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Refugiados, Europa, EUA, NATO, Teoria do Caos

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OS REFUGIADOS E A UNIÃO EUROPEIA

A crise desencadeada na Europa pelas sucessivas vagas de refugiados, provocada pelo caos político e económico que foi instalado no norte de África, na África subsahariana e no Médio Oriente é gravíssima. É um drama humanitário brutal, com uma dimensão inusitada, de enormes consequências ainda não totalmente mensuráveis.

Todos os dias notícias e imagens registam episódios alarmantes desse exodo que parece não ter fim. A Europa, a União Europeia começou por não se aperceber da real dimensão da crise dos refugiados. Com o aumento do afluxo diário de homens , mulheres e crianças, com a evidência dos perigos e das mortes provocadas pelas precárias condições que enfrentam os que fogem às guerras e à desordem instalada pela guerra nos seus países de origem, a coesão e solidariedade europeias estalaram o verniz que escondia o que, de facto, não existia na Europa Connosco já bem vísivel nas políticas de austeridade impostas pela Alemanha por interposta Comissão Europeia e suas extensões. Julgavam mal e, vamos dar-lhes o benefício da dúvida, ingenuamente os europeístas mais convictos que os países da UE partilhariam auas responsabilidades a que a pertença ao espaço comunitário automaticamente obrigaria. Toda a história, sobretudo a mais recente, demonstra que essa partilha de responsabilidades no espaço comunitário é uma quase ficção, digna de romances policiais. As disputas económico-financeiras entre os países comunitários, nos mais diversos níveis, são o palco onde essa solidariedade é traída e assassinada com requintes de tragédias shakespereanas.

Em relação à vaga de refugiados acabou por se estabelecer um regime de quotas que só abrange 66 mil desses refugiados, adiando-se para um futuro próximo o destino de outros tantos que, teoricamente serão sujeitos às mesmas regras de proporcionalidade. A aprovação dessa medida vinculativa para os 28 ignorou a oposição às quotas propostas por Bruxelas dos que votaram contra: Eslováquia, Roménia, República Checa e Hungria, a Finlândia absteve-se. No passo seguinte Robert Fisco, primeiro-ministro eslovaco, disse logo que não aceita qualquer imposição da UE relativamente ao acolhimento de refugiados e que irá violar as regras europeias. Disse o que outros pensam e irão certamente fazer, apesar das ameaças, muito pouco diplomáticas do ministro do Interior alemão de cortar fundos comunitários aos países que não acolhessem refugiados. Sanção aos que recusassem aceitar os fugitivos, ao arrepio da súbita generosidade de Ângela Merkel, que abre o coração aos refugiados com a mesma facilidade com que o fechou a cadeado aos gregos. Mistérios pouco misteriosos para quem estiver atento às declarações da confederação patronal germânica. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Órban nunca escondeu ou disfarçou a sua convicção que os refugiados são uma ameaça para a Europa e sempre agiu em conformidade. O partido de Órban integra o Partido Popular Europeu, a que pertencem a CDU de Angela Merkel, o PSD e o CDS, eles que se entendam como se têm entendido em relação às políticas de austeridade. Os já referidos europeístas gostariam que dentro do PPE se demarcassem os campos em relação a essa questão. Um modo de salvar a face democrática na defesa dos chamados valores da civilização ocidental. Um processo também de distrair o mundo sobre as reais razões que provocaram esta crise dos refugiados, de não assumir as responsabilidades sobre o desencadear desta crise, de ocultar as políticas que conduziram a esta crise, em que a Europa comunitária é sujeito activo e passivo.

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A TEORIA DO CAOS

Não é de estranhar que no meio da lava noticiosa que se derrama sobre o mundo, pouco ou mesmo nada se refira sobre o que provocou esta hetacombe. Mesmo as notícias da actualidade sobre a Síria, um dos maiores contribuintes para a onda de fugitivos, mascaram a realidade. Se desde o principio o objectivo de derrubar Assad, em nome dos direitos humanos e da democracia, era de uma hipocrisia extrema e escondia o verdadeiro objectivo de os EUA redesenharem o mapa do Médio Oriente para o submeterem totalmente aos seus interesses geo-estratégicos e conómicos. Assad é um ditador, a Síria não é uma democracia como o Ocidente a entende, mas Assad é, se comparado com aliados árabes dos EUA, quase um democrata. Por esse caminho, estamos conversados. A guerra civil instalada na Síria pela mão dos EUA, NATO e seus aliados árabes e turcos foi montada com exércitos mercenários que rapidamente se passaram com armas e bagagens para a Al-Qaeda e para o Estado Islâmico. Nos últimos dias os soldados treinados, financiados e municiados pelos EUA, para engrossarem as fileiras de um suposto exército de libertação da Síria afecto à oposição “moderada” ao regime de Assad, mal passaram a fronteira turca-síria foram, versão oficial estadodinense “capturados” pela frente Al-Nostra, a Al-Qaeda síria, o que é contrariado por uma mensagem no twitter de um homem forte dessa Frente, Abou Fahd al-Tunis: “o novo grupo da Divisão 30 que entrou na Síria ontem (dia 21) emtregou todas as suas armas à Frente Al-Nostra. Entregaram uma grande quantidade de munições, armas e pick-ups artilhadas.” Todos os antecedentes tornam a versão oficial rísivel e dão razão a Putin e às suas propostas de combate ao Estado Islâmico, a que os EUA fazem orelhas moucas.

Esse é mais um episódio de uma estratégia que vem de longe e que teve os seus últimos desenvolvimentos no Afeganistão, Balcãs, Iraque, Líbia, Síria, Iemen, Ucrania, para referir os teatros de guerra mais sangrentos. Estratégia que se desenhou há dezenas de anos. As estratégias são desenhadas a longo prazo os desnvolvimentos táticos é que são diversos. É a Teoria do Caos imposta pelos neo-conservadores, os neo-cons, que se instalaram no poder nos anos Reagan e Georges W. Bush. Tem sido, com geometrias variáveis, posta em prática pelos sucessivos inquilinos da Casa Branca, uma demonstração das virtualidades da bipolarização, da transmissão de poderes entre os partidos ditos do arco governativo como se pode apreciar em todo o mundo.

A Teoria do Caos que tem por mentor intelectual Leo Strauss. Foi iniciada nos anos 90 a seguir ao desmembramento da União Soviética., a sua teorização é muito anterior e surge em paralelo com a entrada em cena dos neoscons. O acento tónico é colocado na política externa dos EUA para manter a supremacia mundial como superpotência. Vem de mais longe, já em 1979 Irving Kristol, um intelectual e jornalista ex-trotskista, foi o primeiro a afirmar-se como neoconservador e explicou ao que vinha numa artigo com o sugestivo título “Confessions of a True, Self-Confessed ‘Neoconservative”, nas entrelinhas podia-se advinhar o que aí viria.

O grande teórico dessa política pós-moderna neoconservadora é Leo Straass que tem uma enorme influência nesse poderoso grupo da inteligentsia norte-americana. Encapota-se e é apresentado como um demoliberal, um defensor da democracia liberal. Uma leitura, mesmo rápida, do seu livro mais famoso e mais difundido, Direito Natural e História (Edições 70/2009), revela que ele considera que as massas não são capazes de aceitar a verdade, nem de ser livres e que entregar esses valores ao vulgo é quase como atirar pérolas a porcos. Que a condição natural humana não é a liberdade mas a subordinação, o serem conduzidos por políticos sábios. O direito natural é o direito das mentes superiores e esclarecidas governarem os inferiores, dos empreendedores sobre os empregados, mesmo dos maridos sobre as esposas. Leo Strauss, democrata? Com uma enviesada concepção de democracia. Mas não ficam por aqui os teoremas de Strauss. Como admirador de Maquiavel, vai além de Maquiavel. Os meios justificam os fins mas é imperioso o mais completo segredo para proteger as élites de possíveis dúvidas e/ou represálias. As mentiras são necessárias sempre que os resultados as justifiquem. Claro que Leo Strauss não nega as mentiras que explicaram a invasão do Iraque. Achou correcto que a administração Bush as utilizasse para mudar o regime iraquiano. Christopher Hitchens, um seguidor de Strauss, na primeira linha dos defensores da invasão do Iraque, escreveu um artigo com um título que não deixa lugar a dúvidas  Machiavelli in Mesopotamia. Leo Strauss um demoliberal? Uma maquiavélica mentira.

É nesse caldo de cultura, nessa escola intelectual de Leo Strauss, que se formam os neoconservadores e parte substancial da administração norte americana, democrata ou republicana. É aí que se encontram as raízes das teorias de Fukuyama, O Fim da História e o Último Homem (Gradiva/1999) Um dos seus mais destacdos representantes é Paul Wolfowitz, embaixador dos EUA na Indonésia na altura da invasão de Timor que aprovou os massacres em Dili, poderoso Secretário da Defesa do governo de Georfes W. Bush, mais tarde governador do Banco Mundial. Um defensor acérrimo da supremacia militar norte-americana, opõe-se decidamente a todas as potências rivais, nomeadamente a aliada União Europeia.

Aqui entra Teoria do Caos. Em que é que a União Europeia pode comstituir um perigo para a supremacia dos EUA? Firme aliado e seguidor das políticas atlantistas, a UE inventa uma moeda, o euro, que vai concorrer com o dolar. Faça-se uma rápida e sintética revisão histórica. No fim da Segunda Guerra Mundial , na  Conferência de Bretton-Woods, julho de 1944, foi imposto o padrão dolar-ouro. Nessa conferência foram criados o  Banco Mundial, o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o GATT( Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras). Os objectivos eram estimular o desenvolvimento capitalista, bem como a reconstrução e estabilidade económica global. Nos anos 60 a economia dos EUA tem sinais de crise. A Guerra Fria, o desenvolvimento económico de outros países, nomeadamente do Japão e da Alemanha, o crescente endividamento começam a preocupar a administração dos EUA. Sinais que se foram agravando ao longo da década. Nos finais dos anos 60, a libra esterlina, ainda usada, embora residualmente, como moeda nas trocas internacionais sofre um forte ataque especulativo, deprecia-se e desaparece de cena. Estão criadas todas as condições para Richard Nixon, presidente dos Estados Unidos em 15 de agosto de 1971, acabar com a paridade dólar-ouro, decisão ratificada, oytra coisa não seria de esperar, pelo FMI em 1973. Dali por diante, a moeda norte-americana seria apenas uma “fiat currency” ou seja, o ouro não seria mais o garante do valor do dólar, seria , foi substituído pela palavra do governo americano, respaldada no seu tesouro nacional. Essa manobra possibilitou uma outra de ordem contabilistica que, de uma assentada, reduziu em 35% a dívida dos EUA. O dolar, depois os petrodolares, estavam com o campo livre e aberto para todas as manobras financeiras, a maior das quais a de obrigarem indirectamente os países do mundo inteiro a financiarem o seu endividamento crescente, que atinge hoje números astronómicos: 60 biliões de dolares, um quarto da dívida mundial.

O euro surge como uma ameaça para o império do dolar. Ameaça agora agravada pelo progressivo abandono do dolar como moeda de troca no comércio internacional. Dos dois maiores pilares em que assenta a política de supremacia mundial dos EUA, o poder militar e a moeda, um está em risco, em rico muito sério de um dia vermos a nota verde com o valor das notas do jogo do monopólio.

Para continuar a manter essa supremacia mundial, Strauss e os seus seguidores neocons, estabelecem que a forma mais eficaz dos EUA defenderem os seus interesses, garantindo o acesso regular às matérias primas, à definição do seu preço de mercado e ao domínio dos mercados mundiais é pelo cerco a esses países ou blocos de países, instalando o caos nas suas fronteiras.

Wolfowitz, apurou essa teoria, defende que a defesa supremacia global norte-americana exige o controlo militar, político e económico sobre a União Europeia, para que esta não se torne uma potência capaz de rivalizar com os Estados Unidos. Um aliado para trazer pela trela. É pela mão de Wolfowitz que se tramam as invasões do Afeganistão e Iraque, sempre com a NATO implicada, com ou sem apoio legitimado pela ONU. Vale tudo mesmo as cenas patéticas de Colin Powell a ver se endrominava o Conselho de Segurança com mapas falsificados. Nada, nem nenhum vício lógico, trava essa gente. Depois dele todos os outros, de Condoleza Rice a John Kerry passando por Hilary Clinton, têm semeado o caos nos Balcãs, na Somália, na Líbia, no Mali, na Nigéria, na Síria, no Iémen, na Ucrânia.

Quem ainda possa pensar que a Teoria do Caos de Strauss e a sua sucessora delineada por Wolfowitz, são delírios conspirativos na base de um quadro mental que só consegue olhar com desconfiança para os beneméritos democratas norteamericanos, devia por um minuto desligar a cabeça para a reactivar emergindo da ganga propagandistica amestrada e difundida pelas inúmeras agências dos EUA, o seu braço armado NATO, os seus aliados que prestam um inestimável serviço aos desígnios estratégicos do império.

A hetacombe que desaba na Europa, com toda a tragédia humana que provoca, o caos que se vive na Europa que está e atravessa as suas fronteiras associado a um perigosíssimo recrusdecismento da xenofobia e do terrorismo nazi-fascista é real. Vê-se á vista desarmada e só quem é ignorante ou ingénuo ou se quer fazer passar por ignorante ou ingénuo é que não vê que os resultados beneficiam o complexo militar, político, económico e financeiro que domina o mundo sob as bandeiras dos Estados Unidos e da NATO.

A Teoria do Caos não é um mito. Existe, está escrita e teoricamente desenvolvida para quem a quiser ler. Alguns dos seus escaninhos mais tenebrosos até já foram parcialmente revelados em artigos publicados no New York Times e no Washington Post, na base de alguns documentos desclassificados. Uma conspiração secreta ameaça o mundo. Os sinais são cada vez mais evidentes.

Uma terceira guerra mundial está em marcha por interpostos países. Até o Papa Francisco já denunciou, na Semana Santa, que se está a viver uma Terceira Guerra Mundial em pedaços.

Não denunciar este estado de coisas, pensar que são delírios conspirativos, é caminhar num barranco de cegos. Ser cúmplice mesmo que com alma sangrando ao ver fotos de crianças mortas nesta fuga desesperada.

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Internacional

O Grande Embuste

A NATO reconheceu que, por erro técnico, bombardeou um bairro residencial de Tripoli onde, presumivelmente, morreram 7 (SETE!!!) cidadãos civis!

Horas antes de a NATO ter realizado um magno inquérito que chegou a essa conclusão, jornalistas ocidentais independentes (!) tinham sido conduzidos pelas autoridades líbias, leais a Kadhaffi, ao local dos acontecimentos tendo verificado os estragos sem enxergaram nenhum sinal de bomba ou míssil!!!

Conclusão: desde o inicio dos bombardeamentos da NATO, por deliberação da ONU de 18 de Março, já lá vão três meses de bombardeamentos diários, a NATO só matou 7 (sete!!!) cidadãos civis , as outras dezenas de milhares são soldados, uma grande parte deles vestidos á civil.

Esta gente está tão confiante que a mentira resulta que faz estas cenas convictamente pensando que o resto do mundo é uma cambada de tontos e parvos que engolem todos os seus embustes!

O cinismo e a hipocrisia ultrapassam todas as fronteiras pensáveis. Esta gente fede e nós aturamos o seu fedor!!!

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Internacional

Líbia, lições de cinismo

Com grande encenação diplomática e com um timing afinado, começou mais uma guerra pelo controlo do petróleo. É disso que se trata. E uma guerra que se sabe como começou, mas que, como todas as guerras, não se sabe nem como acabará, nem com que consequências.

A partir da resolução 1973, aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU e que estabelece uma “zona de exclusão aérea sobre a Líbia” e autoriza todos “os meios necessários para proteger civis e áreas povoadas por civis”, potências ocidentais lideradas pelos EUA, França e Inglaterra, trataram de, rapidamente, interpretar a seu contento esses conceitos de “exclusão aérea” e de “protecção de civis” para passar à guerra total sobre os recursos militares do sempiterno coronel.

Todo o processo é uma gigantesca manifestação de hipocrisia política. Dos promotores ocidentais, conforme Manuel A. Araújo já aqui deu conta, mais abaixo. Mas também dos dirigentes dos países árabes. Veja-se a Liga Árabe. Tendo começado por apoiar e votar a criação dessa área de exclusão aérea, vem agora chorar “lágrimas de crocodilo” perante os bombardeamentos sobre a Líbia, fingindo ignorar o alcance das suas posições anteriores. Nem outra coisa se poderia esperar de regimes que sempre apostaram em aliar-se a Deus e ao diabo e que se confrontam, eles próprios, com sérios problemas de contestação no interior das suas fronteiras.

Os votos no Conselho de Segurança da ONU – esse areópago que legaliza a guerra no mundo e cujo painel de membros permanentes (EUA, França, Reino Unido, China e Rússia) há muito que deixou de reflectir os equilíbrios do mundo contemporâneo -, são outra demonstração do cinismo da realpolitik. O voto português, favorável à resolução, não causa surpresa, já que corresponde ao de um fiel aliado dos EUA, incapaz de se desviar um milímetro das orientações. Mesmo que o governo português considerasse com aparente amizade o regime do coronel e que o nosso PM o tivesse visitado várias vezes – petróleo oblige.

Mas a declaração do Conselho de Segurança foi aprovada com as abstenções da Alemanha, Brasil, China, Índia e Rússia. E aqui divisam-se algumas meias-surpresas, como a posição dos membros permanentes Rússia e China. Votos que, a coberto das politicamente correctas preocupações com o sangrento conflito que dilacera a Líbia, expressam o desejo de contemporização com o dominante poder ocidental e a participação na grelha de partida para a era pós-Kadafy. Perante os eufemísticamente chamados danos colateriais – caso de um hospital parcialmente destruído, segundo a chancelaria russa – bem podem agora Rússia e China dizer que os bombardeamentos e ataques às forças do sempiterno coronel não faziam parte do cardápio do documento aprovado. Mas não foram esses membros permanentes do Conselho de Segurança que, tendo direito de veto sobre as resoluções, as “deixaram passar”? Com o que é contavam os seus dirigentes? Limitaram-se objectivamente a fazer um favor às potências ocidentais, a quem, oportunamente, cobrarão num outro palco, numa outra negociação, num outro negócio. Conflitos russos no Cáucaso? Relações económicas entre a China-EUA-UE? Questões cambiais? Acesso à exploração dos recursos naturais da Líbia?

Ressalvadas as aparências, a todos interessa que M. Kadafy faça parte do passado. Como no célebre “Um Crime no Expresso do Oriente” (Agatha Christie, 1934), todos estão agora interessados em contribuir, nem que seja com uma singela facada. Até o governo de nuestros hermanos já anunciou o envio de dois aviões; e o nosso governo não anunciou porque as coisas estão como estão e ninguém compreenderia o (caríssimo) gesto. Mas os recursos líbios são muito importantes para que não haja uma solução.

Por agora resta-nos saber se as potências que conduzem a guerra a ganharão confortavelmente instaladas aos comandos dos seus aviões e nos monitores dos quartéis-generais, contando com o apoio dos rebeldes em armas para o trabalho no terreno, ou se terão que enviar tropas terrestres. E aí o cenário complicar-se-á.

Noticias de última hora indicam que o Conselho de Segurança de ONU irá hoje reunir à porta fechada.

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Geral

Exterminem todas as bestas

“Exterminem todas as Bestas”, diz o sinistro Kurtz, no romance O Coração nas Trevas, de Joseph Conrad.

Exterminar todas as bestas, era considerado um acto de caridade das potências coloniais, para encurtar os sofrimentos dos povos inferiores e incivilizados que não se submetiam ao progresso e à civilização. Era, na época em que decorre o romance, o equivalente às actuais intervenções humanitárias das nações ocidentais, espalhando os seus superiores valores culturais e civilizacionais enquanto exploram os recursos económicos dos continentes, praticando uma política de extermínio em que assentou, assentava e assenta, variando os meios, as formas e os fundamentos ideológicos, a expansão ocidental, na América, Austrália, África e Ásia.

Na época, uma abundante literatura justificava o colonialismo e o racismo, em nome do progresso e da civilização. Hoje, a propaganda continua farta, usa novos aparatos tecnológicos e mudou os temas para os direitos humanos, a livre circulação financeira e comercial, os valores democráticos. Isto depois de o mundo ficar horrorizado com os campos de concentração nazis, muito mais sofisticados e eficazes que o primeiro campo de concentração instalado pelos espanhóis em Cuba, sem que ninguém ou quase ninguém o visse como o que realmente era: a aplicação moderna, industrial das políticas de extermínio que durante séculos o ocidente efectuou nos cinco continentes.

É enorme a perfídia da imposição da zona de exclusão aérea na Líbia com o pretexto de proteger a população civil. No Magrebe, no Médio-Oriente continuam neste momento a morrer centenas de civis desarmados às mãos dos militares e das polícias. O silêncio é opaco, não há ajuda humanitária, nem ameaças, só uns vagos vagidos para calar quem anda possa ter sofrimentos de alma.

Os massacres de palestinos, no Líbano, na Jordânia, em Gaza, de sauris pelos marroquinos, de africanos no Ruanda, na Costa do Marfim, só para citar algumas brutalidades recentes, mereceram o silêncio, a indiferença ou a cumplicidade activa daqueles que, agora de coração despedaçado, acorrem ao povo líbio, sem se saber bem de que povo líbio estão a falar. O cumulo da doblez é a Liga Árabe, onde pontificam vários kadhafis, colaborar com a coligação ocidental que bombardeia a Líbia. Um espectáculo edificante que aquece requentadas almas democráticas.

Não se deve esquecer que Kadhaffi começou por ser apoiado pelos italianos contra um rei fantoche e facínora, colocado no trono pelos ingleses. Principiou a ser execrado quando nacionalizou o petróleo e depois de várias aventuras politicamente incorrectas, para o ocidente o terrorismo é bom ou mau conforme a quem serve, voltou recentemente a passear mundo fora de mãos dadas com a mais fina flor dos políticos ocidentais. Continuar a ler

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Imperialismo Verde

Gostaríamos de retomar um comentário publicado por Juttta Difurth no diário alemão Die Tageszeitung, sob o título “Imperialistische Interessen“.

A referida autora criticou veementemente a petição apresentada por Daniel Cohn-Bendit, presidente dos Verdes no Parlamento Europeu, para que seja estabelecida uma zona de exclusão aérea na Líbia.

Alguns estarão recordados deste atrevido revoltado que, enquanto jovem estudante, afrontou, em Maio de 1968, um polícia de Paris, fazendo-lhe uma careta provocadora. Pois bem, este senhor, que não produziu rigorosamente mais nada com um mínimo sentido revolucionário ou, tão somente, com um cunho progressista, veio, agora, defender uma cruzada contra a Líbia e contra o ditador Kadhafi.

Porque será que este fulano, que não disse nada contra o regime kadafhiano durante  largas décadas, está, agora, tão preocupado?

De facto,  Conh-Bendit nunca protestou contra as cumplicidades da União Europeia e dos EUA para com o regime líbio, designadamente aquando das trocas de favores deste com Berlusconiu, Josef Fischer e Sócrates, entre muitos outros.Assim como nunca levantou a voz contra as ditaduras existentes no norte de África e no médio-oriente desde há décadas, que gozam do beneplácito dado pelo Grande Ocidente Capitalista.

Veja-se a situação do movimento de resistência saharaui, representado pela Frente Folisario, que abandonou a luta armada em 1991 porque a ONU lhes prometeu um referendo com vista à independência.

Estive presente no sul da Argélia, em meados da década de 90, e tive a oportunidade de constatar a degradante situação daquele povo de refugiados perante a ditadura de uma monarquia de frouxos e corruptos.

Este brilhante agitador alemão, que também não teve qualquer dúvida de que o Iraque possuía  “armas de destruição maciça“, estimulando assim a invasão norte-americana e que, aliás, gritou bem alto, há alguns anos atrás, o seu desejo de que a Europa deveria empreender uma guerra contra a Juguslávia porque, argumentava, os “muçulmanos bósnios fazem parte da cultura europeia e são gente do nosso sangue“, nada diz, porém, sobre as movimentações militares da Arábia Saudita nos países vizinhos para, como bom capataz dos americanos, lhes cuidar do quintal. Não vão surgir ervas daninhas no deserto!

Que o Kadafhi não será boa rez política, disso não haverá grandes dúvidas, mesmo atendendo às particularidades sociais e culturais que estão subjacentes à sua matriz berbere.

Mas, a melhor forma de defender o povo líbio, e os seus vizinhos, passa por levantar as nossas vozes contra a hipótese de que o imperialismo lá ponha a pata, propriamente dita.

Mesmo que seja uma pata verde.

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Política

E se chega à Arábia Saudita?

O movimento de derrube de ditadores e poderes autoritários tem contado com uma generalizada simpatia um pouco por toda a Europa. Mas, à medida que os países produtores de petróleo da região são afectados por esse fogo incontrolável, começa-se-nos a formar um nó na garganta sempre que nos anunciam os novos preços dos combustíveis.

Um fogo ameaça uma região do planeta, o Magrebe e a península arábica, onde se concentram oito dos maiores exportadores mundiais de petróleo, com uma fantástica capacidade conjugada de 17.309 milhões de barris/dia (dados de 2008).

Os acontecimentos na Líbia começaram por beneficiar da simpatia geral. Mas, conforme nos vamos apercebendo das suas consequências, internas e externas, podemos perceber que estamos perante uma das mais importantes mudanças estratégicas das últimas décadas. Se a Tunísia e o Egipto não são relevantes para o abastecimento de hidrocarbonetos à Europa (desconte-se a importância estratégica do canal de Suez na sua circulação), já o mesmo não se passa com a Líbia. O sector petrolífero líbio exportou, em 2008, 1,597 milhões de barris/dia (sendo então o 12º exportador mundial), produto que é responsável por 95% das exportações deste país.

Da Líbia, em caso de derrota de M. Kadaffy, é previsível que resulte a fragmentação do país. As estruturas institucionais do Estado, pouco consolidadas, não parecem poder resistir à guerra civil instalada. Sem um exército unificado (ao invés do que aparenta ser a situação egípcia) as perspectivas de evolução serão muito escassas. O espectro da desagregação ocorrida na Somália não é de excluir. A agravar-se a actual desgraça líbia, resultarão problemas como refugiados, a desagregação do Estado, a “balcanização” de diversas áreas do país e o controlo do acesso ao petróleo e gás… isto sem contar com a destruição e morte que parecem estar em curso e cujo desfecho será ditado pelas armas e não pelo bom senso político – que, apesar de tudo, imperou, com danos relativos, na Tunísia e no Egipto. Continuar a ler

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