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007’s RASCAS e PERIGOSOS

Os 007’s andam por aí em roda livre, sem o gozo nem as peripécias bem engendradas dos guiões cinematográficos. Estes têm objectivos bem definidos, saudosos da Guerra Fria, são rascas e muito mais perigosos.

007

Em Alice no País das Maravilhas, a Rainha de Copas tinha um modo expedito e garantido de resolver todas as dificuldades grandes ou pequenas:“cortem a cabeça!” sem perder tempo a procura de justificação para o acto. À sua semelhança, os dirigentes do «mundo livre» cortam cabeças a esmo verbalmentequando passam à prática, as vítimas são milhões.

Na fronteira entre as alegações do Ocidente e da Rússia sobre o caso Skripal, algumas notas para despejar alguma água fria, racionalismo e realismo, (não confundir com neutralidade ou independência, uma moeda falsa com bastante curso) nos recentes ataques do Ocidente à Rússia que tinham como pano de fundo as vésperas de eleições presidenciais nesse país, antes de Putin ser reeleito como era prevsivel, da Grã-Bretanha estar em evidentes dificuldades nas negociações do brexit, das eleições em Itália adubarem os eurocépticos por toda a Europa, do exército sírio e seus aliados estarem à beira de tomar Gouta e de se ter tornado uma evidência que os terroristas, assim chamados pelos media ocidentais em Mossul, logo travestidos em rebeldes em Gouta como o foram em Aleppo, sequestrarem os civis e dispararem sobre os que se aventuram nos corredores humanitários e terem os instrumentos para fabricar armas químicas, da guerra comercial que está a ser instalada com o proteccionismo norte-americano e mais uns quantos mas não despiciendos conflitos de baixa e média intensidade em que se procura manter a unipolaridade norte-americana que está a ser fissurada.

Notas que têm bem presente duas frases de Georges Orwell que se aplicam perfeitamente ao autodenominado «mundo livre»: para sermos corrompidos pelo totalitarismo, não temos que viver num país totalitárioe “numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um acto revolucionário.“
Primeira Nota– Os «novitchoks», supostamente usados na tentativa de assassinato de Skipral e filha, em que o químico Mirzanyanoy trabalhou num laboratório secreto da União Soviética podem, escreveu ele em 1995 nos EUA onde reside fugido da Rússia, ser fabricados num qualquer laboratório químico de relativa sofisticação. Num livro publicou várias fórmulas de armas químicas, que andam a circular na internet.. A dra Robin Black, chefe de um laboratório investigação militar em Porton Down, Salisbury, numa declaração feita em 2016, coloca alguma dúvidas:Nos últimos anos, tem havido muita especulação sobre uma quarta geração de agentes nervosos (inovações “Novichok”) tivesse sido desenvolvida na Rússia, tendo sido iniciada nos anos 70 do século passado como parte do programa “Foliant”, com o objectivo de encontrar agentes que pudessem comprometer as contramedidas defensivas. Informações sobre estes compostos têm estado dispersas no domínio público, provenientes principalmente de um químico militar russo dissidente, Vil Mirzayanov. Não há confirmação independente da estruturas ou que as propriedades desses compostos tenham sido publicadas”.

São conhecidos outros países que estudaram a mesma tipologia de compostos químicos como a Checoslováquia, a Eslováquia, a Suécia, a Inglaterra e os EUA.

Segunda NotaA investigação e desenvolvimento das armas químicas na União Soviética estavam centralizadas num laboratório no Uzbesquistão, onde trabalhou Mirzanyanoy, república que se tornou independente quando da desagregação da União Soviética e não integra a Federação Russa. Actualmente, quem tem presença militar nesse país asiático são os EUA com uma base militar. Anote-se que os EUA participaram activamente no desmantelamento do referido laboratório de armas químicas.

Terceira Nota– Theresa May e o comissário Neil Basu, chefe do departamento anti-terrorista da Scotland Yard, tem que se entender. Ela conclui muito rápida que “ a única explicação possível é o Estado Russo ser responsável da tentativa de assassinato de Serge Skripall e a filha” imediatamente corroborada por essa personagem altamente credível que é Nikki Haley, provocadora com várias mentiras no currículo de embaixadora dos EUA na ONU, embora nas suas teatradas não tenha ainda alcançado o patamar de Colin Powell quando desdobrou mapas com a localização de fábricas de armas de destruição no Iraque que não existiam. Diz ela:“ pensamos que a Rússia é responsável(…)”. Macron em linha “tudo leva a crer” no que é acompanhado por Merkel são muitas as pessoas que pensam que”. Neil Basu que já ninguém ouve nem interessa ouvir disse que “o assunto é tão complexo que só uma investigação de semanas o poderá esclarecer”. Uma declaração que fica silenciada debaixo das pedras de explicação possível”, pensamos que” , tudo leva a crer”, “são muitas as pessoas que” , o que é o necessário e suficiente para às investigações dizerem nada ou prepararem-se para fazer investigações de que o Conselho Consultivo Científico (Scientific Advisory Board, SAB) da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPCW) é convenientemente excluído, talvez por não reconhecido os “novichoks” como armas químicas, porque encontrou poucas evidências de que existam.

Quarta Nota– Alguma estranheza deveria provocar tudo isto acontecer em Inglaterra.

Já Alexander Litvinenko, que se transferiu dos serviços secretos russos para os ingleses e fazia por conta própria contrabando de armas nucleares, foi supostamente assassinado a mando da Rússia, era Theresa May, ministra da Administração Interna. Agora com Serge Skripal, Theresa May é primeira ministra. A histeria é rápida e igual. As dúvidas de Jeremy Corbyn e de outros deputados trabalhistas, lembrando casos como as armas de destruição maciça do Iraque, são rapidamente enterradas ou mesmo nem sequer referidas na comunicação social estipendiada ao serviço do pensamento único.

Nada disto se estranha ao recordar as declarações de Carla del Ponte, que se demitiu da Comissão de Inquérito Independente da ONU para a Síria, depois de ter feito várias denúncias sobre o uso de armas químicas pelos «rebeldes», apontando para o Conselho de Segurança que “não quer fazer justiça”. Lembrar que Carla del Ponte, de 1999-2007, procuradora do Tribunal Penal Internacional para a Jugoslávia, acusou duramente Slobodan Milosevic que antes de ser condenado, o que tudo indicava ser mais que garantido, morreu na prisão e anos antes de completamente inocentado pelo mesmo tribunal dos crimes de que era acusado. Não se poderá dizer que Carla del Ponte seja um agente do Kremlin.

Quinta Nota– A propalada credibilidade da Inglaterra, o rigor dos seus procedimentos nos inquéritos é arrasada em séculos de histórias de mentiras e hipocrisias. Um dos últimos e excelentes exemplos é o relatório do embaixador Chicot sobre a guerra desencadeada por Bush e Blair contra o Iraque. Se por um lado diz que “Em março de 2003, não havia nenhuma ameaça iminente de Saddam Hussein contra o Ocidente” por outro acrescenta que a guerra foi baseada em dados imperfeitos da inteligência e levada adiante de maneira totalmente inadequada”, afirmando que as circunstâncias com as quais foi estabelecida a guerra estavam “longe de serem satisfatórias”. Uma linguagem de trapos ao gosto dos diplomatas, que abriu a porta para Tony Blair se escudar na sua “boa fé”, coisa de que o inferno está cheio. Quantos “dados imperfeitos” ou “decisões inadequadas” são necessárias para desencadear guerras reais ou diplomáticas em circunstâncias “longe de serem satisfatórias” ?

Sexta NotaMuito mais apreensivo e alarmado fica-se ao ouvir o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, reafirmar a solidariedade da NATO perante o ocorrido que se insere num “padrão temerário de comportamento russo ao longo de muitos anos”. O norueguês deu como exemplos “a mistura de armas nucleares e convencionais em doutrina e exercícios militares”. Conclui-se que só à NATO é permitido misturar essas armas em exercícios militares, que é o que tem feito e intensificado ao longo dos últimos anos.

Alega o uso crescente de “tácticas híbridas, como soldados sem insígnias” deve estar a referir-se a acusações feitas pela Ucrânia, em relação à presença de soldados da Federação Russa sem insígnias na Crimeia e nas regiões de Donetsk e Lugansk. A Ucrânia é fonte pouco confiável como é sabido, e tem sido várias vezes desmentida pelos observadores da OSCE que ninguém pode acusar de estar ao serviço dos separatistas ou dos russos. Não deixa de ser curioso que os países da NATO andem a infiltrar no Médio Oriente, em particular na Síria, tropas especiais descaracterizadas, alguns já foram presos pelas forças governamentais sírias, e usem mercenários em larga escala. Como classificará Stoltenberg essa soldadesca e as missões que desempenham a mando dos países da NATO? O homem deve sofrer de forte estrabismo divergente. Olha para a mesma “táctica híbrida”, de um lado vêcticas condenáveis do outro lado táticas legítimas.

Refere a anexação da Crimeia; o apoio aos separatistas na Ucrânia”. Na Ucrânia houve um golpe de estado de forças de direita, para-fascistas e fascistas apoiado pela União Europeia mas sobretudo pelos EUA, como esclareceu de forma célebre para que não houvesse dúvidas Victoria “Que se Foda a Europa” Nuland, mulher de mão de Hillary Clinton nessas golpadas. A NATO tem apoiado, treinado e armado as tropas regulares e os grupos para-militares que integram dois batalhões do Exército Islâmico, facto real mas menos referido, que nesse país lutam contra os separatistas ucranianos. Será de lembrar que a Crimeia só integrou em 1954 por decreto a República Soviética da Ucrânia. Foi sempre uma região autónoma onde a população russa é maioritária. Tem um enorme interesse estratégico para a Rússia que tem lá instalada uma poderosa base militar no que é o seu único acesso ao Mediterrâneo. É uma evidência que se a Crimeia não tivesse por referendo retornado à Federação Russa, a esquadra do Mar Negro russa seria rapidamente expulsa, fechando de forma impetuosa o cerco que se tem vindo a fazer à Rússia depois da desagregação da União Soviética, o que explica esta disputa e o interesse na Ucrânia e na Crimeia, a ordem é comutativa, para o Ocidente. Outra evidência é que a Rússia conhecendo bem a região, sabendo muitíssimo bem que a população russa e russófona era largamente maioritária recorreu ao referendo para legalizar o retorno da Crimeia à situação de região autónoma, estatuto que tinha desde o tempo dos czares.

Sublinha A presença militar na Moldávia e Geórgia”. Comparar a presença militar na Moldávia e Geórgia com as bases da NATO que existiam e as que, depois do fim da guerra fria, foram implantadas à volta da Rússia, é, no mínimo, extraordinário. Na Europa, são 50 as bases da NATO em doze países que aceitaram que aí fossem instaladas e armazenadas armas nucleares. Há que referir que a presença russa na Geórgia localiza-se nas regiões autónomas associadas a esse país que reinvindicam e querem manter autarcia. Para a anular foram invadidas a mando de Mikheil Saakashvili, na altura presidente da Geórgia, um amigo do ocidente. Um personagem que iniciou a carreira política no Instituto de Direitos Humanos na Noruega, antes de se candidatar e ser eleito presidente da Geórgia contra Eduard Shevardnadze, figura de proa da perestroika mas apesar disso menos confiável para o Ocidente, em eleição fraudulenta que nem os observadores enviados pela UE conseguiram ocultar. Decidiu invadir a Abcássia e a Ossétia que recorreram à Rússia para defenderem o seu estatuto. Saakashvili é hoje um apátrida. Acusado de inúmeras fraudes, fugiu da Geórgia para se albergar na Ucrânia, refugiando-se nos braços amigos de Poroschenko que, depois de lhe conferir a nacionalidade e a governação de Odessa, acabou por o expulsar e retirar a nacionalidade. Tudo gente do mesmo gabarito. Não se sabe, mas é bastante provável, que continue a receber os favores da NATO de que é ardente apologista.

Fala da A ingerência nas eleições ocidentais”. Acusação curiosíssima que ou é um atestado de estupidez às populações desses países ou é a admissão que dezenas de anos de agressão comunicacional, de mentiras e semi-verdades, esclerosaram tanto a esmagadora maioria dos povos submetidos ao pensamento dominante até os fazer perder sentido crítico pelo que são facilmente manipuláveis tanto por uns como por outros. Um bom exemplo são os media corporativos não questionarem Jens Stoltenberg sobre nenhuma dessas suas considerações, um atestado de idiotia a quem as ouve, feitas com o cinismo de quem sabe que não será desconfortado por uma plateia subserviente.

Sublinha o envolvimento na guerra na Síria”. Um pedregulho no sapato. Andam os EUA e os seus aliados da Nato a invadir o Iraque, a plantar primaveras árabes com os resultados conhecidos, a olhar para o lado para não verem a catástrofe humana brutal que acontece no Iemen, a apoiar o rei da Arábia Saudita e os emires seus amigos que fazem Bashar el-Assad parecer um democrata, a inventar financiar e armar uma oposição democrática moderada síria, uma ficção que é uma porta escancarada para financiar e armar o Estado Islâmico, a Al-Qaeda e mais uns tantos grupos de igual quilate que espalham o terrorismo localmente e pelo mundo e a Rússia decide intervir, a pedido do governo sírio, para combater o terrorismo. Não é admissível, há que condenar quem trama o terrorismo amigo da NATO. Stoltenberg é espaldado por Boris Johnson, ministro dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha, um dos principais fornecedores de armas à Arábia Saudita que delas tem feito uso intensivo no Iemen, que tem o desaforo de dizer que “há uma relação directa entre a indulgência manifestada por Putin para com as atrocidades cometidas por Bashar-el-Assad na Síria e o Estado russo não ter dúvidas em usar uma arma química em território britânico”. Não se exime a atribuir culpas directas a Putin mas cobardemente acrescenta que é “muito provável”. Insinua mas não assume. Atira a pedra e esconde-se dentro de um caixote de lixo de onde a história não o resgatará.

Essa gente, que andou pelo norte de África e Médio-Oriente a espalhar a morte e a destruição, a matar e a destruir a vida de milhões de pessoas na base de mentiras e meias-verdades, está tão convencida que dezenas de anos a controlar e manipular a informação lhes permite continuar a martelar nas cabeças que as julgam todas formatadas, prontas a aceitar sem questionamentos qualquer coisa que lhes seja vendida mesmo se embrulhada em papel manhoso. Estão à beira de um ataque de nervos por verem as suas criminosas políticas irem por água abaixo na Síria, os terroristas amigos a ser derrotados. Não os preocupa nem nunca os preocupou que o regime de Assad fosse ou seja opressivo. O verdadeiro crime da Síria é a sua independência em relação aos EUA, seus aliados da NATO e a Israel. Num mundo que os EUA querem, com o apoio dos seus aliados, dominar o que lhes é intolerável é que um país, independentemente da sua dimensão, poder económico, político ou militar, se manifeste soberano e autónomo, não se vergue aos seus ditakts.

Clama o secretário-geral da Nato que a Rússia “apagou a linha entre a paz, a crise e a guerra”. Proclamação de um terrorista verbal que procura um pretexto para passar à acção. Um ventríloquo dos trump´s & companhia, nas suas variegadas versões, de hoje como foi dos de ontem e será dos próximos, capaz de negar todas as evidências para vender cenários de guerra que a propaganda ocidental travestida de informação vende diariamente em doses maçiças para originar uma histeria colectiva cega.

Esperar pelos resultados de uma investigação credível não interessa às theresasmays & companhia. Aliás, no ponto que se atingiu, nem parece possível uma averiguação rigorosa. Segue o caminho de outros inquéritos ditos independentes em que algumas das partes interessadas, portadoras de informações importantes, são exiladas para não perturbarem as conclusões que circulam pelos media de modo a não possibilitar que se separe a verdade da mentira. Lembre-se, é sempre bom soprar as brasas da memória para iluminar as situações, o que se passou com Viktor Ioutchenko. Em 2004, todo o Ocidente vociferou contra a cumplicidade da Rússia na tentativa de envenenamento do candidato pró-ocidental por ucranianos seus adversários. Estranhamente ou não, Ioutchenko eleito presidente, com todo o aparelho de Estado à sua disposição não mexeu uma palha para investigar e acusar quem o tinha tentado envenenar. Porquê? A questão é, como diria Sherlock Holmes ao seu caro Watson, num crime a primeira pergunta é quem é beneficiado. A histeria colectiva dentro e fora da Ucrânia foram forte suplemento para a eleição de Ioutchenko. Objectivo alcançado deixou de ter interesse apurar a verdade.

Como disse Harold Pinter, ao receber o Prémio Nobel da Literatura em 2005, “existe uma manipulação do poder à escala mundial, se bem que mascarando-se como uma força para o bem universal, um esperto, mesmo brilhante, acto de hipnose de grande êxito”. É o que contumazmente tem acontecido em dezenas de anos praticando acções que seguem os princípios da Rainha de Copas na Alice no País das Maravilhas “Condene-se primeiro, investigue-se a seguir”.

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Os resultados são trágicos com milhões de vitimas inocentes. Como dizia um personagem do filme de João César Monteiro Le Bassin de John Wayne “hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas”.

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Comunicação Social, Cultura Mediática, Georges Orwell, Geral, Media, mercados, pesamento único, Política, Propaganda

«SPLEEN»

A vida social, económica e política é filtrada pelos meios de comunicação social. A infantilização, a idiotização que propagam, é uma pedra de fecho. Nada é inocente. O objectivo é que nem sequer seja possível pensar que é possível pensar um mundo outro. Há que lutar, no inferno destes tempos estúpidos, por valores nos antípodas dos que nos são vendidos de sol a sol.

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Discurso Eleitoral, João Abel Manta, desenho a tinta da china, 1969

Não haverá uma tradução que exprima a amplitude do significado de spleen, o que explica porque Baudelaire o utilizou, sem tentar traduzir, no título de um grupo de poemas Spleen de Paris e no título de vários dos poemas dessa série(*). Spleen é o que Walter Benjamin descreve “como o sentimento que corresponde à catástrofe em permanência”. Nos tempos que se estão a viver é determinante para o pensamento único impor um sistema a partir de condições pré-estabelecidas para dissuadir os homens de intervir. Vive-se mergulhado num permanente spleen.

Sistema que faz prova de vida como se fosse um caleidoscópio em que, sempre com os mesmos cristais, quando se roda o tubo se transforma a desordem numa nova ordem e as sucessivas imagens virtuais simulam uma pulsação que não existe nem desinquieta a base com que se formam novas imagens. A realidade permanece quase imutável por debaixo das camadas de maquilhagem que se vão acumulando deixando intocado o essencial. A perversidade é a crescente importância que as imagens virtuais adquirem para garantir a quase imobilidade do sistema, num cenário em que o simulacro e a simulação substituíram a realidade. Vive-se um presente empobrecido em que o pensamento débil é preponderante, o mau estar intelectual está contaminado pelo niilismo e o relativismo, a cultura é sepultada e ressuscitada pela efemeridade das modas que a torna cada vez mais inculta, os clichés vulgarizam-se como se fossem apotegmas. Tudo sinais da profunda crise que se vive e se diverte a traçar cenários de futurologias tão fundamentadas como as previsões astrológicas.

A vida social, económica e política é filtrada pelos meios de comunicação social, dos tradicionais, ferreamente controlados pela plutocracia que os detém, aos aparentemente livres como as redes sociais que funcionam como uma válvula de escape que está sempre na mão de quem tem poder efectivo sobre o algoritmo, pronto a regular a pressão, a denunciar quem sair doas fronteiras impostas pelo seu quadro normativo dominado pelo pensamento único.

Nesses universos nada é inocente. O grande objectivo é que nem sequer seja possível pensar que é possível pensar um mundo outro. Para que não haja pontos de fuga e o mundo que continue a ser TINA (Tere Are No Alternative), entrincheirado na crença que tudo é resolúvel e eternizável com opções gestionárias. Nada de novo na frente ocidental como o Príncipe de Falconeri tinha antecipado “para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude. O reino do Leopardo triunfante, mesmo quando desconhece Maquiavel, o que é incerto. É assim que Trump sucede a Obama, Theresa May a Cameron, Macron a Hollande, Junquers a Durão Barroso, Merkel a Merkel e…

Nesse processo em contínuo a infantilização, a idiotização que os meios de comunicação social propagam é uma pedra de fecho. Acende-se o ecrã televisivo para fazer zapping pelos programas de inutilidades que os empapam de manhã à noite com apresentadores que querem causar uma boa impressão ao vazio com que preenchem horas e horas a debitar, sem nenhuma convicção, banalidades. São muitas horas consumidas nos vários canais televisivos, a variedade não implica diversidade, em programas em qualquer género de notícia, com destaque para o desporto que se resume ao futebol, a repetir e sobrepor dissertações num português de chuto em força para a frente, o que replica um país onde a ileteracia é um problema mas têm três jornais diários, com tiragens assinaláveis, dedicados ao desporto, onde mais uma vez o desporto é residual, o futebol dominante. Apavorante é dar uma rápida olhada aos comentários ajavardados dos leitores nesses mesmo jornais on-line, que nos prepara para não se ficar assombrado pelos que são feitos às restantes noticias mesmo que mais brunidos, 

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Monumento Nacional 1, João Abel Manta, desenho a tinta da china e fotografia, 1969 .

O quadro completa-se se à vulgaridade e estupidez dessas tertúlias adicionadas às mesas-redondas temáticas, os comentários políticos, económicos e sociais, os alinhamentos noticiosos de notícias fabricadas com falsa independência, o que traça um panorama que tem por objectivo incapacitar atingir-se uma consciência crítica da realidade.

Uma teia que se estende adrede sobre a sociedade em que se tropeça com cada vez mais frequência. É ver como crescem nas livrarias as estantes com livros de auto-ajuda de psicologia a pataco, do misticismo de vencer na vida e ser feliz aceitando a pobreza real e espiritual como um valor de uma sociedade onde sempre houve pobres e ricos, opressores e oprimidos, não tem nenhuma dignidade para oferecer.

Um sistema prenhe de subtilezas que planta onde pousa, e pousa em todos os lados e por todos os lados, o lixo de uma subcultura reles, corriqueira que têm no entretenimento vazio o seu alfa e ómega. Um muro construído com todas as pedras da lógica da desculturização e da despolitização para cercar eficazmente a utopia enquanto exploração do possível, de se ir além do imediato. Um muro que protege esse mundo estandartizado onde tudo é feito para que se acredite que a verdadeira vida é assim, submetida à ditadura da necessidade, em que “ a liberdade se deve submeter às urgências do processo da própria vida”( Hannah Arendt), em que, na melhor das hipóteses, a garantia de morrer de tédio é vendida como garantia de não morrer de fome. Um processo em que a impotência induzida cerceia a liberdade individual, a própria identidade.

Entretenimento vazio que idiotiza a sociedade, empurra a cultura para um bullying em que se corrompe e que, como avisa lucidamente Blanchot, acaba por “não pode fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio, contra o qual nos protege, dissimulando-o”.

No mundo actual a sociedade da informação, reforçada com a expansão do ciberespaço, é dominada pelas plutocracias que, por essa via, se tornam mais poderosas e mais eficazes na captura dos estados e dos partidos políticos que perderam horizontes ideológicos e a quem dão apoios variáveis em função dos seus interesses económico-financeiros. O entretenimento vazio, a tralha informativa são os seus poderosos pilares, pensados para paralisar os seres humanos, para os encerrar nos cárceres do pensamento único dando-lhes como única saída possível o suportá-lo estoicamente num simulacro de liberdade que é um modo de manipular a humanidade.

Vive-se um tempo absurdo, imerso em spleen. que ter bem presente, nesse estado catstrófico, o aviso de Walter Benjamin: “para que as coisas «continuem como estão», é isso a catástrofe!”, com a certeza possível de que “o conceito de progresso assenta na catástrofe”(W.B). Há que trabalhar sobre a(s) catástrofe(s) em que está mergulhada esta sociedade para lhe retirar as gangas, encontrar as estradas do progresso. Há que lutar no inferno destes tempos estúpidos contra este tempo estúpido, por valores nos antípodas dos que nos são vendidos de sol a sol, com uma obscena violência e uma contumácia que não desfalece. Há que lutar sem tréguas, passo a passo, minuto a minuto porque ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante”( Georges Orwell) e porque, como escreveu Marx numa carta a Ruge, «Nós não confrontamos então o mundo, de um modo doutrinário, com um princípio novo: Está aqui a verdade, ajoelhai-vos! Nós desenvolvemos para o mundo, a partir dos princípios do mundo, princípios novos.». É com príncipios novos com a idade de Marx mas que estão sempre a ser inovados que se deve lutar contra este mundo que nos procura asfixiar.

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A Praia dos Pássaros Esquisitos, João Abel Manta, desenho a tinta da china, 1970

(*)Quando o cinzento céu, como pesada tampa,/Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta, /E a sua fria cor sobre a terra se estampa, /O dia transformado em noite pardacenta; // Quando se muda a terra em húmida enxovia/D’onde a Esperança, qual morcego espavorido,/Foge, roçando ao muro a sua asa sombria,/Com a cabeça a dar no tecto apodrecido;//Quando a chuva, caindo a cântaros, parece/D’uma prisão enorme os sinistros varões,/ E em nossa mente em febre a aranha fia e tece,/Com paciente labor, fantásticas visões,// – Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes,/Lançando para os céus um brado furibundo,/Como os doridos ais de espíritos errantes/Que a chorrar e a carpir se arrastam pelo mundo;/Soturnos funerais deslizam tristemente/Em minh’alma sombria. A sucumbida Esp’rança,/Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente,/Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!

Charles Baudelaire, in “As Flores do Mal”; O Spleen de Paris; LXVII Spleen,; Tradução de Delfim Guimarães

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt)

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Gesualdo, Uma Música Sublime

carlo gesualdo

Carlo Gesualdo nasce em meados do séc. XVI no ambiente complexo da Contra-Reforma em Itália, numa família politica e económicamente poderosa que governava o principado de Venosa, que integrava o Reino de Nápoles e das Duas Sicilias, que pertencia ao reino de Espanha. Família ligada por laços de parentesco, do lado paterno e materno, a figuras cimeiras da Igreja, os arcebispos de Milão e de Nápoles, o papa Pio VI. Com a morte do irmão mais velho, Carlo Gesualdo é o herdeiro desse património. Casa com a bela Maria d’Avalos, filha do conde de Pescara, assegurando a continuidade e ampliando o seu poderio temporal. Tudo muda na vida de Carlo Gesualdo quando a sua mulher se torna amante, com algum escândalo público, de Fabrizio Carafa, duque de Andria. Gesualdo apanha-os em flagrante, mata-os com requintes violentos. As histórias à volta do sucesso divergem. Uns registam que os esquartejou dispersando os corpos, outros que expôs a mulher nua de braços e pernas abertas e o homem vestido com a roupa da mulher. Pormenores que compõem a imagem do príncipe assassino e o drama dos dois amantes, com ecos literários variados desde Torquato Tasso, na época, a Aldous Huxley, nos nossos dias.

Criou-se um mito à volta desse personagem, mito que se ampliou em histórias extraordinárias quando após o crime se retira para o seu castelo e se dedica à música que desde a juventude lhe tinha interessado. Fá-lo em ou em quase segredo o que de certo modo se explica porque para os aristocratas da altura os músicos eram o topo da criadagem com alguns direitos especiais.

O segredo é parcialmente violado quando, depois do seu segundo casamento com a sobrinha do conde de Ferrara, frequenta essa corte e participa com algumas obras não identificadas nos concertos que aí se realizavam, vindo posteriormente a publicar dois livros de madrigais. Num tempo em que os artistas eram protegidos pelos mecenas Gesualdo era mecenas de si-próprio, o que não deixa de ser relevante pelo suplemento de liberdade que a si-próprio atribuia. Gesualdo era completamente livre de escolher o que compunha e como compunha. Era o príncipe Gesualdo de Venosa que encomendava as obras ao compositor  Carlo Gesualdo que estava isento de agradar a mecenas ou ao público. Gesualdo podia dar livre curso ao seu gosto, com os temas que escolhesse e num estilo que elegesse. Isto associado ao seu temperamento e à sua vida, explicam muito do visionarismo, da selecção dos textos poéticos que faz, da sua música marcada por uma expressivisdade intensa, uma gama de inesperadas dissonâncias que traduzem para a música a dor, a cólera, o desejo, a violência, uma extrema sensibilidade.

Uma música deliberadamente provocante e simultaneamente de certo modo arcaica no seu tempo, que não recorre a instrumentos musicais nem ao baixo continuo, escrita para um conjunto de vozes em que nunca surge um solista. O que talvez se explique pelo seu percurso de vida em que, fracassado o segundo casamento, se refugia no seu castelo fazendo-se flagelar diariamente por jovens nos intervalos em que escrevia música, o que deu voz aos rumores sobre às suas tendências homossexuais e masoquistas. É um homem solitário, longe do mundo, expiando as suas culpas. São cenários apropriados para se construirem lendas sobre a realidade de uma vida sobressaltada. Gesualdo tornou-se uma figura quase mítica explorada no filme de Werner Herzog Gesualdo: Morte para Cinco Vozes.

O que não é nem pode ser objecto de especulações são os seis livros de madrigais e os três de música sacra que escreveu e publicou. Na sua época tiveram pouco impacto, foram reedescobertos na vaga de renovação que a música antiga sofreu no séc. XX, sendo um dos primeiros compositores a ter grande notoriedade pela utilização pouco ortodoxa que faz da harmonia, simultaneamente cromática e dissonante. Os textos, o amor e o sofrimento físico e espiritual que lhes são associados com relativa normalidade atingem em Gesualdo os extremos da desventura, de um constante tormento que os amplificam com uma dramatização inesperada que a música fragmentada acentua. Os madrigais de Gesualdo são uma confissão impúdica e desesperada. São uma música singular que fascinou Stravisnky que lhe dedicou Monumentum pro Gesualdo.

A música sacra obriga Gesualdo a conter excentricidades e extremismos a que se entregava quando escrevia música profana. O seu último livro de música sacra é dedicado às Lições das Trevas, celebradas nos dias santos da Páscoa, quinta e sexta-feira, sábado, que antecedem a ressurreição. Muitos compositores, refira-se Allegri, Thomas Victoria, Couperin, Charpentier, escreveram Lições das Trevas. Em Gesualdo as Lições das Trevas o contraste entre os salmos e as antifonias estão cunhadas pelo estilo muito pessoal de inquietitude, de punição,dos enigmas do pecado que transporta para umas Tenebrae em que escutamos uma música divina que nos afasta das orações e de qualquer pensamento cotaminado por sentimentos de fidelidade religiosa, embora seja fundamente mística.

Dia 24, na Igreja de São Roque com início às 18h00, os Graindelavoix vão interpretar a integral das Tenebrae, Responsórios da Quaresma e da Semana Santa de Gesualdo. Um concerto com a duração prevista de três hora e meia.

Com o impacto e o reconhecimento que Gesualdo alcançou quando da redescoberta e renovação da música antiga são muitas e boas as interpretações das Tenebrae. Refiram-se as do Hilliard Ensemble, Taverner Consort, Tallis Scholars, Ensemble Vocal Européen, Oxford Cammerata. Nem todas são integrais como os Granddelavoix vão realizar nesse comcerto. Conhecendo-se o trabalho que esse grupo tem realizado, a forma radicalmente inovadora das suas interpretações da música antiga há uma imensa expectativa por ouvir essa sua leitura de Gesualdo, depois de se ter ouvido os seus anteriores concertos em Lisboa, nomeadamente a Missa de Notre-Dame de Machaut.

Ao ouvir este Gesualdo não se pode deixar de imaginar que música escreveria para esta extraordinária Tenebrae de Paul Celan. Infelizmente três séculos as separam.

TENEBRAE


Estamos próximos, Senhor,

próximos e à mão.

Já agarrados, Senhor,

enlaçados um no outro, como

se a carne de cada um de nós

fosse a tua carne, Senhor.

Reza, senhor,

reza por nós,

estamos próximos.

Enviesados seguíamos,

caminhávamos para nos inclinarmos

sobre o vale e a lagoa.

Íamos ao bebedouro, Senhor.

Era sangue, era aquilo que tu

derramaste, Senhor.

Brilhava.

Lançaram a tua imagem aos nossos olhos, Senhor.

Os olhos e a boca estão tão abertos e vazios, Senhor.

Nós bebemos, Senhor.

O sangue e a imagem que estava no sangue, Senhor.

Reza, Senhor.

Estamos próximos.

(tradução Luis Costa)

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Carolina Maia, Clara Zetkin, Dália Rodrigues, Escola de Mulheres, Fernanda Lapa, Geral, Isabel Medina, Luísa PInto, Maria Lamas, MDM,Movimento Democrático das Mulheres, Olympe Gourges, Teresa Magalhães, Teresa Villaverde

Nesta semana, Um Cosmorama de Mulheres

Adão e Eva Lucas Cranach

Adão e Eva, Lucas Cranach

Nossa gratidão para com as mulheres deve ser infinita. O primeiro gesto que inicia a história da humanidade, tem a idade do homem, é de uma mulher. Da primeira mulher quando limpa o olhar animal e faz o homem e a mulher descobrirem o corpo, a forma abstracta do corpo, do seu próprio corpo e do corpo do outro. Que os liberta dos constrangimentos dos calendários do cio para aprenderam que o sexo não é uma simples actividade das chãs premências de prolongar a espécie, que o sexo aperfeiçoa o corpo. É esse gesto primeiro que inicia a humanidade nos labirintos do erotismo e da descoberta dos sentidos, não só os sentidos físicos mas também dos sentidos ditos espirituais que é o trabalho de toda a história do mundo até hoje. É esse gesto primeiro que derruba os muros daquele campo de concentração de virtudes e ignorâncias que era o paraíso, onde o genocídio do conhecimento é feito pelas legiões de anjos e arcanjos que protegem o reino de deus que não é o reino do mundo por onde, a primeira mulher e o primeiro homem se aventuram para se libertarem da animalidade pelo trabalho, pelo fabrico e aperfeiçoamento dos utensílios que adaptam para civilizar a natureza. É esse gesto inicial que modifica o homem porque é o trabalho que faz dele o animal de raciocínio que continua a ser.

Não ficaram gratos como deveriam ter ficado os homens que só pela mão, pelo poder de persuasão e sedução dessa mulher que ousou desafiar a cólera divina, terem tido acesso a saberes que estavam ocultos, que fizeram do homem o homem, ao longo da breve mas já longa, história da humanidade. Um caminho de pedras para as mulheres onde se lhe negaram direitos, impuseram deveres, descobriram capciosas diferenças em competências simétricas. Em que se cavaram trincheiras para manter as desigualdades, obrigando-as a séculos de luta por direitos idênticos.

Uma luta dura e áspera que hoje se celebra em quase todo o mundo no Dia Internacional da Mulher, instituído pelas Nações Unidas em 1975, para assinalar a longa luta das mulheres pelas conquistas dos direitos sociais, políticos e económicos.

É de lembrar que pela primeira vez, na sequência da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a precursora dos movimentos feministas, Olympe de Gouges, propõe a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã que a mesma Assembleia Nacional Constituinte não aprovaria. Só mais tarde, na Comuna de Paris, em 1871, com o primeiro governo operário da História, é proclamada a igualdade entre os sexos o que viria a ser revogado pelo governo reaccionário de Thiers que a esmagou com violência inaudita.

Dois acontecimentos que são o culminar de muitos séculos de lutas das mulheres para verem reconhecidos os seus direitos. Luta que continuaria de forma mais organizada e colectiva pelas sufragistas inglesas que reinvindicavam o direito de votar, direito que viria a ser reconhecido na Nova Zelândia, em 1893, o primeiro país do mundo a reconhecer o sufrágio universal feminino. Uma luta que emergia em muitos outros países e se desenvolvia dentro da luta mais geral pelo reconhecimento às mulheres da igualdade dos direitos sociais, económicos e políticos.

Uma luta dura, áspera que culmina com a ideia de criar o Dia da Mulher no final do século XIX início do século XX, nos Estados Unidos e na Europa, no contexto das lutas femininas por melhores condições de vida e trabalho. De modo formal, em 26 de Agosto de 1910, durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em Copenhague,  Clara ZetkinClara Zetkin, uma das lideres da Partido Social Democrata Alemão de orientação marxista, dirigido por Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht que viriam a ser assassinados pelos esbirros da República de Weimar, propôs a instituição de uma celebração anual das lutas pelos direitos das mulheres trabalhadoras, o Dia Internacional da Mulher. Uma ideia, um longo caminho percorrido e a percorrer, mesmo nos países onde as mulheres têm os seus direitos reconhecidos, onde são maioritárias nas ciências, nas humanidades, nas artes continuam sem o devido reflexo nos lugares de decisão política, social e de gestão, onde continuam a ser minoritárias.

O mundo evoluiu e, apesar de muito do sentido original subjacente ao Dia Internacional da Mulher, do espírito das mulheres operárias grevistas, tanto na Europa como nos Estados Unidos, se ter alterado e o ter tornado em muitos lugares num dia de luta festivo e as reinvindicações dos movimentos feministas se terem ampliado a outros campos, não perderam sentido. Refira-se que só em 1951 a Organização Internacional do Trabalho, estabeleceu princípios gerais, visando a igualdade de salários entre homens e mulheres para exercício da mesma função, o que ainda não acontece.

Hoje, apesar de universalmente as mulheres terem ultrapassado os homens em muitas áreas, são mais as mulheres escolarizadas que os homens, são mais as mulheres com estudos superiores que os homens, são mais as mulheres doutoradas e com pós-graduações que os homens, são mais as mulheres investigadoras nas áreas científicas que os homens, a desproporção entre homens e mulheres nos quadros dirigentes políticos, empresariais, sociais continua a não refletir essa realidade. A precaridade, esse mal dos nossos tempos, atinge mais as mulheres que os homens. O caminho para a igualdade de género está a ser feito, muitos passos positivos têm sido dados mas está ainda longe de ser uma totalidade. O reconhecimento implícito ainda não é explicito o que se comprova pela necessidade de recorrer a um sistema de quotas, como existe em Portugal.

Segundo dados da National Academy of Science, uma organização não governamental dos Estados Unidos em que estão representadas as diversas Academias das Ciências, Engenharia e Medicina, só 20% das mulheres são chefes executivas nas suas empresas onde são mais numerosas que os homens e desempenham funções equivalentes. Na Europa os números não são diferentes e a desigualdade salarial é chocante. Estatisticamente, números do Eurostat, as mulheres em relação aos homens trabalham em média um mês, um mês e meio sem serem remuneradas. Nos parlamentos dos países democráticos a média das mulheres deputadas é de 20%, só em onze são 40%. Os números alinham-se para não deixar dúvidas que, se em todo o mundo, os direitos das mulheres têm feito o seu caminho, um caminho positivo em que Portugal está, nas estatísticas europeias, entre os melhores classificados no referente à presença das mulheres na sociedade, muito há ainda que caminhar, o que demonstra que o Dia Internacional da Mulher não perdeu o significado.

Em Portugal, depois da Revolução do 25 de Abril com a democracia e as liberdades conquistadas, as mulheres ganharam mais liberdades e direitos que os homens, dada a condição subalterna em que viviam. Em várias gerações, com o processo democrático iniciado em 25 de Abril, as mulheres rapidamente adquiriram qualificações em que se destacam nas mais diversas áreas. O reflexo dessa alteração, como as estaísticas comprovam, é hoje bem real mas ainda não é expressão do lugar que as mulheres deveriam naturalmente ocupar dadas as altas qualificações laborais e académicas que detém.

Saudemos e celebremos todas as mulheres no primeiro ano depois do centenário do Dia Internacional da Mulher, dando-lhes relevo nestas breves notas de sugestões culturais, certamente com muitas omissões.

Na Biblioteca Nacional e até 19 de Maio a exposição Mulheres Fazendo História. Uma exposição organizada pelo MDM, Movimento Democrático das Mulheres, em que se destaca a vida e obra de Maria Lamas com debates a 20 de Abril sobre Violência Doméstica e a apresentação de uma aplicação digital de apoio às vitimas de violência doméstica e a 19 de Maio, sobre Os Direitos das Mulheres, Derivas e Desafios.

A Escola de Mulheres-Oficina de Teatro celebra o seu 23º aniversário no dia 8,escola de mulheres

quando iniciou o seu trabalho e publicou um Manifesto em que assumia privilegiar o trabalho feminino em todas as vertentes do Teatro: Autorias, Intérpretes, Técnica e as questões do feminino através de textos que reflictissem as questões que as afectam sem dar imagens estereotipadas das Mulheres.

Para comemorar essa data realiza, durante três dias, 8, 9 e 10, o ciclo “A Mulher e a Escola de Mulheres” com lançamento do Catálogo dos 23 anos da Companhia., uma.
apresentação em powerpoint de imagens dos espectáculos, um
vídeo do espectáculo da apresentação pública
da Companhia,
uma leitura encenada de Cheias de Graça de Isabel Medina. Finaliza com um colóquio sobre o Dia Internacional da Mulher e a Situação
da Mulher no Teatro
, com a participação de mulheres e homens do teatro. Dia 9. um colóquio com Dália Rodrigues e Isabel Medina e uma produção da Escola de Mulheres e Caçadores de Anjos sobre “A Prostituição e o Trafico de Mulheres”. A fechar o ciclo, dia 10, A Mulher na Prisão/O Teatro, com o documentário de Luísa Pinto e Caroline Maia, Rompendo os Muros da Prisão, com reclusas e reclusos dos Estabelecimentos Prisionais de Santa Cruz do Bispo, com texto O Filho Pródigo, de João Maria André e Helder Wasterlain que se encerra com um debate em que participam Fernanda Lapa, Luísa Pinto, Caroline Maia e João Maria André. O ciclo decorre no espaço da Escola de Mulheres, no Clube Estefânia, sempre com início às 21h30 e entrada livre.

No dia 10 o CENA-STE organizam um evento no Teatro São Liuz, às 18h00 sobre As Mulheres no Trabalho Artístico- Direitos e Igualdades no Espectáculo.

Ainda no teatro a exposição fotográfica 120 Anos de Amélia Rey Colaço, mulher que marcou o teatro português no século XX, no Teatro Nacional Dona Maria II, até 30 de Setembro.

Cores da natureza Teresa magalhaes

Cores da Natureza, Teresa Magalhães

Nas artes visuais no Museu Grão Vasco, em Viseu, até 29 de Abril, a exposição de pintura de Teresa Magalhães, As Cores da Natureza. Em Lisboa, no dia 10,Teresa Dias Coelho, na Galeria Monumental inaugura uma exposição de desenho.

No cinema estreia-se na próxima semana em várias cidades, Colo de Teresa Villaverde. Um filme sobre uma mãe trabalha em dois empregos enquanto o seu marido ficou desempregado. Têm uma filha adolescente. As dificuldades que se vão acumulando, gradualmente afastam-nos uns dos outros, uma tensão cresce em silêncio e culpa. O filme é uma reflexão muito actual sobre o nosso caminho comum como sociedades europeias de hoje, sobre o nosso isolamento, a nossa perplexidade perante as dificuldades que nos vão surgindo, sobre a nossa vida nas cidades e dentro das nossas famílias. Colo,

já fui estreado em vários países, esteve presente em vários festivais, foi o grande prémio Bildrausch Ring of Cinema Art do festival suíço Bildrausch

Na literatura as reedições de O Manto de Agustina Bessa Luís, de Entre Raiz e a Utopia e Descobri que era Europeia de Natália Correia. Livros novos de Alice Vieira, Olha-me como Quem Chove, de Adília Lopes, Estar em Casa.

No Centro Nacional de Cultura encerra-se Personagens Femininas na Literatura Portuguesa, dia 12 Maria das Mercês de O Delfim, de José Cardoso Pires, dia 19 Blimunda de Memorial do Convento, de José Saramago e dia 26 Maria Amélia de Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo.

Mea culpa pelas muitas mulheres que ficaram certamente ausentes nesta resenha em que a Mulher está no centro na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher.

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt)

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Artes, Geral, Leonardo da Vinci, Renascença

LEONARDO DA VINCI GENIAL ARTISTA E VISIONÁRIO

Leonardo da Vinci

O que nas categorizações da história se chama ‘Renascença’ é um período que se situa entre os anos de 1.300 e 1.600. O sentido do termo é o de um renascimento do homem, da sociedade e da humanidade que retoma os ideais clássicos (greco-romanos) e marca o fim da Idade Média, com o feudalismo em declínio a dar lugar a monarquias centralizadoras e ao capitalismo nascente, como Marx e Engels enunciaram, nomeadamente no Manifesto Comunista, anotando os aspectos, na época revolucionários, sublinhados no prefácio de Engels à primeira edição italiana do Manifesto, onde também anota os seus reflexos nas artes referindo Dante como o último poeta da Idade Média e o primeiro da Renascença. É uma nota importante por o espírito renascentista considerar a Idade Média, como um tempo de trevas, um conceito que, durante largo tempo teve acolhimento e só foi revisto na historiografia moderna.

A raiz dessa ideia está na grande expansão criativa que marcou a Renascença, das ciências às artes, criando o estereótipo do Homem da Renascença caracterizado pela diversidade de conhecimentos, a procura de novos sentidos para a sua própria existência com a consequente nova concepção do ser humano e uma nova compreensão do mundo, num contexto muitíssimo complexo bem descrito por Marguerite Yourcenar na Obra ao Negro.

Se há alguém que corporize esse arquétipo é Leonardo da Vinci. Pintor, escultor, arquitecto, botânico, anatomista, matemático, engenheiro, geómetra, cientista-artista, artista-cientista. Um visionário, artista e inventor com uma inteligência, uma criatividade e uma inquietude que nunca o abandonaram.

Na pintura, o núcleo central da sua actividade, os seus quadros e frescos são notáveis não só pela arte mas também pelas técnicas que utilizava em que estava sempre a inovar, criando novos pigmentos, novos meios para os produzir, novos instrumentos para as realizar. Paralelamente produziu milhares de páginas contendo esboços, desenhos, anotações com esquemas das mais variadas armas de guerra, máquinas de voar, aquedutos, estudos anatómicos, de proporção, de botânica, de geometria. São muitos os seus escritos sobre todas essas áreas. Menos divulgados são os seus textos sobre culinária. Não são de estranhar sabendo-se do seu trabalho nas cozinhas quando era criança e o ter sido nomeado pelos Sforza, uma das mais poderosas famílias da renascença italiana, Mestre de Folias e Banquetes, cargo que ocupou durante treze anos, em que juntamente com receitas excêntricas, que na sua opinião procuram “civilizar” os grandes pratos do Renascimento, estabelece normas de etiqueta e de higiene e, como seria expectável, desenha máquinas para secar roupa, assadores automáticos, um separador de rãs da água potável, um saca-rolhas para esquerdinos, uma trituradora gigante, um cortador de ovos, um enrolador de esparguete, etc. Esse seu interesse pela cozinha poderia ser tema de uma exposição, tal como os muitos outros temas por onde espalhou a sua genialidade.

Leonardo nasceu em 1452, perto de Vinci, na Toscana, filho ilegítimo de uma aldeã com um tabelião. Viveu primeiramente em Florença, onde estudou com Verrocchio. Mais tarde, mudou-se para Milão, onde se tornou conhecido e pintou a celebérrima Última Ceia, que lhe ocuparam três anos. O auge de sua carreira coincidiu com as alianças entre César Borgia e o rei francês Luís XII, quando recebeu o título de engenheiro-geral de toda a Toscana. Em 1513, seguiu para Roma, onde viveu uma experiência curta, mas intensa. Retornou a Milão, viajou bastante, por fim, estabeleceu-se na França, sob o reinado de Francisco I, por não ver “nenhum príncipe italiano a quem se dirigir, já que Rafael reina no Vaticano, Michelangelo em Florença e Ticiano em Veneza”. Em 1516, instalou-se no castelo de Amboise, onde morreu dois anos depois.

Do muito que escreveu sublinhe-se este apotegma: “O Bom pintor é aquele que é capaz de representar duas coisas principais, chamadas Homem e Os Trabalhos da Mente do Homem”.

É uma parte importante desses trabalhos da mente do homem, do homem Leonardo da Vinci que agora se podem ver em Lisboa, até 29 de Abril, no torreão poente da Cordoaria, numa exposição intitulada Leonardo da Vinci-O inventor.

São apresentadas em tamanho real mais de 20 das suas invenções, explicadas em milhares de desenhos, diagramas feitos por Da Vinci, que possibilitam a feitura de interessantes animações em 3D. É uma viagem fascinante a uma parte significativa do que esse génio visionário nos legou.

Helicóptero

(publicado no jornal  Avante! , 1 de março)

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Artes, assédio sexual, Exploração Sexual, Feminismo, Geral, Sedução, sociedade, Violência Doméstica

Assédio e Sedução

The-Lovers

Apaixonados, Pierre-Auguste Renoir, 1948

As denúncias de assédio sexual vulgarizaram-se de tal forma que correm o risco de tudo o que de tanto repetido acaba por criar o seu próprio silêncio. Denúncias quase totalmente protagonizadas por alguéns que pertence a um mundo muito distante de outro em que milhões de mulheres têm infinitamente menos recursos e menos acesso a tudo, aos direitos básicos, aos direitos ao trabalho, à saúde, à educação, à justiça, aos direitos sociais, económicos e políticos em que, mulheres e homens são quotidianamente assediados por uma sociedade que não tem nenhuma dignidade para lhes oferecer.

Espanta-se o mundo com tanto assédio sexual de homens poderosos sobre mulheres igualmente poderosas, secundarizando que o assédio sexual está directamente ligado ao poder económico. É uma forma de exercício do poder económico sobre as mulheres que o têm sofrido nos lugares de trabalho, na rua, em casa. Também embora em muitíssimo menor grau homens têm, terão sido assediados, o que mais sublinha uma arcaica e persistente desigualdade entre homens e mulheres o que justifica a continuação da luta das mulheres pela igualdade de direitos, de todos os direitos em que elas são menos iguais que eles, mesmo nas sociedades em que se têm aproximado.

Ninguém tem o direito de exercer sobre o outro a sua vontade se essa não for a vontade do outro. O assédio sexual deve ser denunciado com o mesmo vigor que o são a violação, a violência doméstica, a exploração sexual. As fronteiras são porosas, têm a mesma raiz. As variantes são mais formais que substantivas.

A excessiva mediatização, sobretudo o modo como essa mediatização é realizada, acaba, pelo menos corre o grande risco, de transformar uma justa denúncia numa parada de estrelas de um feminismo que enlouquece o ponteiro da bússola que tem orientado todas as justas lutas feministas, apontando-a para um subjacente medo por todos, quase todos os homens, onde muitas vezes se queima na mesma caldeira o que é assédio, um exercício unipolar, e o que é sedução, um exercício multipolar. A confusão que se gerou foi, é tão funda que, em contraponto às inúmeras denúncias de assédio sexual que lustram a comunicação social, mulheres, sintomaticamente igualmente poderosas socialmente, vieram a terreiro manifestar o seu prazer em serem desassossegadas pelos homens que têm, no seu dizer displicente “a liberdade de importunar”, uma afirmação patética da sua futilidade, exatamente por não perceberem o que distingue radicalmente o assédio da sedução.

As avenidas comunicacionais onde têm desaguado inúmeros textos e imagens sobre o assunto concorrem, na sua grande maioria, para embotar a sensibilidade social e por tornar a vulgaridade e a estupidez em coisas normais. Um entretenimento vazio com o objectivo de não se alcançar uma consciência crítica da realidade. As vozes lúcidas quase ficam sepultadas nas catadupas das banalidades que sobre este tema como sobre todos os outros temas, nomeadamente políticos e económicos, se transformaram na normalidade de uma sociedade e de um tempo anormal, que é o nosso tempo, “em que tudo é permitido por estar cinicamente perdoado” (Kundera).

Felizmente, para mulheres e homens, continua vivo um feminismo que está de boa saúde, continua forte, depois de muitos anos de lutas persiste em lutar para mudar mentalidades e reivindicar a igualdade em todos os azimutes. No tema em questão contra o assédio sexual e pela sedução sem sexo.

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"Star-System", Artes, artes visuais, Fredric Jameson, Geral, História de Arte, Imperialismo Cultural, Jeff Koons, João Laia, José Luís Porfírio, Joseph Koons, leo ferré, Nathalie Heinich, Nöh Mercy, Von Calhau, Vox Pop

ARTE?

KoonsJeff Koons, um dos mais artistas contemporâneos com maior cotação no mercado das artes, ofereceu à cidade de Paris a maqueta de uma escultura(?), obra original e monumental, para ser realizada com dez metros de altura em bronze, aço e alumínio, custo estimado três milhões de euros, de uma mão empunhando um ramo de túlipas. A única originalidade, as túlipas repetem as muitas que tem plantado em várias exposições, é a mãozinha, um bom exemplo de como Koons é um artista medíocre. Qualquer aluno do primeiro ano de escultura numa qualquer escola de artes deveria ser chumbado se produzisse aquela coisa que é validada por ser desenhada pelo “artista” norte-americano que só o é e tem a cotação por ser suportado pelo negócio que contamina as artes contemporâneas, organizado pelos vendedores das multinacionais do hiperluxo, por uma “crítica” de arte que não existe enquanto crítica, fabrica bulas de marketing publicitário que avaliza as escolhas dos curadores, esse baixo clero das artes do nosso tempo. É uma, mais uma, demonstração do que José Luís Porfírio, com a lucidez e o conhecimento que o caraterizam, enuncia: Cada vez mais o valor venal de um objecto artístico é considerado o seu único valor objectivo, ou mesmo, sem confusões o seu único valor, numa tempo em que os “curadores” não devem pensar porque estão sempre entre duas actividades promocionais onde a arte é, sempre e só, mercadoria e o público se alicia com mentiras, ou melhor (pior) não verdades.

Em França, várias personalidades do universo intelectual contestam que a cidade se deixe aprisionar pela teia de interesses espúrios que têm um único objectivo, contribuir para solidificar a cotação especulativa dos objectos produzidos pelo atelier de Koons que se tornou “num emblema de uma arte industrial, espectacular e especulativa”. Um alarme tardio sobre no que se tornou o “Paradigma da Arte Contemporânea”, para aceitar as teses de Nathalie Heinich, reunidas num livro que tem esse título.

A questão já tem uns anos, tem sido objecto de várias e bem fundamentados teses, das mais pertinentes as de Fredric Jameson nos seus vários ensaios sobre o pós-modernismo. Uma prática artística que não coloca questões porque não tem nada para dizer e se dedica a explorar os limites das transgressões numa sociedade débil, entediada pelo seu próprio tédio e onde tudo se aceita e está cinicamente perdoado, desde que tenha valor de mercado. Mesmo as mais aparentemente contundentes não passam de encenações para consumir um tempo desgastado de uma sociedade de inutilidades retóricas que se acumulam sem sentido para se esquecerem no momento seguinte.

Em Viena, em 1970, vários artistas organizam performances em que mijaram e defecaram em público. Piero Manzoni fabricou e vendeu numa exposição quarente e oito caixas de conserva em que se dizia no rótulo conter a merda do artista. No museu de Anvers, Wim Delvoye expôs uma máquina em que literalmente se reproduzia o ciclo alimentar, da ingestão à excreção dos excrementos que recuperava e vendia com um preço por quilograma. Performances recuperadas por cantores punk. Em São Francisco, Nöh Mercy vai para o palco grávida, simula o parto, num grande banho de sangue falso, dá à luz um osso de vaca. Em Los Angeles, num concerto dos Vox Pop. uma mulher nua corre entre os tocadores e cantores, retira um tampax da vagina, atira-o para a multidão. Alguns flagelam-se brutalmente com navalhas e lâminas, numa auto-humilhação que atingiu o seu máximo com o artista norte-americano Paul McCarthy, horrorizando mas não escandalizando o público. Todas as fronteiras são violadas sem quebrar a imobilidade do nosso tempo como Leo Ferré proclamava “Escuta, escuta…no silêncio do mar, há como um balanço maldito que acerta as horas/ na areia que ascende um pouco, como as velhas putas que refazem a sua pele, desfazem as rugas // A imobilidade…A imobilidade perverte o século”.

A imobilidade que faz assistir às mais parvoides exibições que se vendem como arte. São acondicionadas por farfalhadas como a que, ainda recentemente a pretexto de uma exposição da dupla portuguesa Von Calhau, numa exposição que ainda está em exibição em Londres na galeria Kunstraum, subsidiada pela Fundação Gulbenkian, Instituto Camões e embaixada de Portugal em Londres, o programador independente João Laia, com largo currículo de exposições, a doutorar-se em curadoria, escreveu: “Com recurso a esses diferentes meios, e explorando constantemente a miscigenação de referências e elementos das mais diferentes extrações, os Von Calhau! têm vindo a construir um imaginário e uma cosmogonia muito próprios, esotéricos e sincréticos, a partir dos quais interrogam a nossa condição no mundo, ao mesmo tempo que averiguam o sentido da colaboração inerente a tudo aquilo que fazem”.

Alguém ou o próprio consegue decifrar este pedaço de prosa? Em anexo um video de uma “obra” dos Von Calhau como auxiliar descodificação.

Assim vai, para nossa danação, a arte contemporânea.

Resta-nos acreditar em Leo Ferré, no final do já citado poema-canção Il n’y a Plus Rien: (…) não morreremos em vão/ viveremos para sempre// E os micróbios da parvoíce que insistem / em nos legar / enchendo as vossas estrumeiras / dos vossos livros empilhados nas vossas bibliotecas/ dos vossos documentos públicos/ dos vossos regulamentos da administração penitenciária/ dos vossos decretos/ das vossas orações, mesmo / de todos os micróbios jurídicos/ Estejam tranquilos/ Nós já temos as máquinas para os triturarem// NÓS TEREMOS TUDO// nos próximos dez mil anos.(*)

(*) tradução livre da minha responsabilidade

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