Artes, cinema, Cinemateca, Cultura Mediática, Festival de Cannes, Geral, Kean Loach, Neo Liberalismo, Realismo

Ken Loach: Os Pobres não são responsáveis pela sua pobreza

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Ken Loach tem a raríssima qualidade de ter sido sempre, sem uma falha nem uma rasura, um cineasta política e socialmente empenhado e ser quem abriu os caminhos para a renovação do cinema inglês, rasgando novos horizontes por onde caminharam realizadores como Mike Leigh, Stephen Frears, Larry Clarke, David Leland e muitos os outros. Em Inglaterra há um cinema antes e outro depois de Ken Loach, o que diz tudo sobre ele como artista.

Todos os seus filmes mergulham com coerência numa cultura política marxista. Toda a sua extensa obra, sem nenhuma concessão, está centrada na descrição das condições de vida da classe operária, nos dramas pessoais e familiares provocados pela destruição das políticas públicas de bem-estar social, nas tragédias dos emigrantes clandestinos. Filmes e documentários para a televisão fazem um retrato real e feroz do lado sombrio da Grã-Bretanha, retrato que se torna universal neste nosso tempo em que numa extensão sem precedentes, cada vez mais habitantes do planeta perdem a esperança e são atirados para a exclusão, a riqueza global vai-se concentrando num número cada vez menor de mãos. Em que em nome da racionalização e da modernização da produção, se  regressa ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Tempos de uma nova ordem económica que se impõe com violência crescente, é fanática e totalitária. Uma nova ordem onde impera a hipocrisia e o cinismo das proclamações altissonantes das liberdades e dos direitos humanos enquanto se destroem direitos sociais, económicos e políticos alcançados em anos de duríssimas lutas.

Ken Loach lutou e luta sempre, sem perder um segundo, contra esse estado de coisas. Provocou e provoca imensa controvérsia entre os bem pensantes de direita e esquerda que consideravam e consideram insuportável o que classificam de radicalismo marxista e que é a luta pela conquista da dignidade humana numa sociedade que não tem nenhuma dignidade. Uma luta que considera, que todos as mulheres e homens de esquerda  consideram necessária, urgente.

Impõe-se a obra de Ken Loach num panorama artístico em que a classe operária, os trabalhadores, os que desde sempre foram e são oprimidos e explorados, foram quase completamente rasurados. Não é um acaso é a consequência de esta nova ordem capitalista ter percebido que tem  importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. Que é tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos, proporcionados pelas redes informáticas. Que  é igualmente importante o domínio e o controle económico e financeiro e a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, para instaurar de forma consistente uma cultura alienada e alienante.

Ken Loach é um coerente e obstinado lutador contra esse estado do mundo. A sua arma é a camera de filmar que usa com um saber raro, com uma qualidade artística que o coloca entre os maiores realizadores de cinema de sempre. Os seus filmes, ao longo de cinquenta anos de trabalho, olham com uma impar lúcidez crítica política a devastação que as políticas neoliberais produzem nas paisagens sociais.

Este ano, em Cannes foi-lhe atribuida a Palma de Ouro ao filme Eu, Daniel Blake. hoje em ante estreia na Cinemateca antes de amanhã entrar  no circuito comercial. A Cinemateca, finalmente, vai realizar durante o mês de Dezembro, um ciclo com doze dos seus filmes. Uma oportunidade para descobrir este cineasta (quase) desconhecido no nosso país.

Programação na Cinemateca

POOR COW dia 2/21h30 – dia 5/15h30

OS DOIS INDOMÁVEIS dia 5/21h30 – dia 9/15h30

VIDA EM FAMÍLIA dia 7/15h30 – dia 9/21h30

LOOKS AND SMILES dia 12/19h00 – dia 14/15h30

AGENDA SECRETA dia 13/19h30 – dia 16/15h30

RIFF-RAFF dia 14/21h30 – dia 21/15h30

CHUVA DE PEDRAS dia 16/19h00 – dia 23/15h30

LADYBIRD,LADYBIRD dia 19/19h00 – dia 27/15h30

MEU NOME É JOE dia 22/19h00 – dia 28/15h30

IT’S A FREE WORLD dia 27/21h30 – dia 29/15h30

O MEU AMIGO ERIC dia 28/19h00

O ESPÍRITO DE 45 dia 29/21h30 – dia 30/15h30

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Geral, Internacional

Fidel. A História o julgará

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Uma revolução não é um leito de rosas. Uma revolução é uma luta até a morte entre o futuro e o passado”, Fidel de Castro, 2 Janeiro 1961

Mais que o desaparecimento físico de Fidel Castro, o que agora nos surge é o balanço e a perspetiva do futuro da revolução cubana. Uma revolução marcada pelo carisma e pelo registo indelével do seu Comandante.

Fidel Castro personalizou a revolução cubana, desde os seus primeiros momentos, em todas as suas dimensões e de forma plena: o entusiasmo e o vigor, a liderança carismática e o exemplo pessoal, a disponibilidade inquebrantável.

A história de Cuba até à revolução do 1.º de Janeiro de 1959 é a história de um país e de um povo condicionados e humilhados pelo poderio dos EUA. Cuba era, à data da revolução, considerada a “ilha dos prazeres” ao dispor dos turistas do poderoso vizinho norte-americano. A que se somava a concentração das propriedades e dos bens nas mãos de uma pequena elite e de empresas estrangeiras, sob beneplácito do ditador Fulgêncio Batista.

A afirmação e a interferência dos EUA em Cuba remontam aos tempos das lutas de libertação e da expulsão da potência colonial, Espanha, forçada a conceder a independência ao território em 1898. Mas uma independência seriamente condicionada pela Emenda (constitucional) Platt, que garantiu a possibilidade de intervenção dos Estados Unidos nos destinos da ilha.

A vontade de controlo e submissão dos países latino-americanos vinha, já então, de longe, mais exatamente dos tempos da doutrina Monroe (do presidente do mesmo nome – 1817 e 1825), posteriormente complementada pelas orientações do Corolário (do presidente) Theodore Roosevelt, em 1904, que determina condições para interferência nas “nações do Mar do Caribe”

Cuba foi, como a generalidade da América Latina, mais uma das vítimas das interferências a que os Estados Unidos submeteram os seus vizinhos do sul do continente, no que significativamente designavam como “o seu quintal “.

A revolução cubana e a guerra fria

A revolução cubana foi um ato libertador e de recuperação da dignidade. Mas que ocorreu em plena guerra fria. E este é certamente o factor que mais contribui para a compreensão das múltiplas dimensões dessa revolução. Um pequeno país onde se realiza uma revolução social a poucas milhas do gigante americano e que desafia abertamente os seus ditames!

A revolução cubana abalou profundamente a sociedade com grandes alterações no regime de propriedade. Apostou fortemente na extensão da educação, saúde e outros direitos sociais a toda a população. Em poucos anos o país atingiu índices de elevada cobertura nestes domínios, conseguindo mesmo promover a sua exportação para outros pontos do globo, no âmbito de acordos com outros Governos.

Até 1991, ano que assinala o fim da União Soviética, o mundo viveu o que então se chamava de “equilíbrio do terror”. Uma paz assente na ameaça da destruição maciça termonuclear entre os blocos. E Cuba teve então um papel temerário e intrépido nesse sistema.

A revolução cubana, dirigida a partir da Sierra Maestra por Fidel de Castro, Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos, não era um regime exactamentente igual aos então instalados nos países do leste da Europa na sequência da vitória militar soviética na Segunda Guerra Mundial. A sua génese fora de origem guerrilheira, mas com uma entusiástica mobilização e apoio populares. Inicialmente, Fidel e os seus companheiros não se afirmavam comunistas; apesar da existência anterior de organizações comunistas o Partido Comunista de Cuba foi formalmente criado em 1965.

Foi a hostilidade norte-americana e o continuado apoio aos agentes do derrubado regime de Fulgêncio Batista que conduziu à procura de apoios por parte dos dirigentes revolucionários no bloco do Pacto de Varsóvia.

O entusiasmo internacionalista que impregnou o processo político cubano revelou facetas de grande solidariedade com os movimentos revolucionários de outros países – dos movimentos guerrilheiros em países da América Latina, de que resultou a morte de Che Guevara na Bolívia, às intervenções militares mais estruturadas em Angola, Etiópia, Nicarágua ou Argélia em apoio a governos amigos.

Desde os seus primeiros dias a revolução cubana foi alvo de constantes tentativas de desestabilização e em que avulta o bloqueio económico ao país. Também Fidel Castro foi pessoalmente objeto de numerosas tentativas de assassinato.

Novos desafios

Com o desmantelamento da União Soviética e do bloco socialista, em que se integrava economicamente, Cuba foi colocada perante desafios muito complexos. Desde então o fim da revolução cubana foi repetidamente previsto e repetidamente contrariado pela realidade. O país revelou uma capacidade de adaptação que não seria possível sem um forte apoio popular.

Com o fim da guerra fria as matérias relativas às liberdades individuais e à expressão política das oposições tomaram novas dimensões, colocando também novos desafios à direção assumida por Raúl Castro a partir de 2008.

Fidel chega ao fim dos seus dias com um lugar garantido no panteão da história dos libertadores da América. Ao lado de heróis como Simon Bolivar, Emiliano Zapata, José Marti ou Hugo Chaves. E heróis são aqueles que fazem o que parecia impossível no sentido do progresso dos seus povos. O traço que une estes heróis latino-americanos é a luta pela dignificação dos seus povos face a poderios imperiais.

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Cuba, Fidel de Castro, Geral, Revolução Cubana

FIDEL

Em memória de um HOMEM! Deixei passar propositadamente o dia de ontem, registando o que foi por aí foi escrito e visto sobre Fidel de Castro!
Registando com enorme indignação o que a poderosa máquina de propaganda imperialista consegue instilar até inesperadamente em muita gente, alguma que muito se tem indignado com Trump mas que, chegado o momento, não se distinguem de Trump. Nada de novo a oeste! Também nada de novo muita gente de esquerda perdida nos seus labirintos e sem encontrarem o fio de ariadne que os salvaria do minotauro e já sem sequer saber como fabricar as asas de Ícaro. Que poderia escrever sobre FIdel? Que música estou a ouvir por Fidel? Texto, o de Gabriel Garcia Marquez bem como a música de Dvorak aqui ficam.

FIDEL  fcastro

A sua devoção pela palavra. O seu poder de sedução. Vai buscar os problemas onde estão. O Ímpeto e a inspiração são próprios do seu estilo. Os livros reflectem muito bem a amplitude dos seus gostos. Deixou de fumar para ter a autoridade moral para combater o tabagismo. Gosta de preparar as receitas de cozinha com uma espécie de fervor científico. Mantém-se em excelentes condições físicas com várias horas de ginástica diária e natação frequente. Paciência invencível. Disciplina férrea. A força da imaginação arrasta-o até ao imprevisto. Tão importante como aprender a trabalhar é aprender a descansar.

Fatigado de conversar, descansa conversando. Escreve bem e gosta de fazê-lo. O maior estímulo da sua vida é a emoção do risco. A tribuna de improvisador parece ser o seu meio ecológico perfeito.
Começa sempre com uma voz inaudível, com um rumo incerto, mas aproveita qualquer assunto para ir ganhando terreno, palmo a palmo, até que uma espécie de grande vaga se apodera da audiência. É a inspiração: o estado de graça irresistível e deslumbrante, que só o negam aqueles que não tiveram a glória do viver. É anti-dogmático por excelência. José Martí é o seu autor de cabeceira e teve o talento de incorporar o seu ideário à corrente sanguínea de uma revolução marxista.
Na essência do seu pensamento poderia estar a certeza de que para fazer trabalho de massas é fundamental ocupar-se dos indivíduos.
Isto poderia explicar a sua confiança absoluta no contacto directo.
Tem uma linguagem, para cada ocasião e um modo distinto de persuasão para cada interlocutor. Sabe situar-se ao nível de cada um e a sua informação casta e variada permite-lhe mover-se com facilidade em qualquer meio. Uma coisa é segura: esteja onde esteja, como esteja e com quem esteja, Fidel Castro está ali para ganhar.
A sua atitude perante a derrota, ainda que seja nos actos mínimos da vida quotidiana, parece obedecer a uma lógica privada: nem sequer a admitem e não tem um minuto de sossego enquanto não consegue inverter os termos e convertê-la numa vitória.
Ninguém consegue ser mais obsessivo quando se propôs chegar ao fundo de qualquer coisa. Não há projecto colossal e milimétrico, em que ele não se empenhe de uma forma apaixonada.
E em especial se tem que defrontar-se com a adversidade. Nunca como então parece com melhor disposição, Alguém que acredita conhecê-lo bem, disse-lhe: as coisas devem andar muito mal, porque você está esfusiante.
Insistir e aprofundar as coisas é uma das suas formas de trabalhar. Exemplo: o assunto da dívida externa da América Latina, apareceu pela primeira vez nas suas conversas há alguns anos, e foi desenvolvendo-se, ramificando-se, aprofundando-se. A primeira coisa que disse, como uma simples conclusão aritmética, era que a dívida era impagável. Depois apareceram as medidas escalonadas: As repercussões das dívida na economia dos países, o seu impacto politico e social, a sua influência decisiva nas relações internacionais, a sua importância providencial para uma politica unitária da América Latina… até chegar a uma visão totalizadora, a que expôs numa reunião internacional convocada para o efeito e que o tempo se encarregou de demonstrar.
A sua mais rara virtude de politico é essa capacidade de vislumbrar a evoluções dos factos até às suas consequências remotas… no entanto, não exerce esta faculdade por revelações, mas como resultado de um raciocínio árduo e tenaz. O seu auxiliar supremo é a memória que usa até ao abuso em conversas privadas com raciocínios espantosos e operações aritméticas de uma rapidez incrível.
Tudo isto, requer o auxílio de uma informação incessante e bem mastigada e digerida. A sua tarefa de acumulação informativa começa desde o momento em que acorda. Pequena almoça com mais de 200 páginas de notícias de todo o mundo. Durante o dia, fazem-lhe chegar informações urgentes, calcula que cada dia tem que ler 50 documentos, a esses têm que se somar as informações dos serviços oficiais e as conversas com os seus visitantes e tudo aquilo que possa despertar o interesse da sua curiosidade infinita.
As respostas têm de ser exactas, pois é capaz de descobrir a mais pequena contradição numa frase casual. Outra fonte vital de informação são os livros. É um leitor voraz. Ninguém consegue explicar como tem tempo nem qual é o método que utiliza para ler tanto e com tanta rapidez, ainda que ele insista que não tem nenhum talento especial para isso.
Muitas vezes levou um livro de madrugada e na manhã seguinte comenta-o. Lê inglês mas não o fala.
Prefere ler castelhano e a qualquer hora está disposto a ler o mais pequeno papel que lhe caia nas mãos.
É um leitor habitual de assuntos económicos e históricos. É um bom leitor de literatura que segue com atenção.
Tem o costume de interrogar os seus visitantes. Perguntas sucessivas até descobrir o porquê do porquê do porquê.
Quando um visitante da América Latina lhe deu um dado apressado sobre o consumo de arroz dos seus compatriotas, ele fez os seus cálculos mentais e disse-lhe: que estranho, quer dizer que cada um come quatro libras de arroz por dia.
Uma das suas tácticas é perguntar coisas que sabe para confirmar os seus dados. E em alguns casos para medir o calibre do seu interlocutor e tratá-lo em consequência.
Não perde ocasião para informar-se. Durante a guerra de Angola descreveu uma batalha com tantos pormenores e minúcia, numa recepção oficial, que foi difícil convencer o diplomata europeu de que Fidel Castro não tinha participado nela.
O relato que fez da captura e assassinato do Che, o que fez do assalto do quartel da Moneda e da morte de Salvador Allende ou o que disse dos estragos do ciclone Flora, davam grandes reportagens faladas.
A sua visão da América Latina e do seu futuro, é a mesma de Bolívar e de Martí, uma comunidade integral e autónoma, capaz de mover o destino do mundo. O pais do qual sabe mais depois de Cuba, os Estados Unidos. Conhece a fundo as características da sua gente, as suas estruturas de poder, as segundas intenções dos seus governo, e segundas intenções dos seus governos, e isto ajudou-o a contornas a tormenta incessante do bloqueio.
Numa entrevista de várias horas, detém-se em cada assunto, quando se aventura em temas menos conhecidos, nunca descuida a precisão, consciente que uma só palavra mal usada pode causar estragos irreparáveis. Jamais recusou responder a nenhuma pergunta, por mais provocadora que seja, nem perdeu nunca a paciência. Sobre os que escamoteiam a verdade para não lhe causar mais preocupações que as que tem: descobre-o. A um funcionário que o fez, disse-lhe: Ocultam-me verdades para não me preocupar, mas no fim, quando descobrir, morrerei pelo choque de enfrentar tantas verdades que me deixaram de dizer. As mais graves, no entanto, são as verdades lhe ocultam para encobrir erros e deficiências, pois ao lado dos enormes sucessos que sustentam a revolução – as conquistas politicas, científicas, desportivas e culturais – há uma enorme incompetência burocrática monstruosa que afecta toda a vida diária e em especial a felicidade doméstica.
Quando fala com a gente da rua, as conversas ganham expressividade e a franqueza crua dos afectos reais. Chamam-no: Fidel. Rodeiam-no sem riscos, tratam-no por tu, discutem, contradizem-no, protestam, como num canal de transmissão imediata por de onde circulam a verdade aos borbotões. É então que se descobre o ser humano insólito, que o resplendor da sua própria imagem não deixa conhecer: um homem de costumes austeros e ilusões insaciáveis, com uma educação formal à antiga, de palavras cautelosas e ténues e incapaz de conceber nenhuma ideia que não seja descomunal.
Sonha que os “seus” cientistas encontrem o remédio final contra o cancro e criou uma politica externa de potencia mundial, numa ilha 84 vezes mais pequena que o seu inimigo principal.
Tem a convicção que a conquista mais do ser humano é a boa formação da sua consciência e que os estímulos morais, mais do que os estímulos materiais, são capazes de mudar o mundo e empurrar a história.
Ouvi-o nas suas escassas horas de meditação à vida, evocar as coisas que poderia ter feito de outra maneira para ganhar mais tempo de vida. Ao vê-lo muito aborrecido pelo peso de tantos destinos de pessoas, perguntei-lhe o que quisera fazer neste mundo, respondeu-me de imediato: parar num local qualquer.

Gabriel Garcia Marquez in Rebellion

 

 

 

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Artes, Cultura, Educação, Estética, Geral, História de Arte, Literatura, Mario Dionisio

No Centenário de Mário Dionísio

 

 

mario-dionisioO Projecto Sinestesia do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em colaboração com a Casa da Achada-Centro Mário Dionísio, o Museu do Neo-Realismo e a Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo, realizou de 27 a 29 de Outubro um Congresso Internacional sobre a vida e a obra de Mário Dionísio, cujo centenário ocorre este ano. “Como uma pedra no silêncio”, o título do congresso, condensa de forma sugestiva a vida e obra de um dos mais impares intelectuais portugueses do século XX.

Com uma vida dedicada ao ensino, em que foi marcante para muitas gerações de alunos rasgando novas perspectivas, fazendo-os questionar sempre algo para lá das fronteiras dos programas, Mário Dionísio tem obra relevante na literatura, na pintura, no pensar as artes e a estética.

Foi um dos teóricos do neo-realismo, sempre defendendo que as artes devem ter uma ideologia não para a servir, mas para a expressar. Uma posição singular no neo-realismo em que a qualidade artística e estética, ancorada na coerência ideológica, corria o risco de não se libertar de esquematismos ameaçadores e estiolantes por mais revolucionariamente bem-intencionados que fossem.

Nunca abandonou essa coerência de defesa das artes e da cultura, da sua relativa autonomia em relação aos processos históricos, situando-as como um dos alicerces fundamentais no processo de construção da sociedade.

Poeta e escritor notável, leiam-se O Riso Dissonante (1950) e Poesia Incompleta 1936/1965, O Dia Cinzento e Outros Contos (1965) e Não à Morte nem Princípio (1969)pintor quase desconhecido, embora tivesse participado com pseudónimos nas Exposições Gerais de Artes Plásticas, faz a sua primeira exposição individual com setenta anos de idade revelando-se um pintor, entre a figuração e a abstracção ou para se ser mais rigoroso que vai introduzindo experiências da abstracção na figuração até esta ser um signo distante mas presente, numa afirmação pictórica em que se nega a artificial separação entre forma e conteúdo. Essa sua intensa e plural actividade criativa decorre em simultâneo com não menos intenso trabalho de investigação sobre as artes, história e estética. São duas linhas paralelas que escapam à condenação de se encontrar num ponto qualquer no infinito. São duas linhas paralelas que não se confundem, correm em permanente contacto sobre um plano mais vasto, o da sua visão marxista do mundo em que sempre acreditou e a que nunca renunciou.

Em 1958 profere na Sociedade Nacional de Belas Artes uma conferência, Conflito e Unidade da Arte Contemporânea. Uma intervenção de aguda lucidez sobre os problemas da arte nos nossos tempos, que continua actual, pela inteligência com que se colocam questões e a elas se responde numa perspectiva aberta de futuro, sempre com as hipóteses provisórias e as certezas relativas de um pensador que está no seu tempo, para lá do seu tempo.

Por esse ano já tinha publicado um ensaio sobre Van Gogh e o primeiro volume de A Paleta e o Mundo, obra magna sobre teoria e história da arte contemporânea, sobre o pensamento e a criação estética.

Em onze capítulos, Mário Dionísio questiona e afirma a função social da arte, filtrando-a pelo seu sistema de relações: a arte e o público, a arte e a ciência, a arte e a sociedade, a arte e o artista, a arte e a arte. Ferramentas com que dialecticamente analisa esse sistema de representação do mundo e o mundo que é representado e transformado. Fá-lo sem dogmas, nem “enfeudamentos cronológicos” (*), realizando um ensaio original, de rara profundidade que o colocam como um dos mais importantes teóricos e pensadores da arte contemporânea.

No ano em que se comemora o centenário de Mário Dionísio espera-se, deseja-se que a Imprensa Nacional/Casa da Moeda cumpra o serviço público, a que deve estar obrigada e reedite A Paleta e o Mundo. O mínimo que se lhe pode exigir porque o que realmente deveria fazer era, além de reeditar esse opus magnum, procurar que fosse publicada noutros idiomas para ocupar o lugar que lhe cabe entre os grandes estudos sobre arte contemporânea.

 

(*)Maria Alzira Seixo, Pensar A Paleta e o Mundo, Notas para um Estudo, edição Casa da Achada-Centro Mário Dionísio

 

publicado no Jornal a Voz do Operário /Novembro

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capitalismo, Comunicação Social, direitos humanos, EUA, Fascismo, Geral, Guerra, Hitler, imperialismo, Miséria, Nazismo, Obama

EUA votam contra condenação do nazismo

 

 

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fotomontagem de John Heartfield

 

Anda o Prémio Nobel da Paz 2009, Barack Obama, a fazer o seu último périplo europeu como Presidente dos EUA, pregando os valores do mundo livre e da democracia e no Comité dos Direitos Humanos da ONU, os Estados Unidos da América, ainda sob a sua liderança e seguindo as linhas mestras dessa liderança, votaram contra uma resolução que condenava a glorificação do nazismo. Ao seu voto contra juntaram-se a Ucrânia e o Palau.

A resolução tinha o objectivo de  “Combater a glorificação do Nazismo, Neonazismo e outras práticas que contribuem para alimentar formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância relacionada”. Texto que muito incomodou a administração Obama que na declaração de voto considerou votar contra “Devido ao âmbito excessivamente estreito e natureza politizada desta resolução, e porque exige limites inaceitáveis à fundamental liberdade de expressão, os Estados Unidos não podem apoiá-la”. A hipocrisia, o cinismo não conhecem limites e acabam, mais cedo ou mais tarde, por se revelar em todo o seu esplendor. Compreende-se perfeitamente que um governo dirigido por um Prémio Nobel da Paz que foi dos presidentes dos EUA que mais países bombardeou, o exemplo mais flagrante é a Líbia que tantas alegrias provocou na sua secretária de Estado Hillary Clinton “Viemos, vimos e matámos”, que mais guerras directas ou por procuração provocou, o Médio-Oriente é o caso mais evidente, que mais intervenções em países estrangeiros fez, apoiando e financiando golpes de estado como nas Honduras ou na Ucrânia, não poderia condenar o nazismo. Todos os sofismas seriam válidos para votar contra tal resolução. A memória do apoio que o grande capital, sem nacionalidade nem credos, deu a Hitler não permitia tal desaforo, aprovado por 131 votos a favor, três contra e 48 abstenções. O voto dos EUA causa sérias apreensões. É bem revelador do que está nos alicerces do pensamento único dominante.

Este voto, é um voto que ajuda a impulsionar as direitas mais radicais. Quem se preocupa seriamente com o ascenso dessas direitas mais radicais em todo o mundo devia estar cada vez mais preocupado com o sistema de vasos comunicantes que as aduba. Com o crescimento do capital financeiro parasitário que tem provocado o obscuro enriquecimento de uma minoria cada vez mais minoria que se apoia num poderoso complexo militar-industrial, domina uma máquina brutal de desinformação e alimenta um pântano de descontentamento onde germinam os ovos da serpente fascista.

A preocupação justifica-se plenamente e deve unir todos os que querem combater este estado de coisas, que tem as mais diversas e variadas formas mas uma raiz comum. Muitos preocupam-se mas afogam-se na espuma, sem mergulhar nas águas profundas. As análises e os comentários às últimas eleições nos EUA são a evidência da confusão que por aí anda à rédea solta, gerada por enormes e sinceras preocupações mas sem conseguirem fazer uma radiografia mais fundamentada, ainda que sem tempo de distanciação para prever todas as suas consequências. Sem perceberem porque é que o mundo é cada vez mais um lugar perigoso e mais aberto às agressões imperialistas que não tem pejo em fazer as alianças mais espúrias na luta pela sobrevivência de um sistema mergulhado em profunda crise.

A não condenação do nazismo é bem denunciadora dos estados de alma do imperialismo e da ausência de qualquer travão que ainda salve as aparências. Quem não condena o nazismo acaba por ser seu cúmplice, por mais penas democráticas que cole no alcatrão das suas vestimentas e por mais cores que essas vestimentas tenham. Actualmente, como escreveu recentemente Jorge Cadima “uma coisa é certa: seja nos EUA ou na UE, a palavra de ordem é militarizar. Os povos nada têm a esperar dos defensores do grande capital, a não ser exploração, miséria e guerra.”

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fotomontagem de John Heartfield

 

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Política, Setúbal

Como protestar contra a tua autarquia

volvo_logo_detailQueres protestar contra a tua câmara municipal e não sabes como?

Fácil. Segue os seguintes passos e terás grande sucesso na tua carreira profissional.

1 – Verifica que carro tem o teu autarca. É um Volvo? Estás safo. Repete no Facebook até à exaustão que o autarca tem um Volvo, ignorando que custa o mesmo que alguns Renaults e passa ao passo seguinte. Se o autarca tiver um Renault, desiste já.

2 – Verifica se há algum ganso aprisionado no jardim da cidade e assegura-te de que os patos do lago desapareceram. Se a resposta for afirmativa estás safo. Faz um post no facebook a mostrar a tua indignação, ignorando que o ganso está resguardado para ser protegido das obras que decorrem no jardim. Passas assim por grande entendido nas matérias da cidade e, simultaneamente, por grande defensor dos animais. É o dois em um. Acrescenta que o autarca anda de Volvo e que o carro deve ter sido comprado com o dinheiro da venda dos patos.

3 – Se tiver sido substituído algum bebedouro de brecha da Arrábida no jardim da cidade, faz outro post no Facebook e insinua logo que alguém abarbatou o bebedouro. Passa a chamar-lhe fonte para dar grandiosidade à coisa. O sucesso é garantido. Passas a estrela do Facebook instantaneamente, mesmo que o bebedouro tenha sido substituído porque já não oferecia as mínimas garantias de salubridade. Insinua que alguém meteu o bebedouro dentro de um Volvo e o levou para casa.

4 – Se a câmara quiser fazer mais uma rotunda, junta-te ao grupo dos que protestam contra as rotundas e acusa algum autarca de estar a meter dinheiro ao bolso com a empreitada da obra para comprar mais um Volvo.

5 – Se a câmara quiser aumentar o estacionamento, recorda sempre que o Volvo do autarca pode estacionar em todo o lado sem pagar. Ignora que o carro é da câmara e não do autarca e não faz sentido a câmara pagar estacionamento a si própria, assim como o facto de quem se desloca em trabalho ter normalmente as despesas de estacionamento pagas pelas suas empresas.

6 – Se houver um descarregamento no porto de lixo importado para tratamento numa empresa especializada, criada por iniciativa de um qualquer governo com o qual até simpatizaste, ignora este último facto e acusa a câmara de estar distraída a comprar Volvos e não ter visto passar o barco com o lixo, mesmo que a autarquia não tenha qualquer responsabilidade no licenciamento de tais empresas, não controle o tráfego marítimo e nem sequer tenha autoridade para proibir o que quer que seja nesta matéria.

7 – Se a câmara não faz obra, protesta com veemência recordando só há dinheiro para Volvos.

8 – Se a Câmara faz muitas obras, protesta com veemência, garantindo que são obras desnecessárias, assim como o Volvo do autarca.

9 – Se for asfaltada uma qualquer rua da cidade, insinua de imediato que só é feita aquela obra porque o Volvo do autarca passa muito por ali.

10 – Se arranjarem uma qualquer avenida, apressa-te a garantir que o que deviam fazer era arranjar a rua do lado, mas não o fazem porque o Volvo do autarca não passa por lá.

12 – Repete até caíres para o lado que a tua cidade tem o mais alto IMI do país, mesmo que tal realidade ocorra em mais 32 câmaras municipais, na maior parte dos casos por imposição legal. Acrescenta que deve ser para os autarcas andarem de Volvo e comprarem mais Volvos.

13 – Argumenta que o IMI só não baixa porque os autarcas não querem. Não precisas referir que até agora nunca nenhum governo se quis comprometer, preto no branco, que a Câmara da tua cidade pode baixar o IMI porque sabem que há um quadro legal que a impede de baixar o imposto e, na verdade, preferem deixar os autarcas andarem de Volvo, mas arder em lume brando.

Cumpriste todos estes passos?

Serás um profissional de sucesso no protesto contra a tua autarquia e podes começar a pensar em prestar serviços noutras cidades.

Talvez até consigas comprar um Volvo…

Nota 1– A Volvo não patrocina este texto.

Nota 2 – Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

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Geral, Política

Notícias do Diabo

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