Setúbal

As novas elites

Quem segue com mediana atenção o que acontece nas redes sociais, esse ecossistema permanentemente em fogo, sabe que é lá que vivem os seres mais perfeitos, capazes e competentes do planeta.

A nova elite política, artística, técnica, científica, intelectual e desportiva tem intensa vida nas redes. São os membros desta classe que conhecem, como ninguém, o que é melhor para a cidade e para o país e que identificam de imediato, sem margem para dúvidas, tudo o que está mal. A nova elite não dá opinião sobre os temas. Não. Isso é para quem nada sabe das questões. Estes especialistas sabem, de ciência certa, o que está mal, embora não saibam como o fazer bem. Sabem por onde o país e a cidade não devem ir, mas não sabem que outros caminhos devem seguir. Mas isso pouco importa aos novos elitistas. O que interessa é, a cada momento, postar sentenças sobre tudo e sobre todos. É a democracia, dizem; é a liberdade de expressão, estúpido, acusam. É isso tudo e muito mais. É, acima de tudo, a exposição da ignorância embrulhada em arrogância e, muitas vezes, em anonimato confortável.

A democracia das redes sociais é, hoje, a mais perfeita contradição com o que deve ser a democracia, um sistema em que, de preferência, todos têm informação para poderem dar opinião e decidir em consciência. Porque, na verdade, todos temos a liberdade de falar, mas também de ficar calados. É ali, nas caixas de comentários do Facebook e dos jornais, que se percebe a dimensão da desinformação em que vivemos, a fragmentação do conhecimento, a incapacidade de relacionar e procurar informações, a exuberância e atrevimento da ignorância. Os media, neste tempo de notícias falsas, de factos alternativos, de pós-verdade, também ajudam pouco. A este propósito é, aliás, interessante citar uma frase proferida há dias por um famoso ator norte-americano, a quem pediam para comentar um rumor, manifestamente falso, sobre a sua atividade política. Respondia Denzel Washington aos jornalistas que, quando não se lê jornais, está-se desinformado; mas quando se lê jornais, então aí está-se mal informado. Questionado sobre qual seria a alternativa, Denzel responde que essa é a grande questão e pergunta qual será, a longo prazo, o efeito do excesso de informação em que vivemos hoje. Um dos efeitos, para o ator, é que os jornalistas apenas querem ser os primeiros a dar a notícia, esquecendo a necessidade de ser rigoroso, ou, como ele diz, de “dizer a verdade”. A grande responsabilidade é ser rigoroso, e não apenas ser o primeiro a dar a notícia. E esta deve também ser a responsabilidade de quem comenta nas redes sociais, independentemente do nível de responsabilidade e visibilidade que tem nesses comentários.

Nunca como hoje tivemos tanto acesso à informação, às notícias. Temos canais noticiosos 24 horas por dias, sites na Internet que apenas dão notícias, jornalismo cidadão, imagens de tudo e de nada. Porém, a realidade é enganadora. Dominique Wolton, sociólogo francês considerado um dos mais destacados estudiosos das questões da comunicação, afirma que “hoje, o que é preocupante, é que há muito mais tecnologias, mas a diversidade do que é produzido e difundido é escassa. É uma espécie de falhanço: muitas tecnologias, muita informação, mas menos comunicação. Isto é um problema politico”.

Wolton classifica a Internet como “um espaço de liberdade de expressão”, mas isso, garante, “não é comunicação. Comunicação é o recetor estar interessado no que diz o emissor. Posso não estar de acordo com o que diz, mas respondo, e há uma discussão. Na internet, na maior do tempo não há discussão. Cada um conta a sua vida, mas não é porque toda a gente se exprime que toda a gente comunica. Cada um está só e podemos chegar a uma situação em que há seis mil e 500 milhões de internautas autistas. Há aqui um desafio político e cultural. Ou, então, o capitalismo vai prosperar com a internet e com as novas possibilidades dos big data, a partir dos quais as grandes corporações vão ficar a saber dos gostos de cada um e dar-nos todos os programas de que gostamos no nosso smartphone”. O sociólogo acrescenta uma ideia pouco consensual, mas que merece debate aprofundado: “não existe regulamentação da internet e são precisas leis nesse sentido”.

Este é um retrato fiel do que se passa hoje nas sociedades da informação, ou melhor, da desinformação.

Convencionou-se que todos podemos e devemos comentar tudo, mesmo que pouco saibamos dos assuntos em debate. E todos nos transformamos assim em especialistas; todos ascendemos a uma nova elite capaz de opinar sobre o que quer que seja, a elite que sabe que aprofundar o canal de navegação do Porto de Setúbal é uma asneira porque sim, que sabe que fazer ciclovias é um erro porque ninguém anda de bicicleta, que sabe que David Chow, o homem que quer fazer uma marina em Setúbal, está falido porque se confunde perdas líquidas com falência, apenas para citar três exemplos retirados dos comentários que se fazem sobre a vida setubalense.

Muitos cidadãos, ansiosos por participar e ter um papel ativo na vida das suas comunidades, confundiram, irremediavelmente, o ato de cidadania que é ter opinião e manifestá-la nos locais adequados com os posts que fazem no Facebook. A democracia é bem mais exigente do que isso. Participar requer informação, exige que se emitam opiniões nos locais certos, perante aqueles que elegemos para nos governar, e não apenas nas urnas de quatro em quatro anos e, agora, no Facebook. A cidadania não se confina às redes sociais, ainda que seja forçoso reconhecer que estas redes são importantes espaços de manifestação de opinião, embora também sujeitos a sérias manipulações e distorções.

Os meios disponíveis para participar na vida das comunidades existem e nem estão distantes. Para falar apenas na vida da nossa cidade, a cidadania pode ser exercida nas coletividades, em comissões de bairro para resolver problemas concretos, nas assembleias de freguesia, nas assembleias municipais e reuniões públicas da câmara municipal. Além destes canais, há todo um mundo de possibilidades que se abrem, mesmo recorrendo aos novos media e às redes sociais, para que possamos exercer, responsavelmente, a cidadania.

Hoje, muitas autarquias disponibilizam canais de comunicação eficientes para que os cidadãos possam transmitir opiniões, ideias, reclamações. Infelizmente, assistimos a uma tremenda falta de participação nestes fóruns, enquanto assistimos à ascensão das arrogantes e ignorantes novas elites das redes sociais que se confrontam, sistematicamente, com aqueles que exercem os mandatos para os quais foram eleitos e são vistos como os incapazes desta equação.

Claro que as redes sociais são instrumentos importantes para exercer a liberdade de expressão e uma forma expedita de divulgar informação e exercer a cidadania. Mas não são a única nem a mais importante. O grande desafio dos nossos dias é sermos capazes de sair de casa, abandonar o teclado do computador ou do telemóvel e começar a participar mais ativamente, cara a cara, sem anonimato e sem medo de dar opinião, na vida das nossas cidades e sociedades.

Podemos fazê-lo na rua, na reunião de câmara, na coletividade, nos sindicatos, nos escuteiros, nos clubes de futebol, olhos nos olhos. Descobriremos, certamente, que é muito mais interessante, animado e recompensador do que apenas escrever umas coisas no Facebook…

 

PS – Já depois de publicado este texto na Gazeta Setubalense, jornal online para o qual foi expressamente escrito, lembrei-me, a propósito da última frase, desta cena do filme Ocean’s Eleven que descreve muito bem o que se passa hoje nas sociedades ocidentais, em que a realidade, mesmo que esteja ao lado ou à frente dos nossos olhos, é substituída pelas redes sociais pelas imagens, pela intermediação. Tal como no filme, preferimos cada vez mais estar sentados em frente ao ecran do computador do que participar ao vivo nos acontecimentos.

 

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Política

Só para que fique claro

É bom que, por vezes, recordemos que princípios básicos defendemos e queremos praticar. Os que se seguem foram tirados DAQUI. Antes de ver de onde saíram, é melhor ler até ao fim e depois comparar com os disparates que a direita radical anda, por estes dias, a espalhar por todo o lado.

São pressupostos de um regime de liberdade a existência de condições materiais e culturais para o seu exercício, a igualdade de direitos, deveres e oportunidades dos cidadãos, sem discriminações designadamente por motivo de sexo, de raça, de convicções políticas, de opções sindicais, de crenças religiosas, de orientação sexual, de situação económica e de condição social.

São elementos de um regime de liberdade:

o reconhecimento e a efectiva garantia do exercício das liberdades e direitos dos cidadãos;

uma comunicação social pluralista, democrática e responsável;

a realização de eleições com a democraticidade que assegure a real manifestação de vontade popular e a intervenção determinante do povo na escolha dos governantes e na política do País.

a participação popular permanente na vida política e social e no exercício do poder.

2. Serão plenamente assegurados os direitos de carácter pessoal, político, laboral e social, instituindo-se os mecanismos que impulsionam a sua efectivação e impeçam a sua limitação, suspensão ou restrição abusiva.

Serão plenamente reconhecidos e garantidos os direitos pessoais fundamentais, designadamente o direito à vida, à integridade moral e física, à identidade pessoal, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem e à reserva da intimidade da vida privada e familiar.

Serão plenamente assegurados como direitos, garantias e liberdades fundamentais:

a liberdade de expressão de pensamento, a liberdade de imprensa e o direito à informação, com proibição da censura e garantia do pluralismo político e ideológico;

a liberdade de reunião e manifestação sem dependência de autorização prévia e com garantia de cedência de lugares e recintos públicos e abertos ao público para permitir o seu exercício efectivo em todo o território nacional;

a liberdade de constituição e acção de partidos políticos e outras associações sem interferência nem necessidade de autorização prévia de entidades públicas;

o direito de eleger e de ser eleito e o direito de acesso a cargos públicos em condições de igualdade e liberdade;

a liberdade sindical com efectiva garantia de actividade em todos os locais de trabalho, direito de contratação colectiva e de participação na elaboração da legislação laboral e na gestão da segurança social, bem como a liberdade de constituição e acção de Comissões de Trabalhadores, incluindo o controlo de gestão;

o direito à greve, cabendo exclusivamente aos trabalhadores a definição do seu âmbito e objectivos (com proibição do lock-out);

a liberdade de criação intelectual, científica e artística, com apoio efectivo à produção e divulgação das respectivas obras;

a liberdade de consciência, de religião e de culto, incluindo o direito de organização e exercício de culto e do ensino religioso no âmbito da respectiva confissão, com reconhecimento da objecção de consciência;

a liberdade de circulação e fixação em todo o território nacional, bem como o direito de saída, de emigração e de retorno;

o direito à liberdade e segurança e o direito à reserva da vida privada e familiar (inviolabilidade da comunicação, correspondência e domicílio, protecção de dados pessoais, proibição da utilização indevida da informática).

Os direitos, liberdades e garantias fundamentais dos trabalhadores e das suas organizações, designadamente o direito à segurança no emprego, gozam de idêntico regime e protecção dos outros direitos fundamentais.

Para a realização dos direitos e liberdades fundamentais são essenciais os direitos de acesso aos tribunais e à informação jurídica, de habeas corpus, à celeridade do processo e julgamento, a garantia de defesa em processo criminal, de resistência contra ordens que ofendam direitos, liberdades e garantias e de acção directa quando não seja possível recorrer às forças de manutenção da ordem pública; de petição individual e colectiva perante os órgãos de soberania e quaisquer autoridades e o direito de acção popular para defesa de direitos, da Constituição, das leis e do interesse geral. Continuar a ler

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Geral

Abrir os Armários

armário

Eles aí estão a sair do armário!!!

Toda essa gentalha que estava fechada no armário da democracia, salta para o pântano da mais farfalha reaccionarice, para combater o fantasma de um governo de esquerda.

Invadem o terreno dos meios de comunicação social que há muito anos ocupam com maior ou menor parcimónia, com maior ou menor descaramento, com a maior ou menor inabilidade, onde mentem com contumácia sobre a realidade para construírem uma realidade que nos vendem como verdadeira.

Agora depois dos resultados eleitorais em que, mentindo com todos os dentes que têm,, recuperando mesmo os cariados que foram arrancados e substituídos por próteses, a coligação PSD/CDS com alianças declaradas ou sornas nos media, é minoritária e há a possibilidade de um governo de esquerda, ainda que seja para já tão provável como a aparição de D. Sebastião numa manhã de nevoeiro, salta do armário esse exército que reúne dos mais ultramontanos direitinhas aos mais esclerosados democratas.

Curiosamente o argumentário é, no seu essencial, o mesmo quando se vislumbra uma sombra que pode ameaçar o Portugal deles, o Portugal destruído por quarenta anos de políticas de direita, submetido aos ditames do capital e dos seus braços armados. Uma hipotética coligação de esquerda fá-los perder a cabeça e saltar dos armários. Uma dessas avantesmas ficou tão aterrorizada que até entreviu Estaline a ressuscitar em pleno Terreiro do Paço pronto para tomar o poder. Diz essa alarvidade sem que ninguém o contradiga ou diga que está louco. Os outros, que se querem fazer passar por mais credíveis, não perdem tempo em agitar os fantasmas do Prec, da democracia, a deles evidentemente, à beira do abismo em 1975, mais a parafernália de argumentos que foram buscar à arca da contra-revolução que começou na primeira hora do triunfo do 25 de Abril. Estão ajoelhados na grande Meca do capital, aos ditames da União Europeia, às virtudes do Tratado Orçamental e das políticas de austeridade, à NATO e ao seu combate cínico aos talibãs, Al-Qaeda e Estado Islâmico que ela e seus aliados no terreno armam e financiam, às hordas nazi-fascistas que proliferam na Europa e estão no poder na Ucrânia.

No meio dessa farândola, vendendo rifas dessa quermesse de mentiras maiores ou menores, sorridentes serpentes saem do ovo para mostrar a sua perplexidade. Um deles interroga-se porque é que na Constituição Portuguesa os partidos nazi-fascistas são proibidos e os leninistas (sic) não o são. Isto é dito pelo inefável Lobo Xavier na Quadratura do Círculo. Fê-lo com o sinistro cuidado de ser o último a falar, de o dizer a fechar o programa. Esperemos que na próxima edição Pacheco Pereira ou mesmo Jorge Coelho não deixem passar em claro essa abominação já que do moderador nada há a esperar. É mais um daquela turbamulta etiquetada de jornalistas que mais não são que caixas de ressonância do pensamento único.

Se Lobo Xavier, com evidentes saudades salazarentas, foi mais longe insinuando a possibilidade de proibir o PCP, os outros não ficam pelo caminho. Basta lê-los ou ouvi-los, mesmo na diagonal. Para nos limitarmos a um jornal que usa todos os arautos para se proclamar de referência, também não se sabe qual o padrão a que se refere, é ler da anémona Henrique Monteiro, que cola um sorriso estanhado no alçado principal para se fazer passar por inteligente, ao cruzado da pequena e média-burguesia, também ele empunhando um sorriso gambrinus, Martim Avilez. De cabeça perdida, de norte desbussolado fazem strip-tease dos adornos democráticos, não se escusam a escrever blasfémias à inteligência!

Já se sabia que essa armada de traficantes junta em tropel as hostes sempre que os interesses do grande capital se sintam ameaçados. O que talvez não fosse previsível é que com sinais ainda tão fracos fossem tão rápidos a terçar armas. Sinal que o mundo deles está muito corroído apesar da gigantesca burla que é vendida urbi et orbi como verdade única. O ambiente de alarme pós-eleitoral é sintomático, despe-os na praça pública de toda a conversa fiada com que vão entretendo o tempo, enquanto afiam as facas para defenderem os seus amos. Julgam-se uma armada invencível. De facto têm um poderosíssimo armamento à sua disposição para não deixarem dissipar o negrume da gigantesca fraude que dá corpo a um fascismo pós-moderno que marcha pelo mundo disparando a esmo as bombas de fragmentação com as mentiras com que o manipulam.

O que se está a viver em Portugal, desde que conhecido o resultado das eleições e independentemente do que resultar delas. escancara as janelas para uma realidade insidiosa que se vive dia a dia. Que nos é servida em doses perigosas: das pequenas às grandes mentiras que tendem a formatar a opinião das pessoas, para que o verdadeiro poder dominante nos continue a governar.

Contra eles recorde-se George Orwell: “num tempo de fraude universal contar a verdade é um acto revolucionário”

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A Farândola Política

Falhei!!!

Não fui um dos oito mil idiotas inteligentes que foram soprar uma lufada de ar fresco com que procuram limpar o ar das flatulências que largam por tudo o que é sítio, no circo democrático montado pelo Livre /Tempo de Avançar,Um ciclo vicioso onde consomem energias e meninges para ver se têm um assento na AR e, eventualmente, conseguirem umas migalhas da mesa do poder. Boquinhas sequiosas prontas para todo o serviço. Querem, e conseguem, obter mais um tempo de antena, como se não fosse suficiente a atenção desmesurada e canina que os meios de comunicação, a mando dos seus patrões, lhe dedica. Podem babar as maiores banalidades, logo será enviado um jornalista para dar cobertura, com direito a foto e notícia a várias colunas, ao nada que um dos queridos lideres do Livre/Tempo de Avançar debitar. Para aperitivo do que se anuncia, Ana Drago  já teve direito a bolsar inanidades , com grande destaque. As discriminações atingem sempre outros que são também alvo desses divertidos dirigentes políticos. Veja-se o impacto que a grande manifestação do PCP teve na comunicação social. É a  vergonha dos critérios editoriais de um suposto jornalismo plural, objectivo. O escandalo é tal que José Pacheco Pereira se sentiu na obrigação de o denunciar na revista Sábado. Mas é essa mesma gente que, se no passado recente, timha ordens para não deixar cair nenhuma cuspidela do Livre/Tempo de Avançar em saco roto, agora vai começar a multiplicar o espaço e o tempo para acolher as charlas, mesmo que não digam nada.. As teatradas dos dons robertos menores desse partido político serão sempre bem recebidas. Os trompetes da comunicação social estipendiada estarão sempre prontos para os publicitar, esperando o capital que a sustenta, recompensa futura pela atenção que dispensam a essa gente gira. Que os diverte com o seu estilo político que lembra os dançarinos dervixes a rodarem sobre si próprios sem saírem do mesmo sítio.

Noutro plano, o que o Livre/Tempo de Avançar celebra é o triunfo do pensamento político play-station, ao serviço do revisionismo ideológico. A história acabará por os atirar para o caixote do lixo.

Livre tempo de avançar

Ao ver a fotografia, que o Público publica, com grande destaque, dos candidatos do Livre/Tempo de Avançar na escadaria da Assembleia da República, género grupo excursionista dirigido pelo pequeno líder Oliveira, lembrei-me de um discurso político, com outro gabarito e consistência, que João Cesar Monteiro filmou nesse cenário. Não exactamente ali, mas ao lado. com o mesmo enquadramento. A enorme, a abissal diferença é entre as arlequinadas do Livre/Tempo de Avançar e o disparo certeiro, sarcástico e sério do João César Monteiro, que se devia rebolar a rir  com essa maltosa que faz política assim para a seguir a fazer assado.

Divirtam-se com esta cena do Vai e Vem

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A Grécia, a CEE os seus mandantes, seus mandaretes e monicas lewinskis

A ESPERA DOS BÁRBAROS

— Que esperamos na ágora congregados?

 

Os bárbaros hão-de chegar hoje.

Porquê tanta inactividade no Senado?

Porque estão lé os Senadores e não legislam?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje.

Que leis irão fazer já os Senadores?

Os bárbaros quando vierem legislarão.

 

Porque se levantou tão cedo o nosso imperador,

e está sentado à maior porta da cidade

no seu trono, solene, de coroa?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje.

E o imperador espera para receber

o seu chefe. Até preparou

para lhe dar um pergaminho. Aí

escreveu-lhe muitos títulos e nomes.

 

— Porque os nossos dois cônsules e os pretores

saíram hoje com as suas togas vermelhas, as bordadas

 

porque levaram pulseiras com tantas ametistas,

e anéis com esmeraldas esplêndidas, brilhantes;

porque terão pegado hoje em báculos preciosos

com pratas e adornos de ouro extraordinariamente cinzelados?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje;

e tais coisas deslumbram os bárbaros.

 

– E porque não vêm os valiosos oradores como sempre

para fazerem os seus discursos, dizerem das suas coisas?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje;

e eles aborrecem-se com eloquências e orações políticas.

 

– Porque terá começado de repente este desassossego

e confusão. (Como se tornaram sérios os rostos.)

Porque se esvaziam rapidamente as ruas e as praças,

e todos regressam as suas casas muito pensativos?

 

Porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.

E chegaram alguns das fronteiras,

e disseram que já não há bárbaros.

 

E agora que vai ser de nós sem bárbaros.

Esta gente era alguma solução.

                                                               Konstandinos Kavafis

(tradução Joaquim Manuel Magalhães/Nikos Pratsinis)

ovelhas

 

Os cônsules, pretores que entre dois partidos sozinhos ou coligados, se sucediam na Grécia, impondo ao povo grego as soluções dos bárbaros foram democraticamente derrotados. As iníquas reformas estruturais, um saco de mentirolas que nada reestrutura e tudo destrói,  que garrotavam a economia, aumentavam a dívida, mantinham os privilégios da oligarquia, aprofundavam  a corrupção, atiravam cada vez mais gregos para a miséria e o desemprego, foram democraticamente derrotadas. Quem venceu pelo voto, propõe outro caminho para sair da crise, caminho dentro do quadro político, económico e social dos bárbaros. Nem isso os bárbaros aceitam. Inquietam-se porque não querem que seja sequer possível pensar que há outras saídas para a crise económica dos países que se debatem com dívidas que são impagáveis, consequência da crise mais geral da Europa tatuada no sistema que se arrasta agónico mas que se julga eterno, sem alternativas.

Governantes e seus sequazes querem ditar, impor as suas leis sobre os países devastados por uma estúpida cegueira que alimenta os oligopólios financeiros, promove uma crescente desigualdade social, instala um desastre económico e social de proporções inquietantes. Mentem manipulando as estatísticas para travestir o desastre. Mentem. mentindo sempre e, sem pudor,  fazem circular a mentira por uma comunicação social mercenária ao seu serviço.

Na CEE, os países que se sujeitaram às receitas das troikas, viram as suas dívidas em relação ao PIB aumentar exponencialmente entre 2007 e 2014. Irlanda 172%, Grécia 103%, Portugal 100%, Espanha 92%. A dívida mundial que em 2007 era de 57 biliões de dólares, em 2010 foi de 200 biliões de dólares, ultrapassando em muito o crescimento económico. Tendência que continua o seu caminho para o abismo, em benefício dos grandes grupos financeiros, entrincheirados nos chamados mercados. O chamado serviço da dívida, os juros, são incomportáveis. São esses os êxitos de uma política cega submetida à ganância usuária que não tem fronteiras ou qualquer ética.

Os governos deixaram de estar ao serviço dos seus povos, nem estão sequer dos seus eleitores. São correias de transmissão dos oligopólios financeiros que se subtraem a qualquer escrutínio democrático ou outro de qualquer tipo. Traçam um quadro legal que os suporta e legitima a ilegitimidade. A democracia é uma chatice, um entrave, um pauzinho nessa gigantesca engrenagem que nos atira barranco abaixo, com efeitos devastadores para a humanidade. Nada interessa a não ser o lucro de quem especula sem produzir nada. As pessoas são uma roda nessa engrenagem.

chaplin

Charlie Chaplin, TEMPOS MODERNOS

Quem não caminha ordeiramente nesse rebanho, quem se opõe, mesmo que mandatado e sufragado democraticamente, é considerado irresponsável, como disse o ogre Wolfang Schauble, ministro da economia da Alemanha, em relação à Grécia. As suas enormidades ecoam pela boca dos seus bufões, das suas monicas lewinskis por todos os cantos de uma Europa submissa aos diktats do bando de arruaceiros financeiros que rouba a tripa forra países e povos. Em Portugal, as nossas monicas lewinskis são mais fatelas, mais rascas com se tem visto e ouvido de Cavaco a Passos Coelho, de Portas a Pires de Lima mais a matilha dos seus sarnentos rafeiros de fila. Espumam raiva, ódio dos ecrãs televisivos às ondas radiofónicas. Quem se atreve a riscar, ainda que levemente, essa realidade em que nos enforcam é logo atacado e silenciado quanto baste por essa matilha de pensamento ulcerado.

Os burocratas europeus dogmáticos, leitores e intérpretes da cartilha neoliberal dizem que a realidade é assim mesmo! Será?

A realidade nunca é a realidade que nos querem impingir como Aragon tão bem descreveu. Há mais vida para lá desse biombo com que a querem esconder qualquer luz, mesmo bruxuleante, de esperança para a humanidade.

ISTO È UMA OVELHA,escultura de João Limpinho

 

AS REALIDADES

Era uma vez uma realidade

com as suas ovelhas de lã real

a filha do rei passou por ali

e as ovelhas baliam que linda ai que linda está

a re a re a realidade

Era uma vez noite de breu

e uma realidade que sofria de insónia

então chegava a fada madrinha

e placidamente levava-a pela mão

a re a re a realidade

No trono estava uma vez

um velho rei que muito se aborrecia

e pela noite perdia o seu manto

e por rainha puseram-lhe ao lado

a re a re a realidade

 

CODA: dade dade a reali

dade dade a realidade

A real a real

idade idade dá a reali

ali

a re a realidade

era uma vez a REALIDADE.

Aragon

(tradução António Cabrita)

ceci nést pas une pipe

pintura de Magritte

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Geral

A Persistência da Cassete

acasseteFrancisco Seixas da Costa mantém um blogue, genérico nos temas que versa, que se lê com interesse.

Cruzamo-nos algumas vezes. Amigos meus, muito próximos, alguns desaparecidos, entre outros Bartolomeu Cid dos Santos, Fernanda Paixão dos Santos, Pedro Pedreira, incluem-se na sua vastíssima roda de amizades.

Frequento, com bastante irregularidade, o seu blogue em acordo variável com as opiniões que emite. Em franco desacordo com o que escreve quando se refere ao meu partido, o Partido Comunista Português, onde somos todos desumanos no dizer de um dos seus seguidores, o que não mereceu contradita do autor do “post” pelo que, com propriedade, deduzo que considera ajustado tal epíteto, em linha com o conteúdo do texto que provocou a dita observação. Um “post” em que a pretexto da morte de Francisco Canais Rocha, declara: “Nunca na minha vida consegui condenar alguém que, sob tortura, tivesse “falado”. Sei lá como me portaria se tivesse de suportar idênticas circunstâncias! Tenho amigos que “falaram” e outros que “não falaram” na cadeia. Não tenho menor ou mais apreço por eles, por essa razão. Acho assim miserável que o PCP nunca tivesse reabilitado este seu antigo militante. Um partido também se mede pela sua humanidade.”

Também eu nunca condenei ninguém por ter “falado” na cadeia. Quem está submetido a selváticas torturas só se estiver disposto a morrer as pode suportar até ao extremo limite. São muitos os camaradas que heroicamente ultrapassaram as violências inomináveis a que foram sujeitos. Sem essa determinação, num exemplo abstracto mas real, quem suporte a ferocidade de dez dias de tortura de sono, estátua, agressões físicas e psicológicas, chegue ao fim desse tempo resistindo, até aos verdugos desistirem, fica sem saber se na hora seguinte, na meia hora seguinte, no quarto de hora seguinte, a sua resistência não seria quebrada. Iria, numa fracção de segundo, do Capitólio para a Rocha Trapeia. Por isso, nunca condenei ninguém que “falou”, para usar a gíria em uso. Os limites da resistência humana são infinitos mas sempre desconhecidos. Honra para quem, em nenhuma circunstância, falou ou falaria, por terem a determinação que referi.

Esclarecido este ponto considero que Seixas da Costa deveria cuidar melhor do que afirma. São muitos os militantes do PCP que “falaram” e que, depois do 25 de Abril, voltaram a militar activamente no seu Partido. São muitos os militantes do PCP que “falaram”, e estão hoje no PCP, de militantes de base a dirigentes, mesmo no Comité Central, ou que foram deputados tanto na Assembleia da República como no Parlamento Europeu. São hoje bastante menos do que foram depois do 25 de Abril. Menos, unicamente pela lei da vida. Estas evidências arrasam a acusação de o PCP ter “ausência de humanidade”. O PCP diferencia-se de outros partidos onde o rancor mesquinho, de alguns dos seus mais altos dirigentes, atira à mínima divergência sem hesitações para o inferno alguns dos seus companheiros, mesmo os mais próximos, até íntimos. Seixas da Costa deveria informar-se melhor antes de incorrer em erros e emitir juízos que põem em causa a sua credibilidade.

Ao ler outros “posts” poderemos concluir que há um objectivo, mais geral. O de demonstrar, por fás e nefas, a impossibilidade de um acordo de esquerda por culpa do PCP.

Num “post” mais recente, a pretexto de um artigo do Avante! sobre a queda do Muro de Berlim, é delicioso assistir ao alinhamento do texto que vai de um paternalismo à beira da abjecção que embrulha em ternura por uns supostos saudosos de um passado próximo e por um “ PCP (que é) hoje um museu de si próprio, que deve ser conservado com todo o cuidado que sempre deve ser concedido às espécies em extinção” para concluir “que (é) um partido a quem tenho, como muitos portugueses, uma eterna dívida de gratidão pela sua inigualável e sacrificada luta para derrubar a ditadura”. Continuar a ler

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Geral

Vale tudo para fantasiar o crescimento económico

gráficos

Aparentemente hoje seria dia para escrever sobre aquela coisa, aquele simulacro de democracia que foram as primárias do PS.

Não! Que fique isso para a vozearia que vai inundar os meios de comunicação social na “grande bouffe” ilusionista que atinge cumes em momentos como este. Claro que interessa fazer o cotejo do acontecimento no mais vasto contexto da degradação da democracia, quando as cinzas pousarem.

O que assistiu é mais um momento do aviltamento e da alienação das sociedades actuais Um momento digno de uma das últimas notícias económico-financeiraas bem exemplificativas do estado a que se chegou, em que a moral e ética e quaisquer princípios são ferozmente guilhotinadas na praça pública.

O desespero é de tal ordem que tudo serve para, estatisticamente, aumentar o PIB.

Agora a CEE autoriza que, para o cálculo do PIB sejam incluídas as actividades económicas à margem do que é lícito. A prostituição e o tráfico de droga passam a poder ser englobados no PIB, mesmo na base de valores estimados, nos países onde essas actividades são proibidas.

Em Inglaterra são mais dez mil milhões de libras. Em Espanha o PIB aumenta =,85%. Em Portugal pode a ir até mais 2%. Uma orgia que vai contribuir para o crescimento estatístico da economia.

Sugere-se que o governo PSD-CDS, que se diz tão empenhado no crescimento económico com os resultados desastrosos conhecidos, que é tão dado ao marketing, lance vigorosas campanhas para que, finalmente, haja o crescimento económico.

Que iniciem imediatamente campanhas publicitárias com esse objectivo.

P

Já foi às Putas hoje?

O cálculo estimado de gastos com putas tem benefícios fiscais.

Seja Benvindo ao Portal das Finanças para os conhecer

Nota Muito Importante:

Para a AT Autoridade Fiscal e Aduaneira

o conceito de putas é abrangente, não tem sexo

snifar

O seu snif está em dia?

Cada doze snifadelas dão direito

a concorrer ao sorteio trimestral

de 5 gramas de cocaína

Estimado contribuinte

colabore connosco

declare as suas snifadelas

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Geral, Política

As Saídas e as Entradas

2014Irão certamente ler-me  depois das saídas e já com as entradas em 2014 feitas sem grandes risos ou risos forçados, um tanto ou quanto à faire lesemblant, este ano ainda de forma mais enevoada e pesada. Até a natureza nos acompanha neste despedir e saudar com as voltas trocadas.

Contudo, aqui deixo algumas palavras na crença imodesta de que serão lidas (amanhã ou depois, que importa?).

Não vou repetir os números com que procuram enganar-nos para nos remeter a uma passividade que desejam. Eles são conhecidos como o são os reais, os verdadeiros números sobre os aspectos fundamentais da crise que nos  obrigam a pagar e sofrer os que continuam a ter lucros e estão cada vez mais ricos e a quem a crise beneficia, sabendo eles de inicio que assim seria.

Naomi Klein descreveu bem o que se passou e passa para que eles possam aproveitar a oportunidade de implementar os objectivos previstos e estudados pela nova forma que assume o capitalismo mundial. Nesses objectivos não estão só incluídos os económicos, mas também os políticos e os ideológicos que a Dama de Ferro sintetizou nas expressões «mudar a alma e não há alternativa».

Por trás dos números  estão seres humanos, seres humanos iguais a todos os outros que estão a ser despojados de tudo aquilo que hoje implica a Humanidade.

A pobreza, a fome, o desemprego, a falta de habitação, de condições mínimas de conforto, de atendimento próximo, equitativo e célere na doença, a perda progressiva de saúde devida às más ou deficientes condições de alimentação, de habitação, de falta de transportes, a não fruição do lazer e da cultura, a insegurança, o medo de um futuro cada vez mais sombrio atingem pessoas, seres humanos e não números.

Percebemos que os economistas acríticos, formatados todos por universidades ao serviço do capital, usem os números e os atirem para cima de nós lá do alto dos média que lhes dão cobertura total e repetida, mas não podemos deixar-nos levar por essas teorias pretensamente cientificas com que nos querem convencer da inevitabilidade das medidas, ditas de austeridade, e da ausência de alternativas que estão a legitimar a destruição das responsabilidades sociais do estado, o empobrecimento individual e do país, os baixos salários, a precariedade, as tentativas, cada vez mais visíveis, do uso do trabalho voluntário, vendo neste uma forma altruísta de se estar na crise. Altruísmo a favor de quem? Os bolsos dos multimilionários vão-se enchendo e até mesmo a caridadezinha lhes está a trazer lucros.

Hoje, somos todos precários, todos números precários de uma economia cujo fim único é dar dinheiro a um punhado de gente e nada mais é importante. Nem pessoas, nem ambiente, nem ética! E muitas das universidades legitimaram este modelo de forma acrítica que é urgente denunciar e criticar.

O ano de 2013 foi um ano muito mau para a imensa maioria do povo português, mas teve aspectos que são motivo de alegria e de esperança: as lutas que foram tantas e tão grandes. Lutas organizadas de amplos sectores que, cada vez mais unidos, irão continuar a lutar no ano que agora começa. Lutas ainda maiores, com mais pessoas determinadas, conscientes das suas capacidades para mudar e impôr a queda deste governo (governo com tantas remodelações que mais parece um carrocel desnorteado onde há uns quantos, todos independentes, se enjoam e pedem para sair não suportando o cheiro nauseabundo?) e da realização de eleições antecipadas.

É vulgar falar-se de Esperança na entrada de um novo ano. A Esperança é uma atitude cognitivo-emocional e um comportamento. Se assim decidirmos, ela surge e leva-nos a agir.E geramos um sentimento. Há um ditado árabe, creio, que diz mais ou menos isto: «A esperança não é colocar um novelo de lã dentro duma gaiola e esperar que nasçam pássaros.»

Abril e a Democracia esperam por todos nós. A nossa esperança reside também na nossa luta.

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Política, Setúbal

Democracia à la carte

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A vida democrática rege-se por princípios muito simples, os quais são facilmente apreendidos e praticados, seja na actividade política, na vida associativa, ou até nas relações familiares e em círculos de amigos. Não obstante o óbvio atrás exposto, que regula as mais distintas dimensões da vida em sociedade, surgem excepções, que me conforta pensar que apenas confirmam as regras por todos aceites.

Fruto das recentes eleições autárquicas, teve lugar em Setúbal um destes fenómenos. Na União das Freguesias de Setúbal, nova unidade territorial que resulta da agregação e extinção das anteriores freguesias de Santa Maria, São Julião e Anunciada, a vitória coube à CDU, lista que obteve o maior número de votos, consequentemente elegendo o Presidente da Junta. O restante Executivo da Junta de Freguesia – vogais -, assim o determina a lei, é eleito no acto de Instalação dos Órgãos, vulgo tomada de posse, de entre os membros que constituem a nova Assembleia de Freguesia e sob proposta do Presidente da Junta.

Esclarece a ANAFRE – Associação Nacional das Freguesias, numa nota sobre a instalação dos órgãos das freguesias, que “O legislador quis, especificamente, que a proposta dos nomes dos Vogais fosse feita pelo Presidente da Junta de Freguesia para que este possa ser um Ógão com quem se possa e deseja trabalhar em bloco, por todo o tempo do mandato, com confiança pessoal e política.” Naturalmente que, sendo votada a proposta, a mesma pode ser rejeitada, designadamente quando a força política que venceu as eleições não dispõe de maioria dos membros na Assembleia de Freguesia. A referida nota da ANAFRE refere-se às consequências desta possibilidade com preocupação, pois “cria uma situação de bloqueio e a consequente paralisação da atividade dos dois Órgãos da Freguesia”. Nesse sentido recomenda que “Deve prevalecer o interesse local, alicerçado no bom senso individual e no benefício coletivo.” A nota termina com um apelo “A ANAFRE apela ao bom senso e à vontade política comum de todos os eleitos verem a sua Freguesia governada e administrada imediata e pacificamente.” Estas preocupações e recomendações são entendíveis e essenciais, dado que a não eleição do Executivo paralisa o funcionamento de uma junta de freguesia, nomeadamente a prestação de serviços vários à população – limpeza dos espaços públicos, conservação das escolas, obras em curso, manutenção dos espaços verdes, procedimentos administrativos, etc. – e a gestão de recursos humanos, eventualmente até o pagamento dos salários aos trabalhadores da junta.

No entanto, na instalação dos órgãos da União das Freguesias de Setúbal verificou-se o inesperado. O Presidente da Junta (CDU) apresentou uma proposta para a eleição do Executivo da Junta composta pelos membros da mesma força política na Assembleia. Não sem previamente ter auscultado todas as outras forças políticas sobre eventuais propostas que tivessem, sempre no sentido de assegurar o funcionamento dos órgãos. Ninguém propôs o que quer que fosse. Todavia, PS e PSD/CDS votaram contra a proposta do Presidente da Junta para a composição do Executivo. Seguiu-se nova votação e novo chumbo. De imediato o PS, através da sua primeira candidata à freguesia, apresenta uma declaração exigindo novas eleições. Nem sequer manifestaram qualquer disponibilidade para discutir e encontrar soluções que viabilizassem o funcionamento da Junta de Freguesia. Não conseguiram tão-pouco disfarçar o seu único intento: novas eleições.

Voltando aos princípios democráticos e às recomendações da ANAFRE, cabe perguntar onde fica o superior interesse da freguesia e da sua população? Esta atitude, concertada e premeditada, revela um profundo desrespeito pelo voto da população da freguesia, que deu a vitória à CDU, e pelas mais elementares regras da democracia. É uma verdadeira tentativa de “Golpe de Estado” e um exercício de mau perder, próprio de quem convive mal com a democracia. Perdido o jogo, não aceitam o resultado, querem novo jogo. Se pelo País fora primasse este comportamento antidemocrático, instalar-se-ia o caos, pois as instituições não funcionariam e nenhum acto eleitoral seria válido e respeitado.

Esta questão é tão mais absurda quando existe histórico. Há quatro anos atrás, aquando das eleições autárquicas de 2009, o PS venceu tangencialmente as então freguesias de Santa Maria e de São Julião. Não tendo maioria em nenhuma das assembleias, beneficiou da seriedade dos eleitos da CDU que confirmaram o interesse maior das populações e respeitaram o seu voto, afirmando, uma vez mais, o princípio de que quem ganha deve governar e cumprir o programa que apresentou aos eleitores. Assim, a CDU viabilizou que em ambas freguesias o PS elegesse executivos apenas com pessoas daquela força política. Já depois das eleições de Setembro passado, a cabeça de lista do PS à União das Freguesias de Setúbal divulgava publicamente um texto anunciando que “Quem ganha deve governar e não pode ser impedido de colocar em marcha o programa apresentado em campanha”. É caso para dizer, bem prega Frei Tomás…

Os interesses pessoais e partidários soaram mais alto e tornaram-se bem mais importantes que os da população da freguesia. Por essa razão procuram agora ganhar na secretaria o que não conseguiram nas urnas com o voto da população. É a Democracia à la carte do PS. Não gosta do cozinhado, pede outro prato. Esquecerão talvez que ninguém tem simpatia por quem revela mau perder e que as pessoas são inteligentes e, portanto, não gostam de ser desrespeitadas e defraudadas. A democracia constrói-se com regras e com comportamentos que dignifiquem os órgãos e as forças políticas, e que respeitam a vontade e os interesses das populações. Este é um mau exemplo que seguramente a população condenará.

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autarquias, Geral, Política

Democratas mais democratas, não há!

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Foto: Henri Cartier-Bresson

Na sequência dos resultados das eleições autárquicas do passado dia 29 de Setembro, a cabeça-de-lista do PS à União de Freguesias de Setúbal, Ana Espada Pereira, com ares de democrata, escrevia no seu facebook:

A nossa equipa irá assumir funções na Assembleia de Freguesia e no mandato que se avizinha não seremos força de bloqueio como outros foram no passado.
Quem ganha deve governar e não pode ser impedido de colocar em marcha o programa apresentado em campanha.
Criticando de forma positiva e propondo, iremos tudo fazer para criar melhores condições na freguesia.
Esta é a nossa forma de estar na politica, este é o nosso compromisso para o mandato que em breve terá inicio e que findará em 2017. 

Estas eloquentes palavras, publicadas no dia 2 de Outubro, rapidamente foram desmentidas pelos próprios autores que, esta noite, na instalação dos órgãos da Freguesia, num entendimento com o PSD/CDS, dizem não reconhecer os resultados eleitorais, querendo à força impor a realização de novas eleições.

Era sabido que o PS havia apostado muito das suas forças eleitorais nesta Freguesia, que esperava ter aqui a sua única vitória no concelho, que os resultados foram uma desilusão para o projecto partidário e pessoal dos intervenientes, era sabido que por estas bandas o PS tem uma larga tradição no mau perder, mas era difícil adivinhar que tão cedo viessem pôr em causa os resultados eleitorais, ignorando a vontade expressa dos eleitores da União de Freguesias de Setúbal.

Em Setúbal, o PS e a coligação PSD/CDS voltam a dar um péssimo contributo para a valorização e dignificação da democracia local, continuam a mover-se nos terrenos perigoso da chicana política, a promover o descrédito e o afastamento das pessoas da política.

Aqueles que nas últimas eleições votaram no PS têm de ficar a saber o que esta gente faz com os seus votos, o que escondem por detrás das promessas de uma nova forma de fazer política, as contradições insanáveis entre as democráticas proclamações e a prática trauliteira e prepotente.

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Geral

Liquidação da democracia em suaves prestações

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Os tempos de crise económica e social são terreno fértil para perigosas teses anti-democráticas, para a imposição de restrições ao exercício de direitos e liberdades, para o ressurgimento das figuras moralistas e paternalistas que afirmam que o povo não sabe escolher, é desprovido de inteligência e, portanto, é preciso decidir por ele.

Como a história tem demonstrado, quando a burguesia sente que os seus instrumentos de dominação política e ideológica começam a deixar de servir, apressa-se a criar novos, sem temer a utilização de formas mais agressivas e violentas, desde que tal sirva os seus interesses e a continuação das políticas que os satisfaçam.

Assim, quando confrontada com as suas contradições, com o desastre das suas políticas e com o aumento da luta de massas, não teme em lançar campanhas ideológicas assentes no medo e na desconfiança, pondo em causa o exercício de direitos democráticos.

É deste modo que embrulhados em grandes desígnios nacionais, os senhores da União Nacional apelam ao sentimento anti-partidos, ao afastamento das pessoas da intervenção cívica e política, instalam a ideia de que são todos iguais, aprovam limitações ao exercício dos direitos sindicais, atacam o direito à greve, estabelecem restrições ao exercício de direitos políticos.

É neste quadro que surgem fenómenos como a limitação dos mandatos autárquicos, institucionalizando a suspeita, transformando a presunção da inocência em presunção de culpa, assumindo que o voto popular, livre e democrático, não chega para limitar os mandatos pelo que é necessária a imposição de regras administrativas.

Os mesmos que em matéria autárquica rejeitam o reforço do carácter colectivo dos órgãos, a inversão da tendência de acentuação do presidencialismo, o reforço dos poderes de fiscalização das Assembleias Municipais e dos Vereadores da oposição na Câmara Municipal, o reforço dos instrumentos de participação popular nas decisões, vêm dizer que é preciso limitar a três mandatos o exercício das funções de Presidente de Câmara Municipal para garantir a decência e os bons costumes, acabar com a corrupção e o clientelismo.

E como é interessante ver uma certa esquerda ir na conversa, vê-la falar de ética republicana para justificar restrições a direitos políticos e limitações à escolha popular, como é interessante vê-la, lado a lado, com movimentos fascizantes como a Revolução Branca a defender a moralidadezinha, não condenando políticas, mas tomando a parte pelo todo para fazer a sua campanha anti-democrática de apelo à «Salvação Nacional».

A lei sobre limitação de mandatos é uma má lei na forma e no conteúdo, precisa de ser revogada pelo seu carácter anti-democrático e pela limitação que faz de direitos políticos constitucionalmente consagrados.

Enquanto tal não acontece, perante os casos de Presidentes de uma Câmara que se candidatam a outra, espero que sejam vencedores ou vencidos em função do número de votos livremente expressos pelas populações dos concelhos a que concorrem e não por uma qualquer decisão judicial suscitada por acções promovidas por grupelhos fascizantes e com base em legislação mal parida.

Sinto que cada derrota política e judicial do Movimento Revolução Branca e companhia, cada derrota dos que querem limitar o exercício de direitos políticos, é uma vitória da democracia.

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Política

25 ABRIL !

Os brandos costumes continuam a ser o manto nada diáfano da grande mentira que tenta ocultar que em Portugal houve fascismo. Que em Portugal, um regime feroz protegia os interesses espúrios de gente capaz das maiores vilanias para o obter lucros indecentes, exibindo o sorriso inocente de quem finge não saber que as mãos sujas da violência escavavam a vida de muita gente que lutava com honra, coragem e persistência, não se deixando intimidar por uma legalidade iníqua, cortada e costurada à medida para impor o silêncio da submissão a um povo cruelmente explorado.

As raízes dessa árvore que suga o húmus do trabalho da maioria do povo português continuam praticamente a ser as mesmas. Mudam de métodos e práticas conforme as circunstâncias, puxando os fios do teatro de marionetas a quem pagam para entreter os dias.

48 dá voz aos milhares que transitaram pelas masmorras da polícia política e aos que tiveram a fortuna de não transpor aquelas portas, pela voz de quarenta oito homens e mulheres que viveram brutalidades inomináveis. São 48 homens e mulheres, tantos quantos os anos do fascismo, que saltam de um quase anonimato com que se tem tentado apagar esses anos de violência branqueando a história com o objectivo de tornar aceitáveis esses tempos, os tempos actuais e os tempos futuros da exploração do homem pelo capital sem rosto.

Hoje, chamar a atenção, fazer um apelo para se ver, para se ir ver 48, é uma quase exigência para que se exume a história e não se deixe sepultado no esquecimento uma verdade intemporal e universal: resistir, mesmo nas piores situações, é sempre possível.

Hoje, na véspera de se celebrar mais uma vez o último dia do fascismo, nos cenários de crise que se vivem, em que a maioria do povo português sofre as agruras violentas das dificuldades quotidianas, em que o desemprego cresce afectando brutalmente todos, mas em particular uma juventude nascida maioritariamente depois do 25 de Abril, 48 lembra-nos que comemorar esse dia, festejar a Revolução dos Cravos, é sublinhar a traço grosso e em cor viva as esperanças que há trinta e sete anos irromperam numa onda de incontida alegria percorrendo todo o país, acordando energias que, nos quase 50 anos, a ditadura fascista tinha congelado pela violência.

Comemorar o 25 de Abril não é um exercício de nostalgia, nem um rastilho de memórias para quem o não viveu, é afirmar que a esperança que fez nascer em todos os portugueses e que tem sido sistematicamente destruída por mais de trinta anos de governação desastrosa, posta em prática pelos chamados partidos do arco do governo, está na ordem do dia, nasce mais forte em cada 25 de Abril. Continua a inundar as ruas de fraternidade. Continua a tornar o ar mais leve e puro no vermelho dos cravos. Continua a dar mais força para ultrapassar as barreiras que o querem ocultar ou atirar para a prateleira da história.

Os anos passam, mas o 25 de Abril nunca será mais um 25 de Abril, será sempre um 25 de Abril novo, para todos para quem a liberdade, a democracia, a vida são valores imperecíveis, por que se luta todos os dias.

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Política

Descubra as diferenças I

O congressista do Partido Democrata norte-americano Bob Etheridge acordou mal disposto ou bebeu uns canecos a mais, tanto faz. A uma pergunta aparentemente simples, colocada em plena rua por um jovem estudante envolvido num projeto escolar, reagiu desta maneira:

A força viral do youtube é, de facto, muito poderosa. Mas a forma como os políticos americanos encaram as relações com os eleitores e com a sociedade também se reveste de características muito específicas. Pouco demorou para que o senador viesse a público, no seu site, lamentar a reação que teve (link na imagem):

Agora, descubra as diferenças entre Bob Etheridge e o nosso luso deputado Ricardo Rodrigues, que, perante perguntas que ele sabia previamente que seriam desagradáveis (e ele até parece não ter bebido caneco nenhum), reagiu assim:

Até agora, o que se viu foi apenas mais arrogância deste deputado, com recurso a tribunais e a providências cautelares que decidiu interpor, como se fosse ele o roubado. Pior: foi o próprio líder parlamentar do PS quem veio a terreiro caucionar a atitude de Ricardo Rodrigues, abrindo as portas a todas as barbaridades que os deputados no futuro queiram cometer no parlamento.

A diferença não reside na diferença de nacionalidades. Reside apenas na forma como cada um interpreta e percepciona o funcionamento dos regimes democráticos. Ricardo Rodrigues já demonstrou que não interpreta nem percepciona… E este é o deputado que agora aparece a contestar as conclusões do inquérito PT/TVI.

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