Na cidade do Sado

Na cidade do Sado, 40 anos depois, a 7 de Março, as bestas do capital voltam ao Pavilhão do Naval.

Em 2015, a contra-revolução já não precisa mentir gritando pelo Socialismo Democrático.

PPD 75

Podem ser verdadeiros, pois já todos sabemos ao que vêm, o que defendem e o que têm feito ao País.

Se o comício de 1975 foi uma provocação, o comício de 2015 que o celebra é uma ofensa aos Setubalenses e à memória de João Manuel assassinado há 40 anos, por estar no local errado à hora errada.

Coisas verdadeiramente sinistras

Podia ser uma brincadeira ou apenas mais uma forma de levar o crente a aumentar o dízimo pago a troco da salvação.

Podia ser só mais uma bizarria das igrejas que proliferam e lucram no meio da miséria e do sofrimento alheio.

Mas este exército, designado de «Gladiadores do Altar», criado pela Universal em toda a América Latina onde está presente, tem na sua forma e conteúdo traços preocupantes que não poderão deixar ninguém indiferente.

Para que é que a Universal necessita de um braço armado, porque razão uma igreja cria uma organização com disciplina militar, porque precisam de uma mílicia de fundamentalistas, quais os objectivos e quais os meios?

Com um poder crescente em todos os domínios de algumas sociedades, o que querem agora os lideres destes movimentos religiosos?

Uma coisa é certa, todo o ritual é sinistro e tresanda a intolerância e fascismo religioso.

Ainda a propósito do Forte de Albarquel*

Forte-da-AlbarquelÉ feio. Digo-o assim para não dizer que é política e moralmente desonesto o que muitos escreveram e disseram sobre o Forte de Albarquel.

Veja-se como o fez, com particular gravidade, nas páginas deste jornal, Costa Ferreira, militante do PSD e, também vereador substituto na Câmara Municipal de Setúbal.

Com uma simplicidade que deixa qualquer um estupefacto, tentou criar uma realidade virtual, resumida numa narrativa simples, mas cheia de buracos. Resumidamente, Costa Ferreira defende que se o Forte da Albarquel foi cedido ao Município de Setúbal isso se deve à exclusiva vontade do Governo do PSD, porque a autarquia, essa, nem estratégia tem para salvaguardar o património.

O primeiro buraco nesta estranha narrativa é o conveniente esquecimento de que é esta autarquia a entidade que, preocupada com o património do concelho, decidiu exercer o direito de preferência na compra do Quartel do Onze, que o Estado deixou degradar e se preparava para alienar a privados. O mais curioso é que a autarquia comprou o quartel ao Estado para, imediatamente a seguir, entregar de novo aquele património ao Estado para aí se instalar uma escola de hotelaria. Será aqui que houve falta de estratégia? O engenheiro Costa Ferreira poderá, certamente, responder…

Outro buraco desta narrativa é o que se encontra quando se recorda que foi a autarquia que se substituiu ao Estado nas obras do Convento de Jesus, assumindo a parte que competia ao poder central nestas obras para que o monumento não se degradasse mais e tivesse, de facto, uma utilização condizente com o seu importante estatuto e história. Isto para não falar dos edifícios onde estão instaladas a Casa da Baía, a Casa da Cultura e da recente aquisição da Casa das Quatro Cabeças, esta também em processo de recuperação. Serão estes outros casos de falta de estratégia?

Olhemos então para o maior buraco da narrativa do militante do PSD. Defende Costa Ferreira que foi por ação do Governo que foi cedido o Forte da Albarquel e que os setubalenses “não compreenderiam que a Câmara Municipal de Setúbal não interagisse pela positiva, gerindo a situação e servindo os seus interesses”, ou seja, não seria compreensível que a autarquia não aceitasse tão generosa oferta do Governo PSD. Não se trata aqui de uma questão de saber o que apareceu primeiro − se o ovo, se a galinha − porém é importante que se esclareça o Eng. Costa Ferreira que os contactos entre a Câmara Municipal de Setúbal e o Ministério da Defesa Nacional, todos bem documentados e passíveis de serem comprovados pelas duas partes, remontam já a 2010, governava o PS.

Significa isto que a autarquia andou cinco anos, discretamente, em negociações com o Estado para a cedência do forte e para analisar outras situações de património militar existente no concelho. E finalmente conseguiu, em 2015, que fosse aprovada a cedência, a única possibilidade, já que o edifício se situa em domínio público marítimo, o que, perante a lei, impede a sua alienação.

Houve vontade, persistência e competência e, claro, estratégia. Só assim foi possível garantir este resultado final, que permitirá que, depois de recuperado o edifício, o espaço seja integralmente gerido pela autarquia para usufruto de todos.

Costa Ferreira, desinformado, vem agora dizer-nos que foi o atual Governo que desbloqueou a situação, e é verdade, mas omite que este era um processo que já vinha de outros governos, que não o seu e que é a gestão CDU no Município de Setúbal a principal responsável por uma estratégia de defesa e valorização do património que tem impedido a degradação e o abandono a que sucessivos governos tem vetado o património histórico no nosso concelho.

Na ânsia de recolher louros que não lhe pertencem, pôs-se em bicos de pés, mas acabou por cair nos seus próprios buracos. E isso é profundamente lamentável.

(Imagem)

*Texto publicado na edição de hoje do Jornal O Setubalense

Pior cego é aquele que não quer ver

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Quem fala verdade?

“Pecámos contra a dignidade dos povos, especialmente na Grécia e em Portugal, e muitas vezes na Irlanda” – Jean-Claude Juncker.

“A dignidade de Portugal nunca esteve em causa durante o processo de ajustamento e a dignidade dos portugueses também não.” – Pedro Passos Coelho.

Depois da hecatombe que se abateu sobre os portugueses com o memorando da troika, P. Coelho tem a desfaçatez de desmentir um dos principais responsáveis pelo atentado, J-C Juncker, o anterior presidente do Eurogrupo.

De desfaçatez foi também o papel que uma ministra do governo português se prestou a desempenhar contra a Grécia, um Estado aliado. Acolitando o ministro alemão  Schauble, foi bem o exemplo da indignidade e da falta de espinha de quem representa um país.

Libido 4

Depois do acordo de princípio, alinhavado entre o governo grego e a CEE, das múltiplas declarações entre os protagonistas e o que os nossos (des) governantes foram comentando em desbragada linguagem, recomendamos um fim-de-semana alucinante à espera dos próximos capítulos desse teatro escabroso em que se procura esfolar a democracia.

WOLFANG E MARIA LUIS

“Campo de Concentração Austeridade”, “Loucos por Coligações ou São Bento e os 120 Dias de Sodoma”, ”Portugueses mais um esforço para continuarem a ser Esmifrados” e ”Contos para Adultos dos Tarados das Reformas Estruturais”, quatro filmes para maiores de dezoito anos, recomendados para um fim-de-semana acabrunhante, à espera da lista grega a ser entregue em Bruxelas.

Os dois primeiros são protagonizados por Maria Luís Albuquerque e Wolfang Schaulbe e Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, duas das duplas mais famosas no mundo da pornografia financeira, do cinismo político e da crueldade social. Os dois últimos são grandes orgias, celebrando os infortúnios da austeridade com os quatro protagonistas e narração de Cavaco mergulhado no fundo do Poço de Boliqueime, Opções adicionais discursos, entrevistas, declarações dos protagonistas, não recomendadas por questões de higiene mental.Coelho POrtas

Aviso muito importante: os filmes contém cenas sadomasoquistas que podem ferir a mais empedernida sensibilidade, mesmo dos mais experimentados.

A Grécia, a CEE os seus mandantes, seus mandaretes e monicas lewinskis

A ESPERA DOS BÁRBAROS

– Que esperamos na ágora congregados?

 

Os bárbaros hão-de chegar hoje.

Porquê tanta inactividade no Senado?

Porque estão lé os Senadores e não legislam?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje.

Que leis irão fazer já os Senadores?

Os bárbaros quando vierem legislarão.

 

Porque se levantou tão cedo o nosso imperador,

e está sentado à maior porta da cidade

no seu trono, solene, de coroa?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje.

E o imperador espera para receber

o seu chefe. Até preparou

para lhe dar um pergaminho. Aí

escreveu-lhe muitos títulos e nomes.

 

– Porque os nossos dois cônsules e os pretores

saíram hoje com as suas togas vermelhas, as bordadas

 

porque levaram pulseiras com tantas ametistas,

e anéis com esmeraldas esplêndidas, brilhantes;

porque terão pegado hoje em báculos preciosos

com pratas e adornos de ouro extraordinariamente cinzelados?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje;

e tais coisas deslumbram os bárbaros.

 

- E porque não vêm os valiosos oradores como sempre

para fazerem os seus discursos, dizerem das suas coisas?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje;

e eles aborrecem-se com eloquências e orações políticas.

 

- Porque terá começado de repente este desassossego

e confusão. (Como se tornaram sérios os rostos.)

Porque se esvaziam rapidamente as ruas e as praças,

e todos regressam as suas casas muito pensativos?

 

Porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.

E chegaram alguns das fronteiras,

e disseram que já não há bárbaros.

 

E agora que vai ser de nós sem bárbaros.

Esta gente era alguma solução.

                                                               Konstandinos Kavafis

(tradução Joaquim Manuel Magalhães/Nikos Pratsinis)

ovelhas

 

Os cônsules, pretores que entre dois partidos sozinhos ou coligados, se sucediam na Grécia, impondo ao povo grego as soluções dos bárbaros foram democraticamente derrotados. As iníquas reformas estruturais, um saco de mentirolas que nada reestrutura e tudo destrói,  que garrotavam a economia, aumentavam a dívida, mantinham os privilégios da oligarquia, aprofundavam  a corrupção, atiravam cada vez mais gregos para a miséria e o desemprego, foram democraticamente derrotadas. Quem venceu pelo voto, propõe outro caminho para sair da crise, caminho dentro do quadro político, económico e social dos bárbaros. Nem isso os bárbaros aceitam. Inquietam-se porque não querem que seja sequer possível pensar que há outras saídas para a crise económica dos países que se debatem com dívidas que são impagáveis, consequência da crise mais geral da Europa tatuada no sistema que se arrasta agónico mas que se julga eterno, sem alternativas.

Governantes e seus sequazes querem ditar, impor as suas leis sobre os países devastados por uma estúpida cegueira que alimenta os oligopólios financeiros, promove uma crescente desigualdade social, instala um desastre económico e social de proporções inquietantes. Mentem manipulando as estatísticas para travestir o desastre. Mentem. mentindo sempre e, sem pudor,  fazem circular a mentira por uma comunicação social mercenária ao seu serviço.

Na CEE, os países que se sujeitaram às receitas das troikas, viram as suas dívidas em relação ao PIB aumentar exponencialmente entre 2007 e 2014. Irlanda 172%, Grécia 103%, Portugal 100%, Espanha 92%. A dívida mundial que em 2007 era de 57 biliões de dólares, em 2010 foi de 200 biliões de dólares, ultrapassando em muito o crescimento económico. Tendência que continua o seu caminho para o abismo, em benefício dos grandes grupos financeiros, entrincheirados nos chamados mercados. O chamado serviço da dívida, os juros, são incomportáveis. São esses os êxitos de uma política cega submetida à ganância usuária que não tem fronteiras ou qualquer ética.

Os governos deixaram de estar ao serviço dos seus povos, nem estão sequer dos seus eleitores. São correias de transmissão dos oligopólios financeiros que se subtraem a qualquer escrutínio democrático ou outro de qualquer tipo. Traçam um quadro legal que os suporta e legitima a ilegitimidade. A democracia é uma chatice, um entrave, um pauzinho nessa gigantesca engrenagem que nos atira barranco abaixo, com efeitos devastadores para a humanidade. Nada interessa a não ser o lucro de quem especula sem produzir nada. As pessoas são uma roda nessa engrenagem.

chaplin

Charlie Chaplin, TEMPOS MODERNOS

Quem não caminha ordeiramente nesse rebanho, quem se opõe, mesmo que mandatado e sufragado democraticamente, é considerado irresponsável, como disse o ogre Wolfang Schauble, ministro da economia da Alemanha, em relação à Grécia. As suas enormidades ecoam pela boca dos seus bufões, das suas monicas lewinskis por todos os cantos de uma Europa submissa aos diktats do bando de arruaceiros financeiros que rouba a tripa forra países e povos. Em Portugal, as nossas monicas lewinskis são mais fatelas, mais rascas com se tem visto e ouvido de Cavaco a Passos Coelho, de Portas a Pires de Lima mais a matilha dos seus sarnentos rafeiros de fila. Espumam raiva, ódio dos ecrãs televisivos às ondas radiofónicas. Quem se atreve a riscar, ainda que levemente, essa realidade em que nos enforcam é logo atacado e silenciado quanto baste por essa matilha de pensamento ulcerado.

Os burocratas europeus dogmáticos, leitores e intérpretes da cartilha neoliberal dizem que a realidade é assim mesmo! Será?

A realidade nunca é a realidade que nos querem impingir como Aragon tão bem descreveu. Há mais vida para lá desse biombo com que a querem esconder qualquer luz, mesmo bruxuleante, de esperança para a humanidade.

ISTO È UMA OVELHA,escultura de João Limpinho

 

AS REALIDADES

Era uma vez uma realidade

com as suas ovelhas de lã real

a filha do rei passou por ali

e as ovelhas baliam que linda ai que linda está

a re a re a realidade

Era uma vez noite de breu

e uma realidade que sofria de insónia

então chegava a fada madrinha

e placidamente levava-a pela mão

a re a re a realidade

No trono estava uma vez

um velho rei que muito se aborrecia

e pela noite perdia o seu manto

e por rainha puseram-lhe ao lado

a re a re a realidade

 

CODA: dade dade a reali

dade dade a realidade

A real a real

idade idade dá a reali

ali

a re a realidade

era uma vez a REALIDADE.

Aragon

(tradução António Cabrita)

ceci nést pas une pipe

pintura de Magritte