A Voz do Dono Torna Obsoleto o Lápis Azul

lapis azul

his master voice

A cada esquina da comunicação social está reservada uma surpresa. A última foi ler a carta de princípios “Pela Liberdade de informação”, subscrita pelos directores editoriais dos principais jornais, revistas, rádios televisões de informação geral, provocada pela alteração da lei sobre a cobertura jornalística das campanhas eleitorais.

A lei é um completo disparate. Assim que foi conhecida, a sua morte foi anunciada. A indignação que provocou nos meios jornalísticos, agora consubstanciada nessa carta, figura uma defesa implacável da liberdade de imprensa. Na realidade deveria provocar uma imensa indignação pela hipocrisia, o cinismo dos senhores directores entrincheirados em tiradas grandiloquentes “o direito à informação deve ser salvaguardado, com respeitados princípios da liberdade, independência e imparcialidade dos órgãos de comunicação social e dos jornalistas face a todas as forças políticas e a todas as candidaturas” ou “ a cobertura jornalística da campanha eleitoral deve ter a ponderação entre o principio da não discriminação das candidaturas e a autonomia e liberdade editorial dos órgãos de comunicação social”.

Perigosamente já pouco revolta essa verborreia, eivada de tamanha doblez e desplante, depois de anos e anos de convivência com uma comunicação social estipendiada aos interesses económicos dominantes, que usam o direito à informação, os princípios da liberdade, independência e imparcialidade, os princípios da não discriminação enquadrados pela autonomia liberdade editorial, como balizas para impor um ambiente geral de propaganda, de terror ideológico totalitário que substituiu os vísiveis actos censórios, a violência autoritária da censura nop fascismo, por uma quase invísivel mas omnipresente fina e sofisticada rede que filtra toda a informação, instalando, tanto a nível nacional como mundial, uma colossal máquina de guerra, poderosssíma e eficaz, que controla e manipula a informação. Diariamente, o mundo é bombardeado por mentiras propaladas por essa gente que se apresenta, como se pode ler na referida carta, como os cruzados na defesa desse bem universal que é a informação.

Na verdade são a tropa de choque, os mercenários do poder da classe dominante!

Em Portugal, depois do 25 de Abril, a recuperação capitalista sempre andou de mãos dadas com os media.A normalidade era/é um namoro intenso mas aparentando algum pudor, nas situações mais limite rebolam-se em orgias que fariam Sade ficar roxo de inveja. O estado actual da comunicação social, afinada pelo mesmo diapasão, procura dar uma imagem de diversidade bem retratada na variedade dos directores editoriais que subscreveram a carta. Assustadoramente essa diversidade, essa variedade só existe de facto na diferença entre as gravatas, no resto estão/são completamente formatados. Essa situação começou a desenhar-se logo a seguir ao 25 de Abril, num tempo em que o pluralismo era dominante. Agrava-se a partir do 25 de Novembro mas é na década de 80 que se aprofunda com um movimento de concentração da propriedade da imprensa, rádio, televisão e informação on-line. Movimento que ainda não acabou e que é paralelo ao da recuperação capitalista.

As diferenças entre orgãos de comunicação mais sérios ou mais populares são variações de estilo, variantes do mesmo estado das coisas. Biombos que, quando retirados, mostram uma obscena uniformidade. Uniformidade que se estende das peças jornalísticas às de opinião, com os comentadores escolhidos a dedo. Aqui, há que fazer uma nota às condições de trabalho dos jornalistas que se degradaram e continuam a degradar brutalmente. Precariedade, despedimentos, utilização de trabalho dos estagiários gratuito ou quase, a porta da rua sempre aberta, imposição de critérios editoriais condicionados aos interesses dos patrões, os partidos dos patrões, do absolutismo do pensamento dominante, retiraram e retiram, progressivamente, a autonomia jornalística. A autonomia e liberdade editorial, tão altissonantemente proclamada na carta, é a mesma que ao longo dos anos foi utilizada e continua a ser utilizada para discriminar ostensivamente forças políticas e sociais. Basta fazer o computo, sem sequer ser preciso descer ao pormenor do conteúdo ou do relevo que tiveram, do número e dimensão das notícias, entre os diversos partidos políticos e forças sindicais nos últimos 40 anos. Um critério simples, representação parlamentar /noticias ou implantação social/notícias, faria a radiografia devastadora da ausência de imparcialidade e independência dos meios de comunicação social. A seriedade ficaria reduzida a uma farsa patética compulsando outras notícias. Por exemplo, o modo como a banca, BPN, BPP e BES, seus administradores e accionistas principais eram tratados pelos media até rebentar os escândalos que obrigaram mudar de rumo, mesmo assim…muita benevolência escorre. Se nos aventurarmos pelos noticiários dos acontecimentos internacionais é arrepiante assistir ao modo como participam nas manobras de desestabilização e depois na consolidação dessa desestabilização, em consonância com os grandes interesses imperialistas. São uns dos pilares dessa política agressiva. Jugoslávia, Iraque, Síria, Primaveras Árabes, Ucrânia, Brasil, México, Hong-Kong, para referir os mais recentes, são um espectáculo abominável de mentiras, meias-verdades, omissões, distorções, manipulações, todo um arsenal de construção de uma ideia, a mais das vezes nem sequer tem nada a ver com a realidade. Fabricam realidades para, sem olhar a meios, atingir os objectivos do império dominado pelo grande capital. Imagine-se um cenário com um acontecimento recente: como seriam as notícias de Baltimore, se Baltimore em vez de se localizar nos Estados Unidos, fosse na Rússia, na China, em Cuba, na Venezuela ou mesmo no Brasil ou na Argentina. Como Baltimore seria diferente se estivesse localizado na Ucrânia/Kiev ou na Ucrânia/Donestk.

Numa nota rápida simplificações e generalizações são inevitáveis e a simplificação mais manifesta é a de referir os jornalistas como uma abstracção. Mas as inervitáveis simplificações e generalizações não iludem nem podem ser usadas para desvalorizar a leitura deste quadro bem veraz e negro de uma comunicação social que é essencialmente uma máquina de propaganda e de desinformação. De uma comunicação social que é um dos três poderes, os outros são o poder económico-financeiro e o poder político, que ocupa lugar central no controle e influencia das opiniões e dos comportamentos. De uma comunicação social onde a concentração dos meios de propriedade é espelho da concentração dos grupos económico-financeiros. Comunicação social ao serviço de uma ideologia em que os partidos políticos do chamado arco da governação se indeferenciam, só se distinguindo na competição eleitoral. Comunicação social que é o suporte da imagem desses partidos, que são de facto instrumentos ao serviço de determinados interesses económicos que representam no aparelho de Estado. Interesses económicos que dominam e são os proprietários dos meios de comunicação social. Um caldo de cultura corrupto, degradante, onde se alimenta o parasitismo ideológico dominante.

Comunicação social que é um aparelho de propaganda que faria inveja a Goebbels, pela sofisticação, pela eficácia, por ser muito mais difícil de descodificar o que a torna muitíssimo mais perversa. Travestindo, mascarando a permanente propaganda que emite, nos mais diversos e complexos registos, com a finalidade última de procurar transformar os seus consumidores, mesmo os mais lúcidos, em replicadores das mensagens emitidas como se fossem elaboradas com liberdade, independência, imparcialidade, sempre com autonomia e sem discriminações.

A comédia, o embuste é diário, corre hora a hora e os seus protagonistas são gente da mais desencabulada, capaz de todas as traficâncias, tripudiando em nome da liberdade a liberdade que lhes é conferida, para que da mesa do poder continuem a cair as migalhas que lhes pagam, generosamente, os serviços. As , raíssimas, excepções confirmam a omnipresença da regra.

Memórias de Anos Pós- 25 de Abril / Os 25 Anos do 25 de Abril em Grândola, a Vila Morena

É norma que algumas datas comemorativas de um mesmo acontecimento tenham um impacto maior que outras. Não é a mesma coisa comemorar os doze anos ou os vinte sete anos do 25 de Abril do que comemorar um quarto de século da Revolução dos Cravos ou, daqui a uns anos assinalar os seus cinquenta anos.

Em 1999, o 25 de Abril fazia 25 anos. Data que, como exige a tradição, tinha que ser comemorada com mais intensidade, sobretudo em Grândola, a Vila Morena. O vereador da Cultura, Pedro Pedreira, prematuramente desaparecido, Isabel Revez, directora do Departamento em que se inscrevia a Divisão de Cultura e eu, na altura estacionado em Grândola a assessorar a Câmara em várias áreas , nomeadamente a da cultura. constituímos o núcleo central da organização das Comemorações. Foi um trabalho intenso, com grande espírito de equipa, que se realizou com a participação activa e empenhada de todos os trabalhadores da autarquia. Semanas, meses de trabalho que também foram uma festa.

Quero recordar, com orgulho a que não me eximo, sem menorizar nenhum outro evento da vasta programação que se organizou, iniciativas em que desempenhei papel central, em que algumas ultrapassaram os limites temporais e continuam a marcar Grândola.

A primeira decisão foi a de se desenhar uma imagem gráfica condizente com a importância das Comemorações. Foi convidar para a fazer José Santa-Bárbara, não só pela sua inquestionável qualidade artística mas também por ser o autor de muitas das capas dos discos de José Afonso, nomeadamente as Cantigas de Maio, onde se inscreve Grândola, Vila Morena. Santa-Bárbara teve a ideia brilhante de arrancar os sobreiros da planície alentejana substituindo-os por frondosos cravos.

Em memória de Zé Afonso, António Trindade

Em memória de Zé Afonso, António Trindade

As outras tinham a ver com o facto de Grândola, pela sua orografia, ser uma terra de passagem entre importantes centros do Portugal medievo. Por essa circunstância, não tinha castelos, monumentos nem sequer um centro histórico assinalável, embora com um centro tradicional bem interessante. Surgiu imediatamente a ideia de, aproveitando o quarto de século da Revolução de Abril, dotar a vila com várias esculturas, com ligação mais directa ou mais oblíqua com a conquista da liberdade. Ideia que Pedro Pedreira e Isabel Revez apoiaram com entusiasmo.

mural grandola Bartolomeu Cid dos Santos

O Povo é Quem mais Ordena / Bartolomeu Cid dos Santos

Pensando em quê e em quem, elaborei um memorando, logo avalizado por esse grupo de trabalho. Convidei o António Trindade para fazer uma escultura evocativa de Zé Afonso, Jorge Vieira os 25 anos do 25 de Abril, Bartolomeu Cid dos Santos, O Povo é Quem mais Ordena, estas em Grândola, João Limpinho, Os Poetas Populares, no Carvalhal. A esse grupo de artistas bem conhecidos no meio artístico, agreguei um jovem escultor, Isaque Pinheiro que realizou, A Cultura saiu á Rua num Dia Assim, em Melides. Com Bartolomeu Cid dos Santos e João Limpinho tive ainda o prazer e o privilégio suplementar de colaborar directamente, nas suas obras. Desenhei a parede e o embasamento do mural de azulejos concebido por Bartolomeu. Trabalho interessantíssimo em que discutimos fundamente a forma que melhor poderia corresponder, destacar e dar melhor leitura aos painéis de azulejos, o frontal e o de tardoz, que o Bartolomeu idealizou.. Entre o primeiro desenho e a forma final, “partimos muita pedra”. A forma final muito nos agradou. Mais fácil foi desenhar a parede de suporte para a escultura do João. A simplicidade genial da ideia do João Limpinho de transformar as lâminas de enxada nas “caras” dos poetas populares facilitou o desenho da parede suporte, uma alusão muito estilizada a esse objecto de trabalho agrícola, Procurando que nada fique esquecido registe-se que os cálculos de engenharia, obviamente mais complexos em relação O Povo é Quem mais Ordena, foram feitos por Horácio Sotero, engenheiro da CMG. Hoje, quando passo por Grândola, onde vivi anos felizes, continuo a olhar para essas intervenções escultóricas com o prazer e o legítimo orgulho de ter tido essas iniciativas, sempre suportadas pelo entusiasmo e empenho do Pedro Pedreira e da Isabel Revez.

Jorge Vieira

25 Anos do 25 de Abril / jorge Vieira

Lembro que dramaticamente o Jorge não viu a sua obra em circunstâncias que me abalaram profundamente. Por várias circunstâncias a decisão para a encomenda das esculturas, atrasou-se, o que obrigou os artistas a trabalhar com prazos muito apertados nas maquetas de molde a possibilitar a sua concretização. Qualquer escultura consome meses na sua realização. Com Abril no horizonte até ao fim do ano as maquetas tinham que estar feitas. Assim sucedeu com todos e claro com o Jorge Vieira. No dia 23 de Dezembro de 1998, pelo meio-dia, telefona-me o Jorge para me convidar a ir à sua casa em São Bento de Ana Loura, Estremoz, no dia 26, para ver a maqueta. Vários prazeres conjugavam-se. Ver a maqueta, almoçar com o Jorge e a Noémia, refira-se que o Jorge era um excelente cozinheiro, conviver, um convívio sempre muito vivo e estimulante, alegrado pela finíssima ironia, uma imagem de marca do Jorge. Eram onze horas da noite desse mesmo dia 23, quando volta a tocar o telefone. Do outro lado um grande amigo comum, recentemente desaparecido, o Zé Alberto Manso Pinheiro que, consternadíssimo, anunciava que o Jorge tinha sido vitimado por uma síncope. Nunca esquecerei o murro que levei. Chorei como não me lembro de alguma vez ter chorado. Choraria outra vez abraçando a Noémia desfeita pela dor. A vida que dá tantas alegrias também maltrata de forma violenta, muitas vezes inesperada.

JoãoLimpinho

Os Poetas Populares / João Limpinho

No meio de tanto sucesso, nem tudo correu bem. Por exemplo, por um acaso daqueles que só acontece no cinema, raramente na vida real, estava no Teatro de Almada com o Joaquim Benite, quando alguém, no alvoroço provocado já nem lembro quem, irrompe anunciando que a rádio noticiava que o José Saramago tinha ganho o Prémio Nobel da Literatura. Telefonámos. Milagrosamente conseguimos ligação. Abraços e mais abraços, parabéns e mais parabéns. Desligado o telefone olhámos um para o outro, proponho o que o Joaquim estava a pensar. Repor em Grândola, no dia 25 de Abril, A Noite. Naquele momento de euforia, ficou tudo firme. Não aconteceu apesar do nosso afinco e do afinco do Pedro Pedreira e da Isabel Revez. A decisão nunca mais era formalizada, até o Benite, em desespero, me telefonar a marcar uma data a partir da qual seria impossível realizar o espectáculo. Era um trabalho a mais na programação do teatro. A partir daquela data, não haveria tempo para ensaios, com a agravante de ter que se substituir o António Assunção, com papel importante no elenco original, já ter falecido. A data foi ultrapassada sem nenhum compromisso. Nas várias vezes em que nos encontrámos recordámos amargamente essa oportunidade perdida. Repor A Noite, nos 25 anos do 25 de Abril, no ano em Saramago iria a Estocolmo ser nobelizado. Tínhamos a secreta esperança de o ter presente em Grândola para rever a peça de teatro em que se retratava a noite de 24 para 25 de Abril, vivida na redacção de um jornal.

isaque

A Cultura saiu á Rua num Dia Assim/ Isaque Pinheiro

Outra iniciativa que se gorou pelos mesmos motivos, ruminar decisões até as tornar inexequíveis, foi a de encomendar a António Pinho Vargas 25 Variações sobre o tema Grândola, Vila Morena. Pinho Vargas é um excelente pianista e um excelente compositor. É um reconhecido cultor tanto da música sinfónica como do jazz. Reunia as condições óptimas para realizar essa obra. O problema foi similar ao sucedido com o Benite. Protelar a decisão até a tornar impossível. Havia um limite para decidir, sobretudo porque António Pinho Vargas estava a trabalhar na ópera Os Dias Levantados, com libreto de Manuel Gusmão. A partir de certo momento não poderia conciliar esses dois trabalhos. Assim se perdeu a oportunidade de Grândola se poder orgulhar de ter encomendado uma obra que , se fosse feita, estou convicto, seria marcante na historiografia da música portuguesa, ficando Grândola para sempre ligada a esse acontecimento.

Mas houve momentos de rabelaisiana galhofa. Num certo dia, com o tom imperativo, definitivo e pomposo que alguns presidentes usam para embrulhar as suas deliberações, recebemos um papel manuscrito, guardo fotocópia desse escrito, com origem no gabinete da presidência, em que se determinava que o programa musical das Comemorações dos 25 Anos do 25 de Abril deveria ser aberto por uma composição original, encomendada a um músico que na altura dava aulas na Universidade de Évora, que se intitulava, nada mais nem nada menos que REQUIEM PARA A REVOLUÇÃO!!! Gargalhadas pantagruélicas. Seria uma originalidade universal uma Revolução ser celebrada com um Requiem. Este mundo e o outro deveriam rir a bandeiras despregadas, com tal iniciativa, ainda por cima levada a efeito por uma Câmara de esquerda, da CDU. As risadas mereceriam figurar no Guiness, com um recorde que tanto pela sua dimensão como extensão, dificilmente seria ultrapassado. Haveria certamente uma excursão de saudosos salazaristas a desembarcar em Grândola celebrando sucesso tão inesperado e, para eles, tão feliz. Ainda por cima com a circunstância de o jantar da Associação 25 de Abril se realizar na vila, antecedendo o repasto, por alinhamento da programação, haveria a primeira audição mundial de tão magna, industriosa e inusitada obra.

Aqui fica esta Memorabilia, um registo, com factos alguns até agora desconhecidos, para memória futura das Comemorações dos 25 Anos do 25 Abril em Grândola, Escritos em louvor e recordação de amigos entretanto desaparecidos aqui assinalados pela referência a Pedro Pedreira, com o envio de um grande abraço à Isabel Revez, envolvendo nesse abraço todos os trabalhadores da Câmara de Grândola que bem se empenharam para que, apesar dos tropeços que nos eram estranhos, a festa fosse, como foi, um sucesso irrepetível.

De caminho, uma última nota, tenho o secreto desejo que um dia em Grândola, os nomes de duas pessoas ligadas fortemente à história da vila no pós-25 de Abril, figurem na sua toponínima: Pedro Pedreira.e Manuel Areias.

CUBA/EUA- o discurso de Raul de Castro

Obama Castro

Habituados à ligeireza  intencional, com objectivos mais que sabidos, da comunicação social, ao modo enviezado com que se fabricam e alinham as notícias, apoiados pelos comentários dos inúmeros e variegados interpretadores dos sinais do que se passa no mundo para nos (de)formarem a visão, em que alguns, sem perderem o norte marcado na bussola dos mandantes, são mais sofistificados por formação académica ou prática diplomática, não se pode ficar admirado com o modo com tem sido tratado a aproximação entre Cuba e os EUA.  Desse imenso aglomerado de gente, na rádio, jornais, televisão, internet,  foram banidos todos os que poderiam ter outro ângulo de visão, mais à esquerda , e outra profundidade de análise, não se limitando aos medias telecomandados, e com base em informação sólida, que desse e doutros sucessos dessem uma visão do mundo não normalizada, que não se conforma com o quadro imposto pelo império.  Ainda se lembram quando Pezarat Correia ou José Goulão (este com blogue que deve ser frequentado por quem quer saber realmente o que se passa no mundo), só para lembrar dois homens de vasta informação e seriedade, apareciam nos jornais ou nos ecrâs televisivisos?  Agora resta-nos uma sucata, onde ainda brilha alguma esquerda, representada por variantes menores do Príncipe de Salinas, reluzente nas suas opiniões de esquerda sensata ou esquerda de gente gira, que impulsionam democraticamente o movimento do mundo para que este não saia sair dos seus eixos. nada do que é publicado e como aparece nos causa surpresa.

No percurso de aproximação entre Cuba e os EUA, na recente cimeira das Américas, o discurso de Raul de Castro ficou sepultado no aperto de mão histórico, no encontro histórico que mantiveram, nas declarações históricas mais insignificantes dos dois presidentes, se nos limitarmos a seguir o que foi publicado na generalidade dos media onde a adjectivação de histórico para a qui, histórico para ali ia brunindo a superficialidade do noticiado. A habitual  filtragem feita pelos mais rigoroso e independentes critérios jornalísticos (esta é para todos nos rirmos a bandeiras despregadas!) acabou por menorizar o que ambos disseram.

Do importante discurso proferido por Raul Castro na Cimeira das Américas, os media internacionais apenas reproduziram um pequeno aparte dirigido a Obama. Omitiram deliberadamente, como é a sua prática, o essencial desse discurso que aqui reproduzimos, repescado do Diario.info

Ao Excelentíssimo Senhor Juan Carlos Varela, presidente da República do Panamá

Presidentes e Primeiros-Ministros

Distintos convidados

Agradeço a solidariedade de todos os países da América Latina e do Caribe que tornaram possível que Cuba participasse em pé de igualdade neste fórum hemisférico, e ao presidente da república do Panamá, pelo convite que tão simpaticamente nos enviou. Trago um abraço fraterno ao povo panamiano e a todas as nações aqui representadas.

Quando a 2 e 3 de Dezembro de 2011 se criou a Comunidade de Estados Latino-americanos e do Caribe (CELAC) em Caracas, inaugurou-se uma nova etapa na história da Nossa América, que tornou patente o seu direito adquirido de viver em paz e a desenvolver-se como decidam livremente os seus povos e traçar para o futuro um caminho de desenvolvimento e integração, baseado na cooperação, na solidariedade e na vontade comum de preservar a independência, a soberania e a identidade.

O ideal de Simón Bolívar de fundar uma grande pátria americana inspira verdadeiras epopeias independentistas.

Em 1800 pensa-se juntar Cuba à União do norte como limite sul do extenso império. No século XIX, surgiram a Doutrina do Destino Manifesto com o propósito de dominar as Américas e o mundo, e a ideia da Fruta Madura para a gravitação inevitável de Cuba para a União norte-americana, que desdenhava o nascimento e evolução de um pensamento próprio e emancipador.

Depois, mediante guerras, conquistas e intervenções, esta força expansionista e hegemónica despojou de territórios a Nossa América e estendeu-se até ao Rio Bravo.

Depois de longas lutas que se frustraram, José Marti organizou a guerra necessária e criou o Partido Revolucionário Cubano para a conduzir e fundar uma República «com todos e para o bem de todos» que se propôs alcançar a dignidade plena do homem.

Ao definir com certeza e antecipação os riscos da sua época, Marti consagra-se ao dever de impedir a tempo, com a independência de Cuba, que se estendam pelas Antilhas os Estados Unidos e caiam com essa força sobre as nossas terras da América.

A Nossa América é para ele a do crioulo, do índio, do negro e do mulato, a América mestiça e trabalhadora que tem de juntar-se aos oprimidos e saqueados. Agora, para lá da Geografia, este continua a ser um ideal que começa a tornar-se realidade.

Há 117 anos, a 11 de Abril de 1898, o então presidente dos Estados Unidos solicitou ao Congresso autorização para intervir militarmente na guerra de independência, já ganha com rios de sangue cubano e este emitiu a sua enganosa Resolução Conjunta, que reconheceu a independência da ilha de facto e de direito. Entraram como aliados e apoderaram-se do país como ocupantes.

Impôs-se a Cuba um Apêndice à sua Constituição, a Emenda Platt, que despojando-a da sua soberania, autorizava o poderoso vizinho a intervir nos assuntos internos e deu origem à base naval de Guantánamo, a qual continua a usurpar parte do nosso território. Nesse período, aumentaram as investidas do capital norte-americano, houve duas intervenções militares e o apoio a ditaduras cruéis.

Predominou na América Latina a «política das canhoneiras» e assim do «Bom Vizinho». Sucessivas intervenções derrubaram governos democráticos e instalaram ditaduras terríveis em 20 países, 12 de forma simultânea, fundamentalmente na América do Sul que assassinaram centenas de milhares de pessoas. O presidente Salvador Allende legou-nos um exemplo imperecível.

Há exactamente 13 anos, houve o golpe de estado contra o admirável presidente Hugo Chávez Frias, que o povo derrotou. Depois veio o golpe petrolífero.

A 1 de Janeiro de 1959, 60 anos depois da entrada dos soldados norte-americanos em Havana, triunfa a Revolução Cubana e o Exército Rebelde comandado por Fidel Castro Ruz entra na capital.

A 6 de Abril de 1960, apenas um ano depois do triunfo, o subsecretário de Estado Lester Mallory escreveu num memorando perverso, desclassificado dezenas de anos depois, que “a grande maioria dos cubanos apoia Castro. Não há uma oposição política efectiva. O único meio previsível para lhe dar apoio interno é através do desencanto e desalento baseados na insatisfação e na penúria económica (…) debilitar a vida económica (…) e privar Cuba de dinheiro e géneros com o fim de reduzir os salários nominais e reais, provocar a fome, o desespero e o derrubamento do governo.”

Temos suportado grandes penúrias. 77% da população cubana nasceu sob o rigor que o bloqueio impõe. Mas as nossas convicções patrióticas prevaleceram. A agressão aumenta a resistência e acelera o processo revolucionário. Aqui estamos hoje com a dignidade intacta.

Quando já tínhamos proclamado o socialismo e o povo tinha combatido na Playa Giron para o defender, o presidente Kennedy foi assassinado precisamente no momento em que o líder da Revolução Cubana Fidel Castro recebia uma mensagem sua a tentar o diálogo.

Depois da Aliança para o Progresso e de ter pago várias vezes a dívida externa sem evitar que esta continuasse a crescer, foi-nos imposto um neoliberalismo selvagem e globalizador, como expressão do imperialismo nessa época, que deixou uma década perdida na região.

Na altura a proposta de uma «associação hemisférica madura» resultou na tentativa de nos impor a «Área de Livre Comércio das Américas» (ALCA) associado à realização destas Cimeiras, que teria destruído a economia, a soberania e o destino comum das nossas nações. Se não a tivéssemos feito naufragar em 2003, no Mar del Plata, sob a liderança dos presidentes Chávez, Kirchner e Lula. Um ano antes, Chávez e Fidel haviam feito nascer a Alternativa Bolivariana, hoje Aliança Bolivariana para os povos da Nossa América.

Excelências

Expressamos e reitero-o de novo ao presidente Obama a nossa disposição ao diálogo, respeitoso e à convivência civilizada entre os dois Estados dentro das nossas profundas diferenças.

Aprecio como um passo positivo a sua declaração recente de que decidirá rapidamente sobre a presença de Cuba numa lista de países patrocinadores do terrorismo em que nunca devia ter estado.

Até hoje, o bloqueio económico, comercial e financeiro aplica-se em toda a sua intensidade contra a ilha, provoca danos e carências no povo e é obstáculo essencial ao desenvolvimento da nossa economia. Constitui uma violação do Direito internacional e o seu alcance extraterritorial afecta os interesses de todos os estados.

Temos expressado publicamente ao presidente Obama, que também nasceu sob a política de bloqueio a Cuba e ao ser eleito a herdou de 10 presidentes, o nosso reconhecimento pela sua valente decisão de se envolver num debate com o Congresso do seu país para lhe pôr fim.

Este e outros elementos deverão estar presentes no processo para a futura normalização das relações bilaterais.

Pela nossa parte, continuaremos imersos no processo de actualização do modelo económico cubano com o objectivo de aperfeiçoar o nosso socialismo, avançar para o desenvolvimento e consolidar os êxitos de uma Revolução que se propôs «conquistar toda a justiça».

Estimados colegas:

A Venezuela não é nem pode ser uma ameaça à segurança nacional de uma super potência como os Estados Unidos. É positivo que o presidente norte-americano o tenha reconhecido.

Devo reafirmar todo o nosso apoio, de maneira directa e leal, à república irmã bolivariana da Venezuela, ao governo legítimo e à unidade cívico-militar que o presidente Nicolas Maduro chefia, ao povo bolivariano e chavista que luta para seguir o seu caminho próprio e enfrenta tentativas de desestabilização e sanções unilaterais que exigimos sejam levantadas, que a Ordem Executiva seja derrogada, o que será apreciado pela nossa Comunidade como uma contribuição para o diálogo e o entendimento hemisférico.

Manteremos o nosso apoio aos esforços da Republica Argentina para recuperar as Ilhas Malvinas, as Geórgias do Sul e as Sanduíche do Sul e continuaremos a apoiar a sua luta legítima na defesa da sua soberania financeira.

Continuaremos a apoiar as acções da república do Equador diante das empresas transnacionais que provocam danos ecológicos ao seu território e pretendem impor condições abusivas.

Desejo reconhecer as contribuições do Brasil e da presidente Dilma Rousseff no fortalecimento da integração regional e no desenvolvimento de políticas sociais que vão trazer benefícios a amplos sectores populares os quais, dentro da ofensiva contra diversos governos de esquerda da região se pretende reverter.

O nosso apoio será permanente ao povo latino-americano e caribenho na sua luta para alcançar a autodeterminação e independência, como já afirmou dezenas de vezes a Comissão de Descolonização das Nações Unidas.

Também continuaremos a dar a nossa contribuição para o processo de paz na Colômbia.

Deveríamos todos multiplicar a nossa ajuda ao Haiti, não só mediante a assistência humanitária, mas também com recursos que lhe permitam o seu desenvolvimento e apoiar os países do Caribe para que recebam um tratamento justo e diferenciado nas suas relações económicas e reparações pelos danos provocados pela escravidão e o colonialismo.

Vivemos sob a ameaça de enormes arsenais nucleares que devem ser eliminados e da mudança climática que nos deixa sem tempo. Aumentam as ameaças à paz e proliferam os conflitos.

Como afirmou então o presidente Fidel Castro, «a causa fundamental da pobreza e do subdesenvolvimento é a distribuição desigual das riquezas e dos conhecimentos que impera no mundo. Não podemos esquecer-nos de que o subdesenvolvimento e a pobreza actuais são consequência da conquista, da colonização, da escravatura e do saque da maior parte da Terra pelas potências coloniais, o aparecimento do colonialismo e das guerras sangrentas por novas repartições do mundo. A humanidade deve tomar consciência do que temos sido e do que não podemos continuar a ser. Hoje a nossa espécie adquiriu conhecimentos, valores éticos e recursos científicos suficientes para marchar para uma etapa histórica de verdadeira justiça e humanismo. Nada do que existe hoje na ordem económica e política serve os interesses da humanidade. Não pode manter-se. Há que mudar», concluiu Fidel.

Cuba continuará a defender as ideias pelas quais o nosso povo assumiu os maiores sacrifícios e riscos e lutado junto dos pobres, dos enfermos sem cuidados médicos, os desempregados, as crianças abandonadas à sua sorte ou obrigadas a trabalhar ou a prostituir-se, os esfaimados, os discriminados, os oprimidos e os explorados que constituem a imensa maioria da população mundial.

A especulação financeira, os privilégios de Bretton Woods e a remoção unilateral da conversão do dólar em ouro são cada vez mais asfixiantes. Exigimos um sistema financeiro equitativo e transparente.

Não podemos aceitar que menos de uma dezena de empresas, principalmente norte-americanas, decidam o que se lê, vê ou ouve no planeta. A Internet deve ter um governo internacional, democrático e participativo, em especial nos conteúdos. É inaceitável a militarização do ciberespaço e a utilização encoberta ou ilegal de sistemas informáticos para agredir outros Estados. Não deixaremos que nos deslumbrem nem colonizem outra vez.

Senhor presidente:

Na minha opinião, as relações hemisféricas têm de mudar profundamente, principalmente no âmbito político, económico e cultural; para que baseadas no Direito Internacional e no exercício da autodeterminação e na igualdade soberana se centrem no desenvolvimento de vínculos mutuamente proveitosos e na cooperação para servir os interesses de todas as nossas nações e os objectivos que se proclamam.

A aprovação, em Janeiro de 2014, na Segunda Cimeira da CELAC, em Havana, da Proclamação da América Latina e do Caribe como zona de Paz, constituiu um contributo transcendente nesse propósito, marcado pela unidade latino-americana e caribenha na sua diversidade.

Demonstra-o o facto de que avançámos para processos de integração genuinamente latino-americanos e caribenhos através da CELAC, UNASUR, CARICOM, MERCOSUR, ALBA, TCP e SICA e AEC, que sublinharam a consciência crescente sobre a necessidade de nos unirmos para garantir o nosso desenvolvimento.

A referida Proclamação compromete-nos a que «as diferenças entre as nações se resolvem de forma pacífica, por via do diálogo e negociações ou outras formas de solução e em consonância plena com o Direito Internacional.

Viver em paz, cooperando uns com os outros para enfrentar os desafios e solucionar os problemas que, afinal, nos afectam a todos, é hoje uma necessidade imperiosa.

Deve respeitar-se como reza a Proclamação da América Latina e do Caribe como Zona de Paz «o direito inalienável de todo o Estado de eleger o seu sistema político, económico, social e cultural, como condição essencial para assegurar a convivência pacífica entre as nações».

Com ela comprometemo-nos a cumprir a nossa obrigação de não intervir directa ou indirectamente nos assuntos internos de qualquer outro Estado e a observar os princípios de soberania nacional, igualdade de direitos e a livre determinação dos povos e a respeitar «os princípios e normas do Direito Internacional» e os princípios e propósitos da Carta das Nações Unidas.

Este documento histórico insta todos os estados membros da Comunidade Internacional a respeitar plenamente esta declaração nas suas relações com os Estados membros da CELAC.

Temos agora a oportunidade para todos os que estamos aqui aprendermos, como a Proclamação também expressa, «a praticar a tolerância e conviver em paz como bons vizinhos».

Existem grandes discrepâncias, mas há também pontos em comum, em que podemos cooperar para que seja possível viver neste mundo cheio de ameaças à paz e à sobrevivência humana.

O que impede a nível global cooperar para enfrentar a mudança climática?

Porque não podemos nós, os países das duas Américas lutar juntos contra o terrorismo, o narcotráfico ou o crime organizado, sem posições politicamente iguais?

Porque não procurar em conjunto, os recursos necessários para dotar o hemisfério de escolas, hospitais, proporcionar emprego, avançar com a erradicação da pobreza?

Não se poderia diminuir a desigualdade na distribuição da riqueza, reduzir a mortalidade infantil, eliminar a fome, erradicar as doenças que se podem prevenir, acabar com o analfabetismo?

No ano passado estabelecemos cooperação hemisférica no combate e prevenção do ébola e os países das duas Américas trabalharam em conjunto, o que deve servir-nos de incentivo para resultados maiores.

Cuba, país pequeno e desprovido de recursos naturais, que se desenvolveu num contexto sumamente hostil, conseguiu alcançar a participação plena dos seus cidadãos na vida política e social da Nação, uma cobertura de educação e saúde universais, de forma gratuita, um sistema de segurança social que garante que nenhum cubano fique desamparado, progressos significativos para a igualdade de oportunidades e o ataque a todas as formas de discriminação, o pleno exercício dos direitos da criança e da mulher, o acesso ao desporto e à cultura, o direito à vida e à segurança dos cidadãos.

Apesar das carências e dificuldades, temos a divisa de compartilhar o que temos. Actualmente 63 mil cooperantes cubanos trabalham em 89 países, sobretudo nas esferas de medicina e de educação. Formaram-se na nossa ilha 68 mil profissionais e técnicos, 30 mil da saúde, de 137 países.

Se com escassos recursos Cuba conseguiu, o que não poderá fazer o hemisfério com a vontade política de reunir esforços para contribuir para os países mais necessitados?

Graças a Fidel e ao heróico povo cubano viemos a esta Cimeira para cumprir o mandato de Marti com a liberdade conquistada com as nossas próprias mãos, orgulhosos da nossa América para servi-la e honra-la com a determinação e a capacidade de contribuir para que se estima pelos seus méritos e se respeite pelos seus sacrifícios.

Obrigado

Cultura Gold

images Paulo Portas, com eleições à vista, tirou mais um coelho da cartola. Alargou a atribuição de vistos gold a quem invista na cultura. O mínimo 350 mil euros. Mais barato do que se fizer aquisições imobiliárias, 500 mil euros, ou transferir um milhão de euros, para uma conta sediada em Portugal,. A primeira e já sabida curiosidade, é o governo PPD/CDS, andar a captar capitais com essas ofertas, e preocupar-se pouco ou mesmo nada com os grandes capitalistas nacionais, useiros e vezeiros na fuga de capitais para paraísos fiscais, são centenas de milhões de euros por mês, informa o Banco de Portugal, ou em escapar aos impostos, localizando empresas em países que lhes concedem benefícios, alguns escandalosos como se veio a conhecer com o Luxemburgo Leaks, prática semelhante mas mais agressiva da que a praticada por outras paragens como a Holanda, país de acolhimento a belmiros e soares dos santos. A segunda curiosidade é essa gente vender-se barato. Oferecem um visto gold a troco de uns amendoins para a cultura. O Secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, veio esclarecer que o montante de 350 mil euros é para criar “precisamente um incentivo adicional”. Acentuou que “o governo está empenhado em divulgar esta medida junto de potenciais investidores mostrando-lhes o que se faz cá se faz.” Dá o exemplo do que aconteceu nos EUA, no Kennedy Center onde, durante três semanas, estiveram “integrados na mostra cultural Iberian Suite mais de uma centena de criadores portugueses e lusófonos com os seus mais recentes trabalhos nas áreas do teatro, da dança, da música, das artes visuais, da literatura, da gastronomia” . A caldeirada das indústrias criativas. O enunciado dá para perceber o conteúdo de tanta criação, cócócóró. A luzidia comitiva era uma montanha russa assim porque não era assado. Lamenta Barreto Xavier “não termos projecção internacional enquanto potência de arte contemporânea significativa” e acrescenta com vergonha “por vezes temos uma ideia exagerada sobre nós próprios a esse respeito”. Mais umas banalidades a juntar às com que nos mimoseia cada vez que abre a boca. Deste governo que outro secretário de Estado se podia esperar? A concessão de vistos gold para a área da cultura está no mesmo nível de mediocridade. Depois de sucessivos anos de desinvestimento no sector da Cultura, até se atingir o estado comatoso actual, não serão os vistos gold que a vai reanimar. Atearão uns fogachos fátuos, iremos ver de que calibre. Os vistos gold serão apoios intermitentes e pontuais. Obviamente, até pela sua natureza, excluem-se de qualquer plano cultural, mesmo de curto prazo. Em nada contribuirão para uma política cultural, mesmo a não política do actual governo. Serão dirigidos com a vista curta de obter rapidamente benefício. Isso vai favorecer quem já tem nome, a mais das vezes não por valor real mas por bem dirigidas operações de marketing. Será mais fácil comprar uns tricotados ou umas panelas à Joana Vasconcelos, lá estará o olho vivo da Everything is News para não deixar escapar a oportunidade, do que apoiar um projecto de João Limpinho, apesar do saber, da seriedade artística, da qualidade estética demonstrada nas esculturas que integram o Museu está na Rua, no Bairro da Bela Vista em Setúbal. Será mais fácil encomendar um espectáculo musical a Rodrigo Leão do que uma obra a António Pinho Vargas, apesar do abismo artístico e estético que os separa. Outros exemplos poderiam ser enumerados. Apesar desse quadro, sempre se poderia ter colocado a fasquia mais alto e com outro fundamento. Dirigi-los para um sector específico, o do património construído, muito em avançado estado de degradação, exemplo próximo o Conservatório Nacional, e não deixar os investimentos serem feitos quase a vontade do freguês. Sem normas, o melhor, mais de acordo com o seu gabarito, será Barreto Xavier montar uma banca de venda de produtos culturais na Feira de Carcavelos, especializada em vistos gold. O Paulinho, frequentador habitual desses eventos, lá o iria visitar para ver como corre o negócio e degustar um menu de farturas pós-modernas. Lugar para diálogos pouco confidenciais: “O senhor vice primeiro-ministro engraxa? Não, hoje engraxo nas Necessidades!” Esta gente vende-se barato e sem critério.

(publicado no jornal Avante! em 16/4/2015)

O Carrossel da Politiquice

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Assim que se anunciou a possibilidade de Sampaio Nóvoa ser candidato ás próximas eleições presidenciais, soaram as campainhas de alarme. Do lado dos trauliteiros direitinhas, que tinham sido simpáticos para Henrique Neto, logo começaram nas redes sociais as piadolas de mau gosto, como é de bom tom para aqueles lados. Os mais civilizados, com destaque para os comentadores que fazem disso um modo de vida, franzem o sobrolho, iniciaram a busca de sinais mais avermelhados em Sampaio Nóvoa para os expor e assustar o bom povo português. Fariam isso com Sampaio da Nóvoa ou com qualquer outro que fosse candidato a candidato a Presidente da República, com perfil idêntico.

Mais preocupantes e reveladoras do clima daquelas bandas foram as reações de socialistas mais ou menos conhecidos da opinião pública. Saltaram a terreiro em vários estilos e tons. Vera Jardim olha com distanciamento para o cargo de Presidente da República, reclamando a falta de perfil, por o ex-reitor da UL se mostrar muito interventivo e um Presidente da República deve, na sua opinião, ser um “poder moderador”(::.)”árbitro supremo do sistema, da constituição e dos equilíbrios do sistema”

Podia ter dado como exemplos o pai de todos os socialistas, Mário Soares, sempre sentado em Belém, a mitigar pachorrentamente os conflitos institucionais que não foram poucos durante os seus mandatos. Ou o seu amigo e ex-colega de escritório, Jorge Sampaio, que tudo fez para que o governo de Santana Lopes cumprisse o mandato. A falta de memória dessa gente é notável. Cautelarmente, Vera Jardim, vai dizendo que se o seu partido apoiar Sampaio da Nóvoa, ele será naturalmente o seu candidato. Uma nota a registar, embora não seja de excluir que estivesse a fazer figas enquanto fazia tal proclamação.

Outros “notáveis” socialistas são mais assertivos. Francisco Assis, estilo sorna, estofo de político mediano, reclama um candidato “genuinamente de centro-esquerda”. Para um militante de um partido que enche a boca a afirmar-se de esquerda, para um homem que se diz de esquerda, que foi candidato a secretário-geral, não está nada mal. Não nomeia, mas percebe-se que o seu Dom Sebastião é o beato Guterres ou o direitinha Gama.

Sérgio Sousa Pinto foi mais, longe, se calhar com receio que um qualquer preclaro Lello se antecipasse. Desata a zurzir em Sampaio da Nóvoa, “Não lhe basta a sublime virgindade de, em 60 anos, nunca se ter metido com partidos” e como estávamos na época pascal acrescenta “também parece agradecer a Deus a graça de ser pobre” . Conclui com mais umas tantas javardices do mesmo jaez sobre as esquerdas latino-americanas e europeias, para rematar “esta não é a minha esquerda”. Não é a esquerda dele pela razão mais simples e óbvia: ele não é nem nunca será de esquerda, por mais que queira travestir a realidade.

Todo o texto é bem revelador dos sérgios sousas pintos que andam como piolhos pelas costuras da política. É atravessado pela raiva, contra quem sendo de esquerda e tendo um currículo intelectual e profissional considerável, por opção, não se filiou num partido. É a raiva roxa de quem em toda a sua vida, só soube e sabe lustrar os fundilhos pelas cadeiras de diversas assembleias, fazendo pela vidinha, com os olhos postos nos vitorinos e passos coelhos que, à pala da política, se tornaram em facilitadores de negócios. De quem cheira o perfume fétido dos corredores da política que também o pode, na graça de Deus, fazer ficar riquinho. Não está sozinho. Pelo contrário, está bem mal acompanhado por aquela maralha que se mete muito jovem na política por cálculo, a acotovelar-se para fazerem carreira nos partidos que lhes abrem as portas do chamado arco da governança.

Sérgio Sousa Pinto não aguenta. Solta o sócrates que tem dentro de si. Estoira com grande alarido rugidos de leão de aviário. Sabia, bem sabia, que iria ter os seus quinze minutos de glória socialite-politiqueira. Para ele é insuportável que um homem, Sampaio Nóvoa ou outro, com um percurso intelectual reconhecido, que sempre tenha tido uma intervenção cidadã de esquerda, que sempre tenha mostrado ter consciência social, se intrometa nas escolhas do aparelho partidário, daquele aparelho partidário  que concede aos sérgios deta terreola. uma teta em que mama desde que se conhece, com afinco, ainda que sem grande talento. Advinha-se que o seu candidato é António Vitorino, se concorreres e ganhares dás-me um lugarzito em Belém? Em segunda escolha, os que Assis leva em andor.

Essa gente, e outra que deve andar a arrastar os pés com ardor nas alcatifas do Largo do Rato rosnando em surdina, saltam a terreiro para demonstrar, como se isso fosse necessário, que renegam a esquerda até ao fim do mundo.

Há ainda quem acredite na possibilidade de um governo de esquerda com este Partido Socialista. Essa é outra questão, magna questão, em que se deve insistir, mesmo contra todas as evidências.

Billie Holiday

Billie Holiday

Nasceu há cem anos Billie Holiday que para muitos, entre os quais me sento na primeira fila, continua a ser a cantora mais extraordinária da história do jazz. As suas interpretações, nas mais diversas circunstâncias, muitas vezes sob o efeito de drogas ou do álcool ou das duas coisas, nunca perdem o sentido da música e das improvisações, das letras, uma boa parte delas romances de cordel que, pela sua voz, se transformam em grandes romances.

Por vezes voz de protesto contra o racismo como em Strange Fruit, referindo um negro enforcado numa árvore

Uma voz muito peculiar, um balanço que a faz atrasar ou adiantar à música, ampliando o seu efeito emotivo, sempre com uma relação física sofrida, como toda a sua vida foi, tornam-na num caso único entre as cantoras de jazz. Todas as suas canções vivem um clima emocional e profano a que não deve ser indiferente ter vivido a vida, desde o seu nascimento filha de pais adolescentes, pai quinze e mãe treze anos, até ao fim da vida com 44 anos, numa cama de hospital completamente arruinada, sempre nos limites e no excesso.

São célebres as gravações que existem acompanhada por Lester Young

ou com Teddy Wison

A voz nunca perdeu o encanto o fascínio que exerciam, que a faziam cantar como ninguém mais soube cantar, apesar do desgaste que o tumulto dos anos foram provocando.

Uma nota pessoal que não resisto acrescentar. Tenho uma gravação de Am I Blue, feita em Nova Iorque, no dia em que nasci. Descobri por acaso, quando com o meu amigo Nuno Bernardino, com quem ganhei muitas noites ouvindo música, comparávamos várias versões dessa canção. Como nasci de madrugada, não sei se a diferença de fusos horários fazem coincidir a hora. Seria uma coincidência extraordinária.