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As Mentiras das Meias Verdades

Ferro Rodrigues, com o peso institucional de ainda ser Presidente da Assembleia da República, dá uma entrevista na RTP em que afirma que nas negociações entre o PS e os partidos à sua esquerda, que desigualmente tem sustentado a governação desde 2015 quando o PCP abriu as portas do poder a António Costa e ao PS, o PS cedia às pretensões do PCP e do BE e logo a seguir esses partidos aumentavam as suas exigências até a um ponto em que o PS já não podia ceder mais. Diz isso sem que uma ruga de desaforo se vislumbre. Acrescentou que, como Presidente da Assembleia da República, ia sendo informado desses lances, que os ouvia com preocupação. A consequência que extraía do malogro dessas negociações para aprovar o OE 2022 era, obviamente, a necessidade de o PS obter uma maioria absoluta nas eleições marcadas para 30 de janeiro.

Ouvindo o seu tom afável, espaldado no alto cargo político que exercia, até se pode acreditar nas suas falas. Nada mais falso, ainda mais perigosamente falso por se apoiar em meias-verdades para garantir o quilate das mentiras. Com muita boa vontade pode-se conceder o benefício da dúvida no pressuposto que quem o informava do andamento das negociações o enganava. O que perante algumas evidências, e se ele estava atento às posições políticas assumidas pelo PS na Assembleia da República, se torna dificilmente acreditável.

Dois exemplos em duas áreas sensíveis, o Trabalho e a Saúde. Em relação ao Código do Trabalho herdado da troika, o PS não só boicotou todas as propostas de alteração que revertessem as suas medidas de maior monta como até as agravou aumentando o período experimental de 90 dias, para a generalidade dos trabalhadores, para 180 dias para os trabalhadores que exerçam cargos de complexidade técnica, elevado grau de responsabilidade ou que exijam uma qualificação especial; desempenhem funções de confiança; estejam à procura de primeiro emprego ou desempregados de longa duração. Esmiuçando essa língua de pau, na prática para todos os trabalhadores. Alterar esta e outras disposições igualmente penalizadoras dos trabalhadores como a caducidade da contratação colectiva ou a precariedade , exigências feitas nas negociações do OE 2022, foram inaceitáveis para o PS e, pelos vistos, para Ferro Rodrigues.

Em relação ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) os partidos à esquerda do PS queriam não só o reforço das condições para que o seu exercício fosse mais efectivo, em meios humanos e materiais, mas também acabar com o decreto-lei do PS que tende a destruir o SNS tal como está instituído em vez de o valorizar e aprofundar. Propõe o PS acabar com o regime de dedicação exclusiva, como o opcional dos profissionais de saúde como até hoje, embora mal, estava instituído, alargando-o a todos os profissionais de saúde. Na prática escancarar a porta giratória entre sector público e privado que estava em funcionamento, para os privados beneficiarem de um amplo mercado de recrutamento de mão de obra que é qualificada às custas do Estado. Mas os benefícios ao sector privado não ficam por aqui. Num dos artigos deste decreto-lei que tem estado em discussão pública, facilita-se praticamente sem qualquer limitação a alienação de instituições hospitalares públicas para o sector privado. É esta destruição do SNS que os partidos de esquerda nas negociações com o PS quiseram travar. São estas e outras disposições de timbre similar que PCP, BE e PEV, a que adicionam exigências de cumprimento de compromissos assumidos pelo governo PS, para não suceder o que em anos anteriores tem sido a prática contumaz do PS que os inscreve no OE para depois, com a maior desfaçatez, os cativar faltando à sua palavra.

É esta constante deriva à direita do PS, mais evidenciada ao longo destes anos de legislaturas em que tem mais votado ao lado do PSD, CDS, IL e Chega contra as iniciativas da esquerda parlamentar do que apoiado as propostas de lei do PCP, BE e PEV. Um espectáculo a que Ferro Rodrigues tem assistido desde 2015, que o deviam ter posto de sobreaviso sobre o que lhe estavam a contar sobre o estado das negociações do OE 2022, o que atira às malvas o benefício da dúvida que se lhe poderia conceder e a imagem de esquerda com que se mascara.

Mas Ferro Rodrigues é como muitos outros militantes socialistas, alguns até mais à direita que ele, um dos sócios daquele albergue espanhol social-democrata que tem o socialismo metido na gaveta. Quando aparecem nas pantalhas é para se travestirem de esquerda para poderem prosseguir as suas políticas de direita, de preferência com a esquerda a vê-los passar. Quando se atinge um ponto de saturação em que não é mais possível à esquerda continuar a ausentar-se para que prossigam as políticas de direita, vão para a praça pública armados em virgens púdicas para se vitimizarem com o mesmo descaro exibido por Ferro Rodrigues na sua entrevista na RTP, numa campanha de caça ao voto que começou no minuto seguinte ao OE ter sido chumbado e que tem colhido algum apoio naquela gente de esquerda patética e tontamente hesitante por mais profissões de fé nos princípios que façam.

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DOIS CENTENÁRIOS: José Saramago/Jorge Vieira

Hoje faziam anos Jorge Vieira e José Saramago, que nasceram no mesmo dia e no mesmo ano, 16 Novembro 1922. São dois dos mais notáveis artistas portugueses. um escultor outro escritor. Dois centenários que hoje se iniciam com sorte e impacto diverso por um deles ter sido e justamente distinguido com o galardão máximo da literatura, o Nobel, o que dá origem a celebrações de repercussão nacional. Tanto na escultura como na literatura os dois deixaram-nos uma obra que, na sua totalidade, têm impacto indelével nessas duas áreas artísticas.

Hoje, no teatro São Luís, abriram-se as portas do centenário de José Saramago, com um concerto em que foi tocado As Sete Últimas palavras de Cristo na Cruz, de Joseph Haynd, em que os textos originais seleccionados a partir dos Evangelhos segundo São Mateus, São João e São Lucas, que eram o suporte para o rito de Cadiz, foram substituídos pelos textos originais de José Saramago escritos especialmente para ilustrar a interpretação dessa obra pelo Le Concert des Nations de Jordi Savall. O escritor já tinha publicado, em 1991, O Evangelho segundo Jesus Cristo que narra a vida de Jesus como um homem com perfeições e defeitos. A parte mais substancial do romance são os diálogos entre Deus, Jesus e o Diabo, os três confinados numa pequena embarcação durante quarenta dias e noites em que Deus revela ao Filho os seus projectos expansionistas, o Diabo revolta-se por servir de contraponto a Deus e à sua suposta bondade, Jesus insurge-se com o destino que Deus lhe reserva para consumar os seus feitos nobres e bondosos que não são nada nobres nem bondosos. É uma revisitação dos Evangelhos escrita por um ateu que os parodia ironicamente, invertendo a história sagrada substituindo na anunciação a Maria o anjo Gabriel pelo Diabo, descrevendo a intensa vida sexual de José e Maria e de Jesus com Maria Madalena, entre outros sucessos virados do avesso.

Essa será o ponto de partida para Saramago escrever as Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz. São sete magníficos textos de grande beleza e profundidade.

Na Sexta Feira Santa, A Hermandad de la Santa Cueva comemorava a Sexta Santa de forma muito particular, no que ficou conhecido como o rito de Cadiz, celebrando-a numa capela com as paredes cobertas por panejamentos negros, iluminada por sete gigantescas velas ou tochas que se iam apagando a cada uma das palavras de Cristo proferidas pelo bispo entre intermezos musicais. No fim a escuridão invadia o espaço. Em 1785, José Saenz de Santamaría que tinha herdado de seu pai o título, a fortuna e o ficar à frente da Hermandad, decide renovar a Capela, encarregando para isso vários pintores entre eles Goya, e encomendar uma grande obra musical a substituir os intermezos até aí utilizados. Escolhe Haydn para esse empreendimento. O compositor, com renome no universo musical, corresponde escrevendo uma obra-prima composta por uma Introdução e sete sonatas todas sensivelmente com a mesma extensão, em média 7 minutos, acabando a última com Il Terremotto, um Presto com tutta la forza que se contrapõe aos anteriores andamentos, entre o Grave, o Largo, o Adagio.

Il Terremotto evidencia toda a genialidade de Haydn e a atenção que tinha pela música de Mozart e Beethoven de quem tinha sido amigo, mentor e tutor. É o culminar de uma das obras mais representativas do Iluminismo que mantém intacto too o seu potencial expressivo, hoje mais sublinhado pelos admiráveis textos de Saramago que acabam com uma frase que sintetiza o que foi expondo desde a primeira palavra «Deus,Pai, Senhor aqui me tens. Aqui me tens , por fim, neste monte árido a que chamam de Gólgota para onde, passo a passo foste encaminhando a minha vida para que se cumprissem todas as profecias. Estou crucificado nesta cruz alta, a que está ao centro, e os homens que fazem companhia, um de cada lado, são dois vulgares ladrões, daqueles que se contentam em roubar pouco, porque se fossem daqueles que roubam muito tenho a certeza que não acabariam crucificados» até como finaliza a sétima e última palavra « Acabámos. Representei o meu papel o melhor que podia. O futuro dirá se o espectáculo valeu a pena. E agora deus, pai, senhor, uma última pergunta: quem sou eu? Em verdade, em verdade quem sou eu?»

Dois centenários de dois meus amigos e camaradas que hoje se iniciam e que aqui singelamente relembro ao som do final desta obra de Haydn.

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DERIVAS MULTICULTURAIS

O debate político é tragado pelo debate multicultural em variadas e autónomas vertentes que acabam por arranhar as elites que detêm o poder sem contestarem as estruturas económicas e políticas que as sustentam.

A Persistência da Memória, Salvador Dalí, 1931 CréditosSalvador Dalí

Activistas com ligações ao MeeToo exigem a rectificação de mais um escândalo que, depois de muitas horas de exibição em pantalhas por todo o mundo, tem passado sem punição: o beijo com que o príncipe acordou Branca de Neve não foi um beijo consentido!

É um, mais um, evidente caso de violência sobre o sexo feminino, de evidente assédio sexual. Celebre-se João César Monteiro, sempre muitíssimo atento à moral e aos bons costumes, que tapou a objectiva com um pano negro para que a impudicidade da cena não fosse vista. Dizia o realizador aos interpelantes que não tinham percebido a demanda: «Queriam o quê? Telenovela? Fadinho?». Queriam e querem. O que se está a assistir e a acontecer sob a capa do multiculturalismo, com os estudos feministas, queer, racistas, etc., e a sua repercussão social, nos meios universitários, laborais, artísticos, é inquietante. Tão patético quanto o beijo do príncipe foram os apelos para que Gaugin fosse excluído dos museus, acusado de ser um pedófilo de mentalidade colonialista, encabeçando um índex que incha sem tino e em que são poucos os que escapam a essa fúria persecutória. Até Dante lá foi parar por ter escrito Divina Comédia, considerada obra homofóbica, racista, anti-islamista e anti-judaica. Estes e outros sucessos são tão excessivos e folclóricos, tonteiras tão tontas (passe o pleonasmo), tão passíveis de serem imediatamente comparadas às fogueiras inquisitoriais de torquemadas pós-modernos por um muito amplo arco de forças políticas e sociais, que, de algum modo, menorizam as lutas identitárias, que até lhes são úteis, mas sobretudo rasuram as lutas de classe em que as lutas identitárias deveriam e estão integradas, com o objectivo de nivelar tudo para que a realidade, nos seus termos actuais, seja não só aceitável como mesmo desejável. Não devem ser consideradas um acaso estas manifestações extremas de um radicalismo pequeno burguês que mais não é que um mimetismo proletário das camadas burguesas decadentes. Acabam por se tornar topos de divertimento, de chacota, que distraem para desfocar as análises a fundo do que está na sua origem, que deve ser séria e severamente analisado pelo seu poder de inquinar as lutas de esquerda e das forças progressistas que não fazem concessões às elites que detém o poder.

«Acabam por se tornar topos de divertimento, de chacota, que distraem para desfocar as análises a fundo do que está na sua origem, que deve ser séria e severamente analisado pelo seu poder de inquinar as lutas de esquerda e das forças progressistas que não fazem concessões às elites que detém o poder»

Nesse universo convulsionado e fragmentado, uma das acções que mais frutos colheu e colhe é a da chamada escrita inclusiva. No mundo em que o conhecimento da língua se desgasta nas vulgaridades lexicais das redes sociais e dos tweets, cresce a obsessão pelas regras gramaticais em que se procura impor a igualdade entre homens e mulheres, esbater as diversidades étnicas. As neo-feministas defendem a imposição de regras para que, no dizer delas, a gramática deixe de invisibilizar as mulheres. Títulos, funções, graus e ofícios devem passar a obrigatoriamente a usar o feminino e o masculino por dupla inflexão ou outro qualquer método. Essa seria agora uma das grandes frentes de luta do combate feminista, mais preocupado com os símbolos do que com a realidade das desigualdades e outras violências exercidas sobre as mulheres. Uma luta que ultrapassa fronteiras. Por cá Francisco Assis, que dá cobertura aos burocratas do patronato no CES a que preside para serem força de bloqueio aos acordos parlamentares sobre as leis do trabalho e contratação colectiva, torna-se um campeão da escrita inclusiva, o que lhe valeu inúmeros elogios nos media. Pouco interessa que ele pouco se preocupe que em Portugal as mulheres ganhem em média cerca de 15% menos do que os homens, diferença que aumenta para 26% nos quadros de topo, não discutindo essa questão no CES como quer a CGTP. Algumas universidades inglesas e norte-americanas surfam as ondas da escrita inclusiva admitindo os erros ortográficos como um esforço positivo para reduzir diferenças de aproveitamento entre estudantes brancos e de outras etnias pregando que isso seria forma de reduzir taxas de desistência porque «construir uma voz académica significa adoptar um modo de expressão particular de uma elite do norte europeu, branca, masculina, dependente de um alto nível de proficiência técnica em inglês escrito e falado» e que tal «modo de expressão» obscurece as particularidades de cada aluno, nomeadamente os estrangeiros, de minorias étnicas e os mais pobres. Em vez de considerar a individualidade e a diversidade cultural dos alunos estendem o tapete da escrita inclusiva para aí esfregaram as solas dos seus sapatos impregnados de um insuportável paternalismo colonialista.

As lutas identitárias ditas fracturantes espalharam-se praticamente por todo o universo, o que foi facilitado pela aculturação promovida por uma cultura dominada pelas leis do mercado e subordinada ao normativo anglo-saxónico. Começaram a invadir o ensino universitário onde se preparam as elites. Na Universidade de Oxford, a mais antiga e prestigiada universidade de língua inglesa, estão em cima da mesa do seu conselho científico propostas para a reforma do ensino da música pressionado pelo movimento Black Lives Matter. As primeiras notícias fizeram soar sirenes de alarme, anunciando mesmo o descartar o reportório clássico, Bach, Beethoven, Mozart para que o estudo da música «perdesse as suas conexões coloniais», se tornasse mais inclusivo, afastando-se dos currículos musicais a «conivência e cumplicidade com a supremacia branca». Bem estranha essa preocupação quando Beethoven, como escreve Romain Rolland, «ama a liberdade com orgulhosa consciência de quem se liberta da mordaça do velho mundo podrido dos seus senhores e dos seus deuses, mostra-se digno da sua nova liberdade», ou quando Mozart, que tem uma primeira referência anti-racista nos diálogos da Flauta Mágica, quando Papageno diz que «se há aves pretas, porque não hão-de existir homens pretos» (Acto I/ Cena 14). Evidentemente que a notícia era um excesso especulativo porque nunca seria possível um ensino musical que pusesse em causa intransigentemente a notação e a leitura de partituras clássicas, mas foi provocada por estar em marcha um movimento para o «estudo de uma maior variedade musical»  que não se sabe até onde irá até porque os ventos que andam a varrer o ensino universitário, impulsionados pelas lutas identitárias tem aberto várias janelas. Na universidade de Yale está em marcha a revisão do curso de Arte do Renascimento à Actualidade, porque alguns mestres repararam agora no mais que manifesto facto de os pintores renascentistas serem brancos e masculinos. Um azar que Iago, em vez de intrigar e manipular Otelo, não se tenha dedicado à pintura tendo por modelo Desdémona para concorrer com Ticiano porque, apesar de continuar a ser um representante masculino, pelo menos não era branco. Decidem que é preciso tirar a arte ocidental do seu pedestal, colocá-la no contexto mais amplo «das questões do género, da classe, da raça e também das alterações climáticas»!!! Não menos grave é a English Touring Opera, conhecida companhia de ópera itinerante, ter decidido licenciar metade dos seus efectivos para promover a diversidade étnica dos seus membros sobrepondo esse critério aos critérios de mérito musical.

«[o multiculturalismo,] mais do que criticar as estruturas responsáveis pela exclusão e marginalização de vastas franjas sociais e integrar as lutas contra essa exclusão e marginalização no contexto mais vasto das lutas de classe, as desintegrou nas lutas identitárias ditas fracturantes que se são importantes nos contextos de mudança de atitudes sociais acabam por ser irrelevantes na alteração radical da sociedade»

Já nos anos 50, muito antes de Fukuyama decretar o fim da história, o sociólogo Daniell Bell, analisando a ausência de comprometimento político nos meios artísticos e intelectuais dos EUA, decretou que o período do pós-guerra tinha marcado o «fim das ideologias»,1 prenunciando o estado actual do multiculturalismo que se tornou um fim em si, em que mais do que criticar as estruturas responsáveis pela exclusão e marginalização de vastas franjas sociais e integrar as lutas contra essa exclusão e marginalização no contexto mais vasto das lutas de classe, as desintegrou nas lutas identitárias ditas fracturantes que se são importantes nos contextos de mudança de atitudes sociais acabam por ser irrelevantes na alteração radical da sociedade, pelo que rapidamente são absorvidas, até aceites com complacência pelo poder e pelo pensamento dominantes, que soube e sabe ler e explorar com agudeza que se estava a abandonar a análise das raízes profundas dos problemas sociais e económicos, identificando as mudanças estruturais necessárias para os superar, para as substituir pelo expandir de direitos e procurar oportunidades dentro do sistema. Ignora-se desse modo que o capitalismo é uma ordem social institucionalizada pelo que essas práticas políticas, sociais e económicas se tornam incapacitantes, desviadas das lutas contra as estruturas fundamentais que assim se desgastam, mesmo perdem, a possibilidade de uma crítica radical do capitalismo atirada para um labirinto de identidades desarticuladas em que se desbarata o conceito de classe e de alienação em que tudo se torna relativizável.

O debate político é tragado pelo debate multicultural, nas variadas e autónomas vertentes entrincheiradas na excelência dos debates semiológicos pós-estruturalistas que acabam por arranhar as elites que detêm o poder, sem contestarem as estruturas económicas e políticas que as sustentam. Muitas das suas manifestações são happenings que a comunicação social dominante transmite enlevada. É a integração das lutas identitárias e fracturantes na política espectáculo o que é perfeitamente entendido pelas forças que suportam o poder e que se traduz no espaço mediático que ocupam nos media corporativos, no apoio económico que fundações, como as de Soros, Rockfeller, Ford, etc., concedem ao MeeToo, Black Lives Matter, outras organizações similares e ONG’s. Nancy Fraser, filósofa ligada aos movimentos feministas, descreve como o neoliberalismo progressista já dominava a política estadunidense ainda antes de Trump: «isso pode soar como um oxímoro, mas era uma aliança real e poderosa de dois companheiros de cama improváveis: por um lado, as correntes liberais mainstream dos novos movimentos sociais (feminismo, anti-racismo, multiculturalismo, ambientalismo e direitos LGBTQ); por outro lado, os setores “simbólicos” e financeiros mais dinâmicos da economia dos EUA (Wall Street, Silicon Valley e Hollywood)». Aliança que tem por objectivo último liberalizar e globalizar a economia capitalista, consolidando a sua hegemonia, o que é desde sempre o objectivo do liberalismo na sua pluralidade, de que essas esquerdas desbussoladas acabam por ser objetivamente aliadas.

Russell Jacoby faz uma análise contundente: «despojados do seu vocabulário socialista, esbulhados das suas esperanças utópicas, os progressistas e os esquerdistas bateram em retirada, em nome do progresso, para celebrar a diversidade. Não tendo ideias para enfrentar o futuro, aderiram a todas as ideias. Sob as vestes do multiculturalismo, o pluralismo tornou-se num albergue espanhol, o alfa e o ómega do pensamento político, o ópio dos intelectuais desiludidos, a ideologia de uma época sem ideologia».2

«um idealismo estéril em que a luta por uma mudança radical da sociedade, das suas estruturas sociais, políticas e económicas, das suas diversas opressões, é travada no território das imagens e da linguagem, em que aquela nunca é atacada na sua base social, política e económica»

Ficam prisioneiros de um idealismo estéril em que a luta por uma mudança radical da sociedade, das suas estruturas sociais, políticas e económicas, das suas diversas opressões, é travada no território das imagens e da linguagem, em que aquela nunca é atacada na sua base social, política e económica. Para amortecer as energias das lutas contra o clima neoliberal dominante, um dos processos mais vulgarizados é o do silenciamento das forças de esquerda mais consequentes, o que é facilmente detectável em todos os media corporativos estipendiados. Outro, mais subtil, é uma variante do replay que vemos quase diariamente nos serviços noticiosos quando recorrem a correspondentes geograficamente distantes. Quanto maior for a distância maior é o tempo que o receptor leva a perceber a questão e a ela responder. Essa inevitabilidade física é usada por algumas forças de esquerda que aproveitam os acalantos que a comunicação social lhes disponibiliza. Tornaram-se vulgares propostas feitas nos mais diversos palcos, institucionais e não institucionais, para corrigir e atacar os desmandos deste estado de sítio, serem noticiadas e assumidas não pelos proponentes mas por outros com dois objectivos: o primeiro é tornar os proponentes invisíveis, o segundo é esvaziar o conteúdo do seu valor activo. Isto faz com que essas esquerdas surjam a falar para os grupos oprimidos, para as minorias como se elas fossem a sua preocupação maior. Essa é a falácia porque o efeito pretendido é desviar as lutas das organizações de massas e dando visibilidade às lutas, esterilizá-las em discursos fortemente centrados em grupos autonomizados de trabalhadores, feministas, minorias étnicas, LGTBI+, etc., que nunca atacam a raiz dos problemas embora se dediquem à poda, uma actividade que se bem orquestrada apresenta a esquerda como um projecto afectivo e moral o que, por vezes, até se torna aliciante nas esquerdas mais empenhadas nas transformações sociais, mas que é um sucedâneo que substitui o projecto de libertação humana com o fim da sociedade de classes que deve ser sempre o objectivo da esquerda e das forças progressistas.

Há que perceber e afirmar que o multiculturalismo é sempre gerador de múltiplas identidades privadas, individualizadas, definidas em termos antagónicos e interseccionais com o objectivo de desarticular a luta de classes e as hipóteses de uma crítica estrutural e radical do capitalismo, inquinando a consciência colectiva e o militantismo político.

Como escreveu Pepe Escobar, sintetizando brilhantemente o momento actual em que vivemos «somos empurrados pelas ondas de uma baleia já arpoada, sem qualquer ideia de como, onde ou quando isto vai terminar. Como o Ismael de Melville, temos que sobreviver enquanto, sem descanso, combatemos contra os ventos da falácia, da ficção, da fraude e da farsa que o sistema moribundo manipula sem parar».3

(publicado em AbrilAbril http://www.abrilabril.pt)

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Moedeiros Falsos

Imagem do Filme de Benoît Jacquot, Moedeiros Falsos, baseado no livro de André Gide, edição portuguesa Ambar, 2004, tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira

Quando se poderia julgar que no PSD haveria alguns personagens que teriam capacidade, ainda que residual, de pensarem qualquer coisa algures nos territórios de uma social-democracia thatcherista próxima da direita do PS, aparece um tal José Eduardo Martins, a quem é concedido um tempo de antena desmesurado em relação ao raio de circulação do seu intelecto (é o Portugalito, o que tem por brasão o galo de Barcelos, no seu melhor com os seus media na mesma escala), a tirar quaisquer ilusões a quem ainda as tivesse. É lê-lo numa entrevista que um diário lhe fez esta semana. Alguém que tem< deleite intelectual> em ir almoçar com Passos Coelho só pode ser um grunho ainda que envernizado pelo império das ilusões da cultura anglo-saxónica, como faz questão de sublinhar, o que em política se plasma na pornografia para lá da troika do governo PSD-CDS que julgávamos, pelos vistos bem mal, de que ele seria de algum modo crítico. Afinal era tudo dança no varão do neoliberalismo capitalista para iludir a malta, mesmo dando as mais ousadas cambalhotas, insuficientes para dar velaturas no mais obsceno striptease de um direitinha que só se distingue do Chega, da Iniciativa Liberal, do CDS, do PSD, da direita do PS no manobrismo linguístico em que o rapaz é um poker de ases de um baralho viciado que só ludibria quem já está enconchado na direita. Há que saber lê-lo para lá das diatribes com que nos distrai e até diverte. Nada como um bom vendedor de vigésimos premiados, são os melhores (piores) moedeiros falsos, os que sabem como melhor angariar votos no pantanal do totalitarismo democrático. Não há vício lógico que os trave.

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Afeganistão a ferro e fogo

Os talibãs que agora derrotaram fragorosamente o exército e o poder do Afeganistão, ali colocados há vinte anos pelos EUA e seus aliados da NATO são os mesmos que, com o forte apoio dos Estados-Unidos combateram o governo secular e democrático e os seus aliados soviéticos que concederam os mesmos direitos às mulheres e aos homens, que iniciaram uma reforma agrária para erradicar as plantações de papoilas, agora o negócio mais florescente daquele território quando o seu controle era partilhado pelos novos e pelos velhos aliados dos EUA.

O que os múltiplos comentadores de todos os media mercenários que se desdobram em declarações sobre a chegada intempestiva e rápida dos talibãs a Cabul, tomando de facto o poder, nunca referem é que os talibãs são uma criação dos EUA que investiu uma verba multibilionária para os treinar, armar, equipar e subsidiar, dirigida por Zbigniew Brzezinski, conselheiro de segurança nacional de Jimmy Carter, com um currículo invejável ao serviço do imperialismo norte-americano, por exemplo foi dinamizador da Comissão Trilateral, trabalhou de 1966 a 1970 na embaixada norte-americana em Praga, etc.

Nada disto é referido por essa gente que agora parece muito surpreendida com a bagunça instalada. Muito menos referem que quando os soviéticos se retiraram do Afeganistão o exército afegão resistiu durante três anos e só sucumbiu quando Boris Ielstin cortou todo o apoio ao governo afegão abrindo caminho aos talibãs amigos dos EUA. Um cenário completamente inverso do actual, o que diz tudo ou quase tudo sobre o resultado de vinte anos de ocupação dos Estados-Unidos e Nato e o do poder exercido pelos sucessivos afegãos de Bush, Obama, Trump e Biden que o governaram.

No Ocidente, as declarações são como normalmente cínicas. Enchem a boca com os direitos humanos, em particular das mulheres e raparigas. Como se isso alguma vez lhes tivesse interessado e não houvesse responsabilidades do império norte-americano com a sombria ironia de esta luta final ser entre duas forças por eles apoiadas conforme os seus interesses geopolíticos. Nada disto será lido, ouvido ou visto nos media estipendiados como se a intervenção dos EUA no Afeganistão se resumisse aos últimos vinte anos, depois do 11 de Setembro. A manipulação e a hipocrisia não tem limites nem fronteiras.

Poucos referem que, com os talibãs no poder, chegam ao poder os pashunts, a maior tribo do universo, que foi artificialmente dividida entre o Paquistão e o Afeganistão pelo império britânico, useiro e vezeiro nesse corte e costura de fronteiras procurando acautelar os seus interesses futuros depois de ser obrigado a se retirar. Pode ser uma situação altamente explosiva, um catalisador de instabilidade numa região que nunca foi muito estável, basta olhar para as fronteiras do Afeganistão e os potenciais conflitos directos e indirectos que podm eclodir.

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Finalmente!!!

O oportunismo político do Rui Tavares que se mascara de esquerda ainda que de uma esquerda prozac completamente controlada e amarrada ao pensamento prevalecente, o Rui Tavares que nunca saí da arena que lhe oferecem para fazer os seus rodeos de pantominas, o Rui Tavares que desde sempre soube e bem explorar em proveito próprio as causas identitárias e das minorias, a ser pró-Nato, a incensar a União Europeia como se não fosse uma construção das classes dominantes e o Euro como se não fosse um sistema de opressão austeritária, a ser pró- todas as invasões humanitárias, o Rui Tavares lambe botas dos oligarcas que controlam a comunicação social e lhe dão espaço para se exibir, o Rui Tavares e etc., e etc., finalmente, finalmente tem uma primeira recompensa política pública – a outra no Parlamento Europeu já ninguém se lembra, se calhar nem ele mesmo depois das cenas que protagonizou em que a única memória que deve restar foi o rasto na conta bancária – com um novo pelouro Cultura, Ciência, Conhecimento e Direitos Humanos, um autêntico supermercado de alhos e bugalhos onde terá a oportunidade de lhe pagarem para vender em vigésimos premiados o seu parlapié de pacotilha sobre tudo e sobre nada.

Rui Tavares, embora a concorrência seja intensa, é um dos exemplos mais acabados da Formiga Bossa Nova do Alexandre O’Neill

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

(– Obrigado, formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe…)

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ISRAEL, Apartheid e Limpeza Étnica

Desde a fundação de Israel, os sionistas puseram em prática uma continuada limpeza étnica que continua até hoje, continuará amanhã, contando com a complacência do mundo ocidental que os deixa tripudiar todas as decisões da ONU sobre Israel e a Palestina. O que a comunicação social corporativa pouco refere é que Israel é um estado em acentuada degradação e crise política que provocou deliberadamente a actual escalada de violência em que há um directo beneficiário, um primeiro-ministro acusado de corrupção. Por mais foguetes que o Hamas lance nada apaga essa realidade.

O estado sionista tem o apartheid inscrito na sua constituição, pratica a limpeza étnica. O que sistemáticamente é ocultado é a sua longa história de colaboração com os nazis e que há que sempre que distinguir os judeus sionistas dos muitos judeus que vivem em Israel, na diáspora judaica e as vitimas do Holocausto.

A promiscuidade entre o nazismo de Hitler e o sionismo de Theodor Herzl, têm a mesma raiz ideológica. Hitler que afirmava e decretava a supremacia racial da raça ariana, que concretizou num dos piores massacres com milhões de vítimas em que se destacam os judeus, era um apoiante do sionismo que, por seu turno, pratica uma política segregacionista, de forma diversa mas igualmente condenável, na base da raça judia e da nação judia que já massacrou mais de seis milhões de palestinianos. A documentação é extensa, pouco ou mesmo nada referida. A Federação Sionista da Alemanha, em 1933, enviou uma declaração ao Congresso do Partido Nacional-Socialista em que afirmava que “um renascimento da vida nacional como o que está a acontecer na vida alemã (…) deve também acontecer na nação judaica. A base de um novo Estado Nazi deve também ocorrer na formação de um Estado Nacional Judaico. Com os princípios de um novo Estado Nazi fundado no princípio da raça, devemos enquadrar a nossa comunidade com natureza similar para que se possa estruturar e desenvolver uma Pátria Judaica”. A pátria judaica era Israel, nos territórios históricos de fronteiras redescobertos na leitura do Genésis. São muitos e bem documentados os textos que evidenciam como são ideologias análogas centradas na etnicidade e no nacionalismo. Os interesses entre o Nacional Socialismo da Alemanha Nazi e o Sionismo Judaico cruzam-se, interceptam-se. Hitler não os desdenhava, tinha entre os seus primeiros financiadores bancos maioritariamente de capitais judeus. A relação entre o sionismo, apartheid e nazismo tem longo historial que os sionistas hoje, empurrados pelos ventos da história, procuram por todos os meios ao seu alcance ocultar, no que são bastante eficazes, mas que é desmentido, contundente e diariamente, pelas suas práticas e pelos conúbios calhordas e sornas que plantam. Bastante eficazes mas sem poderem apagar nem escusar, ainda que sejam pertinazes em negar todas as evidências, que na introdução às leis raciais proclamadas pelos nazis em Nuremberga 1935, que anteciparam o Holocausto esteja escrito: “Se os judeus tivessem o seu próprio Estado, onde encontrariam o seu próprio lar, o problema judeu poder-se-ia considerar resolvido já no dia de hoje e pelos próprios judeus. Os verdadeiros sionistas são os que menos se têm oposto às ideias básicas das leis de Nuremberga, sabem que estas leis são a única solução válida para o povo judeu”. Nem rasurar o que Reinhardt Heydrich, chefe dos Serviços de Segurança das SS, depois nomeado Protector dos territórios checoslovacos incorporados no III Reich, escreveu em O Inimigo Visível: “Devemos dividir os judeus em duas categorias: os sionistas e os partidários da assimilação. Os sionistas defendem uma concepção de estado rigorosamente racial, mediante a emigração para a Palestina, prontos para construir o seu próprio Estado(…) Os nossos melhores votos e a nossa melhor boa vontade oficial para que o consigam

Encapotam que em 1941, o Herut. partido político de Itzhak Shamir, hoje Likud, concluiu um pacto militar com o 3º Reich alemão com objectivo de fundar um Estado, mesmo que fosse sob a sua égide colonial. A colaboração já vinha do Imperador Guilherme II que os tinha apoiado financeiramente. Em 1944, o movimento sionista faz um acordo com Adolf Eichmann. David Ben Gurion, do movimento sionista, enviou um seu representante, Rudolph Kastner, para se encontrar com Eichmann na Hungria para concluir um acordo em que os sionistas concordaram em manter silêncio sobre os planos de exterminação de 800 mil judeus húngaros e anular resistências, como a tentada sem êxito e brutalmente reprimida no gueto de Varsóvia. A moeda de troca era 600 líderes sionistas serem libertados pelos nazis e enviados para a Palestina. Um historial sórdido de acordos e colaboração entre sionistas e nazis, enquanto os nazis exterminavam milhões de judeus no Holocausto. Para lavar essas suas cumplicidades e traições aos judeus, mais tarde a Mossad, a polícia secreta israelita, andou pelo mundo a caçar nazis como se os nazis não fossem seus comparsas ideológicos e como se durante o nazismo os sionistas não mantivessem com eles infamantes conivências.
Os judeus têm direito a uma pátria mas não esta que nega esse direito aos palestinianos, que inscreve o apartheid na sua Constituição, que persegue desde a sua fundação uma continuada limpeza étnica.

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100 Anos / 100 Artistas

A exposição «100 Anos de Luta / 100 Artistas», que está patente na Gare de Alcântara até dia 30 de Abril (1) , é uma das exposições de artes contemporâneas mais representativas de artistas portugueses realizadas nos últimos anos em Portugal, provavelmente também o será nos próximos anos, que sem ser exaustiva reúne uma pluralidade de obras bem dessemelhante nas opções estéticas e técnicas aí representadas, bem pela diversidade dos artistas que nela intervém.

Assinala um centenário, o do Partido Comunista Português (PCP), a que 100 artistas por vontade própria se associaram, independentemente das suas opções políticas e da proximidade ou distância que tenham em relação aos seus princípios, num reconhecimento do lugar central que o PCP ocupou e ocupa desde a sua fundação na luta pela democracia e pelas mais amplas liberdades, combatendo durante 48 anos contra uma brutal ditadura e, nos anos subsequentes, na defesa das conquistas de Abril. É uma exposição celebrativa desse centenário que também celebra a cultura e as artes, que sempre foram um dos campos de acção do PCP, por vezes em conflito mas sempre em unidade no que é nuclear na defesa do património cultural e na democratização da cultura.

São 100 os artistas – um número simbólico que colocou uma fronteira que acaba por injustiçar muitos outros artistas que por direito e vontade própria poderiam até deveriam estar presentes – em grande dispersão de obras, matérias, poéticas e de gerações, do mais velho João Abel Manta, que nasceu em 1928 à mais nova, Catarina Lopes Vicente, nascida em 1991. São três gerações, dos que viveram os tempos repressivos do fascismo-salazarista aos que nasceram com a liberdade conquistada com a Revolução do 25 de Abril.

Uma exposição bem representativa das artes contemporâneas, uma categoria fluída e genérica que continua a alimentar por todo o mundo as maiores controvérsias e interrogações, que resulta nas imensas disparidades do que é dado ver mas que é o espelho de um tempo, o nosso tempo, que não é linear nem homogéneo e como ele se reflecte nas práticas artísticas, aqui das artes visuais, na imensa variedade, multiplicidade e diferenças entre as obras destes cem artistas que, sublinhe-se, estão todos vivos, são portanto nossos contemporâneos.

Não foi objectivo desta exposição fazer história. O seu objectivo é celebrar cem anos de lutas pela liberdade e pela democracia em que os artistas e os escritores estiveram sempre, com as massas populares, na linha da frente das lutas antifascistas. A luta pela cultura, pela liberdade criativa é impartível da luta pela liberdade e é inseparável, ontem como hoje, do aprofundamento da democracia e do progresso, porque as artes, na sua inultrapassável diversidade, no seu perpétuo nascimento e renascimento são processo nuclear da construção do humano que nos torna mais humanos.

Como escreve José Luís Porfírio no catálogo « os 100 artistas aqui e agora presentes sempre viveram essa liberdade, primeiro no seu foro íntimo e, depois, publicamente, liberdade dispersa, diversa, múltipla, que também passa por cada um dos 100 anos de vida do Partido Comunista Português».

Uma exposição que se impõe ser visitada e que, sem surpresas, tem sido silenciada pela comunicação social corporativa, mesmo a que ainda dá espaço ao que apelidam de cultura. A liberdade, a democracia, a cultura e as artes continuam a incomodar muita gente desde que ultrapasse os seus códigos normativos e restritivos. É o azul invisível do lápis da censura política mascarada de critérios editoriais.

(1) todos os dias das 15 às 20h, cumprindo-se as normas sanitárias em vigor

  • publicado em Avante! 22/04
Pode ser uma imagem de interiores

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150 ANOS DA COMUNA DE PARIS:O ASSALTO AOS CÉUS

A revolta estalou apoiada na Guarda Nacional, maioritariamente formada por operários, a que se juntaram milícias populares de cidadãos e soldados que se amotinaram (…) o que foi possível um dia o será de novo, ainda que noutro contexto sujeito às condições objectivas e subjectivas do momento e das circunstâncias históricas em que eclodirá.

«A barricada da Praça Branca, defendida por mulheres» (Maio de 1871). Litografia de Hector Colomb, dito Moloch (1849-1909), Museu Carnavalet, Paris, França.
«A barricada da Praça Branca, defendida por mulheres» (Maio de 1871). Litografia de Hector Colomb, dito Moloch (1849-1909), Museu Carnavalet, Paris, França.Créditos/ blog de Michèle Audin

Éestranho ou mesmo paradoxal que a canção emblemática da Comuna de Paris (18 de Março a 28 Maio de 1871), a primeira revolução em que a classe operária partiu «ao assalto dos céus por reconhecidamente ser a única que era capaz de iniciativa social e política»1, seja uma cançoneta de amor – escrita em 1866 por Jean-Baptist Clément (letra) e Antoine Renard (música) – sem o ímpeto das outras que desde as primeiras revoltas camponesas e operárias até aos dias de hoje cintilam no vasto cancioneiro revolucionário que continua inacabado. No contexto histórico daquela epopeia que explodiu os dias calendarizados num tempo sem tempo, concentraram-se todas as imensas esperanças do proletariado, da classe operária. Le Temps des Cerises ouve-se com a emoção de se saber que os amanhãs são sempre possíveis, mesmo quando derrotados circunstancialmente.

O Assalto aos Céus

A historiografia contemporânea reaccionária procura fazer uma revisão de todos os sucessos históricos das lutas operárias, das lutas de classes, menorizando-os como singularidades de circunstâncias únicas, contingentes, para que a sua coerência se dilua em micro subjectividades, negando todas as evidências. A Comuna de Paris, a Revolução de Outubro e muitos outros sucessos históricos, por cá e noutra escala o fascismo-salazarista ou o 25 de Abril, são objecto de branqueamento e limpeza que desvirtuam do que lhes é nuclear e essencial. Deve-se estar atento à calhordice cínica desses académicos alinhados na direita mais enquistada que, disfarçada de uma mais que falsa seriedade científica, promove nos meios universitários, em revistas com auras de seriedade, nos media corporativos, teorias falazes com urdidoras embustices que fazem caminho sem olhar a meios para atingirem os seus fins. A comemoração dos 150 anos da Comuna de Paris, como seria de esperar, não escapa a essas gralhas reaccionárias. Há que repor a verdade histórica. A importância que teve e tem na história de todas as lutas pela libertação da exploração burguesa do trabalho humano.

«A herdeira das revoluções europeias que incendiaram a Europa em 1848, no que foi considerado a Primavera dos Povos, foi afogada num banho de sangue de brutalidade inominável. É um marco na longa linha de lutas e insurreições operárias e camponesas do séc. XIX, num mundo de mudanças económicas e modernização capitalista»

A Comuna de Paris não aparece por geração espontânea. As suas raízes históricas mais próximas encontram-se na Revolução Francesa, nos seus episódios mais decisivos, como a Tomada das Tulherias, o fim da monarquia, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, o preâmbulo da nova Constituição. É a herdeira política da ala mais radical dirigida por Robespierre, que acaba guilhotinado pelos conjurados corruptos do Thermidor, inspira-se na Conspiração para a Igualdade de Babeuf2. A herdeira das revoluções europeias que incendiaram a Europa em 1848, no que foi considerado a Primavera dos Povos, foi afogada num banho de sangue de brutalidade inominável. É um marco na longa linha de lutas e insurreições operárias e camponesas do séc. XIX, num mundo de mudanças económicas e modernização capitalista. Será a última desse século, a primeira a triunfar, mesmo que por um pequeno lapso de tempo, em que se ergueram em simultâneo as bandeiras do patriotismo e do internacionalismo. Um marco histórico para as revoluções que lhe sucederam, nomeadamente a Revolução de Outubro.

«Derrube da coluna Vêndome» (1872), xilogravura. O monumento, que simbolizava o poder imperial de Napoleão, foi derrubado a 16 de Maio de 1871 Créditos

Foi a primeira revolução socialista da história da humanidade, numa Paris que vivia situação turbulenta depois de Napoleão III ter assinado a rendição na guerra entre a França e a Prússia, num contexto de agitação insurreccional generalizada. Os operários franceses, que viviam sob duras condições de trabalho e não concordavam com a rendição da França, mais revoltados ficaram quando o governo, para resolver os custos da guerra, lançou novos impostos sobre os trabalhadores para solucionar os problemas das dívidas contraídas.

A revolta estalou apoiada na Guarda Nacional, maioritariamente formada por operários, a que se juntaram milícias populares de cidadãos e soldados que se amotinaram. Um governo revolucionário foi organizado na base de comités de bairro que elegeram um Comité Central, onde figuravam representantes da Federação dos Bairros, blanquistas, proudhonistas, membros da Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em 1864 por impulso de Karl Marx. Confluíram várias tendências políticas, dos socialistas aos anarquistas, proletariado e pequena burguesia, artistas e escritores. O vácuo político deixado pelo governo – o qual, impotente para conter a revolta, tinha fugido para Versalhes – foi ocupado pelos revolucionários.

A Comuna foi proclamada. O seu primeiro édito é esclarecedor: «abolição do sistema de escravidão do salário de uma vez por todas». O sistema eleitoral sofreu uma viragem integral. A democracia directa foi instituída em todos os níveis da administração pública. A polícia foi abolida e substituída pela Guarda Nacional. A educação foi secularizada. A previdência social foi instituída. O poder da burguesia foi pela primeira vez posto radicalmente em causa. O alarme na Europa alastrou com violência.

«a história mundial seria, aliás, muito fácil de fazer se a luta fosse empreendida apenas sob a condição de probabilidades infalivelmente favoráveis. […] Com a luta de Paris, a luta da classe operária com os capitalistas e o seu Estado entrou numa nova fase. Corra a coisa como correr no imediato, está ganho um novo ponto de partida de importância histórico-mundial »

KARL MARX

O governo de Thiers, depois de humilhado pela Prússia, com a coroação do imperador Guilherme II no palácio de Versalhes, negociou com o Império Alemão a libertação dos soldados franceses, para recompor o exército e atacar Paris. A desproporção de forças não podia ser maior. Cem mil soldados a mando de Versalhes contra 18 mil milicianos da Comuna. A cidade, apesar de heroicamente defendida, foi tomada de assalto. A repressão que se seguiu foi de uma imensa brutalidade, como tem sido sempre, ontem e hoje, contra quem ousa afrontar o instituído poder da burguesia mesmo pelo uso do voto, como se assistiu no Chile ou quando, na Indonésia, Suharto massacrou um milhão de militantes comunistas que ameaçavam vencer as eleições.

Vinte mil communards foram imediatamente executados. 40 mil foram presos, torturados e executados. Esses eram os considerados «contumazes» pelos Conselhos de Guerra de Versalhes, que julgaram e condenaram 13 450 cidadãos. Contam-se nos autos 80 crianças, 1320 mulheres, 12 050 homens. O número de mortos às mãos do governo de Thiers é calculado em 80 mil.

A Comuna de Paris acabou por ser uma causa desesperada. Uma causa indispensável na luta de massas, pelo que se aprendeu para lutas futuras. Como escreve Marx a Ludwig Kugelman3:

«a história mundial seria, aliás, muito fácil de fazer se a luta fosse empreendida apenas sob a condição de probabilidades infalivelmente favoráveis. Ela seria, por outro lado, de natureza muito mística se as “casualidades” não desempenhassem nenhum papel. Estas casualidades ocorrem elas próprias naturalmente no campo geral do desenvolvimento e são de novo compensadas por outras casualidades. Mas a aceleração e o retardamento estão muito dependentes de tais “casualidades”, entre as quais figura também o “acaso” do carácter das pessoas que no início estão à cabeça do movimento.

Desta vez, o “acaso” decisivamente desfavorável não deve de modo nenhum procurar-se nas condições gerais da sociedade francesa mas na presença dos prussianos em França e na sua posição mesmo às portas de Paris. Isto sabiam-no os parisienses muito bem. Mas sabiam-no também os canalhas burgueses de Versalhes. Precisamente por isso colocaram os parisienses perante a alternativa de aceitarem a luta ou de caírem sem lutar. A desmoralização da classe operária neste último caso teria sido uma desgraça muito maior do que a morte de qualquer número de “chefes”. Com a luta de Paris, a luta da classe operária com os capitalistas e o seu Estado entrou numa nova fase. Corra a coisa como correr no imediato, está ganho um novo ponto de partida de importância histórico-mundial.»

«Até à morte» (1871). Comunardos batem-se nas ruas de Paris. Xilogravura de um jornal inglês de época Créditos

Apontar para o Futuro

Pela primeira vez na História da Humanidade, simples operários ousaram tomar nas suas mãos os privilégios dos que se julgam seus «superiores naturais». Ousaram formar, com os seus iguais, o seu próprio governo.

É admirável a actividade legislativa da Comuna. Em semanas introduziu mais reformas que os governos nos dois séculos anteriores. Era o ímpeto revolucionário de corte integral com o passado, o triunfo dos sans-culottes sobre os jacobinos que os tinham traído na Revolução Francesa.

«Pela primeira vez na História da Humanidade, simples operários ousaram tomar nas suas mãos os privilégios dos que se julgam seus “superiores naturais”. Ousaram formar, com os seus iguais, o seu próprio governo. É admirável a actividade legislativa da Comuna. Em semanas introduziu mais reformas que os governos nos dois séculos anteriores»

Os principais decretos da Comuna de Paris são referências que apontam para o futuro. O trabalho nocturno foi abolido; oficinas que estavam fechadas foram reabertas para que cooperativas fossem instaladas; residências vazias foram desapropriadas e ocupadas; todos os descontos em salário foram revogados; a jornada de trabalho foi reduzida, propõe-se a jornada de oito horas; os sindicatos foram legalizados; instituiu-se a igualdade entre os sexos; projectou-se a autogestão das fábricas; o monopólio da lei pelos advogados, o juramento judicial e os honorários foram anulados; testamentos, adopções e a contratação de advogados tornaram-se gratuitos; o casamento foi simplificado, tornou-se gracioso; a pena de morte foi eliminada; o cargo de juiz tornou-se electivo; o Estado e a Igreja foram separados, a Igreja deixou de ser subvencionada pelo Estado; os espólios sem herdeiros passaram a ser propriedade do Estado; a educação tornou-se gratuita, laica e obrigatória; escolas nocturnas foram criadas e todas as escolas passaram a ser de frequência mista; a Bandeira Vermelha foi adoptada como símbolo da Unidade Federal da Humanidade; instituiu-se um escritório central de imprensa; o serviço militar obrigatório e o exército regular foram banidos; todas as finanças foram reorganizadas, incluindo os correios, a assistência pública e os telégrafos; traçou-se um plano para a rotação de trabalhadores; organizou-se uma Escola Nacional de Serviço Público; os artistas e os escritores passaram a autogestionar os teatros e editoras; o salário dos professores foi duplicado; o internacionalismo foi posto em prática, o facto de ser estrangeiro foi considerado irrelevante. Os integrantes da Comuna incluíam revolucionários de praticamente todos os países da Europa, em especial belgas, italianos, polacos, húngaros, que defenderam mais patrioticamente a França que os vendidos aos interesses privados na esteira do bispo Cauchon, que entregou Joana D’Arc aos ingleses, ou dos que actualmente rastejam às ordens do grande capital sem pátria.

Uma lição de história

A insurreição do 18 de Março de 1871 é singular, até contingente e inesperada, mas tem consequências imediatas sobre o movimento operário e revolucionário. As novas e inovadoras relações entre o Estado o Poder e a propriedade privada, as estratégias revolucionárias incidindo nas cooperativas, as relações entre o movimento operário e a questão camponesa, o papel das mulheres, influenciaram textos maiores do marxismo-leninismo como a Origem da Família, da Propriedade e Privada e do Estado de Engels4, em 1884, obra fulcral para se compreender a origem do patriarcado e da opressão das mulheres. Marx, com a grande clareza e lucidez que o caracterizam, percebe melhor a importância da participação das mulheres durante a Comuna e propõe a criação de secções femininas na Internacional. Aprofunda os estudos sobre a urgência e necessidade de alianças entre operários e camponeses, o que a Comuna no seu breve tempo de existência não teve tempo de realizar. Nas várias reflexões sobre esse acontecimento histórico, nas já referidas cartas a Ludwig Kugelmann e ao dirigente socialista alemão Wilhelm Liebknetch, sublinha a indecisão dos communards de marcharem imediatamente sobre Versalhes e os seus escrúpulos em se apoderarem das reservas do Banco de França, que poderiam ter dado outro curso à história da Comuna. Marx sabe bem que o curso de uma revolução nunca é linear e que a realidade vivida está sempre sujeita a avanços e recuos, a contratempos: «nas revoluções o amanhã é sempre desconhecido»5.

«a Comuna de Paris [foi] uma experiência revolucionária ímpar na luta milenar das lutas do proletariado e dos povos oprimidos. […] o que foi possível um dia o será de novo, ainda que noutro contexto sujeito às condições objectivas e subjectivas do momento e das circunstâncias históricas em que eclodirá»

A Comuna tem um papel de relevo na elaboração da teoria revolucionária em Marx, Engels e Lenine. O ensaio de Marx, A Guerra Civil em França6, tem a particularidade de, depois de ter feito vários avisos à classe operária sobre os perigos de acções prematuras em 1870, evidenciar um enorme entusiasmo com a Comuna sem deixar de criticar os seus erros, as suas fragilidades. Ao analisar as debilidades políticas da direcção communard não coloca em causa a Comuna. O seu objectivo é retirar lições da derrota para robustecer a resistência, as futuras revoluções. Via nessa experiência histórica um alcance imenso.

Em 1917, nas vésperas da Revolução de Outubro, Lenine escreve O Estado e a Revolução7, ensaio central na sua vasta obra política. A Comuna de Paris, os textos de Marx são o ponto de partida para as suas teses sobre a natureza do Estado. A Comuna de Paris é:

«um passo em frente da revolução proletária universal, um passo real, bem mais importante que centenas de programas e de raciocínios (…) na mais democrática das repúblicas, a mais ampla democracia representativa, nunca conseguirá eximir-se às consequências devastadoras que é a separação entre representantes e representados. Separados desde logo económica e socialmente, permite que os representantes manipulem os representados de acordo com os seus próprios interesses (…) não basta apoderar-se do Estado e fazê-lo funcionar para os seus próprios fins. Exige-se a sua transformação impondo a democracia proletária (ditadura do proletariado) contra a democracia formal burguesa (ditadura da burguesia)»8.

Democracia burguesa que não hesita em recorrer à mais feroz repressão, quando a sente necessária para a sua sobrevivência. Na realidade, ontem como hoje, a liberdade não é igual entre todos. A liberdade nas democracias burguesas é instrumental. Nada é mais desigual que a igualdade formal entre desiguais. A liberdade de um trabalhador, por razões sociais e económicas, nunca é igual à de um capitalista, o que levou Orwell a considerar, mesmo quando se opõe ao totalitarismo, que «para sermos corrompidos pelo totalitarismo não é necessário viver num país totalitário».

Essa a grande lição da Comuna de Paris. Uma experiência revolucionária ímpar na luta milenar das lutas do proletariado e dos povos oprimidos. Uma chama de esperança revolucionária na longa história, feita de êxitos e fracassos, da luta pela transformação do mundo e da vida, evidenciando que o que foi possível um dia o será de novo, ainda que noutro contexto sujeito às condições objectivas e subjectivas do momento e das circunstâncias históricas em que eclodirá.

  • 1.A Guerra Civil em França, Karl Marx, Edições Avante!, 1984.
  • 2.Histoire De La Conspiration Pour L’Égalite (dite de Babeuf); de Philippe Buonarroti, edição crítica estabelecida por Jean-Numa Ducange, Alain Maillard, Stéphanie Roza, Jean-Marc Schiappa; La Ville Brule, reimpressão (2014).
  • 3.Carta de Karl Marx a Ludwig Kugelman, in Obras Escolhidas de Marx/Engels, em três tomos, Edições Avante! 2008-2018.
  • 4.A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Friedrich Engels; Edições Avante!, 1986.
  • 5.Marx (1984).
  • 6.Em 30 de Maio de 1871, apenas dois dias depois do fim da Semana Sangrenta, Marx apresenta ao Conselho da Internacional, em Londres, o texto The civil war in France, que foi rapidamente traduzido para alemão e outras línguas.
  • 7.O Estado e a Revolução, Lenine, Edições Avante!, reimpressão (2011).
  • 8.Ditadura do Proletariado tem dado origem às mais diversas interpretações centradas na etimologia da palavra ditadura, sobretudo por parte dos militantes do chamado socialismo democrático, a forma mais aberta e liberal da ditadura da burguesia, da concepção burguesa do Mundo, que não suprime o processo de acumulação capitalista e cuja hegemonia ideológica continuará a dominar as massas populares se a concepção da consciência de classe proletária não se consubstanciar em conteúdos precisos, sem degenerescências positivistas nem fatalismos mecanicistas que assumem como absolutamente certo e pré-estabelecido o devir histórico. O exemplo mais acabado de Ditadura da Burguesia é o dos EUA, em que dois partidos se alternam continuando políticas que, no essencial, são idênticas. A Ditadura do Proletariado, desde a sua formulação por Lenine, tem sido motivo de amplo e fundo debate ideológico entre os revolucionários, desde logo entre Lenine e Rosa Luxemburgo, nas hipóteses da Ditadura do Proletariado ser de partido único ou multipartidário. O que é central na tese de Lenine é a hegemonia de uma classe e não qualquer outro conceito.

LINKS PARA A HISTÓRIA DA COMUNA

1-FILMES

https://www.cinearchives.org/Catalogue-d-exploitation-COMMUNE-DE-PARIS-LA-494-179-0-10.html

2- TEXTOS

https://www.commune1871.org/

http://commune150ans.fr

https://macommunedeparis.com

https://www.editionslibertalia.com/catalogue/poche/michele-audin-la-semaine-sanglante

(Publicado em AbrilAbril http: http://www.abrilabril.pt)

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capitalismo, Capitalismo Neoliberal, Comunicação Social, Democracia Iliberal, Desigualdades, Esquerdas, Esquerdismo, Fared Zakaria, Feminismo, Fim da História, Fim da Ideologia, Fukuyama, Geral, Globalização, imperialismo, Imperialismo Cultural, Liberalismo, Lutas de Classes, Lutas Fracturantes, Lutas Identitárias, Mario Draghi, Media, Nancy Fraser, Neo Liberalismo, Ultraliberalismo

DEMOCRACIAS , SA

Um relativismo absoluto faz defender como aceitável o despotismo desde que a economia continue orientada pelos automatismos das leis do mercado, ferreamente controladas e impostas pela lei do mais forte.

O mundo invisível (1954), René Magritte (1898-1967)
O mundo invisível (1954), René Magritte (1898-1967)CréditosRené Magritte

Adominação política, económica e cultural anglo-saxónica, liderada pelos EUA, muito deve à capacidade de fazer circular ideias que se tornam centrais nos debates públicos internacionais através de intervenções dos think tanks que marcam a agenda dos debates para desarmarem e descontextualizarem os que coloquem em causa o pensamento neoliberal. Um processo que se foi apurando em dezenas de anos, em que se consolidaram a globalização mediática, a cultura de massas e a iconografia norte-americanas, integradas numa ideologia hedonista e consumista em que se neutralizaram as culturas locais descontextualizando-as, sempre e só lhe reconhecendo algum valor quando as assimilam para as colocar no mercado global das indústrias mediáticas e culturais. Uma estratégia que tem o seu maior êxito na contaminação produzida no pensamento de esquerda que, paradoxalmente, enquanto produz análises realistas e incisivas nos planos da política, da economia e da sociologia, em livros, revistas, jornais, no ciberuniverso, sobre a condição actual das nações, do aprofundar dos problemas e dramas de nosso presente, em que há um esvaziamento da democracia e se regride com a subordinação às plutocracias, muitas vezes se enreda em debates em que a luta de classes é atirada para segundo plano como se esta sociedade não fosse fundada na violência da luta de classes. Muitas esquerdas ausentaram-se de muitos planos de luta, substituindo-os por outras frentes que desaguam no que Nancy Fraser, filósofa ligada aos movimentos feministas, descreve como o neoliberalismo progressista que dominava a política estadunidense antes de Trump: «isso pode soar como um oxímoro, mas era uma aliança real e poderosa de dois companheiros de cama improváveis: por um lado, as correntes liberais mainstream dos novos movimentos sociais (feminismo, anti-racismo, multiculturalismo, ambientalismo e direitos LGBTQ); por outro lado, os setores “simbólicos” e financeiros mais dinâmicos da economia dos EUA (Wall Street, Silicon Valley e Hollywood)». Aliança que tem por objectivo último liberalizar e globalizar a economia capitalista, consolidando a sua hegemonia, o que é desde sempre o objectivo do liberalismo na sua pluralidade, de que essas esquerdas desbussoladas acabam por ser objetivamente aliadas.

«Nas democracias liberais residiria a «salvação nacional», o que se deve ler como para a salvação do neoliberalismo vale tudo, até passar por cima do funcionamento das instituições democráticas. A democracia liberal seria o melhor dos mundos apesar de uns sobressaltos nada despiciendos, desiguais e variáveis, de Orbán a Trump»

São-no porque para adquirirem presença mediática, que não por acaso lhe é amplamente concedida, não se libertam das agendas que são, directa e indirectamente, pautadas pelo ideário neoliberal plasmado pelas elites que monopolizam o espaço público que perverteram, universalizando-o. Por cá, na nossa periferia, é vê-los a perorar em todos os teatros que lhes dão palco para que o estado de sítio do liberalismo democrático se respire como ambiente natural. Da direita musculada, que se vai exercitando enquanto lavra terreno para ter condições de pôr os bíceps à prova, às esquerdas de frágil ancoragem que fazem críticas anémicas para justificarem a sua existência enquanto esquerda, esse é o pano de fundo dos cenários onde se movem. De um ou de outro modo são dependentes das ideias produzidas nos cenáculos do liberalismo, desde os primitivos liberais aos actuais neoliberais, em que a constelação dos think tanks brilha com intensidade, as dos EUA mais vigorosas pelos meios de difusão de que dispõem.

Os think tanks têm formação académica adquirida nas mais prestigiadas universidades norte-americanas, estão directamente ou indirectamente vinculados a departamentos de Estado, são presença regular nos media internacionais. Um dos casos mais recentes e emblemático é o de Francis Fukuyama, que proclamou o fim da história, das ideologias e da política no celebrado O Fim da História e o Último Homem1 depois da queda do Muro de Berlim e da implosão da primeira experiência histórica socialista. A sua tese era que a democracia liberal, regida pela mão invisível do mercado, era o ponto final da história universal, o capitalismo seria o seu estado nativo. A história tinha deixado ser território de transformações radicais ou mesmo significativas quanto à forma de organização e de vida da sociedade humana. O fim da política era o fim da política ideológica, marxista por perca definitiva de todo o horizonte utópico, da utopia não como o desejo do impossível mas daquilo que ainda não foi possível realizar.

Golconde (1953), René Magritte (1898-1967) CréditosRené Magritte /

A História que Fukuyama atirara porta fora, fechando-a a sete chaves, entrou fragorosamente pela janela. Para ele, para os cientistas políticos da sua lavra, não há vício lógico que os trave. Vale tudo desde que a propriedade privada seja o deus ex-machina, a doxa que orienta os seus ditirâmbicos exercícios de estilo, pelo que escaqueirado o fim da história retoma-a de cernelha: «os sistemas políticos modernos são chamados de democracias liberais, porque unem dois princípios díspares. Liberalismo é baseado na manutenção de um campo aberto para todos os cidadãos, principalmente quando se trata da propriedade privada, que é um factor crítico para o crescimento e para a prosperidade económica. A parte democrática, a escolha política, é aquela que reforça as escolhas comuns e que vê todos os cidadãos como um único conjunto». Nas democracias liberais residiria a «salvação nacional»,o que se deve ler como para a salvação do neoliberalismo vale tudo, até passar por cima do funcionamento das instituições democráticas. A democracia liberal seria o melhor dos mundos apesar de uns sobressaltos nada despiciendos, desiguais e variáveis, de Orbán a Trump, o que procura explicar inventando novos conceitos, das mais variegadas cepas.

«O que estes modernos cientistas políticos procuram iludir é que no liberalismo político, que tanto os move e comove, as liberdades individuais e o progresso estão sempre submetidos às suspeitas mãos invisíveis do mercado, que ditam as leis em que nada se cuida das liberdades culturais, sociais e políticas, desde que estas não se reflictam no lucro, a única hierarquia que reconhecem»

«Democracia iliberal» é um conceito apresentado por Fareed Zakaria em artigo de 1997 para a revista Foreign Affairs, de que é editor. Zakaria, que defendeu a invasão do Iraque – do que se veio a arrepender – e criticou George Walker Bush para alinhar com as aventuras bélicas de Obama, anda agora muito entusiasmado com o Plano Abraão, o iníquo plano de paz de Trump para o Médio-Oriente, elogiando Netanyahu e mesmo Mohammad bin Salman, o príncipe herdeiro saudita – esse mesmo, o mais que suspeito de envolvimento na morte macabra de Jamal Khashoggi, no desaparecimento de vários outros príncipes sauditas seus críticos, responsável sem quaisquer presunções pelo maior desastre humanitário actual, que sucede no Iémen. Quando define esse conceito inicia uma cruzada em defesa das democracias liberais, as quais que se poderiam organizar numa espécie de deriva política da tabela periódica de Mendeleiev: 1- Não democracia; 2- Democracia illiberal; 3- Semidemocracia; 4- Democracia liberal; todos estes grandes grupos subdivididos numa miríade de subgrupos. É um exercício de sobrevivência das democracias formais para a ditadura da burguesia, como Lénine definiu, continuar a exercer o seu poder soberano, mais ou menos temperado entre as liberdades individuais e as reivindicações da economia de livre mercado – a sua pedra basilar – em que as desigualdades económicas e sociais se agravam, como se tem assistido nos últimos decénios. O que estes modernos cientistas políticos procuram iludir é que no liberalismo político, que tanto os move e comove, as liberdades individuais e o progresso estão sempre submetidos às suspeitas mãos invisíveis do mercado, que ditam as leis em que nada se cuida das liberdades culturais, sociais e políticas, desde que estas não se reflictam no lucro, a única hierarquia que reconhecem. O fundamento é que a propriedade privada, raiz da exploração do trabalho e da alienação humana, permaneça intocada.

Neoliberais herdeiros dos liberais do séc. XVIII, John Locke, Jeremy Bentham, Stuart Mill, que nunca foram democratas embora pregoando o liberalismo político, as liberdades individuais e o progresso, os quais deviam ser submetidos ao utilitarismo de uma ética aplicável tanto às decisões políticas como às acções individuais. Esse o norte nas áreas económicas, políticas e judiciárias do liberalismo. Um relativismo absoluto que os fazia defender ser sempre aceitável o despotismo desde que a economia continuasse orientada pelos automatismos das leis do mercado ferreamente controladas e impostas pela lei do mais forte. Os liberais de antanho e os neoliberais de hoje só relutantemente e quando lhes é impossível subtraírem-se é que se submetem a princípios democráticos, que logo subvertem quando alcançam o poder.

O que de facto os inquieta é que a crise continuada do liberalismo clássico do século XIX, agora agravada com as crises vividas nos sécs XX e XXI, continue incapaz de garantir o progresso social por muito que os mercados sejam livres, o que alimentou as experiências socialistas do início do século XX e continua a manter a chama acesa nas esquerdas marxistas que consideram contingente a realidade histórica do capitalismo mesmo quando hoje ela se apresente como hegemónica.

O falso espelho (1929), René Magritte (1898-1967) CréditosRené Magritte /

As inquietações dos politólogos think tanks, esse crescente clero de cientistas políticos, com as democracias iliberais, agravadas e ratificadas pelo episódio grotesco da invasão ao Congresso norte-americano – um assalto à democracia representativa que até nem é surpreendente para quem acompanhou os lances das últimas eleições presidenciais norte-americanas e os das antigas e continuadas transumâncias entre os dois partidos que se alternam no poder de uma ditadura democrática submetida aos interesses do complexo industrial-financeiro-militar – são exercícios de sobrevivência do capitalismo neoliberal para minimizar os movimentos de disrupção política que, no entanto, consideram inevitáveis.

«O que de facto os inquieta é que a crise continuada do liberalismo clássico do século XIX, agora agravada com as crises vividas nos sécs XX e XXI, continue incapaz de garantir o progresso social por muito que os mercados sejam livres, o que alimentou as experiências socialistas do início do século XX e continua a manter a chama acesa nas esquerdas marxistas que consideram contingente a realidade histórica do capitalismo mesmo quando hoje ela se apresente como hegemónica»

O que esses politólogos sublinham nas democracias iliberais é que são regimes que hibridizam as formas vulgarizadas pelas democracias liberais mais abertas e por regimes autoritários, em que os governos eleitos democraticamente imediatamente ignoram e tripudiam os limites constitucionais e as liberdades individuais dos cidadãos. Enfatizam que os líderes e partidos iliberais, uma vez eleitos, usam as suas maiorias legislativas para subverter o processo de controlos e equilíbrios, o poder Executivo para subjugar a independência de outras instituições, o judiciário, as Procuradorias Gerais, os órgãos de investigação, para reinterpretar o estado de Direito, as Comissões Eleitorais para provocar mudanças no sistema eleitoral para se perpetuarem no poder. Não anotam que o sufrágio universal na actualidade foi sempre variável, entre os mais representativos da vontade popular, como em Portugal ou na Holanda, ao que é condicionado pelos desenhos de círculos eleitorais em que com menos votos expressos se elegem mais deputados, para garantir a hegemonia das forças mais conservadoras. Escandalizam-se, com o que de facto é escandaloso, com as manipulações eleitorais do Fidesz na Hungria, que nas últimas eleições consegue 67% dos assentos parlamentares com apenas 49% dos votos, ou com o PiS, na Polónia que logra 51% dos assentos parlamentares com 38% dos votos expressos. São desvios brutais, mas que têm precedentes mais suaves mas reais no Reino Unido em que, nas últimas eleições, os Conservadores com 42,6% dos votos conquistam 56,2% dos assentos parlamentares em comparação com os Trabalhistas, 32,2%/31,2%, e os Liberais, 11,5%/1,70%; na Grécia, em que o partido mais votado nem que seja por um voto tem um bónus de 50 deputados não sufragados; com o sistema de colégio eleitoral nos EUA, onde não há correspondência entre o número de votos obtidos por um candidato a presidente e milhões de votos a mais não garantem a sua eleição. Também não os escandaliza um governo que não é submetido ao voto dos cidadãos como recentemente o de Mario Draghi, chamado de unidade nacional mas que é de facto iliberal, como, noutro plano, nunca se escandalizaram com as imposições da troika à Grécia, ou as do FMI ou do Banco Mundial, que objectivamente contribuem para a proliferação das ideias subjacentes aos populismos e às democracias iliberais.

O que consideram como desvios à democracia liberal é a normalidade da anormalidade democrática das sociedades capitalistas neoliberais que desde sempre variaram e continuam a variar entre tanto serem limitadamente libertárias como não hesitarem em recorrer aos extremos mais repressivos, tanto se apresentaram múltiplas como monolíticas, modalizando-se conforme as geometrias dos enquadramentos sociais, económicos e políticos resultantes dos avanços e recuos da luta de classes, a pedra de toque é que a exploração da força de trabalho se mantenha intocada.

A grande evidência é que nada é mais desigual que a igualdade entre desiguais. Com tamanhas desigualdades a democracia é impossível ou é muitíssimo degradada no quadro da democracia burguesa, quaisquer que sejam as variantes da representação democrática. É essa evidência que impede as discussões políticas e sociológicas de saltarem as barreiras do pensamento dominante, e que a alternativa seja ficar encerrado num sistema em colapso, mais despolitizado, mais desdemocratizado, socialmente mais despromovido, cada vez mais fechado e dissemelhante.

O grande desafio que se coloca à esquerda, às esquerdas é, sem se alhear dessas teses, não se deixar enredar nas suas agendas, manter aberto um diálogo aberto, por mais áspero que seja, para abrir frentes de luta contra o neoliberalismo capitalista, criticando-o em todas as suas vertentes, fortalecendo todos os baluartes democráticos e antifascistas onde se forjem consensos para o ultrapassar.

  • 1.Francis Fukuyama, O Fim da História e o Último Homem, Gradiva, 2019.

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/)

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ELeições Presidenciais :UM RESCALDO

MÁQUINA DE CHILREAR , Paul Klee

As últimas eleições presidenciais têm sido alvo de leituras as mais diversas em que a tónica no resultado alcançado por André Ventura tem sido vedeta causando justificado alarme nas esquerdas, o que é bem visível nas redes sociais, já que na comunicação corporativa, largamente dominada pela direita e pelo centro-direita, continua a ruminar o mesmo de sempre ao serviço das plutocracias.

Há uma certa coincidência entre a direita e alguma esquerda para considerarem que muitos dos votos em André Ventura se devem sobretudo a uma transferência de eleitores da CDU para o Chega. Teoria velha e relha vendida pela direita liberal e que faz o seu caminho mesmo entre as esquerdas do socialismo democrático, do socialismo em liberdade, do socialismo cosmopolita e dos que ainda continuam com o socialismo metido na gaveta onde o outro o meteu. Teoria velha e relha alimentada por preconceitos de classe que persistem, mesmo sabendo-se, desde Marx, que a « história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa», sem se esquecer que como Mark Twain, observou, «a história nunca se repete, mas muitas vezes rima». O neo-fascismo muito aprendeu com os fascismos tradicionais, (1) o que parece ter sido pouco aprendido por algumas esquerdas, como se pode ler em muitos dos textos que navegam pela comunicação social e pelas redes sociais que o demonstram à saciedade, dando razão a Mark Twain.
Sem se darem ao trabalho de qualquer análise ainda que superficial, comparam os resultados eleitorais das presidenciais com os das legislativas. Se fizessem um pequeno esforço acabariam por verificar que a ligeireza da pressa em opinar os empurra para o dislate.

Mesmo com todas as cautelas e muita moderação deve-se olhar para o quadro acima reproduzido sobre a transferência de votos, feito pela Aximage com a mesma base com que efectuou as sondagens, em que na última previa que Marcelo Rebelo de Sousa alcançaria 59,4% / resultado final 60,7%; Ana Gomes 15,4% / 12,97%; André Ventura 9,7% / 11,90%; João Ferreira 5% / 4,32 %; Marisa Matias 4,4% / 3,22%; Tiago Mayan 3,3% ; 3,22% ; Tino de Rans 1,5 % / 2,94 %; abstenção 58% / 60, 15%. O intervalo de confiança era de 95%, a margem de erro 2,8%.

A transferência de votos não é algo mecânico. É um fenómeno complexo, por vezes determinado por razões emocionais não repetíveis. Ao olhar para o quadro acima exposto, com as cautelas e a moderação que se impõem, o que mais se destaca é que os quase 34% dos eleitores que dizem votar PSD votaram André Ventura. Se seria de esperar que a comunicação social estipendiada, nada inocentemente, ocultasse esse facto, dever-se-ia expectar que nos comentários da pluralidade das esquerdas isso fosse sublinhado, como deveriam assinalar que muitos dos votos captados pela extrema-direita se devem ao descontentamento com políticas económicas e sociais indecisas e hesitantes, com muitas concessões ao pensamento económico neoliberal. Também se deviam preocupar com o crescimento do candidato apoiado pela Iniciativa Liberal (IL), que é um concorrente directo do Chega, por enquanto confinado nas baias do politicamente correcto. Esquecem-se — ou provavelmente nem sequer atentaram — que o modelo económico proposto pela IL é praticamente decalcado do posto em prática pelos Chicago Boys no Chile de Pinochet e que por agora, dado o enquadramento político vigente, a IL é uma variante polida de um albergue espanhol dos neoliberais espreitando a sua oportunidade.

O que domina as análises de muitos jornalistas, comentadores e outros avulsos encartados com a direita são variantes de um Rui Rio ofegante a trombetear canhestramente que o Alentejo comunista virou para a extrema-direita. Basta comparar os resultados no Alentejo obtidos por Edgar Silva com os de João Ferreira para se perceber que nenhum vício lógico os trava na cruzada anticomunista. Preocupante é ver como alguns que são de esquerda alinham nesses considerandos de uma linearidade simplória que, por exemplo, os resultados em Lisboa desautorizam cabalmente. Vejam-se estes quadros elaborados por Francisco Melro, economista e ex-funcionário do organismo estatístico nacional, o INE, ex-colunista no jornal Público e ex-director da CMVM, referido por João Ramos de Almeida no blogue Ladrões de Bicicletas (2)

Resultados Esquerda- Ana Gomes, João Ferreira, Marisa Matias

Resultados Direita – André Ventura, Tiago Mayan

É por demais evidente que André Ventura e Tiago Mayan têm os melhores resultados nas freguesias mais ricas, mais favorecidas, Estrela, Avenidas Novas, Belém, onde a esquerda tem os piores resultados, e os piores nas freguesias mais pobres, mais desfavorecidas, Penha de França, Santa Maria Maior, São Vicente, onde a esquerda tem dos melhores resultados. Comenta o autor, com bastante ironia, estes dois quadros, escrevendo que «na justificação do sucesso do Ventura nas Presidenciais de 2021 têm-se vulgarizado dois fundamentos: o descontentamento dos deserdados do sistema e os problemas causados pelos ciganos nas comunidades, escandalizando pelos subsídios públicos de que beneficiam. Com base nestas premissas, fui à procura dos deserdados e dos ciganos da região de Lisboa que votaram nos candidatos da direita e particularmente no Chega. Embora surjam vestígios de deserdados e de ciganos nas freguesias menos favorecidas de Lisboa, fui encontrá-los especialmente nas freguesias tidas por mais ricas. Deparei-me com acampamentos clandestinos de ciganos e com deserdados nos lares e arredores dos residentes das freguesias de Belém, da Estrela e das Avenidas Novas».

Não sendo de transpor automaticamente a realidade de Lisboa para o país, é de presumir que não deverá ser substancialmente divergente, o que não acalma sobressaltos mas corrige o tiro.

Se estas apurações põem alguma água fria na fervura dos comentários a quente, em que se tiram ilações despropositadas, não podem iludir que nestas eleições o vencedor foi o candidato de direita, não por ser respaldado pelos seus apoiantes formais, PSD e CDS, que foram os grandes derrotados embora de forma desigual nestas eleições, mas por demissão do PS, que foi de facto quem lhe deu a vitória à primeira volta. Não porque o eleitorado socialista se tenha transferido para a direita mas porque seguiu as indicações oficiosas de António Costa, crente que o Presidente da República continuará próximo do governo o que, provavelmente, é mais aparente que seguro. Há que olhar com atenção os últimos meses do seu primeiro mandato, em que desenvolveu uma campanha mediática desestabilizadora atingindo alguns ministros, o que não augura um segundo mandato tão conciliador, embora igualmente populista, mas provavelmente entrincheirado numa maior institucionalização para apoiar a sua família política, que tudo indicia estar a entrar num tempo de sobrevivência turbulenta. São os custos do oportunismo político, em que uma alternativa de esquerda, com a excepção de João Ferreira e Marisa Matias, não se definiu claramente, permitindo que o voto de protesto tenha sido contabilizado pela extrema-direita, que mente e trapaceia beneficiando dos ecos nos media, os tradicionais e os novos das redes sociais o que só de forma intermitente tem sido denunciada (3)

A questão central, agravada pela pandemia que catalisou as crises sistémicas do capitalismo, é que as massas populares foram abandonadas durante mais de quarenta anos de políticas do PS, PSD e CDS. A «geringonça», – aceite-se esta designação perjorativa pela popularidade que angariou – de que foi protagonista principal o PCP, não as travou. Reverteu muito dos perdidos e degradados direitos políticos, sociais e económicos ao longo de decénios de políticas de direita. Transmudou, ainda que de maneira insuficiente, muitas das políticas austeritárias da troika e do (des)governo PSD-CDS, mas sempre num pára arranca do PS apoiado pelos partidos de direita, o que gerou e gera naturais descontentamentos por se ver luz ainda que bruxeleante mas sem qualquer meio para a alcançar no topo do buraco cavado pelas políticas neoliberais. Há que lembrar e não esquecer que foi o PS , depois das últimas legislativas, que se escusou a reiniciar em novos moldes a solução governativa anterior recusando-se, entre outras questões, a alterar a política laboral herdada da troika, e a prosseguir com Leão as políticas iniciadas por Centeno, que nos submetem aos ditames da UE, sempre mais duros em relação às periferias em que nos situamos, o que é um contributo para criar condições objectivas para a extrema-direita crescer, com os acalantos do centro-direita bem expressos na última entrevista televisiva de Rui Rio.

O PS é de um autismo alarmante e continua um percurso sinuoso em que são muitos os obstáculos que continuam a impedir o nosso desenvolvimento a que a Europa connosco, e não só, não é alheia. A «geringonça», sobretudo com o aprofundamento das políticas económicas e sociais que beneficiaram os mais desfavorecidos, foram um sinal de alerta que se repercutiu no pensamento dominante, que tocou a rebate para reunir a sua tropa fandanga, bem visível numa viragem mais acentuada à direita nos media. Não se pode deixar de fazer uma nota para assacar responsabilidades ao governo, que deixa que o serviço público de comunicação esteja fundamente contaminado, escudando-se num Conselho Geral Independente que avaliza esse estado de sítio bem patente nos serviços noticiosos, na programação geral, nos programas de debate, no lote de comentadores em que o pendor para a direita e a aculturação são imagens de marca que as raríssimas excepções, normalmente atiradas para a RTP2 que tem uma audiência residual, não iludem.

Os alarmes que nas esquerdas dispararam com as eleições presidenciais são, na sua maioria, tiros fora do alvo e tiros de pólvora seca. Há que reenquadrá-los para que uma verdadeira alternativa de esquerda se oponha decididamente à inevitável recomposição das forças de direita que depois de ter um precedente nos Açores começam, à boleia da votação em Marcelo Rebelo de Sousa, a atirar barro à parede por via dos seus serventuários de sempre que, empurrados pelas urgências, perdem os pudores e as mascarilhas com que muitas vezes se disfarçam, para descaradamente propor ao reeleito presidente a assunção de um golpe de estado, que é o que realmente representaria a formação de um governo de iniciativa presidencial, o que também comprova o que para essa gente significa democracia, liberdade, transparência, estado de direito, respeito pela Constituição.

Há que começar a fazer caminho sabendo-se que depois do controlo da pandemia as turbulências mundo fora, em particular na União Europeia, vão-se fazer sentir com rumo incerto mas que terão forte impacto em Portugal, numa situação particularmente difícil pela degradação da nossa soberania pelos tratados europeus, com consequências trágicas para as nossas políticas internas.

Há que encarar frontalmente e já esta situação que não se resolve com acordos pontuais parlamentares com o PCP e o BE quando o PS nas questões nucleares, que de algum modo mexem com o grande capital, continua a aliar-se ao PSD. Exige um complexo e difícil diálogo entre todas as esquerdas para que acordem um ainda de mínimo projecto mobilizador que desarme o descontentamento que os sicofantas e farsolas direitinhas exploram sem pudor. Muitas dessas esquerdas, independentemente dos quadrantes onde se situem, têm de perceber que a política não se reduz exclusivamente a medir representatividades pelos resultados da competição eleitoral, o que corresponde a fazer a apologia de uma democracia em que se confundem os partidos com máquinas de captação de votos em que a identidade ideológica e a realidade partidária cada vez menos corresponde ao ideal democrático, o que resulta numa crescente indiferenciação ideológica e programática bem óbvia nos EUA e que tem alastrado mundo fora. A essas esquerdas, em particular ao PS, exige-se que, no mínimo dos mínimos, revitalizem a democracia enquanto território da luta de classes pacífica como os revisionistas sociais-democratas proclamavam, para que a degradação dos Estados sociais nacionais diligenciada pelos burocratas de Bruxelas, bons discípulos de Hayek & companhia, não se sobreponha a políticas económicas e sociais nacionais vinculadas à esquerda, sabendo-se de ciência certa que esta sociedade se baseia na violência da luta de classes.

Têm de perceber que os movimentos sociais estão longe de se esgotar nas eleições. Momentos eleitorais que são importantes para tirar a temperatura à sociedade. A sua leitura, com uma grelha mais fina e consistente como é o caso das recentes presidenciais, é necessária para se entender a relevância e a premência de se elaborar programas políticos, económicos e sociais, que não sejam alimentados por ilusões em relação à UE, que respondam aos desiludidos para os tirar do buraco para onde anos de políticas neoliberais os atiraram.

(1) https://www.abrilabril.pt/nacional/o-ovo-da-serpente

(2) http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2021/01/ha-ciganos-na-estrela.html#more

(3) )https://visao.sapo.pt/atualidade/politica/2020-07-22-os-empresarios-e-as-redes-que-embalam-andre-ventura/ .

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O OVO DA SERPENTE

Os cancros não se combatem com aspirinas. Fascismo nunca mais, não é palavra de ordem para conforto de um dia, é um combate de todos os dias

«Meeting» (2004), gravura de Bartolomeu Cid dos Santos, água-tinta, água-forte
«Meeting» (2004), gravura de Bartolomeu Cid dos Santos, água-tinta, água-forte Créditos/ Bartolomeu Cid dos Santos

Nos últimos decénios a extrema-direita real, a de um neofascismo que tenta mascarar o fascismo clássico que está nos seus alicerces, tem vindo a aumentar a sua implantação política tanto nos EUA como na Europa, o que se acelerou com as políticas Thatcher e Reagan, em linha com os Chicago Boys de má memória no Chile de Pinochet que, com pertinazes falsificações, até é elogiado pelos próceres da Iniciativa Liberal. A engrenagem mais useira e vezeira dessa direita mais extrema e seus pares próximos é aproveitarem-se do descontentamento provocado pelas derivas do neoliberalismo mais radical e pelas indecisas e oportunistas políticas económicas dos partidos socialistas mais à esquerda, como as do Partido Socialista Francês com Miterrand, ou dos que alinharam claramente com o neoliberalismo, de que o exemplo mais acabado é o trabalhismo thatcherista de Blair. Políticas que abriram as portas para o capitalismo selvagem, em que as desigualdades aumentaram com a brutal exploração do trabalho, o emprego precário, o desemprego de longa duração, a especulação bolsista e imobiliária, a concentração da riqueza numa elite cosmopolita de algumas centenas de indivíduos que aproveitam as crises para um vertiginoso crescimento das suas fortunas, como se tem assistido com a crise provocada pela pandemia, um catalisador dos lances das anteriores crises. Não perdem tempo, já estão a preparar novos assaltos.

«Ao que hoje se assiste é ao ressuscitar do velho caceteirismo dos arruaceiros e à nova e velha doblez dos sicofantas, com cenas grotescas, somando falsidades, encenando provocações, numa deriva perigosa, com o uso de uma linguagem subcultural que caracteriza o discurso de direita que se aproveita de um generalizado provincianismo adubado pelo esclerosamento mental veiculado pelas grosseiras bagatelas pimbas que alastram pelo éter como um vírus para o qual não há vacinas, aproveitado de forma oportunista e hábil para no fim da linha imporem a sua visceral antidemocraticidade»

A extrema-direita, muitas vezes acobertada pelas vestes neoliberais herdeiras dos primitivos liberais, tem capitalizado as insatisfações, as angústias provocadas por essas políticas, mentindo com grande descaramento para travestirem os seus intentos, como se tem assistido por todo o mundo e por cá, com um partido assumidamente fascista e com uns auto-proclamados liberais que só aparentemente são concorrentes, que tem aumentado a implantação social e o peso político, mascarando os seus desígnios com o populismo mais desbragado, mentindo descaradamente, sabendo até bem demais que imposturas repetidas com contumácia podem ser ou acabam por ser assumidas como verdades, por mais que sejam denunciadas. Sabem de ciência certa que uma mentira, por mais inaudita que seja, por mais que seja comprovada a sua falsidade, deixa seja um lastro inapagável. É a lição de Goebbels que aprenderam e usam per fas et nefas.

Tal como aprenderam com Hitler que, apoiado pelo grande capital dos dois lados do Atlântico, explorou a incapacidade da esquerda se unir em momentos cruciais e o descrédito das políticas dos sociais-democratas da República de Weimar, as altas taxas de desemprego, a inflação galopante. Com retóricas populistas chega ao poder para assim que o alcançou privatizar todas as empresas estratégicas, siderúrgicas, minas, bancos, estaleiros, transportes marítimos, ferrovias, serviços públicos. Um filme pronto a ser vertido em várias versões pelos mais diversos realizadores e com os mais variados actores, mas sempre com o mesmo guião: o da barbárie capitalista de uma sociedade fundada na violência de classe.

Ao que hoje se assiste é ao ressuscitar do velho caceteirismo dos arruaceiros e à nova e velha doblez dos sicofantas, com cenas grotescas, somando falsidades, encenando provocações, numa deriva perigosa, com o uso de uma linguagem subcultural que caracteriza o discurso de direita que se aproveita de um generalizado provincianismo adubado pelo esclerosamento mental veiculado pelas grosseiras bagatelas pimbas que alastram pelo éter como um vírus para o qual não há vacinas, aproveitado de forma oportunista e hábil para no fim da linha imporem a sua visceral antidemocraticidade.

«É uma evidência que o neofascismo por ora executa linchamentos morais por ainda não ter possibilidade de fazer outros. O ovo da serpente está a quebrar a casca, nalguns lugares até já a quebrou. Tem que ser combatido antes que as cascavéis que, por enquanto, sobretudo chocalham, comecem a espalhar muito mais veneno»

Por cá a contumácia das aldrabices, das mentiras, dos insultos, das ameaças do trapaceiro Ventura encontram albergue nos media que os repercutem como se fossem declarações de alguém com alguma fiabilidade política. Não só nos órgãos de comunicação social que o promovem, agora mais assanhados com a viuvez a que Trump os relegou, nos que encobrem o seu fervor neoliberal em independência informativa, mas também naqueles que deveriam ser de serviço público e que são directamente dependentes do governo, que se remete a um silêncio condenável. Se uns abrem os armários para reciclar os esqueletos do fascismo-salazarista onde os tinham guardado depois do 25 de Abril, outros obscurantistas arregimentam-se com essa tropa de arruaceiros fandangos para recuperar falácias, das mais antigas às mais modernaças, em que se amalgamam dos panegíricos fascistas e pós-fascistas mais elaborados aos mais ridículos, todos não inocentes, para estercar um culto de direita e extrema-direita que beneficia do clima instalado nos media pelos plutocratas seus detentores, com os seus fiéis servidores, directores, editores, comentadores, na sua esmagadora maioria de direita e centro-direita, para que as denúncias a esse estado de sitio sejam débeis. O que está em curso é a direita e a extrema-direita, com o beneplácito do centro-direita, a ocuparem lugar no espaço democrático.

É uma evidência que o neofascismo por ora executa linchamentos morais por ainda não ter possibilidade de fazer outros. O ovo da serpente está a quebrar a casca, nalguns lugares até já a quebrou. Tem que ser combatido antes que as cascavéis que, por enquanto, sobretudo chocalham, comecem a espalhar muito mais veneno.

Chocalhos e veneno das cascavéis que procuram desacreditar a política, a classe política e a sociedade aos olhos do homem comum normalizado por uma cultura conformista e por um jornalismo, com destaque para o televisivo, que balança entre o conservadorismo e a imbecilidade. O ciberespaço, as noticias falsas, a multiplicação de falsos perfis deu-lhes um novo impulso bem visível nos trumps, trumpinhos e trumpões que por aí se reproduzem como cogumelos. A bula é a mesma e não hesita em usar todos os truques que decalcam e copiam com detalhe o que é nuclear a que agregam variantes regionais. Aqui com Ventura, em França com Le Pen, em Itália com Salvini, no Brasil com Bolsonaro, nos EUA com Trump, por esse mundo adentro com outros bichos móis que vão, com maior ou menor êxito, emergindo dos pântanos. Actualizam, com as modernidades do século XXI, os hitleres, mussolinis, salazares e francos e, como eles, não se eximem às demagogias mais descaradas, sem peias, com uma desfaçatez que até deixa atónitos os mais desprevenidos, bem ilustrada pela capa de jornal AIZ com uma, como sempre excelente, fotomontagem de John Heartfield, que já nos anos 30 do século XX os desmascarava.

Capa da revista antifascista AIZ (Jornal Ilustrado dos Trabalhadores) que satiriza a tentativa nazi de travestir Hitler com Marx (1934)

AIZ1 (Jornal Ilustrado dos Trabalhadores)

Notícia de jornais do dia 8 de Abril de 1934: o pin de Maio deste ano da Frente Nacional do Trabalho2 contém, além do rosto de Goethe e da Águia com a Suástica, os símbolos bolcheviques do Martelo e da Foice, aparentemente para conquistar os ainda cépticos trabalhadores.

MIMETISMO

Depois de todas as tentativas de incutir as ideologias nacional-socialistas aos trabalhadores terem sido mal sucedidas, Goebbels teve uma última e desesperada ideia: convencer o Führer de que, daqui em diante, sempre que discurse para os operários, ponha uma barba de Karl Marx.

O neoliberalismo e a ascensão da extrema-direita

Tem o caminho facilitado pela degradação social e cultural que fracturou as nossas sociedades. A doxa neoliberal do capitalismo liderado pela finança corroeu e destruiu conquistas dos trabalhadores alcançadas em séculos de árduas lutas, enriquecendo obscenamente com a exploração do trabalho e dos recursos naturais. Degradou a cultura com o consumo espectacular de uma sucessão de entretenimentos, na lógica perversa das modas das indústrias culturais e criativas da gestão das artes, de pouca memória cultural e política, em que não se promove ou só se promove muito residualmente a humanização e a socialização dos sentidos. A esquerda, as esquerdas, muitas delas contaminadas por um hedonismo consumista infiltrado pelo pensamento dominante, fragmentaram as lutas, o que as fragilizou e a fez ausentar de muitas frentes de combate, abandonando as lutas de classe em favor das lutas fracturantes e identitárias, reduzindo-se à denúncia do capitalismo selvagem que, bem financiado, aproveitando essas brechas, manipula a opinião pública através dos meios tradicionais de comunicação, imprensa, rádio e televisão e dos novos do universo digital, blogues, redes sociais, videojogos, enquanto se vai infiltrando nos aparelhos de Estado, consolidando oligopólios que adquirem um tal poder que actuam como novos senhores feudais, impondo os seus diktaks sem lei nem debate público.

Pin de 1934 em que a águia nazi surge disfarçada com símbolos dos trabalhadores

Há que mudar de políticas para travar decididamente a propagação do fascismo, que é bem visível depois de anos em que foi abrindo caminho pelas brechas de um liberalismo que objectivamente é seu aliado. À esquerda, às esquerdas, há que exigir que, com um grande debate sobre o que as separa, combatam o que está na raiz da eficácia do argumentário da direita e da extrema-direita, com políticas económicas que tirem do fosso onde sobrevivem os «perdedores», para usar um adjectivo tão caro aos liberais de qualquer jaez, mesmo sabendo que não há uma relação causa efeito imediata entre a melhoria das condições de vida de milhões de pessoas e a aquisição da consciência do que as atirou para esse fosso. À esquerda, às esquerdas, há que exigir políticas sociais para que os direitos dos trabalhadores sejam repostos, os perdidos e os degradados, revigorando-os com a sua ampliação. Há que exigir políticas económicas em que os sectores estratégicos que, em nome de uma falsa racionalidade gestionária, têm sido privatizados, retornem à esfera pública para se acabar de vez com as políticas económicas neoliberais ou poluídas pela ideologia neoliberal, em que a criação de riqueza é entregue ao capital, a riqueza pública se desgasta e é insuficiente, a capacidade produtiva degenera, os baixos salários persistem. Repor e recompor a democracia que é impossível com tamanha desigualdade entre ricos e pobres. Nada é mais desigual que a igualdade entre desiguais.

Os cancros não se combatem com aspirinas. Fascismo nunca mais, não é palavra de ordem para conforto de um dia, é um combate de todos os dias.

  • 1.Arbeiter-Illustrierte-Zeitung (AIZ), em português Jornal Ilustrado dos Trabalhadores, foi uma revista alemã de carácter antifascista, publicada em Berlim entre 1924 e Março de 1933. Depois da subida dos nazis ao poder continuou a ser publicada até 1938, primeiro em Praga e depois em Paris. As fotomontagens de John Heartfield para a revista ficaram célebres.
  • 2.Deutsche Arbeitsfront (DAF), em português Frente Alemã do Trabalho, foi uma organização do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido por Partido Nazi. Criada em Maio de 1934, após a subida deste ao poder, foi extinta em Maio de 1945, com a vitória dos Aliados. Na notícia da AIZ é designada por Nationalen Arbeitsfront, cuja tradução é Frente Nacional do Trabalho.
  • (publicado em AbrilAbril AbrilAbril | O outro lado das notícias )

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O Cibermundo do Outro Lado do Espelho

Os liberais de antanho e os neoliberais de hoje só relutantemente e quando lhes é impossível subtraírem-se é que se submetem a princípios democráticos, que logo subvertem quando alcançam o poder.

A prisão de Autun, construída no século XIX na cidade do mesmo nome, em França, é um exemplo arquitectural da aplicação do conceito de vigilância exercido pelo olhar panóptico, tal como proposto pelo jurista e filósofo inglês Jeremy Bentham, em 1791
A prisão de Autun, construída no século XIX na cidade do mesmo nome, em França, é um exemplo arquitectural da aplicação do conceito de vigilância exercido pelo olhar panóptico, tal como proposto pelo jurista e filósofo inglês Jeremy Bentham, em 1791CréditosRomain Veillon / Arch Daily

Em finais do séc. XVIII o filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham concebeu o panóptico, um tipo de penitenciária em que único vigilante conseguia observar todos os prisioneiros sem que estes conseguissem perceber quando e se estavam a ser vigiados. O panóptico é um edifício de forma poligonal ou circular em que no seu centro é colocada uma torre onde é instalado um vigilante. O edifício é ocupado por pequenas celas que tanto dão para o interior como para o exterior para que o seu interior esteja sempre iluminado, pelo que o indivíduo aí encerrado está sempre exposto ao olhar do vigilante que o observa protegido por persianas ou postigos semicerrados, quem tudo vê nunca é visto. A eficácia do sistema é os prisioneiros nunca saberem se estão efectivamente a ser vigiados mas saberem de certeza que em qualquer momento o poderão estar, pelo que todos os seus movimentos, todas as suas acções são pelo próprio controladas por submissão ao poder disciplinador do olhar panóptico. Na época, comprovada a eficácia da arquitectura dessa penitenciária ideal, o modelo universalizou-se, começou a ser utilizado nos manicómios, mas é um conceito que, experimentado e institucionalizado, se começou a estender como uma teia de aranha a toda a vida social.

O olhar panóptico estabelece o princípio da observação total, no limite assume o poder integral sobre a vida dos indivíduos. Foucault, em Vigiar e Punir1 analisa o poder panóptico que «deve ser compreendido como um modelo generalizável de funcionamento; uma maneira de definir as relações de poder com a vida quotidiana dos homens. Bentham sem duvida o apresenta como uma instituição particular, bem fechada em si mesma. Muitas vezes se fez dele uma utopia do encarceramento perfeito. (…) O panóptico permite aperfeiçoar o exercício do poder. E isto de várias, maneiras: porque pode reduzir o número dos que o exercem, ao mesmo tempo que multiplica o número daqueles sobre os quais é exercido (…), sua força é nunca intervir, é se exercer espontaneamente e sem ruído (…) vigiar todas as dependências onde se quer manter o domínio e o controle. Mesmo quando não há realmente quem assista do outro lado, o controle é exercido (…), o essencial é que elas se saibam vigiadas.»

«Quem vai a um serviço público ou privado, viaja num meio de transporte, faz um percurso numa rua ou numa autoestrada, detém-se a admirar uma obra de arte num museu ou goza o ar livre num jardim, usa cartões para pagar ou coleccionar descontos, leva consigo o smartphone para se conectar a qualquer hora, tem a sua vida cartografada num mapa algures onde os seus movimentos são registados»

As ferramentas panópticas foram penetrando o quotidiano com o pretexto de defender os cidadãos dos perigos que os poderiam assaltar para que livremente as aceitassem. As ficções de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo2, e Georges Orwell, 19843 anteciparam essa realidade. As câmaras de vigilância vulgarizaram-se nos espaços abertos ou fechados, multiplicando-se os avisos de que se está a ser vigiado como garantia de protecção do bem estar. Quem vai a um serviço público ou privado, viaja num meio de transporte, faz um percurso numa rua ou numa autoestrada, detém-se a admirar uma obra de arte num museu ou goza o ar livre num jardim, usa cartões para pagar ou coleccionar descontos, leva consigo o smartphone para se conectar a qualquer hora, tem a sua vida cartografada num mapa algures onde os seus movimentos são registados. Um registo que pode ser extensivo ao seu habitat pelo olho electrónico do computador que até poderá estar replicado oculto no ecrã da televisão, ou por meio dessa nova comodidade de controlar os utilitários caseiros com os comandos do telemóvel. Tudo pode ser anotado com os aparelhos da vida moderna, com tudo o que existe e tudo o mais que já existe mas ainda é ignorado. O território pessoal da liberdade privada está invadido por uma vigilância de que se não conhece a extensão ou de que se a vai conhecendo parcialmente, quando denunciada por um Julian Assange ou um Edward Snowden, que desacreditam as seguranças que as políticas de privacidade garantem para nos confortarem. É a utopia panóptica no seu máximo esplendor, em que cada um não sabe quando, como e se está a ser controlado. São as cada vez mais apertadas e sofisticadas as teias das super aranhas do novo mundo tecnológico em que se afunilam as escapatórias procurando entaipá-las.

A vigilância aceite e consentida abre todas as portas invisíveis para uma vigilância sem fronteiras nem limites ao serviço dos poderes dominantes. É complementada pelo traçar dos perfis pessoais que quotidianamente se vão riscando, desde a análise dos hábitos de aquisição dos bens de consumo, pelo acesso às facturas, a outras que se oferecem no surfar pelas redes sociais, no uso dos mails e serviços de mensagens, no que se guarda nas clouds. É o bárbaro mundo digital em que cada indivíduo é catalogado pelos algoritmos que incessantemente colectam e rastreiam os dados que consciente e inconscientemente se vão fornecendo até no simples rodar do rato, clicar num site, colocar um emoji. Em que cada indivíduo perde individualidade e se torna idêntico ao perder o seu universo privado num monstruoso sistema que acaba por invadir a sua mente. Muito do que acontece foi e é catalisado sob a capa da perversa, falsa, hipócrita e mafiosa inocência das redes sociais, fica muitíssimo bem ilustrado pela entrevista dada ao Expresso em Dezembro passado – por ocasião da mais recente Web Summit – por Mike Schroepfer, responsável tecnológico (CTO) do Facebook encarregado de «limpar o Facebook do seu conteúdo nocivo», em que disse acreditar que «95, 98, 99% da experiência na plataforma são as pessoas apenas para se manterem em contacto com os seus amigos e familiares», que o lado mau no Facebook existe e que «chega a ser horrível ver o que aparece na plataforma». Esse anjo exterminador que anda a limpar o ódio que emerge no Facebook é o típico legionário do poder dominante neoliberal que, sob a capa de inocências e moralidades, arroga-se da autoridade de ultrapassar qualquer quadro legal para impor as suas leis como facto consumado.

«Tal como na Idade Média, hoje no Terceiro Império» (1934), fotomontagem de John Heartfield (1891-1968) Créditos

Um poder de que os gigantes tecnológicos, da Google ao Facebook e outros que orbitam e dominam o universo digital, se apoderaram como novos senhores feudais no estado actual do capitalismo neoliberal em que se drenam liberdades e direitos sociais e o mundo do trabalho ideal é a uberização. O seu objectivo final é um mundo em que a alienação, na sua acepção mais ampla, seja voluntariamente aceite e onde os trabalhadores sejam exploradores do seu próprio trabalho. Mike Schroepfer é um dos arautos desse novo mundo digital. Quando diz andar a «limpar o ódio» oculta que o seu verdadeiro objectivo, o objectivo desses neo-senhores feudais e do seu clero, é erradicar as lutas induzidas pelo legítimo ódio a este mundo sem dignidade e sem nenhuma dignidade para oferecer de que eles são as sentinelas. A vigarice intelectual é usar os conceitos como abstracções, igualizando o justo ódio4 ao racismo e às xenofobias, o dos escravos gladiadores aos romanos, na revolta conduzida por Spartacus, dos escravos das plantações aos seus senhores, dos judeus aos nazis ou dos palestinianos aos sionistas, um rol extenso e interminável, ao ódio que por inveja alguém pode ter a outro. São os biombos que ocultam, cumprindo os desígnios neoliberais na sua multiformidade, que o que realmente querem é extinguir as lutas provocadas pelo legítimo e mais que justificado ódio a este mundo cada vez mais desigual nas batalhas por um mundo em que se recupere o humanismo contra uma cultura de ilusão que se apresenta como um pensamento mágico de um sistema que quer reduzir a humanidade a uma mercadoria hipotecária em que os homens deixem de afirmar a sua individualidade e o seu progresso pelo trabalho humano.

A dominação digital que perseguem sem fadiga é a afirmação do neoliberalismo, ainda dentro do prazo de validade por não ser previsível o seu fim, herdeiro dos liberais do séc. XVIII, John Locke, Jeremy Bentham, Stuart Mill5, que nunca foram democratas embora pregoando o liberalismo político, as liberdades individuais e o progresso, que deviam ser submetidos ao utilitarismo de uma ética aplicável tanto às decisões políticas como às acções individuais. Esse é o norte nas áreas económicas, políticas e judiciárias do liberalismo. Um relativismo absoluto que os fazia defender ser sempre aceitável, para impor a prosperidade como por eles era entendida, o despotismo, assim como as diversas formas de escravatura directa e indirecta para que a exploração do trabalho fosse o mais lucrativa possível nos diversos enquadramentos sociais e políticos. A economia estaria orientada pelos automatismos das leis do mercado ferreamente controladas e impostas pela lei do mais forte. Os liberais de antanho e os neoliberais de hoje só relutantemente e quando lhes é impossível subtraírem-se é que se submetem a princípios democráticos, que logo subvertem quando alcançam o poder.

«Tudo pode ser anotado com os aparelhos da vida moderna, com tudo o que existe e tudo o mais que já existe mas ainda é ignorado. O território pessoal da liberdade privada está invadido por uma vigilância de que se não conhece a extensão ou de que se a vai conhecendo parcialmente, quando denunciada por um Julian Assange ou um Edward Snowden, que desacreditam as seguranças que as políticas de privacidade garantem para nos confortarem. É a utopia panóptica no seu máximo esplendor, em que cada um não sabe quando, como e se está a ser controlado»

São esses os conceitos base que evoluíram ao longo dos séculos para os estados mínimos neoliberais dominados pelas leis do mercado e do paradigma da iniciativa privada, o que é desmentido pela situação de crise permanente em que o capitalismo vive, em que o Estado é o pronto-socorro que despeja triliões de dólares para salvar o sistema financeiro e os privados proporcionam-lhes fabulosos lucros. O princípio é privatizar os lucros e socializar os prejuízos. Uma evidência que adquiriu extraordinária clareza com a pandemia – para eles uma oportunidade de negócio – que actualmente assola o mundo em que as desigualdades aumentaram brutalmente, o que já era uma evidência em 1980, quando os 1% com mais rendimentos capturaram duas vezes mais ganhos do que os 50% mais pobres. Entre 1988 e 2008, os 10% mais ricos da população mundial apropriaram-se de mais de 60% de todo o crescimento do rendimento mundial. Em 2010, 1% dos mais ricos do planeta controlavam 46% de toda a riqueza mundial. Não há democracia possível numa economia em que há tal desigualdade de poder, realidade que se pretende ocultar com a mercadorização da cultura para consolidar a hegemonia pela modelação da consciência popular. É o fenómeno da globalização que decorre do desenvolvimento capitalista neoliberal, em que se vende a ideia de que a liberdade do mercado seria mais igualitária, quando não há nada mais desigual do que o tratamento igual entre desiguais.O bárbaro mundo contemporâneoLER MAIS

O olhar panóptico de Bentham apurou-se com a concentração da globalização digital em meia dúzia de empresas que vampirizam a vida da humanidade, sugando-a com os algoritmos neste bárbaro novo mundo. O mundo das reformas estruturais que flexibilizam o trabalho sonhando com a sua uberização, em que a vida quotidiana se submete ao marketing e à financeirização. Nesse estado de sítio são nucleares as estratégias de dominação do ciberespaço pela Google, Facebook, Amazon e seus pares, que têm sempre o mesmo alvo: a construção e o apuramento de olhares panópticos para observação e captura de dados. Em nome das inovações sentem-se autorizados a quebrar quaisquer regras estabelecidas, impondo-o como facto consumado. Sentem-se e são autorizados pelo complexo militar-industrial-financeiro do império norte-americano, de que são dependentes e parceiros. Uma osmose que se tem intensificado. Silicon Valley, esse paraíso dos visionários cibernéticos, não seria nada sem a intervenção estatal e os seus fortes investimentos, sobretudo do complexo aeroespacial, que o sustentam e alimentam. As inovações que ali surgem e assombram o mundo têm sempre na sua raiz investigações universitárias que lhes são transmitidas por capilaridade governamental. Todas as gigantescas empresas norte-americanas que dominam o ciberespaço são veículos de informação por onde circula mais de metade da população mundial. Todas têm convénios públicos com a NSA, que depende da Secretaria de Estado da Defesa dos EUA, para coordenar a análise de informação de segurança nacional em todo o mundo e para que os usuários não tenham acesso a informação de baixa qualidade, como «teorias da conspiração, violência, notícias falsas» [sic] e, para o quadro ficar mais colorido, um toque de moralidade: «nus» [sic]. A suprema hipocrisia de um Estado em que os mikes pompeos que desfilam pela Casa Branca não se coíbem de alardear que mentem, trapaceiam, roubam. As actualizações algorítmicas são periódicas para que a acção seja mais fiável e eficaz. Assumem um estatuto de reguladores, de juízes que tecem as suas próprias leis, acima de qualquer debate ou recurso, destruindo e apagando tudo o que considerem contrário às suas ideias, que são as ideias do poder dominante e dos ditames do imperialismo habituado a sancionar em função dos seus interesses tripudiando acordos, tratados, leis internacionais.

Essa é a face visível do olho panóptico. A invisível é o das transacções de informações privadas com a NSA e outros serviços secretos, como Assange e Snowden denunciaram, que se misturam com a venda de informações de perfis pessoais a empórios comerciais. São as turbulências do capitalismo neoliberal lutando pela sobrevivência, em que as supostamente cegas e espontâneas leis do mercado são a farsa que deram aos EUA a liderança unilateral dos últimos decénios. Para que não fiquem dúvidas Andy Rand, um proeminente pioneiro do faroeste cibernético cosmopolita, dispara de língua solta «que o egoísmo é bom, o altruísmo é mau e a empatia irracional». Um outro, Peter Thiel, declarou num texto inserto em Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World: «o capitalismo e a competição são antagónicos. Competição é para os perdedores». É a ilustração da imagem do poder que sentem ter esses novos senhores feudais por dominarem e controlarem as plataformas digitais com o arbítrio de bloquearem os serviços que fornecem e são considerados indispensáveis e as ferramentas do sempre actualizado olho panóptico. São poderosas empresas, algumas com capitalizações superiores ao PIB de muitos países, mesmo alguns do G-7 – que se furtam a pagar impostos nos territórios onde actuam – e como tal negoceiam com os Estados novos modelos de sobrevivência do capitalismo neoliberal monopolista do tecnocapitalismo financeirizado. Para seu suporte está o neo-fascismo em marcha, por vezes ainda vestindo esfarrapados trajes liberais que mal ocultam o desprezo pelas liberdades e a democracia, bem em linha com os primitivos liberais.

Como diz Morpheus no Matrix, «Bem-vindos ao mundo real».

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DGS Direcção Geral de Saúde, Oportunismo Político, populismo, Presidenciais 2021, vacinas

Populismos & Oportunismos

Ana Gomes que anda há muito tempo mascarada de Zorro de saias espadeirando a torto e a direito com tweets, onde dizem ser uma das mais activas e influentes numa lista liderada por Rui Tavares — o que diz muito das armas que essa gente usa para adquirir notoriedade entre a constelação de famosos e inchar como o sapo da fábula – arranca a mascarilha e fez um espaventoso tweet sobre o tráfico pessoal de uma vacina da gripe em que demonstra toda a estatura anã da sua ética, abre as portadas das janelas da sala de onde debita sentenças para se ver que por debaixo da espartilho Ana Gomes quem, de facto o veste é o conselheiro Acácio, uma fraude disfarçada de justiceira tal qual o pirata informático que tanto acalanta.

«Farta de esperar disponibilidade em farmácia onde me inscrevi em Setembro, acabei de tomas vacina C/ gripe, trazida por uma amiga de França. Pior que tudo foi ouvir de farmacêutica q há vacinas, mas reservadas p/ certas pessoas de certas empresas, q, as compraram. Como é que é @DGSaude?»

Salte-se por cima do português solavancado desta candidata a Presidente da República, para se atentar na esperteza saloia que finaliza o tweet: «Como é que é @DGSaude?» Devia saber, se não sabe é mais uma cruz a juntar a muitas outras na sua lista pessoal insciências, que a D.G. de Saúde não tem entre as suas competências alguma que se relacione com o comércio dos fármacos em toda a sua linha. Não resiste a piscar furiosamente os olhos até o rimel começar a pingar, a todos os que, já antes da pandemia, criticavam a D.G. de Saúde para atacar de cernelha o Serviço Nacional de Saúde. Fica-se a perceber a sua afirmação «espero ter votos à direita. Tenho muita gente à direita que se revê na minha candidatura, e eu, naturalmente, não os quererei desapontar». Com tweets deste jaez não desaponta nem nunca os desapontará, será mesmo recebida de braços abertos, beijinhos e restante panóplia de inequívocos sinais de amizade pelos bastonários das ordens dos Médicos, Enfermeiros e Farmacêuticos que só não lhe darão publico amparo porque o seu candidato poderá ser outro, mas ela estará sempre nos seus corações.

Outra nota a esse tweet é Ana Gomes, que é jurista e exerceu vários cargos políticos, considerar que tem privilégios especiais que a autorizam a fazer contrabando de alguns bens, como o é uma vacina que, como qualquer outro fármaco, só pode entrar em Portugal depois de devidamente autorizado pelo Infarmed. Nada mau para uma candidata a Presidente da República declarar publicamente que está acima de qualquer lei. Isto para quem vomita sentenças a toda a hora sobre o Estado de Direito só esclarece que Estado de Direito sim, só para alguns desde que não atinjam as anas gomes e o seu círculo de indefectíveis, para onde se deve começar a olhar mais atentamente para se perceber as curvas e contracurvas retóricas em que se emaranham para lhe dar apoio e quem de facto são.

Muitos eram os sinais do populismo descarado de Ana Gomes, território em que concorre duramente com outro candidato que por aí se descabela como ela dentro do “sistema” mas contra o “sistema”, que dela só se diferencia por centrifugar o populismo com xenofobia, racismo e outros itens de similar quilate, e mais almofadadamente com um outro mais finório nessas andanças, sempre bem sentado no cadeirão do sistema.

A inscrição no tweet « q há vacinas, mas reservadas p/ certas pessoas de certas empresas, q, as compraram.» é uma denúncia que indicia corrupção, no mínimo favorecimento indevido. Ana Gomes atavia-se com o tom chocarreiro das conversas de café, de vão de escada em que às provas concretas se diz nada para alimentar um clima de generalizadas suspeitas, de concessão ilegal de privilégios a uns tantos, colocar na linha da frente a imoralidade que campeia a galope num pântano em que anda tudo a gamar mas só alguns, os desprotegidos, são apanhados, só se safam os que andam de mãos dadas por debaixo das mesas selando compadrios e esquemas indecorosos. Seria ingénuo supor que Ana Gomes, com este tweet, não saiba muitíssimo bem o que quer alcançar para somar mais uns pontos aos seus comentários televisivos que, mesmo depois da sua declaração de candidatura à Presidência da República, continua a fazer para dar mais umas pinceladas de cola nos cartazes que a publicitam e aproveitar o balanço para dar umas caneladas nos outros candidatos seus concorrentes. São os ritos da molenga probidade da dama que agora, de forma evidente, como antes de talhe camuflado, alinha e alimenta um clima de suspeição generalizada ministrado em várias tonalidades, das mais ligeiras às mais carregadas, pela generalidade da comunicação social corporativa e explorado a fundo por alguns personagens que vão adubando os falatórios “de eles andam todos ao mesmo…mudam as moscas, etc, etc, “ o que favorece sobretudo a extrema-direita.

Desde há muito tempo que Ana Gomes, embora com um populismo mais lapidado, concorre com os populistas mais avacalhados, o que instala e contribui objectivamente para a meteorologia de uma desconfiança vulgarizada, que dificilmente um qualquer anticiclone dos Açores consegue varrer. É seu timbre fazer processos de intenção a torto e a direito, a todo o mundo e a ninguém, avalizando bandidozecos que atacam bancos e empresas para extraírem benefícios inconfessáveis, violam correspondência privada de quem quer que seja, de escritórios de advogados à caixa de correio da Procuradora-Geral da República e outros elementos do Ministério Público, em autênticos atentados ao Estado de Direito, o que não deixa de ser um bom farol para iluminar os caminhos por onde navega esta candidata a Presidente da República. Os outros, ou melhor entre outros, são a defesa do federalismo europeu onde Portugal será o reino das Berlengas, a desmultiplicação de acções e argumentários em prol do mundo livre a estender as suas garras da Jugoslávia à Ucrânia, da Síria ao Afeganistão, as revoluções coloridas, é um rol de roupa suja que carrega alegremente. Temos candidata a alojar-se no Palácio de Belém, uma candidata de alto lá com ela!!!

Alguns podem considerar chocante este tweet de Ana Gomes a correr sem freio nos territórios dos populismos onde no fim da estrada estão à sua espera os verdadeiros corruptos, concedendo-lhes o benefício da dúvida de não terem percebido que ali sempre esteve bem escorada. Agora, com esta exibição que não deixa margem para dúvidas que está alinhada com o mais desenfreado populismo da ligeireza criminosa que atira às urtigas o respeito pelo bom nome, da presunção de inocência, da defesa de instituições do Estado há que saber, sobretudo observar, quem continua a dar apoio público aos oportunismos e populismos desta candidata a ser o mais alto magistrado da Nação que, lembre-se, jura cumprir a Constituição, é o garante da independência nacional, da unidade da Nação e do Estado, do regular funcionamento das instituições, atribuições completamente desenquadradas do, repita-se e sublinhe-se, populismo puro e duro de Ana Gomes.

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Requiem para a Democracia

America First e Make America Great Again de Trump e a promessa de Biden que os EUA vão voltar a liderar o mundo há diferenças de forma, as de fundo permanecem inalteradas.

Metropolis, George Grosz
Metropolis, George GroszCréditosGeorge Grosz

Oespectáculo das últimas eleições nos EUA, com todos os lances da campanha eleitoral desde as primárias à tumultuosa transmissão de poderes entre os candidatos, é a demonstração de como a democracia, como é entendida no auto-proclamado «mundo livre», está agónica.

Rousseau, que com Montesquieu lançou as bases da democracia como ainda hoje nos seus traços gerais e nas suas variantes é prática corrente, princípios impulsionados pela Revolução Francesa, quando a burguesia que já detinha o poder económico ascendeu ao poder político e com o parlamentarismo em prática na Inglaterra, um longo processo histórico iniciado com a Magna Carta e que culminaria na instituição de uma monarquia constitucional, viu claramente os limites dessa democracia. Refugiado em Inglaterra, acusado em França de afronta aos costumes morais e religiosos pelos contra-revolucionários que tinham tomado de assalto o poder, observando o funcionamento do parlamentarismo inglês, mesmo considerando que era um grande passo no avanço civilizacional comparado com a situação anterior, analisou com grande lucidez esses limites em O Contrato Social: «os representantes do povo não são, nem podem ser, seus representantes, não passam de seus comissários, nada podendo concluir definitivamente. É nula toda a lei que o povo não ratificar directamente; em absoluto não é lei. O povo inglês pensa ser livre e muito se engana, pois só é durante a eleição dos membros do parlamento, uma vez eleitos ele é escravo, não é nada. Durante os breves momentos de sua liberdade, o uso que dela faz mostra que merece perdê-la». Rousseau, para ultrapassar esses impasses, postula «no exercício do poder legislativo, o povo não pode ser representado, mas no poder executivo, o qual é a única força que é aplicada para tornar a lei efectiva, ele pode e deve estar representado (…) a liberdade não pode existir sem igualdade».

«Na actualidade [as desigualdades económicas] têm-se agravado brutalmente com a enorme concentração da riqueza num número reduzido de plutocratas, num mundo em que há empresas cuja capitalização é maior que o PIB de muitas nações, mesmo algumas integrantes do G-20, e em que o fosso entre ricos e pobres aumenta exponencialmente. A grande evidência é que nada é mais desigual que a igualdade entre desiguais»

O nó górdio é que no capitalismo as desigualdades económicas são integrantes do sistema, desde essa época até aos nossos dias. Na actualidade têm-se agravado brutalmente com a enorme concentração da riqueza num número reduzido de plutocratas, num mundo em que há empresas cuja capitalização é maior que o PIB de muitas nações, mesmo algumas integrantes do G-20, e em que o fosso entre ricos e pobres aumenta exponencialmente. A grande evidência é que nada é mais desigual que a igualdade entre desiguais. Com tamanhas desigualdades a democracia é impossível no quadro da democracia burguesa, quaisquer que sejam as variantes da representação democrática, do voto mais universal, mais representativo da vontade popular, às que o condicionam com desenhos de círculos eleitorais em que com menos votos expressos se elegem mais deputados para garantir a hegemonia das forças mais conservadoras, ou com o sistema de colégio eleitoral nos EUA, onde não há correspondência entre o número de votos obtido por um candidato, podem ser milhões a mais, e a sua eleição. Marx denunciou ferozmente a democracia formal das sociedades burguesas sublinhando que o que é dado ao proletariado e às massas populares é a liberdade de votar nos seus carrascos.

«[Entre Trump e Biden] há diferenças de forma, as de fundo permanecem inalteradas, são comandadas pelo complexo industrial-militar-financeiro de que eles são desiguais executantes, Distinções mínimas, separadas por finíssima folha de papel de arroz. Com um ou com outro, o mundo continua ameaçado pelo imenso poderio militar de uma potência económica e tecnológica em decadência»

reality show das últimas eleições presidenciais norte-americanas, da selecção dos candidatos à certificação dos resultados, é o espectáculo deprimente de um requiem para a democracia. Espectáculo encenado, coreografado e financiado pelos oligarcas – 1,51 milhares de milhões de dólares para a campanha de Biden e 1,57 milhares de milhões de dólares para a de Trump – que detêm de facto o poder e tudo confeccionam para fazer acreditar aos eleitores que fazem escolhas. Há diferenças entre os protagonistas? Há, claro que há. Trump é um proto-fascista inepto, desonesto, uma ameaça para a democracia ainda que formal. Biden tem um perfil de sonsa submissão a essa democracia mas foi um falcão como presidente da Comissão para as Relações Externas do Senado, ainda com Bush presidente, falcão que nunca deixou de voar como vice-presidente de Obama, promovendo guerras, bombardeamentos, revoluções coloridas que destruíram países ou fizeram ascender ao poder partidos neo-nazis. Entre o America First e Make America Great Again de Trump e a promessa de Biden que os EUA vão voltar a liderar o mundo há diferenças de forma, as de fundo permanecem inalteradas, são comandadas pelo complexo industrial-militar-financeiro de que eles são desiguais executantes, Distinções mínimas, separadas por finíssima folha de papel de arroz. Com um ou com outro, o mundo continua ameaçado pelo imenso poderio militar de uma potência económica e tecnológica em decadência, mesmo que um seja preferível ao outro por mais previsível, por anunciar ir repor, ver-se-á em que quantidade e de que forma, acordos internacionais que o outro com grande estardalhaço tinha rasgado. As guerras económicas iniciadas por Trump serão outras, os equilibrismos entre proteccionismo e globalização seguirão o seu curso por outras veredas. As interferências noutros países, os boicotes a países como Cuba não serão levantados, Biden alarve e sintomaticamente proclama que Fidel de Castro é igual a Trump. A luta contra as ameaças climáticas que um negava contra todas as evidências científicas, ressurgirão com o outro que empunha essa bandeira como lucrativo negócio nos subterrâneos dos acordos de Paris, quando se fica a saber que as 250 maiores empresas do mundo controlam as unidades mais poluidoras que geram 86% das emissões, um terço são activos de fundos especulativos financeiros globais, BlackRock, Vanguard, State Street Capital e que 1% da população mundial, a que é super rica e que à vez apoia Biden ou Trump, causa metade das emissões de CO2 da aviação, o que enfatiza que o capitalismo não é verde e recorda Chico Mendes, sindicalista-ambientalista brasileiro, assassinado em 1988, quando afirmou que «ambientalismo sem luta de classes é jardinagem».

O totalitarismo democrático tem a sua expressão mais acabada na democracia espectacular dos EUA. Um supermercado em que a liberdade, as liberdades são as que o mercado vende, em que os cidadãos são aceites e tolerados unicamente enquanto participam da ilusão de que vivem numa democracia participativa, como extensivamente o demonstrou Sheldon Wollin que o classifica como o totalitarismo invertido. Para quem se recusa a participar dessa ilusão «o rosto do totalitarismo invertido parecerá o rosto dos sistemas totalitários do passado». Um supermercado da democracia, em que as liberdades são uma máscara, em que não há lugar para dissidências, em que dois partidos se alternam para prosseguir políticas similares numa sociedade uniformizada, inerte, portadora de um mesmo conjunto de opiniões comandadas pelo domínio total dos plutocratas nas formas de comunicação tradicionais e nas de interacção digital que impõem a uniformidade de opinião com o trabalho eficaz e circense dos malabaristas que jogam bolas todas iguais de cores diferentes para ofuscar o estado de sítio.

O exemplo mais acabado de um universo concentracionário, modelo de públicas virtudes e vícios privados, que tem o objectivo de encerrar a humanidade no silêncio do excesso de ruído com que querem ensurdecer a democracia que, mesmo nas suas formas mais mínimas, se degrada.

E a esquerda? A esquerda, numa acepção de crivo de malhas muito largas, assiste ao espectáculo e agora aplaude com ambas as mãos Biden, sentada sobre esperanças que irão naturalmente escambichar. Tem por maioria de razões razão (passe o pleonasmo) em preferir Biden. Isso está fora de questão. Perde essa razão quando embandeira com arcos e balões na sua eleição sem se resguardar por ter perdido memória dos encómios que estenderam o tapete a Obama até ao cadeirão do nobel da paz, paz que estraçalhou com fragor nos seus dois mandatos.

«À esquerda, para lá de todos os acordos e desacordos, convergências e divergências, tem que se exigir que construa um projecto de luta e transformação política do existente. Não pode continuar sentada a ouvir tocar o Requiem para esta democracia nos seus diversos formatos, que se toca em todos os Teatros do Tempo e agora soa bem alto nos EUA»

Paradoxalmente hoje nem é difícil ler em livros, revistas e jornais análises realistas e incisivas sobre a condição actual nas nações, no Ocidente, no mundo, sobre o lugar ocupado pelos EUA no aprofundar dos problemas e dramas de nosso presente, em que há um esvaziamento da democracia, em que à crise política acresce a crise económica, em que se regride com a subordinação às grandes fortunas e à plutocracia. Exemplo recente são as Teses apresentadas e debatidas no XXI Congresso do PCP, a melhor reflexão política sobre o estado de sítio até agora feita em Portugal. A questão central que se coloca é outra. Se as Teses tornam evidente que o PCP é força necessária e imprescindível para uma alternativa de esquerda também demonstram que naturalmente não é suficiente para essa alternativa. Uma dificuldade que não é um exclusivo nacional. Está na ordem do dia no Ocidente, no mundo. As análises, por melhores que sejam, são insuficientes. À esquerda, para lá de todos os acordos e desacordos, convergências e divergências, tem que se exigir que construa um projecto de luta e transformação política do existente. Não pode continuar sentada a ouvir tocar o Requiem para esta democracia nos seus diversos formatos, que se toca em todos os Teatros do Tempo e agora soa bem alto nos EUA. Não pode extasiar-se com um dos extraordinários Requiem’s do Cherubini1, admirados por Beethoven, Schumann ou Brahms, sem atentar na venalidade do seu autor, que é o que contumazmente faz para adiar o que é inadiável. A esquerda, as esquerdas têm que perceber que o que ouvem também é o Requiem que a direita, as direitas estão a ensaiar. Exige-se que percebam, como as esquerdas revolucionárias por todo mundo o apreendem adequando as suas lutas aos enquadramentos políticos específicos, que, como a história demonstra, as sociedades capitalistas neoliberais variam entre tanto serem limitadamente libertárias como não hesitarem em recorrer aos extremos mais repressivos, tanto se apresentarem múltiplas como monolíticas, modalizando-se conforme as geometrias dos enquadramentos sociais, económicos e políticos resultantes dos avanços e recuos da luta de classes, para que a exploração da força de trabalho se mantenha intocada. Têm que se empenhar numa urgente e necessária transformação da democracia, ainda que de forma gradual, por vezes até fragmentária, não se ausentando de todas as lutas e em todos os planos por uma democracia avançada.

  • 1.Luigi Cherubini (Florença, 1760 – Paris, 1842) tinha tanto de excelente músico como de venal. Vendia-se com facilidade e desfaçatez a quem estava no poder. Na Revolução Francesa ocultou a suas ligações e a admiração que tinha pela antiga aristocracia, procurando compromissos com os revolucionários, escrevendo mesmo música patriótica por mais de uma década. Bajulou Napoleão e o Império que enterrou a Revolução, para logo tudo renegar em favor dos Bourbons.

(publicado em AbrilAbril AbrilAbril | O outro lado das notícias )

TÓPICO

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TRUMP, NUNCA MAIS!!!

O que estas eleições nos EUA desnudam é um país em que o poder se joga numas eleições viciadas por um sistema gravemente doente em que os votos expressos acabam por ser irrelevantes para eleger o seu dirigente máximo. Um candidato que angaria milhões de votos a mais a seu favor pode não ser o eleito. Para nós europeus, como para a esmagadora maioria dos países do mundo, é uma perversidade que não se prevê ser desmontada por qualquer dos dois partidos daquele totalitarismo bicéfalo. Os lances a que se assistem com as acusações de fraude são, sonora e fundamente vistas como golpadas para ganhar na secretaria o que nas urnas não se conseguiu. Só não são patéticas porque são assustadoras quando é transparente que as secretarias foram, a todos os níveis, subvertidas nestes quatro anos de mandato trumpesco preparando o terreno para garantir a sua continuidade num terreno armadilhado. Qualquer democrata, em qualquer parte do mundo e independentemente do seu posicionamento político, deve ficar seriamente preocupado. Os EUA não são um país qualquer. Eram, ainda recentemente, a maior potência económica e continuam a ser a maior potência militar.

Se tudo isto não fosse suficiente para as mais sérias ansiedades há que atentar que Trump, mesmo que não seja reeleito, o que todos esperamos e desejamos depois de ultrapassados todos os truques jurídicos, truques possíveis pelas leis em vigor e pela manipulação também legalizada na nomeação dos seus gestores principais, não significa um fim de uma era. Os mais de 70 milhões de votos que arrecadou são um alarme e dão que pensar. É uma grande base de apoio ainda por cima colectada entre muitas das vitimas das suas políticas que favoreceram descaradamente os mais poderosos e ricos. Trump está à beira de garantir uma maioria republicana no Senado, perdeu por pouco nalguns estados, Arizona, Geórgia e Pensilvânia, travou a onda democrata com muitos sonhavam, isto significa que tem uma base sólida de apoio e tropas de choque dispostas a tudo. Até para a Câmara dos Representantes foi eleita uma QAnon, um movimento de extrema direita. A extrema direita que se Trump ganhasse iria ser incrementada por aquele proto-fascista, xenófobo, misógino, racista que ocupou a Sala Oval durante quatro anos, mas que continua a existir e é activa.

Interessa saber como tudo isso foi possível. Como foi possível não haver um repúdio generalizado do trumpismo. Como há a probabilidade de Trump continuar para lá de Trump. Se os democratas dos EUA não perceberem essa realidade, se persistirem em aprofundar as divisões internas, como Alexandria Osorio-Cortez, da esquerda do Partido Democrata – que não se deve confundir com a esquerda norte-americana que muito contribuiu para a vitória de Biden-Kamala – já denunciou, as nuvens acumulam-se no futuro e o trumpismo, com Trump ou outro Trump qualquer – candidatos não escasseiam por aquelas bandas – pode aspirar a voltar ao poder para mal dos EUA e do mundo. O Partido Democrata tem que perceber que Trump derrotou Hilary Clinton porque falava para os americanos. Falava para os brancos e ricos, mas era entendido pelos americanos deserdados e pobres de todas as cores de todas as raças, de todos os géneros. Quando chegou ao poder viu-se bem para quem falava e os ricos adquiriram privilégios que aumentaram exponencialmente a sua riqueza, para os pobres e deserdados a devastação foi brutal mas não se traduziu em votos, na esperada e não acontecida onda azul. Têm que perceber o valor da retórica em democracia que pode mesmo ser utilizada para a corroer até a destruir. Uma lição que ultrapassa as fronteiras dos EUA e que deve ser entendida na Europa onde a extrema direita cresce com essa retórica que já existia mas andou a ser exponenciada nas digressões de Steve Bannon pelo seu continente. O erro de Hilary Clinton e dos neoliberais foi confundirem as lutas identitárias com as lutas de classe, negarem a luta de classes substituindo-as pelas lutas identitárias, o que não é nem nunca será entendido pelos americanos homens da rua que esses sofrem na pele a exploração sejam de que cor forem, de que raça forem, de que género forem. Foi essa retórica política responsável pela derrota que sofreu. Uma advertência que por estas bandas deve ser aprendida, os vícios são os mesmos cá ou lá. Se não foram novamente derrotados foi porque os americanos não votaram em Biden votaram contra Trump, contra a desumanidade e ferocidade das suas políticas responsáveis pelo alastrar da pobreza. Mesmo assim a onda azul foi muito, mesmo muito pálida. Aparentemente a esquerda, a muito frágil esquerda dentro do Partido Democrata começa a perceber que as lutas identitárias são sempre e em primeiro lugar lutas sociais e de classe e os desiludidos pelas trapaças a que Bernie Sanders foi sujeito e se abstiveram em 2016, provavelmente até convencidos que Clinton venceria, agora não se abstiveram. Isto visto à distância e sem mais elementos concretos que permitam uma avaliação ainda mais sustentada.

Para já congratulemos-nos com a derrota de Trump, uma congratulação sem rasuras mas sem grandes ilusões no que no imediato irá mudar nas políticas norte-americanas, que serão mais importantes no plano interno que no plano externo, mas de olhos bem abertos nos anos futuros em que os norte-americanos têm que dar passos decisivos para que o trumpismo seja definitivamente enterrado nos EUA o que também terá repercussões nas democracias, nas suas variedades e diferenças, mundo fora. Trump, nunca mais!!!

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O BÁRBARO MUNDO CONTEMPORÂNEO

A cultura afunda-se no pântano. Os dramas dos trabalhadores e dos deserdados da vida, a desgraça moral do capitalismo, os sonhos utópicos foram rasurados da literatura, do cinema, das artes visuais.

«Livros em todos os ramos do conhecimento» (1924), cartaz de Alexandre Rodchenko (1891-1956) para a editora Edições do Estado, de Leninegrado. A mulher na foto, Lilya Brik, foi considerada a musa do movimento artístico de vanguarda russo
«Livros em todos os ramos do conhecimento» (1924), cartaz de Alexandre Rodchenko (1891-1956) para a editora Edições do Estado, de Leninegrado. A mulher na foto, Lilya Brik, foi considerada a musa do movimento artístico de vanguarda russo Créditos/ gazeta.ru

Há uma história chinesa sobre um monge, considerado o mais sábio entre todos, que se distinguia pelo seu hermético silêncio enquanto a idade avançava. O monge, perto do fim da vida, permanecia no seu irredutível mutismo. Os monges ávidos da sua ciência rodeavam o seu leito, pedindo-lhe uma palavra, uma só palavra que concisamente sintetizasse todo o seu saber. Num último alento o monge diz: Fogo. O mosteiro imediatamente começou a ser consumido pelas chamas. Os monges, surpreendidos pela combustão, vão combatê-la, abandonando o sábio. Se este sucesso acontecesse nos nossos dias é mais que provável que os monges submergidos pela peste da algaraviada da comunicação social e das redes sociais, com a perda da força cognitiva que nivela a linguagem pelas fórmulas mais genéricas e anónimas, pelo imenso ruído que, a todas as horas, apaga o fogo das palavras, não conseguissem perceber o monge e fossem consumidos pelo incêndio.

Esse é o estado de sítio actual. Um processo insidioso que se começa a desenhar nos últimos decénios dos anos 50 e que foi avançando até finais dos 80 com os estados a demitirem-se da definição de políticas públicas transitando-as progressivamente para o sector privado que tem por máxima a lógica inexorável do mercado, em que a única hierarquia é o que é vendável com impacto máximo e obsolescência quase imediata. São os anos em que a globalização se impõe. É a situação histórica da passagem do modernismo para o pós-modernismo. Enquanto, numa extensão sem precedentes, cada vez mais habitantes do planeta perdem a esperança e são atirados para a exclusão, a riqueza global vai-se concentrando num número cada vez menor de mãos. Nada é mais desigual que a igualdade entre desiguais nem há democracia possível com tamanha desigualdade.

«Enquanto, numa extensão sem precedentes, cada vez mais habitantes do planeta perdem a esperança e são atirados para a exclusão, a riqueza global vai-se concentrando num número cada vez menor de mãos. Nada é mais desigual que a igualdade entre desiguais nem há democracia possível com tamanha desigualdade»

Em nome da racionalização e da modernização da produção, está-se a regressar ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Uma nova ordem económica emerge e começa a impor-se com violência crescente. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Megas pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto a lógica do investimento. A nova ordem é fanática e totalitária. Para esta nova ordem capitalista são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos, proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, as revistas de glamour, a música internacional nos sentimentos e americana na forma, os programas radiofónicos e televisivos prontos a usar e a esquecer, o teatro espectacular e ligeiro, o cinema mundano, a arte contemporânea em que a forma pode ser substituída por uma ideia e a personalidade do artista enquanto garante do valor da mercadoria artística que atravessa fronteiras, em que a arte, as artes e as letras, são usadas a mais das vezes para legitimar empresas e marcas do capitalismo, a informática inicia um processo irreversível de popularização, o conservadorismo moral procura impor os seus códigos. É a universalização da cultura anglo-saxónica com os EUA no comando, que a usam como instrumento de subjugação, com o objectivo extremo de dispensar a necessidade de exércitos de ocupação. Vive-se num «casino cósmico», como o definiu concisamente Georges Steiner.

Um «casino cósmico» em que se promoveu a estetização do mundo social, político, económico, em que tudo é espectáculo. O crescimento do consumo estetizou e generalizou a percepção, o olhar exigente e crítico, cegando-o num voyeurismo obcecado pelo hiperconsumo sempre em viagem pela vertigem bulímica das novidades. Foi esse o trabalho das indústrias culturais e criativas, bem percepcionado por Adorno e Horkheimer1 e ainda mais bem clarificado nas teses de Lukács sobre a manipulação social2, em que a cultura e arte se tornaram elementos de normalização e controlo social e de legitimação das empresas capitalistas, até a cultura se transformar num turbilhão de resíduos que invade o quotidiano multiplicando-se «gloriosamente no vazio contra o qual nos protege dissimulando-o», como Blanchot teorizou.

Labirinto, Bartolomeu Cid dos Santos CréditosBartolomeu Cid dos Santos /

Um labirinto construído muro a muro, impasse a impasse, em que se procura aprisionar definitivamente a humanidade. Para isso muito contribuíram as teses pós-modernistas que, travestindo-se de muito avançadas, são uma operação ideológica que renuncia às lutas de classe, desqualificando-as, encerrando-as nas micro e macro estruturas da linguagem, que negam a relação dialéctica entre infraestrutura e superstrutura, com a consequência política de desembocarem numa amálgama de conformismo e acomodamento com o estado de sítio da sociedade actual, de onde se deserta do exercício da crítica e de uma transformação radical da sociedade, como os marxistas têm enunciado e que está impressa nas lutas empreendidas pelas esquerdas consequentes.

«O vertiginoso processo do metabolismo político e sócio-cultural é um processo de submissão que refinadamente inculca a insustentável leveza de uma falsa sensação de liberdade, de facto controlada pelo olhar panóptico do algoritmo, que tem a férrea lógica política social e ética do pensamento dominante»

Os labirintos são espaços em que nos perdemos mas também onde também nos defendemos, como nos mostra Stanley Kubrick no filme Shining. O minotauro da ideologia burguesa do neoliberalismo também o sabe, pelo que a porta de saída do seu labirinto abre para o campo de concentração do mundo digital onde distribuem em doses industriais o novo ópio da humanidade. Em que as redes sociais são o seu princípio mais activo, onde a alienação se espalha como um cancro por todas as actividades humanas até ao extremo limite da alienação de si próprio que voluntariamente se assume no consumo digital, em que, nas redes sociais, a vida de cada é um se expõe como um reality show aberto aos continentes sem limites de seguidores e amigos virtuais – a alienação dos amigos reais – que se colhem como papoilas e de quem se esperam aprovações ou desaprovações em emojis e comentários. É o grau zero do social em que tudo acaba por ser idêntico sem experiência alguma, sem conhecimento algum. É a mimetização, ainda que subconsciente ou mesmo inconsciente, dos tiques que fazem os famosos famosos. Uma degradação do star-system com que o cinema fabricou produtos para serem consumidos, em que coexistiam estandardização e singularidade, para produzir fascínio, desejo, emoção, prazer. Eram constelações de estrelas a que, com hiperestetização do mundo, se começaram a agregar estrelas que começaram a aflorar em todas as práticas, das artes às cozinhas, das ciências aos cabeleireiros, até o céu ficar entulhado e as constelações embaciarem os seu brilho fictício em imensas galáxias de tristes e pálidas famas alimentadas pelos media e pelas redes internéticas. Um processo generalizado promovido pelo capitalismo neoliberal que é bem visível nas marcas de moda para o grande público que copiam os códigos de luxo, no bullying cultural de um quotidiano grávido de imagens, músicas, concertos, lugares da arte, livros, filmes, museus, degustações tudo nas vagas da moda onde se vai perdendo identidade e significado nos códigos dos conceitos em que as ideias são suicidadas.

Uma inflação de oferta consumidora em que trabalham as indústrias culturais e criativas criando produtos com estilo sempre a gritar o último grito, vendendo um entretenimento pronto a usar e a esquecer nos jogos de sedução filtrados pelas estratégias do marketing que sobrevaloriza a distracção para destruir as políticas culturais de democratização da cultura substituindo-as por uma cultura do divertimento submetida ao capitalismo artístico de uma hipercultura comunicacional e comercial em que tudo se degrada.

O vertiginoso processo do metabolismo político e sócio-cultural é um processo de submissão que refinadamente inculca a insustentável leveza de uma falsa sensação de liberdade, de facto controlada pelo olhar panóptico do algoritmo, que tem a férrea lógica política social e ética do pensamento dominante que é imposto pelos novos senhores feudais do universo digital, que ameaçam tanto o trabalho físico como o espírito humano para que a perda de esperança colectiva seja uma realidade. Para as esquerdas é imperativo denunciar e desocultar o objectivo último das políticas neoliberais: fazer coincidir a dominação com essa ilusão de liberdade. Um complexo e sofisticado mecanismo que faz com que os envolvidos, por via de regra, pareçam não entender exactamente no que estão envolvidos enquanto protagonistas e que Mészàros3 considera ter atingido um ponto praticamente incontrolável, e nem Orwell, com toda a sua lucidez, sequer conseguiu antever, mesmo quando considerava que «para sermos corrompidos pelo totalitarismo, não temos que viver num país totalitário».

«Os labirintos são espaços em que nos perdemos mas também onde também nos defendemos, como nos mostra Stanley Kubrick no filme Shining. O minotauro da ideologia burguesa do neoliberalismo também o sabe, pelo que a porta de saída do seu labirinto abre para o campo de concentração do mundo digital onde distribuem em doses industriais o novo ópio da humanidade»

A comunicação social é um aparelho de propaganda que faria Goebbels ficar roxo de inveja pela sofisticação que, mesmo para os mais aparelhados, torna difícil descodificar os seus complexos registos, que mascaram com eficácia a sua falta de autonomia, a sua absoluta submissão aos poderes dominantes e ao pensamento único, fingindo cinicamente uma independência e imparcialidade que procura transformar os seus consumidores em replicadores.

A cultura afunda-se no pântano do visionamento bulímico em que não se questionam os fundamentos do modo vida ocidental. Os dramas dos trabalhadores e dos deserdados da vida, a desgraça moral do capitalismo, os sonhos utópicos foram rasurados da literatura, do cinema, das artes visuais. As excepções de um Harold Pinter, um Ken Loach, um Picasso, confirmam a omnipresença da regra de que a arte política não produz arte boa, como proclama a unificada e normalizada linguagem internacional da crítica.

O trabalho, no neoliberalismo, aprofunda a escravizante subordinação dos indivíduos à divisão do trabalho e da divisão entre trabalho intelectual e manual, em que a alienação e desrealização dos trabalhadores atingem o seu alfa e o seu ómega na lógica ultra-perversa da uberização em que o trabalhador se torna um explorador de si-próprio.

A interconexão digital viaja por toda a parte numa comunicabilidade irrestrita que não leva a lado nenhum, perdendo-se em vivências e estímulos em que tudo se nivela afivelando as máscaras do ser diferente para se tornar idêntico, fragmentando o tempo e as estruturas do pensamento, babelizando o conhecimento condicionado pelas respostas dos motores de busca.

O caminho é o do totalitarismo democrático de que o totalitarismo bipartidário dos EUA é o exemplo mais acabado deste universo concentracionário em que se procura encerrar a humanidade atirando-a para o silêncio do excesso de ruído com que a querem ensurdecer. Mas há que lembrar que, como dizia Herberto Hélder, «o silêncio é que recebe tudo».

Há que resistir, resistir sempre e em todos os momentos, em todos os lugares, com todas as armas e ferramentas, mesmo as que o inimigo usa, sem desertar de nenhum campo de batalha. Há que resistir de forma organizada porque, como afirmou Álvaro Cunhal, «sem organização podem fazer-se “coisas”. Mas não se podem lançar grandes lutas, dar-lhes continuidade, elevá-las a um nível superior».

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/)

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Um Caminho de Trevas

O bastonário da Ordem dos Médicos aproveita os graves problemas que o SNS enfrenta com a epidemia não para defender o seu robustecimento, mas o negócio dos privados na saúde.

Gravura «Um amante zeloso», de Bartolomeu Cid dos Santos, ponta seca/água tinta, 1975.
Gravura «Um amante zeloso», de Bartolomeu Cid dos Santos, ponta seca/água tinta, 1975. Créditos/ Bartolomeu Cid dos Santos

Ocoronavírus é uma espécie invasora da vida. Uma ameaça que, pela densidade e velocidade da sua propagação, introduziu uma perturbação universal que promoveu alterações substanciais nas movimentações na superfície da terra, com uma travagem desmedida na actividade económica e brutais restrições nos direitos e liberdades, que exploram o natural instinto de sobrevivência de todos para que as aceitem sem resistências significativas.

A actividade económica, com desiguais solavancos, vai sendo retomada. Uma retoma que tem tornado evidente a falência do receituário neoliberal e a importância do Estado definir políticas públicas de investimento e de defesa dos trabalhadores, se realmente quer menorizar os inevitáveis impactos que uma crise com esta extensão provoca no tecido económico de qualquer país, maior ainda quando esse tecido tem sido puído por dezenas de anos de governos de centro-direita e de direita, como é o caso de Portugal. Uma evidência que alarma os neoliberais de vários matizes que, controlando os meios de comunicação social e estando bem ancorados no chamado serviço público dos media, tentam por todos os meios desvalorizar as evidências quando as não podem negar.

O real perigo é que algumas das medidas de emergência para conter a propagação do contágio, que têm sido adoptadas e aceites, passem a fazer parte do quotidiano. Instalou-se um clima de medo potenciado pela comunicação social corporativa com os relatórios diários e atemorizantes sobre as vagas de Covid-19, em que as estatísticas das vítimas são apresentadas de forma abstracta, em que as taxas e os picos de mortalidade não são sujeitas a nenhum crivo elucidativo das razões dos óbitos atribuindo-os por atacado ao vírus, mesmo quando os óbitos dos grupos etários mais elevados, ainda que influenciados pela presença do vírus, não podem ser exclusivamente explicados pela sua presença. O que está em curso é um processo de instauração de medo generalizado, em que mesmo o negacionismo científico imbecil dos bolsonaros ou os ziguezagues trumpistas, que se atropelam na sua irracionalidade, contribui para a sua persistência.

O mundo é varrido pelos turbilhões do medo. Medo de se ser contagiado, medo de morrer, medo de perder o emprego, medo de não se sobreviver por perca de capacidade económica e social que impossibilite o dia seguinte que não se sabe como e quando acontecerá.

«A actividade económica, com desiguais solavancos, vai sendo retomada. Uma retoma que tem tornado evidente a falência do receituário neoliberal e a importância do Estado definir políticas públicas de investimento e de defesa dos trabalhadores, se realmente quer menorizar os inevitáveis impactos que uma crise com esta extensão provoca no tecido económico de qualquer país, maior ainda quando esse tecido tem sido puído por dezenas de anos de governos de centro-direita e de direita, como é o caso de Portugal»

Não é um acaso a tipologia das notícias dos media, em que a liberdade, as liberdades no seu relativismo e desde sempre ameaçadas, são colocadas em causa, com a exploração de toda a panóplia conducente ao isolamento social, ao confinamento, ao teletrabalho, aos espectáculos on-line, à educação digital, às vendas on-line, à quebra do isolamento pelo recurso às redes sociais, que são apresentados como instrumentos de combate à pandemia sem uma réstia de preocupação com o aprofundamento das desigualdades existentes e com o impacto da crise sobre os que já tinham os seus direitos fragilizados, muitos deles sem direito ao isolamento social, e que são a parte dos grupos sociais mais afectados pela crise.

O medo sempre foi um poderoso instrumento de governação e a comunicação social estipendiada tem, ao longo dos anos, construído uma insidiosa narrativa instalando o pavor com relatos da violência, nos mais diversos formatos e com periodicidades variáveis. Delinquência, assassinatos, violações, acidentes, incêndios de vários calibres fazem parte dessa paisagem a que se agregam ameaças mais persistentes como o aquecimento global, o buraco de ozono, a contaminação ambiental, os desastres naturais e os que podem advir da queda de detritos cósmicos ou da aproximação de um meteorito, atraídos pela força da gravidade, mais os relatos direccionados dos terrorismos e das guerras que justificam outras guerras, etc. Notícias intercaladas com frivolidades mas sempre sem perder o norte de discriminar as forças políticas e sociais que se opõem frontalmente ao estado de sítio imposto pelo neoliberalismo, sempre dando destaque aos seus porta-vozes, que o maior interesse que têm pela pandemia, por cá e nos quatro cantos do mundo, é explorá-la enquanto negócio. Bill Gates e a sua máfia estão na linha da frente desse paradigma, criando alianças globais que impõem prescrições para os problemas da saúde que procuram impor a todo o mundo. É o filantrocapitalismo, em que se injecta dinheiro num sistema em que a democracia, a biodiversidade e a cultura são erodidas num processo em que ele e os seus pares ficam mais ricos.

Por cá, à nossa escala, o caso mais exemplar é o do bastonário da Ordem dos Médicos, que aproveita a situação dos graves problemas que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) terá para enfrentar uma previsível expansão da epidemia – «que não está a disparar, mas a crescer», como afirma a ministra da Saúde – não para defender o seu robustecimento, depois de anos de desinvestimento feitos pelos governos de centro-direita e direita, mas o negócio dos privados na saúde – um dos negócios mais lucrativos, depois das armas e da droga (Isabel Vaz, administradora da Luz Saúde, SA dixit) – opinando que o Estado deve contratar os privados, isto depois de os privados, no início da crise, se terem demitido de acorrer ao pico da pandemia por não dar dinheiro. Diz isto com a inefável, insuportável e hipócrita máscara de cruzado recacho pelo bem da saúde pública com que aparece nos inúmeros tempos de antena que lhe são concedidos para inocular o medo. É bem acolitado pela comunicação social mercenária, que nunca refere que os privados muito têm lucrado através do Estado e dos impostos cobrados aos cidadãos: 41% da sua facturação é assegurada pela captura de 47% do que o Estado gasta na saúde, à pala das ineficiências artificialmente criadas em décadas ao SNS. Esse alcoviteiro da saúde faz parte da camarilha dos abutres que assaltam a saúde pública para com ela fartamente lucrarem. Estão sempre muito atentos a estas janelas de oportunidade de negócio.

Gravura «Este nunca está satisfeito», de Bartolomeu Cid dos Santos, ponta seca/água tinta, 1975 CréditosBartolomeu Cid dos Santos /

Os nossos dias, desde que foi declarada a pandemia, são bombardeados com notícias e propaganda em formato noticioso que engrossam as pesadas nuvens que chovem pavores sem detença. O planeta está envolvido por uma espessa camada atmosférica carregada de medos sem que se entreveja um anticiclone que a limpe. O medo empurra para o silêncio da aceitação de medidas restritivas à normalidade, por mais anormal que seja, da circulação da vida. Medidas que são aceites praticamente sem oposição e que as forças reaccionárias pretendem, em primeiro lugar, impor às liberdades constitucionais, às lutas dos trabalhadores, às lutas sociais e políticas, o que explica a sua fúria contra o 1.º de Maio, a Festa do Avante!, os lances que foram usados, os meios que foram mobilizados. O medo, como Maquiavel teorizou, foi desde sempre uma das mais poderosas armas das forças dominantes. É uma ferramenta multiusos que percorre todo o arco, da mais feroz repressão à mais ligeira persuasão.

Adquire novas valências quando aos medos que se têm instalado enquanto conta-corrente dos poderes dominantes se associa o medo universal catapultado pela pandemia. O seu combate é uma necessidade e urgência real que não pode ser adiada, o que facilita a aceitação de medidas restritivas na luta contra as tipologias de contágio que facilitam a sua propagação, paralisando e silenciando vozes críticas mesmo as mais sensatas, serenas e competentes.

O grande alerta que tem que ser feito neste estado de emergência é para o perigo que muitas das medidas hoje adoptadas se perpetuem depois de o termos ultrapassado. Há que no imediato pensar nesse perigo. Nos usos e abusos das tecnologias de controlo, para que o que hoje é urgente e necessário não ultrapasse essas fronteiras e configure políticas futuras, para que a legalidade agora justificada não se torne numa ilegalidade instituída, sabendo-se que o desarmamento político foi desde sempre um dos grandes objectivos da burguesia dominante que, ao longo dos tempos, foi apurando as suas formas de actuação, enriquecendo o seu arsenal com ferramentas que visam atingir sempre o mesmo alvo: reduzir a influência ou mesmo anular os instrumentos organizados de luta das massas populares, partidos e sindicatos. Um alerta plenamente justificado, se se atentar no que tem sido preparado nos últimos decénios pela comunicação corporativa que, como tem alertado Noam Chomsky, tem funcionado num sistema em que «os media de referência estabeleceram um padrão dentro do qual opera o resto», em que os media dos países periféricos, desenvolvidos, em vias de desenvolvimento ou do terceiro mundo replicam o que é emitido por esses media ditos de referência e pelas grandes agências informativas dominadas e controladas pela plutocracia altamente beneficiária com as políticas neoliberais.

«O que está em curso é um processo de instauração de medo generalizado, em que mesmo o negacionismo científico imbecil dos bolsonaros ou os ziguezagues trumpistas, que se atropelam na sua irracionalidade, contribui para a sua persistência.
O mundo é varrido pelos turbilhões do medo. Medo de se ser contagiado, medo de morrer, medo de perder o emprego, medo de não se sobreviver por perca de capacidade económica e social que impossibilite o dia seguinte que não se sabe como e quando acontecerá»

A essa forma, que agora se pode classificar como mais tradicional, surgiram outras mais sofisticadas através das redes sociais que promovem a fusão da vida profissional com a pessoal num gigantesco e global reality show em que cada um tem a ilusão de liberdade total que na realidade está apertadamente controlada pelos algoritmos alinhados com o totalitarismo democrático, com o pensamento único dominante orientado pelo lucro. Os milhões de pessoas que por todo o mundo viajam pelas redes sociais deixam voluntariamente o seu rasto, que está a ser vigiado pelo olhar panóptico dos guardiões do neoliberalismo. Rasto que já existia com o uso dos cartões multibanco, das localizações nos smartphones, com as pesquisas nos motores de busca, em que as grandes agências secretas em paralelo com as de marketing lêem e traçam os perfis do nosso estado de espírito a partir do que se partilha online. Tornamo-nos em utilizadores e consumidores sem escolhas nem diferenciações no universo digital. Somos voluntariamente colonizados por esses novos colonizadores, amantes zelosos do império digital.

Hoje vive-se num gigantesco campo de concentração virtual em que o neoliberalismo comanda a história reaccionária em curso, conseguindo mesmo o grande feito de provocar a desorientação ideológica de muitas esquerdas, promovendo movimentos activistas que acabam por fazer parte da sua narrativa.

O totalitarismo democrático, que tem a sua expressão mais acabada na democracia espectacular dos Estados Unidos da América, em que dois partidos se alternam para prosseguir políticas similares, persegue sem pausas a implantação de uma sociedade uniforme, inerte, portadora de um mesmo conjunto de opiniões, comandada pelo domínio integral das formas de comunicação tradicionais e das novas formas proporcionadas pela comunicação e interacção digital. O estado de excepção que agora se vive dá-lhe um novo impulso. Muitas das restrições têm um efeito negativo na vida dos cidadãos, com a consequência, que nunca pode ser subestimada, de tornar os pobres mais pobres e os ricos mais ricos, uma realidade que as crises tem vindo a acentuar como se pode ler aqui e aqui.

Para a esquerda consequente os desafios são ainda maiores porque, participando natural e conscientemente nos combates contra a crise instalada pela pandemia, tem que continuar a batalhar seriamente contra as opressões daí derivadas sem nunca perder a mão das lutas por uma possível transformação social.

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt )

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Quino: o outro lado do espelho da Mafalda

Ainda mais corrosivo Eduardo Galeano escreveu: COMBATA A POBREZA! MATE UM POBRE HOJE!

Há que lembrar que a caricatura, dado os anglicismos correntes agora conhecida por cartoon, é um importante sector das artes plásticas – que ocupou desde sempre um espaço expressivo na actividade jornalística – praticado por grandes artistas como Honoré Daumier, Jean-Louis Forain, Willheim Bush, George Grosz, John Heartfield, Robert Osborn, Feliks Topolski, James Thuber, Saul Steinberg, André François, David Levine, por cá Bordalo Pinheiro, Stuart Carvalhais, João Abel Manta.

Uma lista mais que resumida, escassa perante a grande quantidade e qualidade dos muitos que com os cartoons marcaram e marcam presença em todo o mundo. Se os percursos artísticos e as opções estéticas os distinguem há um traço firme comum a todos, os referidos e os muito mais que se poderiam referir, que é o darem testemunho do seu tempo tirando a temperatura ao seu estado social e político, aos seus desastres, ao seu grotesco, aos seus vícios, com elaborado humor, vastas ironias, mesmo vitriólica veia satírica.

Cada cartoon, com golpes mais certeiros e devastadores que os golpes cinematográficos de kung-fu de Bruce Lee, contribui para traçar um cadastro irreverente e implacável da mediocridade e das hipocrisias deste nosso mundo. O cartoon, na sua aparente efemeridade, sempre ligado a um sucesso temporalmente datado, na sua linguagem, por vezes simplista para adquirir maior legibilidade, arrisca-se àquela classificação de ser uma arte menor, uma tremenda injustiça até porque isto de artes maiores e menores tem muito que se lhe diga no seu tempero elitista. O cartoon é uma reportagem do quotidiano que se liberta dos calendários para transmitir, de um ou outro modo, uma mensagem politicamente universal e intemporal.

Olhar crítico sobre o mundo

Quino inscreve-se por direito próprio nessa longa lista de caricaturistas, especialistas do raio-X que aplicam à sociedade radiografando-a implacavelmente. Adquire celebridade quando, em 1964, faz Mafalda sair da banda desenhada de uma casa típica de uma família burguesa de classe média que iria comprar uns eletrodomésticos, para a tornar na célebre contestatária que, com o seu humor corrosivo e negro, não deixa pedra sobre pedra do edifício da realidade social e política desta sociedade sem dignidade fundada na exploração humana.

Contestatária com um lado muito terreno de detestar sopa, adorar os Beatles, expor perplexidades filosóficas a olhar para o globo terrestre, torna-se rapidamente na mais famosa comentadora política sobre o mundo, a luta de classes, as tiranias, o capitalismo. Reconhecida em qualquer canto do mundo, Mafalda quase oculta o trabalho do seu criador Quino que, em paralelo à rapariga contestatária, continuava a fazer outras bandas desenhadas, excelentes mas com menos visibilidade, como se pode ver em Portugal no ano de 2014, no Festival Amadora BD.

Mafalda não envelhece, espalha o nome e o trabalho de Quino pelo mundo, até o seu criador a calar continuando o seu trabalho de cartonista, óptimas tiras de banda desenhada embora longe do estrelato da Mafalda. Quino deixou de desenhar Mafalda em 1973. Comenta o tê-la silenciado por estar cansado com essa sua criação, mais conhecida que o seu criador, não deixando de dar uma pista para não mais a encontrarmos: «provavelmente estaria morta, seria um dos desaparecidos da ditadura militar argentina»(1). Mafalda até ao fim da sua vida teve sempre a luminosa lucidez crítica política de Quino, para quem o mundo actual «é um desastre, uma vergonha» que dissecou com o bisturi do seu lápis.

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(1) A ditadura argentina imposta por um golpe de estado em 1976, chefiado pelo general Videla, almirante Massera e brigadeiro Agosti, foi preparada com colaboração activa dos EUA. Brutal, durou até 1983 período durante o qual «desapareceram» 30 000 argentinos. Kissinger apoiou-a e defendeu-a em vários areópagos internacionais para não deixar dúvidas sobre o que representam os direitos humanos para os EUA.

(publicado em Avante! 2445 de 8 de Outubro)

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O difícil empreendimento do voto de esquerda lúcido

A questão da soberania nacional, de que o Presidente da República numa república laica deve ser o garante, é tema ausente que só emerge nas entrelinhas das respostas dos candidatos a outros temas.

Discurso Eleitoral», desenho a tinta da china, Agosto 1969, publicado no Diário de Lisboa/Mesa Redonda 19 de Setembro 1969 CréditosJoão Abel Manta

Percorrer as redes sociais e os comentários às notícias sobre as eleições presidenciais e dos três candidatos do arco do centro-esquerda à esquerda é um exercício com algumas curiosidades, não inesperadas para os mais atentos, reveladoras da generalizada degradação da capacidade crítica que a comunicação social e as redes sociais promovem, homogeneizando opiniões que raramente ultrapassam as aparências que se geram para ocultar as duras realidades que acoitam. Tudo funciona preso à teia das percepções que se plantam para criar imagens trabalhadas pelos photoshops mentais controlados pelos algoritmos ao serviço do pensamento dominante. Analisar os argumentos a favor de alguns dos candidatos e a ausência de temas que deveriam ser de primeira linha é altamente revelador.

A primeira nota vai para as candidatas femininas serem altamente beneficiadas pela sua condição de mulheres, como se isso de ser mulher fosse alguma qualificação especial ou selo de garantia do que quer que seja, a começar por uma maior sensibilidade para os problemas sociais e a acabar na discriminação das minorias. Não pode todo o mundo e ninguém estar esquecido das variegadas margaretes thatcheres na longa galeria de mulheres de grande rudeza, que isto de ser mulher em nada se diferencia de ser homem no que toca à defesa dos interesses do capital.

Saltando sobre esse pormenor, que é um por-maior com reflexos ao riscar a cruz no boletim de voto, o mais chocante nas discussões e comentários, tanto dos encartados como os de café, dá-se o caso de a questão que deveria ser a principal a colocar a um candidato a Presidente da República estar completamente ausente ou ser um resíduo tão residual, passe o pleonasmo, que nem por ela se dá nos argumentários aduzidos em milhares de contribuições favoráveis a qualquer um dos três candidatos: a questão da soberania nacional, de que o Presidente da República numa república laica deve ser o primeiro garante.

«Olhando para o panorama eleitoral várias e sérias são as preocupações que se colocam aos democratas de esquerda quando a extrema-direita se está a consolidar e a direita ensaia a sua reformatação para recuperar iniciativa económica e política»

É tema ausente, que só emerge nas entrelinhas ou se percepciona nas tomadas de posição e respostas dos candidatos a outros temas. Sintomaticamente, na primeira entrevista feita a um desses candidatos por um canal de televisão supostamente de serviço público à soberania nacional, foi dito nada. É questão que para o entrevistador não existe, provavelmente nem sabe o que é, normalidade no estado actual do jornalismo em que a esmagadora maioria dos jornalistas são uma entidade abstracta que não existe, leia-se de Pierre Bourdieu Sobre a Televisão para se ficar a perceber esse estado da arte. Não se proferiu uma palavra sobre soberania nacional como nada se disse de outros itens de relevo para o exercício do cargo, ficando-se por um entretém de lanas caprinas, banalidades dos lugares comuns das questões verdadeiramente falsas ou falsamente verdadeiras pré-digeridas para dar uma imagem da candidata que é a que ela tem vindo a construir com a sua presença avençada num canal de televisão onde tanto mostra como oculta o que na realidade é e o que defende. Uma verdadeira artista, talento não é coisa escassa por aquelas paragens.

Em relação à soberania nacional, tema que devia ser central nos programas e nos debates e não ficar no esquecimento das balbúrdias que podem garantir audiências mas são informativamente invisuais, veja-se o que cada um dos candidatos tem defendido ao longo dos anos em que foram ou ainda são eurodeputados, e continuam hoje a defender.

Ana Gomes está num dos extremos, «não só aprova a integração de Portugal na zona euro como defende um aprofundamento federalizante do projecto europeu». Ou seja, para esta candidata a Presidente da República Portuguesa, Portugal é uma colónia que deve ser dirigida e controlada por uma entidade supra-nacional sediada em Bruxelas. Isto é aceitar uma rendição absoluta à União Europeia (UE), tornando as suas exigências de hoje, que fazem sentir os seus efeitos nefastos em muitas áreas – a lista é extensíssima da agricultura e pescas às finanças, lembre-se os efeitos das PAC na perca de soberania alimentar e mesmo no ambiente, ou os casos do BES e do Banif – em lei a que não teríamos poder algum para opor. O que está a propor e defender Ana Gomes é um regresso a um neofeudalismo, aceitando a definitiva transformação de Portugal num condado vassalo da UE. A sua candidatura a Presidente da República de Portugal é de facto uma candidatura a governadora das Berlengas, leal e fiel súbdita da(o) Presidente da Comissão Europeia. Isto é obra, para alguém tão dada aos pavoneamentos dos espalhafatos televisivos de muita parra e muito pouca uva.

Marisa Matias já nos habituou, à semelhança do BE, a proclamações altissonantes com a insustentável solidez das ventanias. Declara que «luta pelos valores de uma esquerda que não se verga às ordens do mercado, de Berlim ou de Washington, de Pequim ou de Bruxelas.» É uma louvável declaração de independência. Por estar disposta a espetar essa bandeira em capitais tão poderosas deixa-nos aturdidos com a audácia de tamanha façanha. Só que Portugal sem moeda própria, sem política orçamental autónoma, obrigado a regras neoliberais que se vergam aos ditames da finança sem qualquer respeito pelo trabalho, confinado ao Estado social mínimo dos mínimos ou mesmo desmantelando-o, submete-se ao jugo do capitalismo representado por Bruxelas e não tem condições para se desenvolver com qualquer independência, e essa é a questão nuclear que Marisa Matias não resolve por mais que vá sem medo soprar as trombetas em Berlim, Washington, Pequim e Bruxelas, numa colorida, sonora e divertida digressão turística que pouco incomoda os ouvidos de quem aí decide e só serve para dentro de portas disfarçar a conhecida ambiguidade do BE em relação à UE.

João Ferreira é, como sempre foi, um crítico da construção da UE e de como Portugal enquanto nação soberana não tem futuro dentro da zona euro, dentro de uma UE regida por tratados que, no essencial, só podem ser alterados por unanimidade. É um soberanista com ideias consolidadas sobre uma estratégia de desenvolvimento para Portugal, o que só pode suceder quando se romperem as amarras que hoje o estrangulam.

Essa questão central é iludida por muitas outras num fogo de artifício que ilude muita gente de bem e de esquerda. Ana Gomes é a mais hábil nos fogachos, até porque nessa área há quem de algum modo pense que as candidaturas do BE e do PCP são só para marcar terreno. Também são, mas também são esclarecedoras não só das posições pessoais como das dos seus partidos e devem abranger e captar eleitores que de facto se interessem e estejam atentos às ideias defendidas e não à espuma da imagem reflectida e transmitida por vários espelhos que iludem a realidade.

Há quem se engane, se deixe ou queira enganar até pelo espantalho real da direita e da extrema-direita que se perfilha perigosamente no país. Uma das ideias difundidas é que o chefe de fila da extrema-direita, ele também candidato, vai mesmo cumprir o que disse quando afirmou que se tiver menos votos que Ana Gomes, abandona o seu lugar de führer, pelo que há que votar Ana Gomes para o tramar. Com ele ou sem ele a extrema-direita vai continuar e, com ele ou sem ele, tem de ser combatida, e gravidade de pensar assim é ter da política uma concepção futebolística. Perde uma equipa, muda o treinador, só que a equipa continua e o treinador que saiu pode voltar empurrado por uma qualquer vaga de fundo. É reduzir a política ao acto de votar e a política é uma luta de todos os dias que não se esgota no acto de meter um voto nas urnas. Na base dos equívocos dessa representação política, construída ao longo dos últimos três séculos, continuam a estar os fundamentos doutrinários derivados do sistema político inglês e da Revolução Francesa que Montesquieu, em O Espírito das Leis (Edições 70, 2011) e Jean-Jacques Rousseau no Contrato Social (Temas e Debates, 2012) racionalizaram e que, em linhas gerais, continuam a ser o que nos governos modernos é assumido como democrático.

Rousseau rapidamente se apercebeu das limitações desse modelo e no Discurso sobre a Origem e Fundamentos da Desigualdade entre os Homens (Edições 70, 2020) aponta-os com grande clareza: «o povo inglês pensa ser livre e muito se engana, pois só o é durante a eleição dos membros do parlamento; uma vez estes eleitos, ele é escravo, não é nada. Durante os breves momentos de sua liberdade, o uso, que dela faz, mostra que merece perdê-la». Ainda mais claro é Marx quando diz que às massas populares é concedido o direito de escolher o seu carrasco, o que de modo algum menorizava a importância das lutas eleitorais inscritas no mais vasto contexto da luta de classes.

«É um sintoma da época que vivemos em que a visão superficial, deformada, com traços subjectivistas e até místicos, substitui a compreensão das verdadeiras forças motrizes da sociedade. Uma visão propulsionada pela comunicação social corporativa dominada pelos plutocratas e pelas redes sociais esse novo ópio do povo»

Para alavancar Ana Gomes chegam-se a fazer comparações entre o confronto esquerda/direita na segunda volta das eleições entre Mário Soares e Freitas do Amaral. A história só se repete como farsa, dizia Marx, mas pode rimar, como anotava Mark Twain. O paralelo que se pode traçar entre as candidaturas de Mário Soares e Ana Gomes é um arreigado e partilhado atlantismo e do, muito que hoje se sabe, sem se saber tudo, sobre os bastidores da candidatura de Mário Soares, e os apoios de think-thanks norte-americanos, naturalmente em consonância com os serviços secretos dos EUA. Todo o percurso de Ana Gomes e o que tem defendido em fóruns nacionais e internacionais são de um alinhamento canino (e ela que muito aprecia ser apelidada de rottweiler) com os interesses imperialistas dos EUA e as políticas agressivas da NATO, seja na Jugoslávia, na Ucrânia, nas Américas, na África mediterrânica e no Médio Oriente, em todas as revoluções coloridas. Tem a habilidade de cinicamente o disfarçar com denúncias aos voos clandestinos da CIA ou à corrupção nas compras dos submarinos. É uma técnica por de mais conhecida e de resultados comprovados na intoxicação da opinião pública. A sua luta contra a corrupção é um teatro bem montado. Maratonista do Estado de Direito – o que parece louvável, embora se saiba que entre direito e justiça o abismo é enorme e o direito nas nossas sociedades seja o direito do mais forte à liberdade – corre numa pista viciada bradando contra o BES mas alinhando com as opções mais que ruinosas da sua privatização em 1985 e agora da sua não nacionalização, denunciando isto e aquilo sempre pela superfície e no que está a vender para colocar a máscara de uma intransigência de pacotilha, logo desmentida por nunca atacar as causas mas só os efeitos.

Olhando para o panorama eleitoral várias e sérias são as preocupações que se colocam aos democratas de esquerda quando a extrema-direita se está a consolidar e a direita ensaia a sua reformatação para recuperar iniciativa económica e política, como foi claramente expresso nas declarações dos lideres e dirigentes do PSD e do CDS sobre o Chega, sem esquecer os afectos de Marcelo Rebelo de Sousa plantados em terra adubada pela direita, que a esquerda deve ouvir e olhar com apreensão. A unidade à esquerda, sempre complexa e difícil e que no enquadramento que se está a desenhar deveria ser relevante, não é possível rasteirada pelos tacticismos do PS de António Costa, que abriram espaço para aparecer uma candidata com o perfil de Ana Gomes, a ocupar o espaço da social-democracia de direita com capacidade de convocar muita gente da esquerda que a olha sem a ver. Paradoxalmente isto decorre num quadro aparentemente favorável à esquerda, por esta recolher o voto da maioria do eleitorado.

É um sintoma da época que vivemos em que a visão superficial, deformada, com traços subjectivistas e até místicos, substitui a compreensão das verdadeiras forças motrizes da sociedade. Uma visão propulsionada pela comunicação social corporativa dominada pelos plutocratas e pelas redes sociais esse novo ópio do povo.

A luta da esquerda continua, claro que continua, nunca irá parar mas torna-se particularmente complexa num terreno cheio de barreiras e alçapões.

TÓPICO

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