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UM TEMPO GROTESCO

Com o neoliberalismo capitalista a servir doses rituais de violência, a verdadeira catástrofe é o imobilismo: impõe-se a obrigação militante de combater as turbulências das falácias que o sistema moribundo manipula sem parar.

Imagem de «Ghosts» (1934), de George Grosz 
Imagem de «Ghosts» (1934), de George Grosz Créditos

Ursula von Leyen foi perorar ao Parlamento ucraniano expurgado de todos os partidos de oposição ao nazi-fascistas no poder, o que para ela e por extensão a Comissão Europeia a que preside deve ser um exemplo de democracia, para lembrar que é necessário que a Ucrânia acelere os procedimentos contra corrupção. Uma grossa piada, um grotesco número de rasca comédia não só pela composição dos parlamentares, mas por se conhecerem as íntimas relações da máfia dos oligarcas ucranianos com o poder, a começar pelo seu presidente, o pinóquio Zelensky. Ainda que hoje, até nos anos mais próximos por um calculismo sem um pingo de ética, se desconheçam o estado das contas nos paraísos fiscais de toda essa gentalha, pode-se presumir que, com esta guerra e a cornucópia de maravedis todos os dias despejada à ordem de Kiev, devem estar a aceleradamente engordar, a que não deve ser alheio, entre outras fontes de rapinagem, o denunciado contrabando de armas, noticiado por jornais completamente alinhados com a narrativa ocidental, que alguns dizem afectar um terço das enviadas. A senhora Ursula von Leyen afivela a máscara de um inexpugnável ar sério para dar estes conselhos numa charla a um parlamento que só representa a clique mais radical que assaltou o poder na Ucrânia e que, ao sabor das conveniências, ela deve considerar representativo e democrático.

«A presidente da Comissão Europeia, esse órgão de autocratas da UE que nem sequer se maquilha com batons eleitorais, remete, com o maior cinismo, a defesa do Estado de direito democrático para o caixote de lixo, subvertendo os residuais princípios democráticos que a UE tanto aclama, colocando-os na prateleira dos bens que se negoceiam ao sabor das conveniências.»

Fê-lo com o mesmo ar conspícuo, até contra a opinião expressa de alguns dos seus vice-presidentes, com que anunciou libertar para a Polónia 36 mil milhões de euros do programa de combate aos efeitos da pandemia sem que esse país tenha dado um único passo para que o poder judicial deixe de estar subordinado ao poder político, o que era e é apontado como uma gravíssima violação do Estado de direito, isto mesmo quando se sabe, até bem demais, que o direito, mesmo no mais democrático dos países, é um valor variável e é sempre o direito do mais forte à liberdade. A presidente da Comissão Europeia, esse órgão de autocratas da UE que nem sequer se maquilha com batons eleitorais, remete, com o maior cinismo, a defesa do Estado de direito democrático para o caixote de lixo, subvertendo os residuais princípios democráticos que a UE tanto aclama, colocando-os na prateleira dos bens que se negoceiam ao sabor das conveniências. Ursula von Leyen não é uma ocidental voz solitária, está bem acompanhada pelos seus pares que, em manada nos mais diversos fóruns ou nos encontros de geometrias variáveis em que se têm desdobrado para espelhar uma unidade sempre à beira de fissurar, têm revelado o pior do relativismo em política.

Tudo isto acontece enquanto a Europa vai sucumbindo económica, militar e politicamente, ficando cada vez mais dependente dos EUA, que vão adiando a sua decadência principalmente com os compromissos que a UE assume, fazendo exercícios de respiração assistida a um dólar cada vez mais frágil, contribuindo para os crescentes lucros do complexo industrial-militar-económico e financeiro do império, salvando da falência a indústria do fracking, o processo mais poluente de extracção de gás e petróleo, que vai vender à Europa a preços quatro ou cinco vezes superiores aos actuais, o que compromete quaisquer hipóteses de crescimento económico e atira para as calendas a tão acarinhada descarbonização com a prevista reactivação de centrais eléctricas a carvão e outros itens que estão a estilhaçar a fé na economia verde e na luta contra as alterações climáticas. Estes são entre outros os sinais que se acumulam no incerto horizonte da Europa.

«Tudo isto acontece enquanto a Europa vai sucumbindo económica, militar e politicamente, ficando cada vez mais dependente dos EUA, que vão adiando a sua decadência principalmente com os compromissos que a UE assume, fazendo exercícios de respiração assistida a um dólar cada vez mais frágil»

Uma Europa, unida como nunca na defesa dos valores atlanticamente partilhados, que é a mesma que alinha na imposição de sanções urbi et orbi decididas pelos EUA para sustentar as normas do excepcionalismo ocidental que, variando e adequando-se aos ventos da história, tem de forma brutal explorado colonialmente o resto do mundo desde o séc. XVI e que, num arremedo desse seu brutal passado, quer continuar a subverter o direito internacional e o conceito básico e elementar de igualdade entre países e povos. Europa de facto mais submissa e subordinada aos interesses imperialistas dos EUA e do seu braço armado, a NATO. NATO a que presumivelmente se vai agregar a Suécia e a Finlândia, que, para a integrarem, abandonam o seu estatuto de refúgio para perseguidos políticos de outros países ditatoriais ou de democracias iliberais, provando que Georges Orwell tinha toda a razão quando escreveu que «ninguém precisa viver num país totalitário para ser corrompido pelo totalitarismo».

Um futuro senão de nuvens negras de cinzento muito escuro que sobrevoam os países da União Europeia que cederam a sua soberania social, económica, militar e política a um grupo de medíocres e não eleitos autocratas que pontapeiam os valores democráticos que tanto proclamam para inglês ver, já sem se preocuparem com as aparências das públicas virtudes vícios privados. Georges Orwell escreveu: «vivemos numa das piores ditaduras impostas ao homem, todavia esta se dissimula utilizando o pseudónimo “Democracia”», num tempo em que a corrupção das liberdades e da democracia eram enunciadas e as dissidências, sátiras, investigações jornalísticas sérias ainda eram permitidas pelos poderes dominantes.

«Nada é mais desigual que a igualdade entre desiguais a quem, nas mais liberais sociedades, é oferecida a possibilidade de votar regularmente em quem os vai explorar durante um período em que se remetem ao vazio submisso dos que se deixam enrolar pelos malabarismos da propaganda, que é sempre o que vence se isso for permitido.»

Desconhecia a impetuosa concentração dos meios de comunicação social e a escravidão digital de hoje. Desconhecia o actual jornalismo, mero rufar dos tambores do proselitismo do pensamento dominante, e o jornalismo de investigação, ser residual, só muito raramente não serve os desígnios de quem está de facto nos comandos da sociedade neoliberal puxando os cordéis às suas marionetas a partir de Davos, Bilderberg e outros fóruns onde se estabelecem as fronteiras do mainstream, para que todas as falsificações sejam aceitáveis, vertidas em moldes de controle social que se quer voluntário, viciante, envolto em ilusões de liberdade pessoal, para que a vigente exploração neoliberal com contornos neo-feudais continue o seu percurso triunfante num mundo cada vez mais desigual, em que 1% dos mais ricos tem uma riqueza igual a 70% do resto da população e continuam acumular riqueza a velocidades cada vez mais aceleradas. Nada é mais desigual que a igualdade entre desiguais a quem, nas mais liberais sociedades, é oferecida a possibilidade de votar regularmente em quem os vai explorar durante um período em que se remetem ao vazio submisso dos que se deixam enrolar pelos malabarismos da propaganda, que é sempre o que vence se isso for permitido. Um sofisticado processo em que se descartam os impulsos autoritárias das antigas ditaduras substituídos por um fluxo constante de informação que gera uma aparência de liberdade cada vez mais controlada pelos algoritmos do universo digital, das redes sociais, das cada vez mais presentes ferramentas informáticas, em que se vai sabendo o que sucede, depois de muito filtrado e manipulado para que se corra atrás da informação sem alcançar saber nem obter conhecimento. O alvo é degradar a autonomia do ser humano para destruir o sujeito crítico e torná-lo num indivíduo autista, consumidor e indiferente à dimensão política da existência. A vida social é esvaziada, o que reprime a variedade humana, para que se torne mais pobre, menos pensante, mais previsível.

No campo político faz-se a apologia de uma democracia que se confunde com os partidos quanto menos a realidade partidária corresponde ao ideal democrático, por uma crescente indiferenciação ideológica e programática em que a representatividade se mede pelos resultados da competição eleitoral, em que as convicções, os ideais, as ideias se reduzem à conquista de votos a qualquer preço. Em que os partidos deixaram de ser instrumentos ao serviço dos interesses dos eleitores, são uma finalidade em si-próprios, prolongamentos do aparelho de Estado, representando os interesses económicos instalados que lhes dão apoio variável1. Assente nesses pilares, o neoliberalismo capitalista tecno-feudal impõe um estado de sítio de violência ritual, política e ideológica que intenta desenraizar qualquer humanismo, exilar os humanos de si-próprios.  

«No campo político faz-se a apologia de uma democracia que se confunde com os partidos quanto menos a realidade partidária corresponde ao ideal democrático, por uma crescente indiferenciação ideológica e programática em que a representatividade se mede pelos resultados da competição eleitoral, em que as convicções, os ideais, as ideias se reduzem à conquista de votos a qualquer preço.»

Estes cenários são escuros e catastróficos? São, claro que são, mas a verdadeira catástrofe é o imobilismo. É não perceber que o conceito de progresso assenta na ideia de catástrofe. É deixar as coisas como estão 2. Olhe-se para o Angelus Novus de Paul Klee 3, descrito por Walter Benjamin, em que o Anjo empurrado pelos ventos da história deixa atrás de si os escombros do mundo em que vive e é empurrado pelo vendaval do progresso que o arrasta para o futuro. É esse o nosso mundo, em que temos que ser firmemente dialécticos para aproveitar nas velas os ventos da história, em que as velas são os conceitos mas em que não basta saber içá-las. Tem é que saber como as içar para viajar num mar povoado de escolhos sem ter nenhuma certeza mas também sem nunca perder o Norte 4.

Como alguém já referiu, vive-se o momento Moby Dick do neoliberalismo capitalista tecno-feudal, em que se revisitam quase diariamente versões actualizadas da Lição de Anatomia de Rembrant, dissecando o cadáver das crises, qualquer que seja o formato em que se apresentem, possam ou não eclodir em guerras, que a comunicação estipendiada nos vende em folhetins nas suas variantes pós-moderna e performativa. Um oceano de turbulentas vagas informativas que procuram condicionar a opinião pública registando as acções do capitão Ahab dos EUA/NATO e seus subservientes sequazes. Temos que avançar contra as alterosas vagas por onde estamos a ser arrastados pela baleia branca arpoada e sem hipóteses de sobrevivência que vai continuando a vitimar Ahab e os tripulantes do Pequod, enquanto nós, sem sabermos quando esta jornada termina temos que ser como Ismael, o sobrevivente da Moby Dick de Melville, com a obrigação militante de combater, sem ter tempo nem espaço para descanso, as turbulências das falácias, das ficções, das fraudes, das farsas que o sistema moribundo manipula sem parar.

Uma luta multifacetada de avanços e recuos, luta que se trava todos os dias, hora a hora, palmo a palmo, com uma duração incerta mas que nos lembra e demonstra que a luta de classes continua a movimentar a vida e a preparar o salto de tigre no céu livre da história 5, com a certeza de que a utopia não é o desejo do impossível mas daquilo que ainda não foi possível realizar.

  • 1.Excelente e recente exemplo é o 40.º Congresso do PSD/PPD, que entronizou como seu chefe Luís Montenegro, com discursos de um vazio ideológico total embrulhado em frases-chavão, em que o único objectivo perceptível é a conquista de votos a qualquer preço para regressar ao poder ao serviço dos interesses económicos instalados. Congresso em linha com os anteriores a esse e de outros partidos, em que a contabilidade dos votos é o doping de banais semânticas. A comunicação social dominante, jornalistas, directores de informação, editores e comentadores políticos espremem esse vazio para encontrar novidades nas coisas velhas e relhas, atinarem diferenças que, no essencial, em nada diferenciam entre si esses partidos. É a mediocridade instalada, vendida em folhetins diários numa sucessão de lugares-comuns.
  • 2.«o conceito de “progresso” tem de assentar na ideia da catástrofe. Que as coisas continuem como estão é isso a catástrofe. Ela não é aquilo que a cada momento temos à frente, mas aquilo que já foi. Assim em Strinberg (A Estrada de Damasco?): o inferno não é nada que tenhamos à frente – é esta vida aqui em baixo» (Walter Benjamin, Questões EpistemológicasTeoria do Progresso, in As Passagens de Paris, Obras Escolhidas de Walter Benjamin, edição e tradução de João Barrento, Assírio & Alvim, 2019, p. 603).
  • 3.«Há um quadro de Paul Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas e que é tão forte que o anjo já não as consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos progresso é este vendaval. (Walter Benjamin, Sobre o Conceito da História, Tese IX, in O Anjo da História, Obras Escolhidas de Walter Benjamin, edição e tradução de João Barrento, Assírio & Alvim, 2010, p. 13, 14).
  • 4.«ser dialéctico é ter nas velas o vento da história. As velas são os conceitos. Mas não basta dispor das velas. Decisiva é a arte de as saber içar». (Walter Benjamin, Questões EpistemológicasTeoria do Progresso, ed. cit., p. 603.)
  • 5.A história é objecto de uma construção cujo lugar é constituído não por um tempo vazio e homogéneo, mas um tempo preenchido pelo Agora (Jetztzeit). Assim, para Robespierre a Roma antiga era um passado carregado de Agora, que ele arrancou ao contínuo da história. E a Revolução Francesa foi entendida como uma Roma que regressa. Ele citava a velha Roma tal como a moda cita um traje antigo. A moda fareja o actual onde quer que se mova a selva do outrora. Ela é o salto de tigre para o passado. Acontece que ele se dá numa arena onde quem comanda é a classe dominante. O mesmo salto, mas sob o céu livre da história, é o salto dialéctico com que Marx definiu a revolução. (Walter Benjamin, Sobre o Conceito da História, Tese XIV, in O Anjo da História, ed. cit., p. 17, 18).

(publicado em AbrilAbril AbrilAbril | O outro lado das notícias )

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A Pax Americana de Pacheco Pereira

Sem ter a coragem de o assumir frontalmente, Pacheco Pereira considera que a Europa detém uma cultura única que lhe dá o direito e até a missão, comandada pelos cruzados dos EUA/NATO, de dirigir o mundo conforme a sua vontade.

Os Cegos, Pieter Brueghel
«A Parábola dos cegos» (1568), de Pieter Brueghel, dito o Velho (c. 1525-1599)CréditosPieter Brueghel

O texto de José Pacheco Pereira intitulado «A “paz” para uma guerra abstracta, sem invasores e invadidos», publicado no sábado, dia 25, no jornal Público é must de sofismas para de forma encapotada e cavilosa se colocar fratalmente, nada como lá estar sem ser visto, na primeira linha dos defensores da ordem unipolar imposta pelos EUA e o seu braço armado NATO, que desde há dezenas de anos tripudia o direito internacional, impondo as suas regras assumidas como os valores ocidentais, os do Ocidente que desde o séc. XVII exploram as matérias-primas e humanas do resto do mundo em seu proveito.

Pacheco Pereira tem o desplante de a dado passo escrever: «Confesso que não entendo, ou entendo bem demais, a começar pela fórmula de abertura “Independentemente de opiniões diversas sobre os desenvolvimentos no plano internacional”. O que é que isto significa a não ser tornar a guerra, que se pretende condenar em termos genéricos, uma completa abstracção?»

Quem o lê é percebe bem demais que quem considera a guerra, que na Ucrânia se iniciou em 2014, uma completa abstracção, contra todas as brutalidades daí decorrentes e outras actividades com ela correlacionadas, como a Ucrânia se ter tornado campo de treino das milícias nazi-fascistas da Europa, EUA e Canadá, é o Pacheco Pereira que esteve oito anos em cerrado silêncio completamente surdo, cego e mudo contra todas as evidências que o Conselho Português para a Paz e Cooperação, e já agora o PCP, iam denunciando, a par de outras guerras e outros atentados contra a Paz que sucediam no mundo. 

Não é um acaso, como não é um acaso o autor escrever «ou se se quiser, do “imperialismo americano”», entre aspas evidentemente, porque para ele esse imperialismo é justificável e irrefutável, deve ser aceite como guardião dos chamados valores ocidentais recorrendo a sanções, golpes de estado, sabotagens para subverter o direito soberano dos povos se libertarem das suas garras e, sempre que esse arsenal se mostrar insuficiente, impô-lo à mão armada fomentando guerras de forma directa ou indirecta, como é o caso actual da Ucrânia.

Isso para Pacheco Pereira é justificável porque o essencial é que o «se se quiser “imperialismo americano”» continue a ser o grande defensor da cidadela que ele habita com a janela escancarada para os poderes da burguesia que bem sabem que ele lá estará sempre para os defender e justificar mesmo quando os critica, nos vários órgãos de comunicação social em que abundantemente debita. 

«(…) para ele esse imperialismo é justificável e irrefutável, deve ser aceite como guardião dos chamados valores ocidentais recorrendo a sanções, golpes de estado, sabotagens para subverter o direito soberano dos povos se libertarem das suas garras e, sempre que esse arsenal se mostrar insuficiente, impô-lo à mão armada fomentando guerras de forma directa ou indirecta, como é o caso actual da Ucrânia.»

Pacheco Pereira é, nesse seu Portugal, três sílabas de plástico, que é mais barato, como escreveu O’Neill, o mais acabado exemplo de intelectual orgânico. Nessa função tem escrito ultimamente até coisas inesperadas e interessantes, a par de textos como este último, um contínuo de escritos paradoxalmente em contradição com uma ideia que importou de França e que em certa altura andou a propalar, a da morte dos intelectuais universais, que desmente com contumácia quando continua com as suas copiosas teorizações a desempenhar um papel que dizia estar extinto, com pontos de vista sobre a história em que se assume como um gestor de existências, uma forma de enganar o público bem denunciada por Pierre Bourdieu, mas também por Derrida.

  São as contradições das teias de aranha em que estão presos os intelectuais orgânicos. Como Gramsci extensamente teorizou e demonstrou, numa sociedade de classes não existem intelectuais completamente autónomos em relação à estrutura social. Nas relações de produção hegemónica das diferentes etapas do desenvolvimento histórico, as sociedades criam para si uma ou mais camadas de intelectuais que lhes proporcionam homogeneidade e consciência da sua própria função no campo político, social e económico. Esses intelectuais têm uma ligação vital com a classe que lhes deu origem. Para esse teórico marxista, a formação de uma massa de intelectuais não se justifica, apenas, pelas necessidades da produção económica, por meio de formação de técnicos, mas pelas necessidades políticas do grupo dominante. A relação dos intelectuais com o mundo da produção não é, como a dos grupos fundamentais, imediata. É mediatizada pelo conjunto das superestruturas das quais o intelectual é funcionário. Gramsci observa que em nenhum momento do desenvolvimento histórico real foi elaborada uma quantidade tão grande de intelectuais como na moderna sociedade burguesa. Um facto que se tornou mais óbvio nos nossos tempos com a proliferação de think tanks, gabinetes estratégicos, laboratórios de ideias, etc., etc., que se multiplicam mais que espécies invasoras. 

«Como Gramsci extensamente teorizou e demonstrou, numa sociedade de classes não existem  intelectuais completamente autónomos em relação à estrutura social. Nas relações de produção hegemónica das diferentes etapas do desenvolvimento histórico, as sociedades criam para si uma ou mais camadas de intelectuais que lhes proporcionam homogeneidade e consciência da sua própria função no campo político, social e económico.»

Mais que muitos outros e melhor que muitos outros, Pacheco Pereira enquadra-se nesta definição gramsciana. Os seus textos surpreendentes e mesmo surpreendentemente relevantes devem ser lidos com essa lupa. Mas há sempre um momento em que tem a necessidade de ocupar lugar de destaque na defesa dos valores da sociedade de que faz parte e o sustenta. Nunca a trairá. Empenhado na defesa da ordem unipolar, «se se quiser, do “imperialismo americano”», como se isso não fosse o que tem comandado o mundo nos últimos decénios, não seja a mão visível e invisível dos conflitos armados, das «guerras na Ucrânia, no Iémen, na Síria, na Líbia ou no Iraque, entre outros conflitos que flagelam o mundo» e «da situação na Palestina ou no Sara Ocidental», como refere o comunicado que apelava à manifestação pela Paz que tanto incomoda Pacheco Pereira.

Para ele só há uma guerra, a que sucede no território da Ucrânia, que é de facto uma guerra entre os EUA/NATO e a Rússia, por interposta Ucrânia, uma guerra que se iniciou em 2014 e culminou com a invasão da Rússia ao território ucraniano, o que ele oculta para justificar a arenga. Não deixa de ser curioso, embora seja bastante revelador, que um historiador abdique de contextualizações para alinhar no mais rasca e barato argumento de haver um país invasor e um país invadido, como se isso fosse um jogo de matraquilhos. Igualmente revelador é o facto de Pacheco Pereira denunciar que «o nome “Ucrânia” está lá no apelo, numa lista que mistura Palestina, Saara Ocidental, Iémen, Síria, Líbia e Iraque, onde a actual guerra é nomeada de passagem e sem relevo, como se fosse uma entre muitas comparáveis na sua dimensão e actualidade» 

As outras guerras referidas no comunicado, no Iémen, na Síria, na Líbia ou no Iraque, com mortes, devastações, refugiados, crises humanitárias incomparavelmente maiores que as que se registam na Ucrânia, para ele são cousas menores. Em relação à Palestina e ao Saara, nunca falou abertamente de uma das maiores injustiças da história moderna, pelo que faz uma miserável desvalorização do direito à auto-determinação desses povos e da importância da sua luta no contexto da paz. 

Percebe-se, encara essas guerras e o direito à auto-determinação desses povos com a lógica do homem branco que Aimée Cesaire tinha denunciado: «sim, valeria a pena estudar, clinicamente, no detalhe, as trajectórias de Hitler e do hitlerismo e revelar ao burguês do século XX, muito distinto, muito humanista, muito cristão, que ele carrega um Hitler que se ignora, que Hitler mora nele, que Hitler é seu demónio, que se ele o vitupera é por falta de lógica, e que, no fundo, o que ele não perdoa a Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem, não é a humilhação do homem em si, é o crime contra o homem branco, e de ter aplicado à Europa procedimentos colonialistas que até agora eram exclusividade dos árabes da Argélia, dos collies da Índia e dos negros da África.» 

«Não deixa de ser curioso, embora seja bastante revelador, que um historiador abdique de contextualizações para alinhar no mais rasca e barato argumento de haver um país invasor e um país invadido, como se isso fosse um jogo de matraquilhos.»

Pacheco Pereira de forma subliminar, sem ter a coragem de o assumir frontalmente, considera que a Europa detém uma cultura única que lhe dá o direito e até a missão, comandada pelos cruzados dos EUA/NATO, de dirigir o mundo conforme a sua vontade. A tralha do seu texto são encadernados sofismas em que a Paz, desde que não seja a Pax Americana, não interessa, pelo que mistura alhos com bugalhos com grande à vontade, num texto minado de tretas, em que a memória histórica é bombardeada com napalm, em que a questão central é combatida como se o autor do texto fosse ideologicamente detergentado para que se fique pela superfície das coisas e o alvo imediato, a luta pela Paz, se esvazie de significado.

Acaba o texto com o desafio de uma coboiada, propondo um duelo ao sol nos ecrãs televisivos, um dos aquários onde deposita regularmente os seus pensamentos. Arma-se em Shane, mas como não passa do excêntrico Lee Clayton, se, ao contrário do filme de Arthur Penn conseguir sobreviver, pode esperar solitariamente sentado por seriedade intelectual, ninguém irá responder ao desafio.

(texto publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/ 27 Julho)

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O TRIUNFO DA MANIPULAÇÃO

Começa a ser grotesca a contrafacção que hora a hora, minuto a minuto nos é vendida sobre a guerra na Ucrânia com a entronização do seu oportunista presidente, mesmo com as mais bimbas imagens, e a sua corte de oligarcas que, por um milagre mais perfumado que o das rosas, foram beatificados no papel espessamente couché da Forbes como multimilionários. São as vantagens e o preço de servir de mula a uma guerra entre dois impérios capitalistas, os EUA e a Rússia.

Vários e múltiplos são os episódios detergentados pela comunicação social mercenária, um paradigma do servilismo ao império em que muitos dos seus escreventes são pagos, directa ou indirectamente pela CIA, como documentos desclassificados manifestam, que sem revelar nomes revelam a quantidade, nos anos setenta eram mais de oitocentos os que figuravam na folha de pagamentos, a que há que acrescentar todos os colaboradores dessa prestimosa agência que agora são comentadores residentes.

Hoje o Público, esse jornal dito de referência que só continua a existir porque os azevedos empenharam-se de pais para filhos, em investir a fundo perdido na propaganda comunicacional, noticia em duas páginas a pré-publicação do tosco panegírico Vlodymyr Zelensky: Biografia, um relato de uma rasca moralidade, parcialidade e manipulação da vida do presidente da Ucrânia que todos os dias, nas nossas televisões e outras mundo fora, faz conversas em família em que lê, com os seus dotes de comediante, os teletextos que as agências de informação ao serviço dos EUA/NATO impingem contribuindo para a desinformação em curso e para a sua farsa de estadista. O livro é uma das peças do triunfo da vigarice intelectual para dulcificar a imagem de Zelensky e de um país dominado pelos oligarcas seus comparsas que vão enchendo as suas e as dele contas offshore, as que foram conhecidas na investigação dos Pandora Papers e outras ainda com paradeiro desconhecido, em que a interferência e o comando de forças externas é a normal anormalidade de um estado que é dos mais corruptos do mundo, onde a corrupção continua a prosperar, que tem um sistema eleitoral de que são excluídos dezenas de milhares de cidadãos, onde o apartheid se tornou lei, onde as milícias armadas nazi-fascistas foram legalizadas, onde foi e é feita a reabilitação histórica de líderes nazis, que é desde 2014 o campo de treino dos fascistas europeus, norte-americanos e canadianos, onde prospera a perseguição, o medo, o assassinato político e a ilegalização dos partidos políticos que se opõem ao poder instituído submetido às potências do circulo imperialista, em que as forças de segurança e os militares se dão ao desplante de publicarem vídeos das torturas que infligem aos seus adversários sejam ucranianos ou soldados russos. Com um descaramento que não conhece alguma fronteira Sergiuu Rudenko escreve uma pseudo biografia de Zelensky atribuindo-lhe excelsas qualidades bem maiores do que aquele que conseguia transformar água em vinho, limpando a imagem de arrivista sem escrúpulos patente num filme que até de algum modo pretendia elogiá-lo e foi exibido por cá em dois canais televisivos. Para esse biógrafo assoldadado a Ucrânia é uma variante de paraíso terrestre atacado pelas forças do mal, a que seu presidente resiste com a heroicidade de um super homem dos Monty Python.

Na operação de branqueamento e de lavagem em curso vale tudo, a começar pela imagem de uma guerra em que de um lado só há civis mortos e torturados e do outro bárbaros soldados que não conseguem acertar num único soldado inimigo, só em mulheres e crianças, nem em alvos militares só escolas, creches, hospitais e e edifícios residenciais. Em que o que ainda há poucos anos eram descritos como brutais milícias nazi-fascistas agora são endeusados como cruzados dos valores ocidentais. Quando na realidade a Ucrânia consegue ser pior que a Rússia de Putin, o que não é fácil e em nada justifica a invasão e esta guerra. Guerra que para o Ocidente que a alimenta é um pesado fardo económico e militar, mas que interessa sobremaneira aos EUA que como usualmente tripudiam o direito internacional impondo a sua lei utilizando as sanções, para no imediato conseguirem que a sua indústria de fracking, o mais poluente modo de produzir gás e petróleo, que estava à beira da falência colocando em risco o sistema bancário que a tinha financiado, os vá vender à Europa a preços três vezes superiores aos actuais, sem contar com as instalações logísticas necessárias para os processar. É um procedimento de a curto prazo atrasarem a sua decadência, continuando a fazer pagar aos países amigos, inimigos e assim-assim parte do seu crescente e impagável défice sem ir à ruína. Os autocratas imbecilizados da Comissão Europeia, que de macroeconomia nada sabem, nem percebem que isso vai impossibilitar o desenvolvimento europeu, colocando-o na dependência dos EUA. Só mesmo falta, como Michael Hudson ironizou, desistirem do euro e adoptarem o dólar. Essa é só uma parte dos grandes benefícios económicos-financeiros, os outros, até mais visíveis, são os das indústrias armamentistas, do complexo militar-industrial-económico-financeiro e tecnológico que dá corda à vez a democratas e republicanos.

Dando páginas a livros deste jaez na molhada de notícias fraudadas que de um dia para o outro alteram a realidade, o jornalismo mercenário sobrevive fazendo-se pagar directa e indirectamente ou costurando pro bono a sua sobrevivência contribuindo para a normalização do nazi-fascismo que está em marcha na tentativa de esmagar qualquer hipótese de resistência ao capitalismo neoliberal. Os sinais multiplicam-se das notícias aos comentários de uma tropa fandanga de estrategas, politólogos, biógrafos, think-tanks, nas mais miseráveis e desbragadas manobras de uma vasta acção psicológica para validar, como alguém já referiu, o actual momento Moby Dick do neoliberalismo capitalista tecno-feudal, em que se revisitam quase diariamente versões actualizadas da Lição de Anatomia de Rembrant dissecando o cadáver da desta guerra mundial ainda que territorialmente localizada, que a comunicação estipendiada nos vende em folhetins na sua variante pós-moderna e performativa. Um oceano de turbulentas vagas informativas pra condicionarem a opinião pública registando as acções do capitão Ahab dos EUA/NATO e seus subservientes mordomos, muito empenhados em arpoar a baleia branca que sem hipótese de sobrevivência vai continuando a vitimar Ahab e os tripulantes do Pequod, enquanto nós, como Ismael, o sobrevivente da Moby Dick de Melville, temos a obrigação militante de combater, sem ter tempo nem espaço para descanso, os ventos das falácias, das ficções, das fraudes, das farsas que o sistema moribundo manipula sem parar.

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Todas as Crianças são Iguais?

Todos os dias os canais televisivos exibem um anúncio da Unicef, tem sido utilizado com o mesmo fim por outras empresas, que alerta para a situação das crianças na Ucrânia, solicitando apoio. Nada mais justo e correcto. As crianças são as mais frágeis vitimas emocionais das barbaridades da guerra a que são sujeitas. São as suas mais indefesas vítimas e os choques psicológicos que sofreram e sofrem mesmo quando subtraídas às mais violentas imagens tendo sido refugiadas noutros lugares não se apagam. As marcas de todas as situações que viveram, de que tenham maior ou menor memória em função da sua idade, vão acompanhá-las ao longo da vida. O trabalho que a Unicef desenvolve na Ucrânia inscreve-se no trabalho que ao longo dos anos tem realizado em mais de 190 países, para salvar a vida de crianças, defender os seus direitos, apoiando-as da infância à adolescência. Faz bem a Unicef em chamar a atenção para a situação actual da Ucrânia. Faz bem, fazendo mal porque a situação das crianças na Ucrânia está muito longe de ser nos dias de hoje a mais alarmante, a mais grave vivida pelas crianças noutras partes do mundo, o que é reconhecido pela própria Unicef quando traça o quadro catastrófico vivido no Iemen, em que neste momento 12 milhões de crianças, mais que a população de Portugal, precisam de assistência humanitária. Em que uma criança em cada dez minutos morre à fome ou por doenças que podem ser prevenidas, em que cerca de 2 milhões de crianças (com menos de 5 anos) sofrem de subnutrição aguda grave; 37% das crianças com menos de 1 ano não estão vacinadas; 2 milhões de crianças não têm acesso a educação; existe quase um milhão de casos suspeitos de cólera. A Unicef está no Iemen a fazer um trabalho de grande envergadura em condições extremamente adversas. O que é estranho é que sendo as condições de vidas das crianças iemenitas muitíssimo mais calamitosa que a das crianças ucranianas nunca tenhamos visto um anúncio, nem sequer semanal ou mensal, sobre essa situação enquanto o das crianças ucranianas é várias vezes exibido diariamente. É evidente que deve ser exibido, mas acentua a diferença de tratamento mediático entre uma e outras o que não é caso isolado, lembrem-se as crianças no Iraque, as que sobreviveram às quinhentas mil assassinadas pelos EUA que Madeleine Allbright justificava como danos colaterais, às da Síria sujeitas às violências do Daesh – Estado Islâmico, noutras partes do mundo como se pode ler nos relatórios da Unicef. A diferença, a diferença abismal está no tratamento mediático desses relatórios, em linha com a tremenda diferença com que os media corporativos tratam os problemas dos refugiados conforme a sua origem. A diferença, em relação à Unicef está no desvelo, não o desvelo de tratamento físico, mas o desvelo colocado pelos muitos anúncios que chamam e bem a atenção para um caso específico enquanto outros, até mais graves e impondo cuidados mais urgentes e imediatos não merecem ser publicitados, ficam na nuvem do olvido, entregues à boa consciência de relatórios que poucos lêem. Diferença que se fará sentir no volume de donativos, isso a Unicef não ignora, não pode ignorar.

Pano de fundo o mesmo problema de sempre: o eurocentrismo imposto pelos países mais ricos que construíram a sua riqueza, o seu progresso pelo domínio que o Ocidente exerce desde o séc. XVI explorando brutalmente o resto do universo, as suas riquezas em matérias-primas a sua mão de obra, durante séculos escravizada. Exploração que lhe possibilitou ser arauto de valores civilizacionais que continua a negar aos outros e que sempre manifestou em alta grita, das mais variadas formas cínicas e hipócritas. Lembre-se o que Aimé Cesaire, esse extraordinário poeta negro e introdutor com Leopold Senghor do conceito de negritude, escreveu sobre o Holocausto: «basicamente o que o burguês não perdoa a Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem…é o crime contra o homem branco!». Ao olharmos para o anúncio da Unicef sobre as crianças ucranianas e pensarmos nos milhões de crianças que em todo o mundo estão a sofrer violências, iguais, maiores ou menores, sem direito a uma imagem publicitária nos media a actualidade de Aimé Cesaire é flagrante, devía-se sentir alguma vergonha, mesmo sem se extrapolar e inscrever esse anúncio de apelo suavemente emotivo, na desinformação diária dos enviados especiais que só estão de um lado a fazer perguntas capciosas; nas conversas em família de Zelensky a ler pior ou melhor os teletextos que alguém escreve com objectivos precisos; os números de stand-up comedy dos informes da Casa Branca, aos tempos de antena conferidos à propaganda fascista feita por presidentes ou não de associações ucranianas ou de uma embaixadora que goza de imunidade diplomática e a explora perante a passividade de um governo que parece desconhecer a pouca soberania que ainda pode exercer. Em relação à Unicef que tem uma vocação universal e que desde a sua fundação tem enfrentado e superado inúmeras dificuldades para cumprir o seu mais que meritório trabalho, não se entende esta tónica quando tão ou mais graves e emergentes situações enfrentam noutras partes do mundo. O mínimo exigível era uma chamada de atenção para elas.

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NÃO À GUERRA, SIM À PAZ.

Não se entende em que se possa criticar a posição do PCP sobre a invasão e guerra na Ucrânia. https://www.pcp.pt/pcp-apela-promocao-de-iniciativas-de-dialogo-paz-na-europa. Condenar esta guerra não é incompatível com a simultânea condenação do comportamento dos EUA e da UE desde a queda do muro de Berlim. Nenhuma guerra é inevitável em qualquer realidade social, em que como de resto em qualquer outra, não há determinismos. Ao contrário de muito pensamento viciado quer impingir, e que vai do mais linear e vulgar anti-comunismo da extrema-direita e direita o que é de esperar, ao de socialistas, sociais-democratas e radicais pequeno-burgueses entrincheirados em verdades, meias-verdades e mentiras, usado para denegrir a posição de condenação da guerra e do imperialismo feita pelo PCP, a posição do partido está em linha com os mais variados sectores anti- imperialistas em todo o mundo. Alguém de esquerda pode discordar desta análise? : «A actual situação e seus desenvolvimentos recentes são inseparáveis de décadas de política de tensão e crescente confrontação dos EUA e da NATO contra a Federação Russa, nos planos militar, económico e político, em que avulta o contínuo alargamento da NATO e o sistemático avanço da instalação de meios e contingentes militares deste bloco político-militar cada vez mais próximo das fronteiras da Federação Russa.»? Isto não justifica a invasão e a guerra da Ucrânia como o PCP tem repetidamente condenado, que se distingue de quem também a condena mas é incapaz de ultrapassar as fronteiras das vagas conversas de palavras enroladas que não bastam para deter as organizações militaristas tanto da EUA/NATO, com a Europa a reboque, como da Rússia, nesta guerra que é mais um episódio da guerra mais funda e generalizada, que se tem desenvolvido em vários planos desde a queda do Muro de Berlim, para impor um mundo unipolar que viola sistematicamente a Carta das Nações Unidas e o direito internacional e que está agora a fissurar.

Cada vez mais é menos possível a capacidade para se ficar impassível com o desequilíbrio mediático no tratamento deste assunto, tanto nos media como nas redes sociais, em que se assiste ao derrapar de muita gente que se diz de esquerda. O único caminho para quem é de esquerda é um lúcido não-alinhamento que se distinga dos alinhamentos acríticos para um lado ou para outro. Nem é concebível nem aceitável que alguém que se diz de esquerda alinhe em vagos e patéticos humanismos para se arrumar num desses lados ou se escude em argumentos insustentáveis justificativos desta cinicamente chamada «operação militar especial» para, até disfarçadamente, alinhar com o outro.

A cuidadosa, fundamentada e corajosa posição do PCP tem sido terreno aberto para a mais viciosa campanha anti-comunista. É um dos mais grotescos espectáculos a que se tem assistido nos últimos anos, agora catalisados por esta guerra. Felizmente entre essa turba multa, em que os detratores se misturam acríticamente ou fazendo críticas falaciosas, há algumas vozes desassombradas que se destacam nesse panorama inquietante em que nos deparamos com muita gente que merece consideração mas que enfileira com esse tom generalizado, alinhando sofismas sobre sofismas para desculparem a sua posição que trucida sem vergonha as posições do PCP, reafirmadas por Jerónimo de Sousa no comício realizado no Campo Pequeno: « O PCP não apoia a guerra. Dizer o contrário é uma vergonhosa calúnia. O PCP tem um património inigualável na luta pela paz. O PCP não tem nada a ver com o governo russo e o seu presidente. A opção de classe do PCP é oposta à das forças políticas que governam a Rússia capitalista e dos seus grupos económicos (…) Em nome da guerra está em curso a mais desbragada intolerância e difusão de ódio fascizante, a criminalização do pensamento e de toda e qualquer opinião que questione a ditadura do pensamento único, a instituição da censura, o condicionamento do acesso à informação a limitação de liberdades, direitos e garantias.»

Uma dessas lúcidas e corajosas excepções, num território que não é o dos militantes do PCP e seus companheiros de estrada, é Carmo Afonso, que se auto intitula “social-democrata da velha guarda” e que em relação à guerra escreve: « É preciso atender às vozes que dizem que os recentes avanços da NATO, em direção à Rússia, concretizados na adesão de novos países vizinhos, contrariaram entendimentos vigentes e que seguravam a paz» e em relação ao PCP: «Tristes tempos em que uma guerra é pretexto para diminuir uma força política que tem estado no lado certo das lutas que os portugueses travaram. É sobretudo um partido dos trabalhadores (…) Pode dar-se o caso de os portugueses já não precisarem da luta. Mas, voltando ao que faz sentido, é mais certo que estejam a ser distraídos por quem quer acabar com ela»(…) «As posições assumidas pelo PCP foram o pretexto para uma manifestação de anticomunismo digna da Guerra Fria, período em que os anticomunistas afirmam que o partido está. O regresso à história está ao virar da esquina». Será que quem se diz de esquerda não percebe o que esta “social-democrata dos bons velhos tempos” lucidamente entende, continuando a insistir na mentira sobre o apoio do PCP à invasão de Putin, uns sem se aperceberem mas outros compreendendo bem, que a propaganda em curso está objectivamente ao serviço do neoliberalismo armado e fazem-no atacando o PCP.

Por toda a Europa os sinais de fascização são evidentes. Como dizia um personagem do filme de João César Monteiro, Le Bassin de John Wayne «hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas». O que ficou bem manifesto no número mediático protagonizado pelo comediante presidente, na sua digressão instrumentalizadora dos vários parlamentos, no parlamento grego que o Syriza afirmou ser «uma provocação com um apelo claro à normalização do fascismo» e que mereceu mesmo a crítica dos partidos gregos equiparados ao PS e PSD que a classificaram de «vergonha histórica» Uma cena que à posteriori, só dá razão ao PCP ao votar contra um convite formal ao presidente Zelensky para intervir no parlamento português, por videoconferência, que foi aprovada na passada quarta-feira pela Assembleia da República.

Putin é um crápula e a sua guerra é infame. Os apoiantes de Putin são abjetos. Mas são tanto como aqueles que se sentam nas cimeiras da NATO e se dizem democratas e defensores dos direitos humanos. Não há distinções nem gradações entre uns e outros. A guerra na Ucrânia é um bárbaro espetáculo de perdas humanas por conveniência do imperialismo russo em que a Ucrânia é uma marioneta dos EUA/NATO. O único caminho de quem é de esquerda é ser contra o expansionismo russo e o do EUA/NATO com a UE a reboque.

NÃO À GUERRA, SIM À PAZ.

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Vitor Palla / Sempre uns Passos à Frente do seu Tempo

Quem em Lisboa quiser comer a qualquer hora pode escolher um dos espaços icónicos da capital que há mais de cinquenta anos serve refeições fora de horas durante 20 horas em cada dia: o Galeto. É uma das mais de setecentas obras de arquitectura, escolas, moradias, edifícios, fábricas, lojas de comércios diversos, da dupla de arquitectos Vitor Palla e Bento de Almeida, marcantes no Movimento Moderno da Arquitectura. A última obra de Vitor Palla em colaboração com o escultor Jorge Vieira é o Memorial Mausoléu às Vitimas do Tarrafal, no cemitério do Alto de São João.

Militante do PCP desde os anos quarenta, quando integrou o MUD Juvenil e fez parte das comissões de organização das Exposições Gerais de Artes Plásticas que, nas décadas de 40 e 50, desempenharam importante papel na resistência cultural ao fascismo, Vitor Palla tinha múltiplos e bem escorados talentos que deixaram forte marca na cultura nacional.

Como arquitecto, com o seu parceiro de sempre Joaquim Bento de Almeida, dos muitos e marcantes projectos que realizaram sobressaem pela diferença que marcaram na época os snack-bares. Lugares para rápidas refeições onde as mesas desapareceram e foram substituídas por balcões extensos desenhados para ter função dupla. Do lado do cliente, havia uma prateleira para pousar o chapéu e outros pertences, do lado do empregado existia um espaço para manusear uma série de alimentos e condimentos. Eram espaços inovadores que de algum modo estavam em oposição ao café das tertúlias, onde as pessoas se sentavam demoradamente. O primeiro que desenharam, foi o Bar Expresso Terminus segue-se o Pique-Nique no Rossio, em que integram um painel de Júlio Pomar e apuram o desenho do balcão para melhorar e ampliar as suas funcionalidades com uma preocupação que vai ao ponto de desenharem todos os pormenores de cada projecto, do mobiliário aos suportes dos galheteiros, sempre com um grande e cada vez maior rigor ergonómico, bem visível no Galeto.

A arquitectura, o design e a pintura eram as suas actividades principais, mas estavam longe de esgotar a transbordante imaginação, o talento, a fúria de modernidade de Vitor Palla. Na principio da década de 50, com José Cardoso Pires inicia a primeira colecção de livros de bolso em Portugal para a editorial Gleba, “Os Livros das Três Abelhas”, onde se editaram grandes autores nacionais e estrangeiros e que ainda hoje continua surpreender pela diversidade e qualidade das suas capas, inicialmente todas de Vitor Palla, que

também foi tradutor de algumas das obras editadas. A sua ligação à literatura faz com que seja um dos impulsionadores em Portugal do romance policial e ele próprio escreve contos policiais que foram distinguidos na Black Mask, quando ainda era uma prestigiada revista onde escreviam entre outros Raymond Chandler e Dashiell Hammett.

É ainda Vitor Palla que recupera a revista Arquitectura de que é director a partir de 1952 e onde publicou importantes textos teóricos e de crítica.

Arquitecto, designer de equipamento e gráfico, pintor, a sua vastíssima obra fica ainda notabilizada na fotografia com cerca de duzentas fotos que, com o arquitecto Costa Martins seu camarada do PCP,

escolheram entre mais de seis mil, que reuniram num livro Lisboa – Cidade Triste e Alegre, notabilíssimo não só pelas fotos e grafismo como pelos poemas inéditos escritos por Armindo Rodrigues, Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, José Gomes Ferreira e um texto de Rodrigues Miguéis, um livro que pertence hoje ao cânone mundial dos livros de fotografia.

Victor Palla, de que este ano se comemora o centenário, é um homem que estava sempre uns passos à frente do seu tempo por mais que o tempo persistisse a correr atrás dele.

(publicado em Avante!2521/ 24-03-2022)

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Plurarismo, SA

Decalcomanie, 1966, óleo sobre tela, MAGRITTE

Hoje o director de o Público publicou um artigo em que atira para o caixote do lixo todos os ilusionismos que têm usado para se fingir independente travestindo o seu reaccionarismo estrutural. Disso ninguém já deveria ter alguma dúvida lendo-o ou ouvindo as suas trôpegas intervenções na televisão, onde por vezes o farsola lá tentava vender gato por lebre sem conseguir de facto solapar que faz parte da camarilha de cruzados do pensamento único, que se quer impor como dominante, alinhados nos pelotões de analistas, especialistas, pivôs, entrevistadores, pseudo-jornalistas e mesmo mentirosos profissionais, de cores diferentes mas todos com o mesmo paladar, que germinam como venenosos cogumelos na comunicação social nacional e internacional intoxicando a opinião pública para que deixe de ser possível pensar, num controlo avassalador que arrasa de vez a capacidade crítica de quem quer que seja atirando quem tenha a veleidade de o fazer mesmo da maneira mais limitada, mesmo só colocando dúvidas, para as colónias penitenciárias em que se exterminam quaisquer liberdades democráticas com as ferramentas dos mecanismos em que a realidade é triturada para que os povos fiquem incapazes de perceber os reais fogos políticos, substituindo-os pelos fogos fátuos em que o império dominante retira proveitos com o empobrecimento moral, intelectual e económico dessa situação, em que o neoliberalismo como sistema económico-político de abrangência global é suportado pela formatação da uma opinião única sobre o funcionamento da sociedade.

O Público, como outros meios de comunicação social nacionais, faz à nossa e periférica escala, parte desse gigantesco aparelho globalizado. Não pode perder ocasião para calçar saltos altos, de se por em bicos de pés, para os grandes patrões mundiais do sistema perceberem que estão dentro do redil e merecem que de quando em quando um afago que ressarcise o zelo. É nesse quadro que se deve ler este artigo que é um bom justificativo e justifica bem porque é que o capital continua a investir a fundo perdido nos media – a Sonae ganhou alguma vez dinheiro com o Público por mais ginástica contabilística que faça? quantos jornais não são deficitários apesar das entradas de capital, das preferências não inocentes das inserções publicitárias e da redução das despesas nomeadamente com os despedimentos efectuados? – na propaganda em que se tornou a comunicação social em que se paga largamente aos torquemadas que garantem que nada descarrila, sejam indigentes mentais ou tenham um pouco mais de sofisticação como os manueiscarvalhos, sem que seja necessário exagerar porque as suas qualidades policiescas não exigem grandes argúcias. Melhores ou piores, são os cães de fila da tirania da comunicação social como lhes chamou Ramonet, os seus mercenários de serviço que escrevem quilómetros de textos manipuladores largamente estudados e denunciados por Chomsky. Um dos truques dessa gente para se fingir democrática, é de quando em quando deixar publicar nas páginas que controlam críticas aos poderes de que são serventuários. Desta vez, no Público, o artigo de Boaventura Sousa Santos logo colocado no pelourinho para execução sumária. Dias antes os generais Raul Cunha, Carlos Branco e Agostinho Costa tinham sido objecto de infames calúnias no Expresso, uma das vozes do grupo Bilderberg através do grupo Impresa em Portugal, só por fazerem análises de indole de estratégia militar sobre a condenável guerra que decorre na Ucrânia depois da invasão russa, que não eram coincidentes com o que a propaganda em grande alarido queria impor. As mensagens mais primárias, com as mais duvidosas origens até na sua formulação, usam colossais meios de difusão e quem ousar uma dúvida é logo cremado pelos censores, os sempre de serviço e os que surgem a retalho sobretudo nas redes sociais.

São truques mas para que a ilusão seja a realidade estão muito bem montados e bem explicados nos manuais da CIA, que aprenderam e aprofundaram as teorias de Goebels, que deve dar voltas e reviravoltas roxo de inveja no inferno em que de estar a arder, e banaliza o Grande Irmão de Georges Orwell.

O objectivo deste bombardeio, com a mais densa desinformação e propaganda, é que os mais avisados fiquem paralisados pela dúvida já que a maioria está pronta a se deixar iludir por esses fogos reais de desinformação que têm a enorme virtude de fazer de fachada para uma cerrada censura sem recurso a lápis azuis o que é melhor conseguido quando pelo meio de um quadro impecável e uniformemente pintado introduzem uns calculados riscos para induzir um falso efeito de abertura e liberdade. Nas últimas dezenas de anos o pluralismo informativo é uma das farsas desta sociedade mais bem montada. A malha tem-se apertado sufocando a tão apregoada independência de informação, que quanto mais é alardeada menos existe. Um recente estudo do ISCTE elaborava uma estatística centrada na quantidade de comentadores de direita e esquerda nos últimos anos nos media nacionais e mesmo com um critério de esquerda de larguíssima malha, que até considera Sérgio Sousa Pinto ou Francisco Assis como de esquerda só porque estão inscritos no PS, muitos outros exemplos seguem o mesmo critério, demonstrava como a direita era cada vez mais dominante na comunicação social. O pluralismo e a independência de informação é cada vez mais atirado para as urtigas, até com grande complacência do chamado serviço publico como é visto com clareza pelos comentadores a que recorre e que não foge ao padrão dos media privados.

Se lançarmos um olhar mais universal não sabemos se a CIA, que nos anos cinquenta tinha na sua folha de pagamentos directos mais de 700 jornalistas em todo o mundo e mais uns milhares pagos indirectamente por várias prebendas, as maneiras de pagamento são as mais diversas na sua maioria procuram camuflar a sua origem, em que moldes a continua essa prática. Pelo estado actual dos media até se deve ter acentuado, as fusões são mais que muitas e o desaparecimento ou a censura a outras fontes de informação tem-se acentuado. Há ainda o suplemento de muitos reformados da CIA serem hoje comentadores principais na CNN, Fox, New York Times, Washington Post, etc. Há que esperar pela próxima desclassificação de alguns documentos que só revelam uma pequena percentagem da realidade, mas sempre levantam a ponta da manta dessas acções secretas. O que gostaríamos chamar a atenção dessas instâncias é que a quantidade de merecedores se não de benesses mais ou menos vultuosas mas de pelo menos umas gorgetas tem aumentado em grande número porque a concorrência aumentou ferozmente, num sistema em que a ameaça de despedimento está ao abrir da porta, a precariedade é vulgar e nem sempre o abanar a cauda a editores e directores é garantia suficiente, pelo que se podem perder alguns talentos.

Tem que se funcionar de acordo com a lei da sobrevivência no pântano em que a comunicação social se tornou. O capital neoliberal, que domina os media no chamado mundo livre e as múltiplas agências, das mais secretas às menos secretas ou até públicas e festivas como as ONG’s, que lhe dão apoio logístico, deve ter alguma atenção aos serviços prestados por essa gente e se não os podem recompensar a todos com cargos bem remunerados devem pelo menos, brindá-los de algum modo. É o mínimo que podem, devem fazer honrando os bons hábitos relacionais da aristocracia com a criadagem que não se devem perder nos tempos modernos. Seria mais que uma deselegância, seria mesmo um sinal de arrogância de pensarem de lá por os terem pela arreata ficarem dispensados de lhe dar pelo menos meia cenoura.

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As Trombetas do Liberalismo

Fantasmas, George Grosz

O editorial do director do Público do dia 12, é extraordinário por desnudar as urgências da direita pelo que se perdem as estribeiras e a vertigem da manipulação passa de pés de veludo para patadas de elefante. Diz ele, em linha com outro pensador de fundo, João Miguel Tavares, que «há uma lufada de ar fresco que o torna mais respirável. Desiludam-se os que consideram esta impressão (é essencialmente disto que se trata, até porque as impressões são cruciais em política) como o reconhecimento de um virar de página que afunda um regime nefasto e funda outro libertador. Não é isso. O que muda é o foco do discurso dominante. Pela primeira vez em muitos anos, estamos a discutir a sério a criação da riqueza e não apenas a sua redistribuição. E não, a mudança não se explica apenas pelos ganhos de credibilidade do PSD ou pelo fortíssimo impacte do discurso da Iniciativa Liberal. Também o PS parece livre dos espartilhos da “geringonça” e recupera o seu programa matricial, em que consta o crescimento, as exportações, a fiscalidade ou, em síntese, a criação de riqueza. Para os que passaram os últimos anos a denunciar o esoterismo da discussão política, esta é uma boa notícia. O equilíbrio na discussão entre o Estado e a sociedade, entre o crescimento económico e a redistribuição a iniciativa privada saltou os muros da tradicional fronteira entre a esquerda e a direita.»

Num jornalista, a qualquer jornalista deve ser exigido um mínimo de rigor, ter uma réstia de ética. Manuel Carvalho tem sido muito dado a fingimentos para iludir a sua falta de rigor e ética, embora escorra miudamente para as meias verdades e mentirolas para levar água aos moinhos da direita onde habita. Há que reconhecer que por isso e para isso é que foi escolhido para director do Público, para isso é que lhe pagam e também para isso é que o grupo Sona, tão cioso em fazer investimentos rentáveis, investe a fundo perdido no Público, à semelhança do que acontece com outros meios de comunicação social. A rentabilidade que extraem desses investimentos é outra, por isso porque lhes importa estarem em contradição com os princípios que tanto trombeteiam.

Ora se Manuel Carvalho fosse um jornalista sério e credível o que teria apontado nos debates e nos argumentos do PSD, da IL, para não falar do CDS e Chega, é a grande mentira que todos eles, de um ou outro modo, gritam aos quatro ventos sobre o peso do Estado ser dominante em Portugal, e no mais que falso argumento que se vive em socialismo, o que só merece uma sonora gargalhada.

É consonante o director do Público com a maioria dos comentadores a pataco e direitolas, raríssimas são as excepções, que acabam por ter maior tempo de antena que os intervenientes nos debates. Nenhum denuncia a grande mentira que ressalta no debate entre o PSD e o IL: a mantra de Portugal estar submetido ao socialismo e a um peso insuportável do Estado que esses cruzados irão combater para o libertar. Deve ser essa cruzada que é «um virar de página que afunda um regime nefasto e funda outro libertador» celebrado por Manuel Carvalho no seu editorial!

É a grande manipulação em que o director de o Público alinha a quatro patas porque a realidade é bem outra. Portugal, números do Eurostat, é o país da União Europeia em que o peso económico das empresas públicas em percentagem do PIB é de 3,55%, menor só a Irlanda, 3,51%. Nas duas economias mais fortes da UE, Alemanha e França as percentagens são respectivamente de 6,71% e 12,89%. Na Finlândia, tantas vezes referida como exemplo, a percentagem é de 40,14%. Os números da percentagem de funcionários públicos no emprego total também é de referir, em Portugal é de 14%, a média europeia é de 18%. Menor que Portugal, só Itália, Luxemburgo, Países Baixos. Mais significativo ainda é que em Portugal, o Estado gasta menos do que a média da Zona Euro, -4.5%. Proteção social, -2,9%, Saúde, -0,6%, Educação, Transportes,Habitação e Equipamentos Comunitários, Cultura e Recreação,-0,2 %, Protecção Ambiental -0,1%. Em linha com a média da UE, Ordem Pública e Segurança e muito acima 4,5% Operações de Dívida Pública. São números indesmentíveis dos serviços estatísticos da UE que destroem sem complacências a narrativa da direita.

Mais escabrosas são as propostas de política fiscal propostas pela IL, em linha com o Chega e com o apoio tíbio do PSD, em que, com a taxa única do IRS, beneficia larga e descaradamente os mais ricos, procurando iludir a classe média. Deveriam ser arrasadas por essa gente se não estivessem vendidos ao grande capital.

Sabemos bem que, como escreve João Rodrigues no blogue Ladrões de Bicicletas, «a presença do Estado, indissociável de qualquer forma de capitalismo, permite sempre aos liberais responsabilizar esse mesmo Estado pelo fracasso das suas políticas. O liberalismo é uma utopia com consequências distópicas e que se furta ao real: das alterações climáticas à multiplicação dos serviços de cuidado para tanta gente vulnerável, a presença do poder público actuante para lá do nexo-dinheiro é cada vez mais urgente.»

É esta realidade que a tropa fandanga instalada na comunicação social estipendiada nunca dirá e procura por todos os meios ocultar.

A isto os manueiscarvalhos dizem nada, empenhados em fazer propaganda ao virar a página dos últimos anos da “geringonça” que, apesar das suas fragilidades e debilidades vitimas das “contas certas” de António Costa bem mandado pelos tecnocratas liberais de Bruxelas, contrariou muito do que era negativo na austeridade herdada da troika. Fê-lo sobretudo pelo que o PCP, o BE e o PEV empurraram o PS para a esquerda. O que querem é abrir a página do fanatismo dos liberais, que tem sido em doses variáveis dominante em Portugal, bem visível sobretudo nas políticas económicas de Cavaco Silva e Passos Coelho, mas também no socialismo que Mário Soares meteu na gaveta. São os serventuários do grande capital que lhes paga para fazerem esse trabalho, que desempenham com maior ou menor capacidade. O que é perverso e inadmissível é que essa gente tenha lugar cativo, de destaque, sejam maioritários no serviço público da comunicação social.

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João Abel Manta: A Máquina das Imagens

Ver ou rever a obra gráfica de João Abel Manta na exposição “João Abel Manta: A Máquina das Imagens” (a partir do título de um artigo de José Luís Porfírio de 1992) é ser-se confrontado com o poder das imagens em centenas de desenhos, cartoons, ilustrações, design gráfico – algumas das obras expostas ainda eram inéditas – que evidenciam o lugar único de um artista de excepção, não só nessa área mas em todas as outras das artes visuais, com um saber e conhecimento técnico, que domina sem qualquer cedência a maneirismos, que transpõem para o papel a realidade, as realidades filtradas por uma inteligência cortante e subtil ancorada uma vasta e sempre actualizada cultura.

João Abel Manta é tão capaz de radiografar à velocidade do pensamento o que estava a acontecer no período acelerado que Portugal viveu entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro como demoradamente refletir sobre os quase cinquenta anos de fascismo salazarista expondo a violência ditatorial, não só a mais evidente mas a que se introduzia no tecido social, cultural e histórico de um país assolado por uma pandemia ideológica que se queria mentalmente paralisante.

É um impiedoso cartógrafo que nos obriga a ser acareados com as evidências, recusando os facilitismos das ironias ou dos sarcasmos para que os mapas que traça com detalhes que desassossegam não permitam leituras fáceis ou distraídas. Cada desenho, cada cartaz, cada cartoon é um ensaio crítico que adquire peso específico próprio e lhe confere intemporalidade. Esse é o traço fino e distintivo do seu trabalho de designer gráfico, desde o primeiro publicado na revista de Arquitectura aos que se seguiram no Almanaque, no suplemento literário do Diário de Lisboa ou nas ilustrações do “Dinossauro Excelentíssimo”, personagem que criou em parceria com José Cardoso Pires em que se retratava sem clemência Salazar-o-Botas, parceria que continuou no “Burro em pé”, uma peregrinação pelas comarcas de Portugal em demanda dessa personagem difusa mas muito popular por essas paragens.

A implacável violência com que retrata as imposturas dos tempos da ditadura nas “Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar” é uma barreira de coral intransponível para os que se afadigam a tentar por vagas a rever a história, reduzindo-os a uma absoluta insignificância. É sempre com olhar feroz que açoita a moral marialva ou as misérias dos burgueses, sejam grandes ou pequenos, os anacronismos virais do pensamento de baixa velocidade de circulação do provincianismo. Nada escapa à sofisticada rede com que João Abel Manta peneira o universo com o bisturi carregado de tinta da china que tanto desenha com humanismo extremo os retratos de José Dias Coelho, Bento de Jesus Caraça ou Fernando Lopes-Graça, faz leituras críticas de finíssimo recorte de Shakespeare e das artes e letras nacionais nos “Diálogos Confidenciais”, ou sacode virando do avesso e zurzindo sem contemplações a má-literatura, a má pintura, a má arquitectura, a má política.

João Abel Manta: A Máquina das Imagens é a mais extensa exposição do seu trabalho gráfico, tanto de obras únicas como de séries temáticas, que se pode e deve visitar no Palácio da Cidadela de Cascais – até 16 de Janeiro — que, mais uma vez, mostra a excelência do trabalho deste artista que ocupa um merecidíssimo lugar no panteão dos maiores designers gráficos e ilustradores de todo o mundo.

(publicado em Avante! 2508 -23/12/2021)

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As Mentiras das Meias Verdades

Ferro Rodrigues, com o peso institucional de ainda ser Presidente da Assembleia da República, dá uma entrevista na RTP em que afirma que nas negociações entre o PS e os partidos à sua esquerda, que desigualmente tem sustentado a governação desde 2015 quando o PCP abriu as portas do poder a António Costa e ao PS, o PS cedia às pretensões do PCP e do BE e logo a seguir esses partidos aumentavam as suas exigências até a um ponto em que o PS já não podia ceder mais. Diz isso sem que uma ruga de desaforo se vislumbre. Acrescentou que, como Presidente da Assembleia da República, ia sendo informado desses lances, que os ouvia com preocupação. A consequência que extraía do malogro dessas negociações para aprovar o OE 2022 era, obviamente, a necessidade de o PS obter uma maioria absoluta nas eleições marcadas para 30 de janeiro.

Ouvindo o seu tom afável, espaldado no alto cargo político que exercia, até se pode acreditar nas suas falas. Nada mais falso, ainda mais perigosamente falso por se apoiar em meias-verdades para garantir o quilate das mentiras. Com muita boa vontade pode-se conceder o benefício da dúvida no pressuposto que quem o informava do andamento das negociações o enganava. O que perante algumas evidências, e se ele estava atento às posições políticas assumidas pelo PS na Assembleia da República, se torna dificilmente acreditável.

Dois exemplos em duas áreas sensíveis, o Trabalho e a Saúde. Em relação ao Código do Trabalho herdado da troika, o PS não só boicotou todas as propostas de alteração que revertessem as suas medidas de maior monta como até as agravou aumentando o período experimental de 90 dias, para a generalidade dos trabalhadores, para 180 dias para os trabalhadores que exerçam cargos de complexidade técnica, elevado grau de responsabilidade ou que exijam uma qualificação especial; desempenhem funções de confiança; estejam à procura de primeiro emprego ou desempregados de longa duração. Esmiuçando essa língua de pau, na prática para todos os trabalhadores. Alterar esta e outras disposições igualmente penalizadoras dos trabalhadores como a caducidade da contratação colectiva ou a precariedade , exigências feitas nas negociações do OE 2022, foram inaceitáveis para o PS e, pelos vistos, para Ferro Rodrigues.

Em relação ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) os partidos à esquerda do PS queriam não só o reforço das condições para que o seu exercício fosse mais efectivo, em meios humanos e materiais, mas também acabar com o decreto-lei do PS que tende a destruir o SNS tal como está instituído em vez de o valorizar e aprofundar. Propõe o PS acabar com o regime de dedicação exclusiva, como o opcional dos profissionais de saúde como até hoje, embora mal, estava instituído, alargando-o a todos os profissionais de saúde. Na prática escancarar a porta giratória entre sector público e privado que estava em funcionamento, para os privados beneficiarem de um amplo mercado de recrutamento de mão de obra que é qualificada às custas do Estado. Mas os benefícios ao sector privado não ficam por aqui. Num dos artigos deste decreto-lei que tem estado em discussão pública, facilita-se praticamente sem qualquer limitação a alienação de instituições hospitalares públicas para o sector privado. É esta destruição do SNS que os partidos de esquerda nas negociações com o PS quiseram travar. São estas e outras disposições de timbre similar que PCP, BE e PEV, a que adicionam exigências de cumprimento de compromissos assumidos pelo governo PS, para não suceder o que em anos anteriores tem sido a prática contumaz do PS que os inscreve no OE para depois, com a maior desfaçatez, os cativar faltando à sua palavra.

É esta constante deriva à direita do PS, mais evidenciada ao longo destes anos de legislaturas em que tem mais votado ao lado do PSD, CDS, IL e Chega contra as iniciativas da esquerda parlamentar do que apoiado as propostas de lei do PCP, BE e PEV. Um espectáculo a que Ferro Rodrigues tem assistido desde 2015, que o deviam ter posto de sobreaviso sobre o que lhe estavam a contar sobre o estado das negociações do OE 2022, o que atira às malvas o benefício da dúvida que se lhe poderia conceder e a imagem de esquerda com que se mascara.

Mas Ferro Rodrigues é como muitos outros militantes socialistas, alguns até mais à direita que ele, um dos sócios daquele albergue espanhol social-democrata que tem o socialismo metido na gaveta. Quando aparecem nas pantalhas é para se travestirem de esquerda para poderem prosseguir as suas políticas de direita, de preferência com a esquerda a vê-los passar. Quando se atinge um ponto de saturação em que não é mais possível à esquerda continuar a ausentar-se para que prossigam as políticas de direita, vão para a praça pública armados em virgens púdicas para se vitimizarem com o mesmo descaro exibido por Ferro Rodrigues na sua entrevista na RTP, numa campanha de caça ao voto que começou no minuto seguinte ao OE ter sido chumbado e que tem colhido algum apoio naquela gente de esquerda patética e tontamente hesitante por mais profissões de fé nos princípios que façam.

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DOIS CENTENÁRIOS: José Saramago/Jorge Vieira

Hoje faziam anos Jorge Vieira e José Saramago, que nasceram no mesmo dia e no mesmo ano, 16 Novembro 1922. São dois dos mais notáveis artistas portugueses. um escultor outro escritor. Dois centenários que hoje se iniciam com sorte e impacto diverso por um deles ter sido e justamente distinguido com o galardão máximo da literatura, o Nobel, o que dá origem a celebrações de repercussão nacional. Tanto na escultura como na literatura os dois deixaram-nos uma obra que, na sua totalidade, têm impacto indelével nessas duas áreas artísticas.

Hoje, no teatro São Luís, abriram-se as portas do centenário de José Saramago, com um concerto em que foi tocado As Sete Últimas palavras de Cristo na Cruz, de Joseph Haynd, em que os textos originais seleccionados a partir dos Evangelhos segundo São Mateus, São João e São Lucas, que eram o suporte para o rito de Cadiz, foram substituídos pelos textos originais de José Saramago escritos especialmente para ilustrar a interpretação dessa obra pelo Le Concert des Nations de Jordi Savall. O escritor já tinha publicado, em 1991, O Evangelho segundo Jesus Cristo que narra a vida de Jesus como um homem com perfeições e defeitos. A parte mais substancial do romance são os diálogos entre Deus, Jesus e o Diabo, os três confinados numa pequena embarcação durante quarenta dias e noites em que Deus revela ao Filho os seus projectos expansionistas, o Diabo revolta-se por servir de contraponto a Deus e à sua suposta bondade, Jesus insurge-se com o destino que Deus lhe reserva para consumar os seus feitos nobres e bondosos que não são nada nobres nem bondosos. É uma revisitação dos Evangelhos escrita por um ateu que os parodia ironicamente, invertendo a história sagrada substituindo na anunciação a Maria o anjo Gabriel pelo Diabo, descrevendo a intensa vida sexual de José e Maria e de Jesus com Maria Madalena, entre outros sucessos virados do avesso.

Essa será o ponto de partida para Saramago escrever as Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz. São sete magníficos textos de grande beleza e profundidade.

Na Sexta Feira Santa, A Hermandad de la Santa Cueva comemorava a Sexta Santa de forma muito particular, no que ficou conhecido como o rito de Cadiz, celebrando-a numa capela com as paredes cobertas por panejamentos negros, iluminada por sete gigantescas velas ou tochas que se iam apagando a cada uma das palavras de Cristo proferidas pelo bispo entre intermezos musicais. No fim a escuridão invadia o espaço. Em 1785, José Saenz de Santamaría que tinha herdado de seu pai o título, a fortuna e o ficar à frente da Hermandad, decide renovar a Capela, encarregando para isso vários pintores entre eles Goya, e encomendar uma grande obra musical a substituir os intermezos até aí utilizados. Escolhe Haydn para esse empreendimento. O compositor, com renome no universo musical, corresponde escrevendo uma obra-prima composta por uma Introdução e sete sonatas todas sensivelmente com a mesma extensão, em média 7 minutos, acabando a última com Il Terremotto, um Presto com tutta la forza que se contrapõe aos anteriores andamentos, entre o Grave, o Largo, o Adagio.

Il Terremotto evidencia toda a genialidade de Haydn e a atenção que tinha pela música de Mozart e Beethoven de quem tinha sido amigo, mentor e tutor. É o culminar de uma das obras mais representativas do Iluminismo que mantém intacto too o seu potencial expressivo, hoje mais sublinhado pelos admiráveis textos de Saramago que acabam com uma frase que sintetiza o que foi expondo desde a primeira palavra «Deus,Pai, Senhor aqui me tens. Aqui me tens , por fim, neste monte árido a que chamam de Gólgota para onde, passo a passo foste encaminhando a minha vida para que se cumprissem todas as profecias. Estou crucificado nesta cruz alta, a que está ao centro, e os homens que fazem companhia, um de cada lado, são dois vulgares ladrões, daqueles que se contentam em roubar pouco, porque se fossem daqueles que roubam muito tenho a certeza que não acabariam crucificados» até como finaliza a sétima e última palavra « Acabámos. Representei o meu papel o melhor que podia. O futuro dirá se o espectáculo valeu a pena. E agora deus, pai, senhor, uma última pergunta: quem sou eu? Em verdade, em verdade quem sou eu?»

Dois centenários de dois meus amigos e camaradas que hoje se iniciam e que aqui singelamente relembro ao som do final desta obra de Haydn.

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DERIVAS MULTICULTURAIS

O debate político é tragado pelo debate multicultural em variadas e autónomas vertentes que acabam por arranhar as elites que detêm o poder sem contestarem as estruturas económicas e políticas que as sustentam.

A Persistência da Memória, Salvador Dalí, 1931 CréditosSalvador Dalí

Activistas com ligações ao MeeToo exigem a rectificação de mais um escândalo que, depois de muitas horas de exibição em pantalhas por todo o mundo, tem passado sem punição: o beijo com que o príncipe acordou Branca de Neve não foi um beijo consentido!

É um, mais um, evidente caso de violência sobre o sexo feminino, de evidente assédio sexual. Celebre-se João César Monteiro, sempre muitíssimo atento à moral e aos bons costumes, que tapou a objectiva com um pano negro para que a impudicidade da cena não fosse vista. Dizia o realizador aos interpelantes que não tinham percebido a demanda: «Queriam o quê? Telenovela? Fadinho?». Queriam e querem. O que se está a assistir e a acontecer sob a capa do multiculturalismo, com os estudos feministas, queer, racistas, etc., e a sua repercussão social, nos meios universitários, laborais, artísticos, é inquietante. Tão patético quanto o beijo do príncipe foram os apelos para que Gaugin fosse excluído dos museus, acusado de ser um pedófilo de mentalidade colonialista, encabeçando um índex que incha sem tino e em que são poucos os que escapam a essa fúria persecutória. Até Dante lá foi parar por ter escrito Divina Comédia, considerada obra homofóbica, racista, anti-islamista e anti-judaica. Estes e outros sucessos são tão excessivos e folclóricos, tonteiras tão tontas (passe o pleonasmo), tão passíveis de serem imediatamente comparadas às fogueiras inquisitoriais de torquemadas pós-modernos por um muito amplo arco de forças políticas e sociais, que, de algum modo, menorizam as lutas identitárias, que até lhes são úteis, mas sobretudo rasuram as lutas de classe em que as lutas identitárias deveriam e estão integradas, com o objectivo de nivelar tudo para que a realidade, nos seus termos actuais, seja não só aceitável como mesmo desejável. Não devem ser consideradas um acaso estas manifestações extremas de um radicalismo pequeno burguês que mais não é que um mimetismo proletário das camadas burguesas decadentes. Acabam por se tornar topos de divertimento, de chacota, que distraem para desfocar as análises a fundo do que está na sua origem, que deve ser séria e severamente analisado pelo seu poder de inquinar as lutas de esquerda e das forças progressistas que não fazem concessões às elites que detém o poder.

«Acabam por se tornar topos de divertimento, de chacota, que distraem para desfocar as análises a fundo do que está na sua origem, que deve ser séria e severamente analisado pelo seu poder de inquinar as lutas de esquerda e das forças progressistas que não fazem concessões às elites que detém o poder»

Nesse universo convulsionado e fragmentado, uma das acções que mais frutos colheu e colhe é a da chamada escrita inclusiva. No mundo em que o conhecimento da língua se desgasta nas vulgaridades lexicais das redes sociais e dos tweets, cresce a obsessão pelas regras gramaticais em que se procura impor a igualdade entre homens e mulheres, esbater as diversidades étnicas. As neo-feministas defendem a imposição de regras para que, no dizer delas, a gramática deixe de invisibilizar as mulheres. Títulos, funções, graus e ofícios devem passar a obrigatoriamente a usar o feminino e o masculino por dupla inflexão ou outro qualquer método. Essa seria agora uma das grandes frentes de luta do combate feminista, mais preocupado com os símbolos do que com a realidade das desigualdades e outras violências exercidas sobre as mulheres. Uma luta que ultrapassa fronteiras. Por cá Francisco Assis, que dá cobertura aos burocratas do patronato no CES a que preside para serem força de bloqueio aos acordos parlamentares sobre as leis do trabalho e contratação colectiva, torna-se um campeão da escrita inclusiva, o que lhe valeu inúmeros elogios nos media. Pouco interessa que ele pouco se preocupe que em Portugal as mulheres ganhem em média cerca de 15% menos do que os homens, diferença que aumenta para 26% nos quadros de topo, não discutindo essa questão no CES como quer a CGTP. Algumas universidades inglesas e norte-americanas surfam as ondas da escrita inclusiva admitindo os erros ortográficos como um esforço positivo para reduzir diferenças de aproveitamento entre estudantes brancos e de outras etnias pregando que isso seria forma de reduzir taxas de desistência porque «construir uma voz académica significa adoptar um modo de expressão particular de uma elite do norte europeu, branca, masculina, dependente de um alto nível de proficiência técnica em inglês escrito e falado» e que tal «modo de expressão» obscurece as particularidades de cada aluno, nomeadamente os estrangeiros, de minorias étnicas e os mais pobres. Em vez de considerar a individualidade e a diversidade cultural dos alunos estendem o tapete da escrita inclusiva para aí esfregaram as solas dos seus sapatos impregnados de um insuportável paternalismo colonialista.

As lutas identitárias ditas fracturantes espalharam-se praticamente por todo o universo, o que foi facilitado pela aculturação promovida por uma cultura dominada pelas leis do mercado e subordinada ao normativo anglo-saxónico. Começaram a invadir o ensino universitário onde se preparam as elites. Na Universidade de Oxford, a mais antiga e prestigiada universidade de língua inglesa, estão em cima da mesa do seu conselho científico propostas para a reforma do ensino da música pressionado pelo movimento Black Lives Matter. As primeiras notícias fizeram soar sirenes de alarme, anunciando mesmo o descartar o reportório clássico, Bach, Beethoven, Mozart para que o estudo da música «perdesse as suas conexões coloniais», se tornasse mais inclusivo, afastando-se dos currículos musicais a «conivência e cumplicidade com a supremacia branca». Bem estranha essa preocupação quando Beethoven, como escreve Romain Rolland, «ama a liberdade com orgulhosa consciência de quem se liberta da mordaça do velho mundo podrido dos seus senhores e dos seus deuses, mostra-se digno da sua nova liberdade», ou quando Mozart, que tem uma primeira referência anti-racista nos diálogos da Flauta Mágica, quando Papageno diz que «se há aves pretas, porque não hão-de existir homens pretos» (Acto I/ Cena 14). Evidentemente que a notícia era um excesso especulativo porque nunca seria possível um ensino musical que pusesse em causa intransigentemente a notação e a leitura de partituras clássicas, mas foi provocada por estar em marcha um movimento para o «estudo de uma maior variedade musical»  que não se sabe até onde irá até porque os ventos que andam a varrer o ensino universitário, impulsionados pelas lutas identitárias tem aberto várias janelas. Na universidade de Yale está em marcha a revisão do curso de Arte do Renascimento à Actualidade, porque alguns mestres repararam agora no mais que manifesto facto de os pintores renascentistas serem brancos e masculinos. Um azar que Iago, em vez de intrigar e manipular Otelo, não se tenha dedicado à pintura tendo por modelo Desdémona para concorrer com Ticiano porque, apesar de continuar a ser um representante masculino, pelo menos não era branco. Decidem que é preciso tirar a arte ocidental do seu pedestal, colocá-la no contexto mais amplo «das questões do género, da classe, da raça e também das alterações climáticas»!!! Não menos grave é a English Touring Opera, conhecida companhia de ópera itinerante, ter decidido licenciar metade dos seus efectivos para promover a diversidade étnica dos seus membros sobrepondo esse critério aos critérios de mérito musical.

«[o multiculturalismo,] mais do que criticar as estruturas responsáveis pela exclusão e marginalização de vastas franjas sociais e integrar as lutas contra essa exclusão e marginalização no contexto mais vasto das lutas de classe, as desintegrou nas lutas identitárias ditas fracturantes que se são importantes nos contextos de mudança de atitudes sociais acabam por ser irrelevantes na alteração radical da sociedade»

Já nos anos 50, muito antes de Fukuyama decretar o fim da história, o sociólogo Daniell Bell, analisando a ausência de comprometimento político nos meios artísticos e intelectuais dos EUA, decretou que o período do pós-guerra tinha marcado o «fim das ideologias»,1 prenunciando o estado actual do multiculturalismo que se tornou um fim em si, em que mais do que criticar as estruturas responsáveis pela exclusão e marginalização de vastas franjas sociais e integrar as lutas contra essa exclusão e marginalização no contexto mais vasto das lutas de classe, as desintegrou nas lutas identitárias ditas fracturantes que se são importantes nos contextos de mudança de atitudes sociais acabam por ser irrelevantes na alteração radical da sociedade, pelo que rapidamente são absorvidas, até aceites com complacência pelo poder e pelo pensamento dominantes, que soube e sabe ler e explorar com agudeza que se estava a abandonar a análise das raízes profundas dos problemas sociais e económicos, identificando as mudanças estruturais necessárias para os superar, para as substituir pelo expandir de direitos e procurar oportunidades dentro do sistema. Ignora-se desse modo que o capitalismo é uma ordem social institucionalizada pelo que essas práticas políticas, sociais e económicas se tornam incapacitantes, desviadas das lutas contra as estruturas fundamentais que assim se desgastam, mesmo perdem, a possibilidade de uma crítica radical do capitalismo atirada para um labirinto de identidades desarticuladas em que se desbarata o conceito de classe e de alienação em que tudo se torna relativizável.

O debate político é tragado pelo debate multicultural, nas variadas e autónomas vertentes entrincheiradas na excelência dos debates semiológicos pós-estruturalistas que acabam por arranhar as elites que detêm o poder, sem contestarem as estruturas económicas e políticas que as sustentam. Muitas das suas manifestações são happenings que a comunicação social dominante transmite enlevada. É a integração das lutas identitárias e fracturantes na política espectáculo o que é perfeitamente entendido pelas forças que suportam o poder e que se traduz no espaço mediático que ocupam nos media corporativos, no apoio económico que fundações, como as de Soros, Rockfeller, Ford, etc., concedem ao MeeToo, Black Lives Matter, outras organizações similares e ONG’s. Nancy Fraser, filósofa ligada aos movimentos feministas, descreve como o neoliberalismo progressista já dominava a política estadunidense ainda antes de Trump: «isso pode soar como um oxímoro, mas era uma aliança real e poderosa de dois companheiros de cama improváveis: por um lado, as correntes liberais mainstream dos novos movimentos sociais (feminismo, anti-racismo, multiculturalismo, ambientalismo e direitos LGBTQ); por outro lado, os setores “simbólicos” e financeiros mais dinâmicos da economia dos EUA (Wall Street, Silicon Valley e Hollywood)». Aliança que tem por objectivo último liberalizar e globalizar a economia capitalista, consolidando a sua hegemonia, o que é desde sempre o objectivo do liberalismo na sua pluralidade, de que essas esquerdas desbussoladas acabam por ser objetivamente aliadas.

Russell Jacoby faz uma análise contundente: «despojados do seu vocabulário socialista, esbulhados das suas esperanças utópicas, os progressistas e os esquerdistas bateram em retirada, em nome do progresso, para celebrar a diversidade. Não tendo ideias para enfrentar o futuro, aderiram a todas as ideias. Sob as vestes do multiculturalismo, o pluralismo tornou-se num albergue espanhol, o alfa e o ómega do pensamento político, o ópio dos intelectuais desiludidos, a ideologia de uma época sem ideologia».2

«um idealismo estéril em que a luta por uma mudança radical da sociedade, das suas estruturas sociais, políticas e económicas, das suas diversas opressões, é travada no território das imagens e da linguagem, em que aquela nunca é atacada na sua base social, política e económica»

Ficam prisioneiros de um idealismo estéril em que a luta por uma mudança radical da sociedade, das suas estruturas sociais, políticas e económicas, das suas diversas opressões, é travada no território das imagens e da linguagem, em que aquela nunca é atacada na sua base social, política e económica. Para amortecer as energias das lutas contra o clima neoliberal dominante, um dos processos mais vulgarizados é o do silenciamento das forças de esquerda mais consequentes, o que é facilmente detectável em todos os media corporativos estipendiados. Outro, mais subtil, é uma variante do replay que vemos quase diariamente nos serviços noticiosos quando recorrem a correspondentes geograficamente distantes. Quanto maior for a distância maior é o tempo que o receptor leva a perceber a questão e a ela responder. Essa inevitabilidade física é usada por algumas forças de esquerda que aproveitam os acalantos que a comunicação social lhes disponibiliza. Tornaram-se vulgares propostas feitas nos mais diversos palcos, institucionais e não institucionais, para corrigir e atacar os desmandos deste estado de sítio, serem noticiadas e assumidas não pelos proponentes mas por outros com dois objectivos: o primeiro é tornar os proponentes invisíveis, o segundo é esvaziar o conteúdo do seu valor activo. Isto faz com que essas esquerdas surjam a falar para os grupos oprimidos, para as minorias como se elas fossem a sua preocupação maior. Essa é a falácia porque o efeito pretendido é desviar as lutas das organizações de massas e dando visibilidade às lutas, esterilizá-las em discursos fortemente centrados em grupos autonomizados de trabalhadores, feministas, minorias étnicas, LGTBI+, etc., que nunca atacam a raiz dos problemas embora se dediquem à poda, uma actividade que se bem orquestrada apresenta a esquerda como um projecto afectivo e moral o que, por vezes, até se torna aliciante nas esquerdas mais empenhadas nas transformações sociais, mas que é um sucedâneo que substitui o projecto de libertação humana com o fim da sociedade de classes que deve ser sempre o objectivo da esquerda e das forças progressistas.

Há que perceber e afirmar que o multiculturalismo é sempre gerador de múltiplas identidades privadas, individualizadas, definidas em termos antagónicos e interseccionais com o objectivo de desarticular a luta de classes e as hipóteses de uma crítica estrutural e radical do capitalismo, inquinando a consciência colectiva e o militantismo político.

Como escreveu Pepe Escobar, sintetizando brilhantemente o momento actual em que vivemos «somos empurrados pelas ondas de uma baleia já arpoada, sem qualquer ideia de como, onde ou quando isto vai terminar. Como o Ismael de Melville, temos que sobreviver enquanto, sem descanso, combatemos contra os ventos da falácia, da ficção, da fraude e da farsa que o sistema moribundo manipula sem parar».3

(publicado em AbrilAbril http://www.abrilabril.pt)

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Bocage, Cultura

Comemorações dos 150 anos da inauguração do monumento a Bocage (1871-2021)

O monumento a Bocage, situado na praça dedicada ao poeta existente no centro de Setúbal – e que nos serve de referência maior neste blog -, é uma obra marcante na identidade da cidade.

Completam-se agora 150 anos sobre a inauguração do monumento. Sob o lema “Bocage O Poeta da Liberdade, construção da memória nos 150 anos do monumento a Bocage”, um conjunto de entidades sadinas organiza um programa de atividades culturais de que aqui se dá nota.

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Moedeiros Falsos

Imagem do Filme de Benoît Jacquot, Moedeiros Falsos, baseado no livro de André Gide, edição portuguesa Ambar, 2004, tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira

Quando se poderia julgar que no PSD haveria alguns personagens que teriam capacidade, ainda que residual, de pensarem qualquer coisa algures nos territórios de uma social-democracia thatcherista próxima da direita do PS, aparece um tal José Eduardo Martins, a quem é concedido um tempo de antena desmesurado em relação ao raio de circulação do seu intelecto (é o Portugalito, o que tem por brasão o galo de Barcelos, no seu melhor com os seus media na mesma escala), a tirar quaisquer ilusões a quem ainda as tivesse. É lê-lo numa entrevista que um diário lhe fez esta semana. Alguém que tem< deleite intelectual> em ir almoçar com Passos Coelho só pode ser um grunho ainda que envernizado pelo império das ilusões da cultura anglo-saxónica, como faz questão de sublinhar, o que em política se plasma na pornografia para lá da troika do governo PSD-CDS que julgávamos, pelos vistos bem mal, de que ele seria de algum modo crítico. Afinal era tudo dança no varão do neoliberalismo capitalista para iludir a malta, mesmo dando as mais ousadas cambalhotas, insuficientes para dar velaturas no mais obsceno striptease de um direitinha que só se distingue do Chega, da Iniciativa Liberal, do CDS, do PSD, da direita do PS no manobrismo linguístico em que o rapaz é um poker de ases de um baralho viciado que só ludibria quem já está enconchado na direita. Há que saber lê-lo para lá das diatribes com que nos distrai e até diverte. Nada como um bom vendedor de vigésimos premiados, são os melhores (piores) moedeiros falsos, os que sabem como melhor angariar votos no pantanal do totalitarismo democrático. Não há vício lógico que os trave.

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Afeganistão a ferro e fogo

Os talibãs que agora derrotaram fragorosamente o exército e o poder do Afeganistão, ali colocados há vinte anos pelos EUA e seus aliados da NATO são os mesmos que, com o forte apoio dos Estados-Unidos combateram o governo secular e democrático e os seus aliados soviéticos que concederam os mesmos direitos às mulheres e aos homens, que iniciaram uma reforma agrária para erradicar as plantações de papoilas, agora o negócio mais florescente daquele território quando o seu controle era partilhado pelos novos e pelos velhos aliados dos EUA.

O que os múltiplos comentadores de todos os media mercenários que se desdobram em declarações sobre a chegada intempestiva e rápida dos talibãs a Cabul, tomando de facto o poder, nunca referem é que os talibãs são uma criação dos EUA que investiu uma verba multibilionária para os treinar, armar, equipar e subsidiar, dirigida por Zbigniew Brzezinski, conselheiro de segurança nacional de Jimmy Carter, com um currículo invejável ao serviço do imperialismo norte-americano, por exemplo foi dinamizador da Comissão Trilateral, trabalhou de 1966 a 1970 na embaixada norte-americana em Praga, etc.

Nada disto é referido por essa gente que agora parece muito surpreendida com a bagunça instalada. Muito menos referem que quando os soviéticos se retiraram do Afeganistão o exército afegão resistiu durante três anos e só sucumbiu quando Boris Ielstin cortou todo o apoio ao governo afegão abrindo caminho aos talibãs amigos dos EUA. Um cenário completamente inverso do actual, o que diz tudo ou quase tudo sobre o resultado de vinte anos de ocupação dos Estados-Unidos e Nato e o do poder exercido pelos sucessivos afegãos de Bush, Obama, Trump e Biden que o governaram.

No Ocidente, as declarações são como normalmente cínicas. Enchem a boca com os direitos humanos, em particular das mulheres e raparigas. Como se isso alguma vez lhes tivesse interessado e não houvesse responsabilidades do império norte-americano com a sombria ironia de esta luta final ser entre duas forças por eles apoiadas conforme os seus interesses geopolíticos. Nada disto será lido, ouvido ou visto nos media estipendiados como se a intervenção dos EUA no Afeganistão se resumisse aos últimos vinte anos, depois do 11 de Setembro. A manipulação e a hipocrisia não tem limites nem fronteiras.

Poucos referem que, com os talibãs no poder, chegam ao poder os pashunts, a maior tribo do universo, que foi artificialmente dividida entre o Paquistão e o Afeganistão pelo império britânico, useiro e vezeiro nesse corte e costura de fronteiras procurando acautelar os seus interesses futuros depois de ser obrigado a se retirar. Pode ser uma situação altamente explosiva, um catalisador de instabilidade numa região que nunca foi muito estável, basta olhar para as fronteiras do Afeganistão e os potenciais conflitos directos e indirectos que podm eclodir.

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Setúbal

Somos pobres e pequenos ou não?

Nem pequenos, nem pobres; nem ricos, nem grandes. Será esta a melhor resposta para a pergunta do título.

Vem isto a propósito de, nestes tempos de pré-campanha eleitoral, a principal estratégia de quem disputa o poder camarário parecer ser a do menosprezo por Setúbal, ou, dito de outra forma, o apoucamento do que é a cidade e o concelho.

A estratégia narrativa é clara e básica: Setúbal precisa de ser mesmo a grande cidade que é, porque não é uma pequena cidade, dizem uns; outros, recuperando uma velha ideia, querem que Setúbal volte a ser o terceiro concelho do país, seja lá o que for que isso significa. Dizia-se, era eu miúdo, que éramos a terceira cidade do país, depois de Porto e Lisboa, ainda que a afirmação não estivesse minimamente ancorada em quaisquer dados estatísticos ou sociais. Hoje fala-se em terceiro concelho do país porque, naturalmente, ficaria mal falar só em “cidade”, pois as populações de Azeitão e das Praias do Sado não haveriam de gostar de ser excluídas.

Outros dizem ainda que precisamos de mais investimento industrial, que há muito desemprego, que temos os mais baixos salários do país.

Tudo se diz nestes tempos de campanha eleitoral e de comunicação instantânea nas redes sociais e em que as opiniões valem todas o mesmo (já sei que esta última vai ser mal interpretada…)

São tempos de campanha eleitoral e tudo parece valer. O problema é que o rigor dessas afirmações não resiste minimamente quando confrontadas com dados estatísticos oficiais.

De acordo com o Pordata (dados de 2018), por exemplo, o ganho médio mensal no concelho de Setúbal é superior em 14 euros à média nacional (Setúbal – 1181; Nacional – 1167). No Montijo, o ganho médio mensal é claramente inferior à média nacional, situando-se nos 1009 euros; o poder de compra per capita em Setúbal é também superior à média nacional (dados 2017), sendo de 107,5. O mesmo indicador é bastante inferior no Montijo, onde, no mesmo ano, se situou nos 99,2, ou seja, abaixo da média nacional (100).

Se faço comparações com o Montijo é porque já houve por aí um candidato a presidente da Câmara que as fez antes. Nem sequer é por ser um município governado pelo PS. Podia ser, mas não é…

No desemprego, sempre apregoado como uma das maleitas setubalenses (já o foi, de facto), vale a pena olhar para as estatísticas mensais concelhias do IEFP. O que se verifica é que, depois da subida dos números em 2020, se assiste já a uma clara retoma do emprego no concelho. Se tomarmos como referência o mês de maio, o último em 2021 em que já existem números disponíveis, constataremos que o número de desempregados no concelho era de 4910. No ano anterior, em 2020, em plena pandemia, esse número era de 5600 e em 2019 era de apenas 3209.

Setúbal é, aliás, um dos concelhos da península onde a redução do desemprego de 2020 para 2021 é mais rápida e acentuada.

Poderá haver muitas leituras para estes números, mas o que parece claro é que o concelho está a recuperar com alguma rapidez em matéria de emprego. E por que será? As políticas municipais na qualificação urbana do concelho, na atração de turismo e de investimento não terão também responsabilidade nesta retoma? Importante também é constatar que os investidores mantém as suas intenções de aqui manterem os seus projetos.

Importa ainda destacar que Setúbal é o concelho da península onde se assistiu a menor desinvestimento nos setores industriais, onde, aliás, se nota até um dinamismo assinalável, por exemplo, na Sapec Bay, na instalação de novas empresas no Blue Biz, ou até com a vinda da fábrica da Laser, um dos maiores produtores mundiais de embarcações de vela ligeira.

Este é, no entanto, o concelho em que, a acreditar no que diz por aí, há mais desemprego, onde se ganha pior, onde só há emprego no turismo, embora, ainda de acordo com os dados do Pordata, o setor com mais pessoal ao serviço fosse o das indústrias transformadoras, com 17,2 por cento. Por tudo isto, quando alguém por aí alegue que somos uma cidade pequena, que devemos é ser o terceiro concelho, desconfie e mande-os ver os dados oficiais que eles não desconhecem, mas que não lhes dá jeito falar deles.

E não, não somos pequenos nem grandes. Somos apenas Setúbal e isso já é muito.

https://www.pordata.pt/Municipios

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Finalmente!!!

O oportunismo político do Rui Tavares que se mascara de esquerda ainda que de uma esquerda prozac completamente controlada e amarrada ao pensamento prevalecente, o Rui Tavares que nunca saí da arena que lhe oferecem para fazer os seus rodeos de pantominas, o Rui Tavares que desde sempre soube e bem explorar em proveito próprio as causas identitárias e das minorias, a ser pró-Nato, a incensar a União Europeia como se não fosse uma construção das classes dominantes e o Euro como se não fosse um sistema de opressão austeritária, a ser pró- todas as invasões humanitárias, o Rui Tavares lambe botas dos oligarcas que controlam a comunicação social e lhe dão espaço para se exibir, o Rui Tavares e etc., e etc., finalmente, finalmente tem uma primeira recompensa política pública – a outra no Parlamento Europeu já ninguém se lembra, se calhar nem ele mesmo depois das cenas que protagonizou em que a única memória que deve restar foi o rasto na conta bancária – com um novo pelouro Cultura, Ciência, Conhecimento e Direitos Humanos, um autêntico supermercado de alhos e bugalhos onde terá a oportunidade de lhe pagarem para vender em vigésimos premiados o seu parlapié de pacotilha sobre tudo e sobre nada.

Rui Tavares, embora a concorrência seja intensa, é um dos exemplos mais acabados da Formiga Bossa Nova do Alexandre O’Neill

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

(– Obrigado, formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe…)

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