poesia

Guerra Junqueiro

A Velhice do Padre EternoO DINHEIRO DE S. PEDRO

De tal modo imitou o Papa a singeleza
Do mártir do Calvário,
Que à força de gastar os bens com a pobreza
Tornou-se milionário.

Tu hoje podes ver, ó filho de Maria,
O teu vigário humilde
Conversando na Bolsa em fundos da Turquia
Com o Barão Rothschild.

A cruz da redenção, que deu ao mundo a vida
Por te haver dado a morte,
Tem-na no seu bureau o padre-santo erguida
Sobre uma caixa-forte.

E toda essa riqueza imensa, acumulada
Por tantos financeiros,
O que é a economia, ó Deus! foi começada
Só com trinta dinheiros.

Uns versos escritos em 1885 por Guerra Junqueiro param o seu livro A Velhice do Padre Eterno.

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Geral

Uma Questão de Dignidade!

(…) — Ensinei-te a roubar e agora vais usando o teu talento nos bairros finos, renegando o meio de onde vieste e desprezando o teu educador.Nós não somos da mesma laia. Agora já só te resta comprar um carro desportivo. Talvez então te possa admirar. De momento, pareces-me um pavão todo orgulhoso com as suas penas.
— Antes de ser preso, já te tinha explicado a razão de usar estas roupas.Operando em certos meios, vestido como estou, ninguém ousa confundir-me com um ladrão. Eliminei assim todos os riscos.
— É isso mesmo que te reprovo. Não há nada de mais imoral do que roubar sem riscos. É o risco que nos diferencia dos banqueiros e dos seus émulos que praticam o roubo legalizado com a cobertura do governo. Não te inculquei a minha arte para te tornares um ladrão de cinema cuja única preocupação é não desagradar ao seu público. (…)

In AS CORES da INFÂMIA, Albert Cossery, tradução Ernesto Sampaio,Edições Antígona, 2000

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Geral

Dinheiro para que te quero?

Os portugueses procederam neste Natal, entre 21 e 26 de Dezembro, a levantamentos de dinheiro em máquinas multibanco num valor superior em 51 milhões de euros ao registado no Natal de 2009 (527 milhões). E os pagamentos efectuados por essa via foram 98 milhões de euros superiores aos do ano passado (684 milhões) noticiava do DN de 28 de Dezembro.

Qual a relação dos portugueses com a crise?  Olhando à superfície é, pelo menos, tema generalizado de conversa. É já quase tão habitual falar sobre a crise como sobre o tempo. Os media “bombardeiam” os seus públicos com inúmeras notícias, reportagens, análises, entrevistas e todos os outros ângulos de abordagem possíveis. Um filão inesgotável para esses órgãos de comunicação, com a novela das oscilações diárias das taxas de juro da dívida soberana a tudo bater aos pontos.

Todos sabemos pois que estamos em crise. Aliás, creio que desde o famoso “pântano” de António Guterres e do “país de tanga” (Durão Barroso), que lhe sucedeu, que nunca mais deixaram de nos falar em crise. Crises a que se somam crises. De vez em quando vozes bem situadas tentam contrariar a maré dominante, com isso tentando dar uns tons de azul à paisagem. O antigo ministro da economia Manuel Pinho, por exemplo, decretou em 2006 o fim da crise. Sócrates e Teixeira dos Santos decidiram em 2009 baixar o IVA em 1% e aumentar os funcionários públicos após vários anos de congelamento. Rapidamente se aperceberam que se tinham enganado, pois logo a Crise retomou o seu majestático lugar entre os portugueses.

Sabemos que o desemprego não parou de aumentar. Que continuam a encerrar empresas por todo o país. Que as prestações sociais estão a diminuir. Que pagamos mais impostos e contribuições. Que o comércio tradicional se queixa de vender menos e de estarem a encerrar numerosos estabelecimentos. Que se aproximam cortes salariais para centenas de milhar de portugueses.

O que quererá dizer esta aparente contradição?

Avance-se uma tentativa de explicação: Continuar a ler

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Política

A Ganância!

Gravura de Bartolomeu Cid dos Santos

Na hora de todos apertarem o cinto, nem todos mas aqueles que já o iam apertar menos ainda querem alargar uns furos.

Na venda da Vivo à Telefonica pela PT, o Estado contrariou a vontade maioritária dos accionistas privados da PT e, usando a malfadada golden-share tão odiada pelos eurocratas neo-liberais da EU, não deixou que a transacção fosse feita aceitando-se a primeira oferta dos espanhóis.

Os accionistas portugueses BES, CGD, Ongoing, Controlinveste e Visabeira gritaram, cada um com o seu estilo, contra o Estado e a golden-share. Pela calada davam palmadas nas costas dos telefónicos, incentivaram-nos a exigir intervenções de Bruxelas.

Era a exibição pública da cupidez.

Ora a intervenção do Estado fez que o negócio, em trinta dias depois da Assembleia Geral da PT em que os outros accionistas salivavam com aqueles números, rendesse mais 350 milhões de euros. Que de uma primeira oferta de 5,7 mil milhões de euros saltasse para os 7,5 mil milhões de euros! Um dos maiores negócios do ano a nível mundial!
Agora, esses mesmos accionistas estão, novamente, em guerra surda, alguma gritaria sempre se vai ouvindo, com o Estado porque querem receber ainda este ano parte do dividendo extraordinário obtido com o negócio.

A PT anunciou que iria pagar este ano €1 do dividendo extraordinário de €1,65 que a venda da Vivo à Telefonica vai proporcionar aos accionistas. Isto significa que esse €1 euro ficará, ao abrigo da actual legislação, isento de impostos.

Pelos números que andam a correr pelos jornais da especialidade, os accionistas não pagarão ao Fisco € 150 milhões de euros que pagariam se esse dividendo fosse pago em 2011, com a nova lei fiscal que, finalmente, retira alguns benefícios fiscais nessas áreas.

Quando se avizinham agravamentos fiscais brutais, cortes significativos nos ordenados dos funcionários públicos, redução desumana de apoios sociais, essa gente, que vive à tripa forra não quer perder umas centenas de milhões dos muitos milhões, a PT vai distribuir de dividendo extraordinário 1,5 mil milhões de euros, que esse negócio lhes ofereceu de bandeja. Ainda por cima se ganharam mais foi à conta do malfadado Estado que querem driblar com um golpe legal, receberem até à meia-noite de 2010 o inesperado dividendo.

É a ganância rasca de uma gentalha que nunca está satisfeita!

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Política

318.320

Fixem este número. É a quantidade de funcionários públicos que são afectados pelos cortes salariais decididos pelo PS e pelo PSD e são estes 318.320 que vão pagar com o corpo a crise. São estes 318.320 que vão pagar os disparates do PS, os buracos do BPN e as “distracções” do regulador do sector.

318.320 funcionários públicos, 48 por cento da força laboral do Estado. Estes, os que ganham mais de 1550 euros, são os “ricos” que pagam a crise.

318.320

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Política

Miseráveis

Perante o absurdo e o abuso da governação do país, o disparate e a injustiça, a insensibilidade disfarçada com “dores de coração” dos ministros e do seu chefe, a impotência é o mais óbvio sentimento que nos limita pensamento e acção.

Impotentes perante o que nos dizem ser a inevitabilidade das reduções de salários da administração pública, do aumento dos impostos, da redução das prestações sociais, do fim de deduções fiscais, expandimos a ira em comentários públicos e anónimos, juramos pela pele do chefe daquilo a que ainda chamam Governo.

Os funcionários públicos, ganhem ou não mais de 1500 euros, como se isso fosse uma fortuna, foram nomeados para pagar a crise e a irresponsabilidade e incompetência dos três partidos que nos governam há mais de trinta anos. Além das reduções salariais, os desgraçados dos funcionários da administração pública vão ainda ter de arcar com o aumento da comparticipação para a Caixa Geral de Aposentações, a redução de comparticipações, o aumento do IVA e a reduções das deduções no IRS.  Foram nomeados para pagar os disparates das políticas do PS e do PSD, mas também os submarinos do CDS, sem que tenham qualquer responsabilidade nesta miserável governação que nos enterrou e mais nos enterrará no futuro.

Do que não se fala por estes dias de justificações gastas e esfarrapadas é de lucros bancários por taxar justamente há dezenas de anos, da fuga ao fisco de grandes empresas sedeadas nos offshores, de um modelo económico que favorece a destruição do aparelho produtivo nacional, da venda ao desbarato de empresas públicas que só são deficitárias quando estão na mão do Estado (por que será?).

Tudo isto fomos aceitando impotentes, incapazes de reagir. Tudo isto nos impuseram, crentes na nossa incapacidade de reagir, atados de pés e mãos pela prestação da casa, do carro, do plasma, das férias, das propinas das licenciaturas e dos mestrados dos filhos. Atados de pés e mãos pelo contrato precário que nos faz ver o olho da rua num instante. Eis a grande conquista do capitalismo moderno: damos-te sempre mais, mas se te quiseres meter connosco tens de pagar um preço muito mais elevado do que esperarias.

A grande dúvida que se coloca por estes dias é saber por quanto tempo ficaremos neste estado de letargia induzida por um capitalismo cada vez mais ágil e cruel, ainda que, em Portugal, possa até ser personificado por alguém que se diz grande defensor do estado social.

Quanto tempo mais aceitaremos esta miserável vida que estes miseráveis nos impõem? Quando começaremos a resistir a sério?

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Geral

Os bancos snifam que se fartam!

Não é novidade, fala-se do assunto alto e bom som ou em sussurros alcatifados: o dinheiro do narcotráfico alimenta a Bolsa, é um dos pilares do sistema bancário.
Em 2009, um relatório do Departamento das Nações Unidas para a Droga e o Crime registava “Em tempo de quebras dos lucros os grandes bancos devem pensar que o dinheiro não tem cheiro. Os cidadãos honestos, que enfrentam dificuldades em tempos de crise financeira interrogam-se por que razão não são confiscados os lucros do crime convertidos em luxuosos bens, imóveis, carros, barcos, aviões.”
Não são porque nunca ou muito raramente o foram, porque muito do dinheiro que corre nas veias do sistema financeiro global não passaria o mais simples teste de detecção de droga. Entra nesse circuito como os esgotos urbanos entram nas etares, para saírem de lá purificados e aptos para contribuírem para o crescimento económico seja pela via do investimento seja para sustentar guerras. Duas formas de circulação do dinheiro em que a segunda é muitíssimo mais rápida que a primeira.

O sociólogo suíço Jean Ziegler há muito que denunciou essa situação em vários livros e artigos em jornais e revistas, identificando as áreas preferenciais para a lavagem de dinheiro: empreendimentos imobiliários sobretudo turísticos, a bolsa, as offshore, a comunicação social, o ensino universitário. Agora, em finais de 2009, o chefe do referido Departamento da ONU, António Maria da Costa disse à imprensa que muitos empréstimos entre bancos (empréstimos de curto prazo que os bancos fazem entre si) assentavam em dinheiro da droga.
Em 2008/2009 quando a bolha financeira do mercado subprime (a economia tem dado um inestimável contributo na invenção de terminologias linguísticas) estourou e os mercados financeiros entraram em rotura, os bancos voltaram-se para os governos e para os cartéis da droga para obterem dinheiro. Sem esse dinheiro muitos dos bancos mais importantes não teriam sobrevivido às jogadas de alto risco motivados por uma ganância que desconhece limites.
Nos EUA, o resto do mundo não é muito diferente, os bancos podem envolver-se em grande escala, em actividades descaradamente criminosas sem correr grandes riscos.

O último, agora revelado por Michael Smith da Blomberg (o maior web-site internacional de informação económica e financeira com sede em Nova Iorque e delegações em Londres e Tóquio), pormenoriza as operações do Banco Wachovia para lavar 380 mil milhões de dólares, resultados do comércio de cocaína realizado por cartéis da droga. Funcionários do Wachovia alertaram a constelação de CEO’s presidentes, directores, e por ai fora que fizeram ouvidos de mercador surdos que estavam com o tilintar do furacão de dinheiro a ser despejado nos cofres, som que lhes é mais querido que a melhor música celestial.
O Wachovia, comprado em fins de 2008 pelo Wells-Fargo na sequência da crise, é um dos maiores bancos norte-americanos e bem sabia que o castigo que o Departamento Federal de Justiça iria impor, pela lavagem comprovada de 380 mil milhões de dólares, seria, como foi, ridícula: a promessa de não voltar a fazer semelhante transacção e uma multa de 160 milhões de dólares. Promessa logo feita, aquela gente faria corar de inveja Frei Tomás, e pagar 0,045% ( !!! ) do valor do negócio torna o crime altamente rentável.
O FED não fez nada! Não deverá espantar ninguém. O celebrado FED, a Reserva Federal Norte-Americana, não é uma entidade independente (o que será que se deve entender como independência dos Bancos Centrais?) é uma poderosa coligação de bancos privados protegida pela lei dos EUA. Claro que quem preside são governadores nomeados pelo governo o que não afecta a sua estrutura. Desse lado podem dormir descansados. Paralelamente, como se vê, o Departamento de Justiça resolve as acusações criminais com acordos de suspensão das acções judiciais. O acordo feito pelo Wachovia/Wells Fargo com o DE é de um supremo descaro. O banco reconhece a culpa, a justiça louva a confissão e condena com parcimónia. Há que sossegar os próximos prevaricadores!

Bem pode Obama proclamar que vai regulamentar a actividade bancária e financeira. Declarações retóricas sem qualquer consequência prática. O que se passa actualmente é que os grandes bancos, mesmo que tenham pés de barro, são excessivamente grandes para caírem, o que lhes confere uma escandalosa impunidade em que tudo ou quase tudo é cinicamente permitido, porque não se pode correr o risco de provocar pânico nos mercados financeiros. Uma história da treta com tigres de papel a rugir alto e grosso, enquanto o sistema for aquele e não sair da cepa torta.

Os carteis da droga podem dormir descansados, excepto em situações de guerras intestinas, que os bancos estão lá para lhes snifarem o dinheiro limpando-o dos traços de droga. Os mercados ficam felizes com essas injecções que lhes aceleram a respiração e o pulso e os banqueiros podem continuar a explicar as virtudes do seu “trabalho” tendo por ruído de fundo o borbulhar do champanhe, o inaudível tic-tac dos rolexes, o ronronar dos rolls, os afagos do vento nas asas dos jactos particulares, o som da tinta no espesso papel couche onde imprimem os seus alçados principais pavoneando em gloriosos encontros em que se discute o futuro do mundo e em festas idiotas onde exibem o luxo que o poder engraxa. Cenários e adereços onde diluem, até desaparecer, o sangue que aduba os milhares de milhões de dólares, euros, libras. Ienes e todas as outras mais que circulam a alta velocidade nos mercados de capitais.

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Política

Berrarias & Facadas

O mundo dos negócios anda em polvorosa. O Estado português usou a golden share para não permitir à Telefónica comprar a Vivo brasileira que detém em parceria com a PT. Todo o mundo se indigna. Dos accionistas portugueses, Ongoing e BES, este que há uns meses atrás quase jurava não vender o seu lote de acções, adquiridos a bom preço quando da privatização da PT (as histórias das relações Ricardo Salgado/BES/Estado são um romance de maus costumes), aos espanhóis evidentemente, à Comissão Europeia defensora do mais desbragado neo-liberalismo, aos jornalistas e comentadores, quase todos eles lobotomizados pelo capitalismo para-selvagem. Uivam que as golden share desvirtuam o livre jogo do mercado. Como se isso existisse e como se as leis do mercado não fossem a transposição para a legalidade da mais infame ilegalidade que faz da actividade económica não uma actividade para a satisfação das necessidades das pessoas, mas uma fonte de lucro a qualquer preço, mesmo que esse preço seja contra os mais elementares direitos humanos.

Esquecem que as golden share existem por acordo com os accionistas privados, no quadro das privatizações de empresas estratégicas para os Estados e que, praticamente todos os Estados europeus da UE têm golden share em diversas empresas. A Comissão Europeia é que, ao serviço do capital internacional e contra os estados que a integram, faz guerra aberta às golden share, usando o Tribunal de Justiça europeu e sabendo muito bem que a justiça não é cega. É um instrumento ao serviço do poder dominante. As leis do mercado, quando correm a favor de um lado, são dacronianamente usadas. Quando corre mal, são a peneira de malha mais aberta. Veja-se quando os Estados atiraram milhões de milhões de euros para a banca privada à beira da falência. Nessa altura, as leis do mercado foram atiradas para o lixo, para a seguir as recuperarem rapidamente.

Por ironia, o Estado espanhol tem várias golden share, entre elas, uma na Telefónica

Não deixa de ser sintomático que nenhuma dessa gente tivesse levantado a voz quando a Telefónica fez uma primeira oferta de cinco milhões de euros sem aceitar que a PT, por esse preço, comprasse a posição da Telefónica na Vivo. A PT recusou, foram subindo as paradas, engrossando voz, ameaçando com isto e mais aquilo, dando facadas a torto e a direito. Agora, com o furor das virgens ofendidas, a Telefónica brama contra a golden shares ocultando a sua nas pregas da virgindade perdida! Não há paciência! Extraordinário é o desenrolar das cenas dessa comédia típica dos nossos tempos. Quando o governo português avisa que considera a PT uma empresa estratégica para Portugal, ninguém lhe deu ouvidos porque não acreditavam que usasse a golden share. Tinham mais que razões para isso, há mais de trinta anos que fazem gato-sapato dos governos, porque é que agora seria diferente.

Ninguém se recorda, ou quer recordar que, se a PT comprou por um balúrdio a Telesp Celular foi porque o governo, com o nosso dinheiro não com o dinheiro dos salgados, vasconcelos & companhia, apoiou a PT, garantiu capacidade à PT para enterrar milhões até conseguir que a Vivo seja um negócio de todas as cobiças.

Não queriam que usasse a golden share? Era o mínimo dos mínimos que lhe era exigido. Se o BES e a Ongoing votassem contra a oferta da Telefónica o recurso à golden share teria sido desnecessário. Não se pode é confiar em quem vende a alma ao diabo por um punhado de euros, os mesmos que se enroscam no colo do Estado quando as coisas dão para o torto, mas já estão prontos para cuspir na gamela quando o primeiro som do esfregar das notas começa a riscar arco-íris de lucros fáceis. Deve-se sempre lembrar que o dinheiro é apátrida e um bom capitalista, quando vai ser enforcado, a sua última acção é tentar vender a corda que o vai tramar. Que outra coisa se poderia esperar daquela gente?

Última curiosidade. Se o governo português já tinha dito, por diversas vezes, que não concordava com o negócio, porque é que a PT gastou, não se sabe quanto, mas devem ter sido muitas centenas de milhares, em acções de sedução dos accionistas, é assim que o marketing nomeia aquela roda-viva de viagens encontros, reuniões, copos, canapés e papelada aveludada, para não cederem aos cantos de sereia da Telefónica. Um circo muito engraçado, mas muito caro e, pelos vistos, condenado a se desmontado por uma simples golden share!

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Política

O mundo mudou?

O mundo mudou! diz José Sócrates e com intervalos de, mais ou menos, 15 minutos repete que o mundo mudou numa semana, em duas semanas, em três semanas e não acrescentou mais semanas porque mudaram de assunto.
Não querem lá ver que o homem não percebeu que o mundo é o mesmo que já existia quando ele andava a pedalar para 1.º ministro!
Que o mundo é o mesmo que, há muitos anos a esta parte, tem dado rédea solta ao capital financeiro que tem ganho lucros fabulosos numa espiral de especulação?
Que o mundo é o mesmo daquele que, em Portugal, pela mão dele e dos seus antecessores, tem concedido benefícios fiscais à banca? Que não tributa as mais-valias obtidas com os ganhos em bolsa? Que protege e anda embasbacado com a imaginação que inventa todos os instrumentos de especulação financeira? Que deixam que os hedge-founds, a última maravilha dos “produtos” financeiros, obtenham lucros com posições simultaneamente compradoras e vendedoras? Que não acaba com os paraísos fiscais? Que fabrica papel moeda como quem fabrica papel higiénico?

Os mercados há anos que andam ao ataque e só agora é que este rapaz deu por isso?

Eh pá! se acreditas mesmo que o mundo mudou em duas semanas és mesmo burro!

Quem baixa as calças, como tu e os teus colegas e patrões da CEE ao capital financeiro está à espera de quê? Do último tango em Bruxelas!

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Política

Onde já se viram Vampiros Vegetarianos?

A ideia mais estúpida que se tem ouvido repetidamente nos últimos tempos é a da necessidade de acalmar os mercados. Políticos no activo e na reforma, economistas carcomidos ou pintados de fresco por teorias do antanho, jornalistas todo o terreno ou supostamente especializados, repetem até à nausea esse ditirambo: é necessário acalmar os mercados. As receitas que preconizam e usam para que os nervos dos mercados financeiros, simpático eufemismo, deixem de estar eriçados são praticamente as mesmas de há 250 anos. Com isso esperam entorpecer o instinto predador da especulação financeira. Marx, o sempre actual e lúcido Marx, que é hoje um best-seller dos mais inteligentes financeiros e que sabe mais de economia que todos os nobeis mortos e vivos, actuais e futuros, explicava numa célebre tese que a finalidade do capital era reproduzir o capital. Brecht sintetizou brilhantemente esse teorema na canção do comerciante: ” Não sei o que é o arroz/ Nunca vi o arroz/ Do arroz só conheço o preço.” Explicitava Marx que quando a reprodução do capital não era feita no campo produtivo mas no campo financeiro, gerava-se um capital sombra que dava lucro até se descobrir que não existia. Olhando para o mundo envolvente e a crise que se vive, percebemos claramente a validade desse enunciado. Do tempo de Marx até hoje e confirmando as suas teses, a situação agravou-se brutalmente. Num cálculo recente da Mitsubishi UFS Securities, a diferença entre o capital produtivo e o capital financeiro é de mais de 100 milhões de milhões de dólares. A classe capitalista parasitária está cada vez mais afastada de uma cultura produtiva. Sendo essa a situação real porque é que essas cabeças pensam que os mercados se vão acalmar? Porque são como aqueles perus que não ultrapassam o circulo que se desenhou no chão. Se a área de acção dos mercados é a da especulação financeira, sacando lucros sem nada produzirem, porque deixariam de o fazer por mais prozacs que lhe enfiem garganta abaixo. É claro que nem sequer se deixam enredar em redes que limitem ou controlem a sua voracidade. Não se pode exigir a um vampiro que se torne vegetariano. Ou esperamos que morra de exaustão depois de nos ter sugado até à morte ou antecipamo-nos, afiando uma estaca de boa e rija madeira que lhe espetamos no coração para acabar de vez com a raça. É a nossa sobrevivência que está em jogo!

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Geral

Aos Amendoins disse Nada!

O Banco de Portugal multou Jardim Gonçalves em € 1 000 000 (um milhão de euros).

Jardim Gonçalves, responsável, entre outras malfeitorias em investigação, por um buraco de 600 milhões de euros no BCP/Millenium, vai recorrer.

De facto, ser multado por um valor que é mais ou menos o do seu ordenado mensal quando era presidente do Conselho de Administração desse banco, fora outras chorudas mordomias, e que é 2,7 por cento da indemnização (27 milhões de euros) que recebeu quando foi substituído, depois de muitos anos nesse cargo, e que é 8,3 por cento da dívida ( 18 milhões de euros) que o filho tinha contraído e não pago ao BCP/Millenium quando o papá era o n.º 1 dessa instituição e que o papá galhardamente assumiu depois de várias peripécias pouco edificantes, é de franco mau gosto! Uma desconsideração inaceitável!

Um milhão de euros são uns amendoins para um banqueiro do seu gabarito!
E aos amendoins, Jardim Gonçalves, diz nada!!!

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Política

Os Novos Pobres

O que vai ser desta gente! Menos cinco por cento nos seus ordenados mensais? Como compram o caviar e o champanhe? Vão cheirar mal sem dinheiro para as fragrâncias? Os iates vão ao fundo? As férias vão ser cá dentro, nos solares familiares?

O espectro das dificuldades paira sobre os nossos gestores! Para haver uma ideia dos apertos que se advinham aí vai uma lista dos ordenados mensais, sublinhe-se mensais, actuais e futuros de alguma dessa gente.

Fernando Pinto (TAP) – agora 420.000, no futuro 399.000 (menos 21.000)

Faria de Oliveira (CGD) – 371.000/352.450 (menos 18.550)

Guilherme Costa (RTP) – 250.040/237.538 (menos 12.502)

Fernando Nogueira (Instituto dos Seguros) – 247.938/235.541,1 (menos 12.396,9)

Carlos Tavares (CMVM) – 245.552/233.324,4 (menos 12.277,6)

Victor Santos (ERSE) – 233.587/221.907,65 (menos 11 679,35)

Amado da Silva (Anacom) 224.00/212.800 (menos 11.200)

Mata da Costa (CTT) 200.200/189.200 (menos 11.000)

Guilherme Rodrigues (ANA) 133.000/126.350 (menos 6.650)

Eis a selecção dos dez primeiros, excluído o governador do Banco de Portugal, que vai a caminho do BCE. São ordenados escandalosos, sobretudo quando se sabe que os gestores portugueses, públicos e privados, ganham, em média, mais 56,5 por cento que os suecos, mais 55 por cento do que os finlandeses, mais 32 por cento que os americanos. Isto num país em que os trabalhadores, os que não estão desempregados, ganham, em média, menos 55 por cento que os seus colegas do espaço europeu. Reduzir em cinco por cento essas remunerações é simbólico. Ao simbolismo soma-se a hipocrisia, já que, no mesmo dia, PSD e CDS  se abstiveram na votação em que se cria um novo escalão no IRS para matéria colectável superior a 150.000 euros (12.500 euros/mês). A vozearia do Passos Coelho a pedir desculpa aos portugueses é a mesma do Paulo Portas a indignar-se com o aumento dos impostos. Gritam acachapados atrás do biombo que o PS ergue para tapar uma política que os une, só uns quantos pormenores os separam, e que vai sempre aos bolsos de quem trabalha para beneficiar alguns, os de agora e de antigamente.

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Política

Os ricos que paguem a crise!

O presidente da Caritas, com todo o peso moral que tem, veio, finalmente, dizer o que todos sabem, mas que se envergonham de dizer: SÃO OS QUE NÃO GERARAM A CRISE QUE A VÃO PAGAR. Vai assim, em caixa alta, para que se ouça melhor. E em caixa alta vai também o resto, que os tempos não estão para menos: OS RICOS QUE PAGUEM A CRISE (o Papa também pode dar uma ajuda, se quiser…)

Só o BES, banco liderado por Ricardo Salgado, rendeu, no primeiro trimestre deste ano, 119,1 milhões de euros, o que representa um crescimento de 17 por cento em relação a período homólogo de 2009. O que significa que a crise é palavra que, para alguns, poucos, não tem significado. Parece, pois, natural que, em períodos como o que vivemos as soluções para combater os males sejam mais democráticas, mas repartidas. Mas não.

Como sempre, e como já aqui escreveu o Manuel Araújo, o poder esquece-se de taxar aqueles que mais podem. Assim é fácil. A Sócrates e Passos Coelho aplica-se, na perfeição, o velho aforismo que diz que os poderes são sempre fortes com os fracos, e fracos com os fortes.

Já agora, este também pode ajudar e este igualmente.

Voltemos a Eugénio da Fonseca. Ele sabe do que fala. Ele e a organização a que preside conhecem bem as dificuldades por que passam muitos portugueses. Conhecem a miséria dos bairros sociais. Conhecem os efeitos devastadores que as medidas tomadas por Sócrates, cinicamente apoiado por Passos Coelho, vão ter. Medidas tanto mais incompreensíveis, ou melhor, estapafúrdias, quando tomadas num país onde o salário mínimo é o que sabe, as pensões são o que são, e onde algumas grandes empresas apresentam os lucros que todos sabemos.

Nem vale a pena, obviamente, falar daquelas que pagam chorudos bónus aos seus administradores e que, sistematicamente, nos pedem compreensão para o agravamento de custos que se reflecte, pois claro, sobre as nossas facturas mensais.

A taxação de 1,5 e 2,5 por cento no IRS e no IRC para lucros acima dos dois milhões de euros pode até ser uma medida louvável, embora afecte, sobretudo, as médias empresas. O que seria interessante seria aplicar um outro tipo de graduação das taxas para lucros como os do BES e companhia. Isso é que era…

É cada vez mais claro que as crises cíclicas do capitalismo deixaram de o ser. O capitalismo é, em si mesmo, a crise.

Obviamente, é imperativo que comecemos, todos, a tomar medidas para acabar com a crise.

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Política

O que faz falta é avisar a malta

Quando Paulo Portas propôs o corte do 13.º mês aos parlamentares, era de começar a desconfiar. Agora, quando Passos Coelho, para apoiar o pacote de medidas de austeridade que aí vem a galope, propõe um corte de cinco por cento nos ordenados dos políticos, gestores públicos, reguladores, a desconfiança consolida-se. Está-se a viver o cenário da mais desbragada demagogia para entreter o pagode, a ver se sobem mais uns pontos nas sondagens.

O Paulinho das Feiras, quando propõe retirar o 13.º mês aos parlamentares, aponta, com a clareza e certeza com que Bruce Lee dava um golpe de kung fu, para o 13.º mês dos trabalhadores, a começar pelos da função pública. Bem sabe que o 13.º mês dos parlamentares tem um peso irrelevante, tem é o valor simbólico de, junto da opinião pública mais ligeira, aparecer como o cavaleiro Ajax atacando essa corja que nada faz e arrasta os fundilhos das calças no cadeirame da Assembleia da República. A opinião pública antidemocrática que considera que  a política é a mesma m…, os políticos são todos iguais, as moscas é que mudam. Para esses, lá está o Paulo de insecticida na mão, a marcar pontos junto dessa opinião pública rasca e a dar passos largos no caminho da mais reaccionária política que só não chegará ao fascismo, porque os tempos são outros. Anda lá perto!

Passos Coelho, mais sofisticado, atira de rajada sobre políticos, gestores e reguladores. Sabe bem quanto isso é irrelevante, sobretudo para quem tem no seu programa um plano de privatizações completo, onde as empresas públicas que ainda restam, das sucessivas governações PS/PSD/CDS sozinhos ou formalmente coligados, vão todas rasas. Nenhum deles, e o PS também, está interessado numa verdadeira reforma fiscal que tribute aquilo que não contribui para o investimento, para a criação de emprego. Não falam em tributar as mais-valias, os dividendos pagos pelas empresas aos accionistas, a riqueza ou o dinheiro especulativo, nem os celebrados prémios dos gestores. Tiram estes coelhos da cartola para ganharem a simpatia de uma maioria onde vão meter as mãos nos bolsos mas que antes se deixou enganar por estas conversas que lhes dão um ar de seriedade cinematográfica e engraxam o sorriso dentífrico com que aparecem nos meios de comunicação social.

Para esta gente atingir os fins vale tudo. A demagogia é uma grande bengala, sobretudo em terra onde proliferam programas televisivos e radiofónicos, jornais e imprensa com entretenimentos dos políticos aos das socialites, cada cor seu paladar, para ocupar o tempo e alimentar a fornalha da iliteracia global que atinge um número crescente de pessoas, cada vez mais incapacitadas de possuírem e usarem as ferramentas da crítica fundamentada, que lhes permitam exercer os seus direitos de cidadania, ficando à mercê dessas traquinadas demagógicas que enrolam mesmo  pessoas supostamente mais informadas.

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Política

Cinzas vulcânicas

É conhecido o colapso islandês. Ainda há pouco tempo era um dos países mais ricos do mundo, com a fragilidade de o sistema financeiro representar uma enorme fatia da sua economia. Nada que incomodasse os gurus do mercado livre.

Antes do colapso, os economistas alinhados com os dogmas neo-liberais enchiam a boca de admiração apontando-a, e com ela a Irlanda, como exemplo de sucesso. Agora armam-se em virgens ofendidas e inventam razões várias para o descalabro, escondendo a raiz, a mãe de todos esses males, o sistema capitalista. Distribuem culpas pelo que é superficial, receitam aspirinas para curar o cancro, continuam a botar sentenças inúteis. É assim a vida dessas moscas que olham para a realidade através de espessa vidraça que nunca conseguirão ultrapassar e onde batem com contumácia.

Entretanto, os islandeses, mesmo a remar dentro e sem sair do sistema, defendem-se como podem. O primeiro passo foi recusarem pagar 3,8 mil milhões de euros que os bancos ingleses e holandeses exigiam ao Estado islandês para cobrir a dívida contraída pelo banco privado on-line Icesave, que tinha falido. A história é a mesma de sempre, é a da lógica da privatização dos lucros e da socialização dos prejuízos. Lógica aceite pelos parlamentares islandeses, tão bons como a maioria dos seus pares portugueses, que, miseravelmente, concordavam com as exigências do capital especulativo. Os protestos do povo obrigaram a um referendo em que 93,3 por cento dos islandeses se recusaram a pagar a especulação financeira. A solução encontrada foi dissociar a dívida do padrão euro e pagar pelo valor da coroa islandesa, entretanto fortemente desvalorizada. Em euros, os bancos ingleses e holandeses vão receber mais ou menos 1,5 mil milhões de euros, menos de 65 por cento do que exigiam. A técnica não é nova. Em 1933, Franklin Roosevelt desvalorizou o dólar em relação ao ouro em 78 por cento. Para evitar uma elevação proporcional da dívida dos EUA anulou a cláusula ouro, que o indexava ao pagamento dos empréstimos bancários, reduzindo do pé para a mão o seu valor nessa percentagem.

Desde 1971, os detentores estrangeiros de dólares têm sistematicamente recebido menos 30 por cento desde que os défices da balança de pagamentos dos Estados Unidos foram dissociados do ouro. Agora recebem menos de uma trigésima do que detém. Se o mundo pode aceitar isso, por que razão não vai aceitar a depreciação das dívidas de países como a Hungria, a Letónia, etc, países que entraram na CEE mas não estão na zona euro. Aliás, se seguirem o exemplo norte-americano libertam-se das duríssimas leis europeias que, por legado feudal, continuam a dar todo o poder aos credores, como a prática, baseada no direito anglo-saxónico, demonstra. Um folhetim a seguir com atenção.
Entretanto, na Islândia, um novo passo contra as negociatas. Dois ex-directores de um banco nacionalizado de urgência foram presos. Segundo a imprensa islandesa são os primeiros de uma longa lista. Fala-se em mais de 250 pessoas entre administradores bancários, ex-ministros das finanças mesmo ex-primeiros ministros responsabilizados por condutas impróprias que conduziram a Islândia à bancarrota.

Não lhes doam as mãos enquanto não resolvem o problema de fundo. E por cá? Escondidos no nevoeiro dos brandos costumes, temos um banqueiro de pulseira! O resto continua a pavonear-se impunemente pelos diversos salões dos diversos poderes botando sentenças para lixar a arraia-miúda! Até quando deixaremos?

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Para não o esquecermos

Um português que vai lá para fora ocupar um cargo importante no Banco Central Europeu, deveria ter algum impacto na alma nacional. Mas deveremos ficar sempre orgulhosos? Não me parece! A ida de Victor Constâncio para vice-governador do BE, como a de Durão Barroso presidente da CEE, em nada honram Portugal. Técnicos e políticos medíocres não podem causar frémito algum. Bem sei que a auto estima pacóvia obriga a defender os nossos, do nosso país, da nossa terra, do nosso bairro, da nossa rua, do nosso prédio. Pelo contrário, muita dessa gente só nos pode envergonhar. Constâncio enquadra-se nessa situação. Antes de marchar para a Europa fez declarações para não o esquecermos. Para não esquecermos que está na linha da frente da deriva do Partido Socialista para um neo-liberalismo escondido sob uma manta rota social, caminho traçado desde que o dr. Mário Soares meteu o socialismo na gaveta. Constâncio nunca falhou uma. Franze o sobrolho para acreditarmos que é gente séria, que é um técnico de alto gabarito e bota sentenças, umas óbvias, outras que não aquecem nem arrefecem, outras patéticas, mas todas contribuindo para o agravamento da situação económica e para o aumento das desigualdades sociais. A caminho do BCE, teve que se deslocar ao Parlamento Europeu. Na inquirição a que submeteu foi humilhado pela deputada demo-cristã luxemburguesa Astrid Lilling que, confrontando-o com os casos BCP, BPN e BPP e perante as atabalhoadas explicações, semelhantes às que tinha dado em Portugal, concluiu que o ida de VC  para o BCE era dar gasolina a um pirómano, o que provocou gargalhadas gerais dos eurodeputados.
Ainda em Lisboa, para não o esquecermos propugnou, para grande alegria da direita, que as medidas inscritas no PEC deveriam não só ser mais duras, como deveriam ser antecipadas. Nada que espante numa personagem que, há uns anos atrás, aconselhava o governo a congelar os salários, na mesma semana em que o seu ordenado, fora outras largas benesses (cartão de crédito, PPR milionário, etc), tinha sido aumentado em cinco por cento, ficando fixado no que actualmente auferia, nada mais nada menos que 249.448 euros por mês!!! Mais que o director do FED norte-americano. Ordenado que, ainda por cima, e está à vista de todos, pagava a sua incompetência! Assim vai  Portugal e algumas das suas celebridades!

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O deus dinheiro e o paraiso mercado

Pelo que se lê, ouve e vê até parece que a economia se reduz ao sobe e desce das Bolsas, aos números do crescimento económico, seja positivo ou negativo, aos números do défice, às notações das agências de rating e pouco mais. No lugar geométrico destes parâmetros está uma entidade abstracta, omnipresente que impõe a ditadura das suas leis: o mercado. Fora desse quadro parece nada existir, nada ser possível. Para manter essa ficção escrevem-se montanhas de narrativas, com os mais diversos intérpretes, que manipulam a realidade. Ainda há pouco tempo, as independentes (?) — de quê? de quem? — agências de rating davam notas máximas à banca privada, assegurando a sua óptima saúde. Tudo mentira! Os bancos tão bem cotados começaram a falir em dominó. Os Estados, mandando às malvas o tão benquisto mercado, atirando para o caixote de lixo as suas tão veneradas leis, desatam a injectar dólares, euros, libras, ienes e o que mais houvesse nos bancos privados para os salvar da falência. Era a pública exibição de quão inúteis são e de como a tão incensada e virtuosa gestão privada é uma treta. Confortados com esses dinheiros, sacados dos bolsos dos contribuintes, dos nossos bolsos, repimparam-se nos colchões de notas que lhes foram oferecidas, pararam para respirar e voltaram ao ataque. As agências de ratting que, universalmente, tinham evidenciado a sua incompetência pelo que deveriam ter ficado definitivamente descredibilizadas, com alguns dos seus técnicos e gestores na prisão por manifesta manipulação do mercado, reaparecem para cumprir o trabalho sujo. O alvo do ataque agora é o euro, atacando os países aparentemente mais frágeis. Os bancos, que ainda não pagaram o dinheiro que os salvou e foi emprestado a juros de zero por cento ou quase, sobem especulativamente os juros dos empréstimos aos países que as agências classificam mal. Um circo com objectivos evidentes! O euro tem-se fortalecido frente ao dólar e em muitas transacções internacionais já o substitui.
A conversa inicial volta à primeira linha dos noticiários para se contar a história da carochinha que é transformada num paradigma. No meio disto disto tudo as pessoas parece não existiram, a não ser que sejam ricas e famosas, apesar de terem sido esportuladas para salvar a banca que lhes agradece garrotando-as através dos governantes, sempre prontos para servir o deus dinheiro e o paraíso mercado. Dramático é esses governantes terem legitimidade conferida pelo voto das pessoas que enganaram e em enganam sem um pingo de remorso. Dramático é que de tão repetida a mentira se torna verdade para muita gente que, maioritariamente se conforma porque já perdeu capacidade de pensar, assumindo como seu o pensamento dominante.
É confrangedor que na Europa, na nossa Europa de políticos medíocres ninguém quase ninguém tenha a coragem de enfrentar esta situação correndo com esses bandos de energúmenos entricheirados nas agências de rating, desmascarando a camarilha de banqueiros que vivem especulando legalmente ( as más leis são para se mudar!). Que a cobardia instalada nem sequer os faça actuar dentro da arquitectura económica e social existente instituindo uma agência de rating da Europa Comum, com todos os defeitos seria mais credível que as existentes, claramente ao serviço do capital financeiro anglo-saxónico e do dólar, e que o Banco Central Europeu que pouco faz, excepto se for necessário ir em socorro dos privados, apoie efectivamente os países em dificuldade e alvo dos ataques especulativos. Isto é muitíssimo pouco mas é o mínimo necessário, possível no quadro do sistema. Nem isso fazem e não o fazem porque são uns miseráveis impotentes ao serviço do capital financeiro privado, lixando-se para os povos das suas pátrias. Até quando se deixará continuar esta situação em que somos vítimas desses políticos vampiros que sacam votos com falas mansas e repetidas mentiras. Basta!

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