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Venezuela e Oportunismos de Pacotilha

A eurodeputada Marisa Matias denuncia os oportunismos de última hora do PSD e do CDS em relação à Venezuela e faz uma revelação bombástica : “Nós, no Bloco de Esquerda, não estamos ao lado de Trump nem de Bolsonaro em relação à Venezuela. No Bloco de Esquerda estamos ao lado de Guterres e das Nações Unidas”. A coordenadora do BE diz que «a posição do Governo português de reconhecer Guaidó não tem precedente e viola o direito internacional» para logo a seguir exigir «eleições livres» o que é uma estranhíssima afirmação pressupondo que as eleições que até aqui se realizaram na Venezuela não têm sido livres nem sujeitas a apertada supervisão internacional. Só nas últimas eleições é que a ONU e a UE, sem o justificarem, se escusaram a participar no restante grupo de observadores internacionais, o que entreabriu portas à golpada em curso. É o BE a denunciar o oportunismo dos outros enquanto faz público strip-tease do seu oportunismo. Deviam saber, até devem saber mas passam ao lado, que Guaidó, também as exige embora adiantando que é necessário depurar as instituições que supervisionam eleições na Venezuela, os cadernos eleitorais e mais um rol de exigências de um programa de claras florescências macartistas. No horizonte o desejo de eleições como as descaradamente fraudulentas nas Honduras, as manipuladas no Paraguai, Colômbia, etc. O BE não estará evidentemente de acordo com essas «eleições livres» de Guaidó mas, com as suas tergiversações, percorre um perigoso caminho paralelo.

Marisa Matias alinha ao lado de António Guterres, ainda sem ter a oportunidade de lhe distribuir uma ração de beijos como fez com Tsipras, para saudar e dar cobertura à sua sinuosa manobra diplomática quando, a par de Federica Mogherini, a Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, se recusou, sem explicar os motivos, a enviar delegações que dessem assistência e supervisionassem as eleições em que Nicolás Maduro foi eleito com 67,4% dos votos expressos, tendo-se registado uma abstenção de 54%, a mais alta de sempre em eleições venezuelanas. Finge que não sabe que Maduro foi reeleito usando o mesmo sistema eleitoral com o qual Guaidó se tornou deputado, que havia 3 candidatos da oposição, os outros anunciados desistiram à última hora numa manobra comandada à distância por Washington para desacreditar essa eleição rufando desde o primeiro momento essa depreciação nos tambores dos media mercenários. Omite que os outros candidatos reuniram 33% dos votos e seguiram as regras acordadas na mesa de diálogo realizada na República Dominicana entre o governo venezuelano e a oposição, com o ex-presidente espanhol Zapatero como mediador, que também participou como observador nas eleições presidenciais. Nada disso lhe interessa, tal como não interessa que, na realidade, António Guterres, sancionando essa ausência, tenha dado antecipada cobertura, do alto do seu altar de secretário-geral da ONU, ao Grupo de Lima, Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru, Santa Lúcia e México (antes das eleições que colocaram Lopez Obrador na presidência e que se hoje se recusa a apoiar o golpe de estado de Juan Guaidó), que não reconheceram os resultados das eleições presidenciais devido à percepção de falta de transparência”, o que é irónico olhando para aquele painel de países. Foi com essa encenação e o implícito e nada inocente beneplácito de Guterres e Mogherini que se preparou o golpe de estado em curso, com que a deputada euro-europeia e o BE alinham por mais ginásticas façam.

Marisa Matias e o BE bem podiam ter evitado o embaraço em que se embrulharam. O oportunismo do BE de nem Maduro nem Guaidó, atirando para debaixo do tapete que é um é presidente eleito e outro o actor de um golpe de estado, está em compasso com a desinformação e manipulação mediática que, desde o princípio da revolução bolivariana de Chavez, tem sido uma das principais armas de combate do imperialismo. Isto apesar de todas as controvérsias que envolvem o processo venezuelano, não isentas dos erros que conduziram ao impasse actual. O que é inadmissível é que o BE faça umas vagas condenações das brutais agressões e boicotes que têm sido feitas à Venezuela conduzindo à crise económica, impulsionada por ordens executivas de Barack Obama e Donald Trump ao declarar o país como perigo para a segurança nacional dos Estados Unidos. Nem digam nada ou digam pouco sobre as sanções que têm impedido a compra de alimentos e medicamentos, nem sobre o confisco de bens venezuelanos nos EUA e países súbditos das suas estratégias geopolíticas. Sobre isso o BE quase que é surdo, cego e mudo.

Não apoiam nem Maduro nem Guaidó puxando os galões de democratas todo o terreno, denunciam uma deriva autocrática, insinuam que na Venezuela não há liberdade de expressão. O que não se sabe é que raio de democracia e liberdade de expressão defendem quando a Venezuela tem sido o país com mais disputas eleitorais em todo o hemisfério da América do Sul nas últimas décadas. Desde 1998, foram realizadas 5 eleições presidenciais, 4 eleições parlamentares, 6 eleições regionais, 4 eleições municipais, 4 referendos constitucionais e uma consulta nacional. 23 eleições em 20 anos. Todos com o mesmo sistema eleitoral, considerado o mais seguro do mundo pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, todas sob observação internacional plural, excepto a última por motivos óbvios a atapetar o caminho para a golpada. Todos os dias olham para os ecrãs televisivos e deparam-se com Guaidó – veja-se a peça de propaganda montada pelo serviço público da televisão nacional numa mascarada de entrevista ao putativo presidente que deve ter feito ficar Steve Bannon roxo de inveja – dando declarações rodeado de microfones de meios de comunicação nacionais e internacionais, devem considerar que isso não demonstra que haja liberdade. Se calhar, hipocritamente, consideram que Leopoldo López, líder do mesmo partido de Guaidó, é um preso político olvidando que foi condenado por ser o autor intelectual de “La salida”, que promoveu as “guarimbas” de 2014, com saldo de 43 mortos e centenas de pessoas feridas.

Devem-se comover com os milhões de venezuelanos que, empurrados por uma crise económica imposta pelo imperialismo norte-americano e seus títeres, se refugiam nos países vizinhos, esquecendo-se que, pelos números da ONU, os venezuelanos que fogem à crise são metade dos hondurenhos que deambulam pelos territórios do continente americano, o que não diminui a gravidade da crise que se vive na Venezuela mas contextualiza-a em relação à miséria que grassa no continente americano. Outra probabilidade é considerarem que os direitos humanos são violados na Venezuela nos confrontos com a polícia. Se atendessem aos números verificavam que, pelos últimos números de 2017: 131 pessoas mortas, 13 das quais foram baleadas pelas forças de segurança (compostas por 40 membros presos e processados); 9 membros da polícia e da Guarda Nacional Bolivariana mortos; 5 pessoas queimadas vivas ou linchadas pela oposição. O restante dos mortos foram-no principalmente enquanto manipulavam explosivos ou tentavam contornar as barricadas da oposição. Há a violência do banditismo na Venezuela, roubos sequestros e equiparáveis, que não é maior nem menor que noutros países da América do Sul. Também isso serve para manipular a informação e apresentar a Venezuela como o país mais violento dessa região, mesmo que o Brasil ou a Colombia estatisticamente a ultrapassem. Os números, a realidade pouco lhes interessam. Interessam as imagens desde que não tenham legendas. Fica-lhes na cabeça aquele jovem em chamas, um opositor ao regime que involuntariamente se imolou pelo fogo quando pretendia atear o fogo aos bolivarianos. Horror, horror, tapam os olhos para não o identificarem e assim a violência torna-se um valor abstracto.

O que o preocupa o BE na Venezuela não é o drama que aquele povo vive por imposições externas, nem os direitos humanos, nem a ausência de eleições livres, etc., etc. O que será? Arriscamos uma hipótese: o relaxe de lutas fracturantes!!! Deve ser isso! No meio daquele caos, daqueles dramas quotidianos, dos boicotes e sabotagens o Partido Socialista Unido da Venezuela não dá a devida atenção às lutas fracturantes, um crime lesa liberdades que o BE não perdoa.

Tanta emoção, tanta comoção empurra-as para o equilibrismo oportunista de Guterres. “Nós no Bloco não estamos ao lado de Trump nem de Bolsonaro” pois não, era o que mais faltava, mas alinham com os seus desejos. Andam a vender chocolates embrulhados em papel de prata que é de estanho, sentam-se à mesa com o beato Guterres travestido de Pilatos que, da forma sorna que é o seu selo, apela ao “respeito pela lei e pelos direitos humanos” pedindo uma investigação “independente e transparente” aos casos de violência nos protestos de quarta-feira, escusando-se a falar da legitimidade de Nicolás Maduro e da declaração de Juan Guaidó proclamando-se presidente interino, atirando para dentro do armário o esqueleto da ONU, a seu mando mas cumprindo os desejos de Bolton, Pompeo, Trump & Companhia, se ter excluído de observar as últimas eleições presidenciais para abrir a porta ao actual golpe de estado. Nada sobre os boicotes. Nada sobre os pacotes de sanções. Nada sobre o saque aos bens da Venezuela. Um comunicado redigido com água benta de que algumas gotas foram recolhidas sofregamente pelo BE para aspergir o seu comportamento errático a tentar retirar dividendos das circunstâncias. No mais fundo das mais fundas gavetas do excelentíssimo secretário-geral repousa em coma profundo, o BE humanitariamente não o desperta, o relatório de Alfred-Maurice de Zayas, especialista independente que a ONU enviou em 2017 à Venezuela, que afirmava que as medidas coercivas unilaterais impostas pelos governos dos Estados Unidos (EUA), Canadá e a União Europeia (UE) afectaram o desenvolvimento da economia venezuelana, já que agravaram a escassez de remédios e a distribuição de alimentos. Descarta a tese da “crise humanitária”, indicando que o que existe é uma crise económica que não pode ser comparada com os casos da Faixa de Gaza, Iémene, Líbia, Iraque, Haiti, Mali, Sudão, Somália ou Myanmar. Considera que as sanções económicas são comparáveis com os cercos praticados contra as cidades medievais com a intenção de obrigá-las a render-se, que atualmente buscam submeter países soberanos e que o bloqueio económico, aplicado no século XXI, está acompanhado de ações de manipulação da opinião pública através de notícias falsas e relações públicas agressivas, para desacreditar determinados governos. A “ajuda humanitária” , cavalo de batalha de Gauidó espaldado pelos mercenários da comunicação social, em lugar de destaque o enviado especial do serviço público da RTP, é uma das manobras mais miseráveis, cínicas e hipócritas do império norte-americano e seus sequazes que, enquanto garrotam com sanções e boicotes a Venezuela, que já custaram 30 mil milhões de dólares aos cofres venezuelanos e promovem as carências em bens alimentares e medicamentos, enviam em saquetas uma percentagem mínima do que já sacaram.

Marisa Matias e o BE também nada disseram ou pouco dizem sobre o terrorismo estadunidense que, não fora o apoio popular ao governo bolivariano e o de muitas nações que se demarcaram e condenaram os EUA só apoiado pelo rebanho de países suas marionetas entre os quais está Portugal, o interino Guaidó, teria, directamente ou pelas armas dos para-militares e dos exércitos colombianos e brasileiros, passado a definitivo, dando início aos massacres e perseguições e à aplicação desenfreada do programa de choque neoliberal há muito agendado. É claramente insuficiente, mesmo cobarde afirmar-se que não se está com Trump ou Bolsonaro e depois pintar com meias e cinzentas tintas o que de facto está a acontecer na Venezuela.

O povo venezuelano vive um imenso sofrimento por erros políticos internos graves por parte do governo bolivariano, por uma extensa e brutal pressão externa, por um embargo que só se justifica por ser um país que tem das maiores reservas mundiais de petróleo. É isso que explica e justifica esta obsessão por uma mudança de regime, patrocinada directamente pelos EUA e suas marionetas, sustentada pelas atitudes até há pouco dúbias das chamadas democracias e que agora se chegam à frente para ver se não se atrasam numa eventual partilha que seguirá ao saque, se o conseguirem. A posição assumida pelo governo português reconhecendo Guaidó, obedecendo a Mike Pompeo e dando respaldo ao seu partido de extrema-direita e ao golpe de estado em curso, pela voz do maquiavel da feira de vandoma que se senta nas Necessidades, envergonha-nos. Mais nos envergonha por se saber que a Europa já esteve várias vezes activa nas negociações entre governo e oposição, negociações que fracassaram sempre por pressão dos EUA.

O problema central da Venezuela é continuar a ser independente e soberana, o que intolerável para Trump como já o era para Obama. O que está a ocorrer é um processo de afundamento da sua economia para impor uma mudança de governo e submeter o país a uma alteração sócio-económica pela cartilha dos princípios neoliberais. Que Santos Silva alinhe com esses objectivos nada que surpreenda, pensa pela cartilha que lhe colocam á frente e nunca arriscaria uma palmatoadas do Pompeo,

só seria estranho que PSD, CDS, muito do PS não lhe dessem conforto. Tem no oportunismo do BE um aliado que estando no mesmo palco se quer apresentar distinto. Que alinha sem alinhar nessa agenda que objectivamente subscreve, como já fez em muitas outras ocasiões, que mal disfarça com uma ginástica de radicalismos de fachada e piruetas canhestras que coloram aquela manta de retalhos.

Há que estar ao lado do povo da Venezuela. Há que inequivocamente condenar o boicote e as sanções que estrangulam a economia venezuelana, a causa principal da brutal crise que o povo tem vindo a suportar. Referir o estado caótico da economia sem apontar ao boicote humanitariamente condenável é de um cinismo e uma hipocrisia intoleráveis. A Venezuela vive uma grande depressão económica, com uma enorme degradação dos serviços públicos. Há que não esconder que parte dessa situação deriva de erros e equívocos do governo de Maduro, que agravaram alguns que já vinham de Chavez, porque não houve mudanças significativas na estrutura económica do país que não se libertou da quase total dependência do petróleo, sujeitando-se aos ciclos da economia internacional. Porque prosseguiu um rumo ziguezagueante e algo confuso, de compromissos e confrontos com políticas capitalistas o que acaba por dificultar a sua luta assumidamente anti-imperialista e contra o golpismo da burguesia que sempre beneficiou com a exclusividade dos recursos do petróleo, que os governos chavistas redistribuíram pelos mais pobres. Mesmo que esses erros e equívocos não sejam a parte substancial da crise, não devem ser subestimados nem escondidos atrás do biombo do criminoso boicote conduzido pelos EUA, para que a Venezuela os ultrapasse e sobreviva num contexto regionalmente desfavorável e a Revolução Bolivariana prossiga corrigindo muitos dos seus desacertos.

Há que encontrar o mais rapidamente possível uma saída para a crise garantindo a continuidade da Revolução Bolivariana. É um dever cívico, político e de cidadania apoiá-la sem margem para dúvidas, por maiores ou menores que sejam as críticas que se façam, sem embarcar em oportunismos de pacotilha traduzidos em declarações simbólicas em que muitas esquerdas se enredam para matizar a sua deriva ideológica e a sua impotência política o que é insuportável e injustificável quando a Venezuela está na iminência da guerra civil e do caos total.

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Artes, Bella Ciao, Cultura, Humanidade, música, resistência

Assassinaram a BELLA CIAO, A BELLA CIAO está viva !!!

Partigiani

Sabemos, todos devíamos saber, que a ideologia burguesa ataca e cerca sem desbarato de tempo toda a resistência à abominação desta sociedade sem dignidade. Combate todo e qualquer sinal de resistência, de qualquer forma de resistência ao pensamento dominante, com o objectivo último de que já não seja sequer possível pensar que é possível pensar uma sociedade onde os valores da civilização, da humanidade, da cultura, da política se plantam para florescer, ainda que com todas as contradições e dificuldades.

Vulgar é a rescrita da história para rasurar a heroica luta dos povos pela emancipação, pelo fim da exploração do homem pelo homem. Banal o bombardeamento diário feito pelos meios de comunicação social e pelas redes sociais, concentrados pelos gigantescos grupos económicos em grandes empresas mediáticas que constroem realidades para ocultar a realidade. Comum a bastardização da cultura pelas indústrias culturais e criativas, moinhos onde nas suas rodas dentadas se reduz a pó a cultura para fazer luzir o entretenimento que não exige reflexão nem sintoniza sentimentos e tudo se afundar num perverso gosto homogeneizado e acéfalo.Um totalitarismo que até pode dispensarditadores e caudilhos, pulsa fortemente nos sistemas democráticos com o objectivo de reduzir e anular o espectro do debate e das ideias.

O combate a este estado de sítio é duro, exigente. Há que reconhecer que a direita tem tido êxitos nessa batalha e que muita esquerda está colonizada pelo pensamento de direita.

Hino de resistência

Versão original da Bella Ciao

Uma das formas mais sofisticadas e eficazes dessa ditadura do pensamento é prostituir, com as ferramentas do mercado, a cultura. Exemplo recente é a castração da Bella Ciao, essa bela e comovente canção dos partigiani que lutaram com denodamento contra o fascismo. Apropriaram-se dela para a usarem como banda sonora da série televisiva Casa de Papel. Descontextualizaram o seu potencial revolucionário para a tornarem um fetiche da cultura de massas desligada da cultura popular e de resistência. Colocaram-na nos top ten em muitos países hispânicos e de língua portuguesa.

Canta-se e dança-se ao som da Bella Ciao indiferentes aos seus belos e comoventes versos: Bella Ciao (adeus Bela) / Esta manhã, acordei / encontrei um invasor // Oh, guerrilheiro, leva-me contigo / Bella CiaoBella Ciao,Porque sinto que vou morrer // Se morrer como membro da Resistência / Enterra-me como membro da Resistência // Enterra-me no alto das montanhas / À sombra de uma bela flor/ Bella CiaoBella Ciao / As pessoas que passarem / Dirão: que bela flor!// Essa será a flor da Resistência/ Daquele que morreu pela liberdade (tradução livre).

Ela move-se!

Com A InternacionalBella Ciao era o canto dos partigiani, socialistas, anarquistas, sobretudo comunistas. Eram os hinos da resistência italiana. Hoje Bella Ciao é um hit de A Casa de Papel, cantada em vários momentos-chave da trama pelos personagens que vão assaltar a Casa da Moeda de Madrid, como se tivesse sido escrita para essa série. Destrói-se a história, a grande e bela história da Bella Ciao,esvaziando o seu conteúdo subversivo, o seu significado antifascista para a tornar um produto de consumo equivalente às centenas de canções de amor filistino de um qualquer Tony Carreira.

Assassinaram a Bella Ciao com a mesma frieza com que têm assassinado os milhões de mulheres e homens que lutaram e lutam para transformar a vida, devolver à humanidade a humanidade. Para esses resistentes de ontem e hoje Bella Ciao está viva. Contra os ventos da história desfavoráveis devemos continuar a lutar com a convicção de Galileu frente ao tribunal da Inquisição: No entanto, ela [a Terra] move-se 

Em 1971, Milva canta uma versão da Bella Ciao homenageando a Resistência numa demonstração pública das suas simpatias políticas

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Geral

ARY, o POETA do POVO e da REVOLUÇÃO

Ary dos Santos morre jovem, em 18 de Janeiro de 1984, com 47 anos, na vertigem de uma vida vivida com a mesma intensidade que iluminava a sua poesia.

Ary dos Santos, 7 de Dezembro 1936/18 Janeiro 1984
UM GRANDE POETA, UM GRANDE BEBEDOR, UM GRANDE FUMADOR, UM GRANDE PECADOR, UM GRANDE BLASFLEMO, UM GRANDE COMUNISTA

Ary dos Santos foi um malabarista da palavra descobrindo na simplicidade das metáforas conexões inesperadas que se apropriam da linguagem popular que recupera para a linguagem maior , m,esmo erudita, da poesia. São raros os poetas que conseguem o ritmo encantatório, quase alucinado que imprime aos seus versos. Ler Ary no silêncio das páginas acaba sempre por acordar a sua poderosa voz de declamador em que sabia como poucos enfatizar a oralidade omnipresente na sua poesia escrita para ser dita ou cantada.

Na poesia de Ary tudo parece fácil, quase imediato, escrito de um jacto sem rasuras. Uma aparente facilidade que oculta um intenso e complexo trabalho de criatividade e renovação que mergulha nas raízes populares sem nunca decair no imediatismo nem nas vulgaridades. Há uma linha de continuidade na sua obra poética, desde o seu primeiro livro Adereços,Endereços até ao último Estrada da Luz/Rua da Saudade, uma autobiografia romanceada de uma vida em que todos os minutos foram vividos em alta rotação, assumidos com uma coragem rara.

A sua importância para a poesia moderna portuguesa é inegável não só por ser um cidadão-poeta empenhado desde sempre na transformação social, o que adquire expressão maior pós 25 de Abril como na renovação do fado, a canção típica da sua bem amada cidade Lisboa.

Como nenhum outro é o poeta por excelência da Revolução dos Cravos que plasmou em inúmeros poemas de alto calibre na sua grande qualidade e originalidade, colocando em muitos a tónica militante do amor ao seu partido, o Partido Comunista Comunista Português. Uma poesia viril, uma voz indomada e indomável, como bem escreveu Baptista-Bastos, bem expressa no poema Poeta Castrado, Não! Serei tudo o que disserem / por inveja ou negação: / cabeçudo dromedário/fogueira de exibição / teorema corolário / poema de mão em mão / lãzudo publicitário / malabarista cabrão. /Serei tudo o que disserem: / Poeta castrado, não! //Os que entendem como eu / as linhas com que me escrevo / reconhecem o que é seu / em tudo quanto lhes devo: / ternura como já disse / sempre que faço um poema; / saudade que se partisse / me alagaria de pena; / e também uma alegria / uma coragem serena / em renegar a poesia / quando ela nos envenena. // Os que entendem como eu / a força que tem um verso / reconhecem o que é seu / quando lhes mostro o reverso: // Da fome já se não fala / – é tão vulgar que nos cansa / mas que dizer de uma bala / num esqueleto de criança? // Do frio não reza a história / -a morte é branda e letal – / mas que dizer da memória / de uma bomba de napalm? / E o resto que pode ser / o poema dia a dia? -Um bisturi a crescer / nas coxas de uma judia; / um filho que vai nascer / parido por asfixia?! / -Ah não me venham dizer / que é fonética a poesia! // Serei tudo o que disserem / por temor ou negação: / demagogo ou mau profeta/ falso médico ou ladrão / prostituta ou proxeneta / espoleta na televisão. // Serei tudo o que disserem: /Poeta castrado não!

Não, nunca foi um poeta castrado. Foi um poeta militante, um homem-poeta traidor à sua classe, era oriundo de uma família aristocrática, por amor ao seu povo.

Versos para serem cantados ou declamados que falam da grandeza das coisas simples, do amor, da nobreza do trabalho, das lutas pelos amanhãs que virão, da pulsação cívica dos bairros, dos mistérios escondidos nos passagens da sua cidade. Versos que parecem surgir do nada, do quase nada como se construíssem repentinamente e que são muitíssimo trabalhados por quem, como poucos, arrombava todos os segredos da língua. Poemas que assombram pelo ritmo que a declamação sublinha e por, nas canções, se colarem à música para que foram escritos. Assombro ainda maior por serem escritos sobre a música e não musicados à posteriori, por um Ary que sem conseguir acertar um compasso descobria a vibração do som com um fulgor deslumbrante. Ouça-se Estrela da Tarde um paradigma dessa revelação num poema em que o poeta exige uma música onde pudesse colocar a torrente de palavras que o inquietava.

Um elitismo bacoco e infâme procura diminuir a grandeza de Ary dos Santos, não lhe perdoando a Bandeira Vermelha que orgulhosamente transportava, que procuram silenciá-lo fazendo-o pagar bem caro a sua militância comunista, a sua assumida homossexualidade.

No trabalho sobre a palavra em Ary, nada é banal nem banalizável, mesmo nos slogans publicitários em que roçava, a par de Alexandre O’Neill, a excepcionalidade.

Ary é um génio da poesia, das letras extraordinárias para fados e canções. Um talento superlativo, magnifico, sem desperdícios de um homem de uma grandeza de alma incomum amante do seu país, do seu povo, da sua cidade, do seu partido.

Ary dos Santos morre jovem, em 18 de janeiro de 1984 com 47 anos, na vertigem de uma vida vivida com a mesma intensidade que iluminava a sua poesia. Uma vida cunhada pela frontalidade, a generosidade e o vigor que colocava em cada segundo que vivia.

É este poeta maior entre os poetas seus contemporâneos que está ocultado dos programas escolares. Raramente é recordado nos meios de comunicação social, silêncio de maior a estranheza na rádio e na televisão sendo ele autor de muitas das mais belas canções que se escreveram em português. É a infâmia do círculo de silêncio da mediocridade preopinante que procura menorizar este enorme poeta por lhes ser insuportável a sua grandeza militante.

A voz de Ary continua e continuará a fazer-se ouvir sobre os escombros desse desdém medíocre, com uma força que a história registará e que continua bem viva em todos os seus camaradas e todos os que continuam a luta que foi dele e que é de todo o povo patriota.

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"Star-System", Artes, capitalismo, Cultura, Geral, Neo Liberalismo

CULTURA E ILUSÃO

Um texto publicado no AbrilAbril e que me parece de interesse para alarme e abrir um debate sobre o estado actual da cultura e das artes

https://www.abrilabril.pt/cultura/cultura-e-ilusao

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Acrópole, Amazónia, Banco Mundial, BCE, Bolsonaro, Brasil, capitalismo, FMI, Grécia, Palácio de Cnossos, Património Classificado UNESCO, Património Monumental, Património Natural, Syriza, Tsipras

À BEIRA DO ABISMO

Palácio de Cnossos

Nos tempos que se vivem do capitalismo pós-democrático, a financeirização de todas as formas de vida, em que a vida é o capital e o capital é a vida, é estado de sítio que se vive. No The Economist, editorial de 11 de Janeiro de 2014 intitulado «The $9 trillion sale», https://www.economist.com/leaders/2014/01/11/the-9-trillion-sale,escrevia-se que Thatcher e Reagan usaram as privatizações como ferramenta para combater os sindicatos e transformar em receitas diversos serviços públicos e que os seus sucessores no século XXI, «necessitam fazer o mesmo com os edifícios, terrenos e recursos naturais, porque é um enorme valor que está à espera de ser desbloqueado» inquietando-se por «os governos parecerem estranhamente relutantes em explorar essas oportunidades de arrecadação de receitas». Era a evidência de que nos centros decisores do capitalismo internacional, FMI, Banco Mundial, BCE etc., já há algum tempo estava a levedar a ideia de uma onda de privatizações de tipo novo e radical: vender patrimónios histórico-culturais e naturais, onde a única dificuldade será avaliar o Pártenon, o Museu do Louvre, o Parque Nacional de Yellowstone, etc. O que aconteceu recentemente com o património cultural na Grécia e o que se anuncia para o Brasil são a demonstração que a voracidade do capital é insaciável. É cada vez mais evidente que hoje, com o estado de crise permanente do capitalismo em vertigem de montanha russa, tudo está à venda e, parafraseando Lenine, a última coisa a ser vendida será a corda em que será enforcado. Inquietante é quase já não ser surpreendente que o Ministério das Finanças grego tenha entregue ao Taiped, o fundo de privatizações grego fundado, por imposição da UE, BCE e FMI, uma extensa lista de monumentos nacionais para venda.

No inventário, com mais de trezentas entradas, estão incluídos o palácio de Cnossos do mítico labirinto do Minotauro, em Creta, o túmulo do rei Filipe II da Macedónia, pai de Alexandre o Grande, no norte da Grécia, a Torre Branca de Salónica, antiga prisão e lugar de grande valor simbólico nos Balcãs, o lugar pré-histórico de Santorini, os lugares arqueológicos de Salamina e Eleusis, muitos dos museus de Arqueologia, os Museus Bizantinos de Salónica e de Véria, os fortes das cidades de Esparta, Corinto e da ilha de Corfu, classificado património mundial pela Unesco, florestas integradas na rede Natura, a que se somam uma longa lista de outro património edificado como os lugares históricos nas montanhas que cercam a Acrópole. Esta fúria privatizadora não é uma particularidade grega por quase todo o mundo este assalto com a mão armada de dólares é verificável. Os pretextos e as formas são variáveis o fim é o mesmo. Em Itália, o governo Berlusconi tentou impor uma lei em que se privatizava todo o património imobiliário público, fosse um edifício pouco caraterizado ou fosse o Palácio do Quirinal, a residência do Presidente da República. Era a solução para a dívida pública. Foi travado por uma vasta mobilização que conseguiu reverter parcialmente as intenções iniciais, cancelando essa lei mas não evitando que se fizessem privatizações totais ou parciais de muitos monumentos históricos com efeitos devastadores. Na área dos recursos naturais as agressões têm séculos mas a ameaça mais grave e imediata é no Brasil de Bolsonaro que “prometeu acabar com a agência brasileira encarregue do controlo da desflorestação e da demarcação das zonas indígenas” um passo para começar a destruição da maior floresta tropical do mundo e, sem recorrer a câmaras de gás, acabar com os índios amazónicos. Um desastre humano e ambiental com consequências incalculáveis.

Em curso a entrega rápida dos recursos sejam culturais ou naturais ao capital privado com o álibi falso de o rentabilizar por maiores que sejam as selvajarias que se pratiquem. Nada comove nem demove essa gente para quem a humanidade, a cultura e a civilização são descartáveis, são inutilidades desde que não se tornem negócio, produzam lucro. É urgente travá-los. Uma luta política para se mudar de políticas que nos conduzem para um abismo.

Amazónia
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1% pra a Cultura, Cultura, Geral

Cultura Num Impasse

Royal Shakespearte Theatre/Royal Shakespeare Company

A cultura é a soma dinâmica e activa das sabedorias da vida e dos conhecimentos do fazer, da prática colectiva de grupos e de indivíduos. O equívoco maior é encerrar a cultura no círculo restritivo da criação artística, o que conduz a pensar-se a cultura como uma ilha limitada às artes e às letras, um território neutro onde os bons espíritos se podem encontrar longe do ruído trivial do trabalho e das outras actividades quotidianas, sejam as das ciências ou das tecnologias sejam as da política ou da vida doméstica.

É uma ideia reducionista de cultura em que se esquece e não interessa entender que uma ilha se define sempre em relação a um continente e que as artes e as letras, embora se desenvolvam com uma relativa autonomia, são sempre condicionadas pelas condições sócio-económicas envolventes. Dante só é o poeta genial da Divina Comédia por se estar na transição da Idade Média para a Renascença e ter o seu centro político e económico em Florença, a sua cidade, e Siena. Só é possível surgir um Baudelaire no pós Revolução Francesa, quando a burguesia que já detinha o poder económico assumiu o poder político. Só a Revolução de Outubro possibilitou a explosão de todo o poder criativo das vanguardas artísticas, que colaboram e coincidem com a vanguarda política numa síntese nunca antes vista nem nunca antes experimentada.

Só assim se consegue perceber os contributos das artes e das letras em cada momento histórico para a cultura como modelo antropológico do trabalho humano que se concretiza nos mais diversos e plurais tipo de actividade. Cultura enquanto núcleo de práticas e actividades que são instrumentos de produção material, recepção e circulação que dão sentido à vida e ao mundo.

Pensar práticas e políticas culturais


Marx, na Contribuição para a Crítica da Economia Política, define «produção material na sua forma histórica específica (…) uma forma determinada da produção material deriva, em primeiro lugar, de uma organização determinada da sociedade e, depois, de uma relação determinada entre o homem e a natureza. O sistema político e as concepções intelectuais são determinadas por esses dois factores, por conseguinte, também o género de produção intelectual». Marx avisa que se não se analisar assim a produção intelectual, fica-se pelo campo das vulgaridades e «é impossível perceber as características da produção intelectual que lhe corresponde e as suas reacções específicas».

Só assim percebemos como a destruição da cultura está a ser empreendida pelo neoliberalismo que, simulando da-lhe maior liberdade por não ter nenhuma política cultural, uma falácia em que a ideologia burguesa é contumaz, entrega-a ao mercado que promove uma cultura de impacto máximo e obsolescência imediata, acelerada pelas modas e os humores públicos, em que tudo é espectáculo promovido pelas indústrias culturais e criativas.

Um bullying cultural em que tudo é cultura e, consequentemente, nada é cultura. Em que a cultura dissimula o vazio desta sociedade. É esse o papel destrutivo do capitalismo neoliberal pós-democrático em que a mercadorização e a alienação afundam a cultura enquanto parcela activa e essencial do exercício democrático de participação dos cidadãos, contribuindo para a consolidação dos instrumentos que ensinam e fazem perceber e intervir no mundo.

Contra esses ventos da história há que içar as velas, saber içar as velas para se pensar práticas e políticas culturais efectivas recuperando a cultura para o seu trabalho fundamental: transformar a vida. Uma luta que é sobretudo política, de uma política patriótica e de esquerda.

Ópera Os Dias Levantados António Pinho Vargas / Manuel Gusmão
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Artes, autarquias, Álvaro Cunhal

Álvaro Cunhal em Setúbal

Em Setúbal, na avenida Álvaro Cunhal a autarquia fez uma obra de requalificação para melhorar substancialmente as condições de circulação pedonal e de velocípedes e homenagear essa figura rara da história de Portugal pela sua dimensão de político e intelectual.

fotografia Pedro Soares

Concretizou-se a homenagem recorrendo aos desenhos executados na prisão por Álvaro Cunhal colocados em painéis verticais na placa divisória central. O primeiro impacto ao olhar para cada uma das reproduções é verificar a resistência à alteração de escala.Nas grandes ampliações a que naturalmente foram sujeitos os originais, folhas de papel de dimensões aproximadas de 25 por 40 centímetros para reproduções com mais de dois metros, não se perde nenhum dos valores plásticos dos desenhos seleccionados o que evidencia a sua qualidade, o rigor do traço e das subtilezas das modelagens dos cinzentos todos feitos com lápis de grafite ou carvão com a mesma dureza. As alterações de escala, sobretudo as com um índice desse teor, podem ter efeitos desastrosos por perca dos pormenores ou por tornarem os pormenores grosseiros. Aqui o resultado é como se os desenhos tivessem sido feitos para se fixarem naquela dimensão final o que demonstra a desenvoltura e a segurança do traço do autor.

A selecção dos desenhos foi feita a partir das duas séries conhecidas, uma feita na Penitenciária e outra no Forte de Peniche. É necessário sublinhar que esses desenhos são feitos em condições inenarráveis que condicionam a sua feitura, transformam a folha de papel branco numa janela da liberdade de que Álvaro Cunhal estava violentamente subtraído para aí, no tempo suspenso que estava a viver, inscrever a imaginação de memórias vividas e inventadas a partir da realidade. Há grandes diferenças entre as duas séries de desenhos condicionadas pela luz que iluminava o papel. Na primeira série, feita sob luz artificial invariável, não existem grandes contrastes na vasta gama de cinzentos o que surge na segunda, feita no ciclo normal da luz do dia, em que se verifica uma gradação do negro ao branco. Em todos nunca se sente a presença de traço rápido. Constroem-se com lentidão serena e intensa.

Os desenhos de Álvaro Cunhal são narrativas em que o protagonista é colectivo, é o povo. O povo a trabalhar, a lutar, a sofrer, o povo a enfrentar as suas misérias mas também a viver alegrias, festas, danças. Sempre o povo mesmo quando as personagens são individualizadas em raras figuras isoladas que são colocadas em diálogo connosco pelo autor que lhes insufla a ternura firme que é a sua. As movimentações dos protagonistas em espaços abertos, só em dois desenhos há referências ao território, num deles uma torre uma provável referência ao Forte de Peniche, remetem-nos para o Trecentto italiano e para Giotto. A fortíssima dinâmica que imprime aos movimentos dos personagens a Pietr Brueghel, o Velho, recuperados para um contexto neo-realista onde são evidentes as influências de Portinari, dos muralistas mexicanos, sobretudo Orozco e Siqueiros, em que frequentemente o ponto de vista do pintor por vezes é elevado e colocado no meio da acção. As anatomias dos protagonistas e dos instrumentos de trabalho são alteradas, exageradas para sublinhar emocionalmente a história que está a ser registada e contada e que é tão forte que todos os desenhos dispensam títulos antecipando o que Álvaro Cunhal escreverá em A Arte, o Artista e a Sociedade: “o significado social não precisa de ser explicitado para ser suficientemente expressivo”. No caso é tão expressivo que dispensa rótulos.

Estes desenhos remetem-nos para outra questão: que artista teria sido Álvaro Cunhal se “o absorvente empenhamento noutra direcção de actividade” como refere no prefácio ao ensaio referido não tivesse adiado até tornar inviável o “aprofundamento ulterior do estudo que acompanhasse a evolução das ideias e das obras de arte no quadro das realidades sociais no mundo em mudança (…) Por razões óbvias o que não foi possível já não o será. Entretanto se o projecto ficou adormecido, nunca o ficou a reflexão.” Também nunca terá deixado de desenhar e pintar mas também aqui sem ter tempo nem espaço para aprofundar e evoluir esteticamente o que se anunciava nos desenhos editados. Em paralelo com as suas reflexões sobre a arte e a sociedade devemos interrogar qual poderia teria sido a sua contribuição para a evolução das artes em Portugal mesmo sem o impacto do seu pensamento político e ideológico que corre mundo e o coloca na primeira linha dos pensadores e revolucionários marxistas-leninistas de sempre. “O que não foi possível já não o será” mas deixa-nos o imenso prazer de ver e rever os seus desenhos, agora revelados em grandes formatos, a evidenciarem a qualidade de um artista que nunca se afirmou enquanto artista por nunca, por opção política militante, desenhar e pintar numa sequência normal de trabalho com uma perspectiva de evolução. O que fica e é inapagável é a sua impar dimensão de político e intelectual que continua e continuará a ser uma fonte inesgotável de ensinamentos e de estudo.

fotografia Pedro Soares
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