Geral

Abrir os Armários

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Eles aí estão a sair do armário!!!

Toda essa gentalha que estava fechada no armário da democracia, salta para o pântano da mais farfalha reaccionarice, para combater o fantasma de um governo de esquerda.

Invadem o terreno dos meios de comunicação social que há muito anos ocupam com maior ou menor parcimónia, com maior ou menor descaramento, com a maior ou menor inabilidade, onde mentem com contumácia sobre a realidade para construírem uma realidade que nos vendem como verdadeira.

Agora depois dos resultados eleitorais em que, mentindo com todos os dentes que têm,, recuperando mesmo os cariados que foram arrancados e substituídos por próteses, a coligação PSD/CDS com alianças declaradas ou sornas nos media, é minoritária e há a possibilidade de um governo de esquerda, ainda que seja para já tão provável como a aparição de D. Sebastião numa manhã de nevoeiro, salta do armário esse exército que reúne dos mais ultramontanos direitinhas aos mais esclerosados democratas.

Curiosamente o argumentário é, no seu essencial, o mesmo quando se vislumbra uma sombra que pode ameaçar o Portugal deles, o Portugal destruído por quarenta anos de políticas de direita, submetido aos ditames do capital e dos seus braços armados. Uma hipotética coligação de esquerda fá-los perder a cabeça e saltar dos armários. Uma dessas avantesmas ficou tão aterrorizada que até entreviu Estaline a ressuscitar em pleno Terreiro do Paço pronto para tomar o poder. Diz essa alarvidade sem que ninguém o contradiga ou diga que está louco. Os outros, que se querem fazer passar por mais credíveis, não perdem tempo em agitar os fantasmas do Prec, da democracia, a deles evidentemente, à beira do abismo em 1975, mais a parafernália de argumentos que foram buscar à arca da contra-revolução que começou na primeira hora do triunfo do 25 de Abril. Estão ajoelhados na grande Meca do capital, aos ditames da União Europeia, às virtudes do Tratado Orçamental e das políticas de austeridade, à NATO e ao seu combate cínico aos talibãs, Al-Qaeda e Estado Islâmico que ela e seus aliados no terreno armam e financiam, às hordas nazi-fascistas que proliferam na Europa e estão no poder na Ucrânia.

No meio dessa farândola, vendendo rifas dessa quermesse de mentiras maiores ou menores, sorridentes serpentes saem do ovo para mostrar a sua perplexidade. Um deles interroga-se porque é que na Constituição Portuguesa os partidos nazi-fascistas são proibidos e os leninistas (sic) não o são. Isto é dito pelo inefável Lobo Xavier na Quadratura do Círculo. Fê-lo com o sinistro cuidado de ser o último a falar, de o dizer a fechar o programa. Esperemos que na próxima edição Pacheco Pereira ou mesmo Jorge Coelho não deixem passar em claro essa abominação já que do moderador nada há a esperar. É mais um daquela turbamulta etiquetada de jornalistas que mais não são que caixas de ressonância do pensamento único.

Se Lobo Xavier, com evidentes saudades salazarentas, foi mais longe insinuando a possibilidade de proibir o PCP, os outros não ficam pelo caminho. Basta lê-los ou ouvi-los, mesmo na diagonal. Para nos limitarmos a um jornal que usa todos os arautos para se proclamar de referência, também não se sabe qual o padrão a que se refere, é ler da anémona Henrique Monteiro, que cola um sorriso estanhado no alçado principal para se fazer passar por inteligente, ao cruzado da pequena e média-burguesia, também ele empunhando um sorriso gambrinus, Martim Avilez. De cabeça perdida, de norte desbussolado fazem strip-tease dos adornos democráticos, não se escusam a escrever blasfémias à inteligência!

Já se sabia que essa armada de traficantes junta em tropel as hostes sempre que os interesses do grande capital se sintam ameaçados. O que talvez não fosse previsível é que com sinais ainda tão fracos fossem tão rápidos a terçar armas. Sinal que o mundo deles está muito corroído apesar da gigantesca burla que é vendida urbi et orbi como verdade única. O ambiente de alarme pós-eleitoral é sintomático, despe-os na praça pública de toda a conversa fiada com que vão entretendo o tempo, enquanto afiam as facas para defenderem os seus amos. Julgam-se uma armada invencível. De facto têm um poderosíssimo armamento à sua disposição para não deixarem dissipar o negrume da gigantesca fraude que dá corpo a um fascismo pós-moderno que marcha pelo mundo disparando a esmo as bombas de fragmentação com as mentiras com que o manipulam.

O que se está a viver em Portugal, desde que conhecido o resultado das eleições e independentemente do que resultar delas. escancara as janelas para uma realidade insidiosa que se vive dia a dia. Que nos é servida em doses perigosas: das pequenas às grandes mentiras que tendem a formatar a opinião das pessoas, para que o verdadeiro poder dominante nos continue a governar.

Contra eles recorde-se George Orwell: “num tempo de fraude universal contar a verdade é um acto revolucionário”

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Geral

SER OU NÃO SER CHARLIE

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A comoção que abala o mundo pelo massacre que ocorreu nas instalações do Charlie Hebdo, um jornal satírico e progressista, originou um maremoto de solidariedade a inundar todo o mundo com cartazes “Je suis Charlie”, numa demonstração de muito legitima indignação perante a monstruosidade do atentado.

Nada pode ser pretexto para amortecer a repulsa pelo acto em si, pelo terrorismo em que se inscreve. Mas tudo nos deve distanciar da emoção espontanea, imediata, para se fazer uma análise circunstanciada e rigorosa.

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O Charlie Hebdo já tinha sido alvo de outros atentados com motivação semelhante. Uma ameaça que pairava sobre o hebdomanário, os seus redatores. Isso, hoje como na passado, não jugulou a veia satírica, politicamente incorrecta, do Charlie Hedbo. A coragem de Charlie Hebdo, não se deixou intimidar. No entanto a sua crua iconoclastia, dá azo a fazer o pior de todos os juízos, que justificam aquela atrocidade, todas as atrocidades: “eles estavam a pedi-las”.

Faz lembrar aquele juiz ogre que absolveu um grupo de violadores que, no Algarve, atacaram duas estrangeiras, porque elas estavam a pedir boleia, vestidas de modo considerado provocante pelo juiz, o que é questionável por se estar em pleno verão, numa coutada do macho latino. “Estavam a pedi-las!”, dirão as bestas humanas.

Outro dos enfoques que provoca tergiversações, é centrar a análise nas causas de uma muito mais acentuada irrupção terrorista desde o Afeganistão, com o surgimento dos talibãs, até aos nossos dias, em que a Guerra do Golfo funcionou como um catalizador. Não é que não seja importante, necessario, mesmo uma exigência de clareza política, analisar o fenómeno terrorista, analisar as causas mais longínquas, ainda que não muito distantes no tempo, e as próximas, que estão na ordem do dia, com o Estado Islâmico do Levante. Obama, os seus aliados europeus, na primeira linha Cameron e Hollande, tem responsabilidades que não podem ser diluídas na condenação que fazem do terrorismo e no combate sem quartel, que prometem dar-lhe. Colocar essa análise em primeiro plano, para só depois criminalizar e denunciar o terrorismo tem o efeito de filtro redutor da bestialidade do acto em si, seja este ou outro, tenha ou não tenha maior ou menor dimensão. Claro que a CIA, a Mossad, o MI5, a DGSE, tem a sua cota parte de responsabilidade no incremento do terrorismo, vem de longe, da Bósnia e Kosovo ao EIL. Muita, em percentagem significativa, dessa gente criminosa foi treinada, municiada eWolinski financiada por esses Serviços Secretos, ao serviço de uma estratégia geopolítica que não olha a meios para alcançar os fins.. Mas esse é o segundo plano, o pano de fundo de onde irrompem esses trágicos sucessos que devem ser condenados sem hesitações sem contemplações. Lembrem-se dois actos terroristas que ocorreram nos anos 70 em Itália. O que ficou conhecido como o Massacre de Bolonha, em que uma bomba de relógio explodiu na sala de espera da uma estação de comboio repleta de pessoas. 50 mortos, masis de 200 feridos. O atentado foi perpretado pelo Nuclei Armato Rivoluzionari, uma organização fascista ligada à celebre Loja P2. Outro, o sequestro e assassinato de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas. Em ambos imediatamente se suspeitou da participação da polícia secreta italiana, o que, mais tarde ficou provado. No primeiro caso dirigentes ao mais alto nível militavam nas fileiras desse grupo e da Loja P2, no segundo estavam infiltrados a níveis de decisão muito elevados. Apesar e contra essas evidências, ontem como hoje, não devem, em caso algum ou de alguma forma, actuar como desviantes de uma condenação clara, forte, sem fissuras do terrorismo, que é sempre bárbaro e injustificável.

No fluxo da fundamentadíssima revolta e repulsa pelo crime cometido por essa celula terrorista que abalou o mundo, a imprensa internacional assumiu-o como um ataque à liberdade de expressão, como isso fosse um valor universal que corre como um vendaval oxigenado toda a comunicaçâo social do ocidente. Claro que o massacre também é um atentado à liberdade de imprensa. Mas neste caso, com a mesma veemência com que se delata o acto terrorista, há que denunciar o enorme cinismo e hipocrisia dos media que, utilizando os celebrados critérios jornalísticos, estão conluiados com o poder da classe dominante.206815_204556506234162_106626879360459_635561_118423_n

São um colossal aparelho de manipulação à escala mundial. Não podem abrir o chapéu de chuva da liberdade de imprensa para aproveitarem a tragédia acontecida no Charlie Hebdo e apanharem esse comboio, celebrando-a. É uma infâmia. A comunicação social funciona como um dos braços armados do poder dominante. Normalizam o impensável. Os noticiários sobre o Médio-Oriente provam-no à saciedade. Sabemos quem, quantos e quando foram decapitados os sequestrados pelo EIL. Pouco sabemos dos milhões de homens, mulheres e crianças iraquianas e sírias mortas no inferno desencadeado pelos EUA e seus aliados no Médio Oriente. São as “vítimas valiosas” e as “vitimas não valiosas”, na classificação certeira de Edward Herman, escritor e académico norte-americano. Hoje todo o mundo sabe o número e os nomes dos assassinados criminosamente pelo comando islâmico na redacção do Charlie Hebdo.Temos imagens horripilantes, reconstituiçôes de nos fazer gelar.

Em 2 de Maio, em Odessa manifestantes contra o regime agora no poder em Kiev, foram perseguidos por grupos nazis, que os media ocidentais etiquetam piedosamente de nacionalistas radicais ou ultra nacionalistas . Refugiaram-se na Casa dos Sindicatos onde ficaram encurralados por um incêndio provocado por cocktails Molotov. Quem tentava fugir às chamas, era abatido friamente a tiro. Os autores desse hediondo crime terrorista, com enorme despudoCharlieHebdo3r, plantaram o seu acto no You Tube que vitimou mais de cinquenta pessoas.  A comunicação social, tão defensora da liberdade de informar, do seu rigor, da sua independência, ou não registou o incidente ou a ele se referiu de passagem, apressadamente. Como não noticiou ou deu breve nota, o massacre criminoso de Odessa não existiu. Não originou manifestações por todo o mundo. Estamos perante de mais um caso de “vitimas valiosas” e de “vitimas não valiosas”, De como uma comunicação social mercenária, ao serviço da propaganda e difusão do pensamento dominante, apaga um crime para continuar uma política, a política dos sus mandantes.

A indignação frente a um e ao outro acto terrorista, a todos os actos terroristas, sejam perpretados por quem forem, deve ser igual independentemente dos juízos políticos e éticos que se façam por quem quer que os faça. Não pode haver dois pesos e duas medidas. O horror e a solidariedade que nos deve provocar estão na linha da frente das análises que temos a obrigação de fazer

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Outra das consequências, esperadas é um crescendo de políticas securitárias. Bem vísivel, é o recrudescimento da islamofobia e da actividade da extrema-direita nos países ocidentais, onde até já ocupam cargos governamentais importantes na Ucrânia ou na Hungria. Multiplicam-se as manifestações fascistas, racistas por toda a Europa e EUA. Até em Portugal, onde a extrema-direita parece ser insignifcante, a porta da mesquita de Lisboa foi hoje, dia da oração e descanso para os islamitas, vandalizada. O ovo da serpente choca-se de várias maneiras em diversas chocadeiras. O nazi-fascismo é hoje uma ameaça tão real como o islamismo radical. São face da mesma moeda.

Há um outro modo de abordar toda esta onda de indignação, enquadrando-a no estado actual da sociedade. Sartre escreveu que toda a realidade uma vez descrita é aniquilada. Je Suis Charlie, tipifica a cultura desta nossa sociedade, que proclamou a morte da história, da política, da economia. Ideologia de um fim de todas as coisas, sem que se preveja o começo de nenhuma. É a perca de horizonte e sentido da história, em que os acidentes sucedem-se com se fossem indeterminados, perdendo ou esquecendo o sentido da tragédia, o que neutraliza a nossa capacidade de pensar, actuar, lutar. Uma sociedade em que tudo acaba em espectáculo nas suas infinitas representações que já não representam nada mais que a si-próprias. Tautologias de imagens fragmentárias, sem profundidade. É o triunfo do Nada sobre a Dor, na bela expressão de Faulkner. Ou como teorizou Guy Debord “onde a imagem se converteu na forma final da coisificação” que anula o acontecimento em si, com a forma final de uma mercadoria”

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Não deixemos que Je Suis Charlie seja o túmulo de uma brutalidade inominável sepultando-a numa frase, que é um achado publicitário mas não tem espessura. A justíssima indignação que abala o mundo não se pode confinar a uma frase, por mais sedutora que seja. Deve adquirir expressão política, lutando e condenando o oportunismo de estratégias que querem manter um insustentável estado de coisas, que são uma conspiração permanente contra o mundo, destruindo cidades e estados, semeando a fome, vitimizando milhões de pessoas. plantando a tortura e a guerra. Tendo hoje aliados que mais tarde se irão execrar. Tendo por aliados estados que têm um longo historial de apoio e financiamento a grupos terroristas e estados em que o terrorismo é uma prática normalizada. Que se condene o terrorismo, todo o terrorismo, como um crime contra a humanidade, venha de onde vier, seja praticado por quem quer que seja. Que, no imediato, se combata eficazmente o Estado Islâmico do Levante, a maior ameaça terrorista actual, ultrapassando cálculos de conveniência a curto prazo e interesses geoestratégicos de longo prazo.

Os fins nunca podem justificar os meios.

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Nota Final: este blogue, como muitos outros, tem o direito de publicar ou recusar todos e qualquer comentário. Direito que estabelecemos poder ser exercido por qualquer um dos intervenientes na Praça do Bocage, sem que tenha que pedir a opinião a ninguém. Fica ao critério de cada um solicitar ou não a opinião de um ou mais parceiros desta aventura e de exercer a moderação dos comentários, independentemente de ter sido ou não autor de um “post”. Fica, portanto claro, se já não o era, que quem envia um comentário está sujeito à aprovação ou desaprovação do seus escritos. Isto não é censura. É um direito que nos assiste, à semelhança do que ocorre em comentários enviados para outros blogues e meios de comunicação social.

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História, justiça, PCP, Política

18 de Janeiro de 1934

 

Presos do 18 de Janeiro no Forte de Peniche

Presos do 18 de Janeiro no Forte de Peniche

A 18 de Janeiro de 1934, os trabalhadores portugueses levaram a cabo uma heróica Greve Geral contra a fascização dos sindicatos.

Na sequência da entrada em vigor da Constituição fascista de 1933, a ditadura procede à consolidação das suas estruturas jurídicas e sociais, no início do ano de 1934 é o Estatuto do Trabalho Nacional e Organização dos Sindicatos Nacionais que entra em vigor acabando com os sindicatos livres, com a contratação colectiva, com a liberdade de reunião e associação.

Face a estes avanços da ditadura, os trabalhadores portugueses e as suas estruturas de classe, respondem com uma jornada de luta que ficou na história do movimento operário e da resistência ao fascismo, uma greve geral com adesões significativas em todo o País, com particular destaque para Almada, Barreiro, Lisboa, Sines, Silves, Seixal e Setúbal, entre outros.

No entanto, foi na Marinha Grande que esta Greve Geral assumiu um carácter insurreccional, os trabalhadores ocuparam a estação de correios e o posto da GNR , paralisaram por completo as fábricas, respondendo de forma heróica aos avanços do fascismo.

O movimento grevista revolucionário de 18 de Janeiro foi derrotado, a ditadura desencadeou uma repressão brutal sobre os grevistas e os mais destacados dirigentes deste movimento, perseguidos, presos, torturados, deportados para as chamadas colónias penais, é deste movimento de surgem os presos que inauguram o campo de concentração do Tarrafal.

Nos dia que correm, conhecidas que são as ameaças existentes, os ataques ao movimento sindical, as campanhas contra as lutas dos trabalhadores, as pressões para limitar o direito à greve, os discursos anti-partidos e anti-parlamento, importa ter em conta as lições do 18 de Janeiro, esclarecer e mobilizar os trabalhadores para a defesa das suas liberdades e direitos, impedir que a história se repita.

Essa é a melhor homenagem que se pode prestar ao homens e mulheres que há 80 anos heroicamente resistiram.

Sobre o 18 de Janeiro de 1934 vale a pena ler 

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Geral, Internacional

Portugueses na memória da guerra civil de Espanha

Por ter passado despercebido na imprensa portuguesa, dá-se aqui nota de uma homenagem a três carrilanos* portugueses fuzilados durante Guerra Civil de Espanha na localidade galega de Campobecerros, município de Castrelo do Val (Ourense).

A iniciativa, que teve lugar no passado mês de Junho, foi organizada pelo projecto interuniversitario Os nomes, as voces, as vítimas e os lugares, a associação cultural Carrilanos e o município local. (ver vídeo aqui)

O fuzilamento dos três carrilanos portugueses teve lugar em 20 de Agosto de 1936 aquando do avanço das forças franquistas naquela zona da Galiza. Antonio Ribeiro, José Maria Sena (ou Fena) e um terceiro homem de que apenas se sabe o primeiro nome, Ramiro, foram “paseados” pelas ruas da aldeia e depois escoltados até ao alto do Monte da Ladeira. Num lugar conhecido como Lombo do Marco as suas vidas viriam a ser ceifadas pelo fogo de espingardas.

Um dos fuzilados, António Ribeiro, terá sido “um destacado membro do Sindicato de Oficios Varios da CNT, colaborador de Solidaridad Obrera e militante da FAI coruñesa” segundo o historiador Dionisio Pereira, coordenador do projecto interuniversitario galego Nomes e Voces.

À época, numerosos trabalhadores portugueses participavam nos trabalhos de construção da linha férrea entre Zamora e Ourense. Carrilanos portugueses e de várias regiões de Espanha que viriam a ter um significativo papel na resistência ao avanço franquista naquela zona do sueste da Galiza.

Outras informações sobre este tema – ver aqui.

* construtores de via férrea

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Geral

DIA do ESTUDANTE fez hoje 50 anos

   Faz hoje 50 anos que a Crise Académica abriu uma enorme brecha no regime fascista que, particularmente desde as eleições de 1958 em que Humberto Delgado afrontou directamente o ditador, estava sujeito a forte desgaste.

!961 foi ano que prenunciou o fim do império e a erosão da ditadura. No plano externo no princípio do ano, a guerra colonial iniciou-se em Angola. Nos últimos meses a União Indiana, anexou por força militar Goa, Damão e Diu, acabando com o chamado Estado da Índia. Salazar que tentava costurar a sobrevivência do regime entre as suas facções, cujas fracturas eram cada vez mais expostas, enfrenta uma tentativa de golpe de estado de moderados do regime, endurece a repressão e, a pretexto da guerra colonial, consegue a unidade possível entre os militares. As lutas de massas têm um novo impulso, depois do Partido Comunista Português recuperar de uma fortíssima repressão nos anos 58 e 59 que atingiu violentamente os seus quadros e o seu aparelho clandestino. Nos finais de 1961, na sequência da farsa eleitoral para a Assembleia Nacional, grandes manifestações convocadas pelo PCP eclodiram em Lisboa, Almada, Alpiarça, Couço, Coimbra, Covilhã, Porto. A repressão é brutal. As prisões voltam-se a encher, há muitos feridos e um morto, Cândido Capilé, em Almada. A fechar esse ano, em que já tinham passado pelas prisões “intocáveis” oposicionistas demo-liberais, membros das juntas patrióticas onde se juntavam comunistas e a oposição de esquerda, e continuavam a ser presos militantes comunistas, há o golpe falhado de Beja. O regime endurece e nas suas fileiras começam a distanciar-se e mesmo a separa-se, católicos e monárquicos.

Em 1962 as lutas de operários nas zonas industriais e de assalariados agrícolas no Alentejo e Ribatejo intensificam-se e, no dia de hoje, há cinquenta anos, abre-se a Crise Académica que tem o particular significado de os estudantes entrarem directamente na luta contra o fascismo. Muito deles descobriram o valor da luta colectiva, outros davam expressão à luta clandestina que desenvolviam organizados em estruturas do PCP. As Associações de Estudantes foram a expressão pública dessa unidade que se forjava na luta de uma greve académica que dura cem dias,  enfrentando a repressão a subir de tom e a alterar os seus contornos.

É inegável a importância da Crise Académica de 1962 na luta contra o fascismo. A politização dos estudantes das três academias marca um ponto de viragem qualitativo nas lutas contra o regime, atingido agora a partir das universidades que deviam ser o local de produção das elites políticas e científicas. Uma entrada mais clara nessa luta, que vinha detrás mas nunca tinha adquirido essa expressão e dimensão colectiva e que,  a partir daí, ganhou uma dinâmica que não mais esmoreceria.

Nesse ano as comemorações do 1º de Maio convocadas pelo Partido Comunista Português, tiveram uma adesão e um impacto nunca antes alcançado. Pela primeira vez as lutas populares integraram de forma significativa contingentes estudantis.

Muitos de nós estivemos hoje na Reitoria e na Cantina da Cidade Universitária comemorando os 50 anos da Crise Académica. Uma jornada de confraternização e de memórias que continuam bem vivas, numa altura em que Portugal vive uma crise profunda, em que a deriva para a direita se acentua e onde se começa a assistir a cargas policiais dignas dos tempos salazarentos.

Nestes 50 anos quero aqui lembrar, José Bernardino, dirigente académico da Associação de Estudantes do Técnico, que em 1961 foi eleito secretário-geral da RIA (Reunião Inter-Associações) e que tinha sido obrigado a mergulhar na clandestinidade. Na altura da Crise Académica, funcionário do Partido Comunista, apesar de estar compelido a fazer uma vida fora dos circuitos normais, foi elemento central na direcção das lutas académicas e que, em consequência dos riscos que correu durante esse período, acabou por ser preso em Maio de 1962, enfrentando com enorme dignidade as brutais torturas da PIDE, sendo condenado a sete anos de prisão.

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Cultura, Política

A Morte saiu à Rua

Aos 38 anos, José Dias Coelho é assassinado a tiro na rua que ,depois do 25 Abril, receberá o seu nome.

Cinquenta nos depois, na mesma calçada em que caiu vitima de dois tiros dados à queima roupa por uma brigada da PIDE chefiada por José Gonçalves, vai realizar-se, às 17.45, uma homenagem a José Dias Coelho. Às 18.30, dá-se a sessão evocativa na Junta de Freguesia de Alcântara com a presença de jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP.

Lembrar quem deu a vida por uma sociedade livre de exploração e opressão, é lembrá-lo e com ele lembrar todos os que lutaram contra o fascismo. É lembrar todos os crimes do regime fascista, que depois da Revolução de Abril ficaram impunes ou foram escandalosamente condenados a penas ligeiríssimas.

Lembrar José Dias Coelho é lembrar toda uma vida de combate e a história de combate, de ontem e hoje, por uma sociedade sem explorados do seu partido, o Partido Comunista Português.

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Cultura

Intelectuais de Latrina

Há uma raça de intelectuais, bastante vulgar cá no burgo, que, sem nada que especialmente os recomende, opinam por dá cá aquela palha. Ouvem-se, lêem-se, debitam as coisas mais extraordinárias como verdades universais indiscutíveis. ..

Recentemente, São José Almeida, no livro “Os Homossexuais no Estado Novo” repescou uma história sobre a suposta homossexualidade de Jorge de Sena que teria motivado a sua expulsão da Marinha. Não há, nunca houve, base sólida que suporte tal hipótese. Já quase ninguém fala nela e sempre que dela se fala é bastante controvertida. No caso vertente meter Jorge de Sena ao barulho só pode ter o objectivo de dar mais lustro ao livro. A autora, assumindo essa opção, foi recolher o depoimento de Eduardo Pitta e Fernando Dacosta. Este, depois de dizer que “Salazar vivia rodeado de gays”, um excesso de linguagem poder-se-ia pensar se, sobre Jorge Sena não fizesse com o maior desplante, uma afirmação espantosa: “Casou. Fazia praticamente um filho por ano, o que é uma atitude muito normal nos homossexuais” e, sibilinamente, conclui “Conheci-o”. Para alguém sobre quem se diz, na biografia exposta na Wikipédia e nunca por ele contestada, que teve o privilégio de conviver intimamente com algumas das maiores figuras da cultura e da política portuguesa do século XX, da Oposição bem assim como do Estado Novo, que de certo modo se lhe confidenciaram, incentivados pela sua personalidade discreta e cativante, acrescentar este conheci-o é estar a passar a hipótese de saber o que ninguém mais sabe, legitimando  subliminarmente a história sobre que lhe pediram opinião, para dar credibilidade à infâmia. Recursos desse jaez não escapam a esta luminária que nenhum vício lógico trava e para quem “fazer praticamente um filho por ano é uma atitude muito normal nos homossexuais”.


Poder-se-à presumir que, para Dacosta, todos os homens são potencial ou efectivamente homossexuais e cada filho corresponde a um atitude muito normal de ocultação da homossexualidade. Que se ponham a pau os que fazem menos filhos, malta menos capaz de ocultar a homossexualidade que o Jorge de Sena que, “numa atitude muito normal nos homossexuais” fez dez filhos. Quem não fez filhos vive um drama para que terá que encontrar uma saída. Provavelmente a melhor é exibir publicamente uma aura de machão integrando-se num grupo de forcados para enfrentar de mãos nuas o touro. Embora aquelas calças apertadas e as posições a que são obrigados para dominar o bicho acabem por deixar perpassar o perfume da dúvida. Riscos que se correm para travestir a homossexualidade. Numa próxima oportunidade, Dacosta há-de analisar essa situação com a mesma agudeza com que analisou o Sena.
Fernando Dacosta é useiro e vezeiro em dizer, com ar contido para ampliar a credibilidade, as maiores enormidades. Mais grave é essas brutalidades encontrarem eco numa comunicação social patética. Ainda não há muito tempo foi registar as confidências da D. Maria para esboçar o retrato do António-Homem que existia por detrás do Salazar-Ditador. Esta de descobrir o homem por detrás da sua imagem pública é ideia muito expandida num caldo de cultura das revistas socialites. É uma ideia parva. Procuram o homem? Queriam que lá estivesse o quê? Uma barata? Um ornintorrinco? Adiante!

Dacosta edulcora a imagem de Salazar com escassas colheres de açúcar, o doutor sempre foi muito poupadinho e a D. Maria, embora escancare as portas da dispensa, não perdeu bons hábitos. Descobre “verdades” fantásticas capazes de virar a história do avesso.

Uma delas é que “a PIDE matou Delgado sem o seu conhecimento”.

Controlando a PIDE com rédea curta não é possível a ninguém de bom senso acreditar que o ditador estava a leste de toda a tramóia que atraiu Delgado ao local onde foi assassinado. Pode-se especular que a eliminação física do general não seria uma prioridade, mas seria um cenário sempre possível, como veio a acontecer. Salazar não o podia ignorar e todo o processo só poderia ter sido desencadeado com o seu conhecimento e aprovação, independentemente do desfecho. A atitude posterior de Salazar, quando se descobriu o crime, tecendo uma intriga em que envolvia os companheiros de luta do general e protegendo com unhas e dentes os seus autores é bem esclarecedora da tenebrosa personalidade e mentalidade do ditador. Evidências atropeladas pelo Fernandinho entretido a ouvir as confidências da D. Maria.

Declaração ainda mais extraordinária é a de Salazar “ter sugerido a fuga de Cunhal da prisão de Peniche”. Não se sabe por que meios nem como. D. Maria cicia e o Dacosta esfrega as mãozinhas de contentamento antes de vomitar tão magna confidência. O que ninguém, com um mínimo de bom senso, pode sequer imaginar é a PIDE facilitar o caminho de fuga de Cunhal, ou a qualquer outro dirigente ou militante comunista e este esgueirar-se pela porta entreaberta. Sabiam bem de mais que do outro lado estaria alguém para o liquidar.

Nada disso incomoda o Dacosta entretido a passar a limpo as cusquices da D. Maria, com a pretensão de essas revelações serem capazes de mudar a história e, evidentemente, de vender mais uns livritos. Há mercado sempre disponível para absorver as coisas inomináveis que alimentam a mais rasca imaginação, atropelando qualquer lógica. Esta de tornar a D. Maria uma fonte histórica fundamental entra de corpo inteiro nesse caldeirão.

Essa actividade de intelectual de latrina, tornou-o conhecido e tem-lhe rendido dividendos. É solicitado para opinar sobre a homossexualidade do Sena, para esclarecer zonas sombrias de Salazar e do Estado Novo, para fazer parte de conselhos editoriais, intrigar sobre as oposições ao fascismo, comentar os mais diversos acontecimentos, coscuvilhar a vida das pessoas para propalar coisas improváveis, dizer isto e mais aquilo com o ar discreto de quem fala verdade a mentir.

O eco que essa gente tem é bem revelador do estado a que se chegou nesta sociedade em uma mentira muitas vezes repetida é aceite como verdade, em que o excesso de informação mata e intoxica a auscultação da realidade, em que o excesso de imagens mata a imaginação, em que mesmo o mundo da investigação universitária está a ser invadido pelas mais variegadas problemáticas obscuras, como, há já uns anos, sublinhou Georges Steiner, afirmando que a esmagadora maioria das teses de doutoramento, pós-graduação, mestrado. etc., eram trabalhos praticamente inúteis que enchem as prateleiras das bibliotecas sem nada de substancial no seu conteúdo. Dava o exemplo das dezenas de milhares de teses que, num período de tempo relativamente curto e em todo o mundo, tinham sido escritas sobre Goethe e que mais não eram do que exercícios tautológicos. Referia ainda a sofreguidão com que se procura encontrar nichos de saber que pouco ou nada contribuem para o progresso das ciências nas várias áreas do conhecimento, com destaque para as chamadas ciências humanas. Cautelarmente o mundo universitário atribui-lhes altas classificações, para depois rapidamente caírem no limbo de onde tinham saído.

Nesse pano de fundo, mais vasto e mais preocupante, proliferam os Dacostas à escala nacional, os Browns à escala universal que, com a cumplicidade de quem lhes dá espaço e tempo, desenvolvem as mais estrambólicas teorias sem que ninguém os reduza ao silêncio por omissão ou lhes dê as valentes e merecidas reguadas, ainda que virtuais. Consequência de uma sociedade que está entediada com o seu próprio tédio e onde, como diz Kundera, “tudo está perdoado e por isso cinicamente permitido”.

Estamos a precisar com urgência de uma versão actualizada do manifesto Anti-Dantas!

No imediato substitua-se o Dantas por um dos Dantas/Dacostas que por aí andam e grite-se com o Almada Negreiros:

MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
PORTUGAL QUE COM TODOS ESTES SENHORES, CONSEGUIU A CLASSIFICAÇÃO DO PAIZ MAIS ATRAZADO DA EUROPA E DE TODO OMUNDO! O PAIZ MAIS SELVAGEM DE TODAS AS ÁFRICAS! O EXILIO DOS DEGRADADOS E DOS INDIFERENTES! A AFRICA RECLUSA DOS EUROPEUS! O ENTULHO DAS DESVANTAGENS E DOS SOBEJOS! PORTUGAL INTEIRO HA-DE ABRIR OS OLHOS UM DIA – SE É QUE A SUA CEGUEIRA NÃO É INCURÁVEL E ENTÃO GRITARÁ COMMIGO, A MEU LADO, A NECESSIDADE QUE PORTUGAL TEM DE SER QUALQUER COISA DE ASSEIADO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM
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