poesia

Guerra Junqueiro

A Velhice do Padre EternoO DINHEIRO DE S. PEDRO

De tal modo imitou o Papa a singeleza
Do mártir do Calvário,
Que à força de gastar os bens com a pobreza
Tornou-se milionário.

Tu hoje podes ver, ó filho de Maria,
O teu vigário humilde
Conversando na Bolsa em fundos da Turquia
Com o Barão Rothschild.

A cruz da redenção, que deu ao mundo a vida
Por te haver dado a morte,
Tem-na no seu bureau o padre-santo erguida
Sobre uma caixa-forte.

E toda essa riqueza imensa, acumulada
Por tantos financeiros,
O que é a economia, ó Deus! foi começada
Só com trinta dinheiros.

Uns versos escritos em 1885 por Guerra Junqueiro param o seu livro A Velhice do Padre Eterno.

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Geral

Uma Questão de Dignidade!

(…) — Ensinei-te a roubar e agora vais usando o teu talento nos bairros finos, renegando o meio de onde vieste e desprezando o teu educador.Nós não somos da mesma laia. Agora já só te resta comprar um carro desportivo. Talvez então te possa admirar. De momento, pareces-me um pavão todo orgulhoso com as suas penas.
— Antes de ser preso, já te tinha explicado a razão de usar estas roupas.Operando em certos meios, vestido como estou, ninguém ousa confundir-me com um ladrão. Eliminei assim todos os riscos.
— É isso mesmo que te reprovo. Não há nada de mais imoral do que roubar sem riscos. É o risco que nos diferencia dos banqueiros e dos seus émulos que praticam o roubo legalizado com a cobertura do governo. Não te inculquei a minha arte para te tornares um ladrão de cinema cuja única preocupação é não desagradar ao seu público. (…)

In AS CORES da INFÂMIA, Albert Cossery, tradução Ernesto Sampaio,Edições Antígona, 2000

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Geral

Dinheiro para que te quero?

Os portugueses procederam neste Natal, entre 21 e 26 de Dezembro, a levantamentos de dinheiro em máquinas multibanco num valor superior em 51 milhões de euros ao registado no Natal de 2009 (527 milhões). E os pagamentos efectuados por essa via foram 98 milhões de euros superiores aos do ano passado (684 milhões) noticiava do DN de 28 de Dezembro.

Qual a relação dos portugueses com a crise?  Olhando à superfície é, pelo menos, tema generalizado de conversa. É já quase tão habitual falar sobre a crise como sobre o tempo. Os media “bombardeiam” os seus públicos com inúmeras notícias, reportagens, análises, entrevistas e todos os outros ângulos de abordagem possíveis. Um filão inesgotável para esses órgãos de comunicação, com a novela das oscilações diárias das taxas de juro da dívida soberana a tudo bater aos pontos.

Todos sabemos pois que estamos em crise. Aliás, creio que desde o famoso “pântano” de António Guterres e do “país de tanga” (Durão Barroso), que lhe sucedeu, que nunca mais deixaram de nos falar em crise. Crises a que se somam crises. De vez em quando vozes bem situadas tentam contrariar a maré dominante, com isso tentando dar uns tons de azul à paisagem. O antigo ministro da economia Manuel Pinho, por exemplo, decretou em 2006 o fim da crise. Sócrates e Teixeira dos Santos decidiram em 2009 baixar o IVA em 1% e aumentar os funcionários públicos após vários anos de congelamento. Rapidamente se aperceberam que se tinham enganado, pois logo a Crise retomou o seu majestático lugar entre os portugueses.

Sabemos que o desemprego não parou de aumentar. Que continuam a encerrar empresas por todo o país. Que as prestações sociais estão a diminuir. Que pagamos mais impostos e contribuições. Que o comércio tradicional se queixa de vender menos e de estarem a encerrar numerosos estabelecimentos. Que se aproximam cortes salariais para centenas de milhar de portugueses.

O que quererá dizer esta aparente contradição?

Avance-se uma tentativa de explicação: Continuar a ler

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Política

A Ganância!

Gravura de Bartolomeu Cid dos Santos

Na hora de todos apertarem o cinto, nem todos mas aqueles que já o iam apertar menos ainda querem alargar uns furos.

Na venda da Vivo à Telefonica pela PT, o Estado contrariou a vontade maioritária dos accionistas privados da PT e, usando a malfadada golden-share tão odiada pelos eurocratas neo-liberais da EU, não deixou que a transacção fosse feita aceitando-se a primeira oferta dos espanhóis.

Os accionistas portugueses BES, CGD, Ongoing, Controlinveste e Visabeira gritaram, cada um com o seu estilo, contra o Estado e a golden-share. Pela calada davam palmadas nas costas dos telefónicos, incentivaram-nos a exigir intervenções de Bruxelas.

Era a exibição pública da cupidez.

Ora a intervenção do Estado fez que o negócio, em trinta dias depois da Assembleia Geral da PT em que os outros accionistas salivavam com aqueles números, rendesse mais 350 milhões de euros. Que de uma primeira oferta de 5,7 mil milhões de euros saltasse para os 7,5 mil milhões de euros! Um dos maiores negócios do ano a nível mundial!
Agora, esses mesmos accionistas estão, novamente, em guerra surda, alguma gritaria sempre se vai ouvindo, com o Estado porque querem receber ainda este ano parte do dividendo extraordinário obtido com o negócio.

A PT anunciou que iria pagar este ano €1 do dividendo extraordinário de €1,65 que a venda da Vivo à Telefonica vai proporcionar aos accionistas. Isto significa que esse €1 euro ficará, ao abrigo da actual legislação, isento de impostos.

Pelos números que andam a correr pelos jornais da especialidade, os accionistas não pagarão ao Fisco € 150 milhões de euros que pagariam se esse dividendo fosse pago em 2011, com a nova lei fiscal que, finalmente, retira alguns benefícios fiscais nessas áreas.

Quando se avizinham agravamentos fiscais brutais, cortes significativos nos ordenados dos funcionários públicos, redução desumana de apoios sociais, essa gente, que vive à tripa forra não quer perder umas centenas de milhões dos muitos milhões, a PT vai distribuir de dividendo extraordinário 1,5 mil milhões de euros, que esse negócio lhes ofereceu de bandeja. Ainda por cima se ganharam mais foi à conta do malfadado Estado que querem driblar com um golpe legal, receberem até à meia-noite de 2010 o inesperado dividendo.

É a ganância rasca de uma gentalha que nunca está satisfeita!

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Política

318.320

Fixem este número. É a quantidade de funcionários públicos que são afectados pelos cortes salariais decididos pelo PS e pelo PSD e são estes 318.320 que vão pagar com o corpo a crise. São estes 318.320 que vão pagar os disparates do PS, os buracos do BPN e as “distracções” do regulador do sector.

318.320 funcionários públicos, 48 por cento da força laboral do Estado. Estes, os que ganham mais de 1550 euros, são os “ricos” que pagam a crise.

318.320

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Política

Miseráveis

Perante o absurdo e o abuso da governação do país, o disparate e a injustiça, a insensibilidade disfarçada com “dores de coração” dos ministros e do seu chefe, a impotência é o mais óbvio sentimento que nos limita pensamento e acção.

Impotentes perante o que nos dizem ser a inevitabilidade das reduções de salários da administração pública, do aumento dos impostos, da redução das prestações sociais, do fim de deduções fiscais, expandimos a ira em comentários públicos e anónimos, juramos pela pele do chefe daquilo a que ainda chamam Governo.

Os funcionários públicos, ganhem ou não mais de 1500 euros, como se isso fosse uma fortuna, foram nomeados para pagar a crise e a irresponsabilidade e incompetência dos três partidos que nos governam há mais de trinta anos. Além das reduções salariais, os desgraçados dos funcionários da administração pública vão ainda ter de arcar com o aumento da comparticipação para a Caixa Geral de Aposentações, a redução de comparticipações, o aumento do IVA e a reduções das deduções no IRS.  Foram nomeados para pagar os disparates das políticas do PS e do PSD, mas também os submarinos do CDS, sem que tenham qualquer responsabilidade nesta miserável governação que nos enterrou e mais nos enterrará no futuro.

Do que não se fala por estes dias de justificações gastas e esfarrapadas é de lucros bancários por taxar justamente há dezenas de anos, da fuga ao fisco de grandes empresas sedeadas nos offshores, de um modelo económico que favorece a destruição do aparelho produtivo nacional, da venda ao desbarato de empresas públicas que só são deficitárias quando estão na mão do Estado (por que será?).

Tudo isto fomos aceitando impotentes, incapazes de reagir. Tudo isto nos impuseram, crentes na nossa incapacidade de reagir, atados de pés e mãos pela prestação da casa, do carro, do plasma, das férias, das propinas das licenciaturas e dos mestrados dos filhos. Atados de pés e mãos pelo contrato precário que nos faz ver o olho da rua num instante. Eis a grande conquista do capitalismo moderno: damos-te sempre mais, mas se te quiseres meter connosco tens de pagar um preço muito mais elevado do que esperarias.

A grande dúvida que se coloca por estes dias é saber por quanto tempo ficaremos neste estado de letargia induzida por um capitalismo cada vez mais ágil e cruel, ainda que, em Portugal, possa até ser personificado por alguém que se diz grande defensor do estado social.

Quanto tempo mais aceitaremos esta miserável vida que estes miseráveis nos impõem? Quando começaremos a resistir a sério?

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Geral

Os bancos snifam que se fartam!

Não é novidade, fala-se do assunto alto e bom som ou em sussurros alcatifados: o dinheiro do narcotráfico alimenta a Bolsa, é um dos pilares do sistema bancário.
Em 2009, um relatório do Departamento das Nações Unidas para a Droga e o Crime registava “Em tempo de quebras dos lucros os grandes bancos devem pensar que o dinheiro não tem cheiro. Os cidadãos honestos, que enfrentam dificuldades em tempos de crise financeira interrogam-se por que razão não são confiscados os lucros do crime convertidos em luxuosos bens, imóveis, carros, barcos, aviões.”
Não são porque nunca ou muito raramente o foram, porque muito do dinheiro que corre nas veias do sistema financeiro global não passaria o mais simples teste de detecção de droga. Entra nesse circuito como os esgotos urbanos entram nas etares, para saírem de lá purificados e aptos para contribuírem para o crescimento económico seja pela via do investimento seja para sustentar guerras. Duas formas de circulação do dinheiro em que a segunda é muitíssimo mais rápida que a primeira.

O sociólogo suíço Jean Ziegler há muito que denunciou essa situação em vários livros e artigos em jornais e revistas, identificando as áreas preferenciais para a lavagem de dinheiro: empreendimentos imobiliários sobretudo turísticos, a bolsa, as offshore, a comunicação social, o ensino universitário. Agora, em finais de 2009, o chefe do referido Departamento da ONU, António Maria da Costa disse à imprensa que muitos empréstimos entre bancos (empréstimos de curto prazo que os bancos fazem entre si) assentavam em dinheiro da droga.
Em 2008/2009 quando a bolha financeira do mercado subprime (a economia tem dado um inestimável contributo na invenção de terminologias linguísticas) estourou e os mercados financeiros entraram em rotura, os bancos voltaram-se para os governos e para os cartéis da droga para obterem dinheiro. Sem esse dinheiro muitos dos bancos mais importantes não teriam sobrevivido às jogadas de alto risco motivados por uma ganância que desconhece limites.
Nos EUA, o resto do mundo não é muito diferente, os bancos podem envolver-se em grande escala, em actividades descaradamente criminosas sem correr grandes riscos.

O último, agora revelado por Michael Smith da Blomberg (o maior web-site internacional de informação económica e financeira com sede em Nova Iorque e delegações em Londres e Tóquio), pormenoriza as operações do Banco Wachovia para lavar 380 mil milhões de dólares, resultados do comércio de cocaína realizado por cartéis da droga. Funcionários do Wachovia alertaram a constelação de CEO’s presidentes, directores, e por ai fora que fizeram ouvidos de mercador surdos que estavam com o tilintar do furacão de dinheiro a ser despejado nos cofres, som que lhes é mais querido que a melhor música celestial.
O Wachovia, comprado em fins de 2008 pelo Wells-Fargo na sequência da crise, é um dos maiores bancos norte-americanos e bem sabia que o castigo que o Departamento Federal de Justiça iria impor, pela lavagem comprovada de 380 mil milhões de dólares, seria, como foi, ridícula: a promessa de não voltar a fazer semelhante transacção e uma multa de 160 milhões de dólares. Promessa logo feita, aquela gente faria corar de inveja Frei Tomás, e pagar 0,045% ( !!! ) do valor do negócio torna o crime altamente rentável.
O FED não fez nada! Não deverá espantar ninguém. O celebrado FED, a Reserva Federal Norte-Americana, não é uma entidade independente (o que será que se deve entender como independência dos Bancos Centrais?) é uma poderosa coligação de bancos privados protegida pela lei dos EUA. Claro que quem preside são governadores nomeados pelo governo o que não afecta a sua estrutura. Desse lado podem dormir descansados. Paralelamente, como se vê, o Departamento de Justiça resolve as acusações criminais com acordos de suspensão das acções judiciais. O acordo feito pelo Wachovia/Wells Fargo com o DE é de um supremo descaro. O banco reconhece a culpa, a justiça louva a confissão e condena com parcimónia. Há que sossegar os próximos prevaricadores!

Bem pode Obama proclamar que vai regulamentar a actividade bancária e financeira. Declarações retóricas sem qualquer consequência prática. O que se passa actualmente é que os grandes bancos, mesmo que tenham pés de barro, são excessivamente grandes para caírem, o que lhes confere uma escandalosa impunidade em que tudo ou quase tudo é cinicamente permitido, porque não se pode correr o risco de provocar pânico nos mercados financeiros. Uma história da treta com tigres de papel a rugir alto e grosso, enquanto o sistema for aquele e não sair da cepa torta.

Os carteis da droga podem dormir descansados, excepto em situações de guerras intestinas, que os bancos estão lá para lhes snifarem o dinheiro limpando-o dos traços de droga. Os mercados ficam felizes com essas injecções que lhes aceleram a respiração e o pulso e os banqueiros podem continuar a explicar as virtudes do seu “trabalho” tendo por ruído de fundo o borbulhar do champanhe, o inaudível tic-tac dos rolexes, o ronronar dos rolls, os afagos do vento nas asas dos jactos particulares, o som da tinta no espesso papel couche onde imprimem os seus alçados principais pavoneando em gloriosos encontros em que se discute o futuro do mundo e em festas idiotas onde exibem o luxo que o poder engraxa. Cenários e adereços onde diluem, até desaparecer, o sangue que aduba os milhares de milhões de dólares, euros, libras. Ienes e todas as outras mais que circulam a alta velocidade nos mercados de capitais.

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