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Natal Sugestões Musicais e de uma prenda no sapato de todos os portugueses

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Presépio de Rosa Ramalho

Com o espírito de natal a sobrevoar o calendário e o quase ensurdecedor badalar dos sinos que anunciam um pequeno e frágil interregno num universo em que guerras directas e indirectas asseguram a continuidade de um sistema da exploração dos homens e dos recursos materiais e imateriais para manter a sobrevivência de um sistema desumanizado em que essas riquezas se vão progressivamente acumulando num grupo cada vez mais restrito, que sugestões culturais fazer que interferiram mínima mas positivamente no ruído desse frenético vai e vem natalício que em muitas partes do mundo é frágil ou inaudível?

Por cá, haverá sempre espaço para sair das ruas de iluminações acrescentadas que assinalam a época, ir ouvir música que naturalmente também tem essa marca. Haverá por todo o país, em todas as cidades, vilas e aldeias um momento musical relacionado com o natal. Enumerá-los é uma quase impossibilidade. Registem-se alguns, centrados em Lisboa e Porto para contornar essa inexequibilidade.

O Messias de Haendel, uma narrativa dramática em torno do nascimento, vida, morte e ressurreição de Cristo é uma obra prima e um dos temas recorrentes da época natalícia e pascal. É um dos mais populares oratórios escritos por Haendel, ainda que ultrapasse as fronteiras típicas de uma definição estrita de “oratório”. Tem uma forte componente teatral que provocou grande controvérsia na sua primeira apresentação em Dublin e nas sequentes em Londres. A Aleluia  de Messias  https://youtu.be/C3TUWU_yg4s é um dos trechos musicais com maior reconhecimento universal.  

Pode ouvir o Messias de Haendel no dia 16 no Fórum Luísa Todi em Setúbal e no dia 17 no Grande Auditório do CCB e a 18 no Coliseu do Porto, pela orquestra Metropolitana de Lisboa dirigida por Leonardo Garcia Alárcon, o Coro Sinfónico Lisboa Cantat, maestro do coro Jorge Carvalho Alves, e os solistas Joana Seara-soprano, Carolina Figueiredo-meio soprano, Marco Alves dos Santos-tenor, André Henriques-barítono.

Em Lisboa, no dia 15 de Dezembro às 21h30 na Igreja da Graça, Lisboa O Ensemble Bomtempo (alunos da Escola Artística de Música do Conservatório Nacional) e a Orquestra de Câmara do Conservatório, músicos jovens, muito prometedores e com anunciado futuro que dirigidos por Nathanael Júnior, interpretam a Oratória de Natal de Saint-Saens. https://youtu.be/j6FB6VTDR-w Obra da juventude do compositor, que foi um menino prodígio, dividida em 10 andamentos para cinco solistas, coro, orquestra de cordas, órgão e harpa. O concerto encerra com o Tantum Ergo também de Saint-Saëns. Um aviso a entrada é livre, está sujeita à lotação disponível.

Na Fundação Gulbenkian, também a 15 de Dezembro a Oratória de Natal de Johann Sebastian Bach com o Coro e a Orquestra Gulbenkian dirigidos por Michel Corboz e os solistas Maria Cristina Kiehr-soprano, Marianne Beate Kielland-meio soprano, Tilman Lichdi-Tenor, Peter Harvey- Barítono. A Oratória de Natal https://youtu.be/h6qtBGqjyNU de J. S. Bach tem na sua base muita música escrita pelo compositor em anteriores cantatas que recupera, adapta e transforma, uma prática habitual em Bach que a faz com a sua enorme genialidade.

Ainda na Fundação Gulbenkian, nos dias 20, 21 e 22, Músicas de Natais de Todo o Mundo, na voz de Sophia Escobar, acompanhada pelo Coro e Orquestra da Fundação Gulbenkian dirigido por Jorge Matta. Canções escritas por Leonard Bernstein https://youtu.be/lsOowKrGJ8I , Andrew Lloyd Webber, Frederick Loewe, Alan Silvestri, John Rutter, Howard Blake, Robert Shaw e Robert Russell Bennett.

A orquestra e o coro da Fundação Gulbenkian com a direcção de Jorge Matta estarão também na Igreja de São Roque, no dia 31 de Dezembro com o Te Deum Laudemus de Bráz Francisco de Lima, numa primeira audição moderna desse compositor que foi enviado por D. José para estudar em Itália. Tem obra pouco conhecida e com arquivo escasso, só se conhecem dez partituras. Solistas Carla Caramujo-soprano, Carolina Figueiredo- meio soprano e Manuel Rebelo-barítono.

No Porto, na Casa da Música o natal começa a dia 14 com Christmas Song Book, uma selecção das músicas tradicionais mais ouvidas nesta quadra. Do Silent Night a Santa Claus Is Coming to Town, de White Christmas a Blue Christmas de Let It Snow a Jingle Bells, https://youtu.be/7spkFpFdIK0 não falta (quase) nada do que foi consagrado pela tradição anglo-saxónica, muitas recuperadas pelo jazz.

A 16, a Banda Sinfónica Portuguesa, dirigida por Francisco Ferreira e o Coro Infantil da Academia de Música Costa Cabral, classe de Patrícia Silva, mergulham no reportório do espírito natalício com temas inspirados na música latino-americana, no folk inglês, no ballet clássico. Um concerto com composições de James Barnes, Jorge Salgueiro, Philip Sparkes, Leroy Anderson, Alfred Reed e Bert Appermon.

A 23, a Orquestra Barroca da Casa da Música e o Coro da Casa da Música com a direcção Laurence Cummings dão um concerto a que não falta a 1º parte do Messias de Haendel e se farão ouvir Heinrich Biber Duas Fanfarras, Michael Praetorius Wie schön leuchtet der Morgenster, Uns ist ein Kindlein heut gebo e In Dulci jubilo, https://youtu.be/pHRFyYzOFNQ Andrea Gabrieili O Magnum Mysterium e o The King Shall Rejoice de Haendel.

Em Figueiró dos Vinhos a Orquestra Clássica do Centro, em parceria com a Associação das Vítimas de Pedrógão Grande, assinala o Dia de Natal com um concerto com entrada livre a realizar-se na Igreja Matriz de Figueiró dos Vinhos, no dia 25 pelas 17h00. A Orquestra Clássica do Centro será regida pelo Maestro Cesário Costa com a participação da soprano Marina Pacheco e do tenor Sérgio Martins.

Das obras que serão interpretadas destaque-se Op. 6 nº 8 de Corelli; Mit Würd und Hoheit https://youtu.be/9GMegjPz_g0 da A Criação, de J. Haydn; Laudate Dominum, de W. A. Mozart; Panis Angelicus, de Cesar Franck; Avé Maria, de Caccini.

Muitos outros e bons concertos, com o Natal por tema, irão certamente acontecer ao pé da sua porta. Faça um intervalo nos seus preparativos natalícios para os ouvir.

Com estas, muito parcelares sugestões culturais, até para o ano com um desejo que é uma proposta bem enquadrada no espírito da época e que seria uma verdadeira e de bom quilate prenda de Natal para todos os portugueses e para Portugal. Quando os empreendedores lusos andam todos excitados e sobressaltados com a proposta dos 600 euros para salário mínimo, acabou fixado em 580 euros, porque não discutir o salário máximo?(*) Uma ideia de Roosevelt que, em 1933, propôs que quem recebesse de rendimento mais de 25 mil dólares/ano, uns 400 mil dólares / 339 600 euros actualmente, seria taxado a 100%. Acabou por ser fixada uma taxa de 97%, o que reduziu desigualdades e deu ao Estado capacidade para investir directamente e apoiar os investimentos privados produtivos, para acabar com a parasitagem que voltou em força com as políticas económicas neoliberais, postas sobretudo em prática pelos famigerados Reagan-Thatcher. Uma proposta que bem se enquadra no espírito natalício, embora se calcule que os 0,002% (provavelmente ainda menos) de portugueses com rendimento superior aos € 30 000/mês (número redondo, pouco mais que 50 vezes o salário mínimo estabelecido para 2018), de voz grossa e recorrendo aos seus vassalos e mercenários, tocariam freneticamente os sinos a rebate anunciando que o propalado ecumenismo do Natal iria ser queimado em praça pública. O Natal é o veículo para essa gente expurgar a alma com a caridadezinha! https://youtu.be/ZHieMBabirY

(*) O salário máximo não o é em sentido estrito. É assim chamado para facilitar a comparação com o salário minimo,. O mais correcto seria chamar-lhe remuneração máxima porque é a soma de todos os rendimentos, como julgo estar claramente expresso no texto. Um valor anual que foi dividido por doze meses para se fazer uma comparação entre salário minimo/salário máximo para tornar mais visível o ponto mais baixo e o mais alto entre o menor e o maior rendimento anual.

(publicado em AbrilAbril, excepto a nota (*)

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Artes, Cultura, Geral, museus, Panteão, Património Monumental, Web Summitt

A Degustação das Artes e da Cultura

O falazar que o jantar no Panteão originou tapa a questão central de a cultura ter deixado de ser um bem para se converter num produto, numa mercadoria a que se exige rentabilidade.

Selfie de freiras

 

O jantar dos Founders Summit, os principais fundadores de empresas que estiveram na Web Summit e outros seus convidados de topo, no Panteão Nacional levantou um vendaval de indignações que tem muito que se lhe diga. Ao ler as listagens das dez melhores ideias, as 67 frases mais marcantes e o mais que se plantou na embasbacada comunicação social atropelada por tanta tecnologia, mais as ilustrativas entrevistas aos empreendedores triunfantes, as premonições 360 de gente como Al Gore, Margrathe Vestager, Bruno de Carvalho ou François Hollande, o que mais espanta é, naquela feira de app’s tão imaginativas, não aparecer uma startup a apresentar uma app para facilitar a interacção entre equipamentos culturais  o mundo empresarial que se lustra com eventos em ambientes históricos e  os famosos ávidos por ascenderem aos patamares da cultura  a que seriam elevados por uma rave na Torre de Belém decorada pela Joana Vasconcelos. Uma app que facilitasse e desse dimensão internacional a jantares e festas no Panteão, nos Jerónimos, no Convento de Cristo, etc., transportados pelos carros voadores da Uber. A starup estava condenada ao sucesso, acabavam-se as discussões. A ementa Barreto Xavier para uso do património cultural valorizava-se, os preços de saldo aí inscritos subiriam em flecha dado o aumento da procura. Na tabela de preços incluir-se-ia um anexo com as custas das selfies pessoais e grupais, recortadas em fundos monumentais. Paddy Grosgave snifaria a variante digitalizada dessa cocaína cultural, um must que poderia utilizar para valorizar o negócio das praças de jorna da Web Summit.

O falazar que o jantar no Panteão originou tapa a questão central de a cultura ter deixado de ser um bem para se converter num produto, numa mercadoria a que se exige rentabilidade. Progressivamente tem-se desmantelado o modelo de investimento público no património cultural, museus e monumentos. É a disneyficação da cultura que segue as estratégias culturais em prática nos EUA em que a cultura foi e é desde sempre um meio usado para lavar atentados ambientais, crimes fiscais, especulações financeiras, fugas para offshores, duplicidades éticas e, claro, a exploração do trabalho com o adicional de se obterem chorudos benefícios fiscais,

Os exemplos na Europa multiplicam-se apesar e mesmo quando há umas décadas se conseguiu contrariar a intenção de alguns países da CEE de quererem submeter as actividades culturais e artísticas aos ditames da Organização Mundial do Comércio fazendo equivaler livros, concertos ou esculturas a batatas, tupperwares, atacadores para sapatos com todas as consequências a montante e a jusante. Em síntese, queriam atirar  a cultura e a criação cultural para a fogueira unidimensional do mercado. O que não entrou pela porta principal entra pela janela. Não há almoços grátis, como propugnou e popularizou o expoente do neoliberalismo Milton Friedman. Com o desinvestimento público na cultura e no património cultural as estratégias de sobrevivência multiplicaram-se e as questões éticas colocadas pela progressiva influência dos patrocinadores nas decisões das direcções dos museus e monumentos são uma realidade que têm sido objecto de acesas discussões.

Hoje vulgarizaram-se as lojas e restaurantes dos museus onde há uma oferta gastronómica variada, a venda de objectos mais ou menos chiques, é preciso alcançar todas as bolsas, adquirir os catálogos dos seus conteúdos sendo-se poupado à chatice de o visitar ou sequer saber o que por lá é exibido. Paralelamente promovem-se visitas desenfreadas em que é permitido às hordas de transeuntes tirarem fotografias colocando em perigo objectos expostos, os casos de danos graves sucedem-se em todo o mundo. Quase se incentiva a praga da selfies em que se abraçam estátuas milenárias, se ocultam pinturas colocando-as em risco. Deixaram de ser objectos de contemplação e usufruto cultural para se equivalerem a manequins numa montra.

Os führers da moda, da fashion life tomam de assalto o património cultural associando-os às suas marcas. Um exemplo paradigmático é Itália, com um legado de grande dimensão em risco a exigir intervenções urgentes e os governos, o de Berlusconi na linha da frente, a cortarem drasticamente os orçamentos da cultura. Solução? Vendem-se direitos de patrocínio na restauração de monumentos como a Fonte Trevi à Fendi, o Coliseu de Roma à Tod’s, Pompeia à Prada, a Torre de Pisa à Gucci, associando os logotipos das marcas aos monumentos que apadrinham. Em França também está em curso, desde 1984, um vasto programa de privatização de património edificado, iniciado por Jack Lang esse feérico ministro da cultura que proclamava “ser necessária imaginação para os reinventar”. Na Europa esses processos cavalgam o tempo. Por cá, mais modestamente, o programa Revive recorre ao empreendedorismo turístico com promessas de restaurar o património edificado e lhe dar acesso público, desde que, evidentemente, não incomode os utentes que pagam para dormir e vaguear por onde dormiu e vagueou a extinta nobreza pelo que se deve preservar o sossego desses esplêndidos momentos de ócio, pagos e bem pagos aos empreendedores que em poucos anos amortizam os investimentos feitos à conta do valor histórico desses lugares, Vamos ver como correrá essa coexistência.

O grande problema da imaginação para reinventar os monumentos é se as operações imobiliárias, que necessariamente lhes estão associadas, garantem e como garantem as suas memórias originais, ou se essas memórias serão e como serão sacrificadas à sua reabilitação. Nos processos em curso por essa Europa fora, nada está garantido e muito do que já foi feito só provoca as máximas apreensões.

Tudo isto se enquadra no estado actual da cultura e das artes.  Está em linha com as exibições de arte contemporânea em que as marcas de artigos da moda e luxo se associam às vernissages sublinhado o seu carácter mundano com desfiles de moda ou assinalando-as como fez a Hermès na inauguração de Buren em Paris com lenços de seda desenhados pelo artista, a Louis Vuitton com sacos monografados de Murakami na abertura de uma sua exposição em Los Angeles. Exemplos não faltam nessa lógica ostentatória em que se associa a moda à arte contemporânea, em que o mundo dos famosos desfila destilando fragâncias, joias e os últimos modelos de vestuário. São menos as notícias sobre as exposições e os sucessos culturais que as que registam as presenças do star-system, da política aos grandes empresários, das vedetas televisivas às do desporto, do cinema, da música e da arquitectura, dos artistas visuais ao baixo clero da crítica e curadoria que os promove e os chefs que prepararam as degustações daquele evento ou esperam ser convidados para o próximo.

É o estado geral das artes e da cultura contemporâneas em que a dominante é a mercantilização todo o terreno vendida em embrulhos espectaculares e sensacionalistas. No horizonte já nem sequer se vislumbra alguma Margarida à beira desta estrada que Fausto corre em maratona destravada, vendida a alma ao Diabo para ter visibilidade e arrebanhar mais-valias.

(publicado em https://www.abrilabril.pt )

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Artes, Cultura, Fernanda Botelho, Geral, Guia Eventos Setúbal, Literatura, Livros

O Esplendor da Escrita

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Fernanda Botelho, uma das escritoras mais originais da língua portuguesa, tem vivido no limbo em que navegam muitos outros vitimados por políticas editoriais não alheias a uma crise universal, não só económica mas também de ideias, mais agravada num país periférico como o nosso com frágil rede de leitura e parco consumo do livro. Causa alguma estranheza a quantidade de títulos que se publicam, com tiragens reduzidas se comparadas com algumas décadas anteriores, bem como a anorexia de muita dessa livralhada que enche as prateleiras das livrarias. Há sempre surpresas, excelentes surpresas, tanto de novos autores como de recuperação de outros que andavam esquecidos. É o caso de Esta Noite Sonhei com Brueghel.

Um romance em que a protagonista, Luiza recorre à autobiografia da autora para fazer o seu retrato pessoal inscrevendo-o numa fotografia que é o do país nesse tempo. Um labirinto angustiante, à beira de um abismo desesperado em que os quadros de Brueghel, com que Luiza sonhou uma noite, funcionam enquanto fios condutores.

“Comecei-o há doze anos em Bruxelas”, diz ao amante antes de ele a deixar em casa, numa rua de Lisboa, anunciando-lhe que talvez mostre ao marido esse manuscrito onde todas as personagens dessa vida que é a dela têm o nome real. “Não são personagens, conheço-as. Mas são personagens, sim senhor! São e não são. Mas, no manuscrito, parecem personagens. Percebes?”

Esta Noite Sonhei com Brueguel é uma fascinante teia de escrita, de escrita sobre a escrita, em que Luiza/Fernanda se procura a si-própria com a ferocidade de um prazer salutarmente irónico que dispara sem contemplações sobre si, sobre os parceiros de viagem que se encontram e desencontram nos universos que percorrem e sobre nós, os seus leitores. Uma sofisticada e complexa rede  num exercício de autocrítica quase despojado de emoções.

Um romance fascinante em que o evidente prazer da escrita se transmite sem fissuras para o prazer da leitura.  Esta Noite Sonhei com Brueghel, o sétimo romance de Fernanda Botelho, é o primeiro da anunciada reedição da sua obra completa, resgatando-a a imperdoável esquecimento e ao desconhecimento dos novos leitores para quem será uma luminosa revelação. Para todos, uma leitura sem desbaratos.

 

Esta Noite Sonhei com Brueghel

Fernanda Botelho

Abysmo

Prefácio Paula Mourão

Design e Logotipo convidado Maria João Carvalho

Revisão Maria José Sousa

Edição Julho 2017

268 páginas

(publicado no Guia Eventos Setúbal;Novembro/Dezembro 2017)

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Artes, Cultura, Geral, Revolução de outubro

As Artes e a Revolução de Outubro

TRIBUNA LENINE Ilia Chastnik e El Lissitsky

TRIBUNA PARA LENINE, El Lissitzky e Ilia Dhashnik 

 

 

A Revolução de Outubro influencia decisivamente as artes. É um material vivo impregnado de espírito social inovador, um vendaval de esperança para todos os que durante séculos foram oprimidos e explorados. Nos anos da Revolução, em condições políticas e económicas duríssimas, uma guerra civil com a participação activa dos países ocidentais e a penúria imposta pela guerra e por um herdado aparelho produtivo esclerosado que era urgente transformar, o poder soviético constrói um regime que transforma radicalmente as relações de produção e de propriedade de que resultará um vigoroso desenvolvimento das forças produtivas. Outros dos gravíssimos problemas que a Revolução de Outubro enfrenta é de uma população esmagadoramente analfabeta, um combate que ocupou a primeira linha da frente cultural do jovem poder soviético que, num curto prazo histórico, o resolve fazendo aceder à educação milhões de pessoas.

A arte, as artes responderam aos novos tempos históricos com um dinamismo sem precedentes dando uma contribuição decisiva para o poderoso revolucionamento cultural que a Revolução também foi.

As vanguardas artísticas, com todo o seu potencial criativo inovador, colaboraram e coincidiram com a vanguarda política, mantendo a sua autonomia relativa, sem se deixarem colonizar pela política, mas fazendo dela parte activa da sua criação. É uma síntese nunca antes vista nem nunca antes experimentada. Em simultâneo, as fronteiras tipológicas entre as artes foram abolidas, os mesmos artistas trabalham em várias áreas e em várias frentes. A arte liga-se estreitamente à vida social nos seus múltiplos e complexos aspectos. Contribui activa e conscientemente para a construção de um novo modo de vida, para a educação e instrução artística e ideológica das massas populares, opondo-se à cultura de massas burguesa e às suas propostas de consumo, fachada de uma falsa democratização da arte. Aqueles anos de Revolução são o caldo de cultura em que se tempera a democratização da cultura e das artes que catalisam uma extraordinária efervescência artística. É um fenómeno radicalmente novo e complexo, em que a ética social revolucionária, por opção e decisão dos artistas, invade e transforma criativamente as propostas estéticas. Só assim se compreende como os debates, por vezes ferozes, entre as diversas vanguardas não impedem que continuem empenhadamente a colocar a sua criatividade ao serviço da Revolução, a terem um contacto efectivo às massas populares.

A arte de propaganda revolucionária, a agit-prop, é o combustível que faz mover todas artes. É o principal traço que atravessa toda a arte soviética nesses tempos no que foi um salto qualitativo na história mundial das artes e da cultura. Em que a cultura era uma presença viva, inconformada, sempre inovadora, nos antípodas das estradas percorridas pelas culturas ocidentais que desaguam numa esterilidade inquietante claramente sintetizada por Blanchot:«secretamente dramático é saber se a cultura pode alcançar um valor último ou se não pode fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio contra o qual nos protege, dissimulando-o».

Hoje temos distância histórica para melhor estudar e analisar esse processo de politização das artes que está na raiz de um debate actual do pensamento estético e das práticas e sistemas artísticos que está longe de se ter esgotado, como não se esgotou a urgência de compreender e avaliar o carácter profundamente novo da primeira tentativa histórica de construir uma sociedade que tem por horizonte o socialismo e o comunismo.

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Geral

O Futuro começou há cem anos!*

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A 7 de Novembro de 1917 (25 de Outubro no calendário juliano, então em vigor na Rússia) o proletariado russo, sob a direção do Partido Bolchevique liderado por Lenine, inaugurou um novo estádio da evolução social humana, o período da passagem do capitalismo para o socialismo.

No centenário deste acontecimento maior na história da humanidade, uma intensa campanha ideológica assente em mentiras e omissões procura deturpar e esconder os inúmeros avanços civilizacionais decorrentes da Revolução de Outubro.

Numa Rússia agrária e semi-feudal, acabada de sair de séculos de domínio Czarista, envolvida numa sangrenta I Guerra Mundial, com milhões a viverem na miséria, a Revolução do Outubro, logo nos primeiros dias da sua existência, cumpre a promessa de Paz e consagra o direito ao trabalho, a jornada laboral de oito horas, o salário igual para homens e mulheres, os seguros sociais estatais, as férias pagas e as pensões por reforma ou invalidez, o direito à maternidade e à interrupção da gravidez, a gratuitidade da assistência médica e da instrução, o direito à habitação e a igualdade entre homens e mulheres em todas as esferas da vida.

A primeira tentativa histórica de construção de uma sociedade nova, liberta da exploração, não foi isenta de erros e fracassos, mas ao contrário do que as forças do passado querem fazer crer, foi a Revolução de Outubro que transformou um país atrasado, onde a miséria, a fome, o analfabetismo, a exploração e a opressão atingiam milhões, numa grande potência mundial, um país industrializado, que garantiu a democratização do acesso à educação, à cultura e à saúde, um país que se lançou à conquista do espaço, um país que no final da década de 80 tinha a mais baixa taxa de mortalidade infantil do mundo.

E todas as conquistas da Revolução de Outubro foram alcançadas sob terríveis condições impostas por agressões sucessivas ao povo soviético, começando na guerra civil (1918-1921) promovida por patrões e latifundiários com o apoio das potências capitalistas; passando pela II Guerra Mundial, onde a URSS teve um papel determinante na derrota do nazi-fascismo, com um tremendo custo de vidas; acabando na chamada Guerra Fria.

O desaparecimento da URSS, na última década do século XX, determinou um retrocesso imenso nos direitos e conquistas dos povos, o mundo ficou mais perigoso, mais injusto e desigual, o capitalismo voltou a revelar a sua faceta mais agressiva e exploradora.

O retrato do mundo em que vivemos hoje é este: «apenas oito grandes capitalistas acumulam tanta riqueza como 3,6 mil milhões de seres humanos; os rendimentos de um por cento da população igualam os auferidos pelos restantes 99 por cento; o desemprego atinge 200 milhões de pessoas, enquanto 56 por cento dos empregos criados entre 1997 e 2013 são precários; 17 por cento da população mundial é analfabeta e 795 milhões sofrem de fome crónica; 67 milhões de crianças não frequentam a escola e 168 milhões são vítimas de trabalho infantil».

No entanto, com o fim da URSS não acabou a história, nem o sonho que ao longo de milénios alimentou e alimenta as lutas da humanidade pela construção de uma sociedade de seres humanos livres e iguais.

E é por isso mesmo que cá estamos para continuar essa luta, comemorando neste centenário da Revolução de Outubro o começo do Futuro!

*Texto originalmente publicado na edição de 6 de Novembro de 2017 do Jornal «O Setubalense»

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Cidade-Empresa, Cidade-Neoliberal, Geral, lisboa, urbanismo

Um Outro Olhar Sobre Lisboa

 

 

 

 

LISBOA Rua AugustaLisboa tem sido nos últimos anos centro de uma transformação em linha com o conceito das cidades neoliberais, a Cidade-Empresa em que o que interessa não é a cidade nem os seus cidadãos, mas o seu encanto para atrair os grandes interesses privados e os lucros que gera. É a cidade projectada e de facto comandada por Manuel Salgado, que muito excita o putativo presidente da autarquia a pregoar embevecido “o momento de dinamismo, vibração, ânimo, polaridade positiva” e mais umas tantas patacoadas pacóvias exaltando uma cidade de que os lisboetas são progressivamente excluídos. Como Ana Jara (*) bem sublinhou “a Cidade-Empresa não é apenas uma mudança administrativa nem o decalque de um modelo de gestão e operativo, como poderiam argumentar os que o preconizam. É o propósito e a ideia de Cidade e de Poder Local que vão sendo redefinidos nesta teia de sobreposição de interesses. A construção da Cidade Neoliberal apodera-se dos poderes públicos locais.” Essa ameaça bem real paira sobre Lisboa, disfarçada por uma intensa maquilhagem que alegra a paisagem, para lisboetas e sobretudo turistas verem, enquanto as transformações de fundo seguem o seu curso, avolumam os problemas dos alfacinhas.

Lisboa é uma cidade antiga e magnifica que sofreu ao longos dos séculos vários sucessos em que é central a reconstrução pós-terramoto de 1755, decidida pelo Marquês de Pombal que teve a visão de eleger o projecto de Eugénio dos Santos a que se sucedeu Carlos Mardel. Outras intervenções urbanísticas tiveram o mesmo rasgo. Exemplo o urbanismo progressista das Avenidas Novas quando Lisboa se expandiu para norte, projecto de Ressano Garcia, autor de outras intervenções urbanas marcantes: Campo de Ourique, Bairro Barata Salgueiro, Bairro Camões, Bairro da Estefânia, Avenida 24 de Julho. Outras acções poderiam ser referidas por se destacarem da tralha urbanística dominante.

A história da evolução da cidade pode ser visitada com proveito no Museu de Lisboa, no Campo Grande e de certa maneira no Lisbon Story Center, no Terreiro do Paço (é irritante este provincianismo da titulagem anglo-saxónica que nos invade ruidosamente, veja-se o serviço público da televisão perante o silêncio de um ministro que se diz defensor da língua portuguesa).

Há sempre mais para ver e descobrir em Lisboa, sobre Lisboa. É o caso da exposição 22 Cidades Iberoamericanas e Lisboa: um diálogo urbano-arquitectónico. (**). Na sua base registos fotográficos que o arquitecto, estudioso e investigador da história da arquitectura, José Manuel Fernandes fez durante trinta anos. É uma selecção de imagens, executadas em várias cidades de países iberoamericanos, organizadas por áreas geográficas: Norte e Mesoamérica, Caribe, Brasil, Cone Sul e Península Ibérica / Ilhas Atlânticas. São vinte e duas as cidades visitadas pelo autor, apresentadas e analisadas em sistemática comparação com Lisboa.

Cada imagem, uma para cada cidade iberoamericana e a sua relação específica com Lisboa. é apoiada por um texto temático tendo em anexo dados essenciais de cada urbe: data fundacional, população atual, valores patrimoniais. Situa-se assim Lisboa, uma cidade que afirmou o seu cosmopolitismo na época dos descobrimentos, no mundo ibero-americano como cidade-irmã dessas outras urbes nas complexidades dos seus espaços, nas diversidades das suas formas arquitetónicas. Uma outra forma de olhar para Lisboa e de revelar a sua presença no mundo. É uma exposição a ver, que escapa à pletora dos circuitos turísticos, um singular roteiro turístico no seu anti turismo.

 

(*) A Lisboa Pós-Salgado, 2007-2017, Ana Jara, Caderno Vermelho 25, setembro 2017

(**) Casa dos Mundos, Rua Nova da Piedade 66, até 31 de dezembro

(publicado em Avante! 2289, 12 outubro 2017)

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Autárquicas 2017, BE, CDS, CDU, Eurocomunismo, Geral, Partidos Socialistas, PCP, PEV, PS, PSD, Social Democracia

Uma Leitura das Autárquicas 2017

autárquicas 2017

 

Ler, mesmo na diagonal as leituras que se fazem das eleições autárquicas 2017, na comunicação social e nas redes sociais é exercício acabrunhante, mesmo que se coloque à margem o que se escreve e diz sobretudo sobre os resultados eleitorais de Almada, em que existe uma exaltação pelo aparente ar fresco (o que é que isso quererá dizer?) soprado  por uma Inês Medeiros que não tem deixado marcas notáveis pelos lugares por onde deambulou mas que, nos delírios provincianos e serôdios que por aí se plantam, fará renascer em solo luso uma rive gauche se não defunta pelo menos moribunda no seu local de origem. Depois,  Lisboa onde iremos ter, para alegria dos sitcoms turísticos e da especulação imobiliária, a continuação, agora talvez um pouco mais mitigada pela perca de maioria absoluta, de uma cidade que está a ser virada do avesso por Manuel Salgado, com Medina a fazer de presidente, em linha com os modelos das cidades neoliberais (*), que vai tentar continuar o seu curso numa Lisboa enquanto “ cidade pensada a preço por metro quadrado, como um realista tabuleiro de monopólio, pronto a servir para a monocultura de hotéis e luxury apartments (**). Haveria ainda a referir, sem necessidade de comentários, o exemplo exemplar de Oeiras.

Saltando ao eixo sobre esses três sucessos, outros se poderiam alinhar, cai-se nas leituras que estão a ser feitas extrapolando os resultados autárquicos para o plano nacional. Uma decifração excessiva, tenham o peso que tiverem nos partidos que se confrontaram, mesmo sem iludir o efeito que a persistência mediática em transformar as eleições locais em eleições nacionais possa ter tido. A leitura das votações nas autárquicas deve ser feita autarquia a autarquia. Votar numa lista de candidatos para uma Câmara Municipal, uma Assembleia Municipal, uma Assembleia de Freguesia é bem distinto de votar para as legislativas. Só a comparação dos resultados obtidos no mesmo concelho por cada um dos partidos, coligações ou candidaturas ditas independentes a essas autarcias é elucidativa.

Um tema tem sido dominante entre os supostamente preclaros plumitivos: o efeito que o mau resultado da CDU, com a perca de dez câmaras, terá na relação existente entre os parceiros do acordo parlamentar, cuja efectivação sublinhe-se foi impulsionada pelo PCP o que é sistematicamente esquecido porque coloca em causa a generalizada tese de os comunistas perfilharem o quanto melhor pior. Uma tese falsa, a roçar a aleivosia. O PCP, pela sua grande proximidade com as populações, sabe melhor que ninguém que o quanto pior melhor, tanto afecta trabalhadores como as classes médias. Que quando as crises rebentam as pessoas humanamente interrogam-se sobre o dia de amanhã. A reacção mais imediata e espontânea é o receio pelo seu futuro, pelo que as lutas pelos direitos políticos e sociais não se reforçam com as crises, que alargam sempre o fosso entre ricos e pobres. Quem se reforça são os populismos de todos os matizes, tanto de esquerda como de direita, em particular da extrema direita.

Os maus resultados do PCP nas autárquicas devem ser analisados pela lente, cada caso é um caso, das deficiências na gestão e como o trabalho realizado foi comunicado em cada uma das dez câmaras perdidas, pelas escolhas eventualmente erradas nos candidatos, o que nem sempre será certo, nas propostas feitas aos eleitores, no trabalho e empenho nas campanhas eleitorais. Esses são os pontos nucleares em que se devem centrar os questionamentos internos no PCP o que, como seria expectável, são estranhos aos escreventes tanto da direita mais encortiçada como das esquerdas saltitantes.

Uns e outros, por razões diversas, mas não conflituantes, esperam que os acordos estabelecidos, por muito ainda estar por cumprir, sejam fissurados ou mesmo quebrados por o PCP recear uma perca imediata de influência o que o faria engrossar a voz para não sofrer “o abraço de urso” que foi dado aos partidos comunistas na Europa quando fizeram acordos com partidos socialistas. Esquecem, com pertinácia nada virginal, que o abraço era dado a um urso de pelúcia com quase todo o seu miolo esvaziado. Teses simplórias que incorrem no erro original de meter os partidos comunistas no mesmo saco como se os partidos comunistas, em particular o de França e Itália, não tivessem entrado em autofagia ideológica, denegando e destruindo princípios para supostamente atingirem uns fins que não se diferenciavam dos revisionistas sociais-democratas, ficando incapazes de ver que o conflito central continua a ser o da luta entre o trabalho e o capital, que a  proletarização, ainda que  encapotada, avançava e continua a avançar  a passo largo em todo o mundo. Que esses partidos foram invadidos pelo eclectismo político, um forte aliado do capital e da burguesia, que já tinha inundado essas outras esquerdas. São expressão do triunfo ideológico da direita bem patente nos defuntos eurocomunismos, nas variegadas terceiras vias que colonizaram e colonizam os partidos socialistas e sociais-democratas. Outro aspecto nada despiciendo desse estado de coisas é a tónica das lutas ter sido deslocada para as mudanças de atitude social desprezando qualquer alteração do quadro social dominante. Não é que se deva ficar alheio a essas lutas ditas fracturantes. O equívoco é fazer a exaltação das diferenças ocupar lugar central em vez do lugar secundário que justamente devia ter, confundindo lutas por mudanças de atitudes sociais com lutas por mudanças sociais de fundo.

Poderão os resultados positivos da governação PS, ter algum efeito de erosão nos votantes CDU. Não será isso que fará o PCP recuar na sua de sempre linha política que, por ter viabilizado o governo, fragilizou de maneira contundente a direita, melhorou, ainda que de forma insuficiente, a vida dos trabalhadores, pensionistas e da classe média, fez com que muitas das políticas vacilantes do PS se orientassem para a esquerda, no que nem sempre tem tido êxito. As lutas do PCP continuarão esse e não outro rumo. Jerónimo de Sousa coerentemente deixou isso muito claro, quando afirma que “o que determinará o futuro do Governo do PS está nas mãos do próprio PS”, “tudo depende da continuação — ou não — do caminho começado há dois anos, com a reposição de rendimentos e de direitos”. Reafirma: “estamos nesta nova fase da vida política nacional, num processo onde repor, devolver até a esperança, leva o PCP a não perder nem uma oportunidade materializar esses avanços” o que aliás está em linha com o que disse há dois anos “o PS só não será governo se não quiser”, abrindo caminho para a solução política actual.

Os cálculos políticos da direita, da mais obnóxia à mais porosa, da esquerda, da mais recalcitrante com o rumo actual à mais performativa, todos agitados pelo cheiro do couro dos cadeirões do poder, são de curto prazo depois de terem perdido todos e quaisquer horizontes ideológicos, alguns nem nunca os tiveram. A sua única visão foca-se em futuras contagens de votos porque são máquinas eleitorais que medem exclusivamente a sua força pelas percentagens que alcançam para servir interesses económicos que lhes dão apoio variável. É a transposição para Portugal do que está a acontecer em todo, quase todo o mundo, numa extensão do sistema norte-americano, dentro do quadro do pensamento da ortodoxia de direita que está triunfante e que inquina generalizadamente as análises políticas, mesmo as que se lhe opõem quando decalcam argumentários que se desgastam por repetitivos. Por muito que o neguem e disfarcem estão amarrados aos pelourinhos do TINA (There Are No Alternative) ou perdidos nos seus labirintos.

É ler e ver o que passeia destrambelhadamente pela comunicação social e pelas redes sociais, da direita a uma certa esquerda, todos muitos excitados com a perca de autarquias pela CDU e pelo que daí pode advir, como se as lutas estivessem dependentes de outros cálculos que não fossem os que as motivam. Nos graneis das direitas estão preocupadíssimos com a crise aberta no PSD, em que o presidente não se demite, mas não se recandidata, rezando à Senhora de Fátima para que apareça um Macron lusitano no nevoeiro do próximo congresso, a Cristas faz figas para que tal milagre não aconteça. Espreitam pelos buracos de todas as fechaduras para o que supostamente se passa debaixo do tampo da mesa em que Marcelo e Costa reúnem, sonhando com a ressurreição do bloco central e suas alternâncias pouco substantivas, ainda e mesmo que com uns berloques de esquerda a reboque. Os cenários multiplicam-se cada cor seu paladar. Acabam sempre com os olhos em bico a ler os astros para fazer previsões na base de contagens de cruzes que as massas populares irão um dia inscrever nos boletins de voto, para no outro dia acordarem como sempre sem nenhum amanhã.

Há outros mundos e que quem lute por outros mundos para lá desses pequenos mundos sem horizonte, com isso eles não sonham, mas conhecem quem porfie nessa luta, o que muito os desassossega.

(Publicado em AbrilAbril)

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