AbrilAbril, Aldina Duarte, arquitectura, Barbara Hannigan, Carina Infante do Carmo, Cultura, Geral, João Paulo Esteves da Silva, Livraria Aillaud& Lellos, Lojas com História, Maria João Luís, Músicos do Tejo, Museu do Neo-Realismo, Programa Revive, René Jacobs, Teatro da Terra, Vilay Iver, Violante F. Guimarães

Do Pior e do Melhor em Cultura, Janeiro 2018

lelloe e AilladEm Lisboa uma livraria quase centenária, a Aillaud & Lellos, encerrou as suas portas no fim do ano por não suportar o aumento de renda exigido pelo senhorio. A ironia é ao lado do cartaz em que se anuncia o encerramento estar um autocolante com o logotipo “Lojas com História” da recém-formada rede do programa Lojas com História http://www.lojascomhistoria.pt , promovido pela Câmara Municipal de Lisboa (CML). Não são as boas intenções que ultrapassam os efeitos devastadores da famigerada lei das rendas de Assunção Cristas, no não menos famigerado governo PSD-CDS, que provocou uma onda de despejos brutal que ela procura eclipsar manipulando os efeitos dessa lei da sua deliberada responsabilidade, ventilando um argumentário em que vale tudo mesmo negar as próprias evidências, como se viu durante a campanha eleitoral para as autárquicas em que se arvorou em defensora das lojas históricas de Lisboa, enquanto elas iam fechando vitimas da sua irresponsabilidade.

É menos uma livraria onde se podia procurar o que não se encontra nos dominantes espaços livreiros. Do ponto de vista da arquitectura também se vai certamente perder a bela fachada e letragem art-deco, como já se perderam outras lojas dessa zona da baixa, muitas desenhadas pelo arquitecto Conceição Silva em colaboração com artistas plásticos, agora só memória de um património que se tem vindo a alienar. Isto quando se proclama 2018 – Ano Europeu do Património e o Ministério da Cultura está alegremente muito entusiasmado com a privatização de mais de trinta monumentos que irão ser entregues à indústria do turismo. Inquietante, preocupante é o Ministério da Cultura não assumir as suas responsabilidades nesse processo porque a grande questão é se as operações imobiliárias necessariamente associadas a essas recuperações garantem e como garantem as suas memórias originais, se essas memórias serão e como serão sacrificadas à sua reabilitação. Não é límpido como o empreendedorismo turístico, com promessas de restaurar o património edificado, lhe vai dar acesso público, desde que, evidentemente, não incomode os utentes que pagam para dormir e vaguear por onde dormiu e vagueou a extinta nobreza pelo que se deve preservar o sossego desses esplêndidos momentos de ócio, pagos e bem pagos aos empreendedores que em poucos anos amortizam os investimentos feitos à conta do valor histórico desses lugares. A primeira sugestão cultural, aceitando-se com todas as reservas o Revive, é que se gere um movimento cívico e de cidadania que exiga que seja o Ministério da Cultura a elaborar os programas para cada um dos monumentos, resolvendo na medida do possível os problemas enunciados e só depois os colocando a concurso. Há ainda outro problema que o governo devia corajosamente enfrentar que é o da crise com que se debatem os profissionais de arquitectura. Todos esses projectos deveriam obrigatoriamente ser sujeitos a concurso público não limitado, não deixando a escolha das equipas de arquitectura entregue à selecção aleatória dos adjudicatários. No 2018-Ano Europeu do Património estaria Portugal a dar um passo em frente e inovador para defesa do património mesmo no quadro de um desinvestimento generalizado dos Estados na cultura o que só causa as máximas apreensões, olhando para o que tem acontecido por essa Europa fora.

O grande destaque desta semana vai para as crianças. As crianças sem horizontes ou com um longínquo horizonte de esperança. Carina Infante do Carmo e Violante F. Magalhães organizam um interessantíssimo conjunto de colóquios, seminários e mesas-redondas, a decorrer em Lisboa na Faculdade de Letras e no Museu João de Deus e em Vila Franca de Xira no Museu do Neo-Realismo com o tema

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Miúdos, a vida, às mãos cheias. A infância do neo-realismo português. http://www.museudoneorealismo.pt/frontoffice/pages/1367?event_id=9609. O objectivo, expresso no texto de apresentação é o tópico da infância (e da juventude, já agora) uma das dimensões mais significativas da construção e conquista da contra-hegemonia cultural do Neo-Realismo à política salazarista e ao seu fortíssimo investimento simbólico, político-organizativo e repressivo em torno destas faixas etárias. Para os neo-realistas, a criança é um dos ícones da esperança, da emancipação social e da potência transformadora de futuro. O recurso à infância nas figurações artísticas e literárias combina o ensejo de denúncia com uma dimensão pícara e, fundamentalmente, lírica.

O programa é ambicioso e vasto, inicia-se nos dias 12 e 13 de Janeiro prolonga-se até Agosto.http://www.museudoneorealismo.pt/uploads/writer_file/document/17150/PP.pdf Além das análises ao neo-realismo enquanto movimento literário, artístico e político, a figuração da criança nas obras de Manuel da Fonseca, José Gomes Ferreira, Ilse Losa, Soeiro Pereira Gomes, Carlos Oliveira, Vergílio Ferreira e Fernando Namora será objecto de comunicações nesses primeiros dias. O cinema, o teatro e leituras encenadas darão continuidade a esse excelente programa, nos dias 2 de Fevereiro, 2 e 17 de Março, em paralelo uma exposição no Museu do Neo-Realismo é o suporte físico para esta excelente iniciativa que constitui também um Curso de Formação de Professores creditado pelo Conselho Pedagógico-Científico da Formação Contínua de Professores/ Curso livre creditado em ECTS pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A criança, as crianças estão também no centro da peça de teatro 150 Milhões de Escravos com montagem e encenação de Maria João Luís. O número é o do total das crianças escravas em todo o mundo no recenseamento da Amnistia Internacional. O texto foi construído com base nos neo-realistas portugueses Romeu Correia, Carlos Oliveira e Soeiro Pereira Gomes e de Em Homenagem aos Nossos Empregados, de Mickael de Oliveira, A Gaivota, de Anton Tchekov, fragmentos de Arthur Rimbaud. Uma peça de teatro dura, violenta sobre uma realidade que vem dos princípios da história, da propriedade privada e da exploração do homem pelo homem, uma história violentíssima da humanidade que persiste nos nossos dias, em que os pobres são cada vez e estão mais pobres em relação aos ricos que são cada vez menos e concentram cada vez mais riqueza nas suas mãos. 150 Milhões de Escravos

é uma peça que nos confronta com as cumplicidades, directas de quem pactua com este estado do mundo e indirectas de quem, até por omissão, se alheia da brutalidade da exploração capitalista que, para se perpetuar, usa todas as formas das mais aparentemente democráticas às mais brutais ditaduras, das liberdades burguesas mais amplas aos territórios concentracionários do nazismo-fascista. A artista e encenadora Maria João Luís interroga: Quem são hoje os filhos dos homens que nunca foram meninos? E interroga com aspereza para nos sobressaltar a consciência de todos que de uma forma ou de outra pactuamos com esta situação. A interpretação está a cargo de Beatriz Godinho, Catarina Rôlo Salgueiro, Emanuel Arada, Ivo Alexandre, João Saboga, José Leite, Hélder Agapito, Lígia Soares e Teresa Sobral.

A cenografia é de Ângela Rocha, o vídeo de Inês Oliveira, o movimento de Paula Careto e o desenho de som e de luz de José Peixoto e Pedro Domingos.

É uma co-produção do Teatro da Trindade INATEL e pelo Teatro da Terra, em parceria com a Câmara Municipal de Ponte de Sor e o Museu do Neo-realismo, a peça vai estar em cena a partir de quinta-feira, dia 11 de Janeiro, e prolonga-se até 28 de janeiro, com espectáculos de quarta-feira a sábado, às 21h30, e aos domingos, às 16h30.

Espera-se, deseja-se que 150 Milhões de Escravos, encontre outros palcos no país.

A finalizar referir registos discográficos que são um bálsamo para preencher dias e noites chuvosas. Dois de música sinfónica, o Requiem de Mozart que depois de inúmeras e excelentes interpretações ainda consegue surpreender agora com a direcção de René Jacobs com a Freiburger Barockorchester, o RIAS Kammerchor e as vozes solistas de Sophie Karthauser, Marle-Claude Chappuls, Maximilian Schmidt e Joahannes Welsser; e Crazy Girl Crazy de Barbara Hannigan, maestrina e cantora da Ludwig Orchestra que interpretam a suite de Gershwin, arranjo de Billy Elliot, que dá o título ao disco, a suite Lulu de Alan Berg e uma portentosa interpretação da Sequenza III de Luciano Berio. No jazz um excelente João Paulo Esteves da Silva, piano, acompanhado por Mário Franco, contrabaixo e Samuel Rorher, bateria em luminosas improvisações em Brightbird e um magnifico Vijay Iyer, demonstrando a sua enorme versatibilidade como instrumentista e arranjador a tocar em sexteto em Far From Over.

No fado os grandes destaques vão para Aldina Duarte, Quando se Ama Loucamente, que se aventura nos textos de Maria Gabriela LLansol para abrir caminho pelas paixões que abruptamente irrompem e morrem. Ainda no fado mas a traçar uma trajectória das raízes aos nossos dias, From Baroque to Fado de Os Músicos do Tejo, com as vozes de Ana Quintans e Ricardo Ribeiro, Miguel Amaral, viola, Marco Oliveira guitarra portuguesa, Jarrod Cagain, percussão. Um disco gravado em directo, um esplêndido trabalho de produção e edição de Pierre Lavoix, do concerto efectuado na Fundação Gulbenkian que teve um grande êxito que agora se tem repercutido nacional e internacionalmente por via do registo discográfico .

( publicado em AbrilAbril 12 de janeiro)

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1% pra a Cultura, Cultura, Geral

Cultura e Alienação

1% Cultura

Nas últimas décadas, o desinvestimento na cultura enquanto serviço público atira-a para a fogueira unidimensional do mercado. A cultura, que deveria assegurar o direito de todos ao acesso, à criação e à fruição cultural e ser elemento central na formação da consciência da soberania e da identidade nacional, dialogando, de igual para igual, com a cultura de todos os povos do mundo, tornou-se numa vulgar mercadoria. Dentro da lógica mercantilista que o capitalismo neoliberal procura impor a todas as esferas da actividade social e humana, procura-se subordinar as políticas culturais do Estado às normas do mercado que não conhece outra lógica que não seja a do que é vendável, o seu único critério de excelência que reduz o juízo crítico a uma espécie de crónica de promoção publicitária das artes e dos artistas sem colocar questões de ordem estética, poética ou até relacionadas com as histórias de arte.

Procura-se legitimar essa situação com a apresentação estatística do crescimento do sector económico das chamadas indústrias culturais e criativas que teriam impacto cada vez maior no contexto das actividades económicas. Para alcançar esses resultados vale (quase) tudo. Na Europa, depois de falhada a tentativa de tentar subordinar as actividades artísticas e culturais aos critérios e ditames da Organização Mundial do Comércio, começou-se a medir a importância da dimensão económica do sector cultural com as Contas Satélite da Cultura, uma prática em uso, com pequenas diferenciações metodológicas, em países como Espanha, Finlândia, Polónia, República Checa ou Portugal.

A questão central é o que se considera passível de integrar com o rótulo de actividade cultural. Na Conta Satélite da Cultura em Portugal, como nos outros países, o sector com maior impacto é o dos Livros e Publicações, não só pela dimensão como pelo número de empregos que gera. O que os números grossos ocultam é que a produção de livros é bem menor que a das publicações e que nas publicações, em Portugal as duas de carácter cultural, o semanário JL e a revista Ler, além de serem uma quase excrescência no conjunto das publicações, têm tiragens desprezíveis, 10 000 e 7 000 respectivamente, se comparadas com A Maria, 167 000, ou os três jornais diários desportivos, A Bola, 120 000, Record 70 000, O Jogo, 30 000. Por essa amostra se vê a grande mistificação que são as Contas Satélites da Cultura, num país em que é bem conhecida a iliteracia e o sector editorial e livreiro se debate com gravíssimos problemas de sobrevivência. Os outros sectores de actividade seguem o mesmo caminho e critérios. No Audiovisual e Multimédia equivalem-se os videojogos e os filmes publicitários aos filmes documentais e de ficção. Sintomaticamente as áreas de actividade com menor expressão são o Património, as Bibliotecas, Arquivos e Artes de Espectáculo, mesmo que nas Artes de Espectáculo coexistam Gil Vicente e Tony Carreira. Não pode causar algum espanto que a Publicidade apareça como uma actividade cultural nesse saco onde os valores imateriais da cultura, a sua capacidade de inovação e criação, de transmissão, difusão e debate de ideias, o seu peso simbólico e estruturante na memória colectiva de um povo são sacrificados nos altares da mercantilização para triunfo do mercador do arroz de Brecht que não sabe o que é o arroz, nunca viu o arroz, do arroz só conhece o preço.

Servem essas pantominas para justificar o desinvestimento público na Cultura por se argumentar que, entregue a si próprio e com esses malabarismos, o seu peso económico esteja em crescimento na lógica de impactos máximos a qualquer preço e sem qualquer critério, com obsolescências imediatas ditadas pelas exigências da moda e do jogo do mercado. É assim a Cultura arrastada nesse sorvedouro em que a fruição cultural é alienada e alienante, reduzindo os padrões de exigência, tanto de produtores como de consumidores, corroídos pelos efeitos nefastos de uma generalizada oferta de entretenimento de produtos mercantis que não exigem reflexão nem sintonizam sentimentos e se afundam num perverso gosto homogeneizado e acéfalo que atira para a fornalha da iliteracia global um grupo crescente de pessoas que, por via da exclusão cultural, ficam cada vez mais afastadas da possibilidade de possuírem ferramentas para exercer os seus direitos de cidadania.

É uma lógica que esquece que a Cultura não é um empilhamento cego de conhecimentos, nem um exercício elitista de distinções, nem a lapidação de um suposto gosto. Que a Cultura é um exercício de criação, de liberdade, de resistência, de transformação da vida preservando memórias passadas e construindo memórias futuras. Que a Cultura tem um papel central a desempenhar na sociedade, assegurando o direito de todos ao acesso, à criação e à fruição cultural pelo que não pode ser abandonada à bitola dos mercados nem viver das sobras, dos restos dos Orçamentos do Estado. A reinvindicação de 1% para a Cultura é uma exigência para a sua afirmação e autonomia, contra a alienação da Cultura.

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Ana Teresa Pereira, Cultura, Geral, Literatura, Livros

Um Livro de Vez em Quando

                                    

 

 

Karen

 

TERRAS INCÓGNITAS

 

Nos livros de Ana Teresa Pereira há uma geografia humana e física que tem uma cartografia que vai mudando de lugar e de personagens que, sem se repetirem, são reconhecíveis em todos os seus romances. Desde o primeiro Matar a Imagem, em 1989, Prémio Caminho Policial até ao último Karen, Prémio Oceanos Literatura 2017, são mais de vinte em que a autora, viajando entre o policial e o fantástico, coloca os personagens em ambientes fechados onde vivem iluminados por uma luz exterior e interior que dá origem a atmosferas claustrofóbicas sempre à beira de um abismo, em que o leitor é convocado a participar, porque são obras abertas “como se o leitor tivesse comprado o livro num mercado de rua, sem reparar que faltavam as últimas páginas” diz a autora.

Em Karen essas características são mais presentes. O livro começa descrevendo a cena do encontro final do filme Noites Brancas de Visconti, com base no único romance romântico de Dostoiévski, em que todas as decisões e indecisões do virtual triângulo amoroso se confrontam, antecipando e introduzindo as de uma jovem que acorda num quarto estranho, com fragmentos familiares que a orientam num labirinto de pedaços de memórias que a fazem reconhecer os que a rodeiam e a tratam como alguém que conhecem. São memórias de pequenas coisas que fazem Karen, nome pelo qual a chamam mas nunca se saberá se é o verdadeiro nome, fazer parte desse universo mesmo que não reconheça de todo as pessoas com quem partilha esse quotidiano ou se lembre do que é a sua vida.

Não se saberá qual a sua verdadeira identidade: “ eu sabia isso a seu respeito. Sabia muitas coisas a seu respeito de que ninguém me tinha falado. Não  era possível ter o mesmo rosto e o mesmo corpo e não partilhar um pouco a alma”. Ana Teresa Pereira  em Karen, mais que nos seus anteriores romances, desvela factos para camuflar outros, promove reencontros que se resolvem em encontros e desencontros. É como visitar uma casa de família que se julga conhecer desde sempre, onde se vai repetidamente, mas não tem realidade física porque se constrói num vai e vem de memórias fragmentadas que se apagam e acendem. pelo que nunca igual nem  monótona. Fá-lo com um estilo incontornável que tornam a sua obra uma das mais sólidas e coerentes na literatura portuguesa.

                                            (publicado no Guia de Eventos Setúbal Janeiro/fevereiro 2018)

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AbrilAbril, Almada Negreiros, Ana Hatherty, Artes, artes visuais, Balthus, Camille Claudel, Caravaggio, Céline, Crivelli, Erza Pound, Fillipo Lippi, Geral, Henry Miller, Jorge Pinheiro, José Escada, Lewis Carroll, Michelangelo, Otto Klemperer, Paul Claudel, Pedro Chorão, Polanski, Rimbaud, Sérgio Pombo, Verlaine, Villon, Wagner, Woody Allen

2017-Artes Visuais : Um balanço em passo(quase) de corrida

ao povo alentejano

Ao Povo Alentejano. Jorge Pinheiro, 1980

Se, no plano fechado do foco estrito das artes visuais, o ano 2017 começa bem com as semanas finais das exposições inauguradas em 2016, de Pedro Chorão, organizadas por José Luís Porfírio, pintura Corpo a Corpo, no Torreão Nascente da Cordoaria, desenho A Torto e a Direito, na Fundação Carmona e Costa e a de José Escada, Não Evoluo, Viajo na Fundação Gulbenkian, organizada por Rita Fabiana, acaba em grande esplendor em Serralves com Jorge Pinheiro: D’Après Fibonacci e as coisas lá fora, projectada por Pedro Cabrita Reis, com desenho expositivo de Eduardo Souto Moura, a primeira grande exposição de um dos mais importantes pintores portugueses, depois da retrospectiva que a Fundação Gulbenkian lhe dedicou há quinze anos.

Muita outra coisa aconteceu neste ano de 2017 que, pelas melhores e as piores razões, se deve assinalar num balanço que é sempre algo imperfeito, mesmo nas contabilidades mais criativas e não pode ficar entrincheirado nos cômputos das exposições das artes visuais.

1. BALANÇO, PIM!

OS CONCURSOS DE APOIO ÀS ARTES

Por onde começar? Pela miséria do Orçamento de Estado para a Cultura que continua a ser um resto, uma sobra no OE, apesar de um ligeiro aumento que não dá para mudar o furo do cinto. Num balanço de 2017 tem que se olhar preocupadamente para os processos de candidaturas de apoio às artes que são fundamentais para viabilizar projectos que, nos últimos anos, têm sido administrativamente adiados. Apoios estatais à criação artística que são a possibilidade de centenas ou mesmo milhares de criadores e outros trabalhadores da cultura não verem a sua actividade frustrada e da da área cultural não ser inteiramente colonizada, sem alternativa, pelos produtos mercantis, rotineiros das chamadas indústrias criativas e culturais. Olhar preocupadamente porque os ecos das notícias sobre o curso dos candidaturas são inquietantes. Labirintos de formulários complexos, com informação detalhada entre explanação de projectos, orçamentos, anexos a suportar a documentação exigida. Respostas a perguntas algo desconexas que impõem aos concorrentes que, sublinhe-se trabalham em estruturas frágeis, um esforço desmesurado que chega às centenas de páginas e se pode perder num pormenor, na falha de uma assinatura, numa rasura.

Um exercício para os concorrentes que faz lembrar a feroz ironia de João Abel Manta quando retratou as aventuras de um cidadão português a aventurar-se numa digressão por um crítica ensaística.

João Abel Manta

Perguntas que não se percebem sobre se os projectos “valorizam a fruição artística enquanto instrumento de correção de assimetrias territoriais e de desenvolvimento humano, social, económico e financeiro”, “coesão social e territorial”, “qualificação dos cidadãos”, “valorização do território”, etc. Em vez de inquirir, os júris deveriam verificar se os projectos correspondem a esses objectivos, porque a cultura os deve ter sempre presentes e as práticas artísticas para ela devem concorrer. O ministério é da Cultura não é das Artes, apesar das artes serem parte substancial e impartível da cultura. As artes não podem ser percepcionadas como uma actividade que só tem por objectivo elas próprias, como se existissem e fossem realizadas numa ilha sem qualquer relação com um continente que é, aliás, o que confere significado à ilha. Uma equação complexa e algo paradoxal em que se deve ler atentamente Manuel Gusmão; “a poética é um produzir, um estudo da poiesis, e, a poesis já introduz artes e, portanto, podemos falar da poesis de qualquer arte sem trazer nada de exterior à arte, enquanto que, quando falamos da estética, tentamos confrontar o mundo da arte com o mundo em que vivemos, o mundo onde a arte é. Esse confronto pode não nos trazer muita coisa de bom porque substitui a descrição daquilo que as artes fazem por valores de comparação entre a figura artística e a figura do mundo e isso é aquilo que significa, por um lado, aparentemente, a necessidade de ver que a arte tem sempre a ver com o mundo mas não implica, não garante, que o que o que a arte ganha do mundo seja dito pela arte tal qual, e, portanto, é preferível escutar a arte no que ela diz enquanto arte e aí confiarmos que ela tem uma palavra sobre o mundo”. Uma tese orientadora dos concursos de apoio às artes delimitando os campos sem os excluírem.

Espera-se que se aprenda com os concursos agora feitos, que foram encerrados no fim do ano, para no futuro se simplificarem e sobretudo cumprirem prazos que viabilizem os projectos em tempo útil, o que parece extremamente difícil com os procedimentos actuais e com o modo como se constituem os júris. Foram dados passos positivos sem resolver os de fundo que deveriam nortear os concursos de apoio às artes. É cada vez mais evidente a urgência de uma profunda reestruturação do Ministério da Cultura para se delimitar claramente duas esferas de acção, uma com o foco no Património Cultural e nas instituições directamente dependentes, outra nas Artes Contemporâneas. Dois pilares que, nunca estanques, ficariam com maior autonomia e mesmo especialização para gerir os imensos problemas em que essas duas áreas se debatem actualmente. Duas estruturas verticais que se enraizariam numa rede horizontal que cobriria todo o território, região a região. Isso implicaria a reforma total das actuais Direcções Regionais de Cultura, hoje uma quase irrelevância. Um modelo de estrutura que favoreceria a descentralização positiva contra o excessivo centralismo que tem sido acentuado com as reformas que se tem feito, sobretudo desde 1980, com o aumento exponencial do aparelho de Estado na Cultura, reforçando um centralismo administrativo que nem umas vagas desconcentrações ilude. Um reestruturação que deveria ter reflexos positivos na simplificação e na descentralização dos concursos de apoio às artes , para que a Cultura, como se afirma no Manifesto 1% para a Cultura, se deixe de colocar no plano de um adereço da sociedade ou de um privilégio das elites. Cultura parte inteira da saída democrática da crise que, timidamente se procura resolver, com a intervenção determinante dos trabalhadores e do povo. Cultura que deve assumir um papel central, enquanto serviço público, que assegura o direito de todos ao acesso, à criação e à fruição cultural. Cultura, pedra nuclear na formação da consciência da soberania e da identidade nacional, dialogando, de igual para igual, com toda a cultura de todos os povos do mundo. Cultura a explorar o seu imenso potencial de criação, liberdade, transformação e resistência que deve ter um apoio decisivo por parte do Estado para não deixar destruir o que existe e não destruir o que fica impedido de existir. Os últimos Orçamentos de Estado para a Cultura, melhoraram a situação em relação aos anos de austeridade sem deixarem de ser preocupantes. Um tema que merece e exige uma mais ampla reflexão.

2. BALANÇO PAM!

A MARATONA DAS EXPOSIÇÕES

Balanço das exposições realizadas? Colunas Deve e Haver? No fim uma cotação +++ ou — com a seriedade das moodys, fitchs & poors que dão AAA+++ a empresas que no dia seguinte vão à falência mas rendem milhões aos especuladores seus accionistas? Como avaliar o débito e o crédito de valores imateriais? Qual o peso do irremediável kitsch do Terço em Fátima e do Galo à beira Tejo da Vasconcelos, joaninha volumosa que vai, por isso ou por causa disso, voar em 2018 para aterrar os seus totens na arquitectura de guardanapos do Guggenheim de Bilbau, numa demonstração que a “Merde d’Artiste” já não fica encerrada em latas de conserva.

Merde d'artiste

Merde d’Artiste, Piero Manzoni, 1961

Qual o contributo para um possível défice? E em que colunas colocar as inúmeras exposições de artistas interessantes ou desinteressantes em não menos interessantes e desinteressantes espaços exposicionais? As estradas do mundo das artes estão entupidas com artistas interessantes para todos os gostos, desgostos e paladares. Por cá, muitos a fazerem pela vida, apoiados em retóricas tanto mais obscuras e inteligentes quanto mais indigentes são as obras para se decifrar o indecifrável em curvilíneos textos que referem a natureza performática e efémera que as obras possuem e obrigam a um mergulho documental muitas vezes hostil ao espectador ou as interrogações poéticas do sentido que se estabelecem com os objectos em experiências marcadas pelo espanto, o humor e a perplexidade deste momento de destruição que ameaça o mundo em que falar de cura e reparação é uma urgência porque noutra lauda se desafia questiona e enfrenta o esquecimento para descobrir e activar os sentimentos latentes, percepcionar a materialidade das coisas, interrogar-se sobre o processo de realização das obras e o corpo, omnipresenças nos quilómetros que se percorrem a olhar para as paredes e para o chão e para o tecto dos cubos brancos onde a obra de arte é filtrada por coleccionadores, instituições públicas e particulares, feiras de arte. Escreve-se, muito se escreve sobre a obra em meios de comunicação social, generalistas ou especializados, muitos deles suportados pelos seus circuitos comerciais. Uma massa flutuante de informação que acaba fixada na História(s) de Arte que desse modo a certificam. Nesses trânsitos procura-se ocultar que na arte a História e a crítica valem dinheiro. Está-se bem perto dos métodos de funcionamento do sistema financeiro que é o que realmente interessa porque pela primeira vez na história, na longa perspectiva da história, nesse nosso tempo pós-moderno, chegámos ao que antes era impossível conceber: a de uma arte sem significação social. É a danação do nosso tempo em que vivemos como o sujeito da canção Ces Gens-Là: “on ne s’en vas pas e il faut que je rentre chez moi”. E reentramos no mundo das artes a percorrer quilómetros de paredes, chão e tectos dos cubos brancos onde se plantam obras classificadas como arte nas múltiplas variantes do populismo estético e da ausência de profundidade que é o traço fundamental do pós-modernismo (Francis Jameson), na fusão obscena entre estética e realidade (Marcuse) em que se pode encontrar o padrão, de novo se recorre a Jameson, nos Sapatos com Pó de Diamante de Warhol a fulgir a sua inanidade, a sua vulgaridade que ribomba com intensidade nas redes de comunicação social e nas falácias estéticas que conseguem ocultar a significação, a beleza, o juízo político das Botas Camponesas de Van Gogh. É o drama da criação contemporânea, seja lá o que isso for, em que tudo se transforma em mercadoria.

Mas esse passeio pelas exposições no ano de 2017 começou bem com o fecho de três exposições inauguradas no ano anterior. As duas de Pedro Chorão, organizadas por José Luís Porfírio, pintura Corpo a Corpo, no Torreão Nascente da Cordoaria, desenho A Torto e a Direito, na Fundação Carmona e Costa e a de José Escada, Não Evoluo, Viajo na Fundação Gulbenkian, organizada por Rita Fabiana, para acabar em grande esplendor em Serralves com Jorge Pinheiro: D’Après Fibonacci e as coisas lá fora.

El-rei 1974

IEl-Rei V (Olhando um Quadro de Jorge Pinheiro – o da MetaLinguagem), Jorge Pinheiro, 1974

Jorge Pinheiro é um dos mais relevantes artistas da história de arte portuguesa. Nessa exposição de oitenta obras de pintura, escultura e desenho, abstratizantes ou figurativas, é determinante o estudo que o artista dedicou às sequências matemáticas de Fibonacci, estabelecidas no século XIII, que esclarecem a regra de ouro nas artes e nunca perdeu actualidade. Tem aplicações na análise de mercados financeiros, na ciência da computação, na teoria dos jogos, em muitas outras ciências. O fascínio que exerce e está bem presente em toda a extensa obra de Jorge Pinheiro é o do rigor do pensamento matemático, de como a matemática ensina a pensar e de como esse pensamento se transpõe para um sólido pensamento estético e uma não menos sólida e fascinante prática artística.

Esta exposição de Jorge Pinheiro é uma oportunidade de ver a grande arte, em plano igual à da selecção de obras do Museu do Vaticano que pôde ser vista no Museu Nacional de Arte Antiga com obras notáveis dos primitivos italianos Taddeo di Bartolo, Sano di Pietro, Fra Angelico, e de grandes mestres do Renascimento e do Barroco, Rafael, Pinturichio, Salviati, Pietro da Cortona, Barocci, em que a Virgem Maria é o centro da temática.

São exposições que marcam o ano de 2017, onde também é de assinalar a de José Almada Negreiros- Uma Maneira de Ser Moderno, comissariada por Ana Vasconcelos e Mariana Pinto dos Santos, com um trabalho a sublinhar sobre esse caso muito particular nas artes portuguesas e no contexto do modernismo, que tinha na altura o centro irradiante em Paris, de um Almada, autodidacta, artista multidiversificado, que cunha toda a sua obra com o selo de uma modernidade contraditória, híbrida, complexa.

Almada, com uma energia criativa invulgar presente em toda a sua obra de poeta, ficcionista, conferencista, ensaísta, desenhador, pintor, artista gráfico, muralista, ceramista, vitralista, cenógrafo, coreógrafo, bailarino, geómetra, onde o centro é ele em estado de performance narcisista.

No percorrer das outras exposições, com as questões já assinaladas, são  ana hathertyde referir a de Ana Hatherty e o Barroco, no Museu Gulbenkian, as de Sérgio Pombo, no Teatro da Politécnica e no Centro Cultural de Cascais e as várias de Valter Vinagre, em muitos lugares do país que o colocam num lugar central e de relevo na fotografia.

A finalizar este capítulo uma nota para o fecho da saga Miró quando faltam uns pormenores burocráticos e saber quanto se vai pagar à Cristhies, ficando, como é hábito, impunes os que armaram o imbróglio atropelando o quadro legal vigente. Há um efeito público no desfecho que não é desprezível, gerador de uma animação que de algum modo aplaina um olhar crítico. Curioso é confrontar esta apresentação pública com as muitas discussões a favor e contra ficar ou não ficar propriedade do Estado, sem que as obras fossem conhecidas ou só fossem conhecidas por um restritíssimo grupo de pessoas, na maioria sem especial conhecimento das artes. As 85 obras tinham sido compradas a granel pelo BPN. Eram um activo do banco sem qualquer preocupação que orientasse a sua selecção,o que está bem presente nesta exposição de Miró com obras de várias técnicas, temporalmente muito distantes, em que as conexões que se procurem estão dispersas. Há uma evidente irregularidade e errância entre elas, o que torna mais evidente o modo como o pintor com as suas formas abstractas se apropria dos automatismos introduzidos pelos surrealistas para os recuperar nas formas abstractas, como deriva das propostas sobre cor iniciadas com Cézanne e Matisse, o que é particularmente interessante e acaba por conferir outra relevância a esse acervo que não é particularmente notável no seu todo pelo que em causa estará a sua indivisibilidade, como publicitariamente se proclamou.

3. BALANÇO PUM!!!

O KLU KLUX KLAN POLITICAMENTE CORRECTO

Thérteèse Dreaming, Balthus

Thérèse Dreaming, Balthus, 1938

No mês de Dezembro, nova-iorquinos fizeram uma petição em que se exigia ao Metropolitan Museum of Art que retirasse das suas paredes o quadro de Balthus, Thérèse Dreaming.

Motivo de tal pretensão: as muitas acusações de assédio sexual que desabaram sobre várias personalidades norte-americanas na sequência da Marcha das Mulheres em Washington que apontavam, com razão, para Trump e as suas fanfarronadas em que envolvia o sexo feminino. É de passar por cima, mesmo dando-lhes razão mas sem esquecer que muitas dessas organizações de mulheres eram financiadas por um personagem não menos torpe, Georges Soros. O assédio e a violência sexual, a desigualdade, a discriminação, a misoginia em relação às mulheres deve ser veementemente condenada. Tem uma história longa que começa se quisermos encontrar uma data quando Adão e Eva foram expulsos do paraíso, continuou imparável até aos nossos dias, apesar dos muitas conquistas alcançadas pelas lutas das mulheres e dos homens, uma luta que se inscreve na luta mais geral contra uma sociedade dividida em classes e na exploração do homem pelo homem e que não se resolve nessas lutas ditas fracturantes que são, sublinhe-se, importantes e devem ser empreendidas sem desfalecimentos. Dando-lhes razão, há que lhes retirar razão quando denunciam o que consideram ser o voyeurismo romanticizado pelas artes, sobretudo intermediado por crianças ou adolescentes, que é o que denunciam no quadro de Balthus a que, se fizesse vencimento, se seguiria o rasuramento de todas as ninfetas, para lá da sua idade, descritas, pintadas, fotografadas, filmadas, queimando na fúria dessas fogueiras inquisitoriais romances, poemas, pinturas, filmes, músicas que fariam um vazio devastador na história das artes. Quando, em França, esses novos guardiões da moral pública fazem uma manifestação à porta da Cinemateca com palavras de ordem e cartazes em que gritam “Se violar é uma arte, dêem a Polanski, todos os Césares”, estão a legitimar, se calhar sem disso se aperceberem, a destruição dos Budas no Afeganistão pelos dijahistas. Polanski deve ser condenado por ter violado uma adolescente de treze anos? Deve ser condenado sem remissão, mas essa condenação não pode nem deve atirar para o index os seus filmes. Por esse caminho vamos rasgar os poemas de Dante a Beatriz? Ou Alice no País das Maravilhas porque Lewis Carroll do que gostava mesmo era de desenhar e fotografar lolitas nuas e seminuas? Ou os filmes de Woody Allen com referências explícitas às suas histórias reais com Soon Yi uma adolescente, sua enteada via Mia Farrow? Vamos submeter a juízos morais e criminais as obras de poetas, pintores, romancistas, cineastas, músicos, ostracizando a sua arte porque infringem códigos morais, como Oscar Wilde condenado a dois anos de prisão, com trabalhos forçados, por cometer actos imorais com diversos rapazes? Ou Crivelli, pintor de magníficas virgens julgado e condenado por ter sequestrado e repetidamente abusado de uma mulher indefesa? Caravaggio, inúmeras vezes condenado como homem perigoso e violento. Villon por ser ladrão, boémio e bebâdo, Rimbaud e Verlaine pelos seus escândalos amorosos, Céline anti-semita e misógino, colaborador destacado do governo de Vichy, relator de listas de resistentes franceses, judeus e não judeus, que enviava para os campos de concentração nazi. Schubert por escrever magníficos lieds que trocava por engates de momento. Os filmes do realizador francês Brisseau condenado a prisão por assédio sexual? Deixamos de ouvir Mahler, dirigido por Otto Klemperer que é de uma clareza arquitectural não mais alcançada porque tinha comportamentos sexuais incontrolados que alternava com mergulhos ultra puritanos? Os exemplos multiplicam-se e esvaziariam as artes tornando-as num deserto a engrossar um index interminável, dependente de códigos, morais, históricos e sociais com a agravante de serem variáveis com as épocas. Essa gente não percebe nem nunca perceberá porque devassos como Fillippo Lippi ou Carlo Gesualdo são capazes de pintar figuras bíblicas com a maior aura piedosa e virginal ou escrever Tenebrae ou Sabbato Sancto com um sentimento religioso e metafísico que muitos bons e politicamente correctos cristãos nunca alcançaram.

São um impulso que tem erupções recorrentes ao longo da história. Recorde-se o Concílio de Trento em que se chegou a propor acabar com a música sacra, só o bom senso de Palestrina evitou semelhante brutalismo, ou recobrir os frescos de Michelangelo na Capela Sistina de um azul celeste contínuo que faria as delícias de Yves Klein, por causa da extrema sensualidade dos episódios retratados

De lembrar que no auge da Guerra Fria Cultural, em que a CIA empenhou biliões de dólares, no primeiro congresso de curadores norte-americanos, esse baixo clero contemporâneo que comprava arte para as grandes corporações financeiras e do complexo industrial-militar, proclamou urbi et orbi que só iriam adquirir obras de arte que não tivessem qualquer relação com política, religião, sexo. Faziam-no em nome da liberdade artística, da arte pela arte, atirando para o caixote de lixo séculos de inquietações estéticas e artísticas. Faziam-no sabendo do poder de compra que estava à sua disposição e que comandaria a liberdade artística entregue farisaica e falsamente aos ditames do mercado sustentado por retóricas estéticas em que ninguém acredita. O seu desejo final era impor um campo de concentração terrestre onde se cercariam e se possível se atirariam para as câmaras de gás as lutas de classes para triunfo do fim da história enfeitada com uma arte elegantemente congelada limpa de sexo, política e religião, para alegria do olhar cego e estúpido dos viajantes por essas falácias, amplamente difundidas por uma comunicação social mercenária. Olhar cego e estúpido que não consegue ver as artes incómodas de todos os tempos produzidas por génios como Picasso, Erza Pound, Henry Miller, Wagner e tantos outros a que colariam os emblemas das “monstruosidades” das suas vidas numa fúria abominável de purificação, para os ocultar soterrando-os debaixo das virtudes dos piedosos e insuportáveis versos de Claudel que sequestrou até ao fim da vida a irmã, a escultora Camille Claudel, ela sim uma inspirada artista, num hospital psiquiátrico por condenar a sua livre vida sexual.

O que estamos a assistir é uma sequência, por assim dizer natural, desse paradigma da lógica cultural do pós-modernismo na lógica do capitalismo final que faz das artes mercadorias submetidas aos valores do mercado, situando-as num nicho do mercado dos bens de luxo em que a arte, as artes se integram com a frenética urgência de produzir novas linhas de produtos inconsequentes, subtraídos de qualquer inovação ou experimentação estética que não sejam pasto para a moda e as estruturas do star-system. Um mercado concordante com a imagem política da época que estamos a viver e nos querem impor bem retratada no filme de João César Monteiro, A Comédia de Deus, na cena em que é extraído do ventre do protagonista, entrapado numa cama de hospital, um enorme falo que vai ser pousado diante de uma fotografia de Georges W. Bush, o führer do império que se considera excepcional e quer policiar o mundo. Imagem política premonitória que o realizador completa em Le Bassin de John Wayne com a frase arquétipica: “hoje os novos fascistas, apresentam-se como democratas” que é o que são essas virtuosas congregações, novas polícias de costumes que se propõem acrisolar o mundo, castrando-o para triunfo do fim da história, do fim da política, do fim da ideologia.

Estamos a viver um tempo de niilismo democrático e a arte, as artes devem ser uma trincheira contra o ghetto em que as querem encurralar tornando-a uma inutilidade num território neutro de um salão de festas divertido, inócuo, moralista ainda que controladamente extravagante, noticiado abundantemente na comunicação social dita de referência e nas revistas da moda dos vários canais em que se consomem os dias.

A arte, as artes são a luta constante que nos faz interrogar a vida, a sociedade. A arte, as artes são parte activa da luta política diária em participam sem se deixarem colonizar pela política e sem submeterem ao simplismo de censuras que atiram as obras de arte para o deserto por via da vida pessoal dos artistas que não é nem tem que ser um modelo de virtudes. Contra a actual ofensiva moralista reclama-se a clarividência de não se estabelecer uma relação directa e imediata entre a vida como foi vivida pelos artistas e as suas obras, no que pode mesmo ser uma contradição insanável.

(publicado em https://www.abrilabril.pt/ )

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caridade, concertação social, Gabrielli, Geral, Haendel, Haydn, Leonard Bernstein, música, natal, Saint-Saëns, Salário Minimo

Natal Sugestões Musicais e de uma prenda no sapato de todos os portugueses

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Presépio de Rosa Ramalho

Com o espírito de natal a sobrevoar o calendário e o quase ensurdecedor badalar dos sinos que anunciam um pequeno e frágil interregno num universo em que guerras directas e indirectas asseguram a continuidade de um sistema da exploração dos homens e dos recursos materiais e imateriais para manter a sobrevivência de um sistema desumanizado em que essas riquezas se vão progressivamente acumulando num grupo cada vez mais restrito, que sugestões culturais fazer que interferiram mínima mas positivamente no ruído desse frenético vai e vem natalício que em muitas partes do mundo é frágil ou inaudível?

Por cá, haverá sempre espaço para sair das ruas de iluminações acrescentadas que assinalam a época, ir ouvir música que naturalmente também tem essa marca. Haverá por todo o país, em todas as cidades, vilas e aldeias um momento musical relacionado com o natal. Enumerá-los é uma quase impossibilidade. Registem-se alguns, centrados em Lisboa e Porto para contornar essa inexequibilidade.

O Messias de Haendel, uma narrativa dramática em torno do nascimento, vida, morte e ressurreição de Cristo é uma obra prima e um dos temas recorrentes da época natalícia e pascal. É um dos mais populares oratórios escritos por Haendel, ainda que ultrapasse as fronteiras típicas de uma definição estrita de “oratório”. Tem uma forte componente teatral que provocou grande controvérsia na sua primeira apresentação em Dublin e nas sequentes em Londres. A Aleluia  de Messias  https://youtu.be/C3TUWU_yg4s é um dos trechos musicais com maior reconhecimento universal.  

Pode ouvir o Messias de Haendel no dia 16 no Fórum Luísa Todi em Setúbal e no dia 17 no Grande Auditório do CCB e a 18 no Coliseu do Porto, pela orquestra Metropolitana de Lisboa dirigida por Leonardo Garcia Alárcon, o Coro Sinfónico Lisboa Cantat, maestro do coro Jorge Carvalho Alves, e os solistas Joana Seara-soprano, Carolina Figueiredo-meio soprano, Marco Alves dos Santos-tenor, André Henriques-barítono.

Em Lisboa, no dia 15 de Dezembro às 21h30 na Igreja da Graça, Lisboa O Ensemble Bomtempo (alunos da Escola Artística de Música do Conservatório Nacional) e a Orquestra de Câmara do Conservatório, músicos jovens, muito prometedores e com anunciado futuro que dirigidos por Nathanael Júnior, interpretam a Oratória de Natal de Saint-Saens. https://youtu.be/j6FB6VTDR-w Obra da juventude do compositor, que foi um menino prodígio, dividida em 10 andamentos para cinco solistas, coro, orquestra de cordas, órgão e harpa. O concerto encerra com o Tantum Ergo também de Saint-Saëns. Um aviso a entrada é livre, está sujeita à lotação disponível.

Na Fundação Gulbenkian, também a 15 de Dezembro a Oratória de Natal de Johann Sebastian Bach com o Coro e a Orquestra Gulbenkian dirigidos por Michel Corboz e os solistas Maria Cristina Kiehr-soprano, Marianne Beate Kielland-meio soprano, Tilman Lichdi-Tenor, Peter Harvey- Barítono. A Oratória de Natal https://youtu.be/h6qtBGqjyNU de J. S. Bach tem na sua base muita música escrita pelo compositor em anteriores cantatas que recupera, adapta e transforma, uma prática habitual em Bach que a faz com a sua enorme genialidade.

Ainda na Fundação Gulbenkian, nos dias 20, 21 e 22, Músicas de Natais de Todo o Mundo, na voz de Sophia Escobar, acompanhada pelo Coro e Orquestra da Fundação Gulbenkian dirigido por Jorge Matta. Canções escritas por Leonard Bernstein https://youtu.be/lsOowKrGJ8I , Andrew Lloyd Webber, Frederick Loewe, Alan Silvestri, John Rutter, Howard Blake, Robert Shaw e Robert Russell Bennett.

A orquestra e o coro da Fundação Gulbenkian com a direcção de Jorge Matta estarão também na Igreja de São Roque, no dia 31 de Dezembro com o Te Deum Laudemus de Bráz Francisco de Lima, numa primeira audição moderna desse compositor que foi enviado por D. José para estudar em Itália. Tem obra pouco conhecida e com arquivo escasso, só se conhecem dez partituras. Solistas Carla Caramujo-soprano, Carolina Figueiredo- meio soprano e Manuel Rebelo-barítono.

No Porto, na Casa da Música o natal começa a dia 14 com Christmas Song Book, uma selecção das músicas tradicionais mais ouvidas nesta quadra. Do Silent Night a Santa Claus Is Coming to Town, de White Christmas a Blue Christmas de Let It Snow a Jingle Bells, https://youtu.be/7spkFpFdIK0 não falta (quase) nada do que foi consagrado pela tradição anglo-saxónica, muitas recuperadas pelo jazz.

A 16, a Banda Sinfónica Portuguesa, dirigida por Francisco Ferreira e o Coro Infantil da Academia de Música Costa Cabral, classe de Patrícia Silva, mergulham no reportório do espírito natalício com temas inspirados na música latino-americana, no folk inglês, no ballet clássico. Um concerto com composições de James Barnes, Jorge Salgueiro, Philip Sparkes, Leroy Anderson, Alfred Reed e Bert Appermon.

A 23, a Orquestra Barroca da Casa da Música e o Coro da Casa da Música com a direcção Laurence Cummings dão um concerto a que não falta a 1º parte do Messias de Haendel e se farão ouvir Heinrich Biber Duas Fanfarras, Michael Praetorius Wie schön leuchtet der Morgenster, Uns ist ein Kindlein heut gebo e In Dulci jubilo, https://youtu.be/pHRFyYzOFNQ Andrea Gabrieili O Magnum Mysterium e o The King Shall Rejoice de Haendel.

Em Figueiró dos Vinhos a Orquestra Clássica do Centro, em parceria com a Associação das Vítimas de Pedrógão Grande, assinala o Dia de Natal com um concerto com entrada livre a realizar-se na Igreja Matriz de Figueiró dos Vinhos, no dia 25 pelas 17h00. A Orquestra Clássica do Centro será regida pelo Maestro Cesário Costa com a participação da soprano Marina Pacheco e do tenor Sérgio Martins.

Das obras que serão interpretadas destaque-se Op. 6 nº 8 de Corelli; Mit Würd und Hoheit https://youtu.be/9GMegjPz_g0 da A Criação, de J. Haydn; Laudate Dominum, de W. A. Mozart; Panis Angelicus, de Cesar Franck; Avé Maria, de Caccini.

Muitos outros e bons concertos, com o Natal por tema, irão certamente acontecer ao pé da sua porta. Faça um intervalo nos seus preparativos natalícios para os ouvir.

Com estas, muito parcelares sugestões culturais, até para o ano com um desejo que é uma proposta bem enquadrada no espírito da época e que seria uma verdadeira e de bom quilate prenda de Natal para todos os portugueses e para Portugal. Quando os empreendedores lusos andam todos excitados e sobressaltados com a proposta dos 600 euros para salário mínimo, acabou fixado em 580 euros, porque não discutir o salário máximo?(*) Uma ideia de Roosevelt que, em 1933, propôs que quem recebesse de rendimento mais de 25 mil dólares/ano, uns 400 mil dólares / 339 600 euros actualmente, seria taxado a 100%. Acabou por ser fixada uma taxa de 97%, o que reduziu desigualdades e deu ao Estado capacidade para investir directamente e apoiar os investimentos privados produtivos, para acabar com a parasitagem que voltou em força com as políticas económicas neoliberais, postas sobretudo em prática pelos famigerados Reagan-Thatcher. Uma proposta que bem se enquadra no espírito natalício, embora se calcule que os 0,002% (provavelmente ainda menos) de portugueses com rendimento superior aos € 30 000/mês (número redondo, pouco mais que 50 vezes o salário mínimo estabelecido para 2018), de voz grossa e recorrendo aos seus vassalos e mercenários, tocariam freneticamente os sinos a rebate anunciando que o propalado ecumenismo do Natal iria ser queimado em praça pública. O Natal é o veículo para essa gente expurgar a alma com a caridadezinha! https://youtu.be/ZHieMBabirY

(*) O salário máximo não o é em sentido estrito. É assim chamado para facilitar a comparação com o salário minimo,. O mais correcto seria chamar-lhe remuneração máxima porque é a soma de todos os rendimentos, como julgo estar claramente expresso no texto. Um valor anual que foi dividido por doze meses para se fazer uma comparação entre salário minimo/salário máximo para tornar mais visível o ponto mais baixo e o mais alto entre o menor e o maior rendimento anual.

(publicado em AbrilAbril, excepto a nota (*)

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Artes, Cultura, Geral, museus, Panteão, Património Monumental, Web Summitt

A Degustação das Artes e da Cultura

O falazar que o jantar no Panteão originou tapa a questão central de a cultura ter deixado de ser um bem para se converter num produto, numa mercadoria a que se exige rentabilidade.

Selfie de freiras

 

O jantar dos Founders Summit, os principais fundadores de empresas que estiveram na Web Summit e outros seus convidados de topo, no Panteão Nacional levantou um vendaval de indignações que tem muito que se lhe diga. Ao ler as listagens das dez melhores ideias, as 67 frases mais marcantes e o mais que se plantou na embasbacada comunicação social atropelada por tanta tecnologia, mais as ilustrativas entrevistas aos empreendedores triunfantes, as premonições 360 de gente como Al Gore, Margrathe Vestager, Bruno de Carvalho ou François Hollande, o que mais espanta é, naquela feira de app’s tão imaginativas, não aparecer uma startup a apresentar uma app para facilitar a interacção entre equipamentos culturais  o mundo empresarial que se lustra com eventos em ambientes históricos e  os famosos ávidos por ascenderem aos patamares da cultura  a que seriam elevados por uma rave na Torre de Belém decorada pela Joana Vasconcelos. Uma app que facilitasse e desse dimensão internacional a jantares e festas no Panteão, nos Jerónimos, no Convento de Cristo, etc., transportados pelos carros voadores da Uber. A starup estava condenada ao sucesso, acabavam-se as discussões. A ementa Barreto Xavier para uso do património cultural valorizava-se, os preços de saldo aí inscritos subiriam em flecha dado o aumento da procura. Na tabela de preços incluir-se-ia um anexo com as custas das selfies pessoais e grupais, recortadas em fundos monumentais. Paddy Grosgave snifaria a variante digitalizada dessa cocaína cultural, um must que poderia utilizar para valorizar o negócio das praças de jorna da Web Summit.

O falazar que o jantar no Panteão originou tapa a questão central de a cultura ter deixado de ser um bem para se converter num produto, numa mercadoria a que se exige rentabilidade. Progressivamente tem-se desmantelado o modelo de investimento público no património cultural, museus e monumentos. É a disneyficação da cultura que segue as estratégias culturais em prática nos EUA em que a cultura foi e é desde sempre um meio usado para lavar atentados ambientais, crimes fiscais, especulações financeiras, fugas para offshores, duplicidades éticas e, claro, a exploração do trabalho com o adicional de se obterem chorudos benefícios fiscais,

Os exemplos na Europa multiplicam-se apesar e mesmo quando há umas décadas se conseguiu contrariar a intenção de alguns países da CEE de quererem submeter as actividades culturais e artísticas aos ditames da Organização Mundial do Comércio fazendo equivaler livros, concertos ou esculturas a batatas, tupperwares, atacadores para sapatos com todas as consequências a montante e a jusante. Em síntese, queriam atirar  a cultura e a criação cultural para a fogueira unidimensional do mercado. O que não entrou pela porta principal entra pela janela. Não há almoços grátis, como propugnou e popularizou o expoente do neoliberalismo Milton Friedman. Com o desinvestimento público na cultura e no património cultural as estratégias de sobrevivência multiplicaram-se e as questões éticas colocadas pela progressiva influência dos patrocinadores nas decisões das direcções dos museus e monumentos são uma realidade que têm sido objecto de acesas discussões.

Hoje vulgarizaram-se as lojas e restaurantes dos museus onde há uma oferta gastronómica variada, a venda de objectos mais ou menos chiques, é preciso alcançar todas as bolsas, adquirir os catálogos dos seus conteúdos sendo-se poupado à chatice de o visitar ou sequer saber o que por lá é exibido. Paralelamente promovem-se visitas desenfreadas em que é permitido às hordas de transeuntes tirarem fotografias colocando em perigo objectos expostos, os casos de danos graves sucedem-se em todo o mundo. Quase se incentiva a praga da selfies em que se abraçam estátuas milenárias, se ocultam pinturas colocando-as em risco. Deixaram de ser objectos de contemplação e usufruto cultural para se equivalerem a manequins numa montra.

Os führers da moda, da fashion life tomam de assalto o património cultural associando-os às suas marcas. Um exemplo paradigmático é Itália, com um legado de grande dimensão em risco a exigir intervenções urgentes e os governos, o de Berlusconi na linha da frente, a cortarem drasticamente os orçamentos da cultura. Solução? Vendem-se direitos de patrocínio na restauração de monumentos como a Fonte Trevi à Fendi, o Coliseu de Roma à Tod’s, Pompeia à Prada, a Torre de Pisa à Gucci, associando os logotipos das marcas aos monumentos que apadrinham. Em França também está em curso, desde 1984, um vasto programa de privatização de património edificado, iniciado por Jack Lang esse feérico ministro da cultura que proclamava “ser necessária imaginação para os reinventar”. Na Europa esses processos cavalgam o tempo. Por cá, mais modestamente, o programa Revive recorre ao empreendedorismo turístico com promessas de restaurar o património edificado e lhe dar acesso público, desde que, evidentemente, não incomode os utentes que pagam para dormir e vaguear por onde dormiu e vagueou a extinta nobreza pelo que se deve preservar o sossego desses esplêndidos momentos de ócio, pagos e bem pagos aos empreendedores que em poucos anos amortizam os investimentos feitos à conta do valor histórico desses lugares, Vamos ver como correrá essa coexistência.

O grande problema da imaginação para reinventar os monumentos é se as operações imobiliárias, que necessariamente lhes estão associadas, garantem e como garantem as suas memórias originais, ou se essas memórias serão e como serão sacrificadas à sua reabilitação. Nos processos em curso por essa Europa fora, nada está garantido e muito do que já foi feito só provoca as máximas apreensões.

Tudo isto se enquadra no estado actual da cultura e das artes.  Está em linha com as exibições de arte contemporânea em que as marcas de artigos da moda e luxo se associam às vernissages sublinhado o seu carácter mundano com desfiles de moda ou assinalando-as como fez a Hermès na inauguração de Buren em Paris com lenços de seda desenhados pelo artista, a Louis Vuitton com sacos monografados de Murakami na abertura de uma sua exposição em Los Angeles. Exemplos não faltam nessa lógica ostentatória em que se associa a moda à arte contemporânea, em que o mundo dos famosos desfila destilando fragâncias, joias e os últimos modelos de vestuário. São menos as notícias sobre as exposições e os sucessos culturais que as que registam as presenças do star-system, da política aos grandes empresários, das vedetas televisivas às do desporto, do cinema, da música e da arquitectura, dos artistas visuais ao baixo clero da crítica e curadoria que os promove e os chefs que prepararam as degustações daquele evento ou esperam ser convidados para o próximo.

É o estado geral das artes e da cultura contemporâneas em que a dominante é a mercantilização todo o terreno vendida em embrulhos espectaculares e sensacionalistas. No horizonte já nem sequer se vislumbra alguma Margarida à beira desta estrada que Fausto corre em maratona destravada, vendida a alma ao Diabo para ter visibilidade e arrebanhar mais-valias.

(publicado em https://www.abrilabril.pt )

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Artes, Cultura, Fernanda Botelho, Geral, Guia Eventos Setúbal, Literatura, Livros

O Esplendor da Escrita

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Fernanda Botelho, uma das escritoras mais originais da língua portuguesa, tem vivido no limbo em que navegam muitos outros vitimados por políticas editoriais não alheias a uma crise universal, não só económica mas também de ideias, mais agravada num país periférico como o nosso com frágil rede de leitura e parco consumo do livro. Causa alguma estranheza a quantidade de títulos que se publicam, com tiragens reduzidas se comparadas com algumas décadas anteriores, bem como a anorexia de muita dessa livralhada que enche as prateleiras das livrarias. Há sempre surpresas, excelentes surpresas, tanto de novos autores como de recuperação de outros que andavam esquecidos. É o caso de Esta Noite Sonhei com Brueghel.

Um romance em que a protagonista, Luiza recorre à autobiografia da autora para fazer o seu retrato pessoal inscrevendo-o numa fotografia que é o do país nesse tempo. Um labirinto angustiante, à beira de um abismo desesperado em que os quadros de Brueghel, com que Luiza sonhou uma noite, funcionam enquanto fios condutores.

“Comecei-o há doze anos em Bruxelas”, diz ao amante antes de ele a deixar em casa, numa rua de Lisboa, anunciando-lhe que talvez mostre ao marido esse manuscrito onde todas as personagens dessa vida que é a dela têm o nome real. “Não são personagens, conheço-as. Mas são personagens, sim senhor! São e não são. Mas, no manuscrito, parecem personagens. Percebes?”

Esta Noite Sonhei com Brueguel é uma fascinante teia de escrita, de escrita sobre a escrita, em que Luiza/Fernanda se procura a si-própria com a ferocidade de um prazer salutarmente irónico que dispara sem contemplações sobre si, sobre os parceiros de viagem que se encontram e desencontram nos universos que percorrem e sobre nós, os seus leitores. Uma sofisticada e complexa rede  num exercício de autocrítica quase despojado de emoções.

Um romance fascinante em que o evidente prazer da escrita se transmite sem fissuras para o prazer da leitura.  Esta Noite Sonhei com Brueghel, o sétimo romance de Fernanda Botelho, é o primeiro da anunciada reedição da sua obra completa, resgatando-a a imperdoável esquecimento e ao desconhecimento dos novos leitores para quem será uma luminosa revelação. Para todos, uma leitura sem desbaratos.

 

Esta Noite Sonhei com Brueghel

Fernanda Botelho

Abysmo

Prefácio Paula Mourão

Design e Logotipo convidado Maria João Carvalho

Revisão Maria José Sousa

Edição Julho 2017

268 páginas

(publicado no Guia Eventos Setúbal;Novembro/Dezembro 2017)

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