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No meio da Festa

XIX BIENAL

Este ano a Bienal da Festa do Avante! Realizou a sua décima nona edição. Da primeira, realizada no Jamor, a esta na Atalaia, a Bienal tem variado no tipo de participação na base de um formato que, no essencial, se tem mantido com participação aberta e artistas convidados. A diferença entre a primeira e a XIX, está na selecção por júri dos participantes. Uma inovação que, salvo erro, foi introduzida na terceira Bienal. Com o decorrer do tempo uma nova secção passou a integrar as bienais, a de atribuir um dos seus espaços a uma disciplina específica das artes. A primeira foi preenchida por jovens escultores da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, a deste ano pela Arte Urbana.

A grande diferença entre a Bienal da Festa do Avante! e as bienais de artes que se realizam por todo o mundo é a da Festa do Avante! se excluir da órbita do capitalismo cultural, em que as bienais, feiras de arte e variantes se inscrevem, que é dominado pelos museus, galerias, onde as cotações das obras de arte e dos artistas são determinadas, posteriormente afinadas nos leilões. Revistas de arte de referência, a maior parte propriedade desses agentes do mercado, fazem anualmente listas dos quinhentos artistas mais cotados e das cem pessosa mais influentes no mundo das artes. Refira-se que nos últimos anos alguns portugueses têm figurado nessas listas. Na primeira lá se encontra Joana Vasconcelos, na segunda já lá esteve o comendador Berardo, o que diz muito e quase dispensa comentários. Esse sistema, em tudo semelhante ao sistema bancário, colocou o mercado das artes num nicho do mercado de artigos de luxo. Os espaços dos museus e galerias são espaços com uma aura de sacralidade onde as obras se tornam intemporais. Uma aura que O’Doherthy, artista e teórico, comparou ao das igrejas medievais e que vale dinheiro. A Bienal da Festa do Avante! tem tudo o que as outras bienais têm, menos o ser um espaço com essas características. Vai ao encontro das pessoas, muitas delas, provavelmente a maioria, não são ou não eram frequentadores habituais de galerias. Isso altera não as obras de arte, mas a visão das obras de arte. A mesma obra de arte que já esteve exposta numa galeria é outra obra de arte quando é exposta na Bienal da Festa do Avante!

A surpresa que constituiu a realização da I Bienal diluiu-se com o tempo. Nos dias de hoje os visitantes da Festa do Avante! sentiriam a sua ausência. Numa Festa que todos os anos não é sempre a mesma, que se renova e rejuvenesce sem fadiga, a Bienal deve corresponder a essa legítima expectativa, o que tem procurado fazer nas suas sucessivas edições. A próxima, a vigésima, tem a obrigação de ser um salto qualitativo, como é usual nos números redondos dos calendários.

Este ano a Bienal acolheu o que se designa universalmente por Arte Urbana. Aparentemente uma contradição porque a Festa do Avante! sempre foi uma grande e variada mostra de arte urbana na multiplicidade dos seus espaços, em que a imaginação se solta para os animar visualmente. Devem ser lembrados os grandes paineis, realizados por artistas, dos mais destacados no nosso panorama artístico, que iluminaram a Festa na Ajuda. Anos atrás, na Atalaia, quando se homenageou Malangatana, foi exposto um grande painel por ele pintado expressamente para a Festa do Avante! São ainda de recordar os paineis pintados por Rogério Ribeiro que, além de durante muitos anos deixar o seu risco sempre inovador em todo o recinto da Festa, os pintou com a genialidade que transparece em toda a sua obra.

Hoje a Arte Urbana entrou no léxico universal depois de muitos anos ser olhada de lado pelo sistema artístico. Artistas como o britânico Bansky ou o português Vhils têm obra espalhada pelo mundo. São solicitados para realizarem intervenções nas mais distantes cidades. São objecto de exposições em galerias e museus. Têm estilos que os fazem reconhecer rapidamente, com a facilidade com que reconhecemos Goya ou Vieira da Silva. Depois de muitos anos em que os grafitis, os precursores da Arte Urbana, serem considerados transgressores e perseguidos, os poderes instituidos perceberam que a Arte Urbana enriquecia cultural e artisticamente os seus espaços, as paredes degradadas das suas cidades. Começaram a usá-los para os ornamentarem e taparem feridas. Os artistas que praticam Arte Urbana ultrapassaram essa função ornamental, criando verdadeiras obras de arte.

Portugal sempre foi um espaço particular na ocupação das paredes degradadas. Há que lembrar os murais que invadiram o país no pós 25 de Abril em que, por vias muito diferentes, se distinguiram os murais do PCP e do MRPP, as forças mais activas e criativas. O PCP pela convocação de artistas seus militantes ou ideologicamente próximos que pintavam colectivamente os murais. O MRPP, na base de um trabalho prévio de desenho depois transposto para as paredes por grupos especializados. Na altura, essa actividade causou escandalo na Europa reaccionária que via nos murais um sinal da “anarquia” provocada pela Revolução de Abril. Outros tempos. Como outros tempos são os de hoje em que na mesma cidade, Lisboa, que se orgulha e exibe pelo mundo a sua galeria de Arte Urbana, se incentiva essa actividade e se prendem, identificam e humilham jovens da JCP que pintam murais com mensagens políticas. A Arte Urbana também é usada para domesticar as paredes.

A inclusão da Arte Urbana na Bienal da Festa do Avante! traduz o reconhecimento dessa realidade e as obras que foram produzidas em directo, antes e durante a Festa, são uma radiografia não só do que ela é mas do que ela está a ser. A diversidade das obras representa bem os novos caminhos que os artistas que se dedicam, com êxito, a essa nova categoria artística estão a explorar. De como se estão a libertar de um processo conceptual originariamente muito ligado à banda desenhada e à arte pop. Depois desta primeira intervenção é bastante provável, mesmo desejável, que a Arte Urbana adquira outra expressão no contexto geral da Festa.

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Memórias de Anos Pós- 25 de Abril / Os 25 Anos do 25 de Abril em Grândola, a Vila Morena

É norma que algumas datas comemorativas de um mesmo acontecimento tenham um impacto maior que outras. Não é a mesma coisa comemorar os doze anos ou os vinte sete anos do 25 de Abril do que comemorar um quarto de século da Revolução dos Cravos ou, daqui a uns anos assinalar os seus cinquenta anos.

Em 1999, o 25 de Abril fazia 25 anos. Data que, como exige a tradição, tinha que ser comemorada com mais intensidade, sobretudo em Grândola, a Vila Morena. O vereador da Cultura, Pedro Pedreira, prematuramente desaparecido, Isabel Revez, directora do Departamento em que se inscrevia a Divisão de Cultura e eu, na altura estacionado em Grândola a assessorar a Câmara em várias áreas , nomeadamente a da cultura. constituímos o núcleo central da organização das Comemorações. Foi um trabalho intenso, com grande espírito de equipa, que se realizou com a participação activa e empenhada de todos os trabalhadores da autarquia. Semanas, meses de trabalho que também foram uma festa.

Quero recordar, com orgulho a que não me eximo, sem menorizar nenhum outro evento da vasta programação que se organizou, iniciativas em que desempenhei papel central, em que algumas ultrapassaram os limites temporais e continuam a marcar Grândola.

A primeira decisão foi a de se desenhar uma imagem gráfica condizente com a importância das Comemorações. Foi convidar para a fazer José Santa-Bárbara, não só pela sua inquestionável qualidade artística mas também por ser o autor de muitas das capas dos discos de José Afonso, nomeadamente as Cantigas de Maio, onde se inscreve Grândola, Vila Morena. Santa-Bárbara teve a ideia brilhante de arrancar os sobreiros da planície alentejana substituindo-os por frondosos cravos.

Em memória de Zé Afonso, António Trindade

Em memória de Zé Afonso, António Trindade

As outras tinham a ver com o facto de Grândola, pela sua orografia, ser uma terra de passagem entre importantes centros do Portugal medievo. Por essa circunstância, não tinha castelos, monumentos nem sequer um centro histórico assinalável, embora com um centro tradicional bem interessante. Surgiu imediatamente a ideia de, aproveitando o quarto de século da Revolução de Abril, dotar a vila com várias esculturas, com ligação mais directa ou mais oblíqua com a conquista da liberdade. Ideia que Pedro Pedreira e Isabel Revez apoiaram com entusiasmo.

mural grandola Bartolomeu Cid dos Santos

O Povo é Quem mais Ordena / Bartolomeu Cid dos Santos

Pensando em quê e em quem, elaborei um memorando, logo avalizado por esse grupo de trabalho. Convidei o António Trindade para fazer uma escultura evocativa de Zé Afonso, Jorge Vieira os 25 anos do 25 de Abril, Bartolomeu Cid dos Santos, O Povo é Quem mais Ordena, estas em Grândola, João Limpinho, Os Poetas Populares, no Carvalhal. A esse grupo de artistas bem conhecidos no meio artístico, agreguei um jovem escultor, Isaque Pinheiro que realizou, A Cultura saiu á Rua num Dia Assim, em Melides. Com Bartolomeu Cid dos Santos e João Limpinho tive ainda o prazer e o privilégio suplementar de colaborar directamente, nas suas obras. Desenhei a parede e o embasamento do mural de azulejos concebido por Bartolomeu. Trabalho interessantíssimo em que discutimos fundamente a forma que melhor poderia corresponder, destacar e dar melhor leitura aos painéis de azulejos, o frontal e o de tardoz, que o Bartolomeu idealizou.. Entre o primeiro desenho e a forma final, “partimos muita pedra”. A forma final muito nos agradou. Mais fácil foi desenhar a parede de suporte para a escultura do João. A simplicidade genial da ideia do João Limpinho de transformar as lâminas de enxada nas “caras” dos poetas populares facilitou o desenho da parede suporte, uma alusão muito estilizada a esse objecto de trabalho agrícola, Procurando que nada fique esquecido registe-se que os cálculos de engenharia, obviamente mais complexos em relação O Povo é Quem mais Ordena, foram feitos por Horácio Sotero, engenheiro da CMG. Hoje, quando passo por Grândola, onde vivi anos felizes, continuo a olhar para essas intervenções escultóricas com o prazer e o legítimo orgulho de ter tido essas iniciativas, sempre suportadas pelo entusiasmo e empenho do Pedro Pedreira e da Isabel Revez.

Jorge Vieira

25 Anos do 25 de Abril / jorge Vieira

Lembro que dramaticamente o Jorge não viu a sua obra em circunstâncias que me abalaram profundamente. Por várias circunstâncias a decisão para a encomenda das esculturas, atrasou-se, o que obrigou os artistas a trabalhar com prazos muito apertados nas maquetas de molde a possibilitar a sua concretização. Qualquer escultura consome meses na sua realização. Com Abril no horizonte até ao fim do ano as maquetas tinham que estar feitas. Assim sucedeu com todos e claro com o Jorge Vieira. No dia 23 de Dezembro de 1998, pelo meio-dia, telefona-me o Jorge para me convidar a ir à sua casa em São Bento de Ana Loura, Estremoz, no dia 26, para ver a maqueta. Vários prazeres conjugavam-se. Ver a maqueta, almoçar com o Jorge e a Noémia, refira-se que o Jorge era um excelente cozinheiro, conviver, um convívio sempre muito vivo e estimulante, alegrado pela finíssima ironia, uma imagem de marca do Jorge. Eram onze horas da noite desse mesmo dia 23, quando volta a tocar o telefone. Do outro lado um grande amigo comum, recentemente desaparecido, o Zé Alberto Manso Pinheiro que, consternadíssimo, anunciava que o Jorge tinha sido vitimado por uma síncope. Nunca esquecerei o murro que levei. Chorei como não me lembro de alguma vez ter chorado. Choraria outra vez abraçando a Noémia desfeita pela dor. A vida que dá tantas alegrias também maltrata de forma violenta, muitas vezes inesperada.

JoãoLimpinho

Os Poetas Populares / João Limpinho

No meio de tanto sucesso, nem tudo correu bem. Por exemplo, por um acaso daqueles que só acontece no cinema, raramente na vida real, estava no Teatro de Almada com o Joaquim Benite, quando alguém, no alvoroço provocado já nem lembro quem, irrompe anunciando que a rádio noticiava que o José Saramago tinha ganho o Prémio Nobel da Literatura. Telefonámos. Milagrosamente conseguimos ligação. Abraços e mais abraços, parabéns e mais parabéns. Desligado o telefone olhámos um para o outro, proponho o que o Joaquim estava a pensar. Repor em Grândola, no dia 25 de Abril, A Noite. Naquele momento de euforia, ficou tudo firme. Não aconteceu apesar do nosso afinco e do afinco do Pedro Pedreira e da Isabel Revez. A decisão nunca mais era formalizada, até o Benite, em desespero, me telefonar a marcar uma data a partir da qual seria impossível realizar o espectáculo. Era um trabalho a mais na programação do teatro. A partir daquela data, não haveria tempo para ensaios, com a agravante de ter que se substituir o António Assunção, com papel importante no elenco original, já ter falecido. A data foi ultrapassada sem nenhum compromisso. Nas várias vezes em que nos encontrámos recordámos amargamente essa oportunidade perdida. Repor A Noite, nos 25 anos do 25 de Abril, no ano em Saramago iria a Estocolmo ser nobelizado. Tínhamos a secreta esperança de o ter presente em Grândola para rever a peça de teatro em que se retratava a noite de 24 para 25 de Abril, vivida na redacção de um jornal.

isaque

A Cultura saiu á Rua num Dia Assim/ Isaque Pinheiro

Outra iniciativa que se gorou pelos mesmos motivos, ruminar decisões até as tornar inexequíveis, foi a de encomendar a António Pinho Vargas 25 Variações sobre o tema Grândola, Vila Morena. Pinho Vargas é um excelente pianista e um excelente compositor. É um reconhecido cultor tanto da música sinfónica como do jazz. Reunia as condições óptimas para realizar essa obra. O problema foi similar ao sucedido com o Benite. Protelar a decisão até a tornar impossível. Havia um limite para decidir, sobretudo porque António Pinho Vargas estava a trabalhar na ópera Os Dias Levantados, com libreto de Manuel Gusmão. A partir de certo momento não poderia conciliar esses dois trabalhos. Assim se perdeu a oportunidade de Grândola se poder orgulhar de ter encomendado uma obra que , se fosse feita, estou convicto, seria marcante na historiografia da música portuguesa, ficando Grândola para sempre ligada a esse acontecimento.

Mas houve momentos de rabelaisiana galhofa. Num certo dia, com o tom imperativo, definitivo e pomposo que alguns presidentes usam para embrulhar as suas deliberações, recebemos um papel manuscrito, guardo fotocópia desse escrito, com origem no gabinete da presidência, em que se determinava que o programa musical das Comemorações dos 25 Anos do 25 de Abril deveria ser aberto por uma composição original, encomendada a um músico que na altura dava aulas na Universidade de Évora, que se intitulava, nada mais nem nada menos que REQUIEM PARA A REVOLUÇÃO!!! Gargalhadas pantagruélicas. Seria uma originalidade universal uma Revolução ser celebrada com um Requiem. Este mundo e o outro deveriam rir a bandeiras despregadas, com tal iniciativa, ainda por cima levada a efeito por uma Câmara de esquerda, da CDU. As risadas mereceriam figurar no Guiness, com um recorde que tanto pela sua dimensão como extensão, dificilmente seria ultrapassado. Haveria certamente uma excursão de saudosos salazaristas a desembarcar em Grândola celebrando sucesso tão inesperado e, para eles, tão feliz. Ainda por cima com a circunstância de o jantar da Associação 25 de Abril se realizar na vila, antecedendo o repasto, por alinhamento da programação, haveria a primeira audição mundial de tão magna, industriosa e inusitada obra.

Aqui fica esta Memorabilia, um registo, com factos alguns até agora desconhecidos, para memória futura das Comemorações dos 25 Anos do 25 Abril em Grândola, Escritos em louvor e recordação de amigos entretanto desaparecidos aqui assinalados pela referência a Pedro Pedreira, com o envio de um grande abraço à Isabel Revez, envolvendo nesse abraço todos os trabalhadores da Câmara de Grândola que bem se empenharam para que, apesar dos tropeços que nos eram estranhos, a festa fosse, como foi, um sucesso irrepetível.

De caminho, uma última nota, tenho o secreto desejo que um dia em Grândola, os nomes de duas pessoas ligadas fortemente à história da vila no pós-25 de Abril, figurem na sua toponínima: Pedro Pedreira.e Manuel Areias.

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Música de Páscoa, Madalena aos Pés de Cristo

mantegna

A Páscoa, o mistério da morte e da ressurreição, é o tempo por excelência dos cristãos das várias confissões. Isso reflecte-se na música, com tema celebrado pelas Paixões, Lições das Trevas,. Oratórios, mesmo de forma mais pagã como na Grande Páscoa Russa. Mas a Páscoa também deu origem a nuita outra música com aspectos laterais do mistério central.

Uma dessas músicas é o oratório Madalena aos Pés de Cristo, de Antonio Caldara. O núcleo é a luta entre o Bem, o Amor Celeste, e o Mal, o Amor Terreno, em que um pretende que Madalena continue a trilhar o caminho do pecado e do prazer e o outro, resgatá-la para a virtude e para  luz, renegando o passado.

O texto bíblico é curto, muito seco, insuficiente para um drama. No, entanto, no século XVII, em Veneza foram produzidos vários textos sobre a arrependida penitente Madalena. Foi baseado num desses textos ,de um escritor praticamente desconhecido. Ludovico Fomi, que Bernardo Sandrinelli, autor de vários libretos para Caldara, escreveu Madalena aos Pés de Cristo.

O compositor escreve um magnifico Oratório, em que dá ao basso continuo grande liberdade, sobre o que evoluem um grupo de instrumentos, o orgão,o cravo, o alúde e a teorba, como instrumentos “polifónicos”, e os violinos, violoncelos, viola de gamba e contrabaixos, como instrumentos “melódicos”, se assim se podem classificar, o que dá um grande brilho cromático a este teatro de igreja.

O Oratório inicia-se com os apelos do Amor Terreno para que Maria Madalena, não abandone o caminho do prazer que concede ao corpo o repouso maravilhoso que só a lascívia  induz, mesmo que sejam sedutoras mentiras. Ao que o Amor Celeste contrapõe a necessidade de acordar de todas as ilusões mentirosas, sair das horríveis trevas, abandonar o caminho que conduz ao prece

ipício do inferno. Discutem nesse tom frente a Madalena que começa a vacilar, a ficar dividida. O drama vai-se desenrolando até intervir a virtuosa Marta que lhe aponta o caminho do céu. Adensa-se com a entrada de Cristo e do Fariseu, um a querer ganhar aquela alma pecadora, o outro a incentivá-la a não abandonar o caminho do vício.

No final, como se conhece do texto da bíblia e teria que acontecer, o bem triunfa. Madalena arrepende-se, entrega-se a Cristo. O Amor Terreno abandona a luta derrotado pelo Amor Celeste. Uma história moral, típica destes tempos de Páscoa dedicados a lavar o pecado, muito ornamentada neste belo Oratório.

Nota: Pintura de Mantegna (1431/1506) Lamentação da Morte de Cristo. Na pinturam figuram a Virgem Maria e São João, a figura parcialmente oculta é atribuída a Maria Madalena

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Ainda O Gosto e as Artes

chagall

Um “post” é um espaço exíguo e no “post” anterior várias questões foram secundarizadas pelas do gosto quando o foco principal deve ser a da arte enquanto criação e fruição.
O importante, o essencial é como a arte nos faz humanos e como os humanos se transformam com a arte. Parafraseando Marx num belíssimo texto sobre a formação dos sentidos humanos, sublinhe-se que a música não faz nenhum sentido para um ouvido não musical, um olho não educado é cego para a pintura, uma representação teatral ou uma obra cinematográfica, por mais excelente que seja, não existe para quem não tem as ferramentas para a decifrar. Nenhuma dessas obras de arte
não é nenhum objecto, porque o meu objecto só pode ser a confirmação de uma das minhas forças essenciais, portanto só pode ser para mim assim como a minha força essencial é para si como capacidade subjectiva, porque o sentido de um objecto para mim (só tem sentido para um sentido correspondente a ele) vai precisamente tão longe quanto vai o meu sentido, pelo que os sentidos do homem social são outros sentidos que não os do não-social; somente pela riqueza objectivamente desdobrada da essência humana é em parte produzida, em parte desenvolvida, a riqueza da sensibilidade humana subjectiva – um ouvido musical, um olho para a beleza da forma, somente em suma sentidos capazes de fruição humana, que se confirmam como forças essenciais humanas. Pois não são só os 5 sentidos, mas também os chamados sentidos espirituais, os sentidos práticos (vontade, amor, etc.), numa palavra, o sentido humano, a humanidade dos sentidos, apenas advém pela existência do seu objecto, pela Natureza humanizada”.– Marx, Manuscritos Económico-Filosóficos, Oeuvres, t. III, pp120-12, Mega, Moscovo.

Há aqui outra questão de fundo. Para um homem submetido a preocupações de sobrevivência, o mais belo espectáculo não tem qualquer significado. No limite para um homem a sofrer a miséria, nem sequer o pão que lhe mata a fome, adquire forma ou gosto, é um combustível para o manter vivo. Pelo que, obviamente, a luta pelos direitos económicos e sociais é essencial para a realização de uma política cultural. São lutas inseparáveis, faces da moeda.
Retornando à esfera das artes e das culturas, há um outro ponto a sublinhar e discutir, o que distingue a arte, as práticas artísticas, das culturas artísticas que, embora tenham entre si tangências e secâncias, não são sinónimas. A relação intima que se estabelece entre a arte e a cultura artística é decisiva para a formação dos sentidos que é um trabalho, não só da arte e da cultura artística, mas um trabalho de toda a história da humanidade, desde os tempos mais longínquos até aos dias de hoje. Essa também uma das teses centrais de Marx, nos já referidos Manuscritos Económico-Filosóficos. Teses que continuam actuais e são nucleares na análise das conexões e interacções entre a produção e a recepção artística. Ou para citar mais uma vez Marx,
“ A produção não fornece apenas materiais às necessidades, fornece, também, necessidades aos materiais. Quando o consumo sai da sua rudeza primitiva perde o carácter imediato – se nele permanecesse, seria o resultado de uma produção mergulhada ainda na rudeza primitiva – e é, ele próprio, solicitado pelo consumo como causa excitante. A necessidade dele se manifesta é criada pela percepção do objecto. A obra de arte – tal como qualquer outro produto – cria um público capaz de compreender a arte e de apreciar a beleza. Portanto a produção não cria somente um objecto para o sujeito mas também um sujeito para o objecto” – Marx Fundamentos da Crítica à Economia Política, vol II,pp.246-247, Anthropos, Paris

Tudo isso exige trabalho político, para tornar exequível uma política cultural, uma política de democratização da cultura em que devemos reter uma tese de Manuel Gusmão: “ a democratização da cultura não é tanto a democratização do acesso à fruição cultural mas sim um processo de democratização estrategicamente orientado por um objectivo principal,- que é a democratização do acesso à criação cultural.
A democratização do acesso à fruição tem um papel muito importante, mas apenas um papel e um valor instrumentais.”

O que Manuel Gusmão, como marxista que é, põe em causa é a divisão social do trabalho em que o trabalho artístico ou científico se torna único, e unicamente produzido por artistas e cientistas. “Democratizar o acesso à criação cultural” é exigir que a sociedade crie condições para que todas as pessoas possam encontrar o Picasso ou o Miguel Ângelo, a Madame Curie ou o Einstein, o Shakespear ou o Brecht, que trazem dentro de si, mesmo que nunca sejam Picasso, Einstein ou Brecht. Poderem desenvolve-los livremente, mesmo que nunca os venham a ser. Estarem suficientemente libertos da estreiteza do seu desenvolvimento profissional e da dependência da divisão do trabalho. Numa sociedade sem classes não há pintores, cientistas, músicos actores, há homens que, entre outros e entre outras coisas, também fazem pintura, escrevem, produzem ciência, são actores. Opções que a sociedade lhes proporciona para lhes fazer descobrir o ser, a individualidade humana que há dentro de si. Entre esses homens aparecerão os insubstituíveis Mozart, da Vinci, Lavoisier, Erza Pound.

Nesta visão, nesta concepção, o gosto, a política do gosto ficam definitivamente enterradas. É um dos assuntos que mais largamente tem sido debatidos, de fporma directa ou oblíqua, nas últimas décadas, com as mais diversas focagens, por pensadores tão diferentes, com abordagens tão diversas de Steiner a della Volpe, de Eco a Williams, de Luckas a Jameson, de Lefebvre a Perniola, de Adorno a Argan. Muitos mais se poderiam citar. Até mesmo Álvaro Cunhal, a quem as artes e a estética muito interessavam, invectivou quaisquer políticas de gosto ou a apreciação da obra arte por critérios onde o gosto interviesse. Poder-se-á fazer uma pedagogia do gosto, não mais que isso.

Em Portugal, depois dos acidentes referidos no “post” anterior, houve quem quisesse implantar uma Política do Espírito, que emergia de uma política do gosto. Foi António Ferro, personagem a ter em conta, que deve ser estudada. Ele e Duarte Pacheco eram, por assim dizer, fascistas esclarecidos. Um morreu de desastre de automóvel, outro numa gaiola dourada para onde o atiraram. António Ferro assim que se sentou na cadeira do Secretariado Nacional de Propaganda, tentou traçar o quadro de uma Política do Espírito, na base de uma política do gosto. Montou uma bem coordenada propaganda do Estado Novo. Vampirizou todas as iniciativas que considerou boas para os seus objectivos, sem se deter no quadrante político e/ou estético de que eram oriundas. Desde logo foi combatido pelos mais retrógados e reaccionários apoiantes da ditadura. São célebres as diatribes de um ogre, Ressano Garcia, presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes. As suas ideias modernistas eram fortemente combatidas. António Ferro era um homem hábil. Para sobreviver renegou a sua obra literária. Sempre com o objectivo de promover e proteger o Estado Novo teve iniciativas consideráveis. A invenção, com Leitão de Barros. das Marchas Populares tem o propósito de normalizar as associações e colectividades, focos de resistência política e cultural ao regime, impulsionadas por homens como Bento de Jesus Caraça.
A exposição do Mundo Português, onde foi procurar a colaboração de artistas e arquitectos conhecidos opositores ao regime, despoletou enormes controvérsias, mau grado o seu êxito. Uma delas foi provocada pelo pavilhão do Brasil que tinha como obra de pintura principal O Café de Portinari, uma nota extremamente dissonante da harmonia estética da representação seleccionada pela ditadura de Getúlio Vargas. Era uma pedrada pela evidência simbólica, onde figuram as representações que irão povoar a obra de Portinari, com referência óbvia a um passado esclavagista e colonial que, no essencial permanecia, com seus lavradores, com seus negros e mestiços, com suas monoculturas agrícolas, que serão sempre presentes no universo da sua produção pictórica. Uma obra insuportável para os próceres fascistas portugueses. António Ferro ficou com o destino traçado, apesar das conciliações que procurou. Um exemplo disso é o Monumento aos Descobrimentos. Numa base modernista desenhada por Continelli Telmo, foram colocadas as esculturas academizantes, embora de um academismo competente, de Leopoldo de Almeida. Um equilíbrio impossível
.

Que as políticas do gosto e suas sequelas fiquem definitivamente sepultadas com essa derradeira tentativa. Esteja-se atento aos novos e sofisticados armamentos que tentam impor o gosto por práticas de marketing, estudos de mercado, cotações das artes e todo uma arsenal, por vezes muito bem dissimulado, que surge de formas inesperadas contaminando a prática artística, seja criação ou fruição.

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A minha Casa é a Pintura

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Hoje inaugura-se na Casa da Cerca, – Centro de Arte Contemporânea, / um centro de artes pensado, desenhado, dirigido por ele durante muitos anos) a primeira grande exposição de Rogério Ribeiro, depois da sua morte wm 2008. Exposição a não perder que nos faz (re)descobrir o prazer que a arte nos proporciona. para a assinalar e para celebrar esse grande artista e homem que foi Rogério Ribeiro, fui á gaveta das memórias buscar este texto que escrevi na (maldita) oportunidade da sua morte.

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ROGÉRIO RIBEIRO

 A PINTURA

COMO TEATRO JUBILATÓRIO DO MUNDO

Rogério Ribeiro foi um artista em movimento perpétuo alimentado por um imenso amor à pintura. Atravessou a vida a desenhar e a pintar o que lhe era tão essencial como o bater do coração ou respirar o vento das lutas que vão construindo o homem e animavam a sua mão prodigiosa inventando a realidade de paisagens naturais e humanas que preenchem algumas das páginas mais sublimes da história de arte portuguesa

Foi homem de projectos, inúmeros projectos em várias frentes de trabalho do mesmo trabalho de transmitir a sua enorme paixão pela arte, produzindo, mostrando, ensinando. A morte essa flor que só se abre uma vez, que quando abre nada se abre com ela, abriu-se no lugar geométrico dos trabalhos que estavam a sair da mesa da imaginação do Rogério Ribeiro para lhe lançar uma sombra definitiva que os oculta dos nossos olhares sempre suspensos pela sua capacidade de nos dar a ver as estórias em que afirmava a certeza de acreditar na arte, no futuro da arte, no futuro da humanidade.

em finais de Janeiro encontrámo-nos na inauguração de uma exposição. mudara de atelier pintava uma série de que conhecera os primeiros trabalhos e que tinha sido iniciada em finais do ano anterior estava a fazer estudos para um S. Sebastião que lhe tinham encomendado para uma igreja o S. Sebastião estás a ver aquele suplício de onde se desprende uma sensualidade que quase anula o simbolismo do sacrifício conheces um texto Mishima que incide exactamente sobre a névoa que se instala na fronteira entre o martírio e o prazer e que ele sublinha ao ter a sua primeira experiência sexual aos pés da imagem torturada do S. Sebastião somos perseguidos pelos japoneses ria-se naquele seu jeito muito próprio não conheço traz-me esse texto.

 

Seriam telas, tapeçarias, papéis, painéis azulejares ou mesmo simples enunciados que, com grande economia de palavras, rasgavam luminosos horizontes. Coisas ainda em esboço, ainda rascunhadas outras quase definitivas, que iriam completar o imenso legado que o Rogério Ribeiro nos deixou construídas como ele próprio dizia “numa permanente tensão entre a “obrigação” da narrativa e a “traição” da pintura, a zona mais intensa do amor, do prazer, do gosto pelo puro pintar.

Na sua pintura coexistiam, coexistiram e cruzavam-se sempre esse gozo e prazer de pintar com a livre amarração a uma narrativa que não era um bordão, mas o chão úbere de onde nascia a pintura, o desenho, mesmo quando se iria situar nas fronteiras da mais absoluta abstracção. Essa necessidade narrativa é sempre evidente quer os textos existam, “Até Amanhã Camaradas” de Manuel Tiago, “Liberté” de Paul Eluard, nas crónicas de Fernão Lopes sobre a Revolução de 1383-1385 decifradas por António Borges Coelho, “Ícaro”, do “Livro Oitavo das Metamorfoses” de Ovídio, “ Triunfo do Amor Português” de Mário Cláudio, “O Ano de 1993” de José Saramago, ou sejam escritos por ele e estejam impressos como na exposição “Desenhos Recentes” (2003-Casa da Cerca), pungente poema “a morte não mata a dor” ou estejam indiciados nos títulos das exposições, “O Atelier, A Paleta, Os Anjos, o Pintor”, “Um Quadrado Azul, um Potro, Sete Bruxas, Sete medos, Alguns Valentes e um Pintor”, “Mudam-se os Tempos, Ficam as Vontades” ou “O Pintor e a Leitura”. Textos que convergem com a imagem para delimitar um espaço teórico onde, em todos os desenhos, pinturas, gravuras que completam as séries, se desenvolve uma iconologia em que a pintura e o desenho, sobrevoando o texto que é a sua água subterrânea e a ideologia que é a sua pulsação, se afirmam como um objecto estético que tem uma finalidade em si sem denegar a circunstancialidade temporal, socialmente balizada, do acto criativo.

os  japoneses perseguem-nos lembras-te quando em Leipzig entramos na igreja de St. Thomas e estavam a tocar uma Paixão do Bach tocavam esplendorosamente para lá de um qualquer virtuosismo como se estivessem possuídos pela mesma fé do Bach era evidente que não tinham ali ficámos a ouvi-los suspensos do lugar e da música deste-me dei-te anos muito mais tarde um cd dessa Paixão a de S.João onde era bem evidente que tocavam muito para lá do brilhantismo tantas vezes superficial de outras interpretações dei-ta para recordarmos esse momento mágico de uma viagem com outros momentos mágicos como aquele em Dresden quando entrámos numa sala do Museu e ficámos paralisados de assombro a ver vários auto retratos do Rembrandt não os sabíamos ali dei-te o cd na inauguração de uma exposição das tuas ilustrações ao Ano de 1938 do Saramago ficámos os três a falar sobre como o tempo retira às artes o seu valor de uso imediato muitas vezes para que foram intencionalmente feitas para manter todo o seu poder de assombro nas mãos tínhamos a evidência daquela orquestra japonesa distante do objectivo religioso porque Bach tinha composto aquela obra prima

Rogério Ribeiro era um extraordinário chefe de equipa sabendo ouvir e estimulando todos os intervenientes com o seu saber, a sua imaginação, a sua capacidade de encontrar soluções, a sua leitura da planificação do tempo para cumprir o objectivo. Na Festa do Avante!, a viajar do Jamor para a Ajuda até se fixar na Atalaia, foi encontrando soluções que resolviam brilhantemente os meios rudimentares em que se ancoravam as mil e uma exigências de um acontecimento impar em dimensão e variedade de valências.

Tal como na memorável exposição que desenhou para o Pavilhão dos Desportos ( hoje Carlos Lopes) a comemorar os 60 anos de Luta do PCP e que transformou aquele espaço num extraordinário e inesquecível percurso.

Era um saber que tinha apurado noutros trabalhos. Na coordenação do projecto de remodelação das salas de pintura no Museu de Arte Antiga depois de ter integrado a equipa de Sommer Ribeiro para o Museu Gulbenkian e dirigir o sector de arquitectura de interiores do atelier de Carlos Roxo, Carlos Tojal e Manuel Moreira. Saber que depois de Abril irá transmitir na então Escola Superior de Belas-Artes reestruturando o ensino do Design.

Saber, cultura e capacidade de organização que irá plasmar num seu projecto antigo, muito desejado e que conseguiu realizar em Almada, montando um Centro de Arte Contemporânea, a Casa da Cerca, exemplar tanto no tratamento dos espaços interiores e exteriores como na programação que se impõe sobretudo num tempo em que outros espaços com muitíssimo mais meios se derretem em mediocridades mundanas ao correr das modas que um dia serão varridas pela História.

Saber, cultura, imaginação e capacidade de trabalho transbordante que marcava encontros connosco nas inúmeras exposições individuais e colectivas que realizou, nas tapeçarias e painéis cerâmicos em vários edifícios públicos e em vários lugares do mundo. Que, no meio de tanta actividade, tinha sempre tempo para a intervenção cívica e política e nunca dispensava estar com os amigos.

tínhamos encontro marcado para te levar as Confissões de uma Máscara e para me mostrares o que estavas a fazer pretexto para falarmos falarmos sem norte para no tapete das palavras se acrescentar mais e mais iluminação interior ao prazer de conviver de nos sabermos vivos possuídos de indignações adolescentes com o pantanal em que se afundam os que nos querem lixar sonhos e a vida apesar de tudo a alegria de viver em que insistimos conhecedores de um mundo futuro que provavelmente nunca viveremos tenho o Mishima fechado à minha frente estou a ouvir a Paixão segundo S.João pelo Bach Collegium do Japão

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Cultura, Geral

Um Acontecimento Cultural Relevante

Já é publico! O blog Sintra do Avesso de João Cachado deu a notícia, julgo que em primeira mão. O valioso e excepcional espólio de Bartolomeu Cid dos Santos, mais de 3600 obras dele, de seus amigos, de seus alunos, dezenas de milhares de fotografias ( começou a tirar fotografias quando com 14 anos foi a Paris com o seu avô, o médico, crítico e historiador de arte Reynaldo dos Santos, atravessando uma França devastada pela guerra, nunca mais parou ) , as chapas metálicas que gravou ao longo da sua vida de artista, documentos e diários onde registava a sua actividade, as suas ideias, as suas críticas. Um acervo muito especial que será uma mais valia para estudiosos, interessados e todos os outros que despertarão para o mundo das artes ao visitarem o Casino de Sintra, onde o espólio ficará depositado e será exposto..

Bartolomeu Cid dos Santos é um artista cuja obra de gravura é das mais importantes no mundo. Além de renomado artista foi um notável pedagogo que introduziu novos processos de ensino na Slade School of London, onde leccionou durante mais de 35 anos e nas inúmeras escolas de artes onde foi professor convidado. Paralelamente reorganizou as salas de trabalho de gravura que continuam a ser um paradigma mundial.

Bartolomeu era um homem de vastíssima cultura, um amigo inesquecível, um homem de inúmeras qualidades.

A instalação do espólio de Bartolomeu Cid dos Santos em Sintra, que ocorrerá nos próximos meses é, como diz João Cachada, “sem qualquer margem de dúvida, o maior acontecimento cultural dos últimos anos nesta terra e o mais marcante em Sintra”. Associamo-nos igualmente ao que João Cachado acrescenta saudando os dois autarcas que se empenharam pessoalmente neste processo “Fernando Seara e Pedro Ventura tudo fizeram no sentido de que Sintra e Portugal ganhassem o que outras terras nacionais e estrangeiras estavam cobiçando com tão natural e justificado propósito. Naturalmente, é para eles que vai o meu mais forte e caloroso abraço de parabéns.”

Para celebrar este acontecimento fui repescar um texto que escrevi para o catálogo da que acabou por ser a primeira exposição póstuma de Bartolomeu, começada a preparar ainda em sua vida, inaugurada na Casa das Artes de Tavira, no dia em que as suas cinzas foram deitadas ao rio Gilão. Exposição de imenso significado simbólico porque desde que se jubilou da Slade School, a sua vida em Portugal dividia-se entre Sintra, onde tinha casa desde que iniciou a sua carreira de professor em  Londres, e Tavira onde,  em parceria com a Casa das Artes de Tavira e a Fundação Gulbenkian, montou uma atelier de gravura, actualmente a OBS-Oficina Bartolomeu dos Santos que vai continuar o que ele ali tinha iniciado.

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NO CORAÇÃO DO MUNDO

 

Is this Art? Interroga Bartolomeu sabendo-se a encenar uma provocação enquanto manipula papéis que recupera das prateleiras da memória, agarra objectos em acasos construídos em anos a afinar o olhar para os encontrar, faz o inventário dos golpes da luta corpo a corpo com a vida quotidiana. Trabalha, trabalha muito que a vida é uma viagem sem regresso. Uma aventura entre sortilégios que iluminam a linha que um dia será abruptamente cortada. Irá viver essa dor, mas não pára de trabalhar porque sabe que tem e que terá sempre dentro de si a força necessária para fazer o vento soprar “ a música suficiente para fazer dançar a vida “. (*) Produz gravuras, pinturas, caixas onde deposita elaboradas criações artísticas depois de entrar e sair dos cubos brancos onde se arquivam os ready-made, pondo cada pé em cima das pegadas de Duchamp para baralhar pistas e voltar ao labirinto dos labirintos, ao seu labirinto, onde dá objectividade às suas fantasias, escava a imaginação para plantar uma linguagem, a sua linguagem, trânsitos do material para o espiritual, do vulgar para o poético. Frondosa árvore de raízes bem fundas, bem firmadas na terra, sempre virada para o sol que não lhe desenha sombras.

Os seus olhos, limpos com os colírios de Borges, vêem o que só a alguns é dado ver, aquele objecto secreto e conjectural cujo nome os homens usurparam, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo. (**) Realiza obras para nos fazer ver o ponto para onde convergem todos os pontos, rodando no mesmo eixo o tempo exterior padronizado, medido normativamente, e o tempo interior que se mede idiossincraticamente com a razão e com a paixão. A pulsação da vida, a luta por um mundo outro, as paixões, as amizades, os mapas das viagens materiais e imateriais, tudo metido no seu acelerador de partículas registando os resultados dessa busca sem fim, ne pas effacer, do aleph.

Aleph, microcosmos onde Bartolomeu implantava a sua oficina, o atelier que o acompanhava de Londres a Tavira, Sintra e outras partidas do mundo, onde apurava as minúcias do trabalho técnico para dominar os meios de expressão. Onde acumulava inumeráveis experiências vividas. Apreendia e reelaborava saberes, saberes – fazer. Tudo substâncias perigosas que observava, analisava, inventava, misturava no almofariz da imaginação para fazer explodir a banalidade, experimentar voos que aterravam em suportes variados, que se fixavam em coisas cuja estranheza nos deslumbra e a que chamamos obras de arte. Obras de arte que recusam a perfeição. Incorporam defeitos, incertezas, incompletudes que brilham longe, muito longe da decadência das artes comissariadas para glória do bom comportamento das estéticas de fragrâncias, normalizadas, suportadas pelo marketing cultural.

Aqui estamos no território das transformações violentas das relações com o mundo, o tempo, a liberdade. Não há lugar para a hortaliça das composições académicas, por mais que se ocultem debaixo das vestimentas rococós de ocas pós-modernidades repetitivas, cinzentas, congeladas, pronto-a-ver que se vende por grosso.

Aqui a imaginação reclama-se tanto da sua função social como da sua faculdade individual. Tem as asperezas da lucidez dos mistérios que não se resolvem. Is this art? I do like it!.

 

                                                                                  Manuel Augusto Araújo

(*) Céline

(**) Jorge Luís Borges

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Cultura, Geral

“O mundo é deslumbrante, mas não é bonito”

2A Suza”, óleo s/ platex 0,77 x 0,62; 1955

Maria Keil, uma artista multifacetada, morre no mês passado, quase centenária. Era uma mulher pequenina, de ar delicadíssimo e doce, um ar frágil que ocultava uma enorme energia. Ainda há uns quinze anos atravessava o jardim do Príncipe Real a correr para apanhar o eléctrico ou era vista na Ler Devagar a martelar pregos nas paredes para pendurar os seus “Anjos do mal : demos – demónios – diabos, etc. “, que nos olhava com um olhar brilhante e agudo, inteligente sem uma gota lamecha de quem sabe que  “ o mundo  é deslumbrante, mas não é bonito”, como disse numa entrevista.

Nasce em Silves, na altura um centro corticeiro florescente, onde a exploração brutal é enfrentada pelos trabalhadores corajosamente, desenvolvendo uma luta revolucionária tão forte e continuada que assombra o regime incapaz de os vergar, apesar de todo o arsenal repressivo de uma tremenda ferocidade. Salazar, verificando não conseguir travar o ímpeto dessas lutas, opta por uma solução radical: fecha as fábricas todas, dispersa-as pelo país. Quase de um dia para outro Silves que era uma terra rica, de uma actividade febril e um centro revolucionário, fica parada no tempo. Só as lutas continuaram com outras formas. É esse o ambiente em que nasce e vive Maria ainda longe de ser Keil, filha de um industrial da cortiça, afectado por essa situação. Tem, como conta, uma infância má. Os pais separaram-se em rota de colisão. Vive com os avós maternos no campo as fantasias de criança até que, aos sete anos, é raptada a mando do pai para ir viver num casarão vazio cheio de regras, “uma casa burguesa que até sufocava. Ainda  ouço as vozes, endireite essas peúgas, vá já lavar os braços”. Isto dura até aos quinze anos quando vem para Lisboa para a Escola de Belas-Artes. Julga que se vai abrir uma porta do céu. Engana-se, o inferno vai continuar. Fica em casa do irmão da madrasta, um militar reaccionaríssimo que tinha uma enorme fotografia do Sidónio Pais na sala de visitas. Foi parar a Belas-Artes, nem sabe bem como, depois de andar, como as meninas mais prendadas desse tempo, a aprender francês e a tocar piano, com um professor que lhe batia nos dedos com um lápis, gritando: “pensas que é a fazer bonecos que se ganha a vida, pensas?”. Enganava-se redondamente esse mestre de notas musicais incapaz de lhe ensinar uma nota, mas não lhe tirando o gosto pela Lucia de Lammermor, que ouvia num gramofone em casa dos pais. Ecos que iluminam “uma infância muito má”. Continuar a ler

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Cultura

Há 50 anos, um Homem com Três Metros de Altura foi assassinado

 José Dias Coelho vem de Pinhel para Lisboa com o olhar carregado pelas cores sombrias que cobriam um país pobre, de homens violentamente explorados, calados pela repressão policial, condenados à ignorância por um regime brutal de crueldades dissimuladas e moralismos sonsos. Vai acumulando indignações contra esses dias, esses anos de chumbo em que faz o percurso liceal que o conduzirá à Escola de Belas-Artes onde entrará e irá conviver com um grupo de jovens, Victor Palla, Júlio Pomar, Vespeira, Sá Nogueira, João Abel Manta, Bartolomeu Cid dos Santos, Fernando Azevedo, Jorge Vieira, Vitório David, Jorge de Oliveira, entre outros, que vivem intensamente as artes que lá fora, bem longe, tumultuam a modernidade que muito os entusiasma. Vão mergulhar e enfrentar o pó espesso que andava suspenso no ar da escola. Que se infiltrava por todas as frinchas, habitava a cabeça dos professores, as excepções eram raríssimas. É um ambiente sufocante, perverso. As revoltas crescem dentro dele. Ganham sentido. Direccionam-se. Nas Juventudes Comunistas, onde começa a militar, encontra a forma de as objectivar. O seu tempo é preenchido e dividido entre a actividade artística e a política.

A sua capacidade de intervenção e de organização distinguem-se tanto na política como nas artes. É um dos organizadores das Exposições Gerais de Artes Plásticas, numa Sociedade Nacional de Belas-Artes, recuperada pelos artistas democratas. Nessa altura, Dias Coelho, que tinha começado por frequentar o curso de arquitectura, muda de rumo e inscreve-se em escultura, numa escola que continua dramaticamente parada no tempo.

Faz inúmeros desenhos preparatórios de esculturas que também começam a soltar-se das suas mãos. O desenho sai fácil. O traço é de grande clareza. O seu acentuado realismo deixa, no entanto transparecer o conhecimento e a prática de abstracções provavelmente de cariz geométrico que nunca dará a conhecer. A interdisciplinaridade entre a arquitectura, a pintura e a escultura, afirmada no 1º Congresso nacional dos Arquitectos Portugueses, dá-lhe oportunidade de obras suas serem integradas nas escolas primárias de Vale Escuro e de Campolide, na Fábrica Secil no Outão, no Café Gelo, no Café Central das Caldas da Rainha. Obras que anunciam um artista.

A prática artística é exigente. Requer trabalho, trabalho continuado. Procura conciliar isso com uma intensa actividade política e também com as paixões da vida que o levam a casar com a sua colega de pintura, Margarida Tengarrinha. Escasseia o tempo para tanta actividade. Não quer perder a mão e o conhecimento da arte. Trabalha com os modelos que lhe estão próximos, o pai, a irmã, os amigos. Trabalha com materiais pobres: o barro, o gesso. Risca papel com grafite e carvão. Pinta com aguarelas e guaches. Isto enquanto vai dedicando cada vez mais tempo à actividade política onde lhe são reconhecidas invulgares capacidades de organizador. O seu prestígio nos meios intelectuais é imenso.

É um homem que quer ser artista e a quem não era difícil prever um lugar destacado nesse universo, um homem que é um artista de quem nunca se saberá o artista que teria sido, porque a sua alma de artista não permite que o seu olhar se desvie do seu país vergado à tirania do fascismo e por ser incapaz de alienar a sua função social e o seu sentido de pertença às massas populares.

Opta pela luta política. Entra na clandestinidade. Sabe que vai abandonar qualquer possibilidade de ter tempo para aprofundar a prática das artes. O que irá realizar a partir desse momento está sujeito ao contingente, às urgências militantes. Distante ficava o tempo em que observava e reflectia sobre as obras de Matisse ou Chagall que claramente fulguram em muitos dos seus desenhos. Os tiros que assassinaram o homem, o combatente antifascista são os mesmos que, antes de terem sido disparados, tinham cortado cerce uma carreira artística que se adivinhava promissora, que merecera o incentivo de várias críticas e premiações mas que ficara trancada quando, por funda convicção e opção assumida, meteu a chave para abrir a porta da clandestinidade a mesma que lhe fechava o acesso a uma vida normal dentro da anormalidade quotidiana que se vivia em Portugal.

Hoje, neste ano de 2011, passam cinquenta anos sobre o dia 19 de Dezembro em que um homem com três metros de altura foi assassinado a sangue frio, morrendo com ele um artista de quem nunca se viria a saber a altura.

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Geral

Uma exposição a ver!

Natureza Morta com Maçãs / Cezanne 1877

A natureza morta é um género de pintura tendencialmente ornamental. A ultrapassagem dessa tendência faz-se pela mão de grandes pinturas que tornam a representação de imagens imóveis, condenadas a uma contemplação superficial, em obras de arte que, desde o barroco onde surgiu pela primeira vez, continuam a ser enigmáticas. Mais misterioso será como a natureza-morta resistiu á iconoclastia transgressora do modernismo.
Na sequência da primeira exposição dedicada à natureza morta, das suas origens até meados do séc. XIX, esta segunda exposição inicia-se com os impressionistas, que a utilizaram intensivamente para quebrarem os códigos académicos da pintura, até finais do século XX.
Todos os movimentos modernos estão representados nas mais de noventa obras de setenta artistas que se organizam não cronologicamente mas por núcleos em que se procuram as suas relações transversais, o que torna o percurso da exposição bastante interessante.
As obras reunidas nesta exposição na Fundação Gulbenkian, contributo de mais de 37 museus e outras instituições ligadas á arte, dão uma visão magnífica e rara desse género de pintura, em que os artistas registam a vida imperturbada das coisas. A não perder!!!

 

A Perspectiva das Coisas
A Natureza Morta na Europa, Séculos XIX, XX
Galeria de Exposições da Sede da Fundação Gulbenkian, Lisboa
Até 8 de Janeiro

Das 10:00 às 18:00
Terça a domingo
Das 10:00 às 20:00
Quinta e Sábado
Encerra Segunda-feira e feriados (25 de Dezembro e 1 de Janeiro)
Entrada: 5€ | Entrada + Audioguia: 6€

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Cultura

Olhar Mágico

Esta semana, em Paris, há a última oportunidade de ver no Hotel de Ville uma retrospectiva de IZIS (1911-1980), um fotógrafo pouco conhecido do grande público.
Izis (Izraelis Bidermanas) é um dos grandes fotógrafos humanistas que no século XX fazem a prática fotográfica impor-se como uma das áreas da arte, começando a construir a História da Fotografia. Nasce numa pequena cidade lituana e com dezanove anos ruma a Paris, atraído pelo frenético pulsar das artes que faziam da cidade luz um centro cultural irradiante, onde confluem artistas de todo o mundo. Tem um princípio de vida extremamente difícil trabalhando em fotografia, como aprendiz de fotógrafo, actividade em que se iniciara ainda na Lituânia, e envolvendo-se nas técnicas laboratoriais.

A guerra fá-lo fugir para Limoges, onde integra a resistência sem deixar de fazer fotografia. A sua 1ª exposição tem por tema retratos dos companheiros de luta. Acabada a guerra adquire a nacionalidade francesa, adopta o nome de Izis, começa a ser conhecido com os retratos que faz de Camus, Aragon, Orson Welles, Eluard, Jean Cocteau, Colette, Chagall, Juliette Greco e tantos outros. Com o tempo a direcção da sua objectiva muda para as paisagens citadinas e humanas.

Excepcional fotógrafo, nunca em vida alcançará o reconhecimento de um Cartier-Bresson, de um Doisneau ou de um Brassai. Apesar de aparecer sempre referido entre os cinco grandes fotógrafos franceses e dos êxitos obtidos com os livros que publicou com textos de muitos poetas e escritores, com destaque para Prevért, e de várias exposições individuais por várias cidades do mundo, nunca atingiu a notoriedade dos seus contemporâneos da mesma geração e das gerações seguintes.

Esta exposição, que estará em Paris até ao fim do mês de Maio, apropria-se do título de um dos seus livros, Rêves de Paris, para sistematizar todos os seus grandes temas, Rêves de Libération, de Paris, de Paradis, de Londres, de la Terre Promise, de Cirque, de Vies d’Artistes. Acaba por ser uma quase revelação redescobrindo esse homem de uma tremenda sensibilidade dotado daquela capacidade quase sobrenatural do olhar fotográfico que vê o mundo envolvente em enquadramentos que transmite para a objectiva.

Não será possível trazê-la a Portugal? Transitam por cá tantas exposições, fotográficas algumas, provavelmente com custos equiparáveis à instalação desta, que só adquirem notoriedade debaixo dos guardas chuvas do marketing cultural que disfarça fragilidades estéticas. Do pelotão de curadores, comissários, etecetários que se acotovelam nos corredores das galerias, não haverá um que tenha um sobressalto e se interesse por inquirir essa hipótese?

Enquanto se lança o desafio e se esperam resultados vejam as fotografias que anexamos. Percebe-se sem dificuldade que vê-las com o peso da realidade seria uma experiência estonteante.

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Geral

O Papa, a Cultura e o Ovo

A árdua construção da imagem de um papa culto tem marcado o pontificado de Bento XVI e é bem visível essa preocupação nos acólitos do Vaticano. Percebe-se a intenção. O cardeal Ratzinger, durante anos à frente da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, instituição nuclear da Santa Sé, é personalidade que se distinguiu e distingue por defender o fundamentalismo da igreja, por ser ardente defensor da moral e dos dogmas católicos, por impor ou tentar impor voto de silêncio aos teólogos progressistas, por ser adepto das grandes procissões e cerimónias pomposas.
Quando eclodiram os escândalos da pedofilia, ficou-se a saber que já quando era arcebispo de Munique e Freising tinha encoberto vários casos, o que continuou a fazer enquanto detentor de altos cargos no Vaticano. Agora, quando é impossível continuar a varrer para debaixo dos espessos e abençoados tapetes que abundam na eclesia, vem com voz sussurrante e ar sonso falar da ” profunda necessidade de reaprender a penitência, de aceitar a purificação, implorar perdão” e pede aos católicos para “não se assumirem como juízes dos que cometem pecados”. Nada de sanções laicas ou religiosas contra abusadores e encobridores. A procissão ainda vai no adro, o instinto de sobrevivência da igreja é enorme, veremos como tudo isto acaba.
Neste quadro era e é urgente mostrar outra face do papa, nada melhor que envernizá-la com camadas de cultura. Citam-se os vários livros de Teologia que escreveu onde, entre outras coisas, defende que a “sexualidade é uma emanação do amor divino”. Mais incisiva é a nota romântica: o papa toca piano, fala francês e outras línguas. Uns dizem que os seus compositores favoritos são Mozart e Bach, outros que são Mozart e Schubert, talvez não percebam bem quem o papa prefere, espere-se é que essas indecisões não sejam derivadas das interpretações do Sumo Pontífice.
Na continuidade da construção dessa imagem cultural, dia 12, no Centro Cultural de Belém, está marcado um encontro com nomes da cultura nacional. Esperam-se discursos de circunstância dos muitos que aceitaram o convite, recusado por intelectuais tão distantes no campo ideológico e religioso com o José Saramago, Vasco Graça Moura ou José Cutileiro.
Na oportunidade, será oferecida ao papa uma jóia desenhada por Siza Vieira. A questão que se coloca não é menor. Porque encomendar esse objecto, a ideia era uma medalha, a Siza Vieira? Só há uma explicação: é a lógica do star-system! A lógica que, com epicentro em Holywood, se estendeu às áreas da cultura, das artes e mesmo da ciência, enquanto o mercado alargava a sua rede. Lamentável é que o arquitecto tenha alinhado nisso, talvez por já não se conseguir aperceber dos seus próprios limites. O objecto é um ovo em prata que se abre pelo meridiano para deixar ver uma mal enjorcada pomba em porcelana. Provavelmente Siza lembrou-se dos ovos que o ourives russo Fabergé fabricava para os czares e que hoje atingem preços brutais no mercado. Não é isso que os salva de uma luxuosa banalidade kitch, como o ovo do Siza é de uma minimal banalidade kitch.
Ninguém se lembrou, o arquitecto deveria ter sido o primeiro, que nas Faculdades de Belas-Artes há vários escultores, consagrados ou em princípio de carreira, que se dedicam à medalhística e que, certamente, teriam produzido algo bem melhor que o mestre arquitecto. Um concurso nacional poderia ter revelado um jovem escultor ou confirmado um de créditos já firmados. Ter-se-ia estimulado a imaginação dos nossos artistas e não se teria perdido tempo nem gasto dinheiro num objecto em que o que é mais significativo é a assinatura do seu autor. Não teríamos, mais uma vez naufragado no star-system!

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Um verdadeiro artista

Berardo não satisfeito com as benesses que lhe foram concedidas no CCB pela saloia (Berardo dixit) ministra Pires de Lima, do anterior governo PS, consegue driblar a obrigação de contribuir anualmente com 500 mil euros para ampliar o acervo da Fundação sem entrar com um cêntimo. Em vez de dinheiro, entra com obras de arte que tinha no baú. Não satisfeito com isso, volta ao baú para vender ao Estado obras de arte no valor de 500 mil euros com o mesmo fim. Fica, assim, cumprida uma obrigação que as duas partes assumiram quando estabeleceram o protocolo que instituiu a Fundação Berardo. O que não se esperava é que o comendador, olho vivo e pé ligeiro, visse nessa obrigação mais uma oportunidade de negócio. Já lá vão dois anos e dois milhões de euros. Quanto lucrou o comendador é que não se sabe, mas ninguém acredita que os quadros entregues em vez de dinheiro ou vendidos a dinheiro não tenham dado lucro ao comendador. Para sacar mais-valias ninguém lhe passa a perna. Negócio deste jaez não lembraria ao mais olho vivo cigano. A estúpida (Berardo dixit) da ministra Canavilhas é que parece não estar a gostar dessas transacções. E continua por explicar como é que se faz a partilha dessas obras que se vão adquirindo, no caso de o Estado optar por não ficar, comprando-a, com a colecção.

Quem não gostou de ouvir as tímidas dúvidas da ministra sobre essas negociatas foi o comendador que imediatamente ameaçou, uma ameaça ressuscitada e recorrente, embalar as obras e marchar para algures. Há um pauzinho na rodas do camião deste amante zeloso das artes que talvez o impeça, no nosso país já vimos de tudo mas…, de iniciar a viagem. Berardo deu-a como garantia para um empréstimo bancário de milhões de euros que Santos Ferreira & Vara, agora administradores do BCP/Millenium, lhe concederam quando eram administradores da CGD para o comendador adquirir acções do BCP reforçando fortemente a sua posição na guerra que levou à mudança de administração. Confuso? Nem por isso, embora estando a colecção estacionada no CCB com o objectivo de o Estado a adquirir se o comendador não conseguir pagar à CGD — e foi obrigado a dar essa garantia porque, com o trambolhão das bolsas, não teve na altura do vencimento da dívida, liquidez para cumprir as condições do empréstimo — a quem é o Estado vai comprar as obras de arte que, entretanto, a CGD pode vender a retalho? O que não parece muito curial é ter permitido ao comendador dar como garantia algo que está prometido ser vendido não a uma qualquer entidade, mas ao Estado português!

No meio destes imbróglios, o comendador Berardo vai fazendo pela vida, ganhando mais uns eurozitos, não devem ser poucos, enquanto ameaça fazer a trouxa artística. Um artista, um verdadeiro artista que dá brilho à nacionalidade, vê-se logo pelo português muito criativo que fala!

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