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Não temos medo?

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Janet Leigh em Psico de Alfred Hitchoock

Não temos medo? Claro que temos medo! Devemos ter medo! Uma criança sem medo é um perigo para si-própria. O medo faz parte do seu desenvolvimento. Se não temos medo estamos, também, a ser um perigo para nós-próprios. Temos que ter a coragem de ter medo!

Medo dos atentados de terroristas islâmicos, mas também medo da vigarice intelectual que faz discriminação entre atentados. Um atentado na Europa, mesmo que faça muito menos vítimas, tem uma importância muitíssimo maior que um atentado na Síria, no Iraque, no Burkina-Fasso, na República Centro-Africana. Mesmo na Europa, um atentado em Bruxelas tem mais favor noticioso que um atentado em Moscovo. Também devemos ter medo desse desequilíbrio informativo, porque esse medo nos dá a lucidez de ver o que é uma boa demonstração de como funcionam as centrais que controlam a comunicação social o que se agrava nas centenas de artigos sobre o terrorismo islâmico, inquinados na sua esmagadora maioria por uma xenofobia evidente ou disfarçada, entrincheirada em factos e evidências, misturando em doses cada vez mais letais medo com segurança e prevenção o que acaba sempre em ataques às liberdades individuais, procurando tornar aceitáveis, mesmo desejáveis as suas restrições, como Macron está a tentar impor em França.

O nosso medo é outro, tem que necessariamente se demarcar do que essa gente espalha para abrir caminho a um fascismo de novo tipo, mesmo que provisoriamente tenha fachada democrática. Medo do terrorismo islâmico, medo do terrorismo sionista, medo de qualquer terrorismo venha de onde vier, medo da manipulação política, leia-se o discurso de Passos Coelho no Pontal, e mediática de que o mais acabado exemplo é o Observador e o seu pelotão de comentadores. Faz-nos medo para perdermos o medo.

Todos os atentados terroristas provocam vitimas inocentes mas nós, todos nós potenciais vitimas inocentes, temos uma percentagem de culpa nesses atentados por termos ficado passivos, complacentes ou dado apoio por omissão a políticas que andaram a usar o monstro nos seus fins estratégicos.

Que fizemos para denunciar os talibãs no Afeganistão, então chamados de combatentes da liberdade? Que fizemos quando se desmembrou a Jugoslávia e surgiram os primeiros terroristas, como hoje os conhecemos, na Bósnia e depois no Kosovo? Onde estávamos quando da invasão do Iraque com todo o rol de mentiras que a justificaram? Que dissemos à guerra na Síria levado a cabo pela Al-Qaeda e o Estado Islâmico? E aos batalhões do mesmo Estado Islâmico que estão no terreno na Ucrânia ao lado dos eufemisticamente apelidados de nacionalistas ou ultra-nacionalistas que são de facto assumidamente nazis? Saddam Hussein era um sanguinário ditador? Era, mas só o descobrimos após e Bush assim o assinalar isto depois de, por interposto Rumsfeld, lhe ter oferecido umas esporas em ouro? Bashar alAssad é um ditador? É, mas até é um democrata se comparado com o rei da Arábia Saudita ou os emires dos países do Golfo. Combate a Al-Qaeda e o Estado Islâmico que esses estados apoiam com armas e bagagens, com a complacência activa e cínica do ocidente, em particular os EUA e a Grã-Bretanha, apesar dos povos dos seus países e dos países seus aliados na NATO, serem vitimas colaterais de insensatas jogadas políticas ao serviço de grandes interesses económicos.

Hoje o mundo, não só o mundo ocidental, até ameaçado por um terrorismo que se tornou imprevisível, usa armas que fazem parte do nosso quotidiano. Temos medo e a sorte de não termos estado em Manchester, Bruxelas, Berlim ou Barcelona. Não sermos uma das vitimas inocentes de um desses ataques que não foram a tempo detectados pelos serviços de segurança. Vitimas inocentes como as que todos os dias morrem no Médio-Oriente, em África, na Ásia que não morrem ou quase não morrem nos media. Essa dissemelhança também nos deve fazer medo.

Como nos deve fazer medo que, por cálculo político e inconfessáveis interesses económicos, se mantenham óptimas relações diplomáticas, lembre-se, entre outras a última viagem de Trump à Arábia Saudita, com o Kuwait, o Qatar, o Barhein, os Emiratos Árabes Unidos e sobretudo a Arábia Saudita, países amigos que são por demais conhecidos como financiadores não só dos grupos terroristas como das mesquitas salafitas, localizadas pela Europa, onde se faz propaganda da sharia. Dirão que se está a atacar o multiculturalismo, a não respeitar as diferenças culturais. Na realidade é o inverso. É não aceitar que rasteiramente se confunda e venda a ideia que uma religião, um seu culto particular, seja condição natural para ser veículo do terrorismo. O que se condena é a sharia como se condena o nazismo sem cair nas armadilhas não inócuas de se reduzirem as vitimas do holocausto aos judeus, de se valorizarem atentados terroristas como o de Barcelona e quase se rasurar o de Samsara, ou pensar que o atentado neo-nazi em Charlottesville foi consequência de uma disputa política entre duas facções radicalizadas, como o fez Trump. O automóvel em Barcelona é o mesmo de Charlottesville, igual aos armadilhados que têm explodido um pouco por todos os continentes. As facas usadas em Londres, são iguais às de Sourgout e Turku. Procuram atingir o maior número de vítimas inocentes com a garantia que uma comunicação social de jornalistas e comentadores necrófagos irá propalar o medo, misturado em doses bem calculadas com os mantras do je suis, não temos medo, etc,. sobrepondo-o à segurança e prevenção que, perante os factos se mostraram insuficientes, para fazerem uma cruzada, melhor ou pior disfarçada, contra as liberdades. Os fascismos convergem mesmo quando e se as suas direcções parecem opostas. Ver, ouvir, ler as notícias, as opiniões e os comentários e dos leitores a essas torrentes, é assustador. Disso também devemos ter medo, o medo saudável das crianças que lhes garante a sobrevivência e lhe dá consciência para enfrentar os perigos.

Temos medo e devemos ter medo para o usar para analisar lucidamente os labirintos deste nosso perigoso mundo. Não nos refugiarmos em respostas fáceis e slogans de momento, separar o trigo do joio, condenar o terrorismo e condenar quem o incentivou e depois escondeu a mão que continua a dar vigorosos apertos de mão e a colocar assinaturas firmando negócios multimilionários com quem directamente manipula esse teatro de horrores.

Temos medo, por isso nunca mais estaremos ausentes das frente de luta pela paz e cooperação entre os povos de todo o mundo, a forma mais eficaz de lutar contra os que financiam as bombas, os que as armadilham, os que as rebentam, o que as utilizam para nos cercarem dizendo que nos querem salvar, fazendo respiração boca a boca com o Grande Irmão de Orwell.

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Cultura, Geral, Patrim, património, Património Monumental, turismo

Um Caminho de Pedras

 

ARFoi notícia recente na comunicação social o entusiasmo governamental, pela voz de Luís Araújo, presidente do Turismo Portugal, com a resposta ao programa Revive por parte do universo empresarial ligado ao turismo, anunciando que são «300 manifestações de interesse, nacionais e internacionais» para candidaturas à concessão desses edifícios históricos. «Serão concessões de 30 a 50 anos que vão permitir devolver à fruição pública imóveis que estavam a ser um peso para o Estado, pois não estavam ocupados e estavam a degradar-se. Estamos muito contentes com este interesse, pois acreditamos que será uma mais-valia para as localidades e para o País.»

É um caminho de pedras. Das pedras materiais que os empreendedores se propõem recuperar às pedras imateriais de como essa recuperação será realizada e de como esses imóveis serão restituídos ao usufruto público e não em exclusivo ou quase exclusivo aos seus utentes em trânsito. Será de lembrar que o Ministério da Cultura propôs inicialmente livrar-se desse «peso para o Estado» sem grande preocupação com os valores de memória histórica que transportam. O caso mais flagrante era o do Forte de Peniche, que só por forte e indignada manifestação pública saiu da lista original.

Era por demais evidente que a memória de um passado recente de muito má memória para Portugal seria ou completamente rasurada ou tão residual que deixaria de ter significado com o seu aproveitamento turístico. Prevaleceu o bom senso que terá que ter continuidade num projecto museológico bem estruturado e apelativo para não se tornar em local de romagem que perca progressivamente a sua importância real e simbólica. A sua integração nos roteiros pedagógicos da História de Portugal deve ser um dos seus elementos centrais.

A recuperação do património edificado é sempre complexa. A privatização da gestão do património cultural através da sua concessão é sempre perigosa e pode redundar num prejuízo incalculável, tendo como único benefício a redução dos seus impactos nos Orçamentos de Estado. A gestão privada tem um único objectivo, o lucro e a recuperação no prazo mais curto dos investimentos realizados.

A filantropia não entra nesses cálculos. O interesse nos valores icónicos, históricos e culturais é meramente instrumental. O Estado tem um papel fundamental no equilíbrio entre a exploração desse património por privados e o seu usufruto público, mesmo assumindo-se que os projectos de arquitectura respeitem o traçado original. Os exemplos de desastradas gestões e intervenções privadas no património edificado são muitas e o que aconteceu em Itália, mas não só, nos governos Berlusconi deve ser um fortíssimo sinal de alerta.

 

Proteger o serviço público

 

Há um serviço público que tem que ser protegido e defendido. É essa a função do Estado que o deve impor caso a caso. É isso que deve ser do conhecimento público para haver debate com contribuições, culturais e técnicas, válidas que se plasme nos cadernos de encargos das concessões. As fronteiras entre serviço público e actividades comerciais são frágeis e porosas, sobretudo quando se está a transferir a recuperação e a gestão de um bem patrimonial que é de todos para a sua apropriação privada.

Um dos meios de salvaguardar o património edificado é dar-lhe novas funções sem que a sua identidade seja posta em causa. O Centro Português de Fotografia está instalado na «Cadeia da Relação», um edifício que começou a ser construído em 1767; o Museu Nacional de Arte Antiga está instalado num palácio mandado construir, em finais do século XVII, pelo 1.º conde de Alvor; o Palácio de São Bento, onde está instalada a Assembleia da República, começou por ser um convento. Todos eles ao longo dos tempos albergaram as mais diversas instituições e nem todos os edifícios com valor patrimonial terão que obrigatoriamente seguir esse caminho, embora também o caminho não deva ser de via única para exploração turística.

Um caminho de pedras em que a recuperação das pedras não deve alienar o usufruto público. Um dos primeiros passos a dar para se cumprir o serviço público que o Estado deve assumir é obrigar que os projectos de arquitectura sejam objecto de concurso aberto a todos os arquitectos e que no caderno de encargos sejam integrados percursos que dêem a conhecer o seu passado histórico.

(publicado no Avante! 10 agosto 2017)

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Setúbal

Outra vez a Feira de Sant’iago

Imagem da Feira na noite de 2 de Agosto

A Feira de sant’iago é um tema discutido em Setúbal ininterruptamente há mais de trinta anos. Primeiro, antes de 2004, quando mudou para as Manteigadas, a discussão anual girava em torno da necessidade de retirar a feira da avenida Luisa Todi por manifesta falta de condições, quer de espaço e de circulação e estacionamento automóvel, quer de salubridade e incómodos para os negócios de restauração. Depois de 2004, a discussão foi mantida e o que se debate desde então é a necessidade de fazer regressar a feira à avenida Luisa Todi. Com o tempo, todos perceberam que não era viável esse regresso. Uns lançaram a ideia de a fazer na zona ribeirinha, outros apenas dizem que se devia era fazer no centro da cidade e ainda há mais alguns que encontraram a saída airosa de defender um referendo para ocultar as próprias responsabilidades na decisão de mudança da feira. “Somos um partido. que não cristaliza as suas posições“, foi o que disse, mais coisa menos coisa, o candidato do PS à câmara de Setúbal sobre a proposta do referendo, quando confrontado com a questão simples de saber por que razão não fez o PS tal referendo em 2001, quando estava no poder e escreveu no plano estratégico do POLIS que a feira iria mudar para as Manteigadas para se fazer o arranjo da avenida Luisa Todi. E pronto, todos os problemas relacionados com a feira ficariam resolvidos no passe de mágica do referendo local. Nada mais simples. Era só estalar os dedos e pôr os setubalenses a referendar a feira e tudo se resolveria.

Em comum têm os defensores destas teses a incapacidade de explicar como se fazia a feira no centro da cidade. Por um lado, ninguém sabe como funcionaria na zona ribeirinha, por outro ninguém diz em que outro espaço se poderá fazer a festa. Outro ponto comun é que já ninguém defende a realização da feira na avenida Luisa Todi. Ninguém mesmo.

Temos, assim, um debate artificialmente empolado apenas por puro oportunismo eleitoral, num caso, e por falta de seriedade política, noutro.

Depois da relocalização da feira em 2004 já se realizaram três eleições autárquicas e sempre a força política que promoveu a mudança venceu. Evidentemente que não se pode dizer, simplesmente, que tal representa um apoio à mudança. Porém o eleitorado sabe perfeitamente qual é a posição da CDU sobre a matéria e sempre a apoiou com o seu voto. E por que é não é exagero afirmar isto? Porque em ano de eleições o tema da feira tem sido sistematicamente transformado em tema central da campanha eleitoral e nem assim se convenceram os setubalenses a votar contra quem defende que a feira tem de ser nas Manteigadas.

O que é importante é que a Feira de Sant’iago continua a ser a mesma coisa de sempre, só que agora num espaço diferente. Além disso, sempre houve pessoas que não gostavam de ir à feira na avenida, pessoas que gostavam de ir, pessoas que iam apenas para comer a bifana, outras para ir aos carrinhos de choque, outras para ver outras pessoas, outras porque sim e outras porque não.

Pretender que há um motivo universal para ir ou não ir à feira é pura e simplesmente destituído de sentido. O que vi na noite de 2 de agosto (quarta-feira), por exemplo, foi uma feira a abarrotar de gente nos carrinhos de choque, no espetáculo do AGIR, no Seninho, na Luisinha, nas cuecas dos indianos, no frango assado do restaurante da Urra. E tenho a certeza de que vi isto, ou seja, vi muitos milhares de pessoas naquele espaço onde agora podem ir a pé as pessoas que moram ali nas redondezas, e são muitas.

O que parece é haver por aí muito preconceito social escondido por causa de a feira ser na Bela Vista, onde moram os ciganos e os pretos. O que muita gente se esquece é que ali moram muitos mais do que apenas esses.

Esta conversa da feira já cheira tão mal que muita gente já nem liga e vai lá divertir-se, alheando-se desta polémica que tem sido artificialmente mantida.

Ainda bem, porque aquela é e continuará a ser a festa de Setúbal e de todos os que dela gostam, e esses são muitos. São cada vez mais.

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Clarisse Lispector, Cultura, Geral, Literatura, Livros

UM LIVRO PARA TEMPOS DE FÉRIAS

A TRANSCENDÊNCIA             Clarice Lispector

DA VULGARIDADE

DO MUNDO

 

 

Com 23 anos, em 1943, Clarice Lispector alcançou fama com o seu primeiro romance Perto do Coração Selvagem. Fulgurante entrada no mundo literário brasileiro emparceirando com escritores do quilate de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Erico Veríssimo, Jorge Amado, João Guimarães Rosa. Um estrondo provocado por uma obscura estudante, cuja língua materna era o ucraniano, tinha emigrado para o Brasil com doze anos de idade. Tudo se tornou mais estranho quando a bela loura de aspecto estrangeiro, semanas depois desse êxito que fez história, deixa o Rio de Janeiro e deambula durante duas décadas pela Europa com o marido diplomata. Especulou-se se não seria o pseudónimo de algum escritor famoso. Nos anos seguintes tudo se esclarece sobre a sua identidade quando são publicados os romances O Lustre, A Cidade Sitiada, os contos de Os Laços de Família. Há um traço comum na sua obra, o de mergulhar nas realidades ocultas da vida visível das vidas das mulheres. O tédio que assalta os dias, os prazeres secretos de mães de família, o equilíbrio frágil das relações familiares, as violências interiores tão simples e vulgares como a da alegria da beleza que o espelho devolve a uma jovem à ferocidade com que esse mesmo espelho regista o envelhecimento. Na literatura mundial, ainda menos na de língua portuguesa, nada é comparável à obra de Clarice Lispector que, como um estudioso sublinha, projecta pela primeira vez luz intensa sobre a vida das mulheres com intensidade só comparável à que Zola, Dickens, Dostoiévki projectaram, também pela primeira vez, sobre as classes trabalhadoras. Fá-lo, com um assombroso rigor inovador na escrita. Os seus contos completos, trinta e cinco anos separam o primeiro do último, relatam vidas de mulheres, em silêncio ou alta voz, que vivem a sua vida com o máximo dignidade possível, desde as hesitações na escolha da roupa dos filhos ao delírio sexual de uma septuagenária que se apaixona por uma estrela pop que conhece no ecrã da televisão. Celebre-se Clarice Lispector em que os temas “femininos” tradicionais têm uma dimensão única e inigualável.

 

Todos os Contos

Clarice Lispector

Editor Relógio d’Água

Edição, Tradução e Notas Benjamin Moser

Tradução da Introdução José Miguel Silva

Revisão do Texto Anabela Prates Carvalho, Inês Dias

Capa Carlos César Vasconcelos sobre design de Erik Rieselbach

Foto da capa Pedro Henrique Matos

1ª edição março 2016

560 páginas

(publicado no Guia de Eventos de Setúbal Julho/Agosto)

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Artes, Cultura, Fausto Neves, Geral, Literatura, Mão Morta, música, Músicos do Tejo, Política, teatro

Sugestões Culturais Julho

Leonardo da Vinci

 

 

Sugestões Culturais para o mês  de Julho publicadas no AbrilAbril e texto do comunicado do MPPM cujo link falhou

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Geral

Qual a necessidade do PSD mentir aos Setubalenses?

Na reunião da Assembleia Municipal de Setúbal, realizada na quinta-feira, dia 6 de Julho, foi apreciado o conteúdo de uma petição de cidadãos sobre as taxas de IMI praticadas no concelho de Setúbal.

A referida petição, tendo como primeiro subscritor Nuno Carvalho, candidato do PSD à Presidência da Câmara Municipal de Setúbal, defendia a redução das taxas, assumindo como um dado adquirido a possibilidade do Município o fazer sem com isso infringir o enquadramento legal imposto aos municípios que recorreram a contratos de reequilíbrio financeiro.

Na reunião da Assembleia Municipal, a bancada da CDU apresentou uma proposta de deliberação que remetia a petição à Câmara Municipal para que esta tivesse em conta o proposto, no caso de o Governo esclarecer de forma cabal e inequívoca a possibilidade do município baixar as taxas.

O PSD apresentou, igualmente, uma proposta de deliberação defendendo que a Assembleia recomendasse à Câmara a redução das taxas de IMI e o envio desta deliberação para o Governo.

Face à apresentação destas duas propostas de deliberação, a CDU e o PSD entenderam ser possível chegar a um consenso que resultasse da fusão das duas propostas, tendo então sido apresentada uma proposta de deliberação subscrita pelas duas bancadas que, no fundamental, mantinha a proposta da CDU acrescentando o parágrafo da proposta do PSD que sugeria o envio da deliberação para o Governo de forma que este se pronunciasse sobre o assunto.

Ou seja, com os votos favoráveis da CDU, do PSD e da Presidente da Junta da União de Freguesias de Azeitão, foi aprovada uma deliberação que, reafirmando o desejo de se proceder a uma descida das taxas de IMI em Setúbal, faz depender essa descida de um esclarecimento cabal e inequívoco do Governo sobre a possibilidade legal dessa decisão.

Na prática, o PSD reconhece a necessidade de se obter um esclarecimento para que os órgãos autárquicos possam decidir em liberdade e plenamente conscientes da legalidade dos actos a praticar.

Se estes foram os factos, como pode o PSD Setúbal e o seu líder, Nuno Carvalho, difundir hoje uma nota sobre os acontecimentos dizendo coisas como:

  • «Nuno Carvalho, candidato a Presidente da Câmara Municipal de Setúbal pelo PSD, obrigou a Assembleia Municipal de Setúbal, que reuniu na passada quinta -feira, dia 06 de Julho, a deliberar sobre a proposta de redução do IMI e de adopção do IMI Familiar no concelho»;
  • «A Assembleia Municipal adoptou uma recomendação, proposta pelo grupo do PSD»;
  • «Somos o único partido que tem defendido esta decisão»
  • «É importante sublinhar que os dois governos anteriores liderados pelo PSD assumiram essa possibilidade e permitiram ao Município de Setúbal baixar o IMI».

Como resulta das evidências dos factos, Nuno Carvalho e o PSD mentem aos Setubalenses:

  • Nuno Carvalho não obrigou a Assembleia a nada, até porque não o poderia fazer e são os membros da Assembleia que decidem quando e se discutem certa matéria;
  • A Assembleia Municipal não deliberou sobre qualquer proposta de redução das taxas de IMI ou de adopção do IMI Familiar;
  • A Assembleia não aprovou qualquer recomendação, aprovou uma deliberação que remete para a Câmara a petição e faz depender uma eventual descida das taxas do cabal esclarecimento do Governo sobre essa possibilidade.
  • Essa deliberação foi apresentada em conjunto pela CDU e pelo PSD e não apenas pelo PSD;
  • Quem sempre defendeu esta posição foi a CDU que continua a insistir, por um lado na necessidade de baixar o IMI e por outro na necessidade do governo prestar todos os esclarecimentos sobre esta matéria, de forma a dissipar todas as dúvidas que possam existir;
  • Nenhum governo assumiu essa possibilidade de forma conclusiva, facto que tem conduzido, também, o PSD a questionar o Governo.

 

A pergunta que fica por responder é que razões levam o PSD a mentir aos Setubalenses?

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Geral

O estado do Estado

Nas últimas semanas milhentos escreventuários têm debitado de forma compulsiva acerca das falhas do Estado.
Inspirados na desgraça do ardido e na suposta incúria militar, malham forte e feio naquele que consideram o mostrengo.
Muito bem!
Ou seja, muito mal, porque estamos perante o mais desbragado oportunismo populista.
De facto, estes comentadores e analistas avençados, jagunços políticos, jornalistas alienados, diletantes arco-íris e vendedores de arenga moralista, quando se trata de botarem discurso sobre o Orçamento, só têm um ponto de vista: cortar nas supostas gorduras e ao serviço do sacrossanto controlo do deficit.
Isto é, para eles, os professores, enfermeiros, polícias, sistemas de videovigilância, médicos, guardas florestais e mais um infindável rol de funções e serviços vitais para os cidadãos e território, são tecido adiposo que deve ser sempre e cada vez mais desbastado.
Agora, fariseus da Lapa e do Caldas, aí estão, apontando o dedo ao estafermo enfezado em que transformaram o Estado, sugando-o, depauperando-o e aproveitando-se dele!
O Estado não deve ser governado, mas, sim, gerido pela governança.
O Estado não deve ser forte, mas sim resiliente.
O Estado social é coisa feia, o empreendedorismo é que está a dar.
O Estado não deve atrapalhar a “economia circular”, nem prejudicar a “economia compartilhada”, seja lá isso o que for.
A visão de Estado da cambada modernaça, bem-falante e inovadora, é a velhíssima perspetiva predatória e exploradora que há seculos exaure o planeta.
À tarde, manifestam-se preocupados com o aquecimento global.
À noite, frescos e aliviados com mais um negócio renovável, brindam com gim tónico apimentado e vociferam: abaixo a contratação coletiva, viva os CMEC’s!
E, quando põem a pata na poça, inventando suicídios para alimentar a sua tese ideológica, logo algum diácono de turno os tranquiliza e absolve: todos erramos, irmãos, deixemos arder que há por aí muitos pais de família que são bombeiros!

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