Cultura, Literatura, Livros

Livros… a ler

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Não é que seja um entendido. É a curiosidade que me conduz à descoberta de autores e de livros que não encontro expostos nas montras e nas prateleiras das livrarias da moda.

Ler é perder-me – há muitos lugares onde nos podemos perder, mas nenhum é tão complexo como uma livraria ou uma biblioteca -, o que aconteceu, também, “ao Vivaldo Bonfim, escriturário na repartição de finanças do 7.º Bairro Fiscal e que punha sempre um livro debaixo de modelos B, impressos de alteração de actividade e outros papéis de nomes ilustres, e lia discretamente, fingindo trabalhar. Não era uma atitude muito bonita, mas o meu pai só pensava nos livros”.

É esta a história que nos conta Afonso Cruz, em “ Os livros que devoraram o meu pai”, numa edição da Caminho.

Como aperitivo transcrevo este pequeno e saboroso fragmento: “ … Soube pela minha avó que um tal Orígenes, por exemplo, dizia haver uma primeira leitura, superficial, e outras mais profundas, alegóricas. Um bom livro deve ter mais do que uma pele, deve ser um prédio de vários andares. O rés-do-chão não serve à literatura. Está muito bem para a construção civil, é cómodo para quem não gosta de subir escadas, útil para quem não pode subir escadas, mas para a literatura há que haver andares empilhados uns em cima dos outros. Escadas e escadarias, letras abaixo, letras acima”.

Se gostou… não hesite. Vai ver que vai valer a pena!

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Livros que se devem procurar

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Agora que Maria Velho da Costa (em 2013) recebeu o prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores, reconhecendo a grande originalidade, inventiva e criatividade da escritora, rebuscámos um livro, escrito em parceria, que teve uma circulação restrita.

Trata-se do guião para uma série televisiva sobre Camilo Castelo Branco, a ser realizada por Alberto Seixas Santos, que, com “a sua habitual minúcia e exigência na pesquisa, neste caso literária e histórica”, confiou a António Cabrita e a Maria Velho da Costa o guião de “uma trilogia cinematográfica, que se desdobraria em série televisiva, que retratasse o estro, a aventura e o acinte de Camilo Castelo Branco”.

Bem português o destino desse projecto. Sem se saber bem porquê, nem sequer se filmou uma cena do livro, quando os autores decidiram recuperar o trabalho literário realizado, publicado uns anos depois pela Íman Edições, editora suicidada nas danças e contradanças que anunciavam a concentração das editoras.

Se antes já não era fácil encontrá-lo escondido nas prateleiras carregadas indiferenciadamente de obras notáveis, assim-assim e mesmo abomináveis, agora só se encontra nesses novos alfarrabistas que estão instalados nas estações de metro e comboio ou em tendas que aparecem e desaparecem país fora. Quando está presente é fácil vislumbrá-lo, virtudes da belíssima capa de José Teófilo Duarte.

Destino muito camiliano de “Inferno”, que se divide em três temas: 1-O Demónio do Ouro (focalizado na vida material); 2-Onde Está a Felicidade? (centrado na vida sentimental do escritor); 3-Noites de Insónia (a escrita e a pulsão suicida de Camilo). De forma bastante original, fundada numa poderosa escrita, “Inferno” é um fresco sobre a vida, a genialidade e os demónios de Camilo. 

(publicado no Guia de Eventos de Setúbal / Janeiro,Fevereiro) 

Procurem-no agora que, com o prémio e muito justamente, a obra de Maria Velho da Costa vai ser, assim o esperamos, mais procurada, para que esta obra, feita em parceria, não continue quase secreta.

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Um livro de vez em quando

“O carácter de um homem é o seu destino”

“O carácter de um homem é o seu destino” diz a abrir o romance Augie March citando Heráclito, depois de fazer uma auto-retrato sucinto: “ sou americano, nascido em Chicago – Chicago, aquela cidade sombria – , e encaro as coisas da maneira que aprendi a fazer sozinho, em estilo livre, Vou, portanto fazer o relato á minha maneira: o que bater primeiro, é o primeiro a entrar; ás vezes uma pancada inocente, outras nem tanto.”
Esse é o travejamento deste romance que conta aa aventuras desse jovem nascido na época da Grande Depressão, um optimista romântico que, em múltiplas andanças e aventuras se torna num cínico pessimista. Andanças e aventuras que decorrem nos Estados-Unidos, Europa e México, exercendo as mais inusitadas profissões que vão do contrato de pugilistas ao tráfico de emigrantes, do roubo de livros à organização de sindicatos, da segurança de Trotsky ao treino de águias temperamentais na caça de lagartos gigantes, vivendo os episódios mais mirabolantes.
Augie March é dotado de perspicácia natural, voracidade de conhecimento e imparável energia, que o fazem reagir aos inacreditáveis encontros e desafios que a vida lhe proporciona. Tudo isto sem considerações morais e com uma enorme capacidade de improviso. Cada pessoa é uma fonte de saber, cada encontro uma oportunidade de mudança agarrada com vitalidade.
Augie March é classificado como um romance de formação e aprendizagem, à semelhança de David Copperfield, de Charles Dickens, ou Huckeberry Finn, de Mark Twain, em que o personagem principal se cruza com inúmeros e inesquecíveis personagens secundários.
Um romance em que a vida é motor da escrita e se sobrepõe á arte.

As Aventuras de Augie March
Saul Bellow
Quetzal editores
Tradução Salvato Telles de Menezes
Revisão: João Assis Gomes
Capa Rui Rodrigues
1º edição portuguesa Setembro 2010
1ª edição original 1953
710 páginas
( publicado no Guai de Eventos de Setúbal, Dezembro 2011)

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Um Livro de vez em quando

UM MANIFESTO CONTRA A GUERRA

Entre 13 e 15 de Fevereiro de 1945, a cidade de Dresden foi brutal e desnecessariamente bombardeada pela força aérea inglesa e norte-americana. Foram largadas 4000 toneladas de bombas incendiárias. 33 quilómetros quadrados do centro da cidade foram completamente arrasados. Dresden, não era alvo militar, nem sequer tinha artilharia antiaérea para se defender. O número de mortos foi calculado em 250 mil, quase o dobro de Hiroxima.
Kurt Vonnegut, jovem soldado voluntário do exército norte-americano, estava prisioneiro dos alemães, em Dresden. Presenciou e sobreviveu aos bombardeamentos. Nos dias a seguir andou a trabalhar nas valas comuns e nas piras em que se enterravam e queimavam os cadáveres. Este episódio, um verdadeiro crime de guerra, marcou tanto Vonnegut que, sob várias formas, aparece em outros dos seus livros, sem o lugar central que tem neste.
Em 1967, volta a Dresden com um companheiro de armas e de prisão. Visita o Matadouro Cinco, a sua prisão militar, escreve este livro, Matadouro Cinco ou a Cruzada das Crianças – Uma Dança de Serviço com a Morte. É um magnífico libelo pacifista, escrito em tom irónico. Billy Pilgrim, o herói do livro, sofre de uma doença que o faz andar para trás e para a frente no tempo e no espaço, vivendo em simultâneo várias realidades que o fazem visitar um extravagante planeta, onde é exibido num zoo. As suas histórias são contadas por um desvairado escritor de livros de ficção científica que nunca ninguém leu, mas regista com minúcia os alucinados relatos de guerra de Billy Pilgrim, que são a experiência vivida por Vonnegut na II Guerra Mundial.
Matadouro Cinco é um extraordinário manifesto contra o horror e o absurdo da guerra em que os episódios hilariantes não permitem gargalhadas e a profunda amargura que o atravessa não dá espaço para lágrimas. Um livro duríssimo embalado num tom burlesco que acaba por enfatizar a violência dos episódios. Um retrato devastador do inferno da guerra, na sua ilógica e brutal insensatez.
(publicado em Leituras, no Guia de Eventos de Setúbal, Novembro 2011)

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Um Livro de vez em quando

FESTEJAR A ESCRITA

Há trinta anos Mário de Carvalho irrompeu com fragor no mundo literário de língua portuguesa com dois livros de contos, Contos da Sétima Esfera e Casos do Beco das Sardinheiras. Dois anos depois A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho, no ano seguinte Fabulário. Descobria-se uma inventiva que ultrapassava todas as margens, um prazer lúdico saltava todas as barreiras, invadia aqueles textos ancorados em relatos domésticos, fantásticas ou históricos.

Novelas e romances, entre eles, um dos mais notáveis de língua portuguesa Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, foram-se sucedendo. Em 2000, uns Contos Vagabundos, confirmaram a prática da concisão mas não faziam esquecer aqueles três primeiros livros.

Com O Homem do Turbante Verde, Mário Carvalho evidencia-se como grande mestre da narrativa curta seja a história relatada secante a vivências do autor, tenha uma raiz “kafkiana”, seja paródica ou provocadora de inquietações extremas, ocorra em cenários bloqueados impossíveis de reconhecer ou que nos sejam familiares, decorram as peripécias integradas num vago contexto histórico que se torna de uma actualidade cortante ou se localizem em tempos próximos. Todos os contos são notáveis.

São dez contos magníficos, arrumados tematicamente, de uma imaginação fértil que se espraia por um português límpido de vocabulário extenso e construção sem fissuras. Uma exibição do virtuosismo de ter uma história para contar e sabê-la contar como poucos o saberão fazer.

Lê-se de um fôlego. A muitos dos contos, em que acontecem maldições ferroviárias, brutalidades inomináveis e inexplicáveis, o erro distraído de um burocrata que é imperdoável num meio doentiamente deformado, a crescente paranóia de um individuo que vai fechando a casa para melhor se entrincheirar, voltamos atraídos e inquietados por um pessimismo que se entrevia nas suas duas últimas novelas Sala Magenta e A Arte de Morrer Longe e aqui adquire uma dimensão com outra espessura.

O Homem do Turbante Verde é um livro de contos que festeja a literatura.

(publicado no Guia de Eventos de Setúbal/Leituras , Julho 2011)

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Cultura

Um livro de vez em quando

A ESPESSURA DO PESSIMISMO

O escritor uruguaio Juan Carlos Onetti tem vindo a ganhar o reconhecimento que escritores da América Latina lhe tributam. Citem-se Cortázar “Caro Onetti, uma vez mais encontrei tudo lá, tudo o que te faz diferente e único entre nós”, Garcia Marquez “Onetti é todo ele demasiado bom e demasiado asfixiante para a América Latina”, Vargas Llosa em extenso ensaio à obra de Onetti “uma imensa alegoria da frustração que foi viver na América Latina durante a década em que esta foi palco de sucessivas ditaduras militares.”

O universo de Juan Carlos Onetti é muito singular. Decorre numa cidade mítica Santa Maria, como Macondo de Marquez ou Comala de Rulfo, lugar no mapa do realismo mágico que usa mas não abusa.
Cidade decadente, devorada pelo progresso das ruínas por onde deambulam homens e mulheres vivendo vidas que não se cumprem. Façam o que fizerem o seu caminho é um percurso de frustrações inexoráveis, sobressaltado pela visita de personagens solitárias, desesperadas, amorais.

O Estaleiro, obra-prima de rigor e delicadeza, foge a qualquer classificação. É um dos melhores exemplos do universo onetiano. Larsen retorna, cinco anos depois, à cidade de onde tinha sido expulso. Emprega-se como gerente de um estaleiro onde há muito tempo não é reparado nenhum barco. Os empregados vendem peças que estão abandonadas para ganhar o dinheiro que não obtém com salários contabilísticos. Larsen esgota-se no esforço inútil de tirar o estaleiro do caos em que está imerso, enquanto faz a corte a Angélica Inês, uma rapariga tonta filha do dono do estaleiro. Um mundo de seres que vagueiam à beira do abismo, arrastados pela torrente de um pessimismo que parece inspirado na própria vida de Onetti que, nos últimos anos da sua vida de exilado em Madrid, não saia de casa, não por qualquer problema físico, mas porque tinha em casa tudo o que lhe interessava e era essencial: a mulher, a cadela, os romances policiais de Chandler e Hammett.

( publicado em Leituras / Guia de Eventos de Setúbal Junho 2011)

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Cultura

Um livro de vez em quando

A real espessura do vazio

Rentes de Carvalho, transmontano obrigado a exilar-se por motivos políticos para o Brasil, acaba por desembarcar na Holanda, com o cargo de assessor do adido comercial da embaixada brasileira. Ai se fixou. Aí se licenciou. Aí começou a leccionar Literatura Portuguesa e a dedicar-se em exclusivo à escrita até esse momento fragmentada em vasta colaboração em jornais. Nos finais dos anos 60 publica, na desaparecida Prelo, Montedor que anunciava o surgimento de um grande escritor.

A sua relação com a Holanda, com a sua cultura e civilização, “a única paixão que os move é a criação de novas regras”, com a liberdade e frieza de costumes, assombram o transmontano viajado e adquire um lugar central na sua obra, sempre oscilando entre a crítica feroz e uma relativa aproximação a essa realidade. Na literatura portuguesa esse olhar acerado sobre o lugar onde se fixaram e de onde já se sentem incapazes de sair, terá paralelo com outro exilado político, Alexandre Pinheiro Torres e Inglaterra

Rentes de Carvalho começa por ter imenso êxito, não em Portugal, mas na Holanda com dois livros escritos directamente em neerlandês: Portugal, um Guia para Amigos e Os Holandeses.

Entre os seus (todos bons) romances A Amante Holandesa sobressai. As personagens, as paisagens, o enredo em que as surpresas estão no virar da página no conjunto de angústias e frustrações, a medida humana de cada uma das personagens, naquilo que revelam, mas sobretudo naquilo que escondem. O ponto de partida é uma história quase banal, com muito de autobiográfico. Um jovem, Amadeu, deixa a sua isolada aldeia transmontana para se fixar na cosmopolita Holanda, trabalhando como estivador no porto de Amesterdão. É nesse país que o protagonista se envolve com uma rica holandesa, fria, indiferente, desenfreada na cama. Constrói uma espécie de amor como um puzzle que nunca acaba porque faltam sempre peças, mesmo as que já tinham sido colocadas no sítio correcto, o que dá uma ilusão de que o amor pode existir mas acaba por o magoar.

De regresso à sua terra, Amadeu reencontra-a como era. Universo imobilista, opressivo, uma violência latente de paixões, fraquezas, desejos recalcados. Vulcão em actividade debaixo do manto dos brandos costumes.“Num meio pequeno é assim que se sobrevive. As raivas, as invejas e os ódios vêm esporadicamente à tona, por vezes explodem, mas logo depois tudo assenta e o dia-a-dia continua a arrastar-se, sempre igual, imutável na sua fingida serenidade.”

Reata amizade com um colega de infância. As longas conversas que ambos travam, permitem uma reflexão sobre a vida que ambos tiveram até esse momento e sobretudo o desencanto pela consciência acerca do carácter ilusório do amor que vai cavando o vazio com que o romance termina.

Um livro que fica em nós para lá da sua leitura.

( publicado no Guia de Eventos de Setúbal, maio 2011)

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