornou-se gracioso; a pena de morte foi eliminada; o cargo de juiz tornou-se electivo; o Estado e a Igreja foram separados, a Igreja deixou de ser subvencionada pelo Estado; os espólios sem herdeiros passaram a ser propriedade do Estado; a educação tornou-se gratuita, laica e obrigatória; escolas nocturnas foram criadas e todas as escolas passaram a ser de frequência mista; a Bandeira Vermelha foi adoptada como símbolo da Unidade Federal da Humanidade; instituiu-se um escritório central de imprensa; o serviço militar obrigatório e o exército regular foram banidos; todas as finanças foram reorganizadas, incluindo os correios, a assistência pública e os telégrafos; traçou-se um plano para a rotação de trabalhadores; organizou-se uma Escola Nacional de Serviço Público; os artistas e os escritores passaram a autogestionar os teatros e editoras; o salário dos professores foi duplicado; o internacionalismo foi posto em prática, o facto de ser estrangeiro foi considerado irrelevante. Os integrantes da Comuna incluíam revolucionários de praticamente todos os países da Europa, em especial belgas, italianos, polacos, húngaros, que defenderam mais patrioticamente a França que os vendidos aos interesses privados na esteira do bispo Cauchon, que entregou Joana D’Arc aos ingleses, ou dos que actualmente rastejam às ordens do grande capital sem pátria.

Uma lição de história

A insurreição do 18 de Março de 1871 é singular, até contingente e inesperada, mas tem consequências imediatas sobre o movimento operário e revolucionário. As novas e inovadoras relações entre o Estado o Poder e a propriedade privada, as estratégias revolucionárias incidindo nas cooperativas, as relações entre o movimento operário e a questão camponesa, o papel das mulheres, influenciaram textos maiores do marxismo-leninismo como a Origem da Família, da Propriedade e Privada e do Estado de Engels4, em 1884, obra fulcral para se compreender a origem do patriarcado e da opressão das mulheres. Marx, com a grande clareza e lucidez que o caracterizam, percebe melhor a importância da participação das mulheres durante a Comuna e propõe a criação de secções femininas na Internacional. Aprofunda os estudos sobre a urgência e necessidade de alianças entre operários e camponeses, o que a Comuna no seu breve tempo de existência não teve tempo de realizar. Nas várias reflexões sobre esse acontecimento histórico, nas já referidas cartas a Ludwig Kugelmann e ao dirigente socialista alemão Wilhelm Liebknetch, sublinha a indecisão dos communards de marcharem imediatamente sobre Versalhes e os seus escrúpulos em se apoderarem das reservas do Banco de França, que poderiam ter dado outro curso à história da Comuna. Marx sabe bem que o curso de uma revolução nunca é linear e que a realidade vivida está sempre sujeita a avanços e recuos, a contratempos: «nas revoluções o amanhã é sempre desconhecido»5.

«a Comuna de Paris [foi] uma experiência revolucionária ímpar na luta milenar das lutas do proletariado e dos povos oprimidos. […] o que foi possível um dia o será de novo, ainda que noutro contexto sujeito às condições objectivas e subjectivas do momento e das circunstâncias históricas em que eclodirá»

A Comuna tem um papel de relevo na elaboração da teoria revolucionária em Marx, Engels e Lenine. O ensaio de Marx, A Guerra Civil em França6, tem a particularidade de, depois de ter feito vários avisos à classe operária sobre os perigos de acções prematuras em 1870, evidenciar um enorme entusiasmo com a Comuna sem deixar de criticar os seus erros, as suas fragilidades. Ao analisar as debilidades políticas da direcção communard não coloca em causa a Comuna. O seu objectivo é retirar lições da derrota para robustecer a resistência, as futuras revoluções. Via nessa experiência histórica um alcance imenso.

Em 1917, nas vésperas da Revolução de Outubro, Lenine escreve O Estado e a Revolução7, ensaio central na sua vasta obra política. A Comuna de Paris, os textos de Marx são o ponto de partida para as suas teses sobre a natureza do Estado. A Comuna de Paris é:

«um passo em frente da revolução proletária universal, um passo real, bem mais importante que centenas de programas e de raciocínios (…) na mais democrática das repúblicas, a mais ampla democracia representativa, nunca conseguirá eximir-se às consequências devastadoras que é a separação entre representantes e representados. Separados desde logo económica e socialmente, permite que os representantes manipulem os representados de acordo com os seus próprios interesses (…) não basta apoderar-se do Estado e fazê-lo funcionar para os seus próprios fins. Exige-se a sua transformação impondo a democracia proletária (ditadura do proletariado) contra a democracia formal burguesa (ditadura da burguesia)»8.

Democracia burguesa que não hesita em recorrer à mais feroz repressão, quando a sente necessária para a sua sobrevivência. Na realidade, ontem como hoje, a liberdade não é igual entre todos. A liberdade nas democracias burguesas é instrumental. Nada é mais desigual que a igualdade formal entre desiguais. A liberdade de um trabalhador, por razões sociais e económicas, nunca é igual à de um capitalista, o que levou Orwell a considerar, mesmo quando se opõe ao totalitarismo, que «para sermos corrompidos pelo totalitarismo não é necessário viver num país totalitário».

Essa a grande lição da Comuna de Paris. Uma experiência revolucionária ímpar na luta milenar das lutas do proletariado e dos povos oprimidos. Uma chama de esperança revolucionária na longa história, feita de êxitos e fracassos, da luta pela transformação do mundo e da vida, evidenciando que o que foi possível um dia o será de novo, ainda que noutro contexto sujeito às condições objectivas e subjectivas do momento e das circunstâncias históricas em que eclodirá.

  • 1.A Guerra Civil em França, Karl Marx, Edições Avante!, 1984.
  • 2.Histoire De La Conspiration Pour L’Égalite (dite de Babeuf); de Philippe Buonarroti, edição crítica estabelecida por Jean-Numa Ducange, Alain Maillard, Stéphanie Roza, Jean-Marc Schiappa; La Ville Brule, reimpressão (2014).
  • 3.Carta de Karl Marx a Ludwig Kugelman, in Obras Escolhidas de Marx/Engels, em três tomos, Edições Avante! 2008-2018.
  • 4.A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Friedrich Engels; Edições Avante!, 1986.
  • 5.Marx (1984).
  • 6.Em 30 de Maio de 1871, apenas dois dias depois do fim da Semana Sangrenta, Marx apresenta ao Conselho da Internacional, em Londres, o texto The civil war in France, que foi rapidamente traduzido para alemão e outras línguas.
  • 7.O Estado e a Revolução, Lenine, Edições Avante!, reimpressão (2011).
  • 8.Ditadura do Proletariado tem dado origem às mais diversas interpretações centradas na etimologia da palavra ditadura, sobretudo por parte dos militantes do chamado socialismo democrático, a forma mais aberta e liberal da ditadura da burguesia, da concepção burguesa do Mundo, que não suprime o processo de acumulação capitalista e cuja hegemonia ideológica continuará a dominar as massas populares se a concepção da consciência de classe proletária não se consubstanciar em conteúdos precisos, sem degenerescências positivistas nem fatalismos mecanicistas que assumem como absolutamente certo e pré-estabelecido o devir histórico. O exemplo mais acabado de Ditadura da Burguesia é o dos EUA, em que dois partidos se alternam continuando políticas que, no essencial, são idênticas. A Ditadura do Proletariado, desde a sua formulação por Lenine, tem sido motivo de amplo e fundo debate ideológico entre os revolucionários, desde logo entre Lenine e Rosa Luxemburgo, nas hipóteses da Ditadura do Proletariado ser de partido único ou multipartidário. O que é central na tese de Lenine é a hegemonia de uma classe e não qualquer outro conceito.

LINKS PARA A HISTÓRIA DA COMUNA

1-FILMES

https://www.cinearchives.org/Catalogue-d-exploitation-COMMUNE-DE-PARIS-LA-494-179-0-10.html

2- TEXTOS

https://www.commune1871.org/

http://commune150ans.fr

https://macommunedeparis.com

https://www.editionslibertalia.com/catalogue/poche/michele-audin-la-semaine-sanglante

(Publicado em AbrilAbril http: http://www.abrilabril.pt)

Standard
capitalismo, Capitalismo Neoliberal, Comunicação Social, Democracia Iliberal, Desigualdades, Esquerdas, Esquerdismo, Fared Zakaria, Feminismo, Fim da História, Fim da Ideologia, Fukuyama, Geral, Globalização, imperialismo, Imperialismo Cultural, Liberalismo, Lutas de Classes, Lutas Fracturantes, Lutas Identitárias, Mario Draghi, Media, Nancy Fraser, Neo Liberalismo, Ultraliberalismo

DEMOCRACIAS , SA

Um relativismo absoluto faz defender como aceitável o despotismo desde que a economia continue orientada pelos automatismos das leis do mercado, ferreamente controladas e impostas pela lei do mais forte.

O mundo invisível (1954), René Magritte (1898-1967)
O mundo invisível (1954), René Magritte (1898-1967)CréditosRené Magritte

Adominação política, económica e cultural anglo-saxónica, liderada pelos EUA, muito deve à capacidade de fazer circular ideias que se tornam centrais nos debates públicos internacionais através de intervenções dos think tanks que marcam a agenda dos debates para desarmarem e descontextualizarem os que coloquem em causa o pensamento neoliberal. Um processo que se foi apurando em dezenas de anos, em que se consolidaram a globalização mediática, a cultura de massas e a iconografia norte-americanas, integradas numa ideologia hedonista e consumista em que se neutralizaram as culturas locais descontextualizando-as, sempre e só lhe reconhecendo algum valor quando as assimilam para as colocar no mercado global das indústrias mediáticas e culturais. Uma estratégia que tem o seu maior êxito na contaminação produzida no pensamento de esquerda que, paradoxalmente, enquanto produz análises realistas e incisivas nos planos da política, da economia e da sociologia, em livros, revistas, jornais, no ciberuniverso, sobre a condição actual das nações, do aprofundar dos problemas e dramas de nosso presente, em que há um esvaziamento da democracia e se regride com a subordinação às plutocracias, muitas vezes se enreda em debates em que a luta de classes é atirada para segundo plano como se esta sociedade não fosse fundada na violência da luta de classes. Muitas esquerdas ausentaram-se de muitos planos de luta, substituindo-os por outras frentes que desaguam no que Nancy Fraser, filósofa ligada aos movimentos feministas, descreve como o neoliberalismo progressista que dominava a política estadunidense antes de Trump: «isso pode soar como um oxímoro, mas era uma aliança real e poderosa de dois companheiros de cama improváveis: por um lado, as correntes liberais mainstream dos novos movimentos sociais (feminismo, anti-racismo, multiculturalismo, ambientalismo e direitos LGBTQ); por outro lado, os setores “simbólicos” e financeiros mais dinâmicos da economia dos EUA (Wall Street, Silicon Valley e Hollywood)». Aliança que tem por objectivo último liberalizar e globalizar a economia capitalista, consolidando a sua hegemonia, o que é desde sempre o objectivo do liberalismo na sua pluralidade, de que essas esquerdas desbussoladas acabam por ser objetivamente aliadas.

«Nas democracias liberais residiria a «salvação nacional», o que se deve ler como para a salvação do neoliberalismo vale tudo, até passar por cima do funcionamento das instituições democráticas. A democracia liberal seria o melhor dos mundos apesar de uns sobressaltos nada despiciendos, desiguais e variáveis, de Orbán a Trump»

São-no porque para adquirirem presença mediática, que não por acaso lhe é amplamente concedida, não se libertam das agendas que são, directa e indirectamente, pautadas pelo ideário neoliberal plasmado pelas elites que monopolizam o espaço público que perverteram, universalizando-o. Por cá, na nossa periferia, é vê-los a perorar em todos os teatros que lhes dão palco para que o estado de sítio do liberalismo democrático se respire como ambiente natural. Da direita musculada, que se vai exercitando enquanto lavra terreno para ter condições de pôr os bíceps à prova, às esquerdas de frágil ancoragem que fazem críticas anémicas para justificarem a sua existência enquanto esquerda, esse é o pano de fundo dos cenários onde se movem. De um ou de outro modo são dependentes das ideias produzidas nos cenáculos do liberalismo, desde os primitivos liberais aos actuais neoliberais, em que a constelação dos think tanks brilha com intensidade, as dos EUA mais vigorosas pelos meios de difusão de que dispõem.

Os think tanks têm formação académica adquirida nas mais prestigiadas universidades norte-americanas, estão directamente ou indirectamente vinculados a departamentos de Estado, são presença regular nos media internacionais. Um dos casos mais recentes e emblemático é o de Francis Fukuyama, que proclamou o fim da história, das ideologias e da política no celebrado O Fim da História e o Último Homem1 depois da queda do Muro de Berlim e da implosão da primeira experiência histórica socialista. A sua tese era que a democracia liberal, regida pela mão invisível do mercado, era o ponto final da história universal, o capitalismo seria o seu estado nativo. A história tinha deixado ser território de transformações radicais ou mesmo significativas quanto à forma de organização e de vida da sociedade humana. O fim da política era o fim da política ideológica, marxista por perca definitiva de todo o horizonte utópico, da utopia não como o desejo do impossível mas daquilo que ainda não foi possível realizar.

Golconde (1953), René Magritte (1898-1967) CréditosRené Magritte /

A História que Fukuyama atirara porta fora, fechando-a a sete chaves, entrou fragorosamente pela janela. Para ele, para os cientistas políticos da sua lavra, não há vício lógico que os trave. Vale tudo desde que a propriedade privada seja o deus ex-machina, a doxa que orienta os seus ditirâmbicos exercícios de estilo, pelo que escaqueirado o fim da história retoma-a de cernelha: «os sistemas políticos modernos são chamados de democracias liberais, porque unem dois princípios díspares. Liberalismo é baseado na manutenção de um campo aberto para todos os cidadãos, principalmente quando se trata da propriedade privada, que é um factor crítico para o crescimento e para a prosperidade económica. A parte democrática, a escolha política, é aquela que reforça as escolhas comuns e que vê todos os cidadãos como um único conjunto». Nas democracias liberais residiria a «salvação nacional»,o que se deve ler como para a salvação do neoliberalismo vale tudo, até passar por cima do funcionamento das instituições democráticas. A democracia liberal seria o melhor dos mundos apesar de uns sobressaltos nada despiciendos, desiguais e variáveis, de Orbán a Trump, o que procura explicar inventando novos conceitos, das mais variegadas cepas.

«O que estes modernos cientistas políticos procuram iludir é que no liberalismo político, que tanto os move e comove, as liberdades individuais e o progresso estão sempre submetidos às suspeitas mãos invisíveis do mercado, que ditam as leis em que nada se cuida das liberdades culturais, sociais e políticas, desde que estas não se reflictam no lucro, a única hierarquia que reconhecem»

«Democracia iliberal» é um conceito apresentado por Fareed Zakaria em artigo de 1997 para a revista Foreign Affairs, de que é editor. Zakaria, que defendeu a invasão do Iraque – do que se veio a arrepender – e criticou George Walker Bush para alinhar com as aventuras bélicas de Obama, anda agora muito entusiasmado com o Plano Abraão, o iníquo plano de paz de Trump para o Médio-Oriente, elogiando Netanyahu e mesmo Mohammad bin Salman, o príncipe herdeiro saudita – esse mesmo, o mais que suspeito de envolvimento na morte macabra de Jamal Khashoggi, no desaparecimento de vários outros príncipes sauditas seus críticos, responsável sem quaisquer presunções pelo maior desastre humanitário actual, que sucede no Iémen. Quando define esse conceito inicia uma cruzada em defesa das democracias liberais, as quais que se poderiam organizar numa espécie de deriva política da tabela periódica de Mendeleiev: 1- Não democracia; 2- Democracia illiberal; 3- Semidemocracia; 4- Democracia liberal; todos estes grandes grupos subdivididos numa miríade de subgrupos. É um exercício de sobrevivência das democracias formais para a ditadura da burguesia, como Lénine definiu, continuar a exercer o seu poder soberano, mais ou menos temperado entre as liberdades individuais e as reivindicações da economia de livre mercado – a sua pedra basilar – em que as desigualdades económicas e sociais se agravam, como se tem assistido nos últimos decénios. O que estes modernos cientistas políticos procuram iludir é que no liberalismo político, que tanto os move e comove, as liberdades individuais e o progresso estão sempre submetidos às suspeitas mãos invisíveis do mercado, que ditam as leis em que nada se cuida das liberdades culturais, sociais e políticas, desde que estas não se reflictam no lucro, a única hierarquia que reconhecem. O fundamento é que a propriedade privada, raiz da exploração do trabalho e da alienação humana, permaneça intocada.

Neoliberais herdeiros dos liberais do séc. XVIII, John Locke, Jeremy Bentham, Stuart Mill, que nunca foram democratas embora pregoando o liberalismo político, as liberdades individuais e o progresso, os quais deviam ser submetidos ao utilitarismo de uma ética aplicável tanto às decisões políticas como às acções individuais. Esse o norte nas áreas económicas, políticas e judiciárias do liberalismo. Um relativismo absoluto que os fazia defender ser sempre aceitável o despotismo desde que a economia continuasse orientada pelos automatismos das leis do mercado ferreamente controladas e impostas pela lei do mais forte. Os liberais de antanho e os neoliberais de hoje só relutantemente e quando lhes é impossível subtraírem-se é que se submetem a princípios democráticos, que logo subvertem quando alcançam o poder.

O que de facto os inquieta é que a crise continuada do liberalismo clássico do século XIX, agora agravada com as crises vividas nos sécs XX e XXI, continue incapaz de garantir o progresso social por muito que os mercados sejam livres, o que alimentou as experiências socialistas do início do século XX e continua a manter a chama acesa nas esquerdas marxistas que consideram contingente a realidade histórica do capitalismo mesmo quando hoje ela se apresente como hegemónica.

O falso espelho (1929), René Magritte (1898-1967) CréditosRené Magritte /

As inquietações dos politólogos think tanks, esse crescente clero de cientistas políticos, com as democracias iliberais, agravadas e ratificadas pelo episódio grotesco da invasão ao Congresso norte-americano – um assalto à democracia representativa que até nem é surpreendente para quem acompanhou os lances das últimas eleições presidenciais norte-americanas e os das antigas e continuadas transumâncias entre os dois partidos que se alternam no poder de uma ditadura democrática submetida aos interesses do complexo industrial-financeiro-militar – são exercícios de sobrevivência do capitalismo neoliberal para minimizar os movimentos de disrupção política que, no entanto, consideram inevitáveis.

«O que de facto os inquieta é que a crise continuada do liberalismo clássico do século XIX, agora agravada com as crises vividas nos sécs XX e XXI, continue incapaz de garantir o progresso social por muito que os mercados sejam livres, o que alimentou as experiências socialistas do início do século XX e continua a manter a chama acesa nas esquerdas marxistas que consideram contingente a realidade histórica do capitalismo mesmo quando hoje ela se apresente como hegemónica»

O que esses politólogos sublinham nas democracias iliberais é que são regimes que hibridizam as formas vulgarizadas pelas democracias liberais mais abertas e por regimes autoritários, em que os governos eleitos democraticamente imediatamente ignoram e tripudiam os limites constitucionais e as liberdades individuais dos cidadãos. Enfatizam que os líderes e partidos iliberais, uma vez eleitos, usam as suas maiorias legislativas para subverter o processo de controlos e equilíbrios, o poder Executivo para subjugar a independência de outras instituições, o judiciário, as Procuradorias Gerais, os órgãos de investigação, para reinterpretar o estado de Direito, as Comissões Eleitorais para provocar mudanças no sistema eleitoral para se perpetuarem no poder. Não anotam que o sufrágio universal na actualidade foi sempre variável, entre os mais representativos da vontade popular, como em Portugal ou na Holanda, ao que é condicionado pelos desenhos de círculos eleitorais em que com menos votos expressos se elegem mais deputados, para garantir a hegemonia das forças mais conservadoras. Escandalizam-se, com o que de facto é escandaloso, com as manipulações eleitorais do Fidesz na Hungria, que nas últimas eleições consegue 67% dos assentos parlamentares com apenas 49% dos votos, ou com o PiS, na Polónia que logra 51% dos assentos parlamentares com 38% dos votos expressos. São desvios brutais, mas que têm precedentes mais suaves mas reais no Reino Unido em que, nas últimas eleições, os Conservadores com 42,6% dos votos conquistam 56,2% dos assentos parlamentares em comparação com os Trabalhistas, 32,2%/31,2%, e os Liberais, 11,5%/1,70%; na Grécia, em que o partido mais votado nem que seja por um voto tem um bónus de 50 deputados não sufragados; com o sistema de colégio eleitoral nos EUA, onde não há correspondência entre o número de votos obtidos por um candidato a presidente e milhões de votos a mais não garantem a sua eleição. Também não os escandaliza um governo que não é submetido ao voto dos cidadãos como recentemente o de Mario Draghi, chamado de unidade nacional mas que é de facto iliberal, como, noutro plano, nunca se escandalizaram com as imposições da troika à Grécia, ou as do FMI ou do Banco Mundial, que objectivamente contribuem para a proliferação das ideias subjacentes aos populismos e às democracias iliberais.

O que consideram como desvios à democracia liberal é a normalidade da anormalidade democrática das sociedades capitalistas neoliberais que desde sempre variaram e continuam a variar entre tanto serem limitadamente libertárias como não hesitarem em recorrer aos extremos mais repressivos, tanto se apresentaram múltiplas como monolíticas, modalizando-se conforme as geometrias dos enquadramentos sociais, económicos e políticos resultantes dos avanços e recuos da luta de classes, a pedra de toque é que a exploração da força de trabalho se mantenha intocada.

A grande evidência é que nada é mais desigual que a igualdade entre desiguais. Com tamanhas desigualdades a democracia é impossível ou é muitíssimo degradada no quadro da democracia burguesa, quaisquer que sejam as variantes da representação democrática. É essa evidência que impede as discussões políticas e sociológicas de saltarem as barreiras do pensamento dominante, e que a alternativa seja ficar encerrado num sistema em colapso, mais despolitizado, mais desdemocratizado, socialmente mais despromovido, cada vez mais fechado e dissemelhante.

O grande desafio que se coloca à esquerda, às esquerdas é, sem se alhear dessas teses, não se deixar enredar nas suas agendas, manter aberto um diálogo aberto, por mais áspero que seja, para abrir frentes de luta contra o neoliberalismo capitalista, criticando-o em todas as suas vertentes, fortalecendo todos os baluartes democráticos e antifascistas onde se forjem consensos para o ultrapassar.

  • 1.Francis Fukuyama, O Fim da História e o Último Homem, Gradiva, 2019.

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/)

Standard
Geral

ELeições Presidenciais :UM RESCALDO

MÁQUINA DE CHILREAR , Paul Klee

As últimas eleições presidenciais têm sido alvo de leituras as mais diversas em que a tónica no resultado alcançado por André Ventura tem sido vedeta causando justificado alarme nas esquerdas, o que é bem visível nas redes sociais, já que na comunicação corporativa, largamente dominada pela direita e pelo centro-direita, continua a ruminar o mesmo de sempre ao serviço das plutocracias.

Há uma certa coincidência entre a direita e alguma esquerda para considerarem que muitos dos votos em André Ventura se devem sobretudo a uma transferência de eleitores da CDU para o Chega. Teoria velha e relha vendida pela direita liberal e que faz o seu caminho mesmo entre as esquerdas do socialismo democrático, do socialismo em liberdade, do socialismo cosmopolita e dos que ainda continuam com o socialismo metido na gaveta onde o outro o meteu. Teoria velha e relha alimentada por preconceitos de classe que persistem, mesmo sabendo-se, desde Marx, que a « história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa», sem se esquecer que como Mark Twain, observou, «a história nunca se repete, mas muitas vezes rima». O neo-fascismo muito aprendeu com os fascismos tradicionais, (1) o que parece ter sido pouco aprendido por algumas esquerdas, como se pode ler em muitos dos textos que navegam pela comunicação social e pelas redes sociais que o demonstram à saciedade, dando razão a Mark Twain.
Sem se darem ao trabalho de qualquer análise ainda que superficial, comparam os resultados eleitorais das presidenciais com os das legislativas. Se fizessem um pequeno esforço acabariam por verificar que a ligeireza da pressa em opinar os empurra para o dislate.

Mesmo com todas as cautelas e muita moderação deve-se olhar para o quadro acima reproduzido sobre a transferência de votos, feito pela Aximage com a mesma base com que efectuou as sondagens, em que na última previa que Marcelo Rebelo de Sousa alcançaria 59,4% / resultado final 60,7%; Ana Gomes 15,4% / 12,97%; André Ventura 9,7% / 11,90%; João Ferreira 5% / 4,32 %; Marisa Matias 4,4% / 3,22%; Tiago Mayan 3,3% ; 3,22% ; Tino de Rans 1,5 % / 2,94 %; abstenção 58% / 60, 15%. O intervalo de confiança era de 95%, a margem de erro 2,8%.

A transferência de votos não é algo mecânico. É um fenómeno complexo, por vezes determinado por razões emocionais não repetíveis. Ao olhar para o quadro acima exposto, com as cautelas e a moderação que se impõem, o que mais se destaca é que os quase 34% dos eleitores que dizem votar PSD votaram André Ventura. Se seria de esperar que a comunicação social estipendiada, nada inocentemente, ocultasse esse facto, dever-se-ia expectar que nos comentários da pluralidade das esquerdas isso fosse sublinhado, como deveriam assinalar que muitos dos votos captados pela extrema-direita se devem ao descontentamento com políticas económicas e sociais indecisas e hesitantes, com muitas concessões ao pensamento económico neoliberal. Também se deviam preocupar com o crescimento do candidato apoiado pela Iniciativa Liberal (IL), que é um concorrente directo do Chega, por enquanto confinado nas baias do politicamente correcto. Esquecem-se — ou provavelmente nem sequer atentaram — que o modelo económico proposto pela IL é praticamente decalcado do posto em prática pelos Chicago Boys no Chile de Pinochet e que por agora, dado o enquadramento político vigente, a IL é uma variante polida de um albergue espanhol dos neoliberais espreitando a sua oportunidade.

O que domina as análises de muitos jornalistas, comentadores e outros avulsos encartados com a direita são variantes de um Rui Rio ofegante a trombetear canhestramente que o Alentejo comunista virou para a extrema-direita. Basta comparar os resultados no Alentejo obtidos por Edgar Silva com os de João Ferreira para se perceber que nenhum vício lógico os trava na cruzada anticomunista. Preocupante é ver como alguns que são de esquerda alinham nesses considerandos de uma linearidade simplória que, por exemplo, os resultados em Lisboa desautorizam cabalmente. Vejam-se estes quadros elaborados por Francisco Melro, economista e ex-funcionário do organismo estatístico nacional, o INE, ex-colunista no jornal Público e ex-director da CMVM, referido por João Ramos de Almeida no blogue Ladrões de Bicicletas (2)

Resultados Esquerda- Ana Gomes, João Ferreira, Marisa Matias

Resultados Direita – André Ventura, Tiago Mayan

É por demais evidente que André Ventura e Tiago Mayan têm os melhores resultados nas freguesias mais ricas, mais favorecidas, Estrela, Avenidas Novas, Belém, onde a esquerda tem os piores resultados, e os piores nas freguesias mais pobres, mais desfavorecidas, Penha de França, Santa Maria Maior, São Vicente, onde a esquerda tem dos melhores resultados. Comenta o autor, com bastante ironia, estes dois quadros, escrevendo que «na justificação do sucesso do Ventura nas Presidenciais de 2021 têm-se vulgarizado dois fundamentos: o descontentamento dos deserdados do sistema e os problemas causados pelos ciganos nas comunidades, escandalizando pelos subsídios públicos de que beneficiam. Com base nestas premissas, fui à procura dos deserdados e dos ciganos da região de Lisboa que votaram nos candidatos da direita e particularmente no Chega. Embora surjam vestígios de deserdados e de ciganos nas freguesias menos favorecidas de Lisboa, fui encontrá-los especialmente nas freguesias tidas por mais ricas. Deparei-me com acampamentos clandestinos de ciganos e com deserdados nos lares e arredores dos residentes das freguesias de Belém, da Estrela e das Avenidas Novas».

Não sendo de transpor automaticamente a realidade de Lisboa para o país, é de presumir que não deverá ser substancialmente divergente, o que não acalma sobressaltos mas corrige o tiro.

Se estas apurações põem alguma água fria na fervura dos comentários a quente, em que se tiram ilações despropositadas, não podem iludir que nestas eleições o vencedor foi o candidato de direita, não por ser respaldado pelos seus apoiantes formais, PSD e CDS, que foram os grandes derrotados embora de forma desigual nestas eleições, mas por demissão do PS, que foi de facto quem lhe deu a vitória à primeira volta. Não porque o eleitorado socialista se tenha transferido para a direita mas porque seguiu as indicações oficiosas de António Costa, crente que o Presidente da República continuará próximo do governo o que, provavelmente, é mais aparente que seguro. Há que olhar com atenção os últimos meses do seu primeiro mandato, em que desenvolveu uma campanha mediática desestabilizadora atingindo alguns ministros, o que não augura um segundo mandato tão conciliador, embora igualmente populista, mas provavelmente entrincheirado numa maior institucionalização para apoiar a sua família política, que tudo indicia estar a entrar num tempo de sobrevivência turbulenta. São os custos do oportunismo político, em que uma alternativa de esquerda, com a excepção de João Ferreira e Marisa Matias, não se definiu claramente, permitindo que o voto de protesto tenha sido contabilizado pela extrema-direita, que mente e trapaceia beneficiando dos ecos nos media, os tradicionais e os novos das redes sociais o que só de forma intermitente tem sido denunciada (3)

A questão central, agravada pela pandemia que catalisou as crises sistémicas do capitalismo, é que as massas populares foram abandonadas durante mais de quarenta anos de políticas do PS, PSD e CDS. A «geringonça», – aceite-se esta designação perjorativa pela popularidade que angariou – de que foi protagonista principal o PCP, não as travou. Reverteu muito dos perdidos e degradados direitos políticos, sociais e económicos ao longo de decénios de políticas de direita. Transmudou, ainda que de maneira insuficiente, muitas das políticas austeritárias da troika e do (des)governo PSD-CDS, mas sempre num pára arranca do PS apoiado pelos partidos de direita, o que gerou e gera naturais descontentamentos por se ver luz ainda que bruxeleante mas sem qualquer meio para a alcançar no topo do buraco cavado pelas políticas neoliberais. Há que lembrar e não esquecer que foi o PS , depois das últimas legislativas, que se escusou a reiniciar em novos moldes a solução governativa anterior recusando-se, entre outras questões, a alterar a política laboral herdada da troika, e a prosseguir com Leão as políticas iniciadas por Centeno, que nos submetem aos ditames da UE, sempre mais duros em relação às periferias em que nos situamos, o que é um contributo para criar condições objectivas para a extrema-direita crescer, com os acalantos do centro-direita bem expressos na última entrevista televisiva de Rui Rio.

O PS é de um autismo alarmante e continua um percurso sinuoso em que são muitos os obstáculos que continuam a impedir o nosso desenvolvimento a que a Europa connosco, e não só, não é alheia. A «geringonça», sobretudo com o aprofundamento das políticas económicas e sociais que beneficiaram os mais desfavorecidos, foram um sinal de alerta que se repercutiu no pensamento dominante, que tocou a rebate para reunir a sua tropa fandanga, bem visível numa viragem mais acentuada à direita nos media. Não se pode deixar de fazer uma nota para assacar responsabilidades ao governo, que deixa que o serviço público de comunicação esteja fundamente contaminado, escudando-se num Conselho Geral Independente que avaliza esse estado de sítio bem patente nos serviços noticiosos, na programação geral, nos programas de debate, no lote de comentadores em que o pendor para a direita e a aculturação são imagens de marca que as raríssimas excepções, normalmente atiradas para a RTP2 que tem uma audiência residual, não iludem.

Os alarmes que nas esquerdas dispararam com as eleições presidenciais são, na sua maioria, tiros fora do alvo e tiros de pólvora seca. Há que reenquadrá-los para que uma verdadeira alternativa de esquerda se oponha decididamente à inevitável recomposição das forças de direita que depois de ter um precedente nos Açores começam, à boleia da votação em Marcelo Rebelo de Sousa, a atirar barro à parede por via dos seus serventuários de sempre que, empurrados pelas urgências, perdem os pudores e as mascarilhas com que muitas vezes se disfarçam, para descaradamente propor ao reeleito presidente a assunção de um golpe de estado, que é o que realmente representaria a formação de um governo de iniciativa presidencial, o que também comprova o que para essa gente significa democracia, liberdade, transparência, estado de direito, respeito pela Constituição.

Há que começar a fazer caminho sabendo-se que depois do controlo da pandemia as turbulências mundo fora, em particular na União Europeia, vão-se fazer sentir com rumo incerto mas que terão forte impacto em Portugal, numa situação particularmente difícil pela degradação da nossa soberania pelos tratados europeus, com consequências trágicas para as nossas políticas internas.

Há que encarar frontalmente e já esta situação que não se resolve com acordos pontuais parlamentares com o PCP e o BE quando o PS nas questões nucleares, que de algum modo mexem com o grande capital, continua a aliar-se ao PSD. Exige um complexo e difícil diálogo entre todas as esquerdas para que acordem um ainda de mínimo projecto mobilizador que desarme o descontentamento que os sicofantas e farsolas direitinhas exploram sem pudor. Muitas dessas esquerdas, independentemente dos quadrantes onde se situem, têm de perceber que a política não se reduz exclusivamente a medir representatividades pelos resultados da competição eleitoral, o que corresponde a fazer a apologia de uma democracia em que se confundem os partidos com máquinas de captação de votos em que a identidade ideológica e a realidade partidária cada vez menos corresponde ao ideal democrático, o que resulta numa crescente indiferenciação ideológica e programática bem óbvia nos EUA e que tem alastrado mundo fora. A essas esquerdas, em particular ao PS, exige-se que, no mínimo dos mínimos, revitalizem a democracia enquanto território da luta de classes pacífica como os revisionistas sociais-democratas proclamavam, para que a degradação dos Estados sociais nacionais diligenciada pelos burocratas de Bruxelas, bons discípulos de Hayek & companhia, não se sobreponha a políticas económicas e sociais nacionais vinculadas à esquerda, sabendo-se de ciência certa que esta sociedade se baseia na violência da luta de classes.

Têm de perceber que os movimentos sociais estão longe de se esgotar nas eleições. Momentos eleitorais que são importantes para tirar a temperatura à sociedade. A sua leitura, com uma grelha mais fina e consistente como é o caso das recentes presidenciais, é necessária para se entender a relevância e a premência de se elaborar programas políticos, económicos e sociais, que não sejam alimentados por ilusões em relação à UE, que respondam aos desiludidos para os tirar do buraco para onde anos de políticas neoliberais os atiraram.

(1) https://www.abrilabril.pt/nacional/o-ovo-da-serpente

(2) http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2021/01/ha-ciganos-na-estrela.html#more

(3) )https://visao.sapo.pt/atualidade/politica/2020-07-22-os-empresarios-e-as-redes-que-embalam-andre-ventura/ .

Standard