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Livros que se devem procurar

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Agora que Maria Velho da Costa (em 2013) recebeu o prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores, reconhecendo a grande originalidade, inventiva e criatividade da escritora, rebuscámos um livro, escrito em parceria, que teve uma circulação restrita.

Trata-se do guião para uma série televisiva sobre Camilo Castelo Branco, a ser realizada por Alberto Seixas Santos, que, com “a sua habitual minúcia e exigência na pesquisa, neste caso literária e histórica”, confiou a António Cabrita e a Maria Velho da Costa o guião de “uma trilogia cinematográfica, que se desdobraria em série televisiva, que retratasse o estro, a aventura e o acinte de Camilo Castelo Branco”.

Bem português o destino desse projecto. Sem se saber bem porquê, nem sequer se filmou uma cena do livro, quando os autores decidiram recuperar o trabalho literário realizado, publicado uns anos depois pela Íman Edições, editora suicidada nas danças e contradanças que anunciavam a concentração das editoras.

Se antes já não era fácil encontrá-lo escondido nas prateleiras carregadas indiferenciadamente de obras notáveis, assim-assim e mesmo abomináveis, agora só se encontra nesses novos alfarrabistas que estão instalados nas estações de metro e comboio ou em tendas que aparecem e desaparecem país fora. Quando está presente é fácil vislumbrá-lo, virtudes da belíssima capa de José Teófilo Duarte.

Destino muito camiliano de “Inferno”, que se divide em três temas: 1-O Demónio do Ouro (focalizado na vida material); 2-Onde Está a Felicidade? (centrado na vida sentimental do escritor); 3-Noites de Insónia (a escrita e a pulsão suicida de Camilo). De forma bastante original, fundada numa poderosa escrita, “Inferno” é um fresco sobre a vida, a genialidade e os demónios de Camilo. 

(publicado no Guia de Eventos de Setúbal / Janeiro,Fevereiro) 

Procurem-no agora que, com o prémio e muito justamente, a obra de Maria Velho da Costa vai ser, assim o esperamos, mais procurada, para que esta obra, feita em parceria, não continue quase secreta.

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Um livro de vez em quando

“O carácter de um homem é o seu destino”

“O carácter de um homem é o seu destino” diz a abrir o romance Augie March citando Heráclito, depois de fazer uma auto-retrato sucinto: “ sou americano, nascido em Chicago – Chicago, aquela cidade sombria – , e encaro as coisas da maneira que aprendi a fazer sozinho, em estilo livre, Vou, portanto fazer o relato á minha maneira: o que bater primeiro, é o primeiro a entrar; ás vezes uma pancada inocente, outras nem tanto.”
Esse é o travejamento deste romance que conta aa aventuras desse jovem nascido na época da Grande Depressão, um optimista romântico que, em múltiplas andanças e aventuras se torna num cínico pessimista. Andanças e aventuras que decorrem nos Estados-Unidos, Europa e México, exercendo as mais inusitadas profissões que vão do contrato de pugilistas ao tráfico de emigrantes, do roubo de livros à organização de sindicatos, da segurança de Trotsky ao treino de águias temperamentais na caça de lagartos gigantes, vivendo os episódios mais mirabolantes.
Augie March é dotado de perspicácia natural, voracidade de conhecimento e imparável energia, que o fazem reagir aos inacreditáveis encontros e desafios que a vida lhe proporciona. Tudo isto sem considerações morais e com uma enorme capacidade de improviso. Cada pessoa é uma fonte de saber, cada encontro uma oportunidade de mudança agarrada com vitalidade.
Augie March é classificado como um romance de formação e aprendizagem, à semelhança de David Copperfield, de Charles Dickens, ou Huckeberry Finn, de Mark Twain, em que o personagem principal se cruza com inúmeros e inesquecíveis personagens secundários.
Um romance em que a vida é motor da escrita e se sobrepõe á arte.

As Aventuras de Augie March
Saul Bellow
Quetzal editores
Tradução Salvato Telles de Menezes
Revisão: João Assis Gomes
Capa Rui Rodrigues
1º edição portuguesa Setembro 2010
1ª edição original 1953
710 páginas
( publicado no Guai de Eventos de Setúbal, Dezembro 2011)

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Um Livro de vez em quando

UM MANIFESTO CONTRA A GUERRA

Entre 13 e 15 de Fevereiro de 1945, a cidade de Dresden foi brutal e desnecessariamente bombardeada pela força aérea inglesa e norte-americana. Foram largadas 4000 toneladas de bombas incendiárias. 33 quilómetros quadrados do centro da cidade foram completamente arrasados. Dresden, não era alvo militar, nem sequer tinha artilharia antiaérea para se defender. O número de mortos foi calculado em 250 mil, quase o dobro de Hiroxima.
Kurt Vonnegut, jovem soldado voluntário do exército norte-americano, estava prisioneiro dos alemães, em Dresden. Presenciou e sobreviveu aos bombardeamentos. Nos dias a seguir andou a trabalhar nas valas comuns e nas piras em que se enterravam e queimavam os cadáveres. Este episódio, um verdadeiro crime de guerra, marcou tanto Vonnegut que, sob várias formas, aparece em outros dos seus livros, sem o lugar central que tem neste.
Em 1967, volta a Dresden com um companheiro de armas e de prisão. Visita o Matadouro Cinco, a sua prisão militar, escreve este livro, Matadouro Cinco ou a Cruzada das Crianças – Uma Dança de Serviço com a Morte. É um magnífico libelo pacifista, escrito em tom irónico. Billy Pilgrim, o herói do livro, sofre de uma doença que o faz andar para trás e para a frente no tempo e no espaço, vivendo em simultâneo várias realidades que o fazem visitar um extravagante planeta, onde é exibido num zoo. As suas histórias são contadas por um desvairado escritor de livros de ficção científica que nunca ninguém leu, mas regista com minúcia os alucinados relatos de guerra de Billy Pilgrim, que são a experiência vivida por Vonnegut na II Guerra Mundial.
Matadouro Cinco é um extraordinário manifesto contra o horror e o absurdo da guerra em que os episódios hilariantes não permitem gargalhadas e a profunda amargura que o atravessa não dá espaço para lágrimas. Um livro duríssimo embalado num tom burlesco que acaba por enfatizar a violência dos episódios. Um retrato devastador do inferno da guerra, na sua ilógica e brutal insensatez.
(publicado em Leituras, no Guia de Eventos de Setúbal, Novembro 2011)

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Cultura

Um Livro de vez em quando

LIVROS QUE QUEIMAM

Ernesto Sabato foi um homem anti-mundano. Nasce em 1911, em Buenos Aires. Doutorou-se em Física. Trabalhou em radiações atómicas no Laboratório Curie até aos 34 anos. Abandona uma carreira científica de sucesso para se dedicar à filosofia e à literatura, que entendia “como uma dolorosa tentativa de chegar ao fundo do mistério, e ao comprometimento como testemunho, contra todas as formas de aniquilação”. Ate morrer, quase com cem anos, escreve inúmeros ensaios e três romances, O Túnel, Sobre Heróis e Túmulos e Abbadón, o Exterminador. Com esses três livros torna-se num dos mais importantes e influentes escritores argentinos. Em português europeu. está traduzido O Túnel. São livros que obrigam o leitor a moderar a velocidade de leitura, travado pela fascinação. Não há espaço para facilidades, enquanto vai deixando um rasto de oxidações de ouro nas células cinzentas do leitor.

O Túnel é um livro sobre o amor que promete não tranquilidade mas os perigos da intensidade da paixão que queima como ferro em brasa. Sobre a luz e as sombras que nos habitam e se vão alternando até ao impossível. Sobre a solidão e a ânsia de a ultrapassar sem que essa ultrapassagem alguma vez deixe de ser uma ilusão
Aparentemente há uma história contada na primeira pessoa, o pintor Juan Pablo Castel, que relata o crime que cometeu assassinando a mulher por quem se tinha apaixonado, Maria Iribarne, que era a única pessoa que o podia compreender: “ existiu uma pessoa que poderia entender-me, mas foi precisamente essa pessoa eu matei”. Matou-a, não suportando ter sido abandonado, o que o atira para a solidão de onde, afinal, nunca tinha saído.

O Túnel tem uma estrutura de romance policial, sem nunca o ser. Uma história que é contada sem nunca se esgotar para dar espaço ao leitor, à imaginação do leitor. Um livro raro escrito com o mesma intensidade de quem dizia: “A condição mais preciosa do criador é o fanatismo. Tem de ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se à sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante se pode fazer.”

(publicado em Leituras/Guia de Eventos de Setúbal-Outubro 2011)

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Cultura

Um livro de vez em quando

UMA SAGA DE GRANDEZAS E DECADÊNCIAS

Naguib Mahfouz é o único Prémio Nobel da Literatura egípcio. Escritor com uma obra extensa, conhecida e aplaudida em todo o mundo, escreveu a Trilogia do Cairo em que, a pretexto de contar a história de uma poderosa família da classe média, a família Gaw wad Ahmad, relata o trânsito do Egipto da ocupação britânica no pós- I Guerra Mundial, até à independência. Povoado por inúmeras personagens que vão surgindo e desaparecendo ao longo dos tês livros, Entre os Dois Palácios, O Palácio do Desejo e O Açucareiro, Mahfouz, provoca uma reflexão profunda sobre as contradições da evolução de um Egipto tradicional, colonizado, enfeudado a um islamismo em conformidade com os rigores do Alcorão . para um Egipto que se vai adaptando ao mundo moderno , um conflito, por vezes extremamente violento, entre os ideais islâmicos, os sonhos pessoais e a realidade, em que se vai forjando e conquistando a independência. O patriarca da família Ahmad, que a controlava com mão de ferro seguindo os princípios religiosos, enquanto á noite explorava os prazeres da cidade do Cairo, assiste à longa decadência da sua família e á emergência dos seus três netos que se adaptam à vida moderna e corporizam as grandes linhas políticas e sociais em confronto nesse Egipto em busca da autarcia e a atingir a idade adulta. Um é comunista, outro fundamentalismo muçulmano, ambos, com ideologias diametralmente opostas, lutam e acreditam convictamente num mundo melhor, enquanto o terceiro, o seu neto predilecto, faz carreira política sem grandes escrúpulos e na base de uma relação homossexual com um político influente.
A escrita de Naguib Mahfouz, impregnada de uma grande oralidade, constrói cenas dramáticas com uma grande densidade e retrata os personagens com extremo pormenor e um refinamento só possível nos grandes escritores.
Trilogia do Cairo é uma saga tolstoiana imperdível. Uma excelente proposta para ocupar os tempos livres das férias.
(publicado no Guia Eventos Setúbal Agosto/Setembro)

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Cultura

Um livro de vez em quando

A ESPESSURA DO PESSIMISMO

O escritor uruguaio Juan Carlos Onetti tem vindo a ganhar o reconhecimento que escritores da América Latina lhe tributam. Citem-se Cortázar “Caro Onetti, uma vez mais encontrei tudo lá, tudo o que te faz diferente e único entre nós”, Garcia Marquez “Onetti é todo ele demasiado bom e demasiado asfixiante para a América Latina”, Vargas Llosa em extenso ensaio à obra de Onetti “uma imensa alegoria da frustração que foi viver na América Latina durante a década em que esta foi palco de sucessivas ditaduras militares.”

O universo de Juan Carlos Onetti é muito singular. Decorre numa cidade mítica Santa Maria, como Macondo de Marquez ou Comala de Rulfo, lugar no mapa do realismo mágico que usa mas não abusa.
Cidade decadente, devorada pelo progresso das ruínas por onde deambulam homens e mulheres vivendo vidas que não se cumprem. Façam o que fizerem o seu caminho é um percurso de frustrações inexoráveis, sobressaltado pela visita de personagens solitárias, desesperadas, amorais.

O Estaleiro, obra-prima de rigor e delicadeza, foge a qualquer classificação. É um dos melhores exemplos do universo onetiano. Larsen retorna, cinco anos depois, à cidade de onde tinha sido expulso. Emprega-se como gerente de um estaleiro onde há muito tempo não é reparado nenhum barco. Os empregados vendem peças que estão abandonadas para ganhar o dinheiro que não obtém com salários contabilísticos. Larsen esgota-se no esforço inútil de tirar o estaleiro do caos em que está imerso, enquanto faz a corte a Angélica Inês, uma rapariga tonta filha do dono do estaleiro. Um mundo de seres que vagueiam à beira do abismo, arrastados pela torrente de um pessimismo que parece inspirado na própria vida de Onetti que, nos últimos anos da sua vida de exilado em Madrid, não saia de casa, não por qualquer problema físico, mas porque tinha em casa tudo o que lhe interessava e era essencial: a mulher, a cadela, os romances policiais de Chandler e Hammett.

( publicado em Leituras / Guia de Eventos de Setúbal Junho 2011)

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Cultura

Uma Pausa para Ler

UM LIVRO QUE ILUMINA A LITERATURA

O último livro de Gonçalo M. Tavares é um livro singular. Singular não só na história da literatura mas também na sua já extensa obra. Dividido em dez cantos, como os Lusíadas, com a aparência de um poema, não tem nenhum elemento formal que o aparentem a um poema. Também não é um romance como estamos habituados a conhecer. Uma Viagem à Índia é uma narração em verso, com uma estrutura radicalmente inovadora que prenuncia que tudo, lugares, personagens, categorias, será minado e explodido.

A colagem à arquitectura e a algumas peripécias dos Lusíadas, é explicada por Eduardo Lourenço no prefácio que considera o livro “uma navegação de alma pós-moderna (…) uma verdadeira epopeia mental”

Uma Viagem à Índia é a odisseia de um homem Bloom, referência explícita ao protagonista do Ulisses de Joyce, que foge de Lisboa, na sequência de acontecimentos trágicos, na demanda de auto-conhecimento com que quer apagar/redimir o passado. Viaja para a Índia, terra dos grandes sábios místicos. Vai passando por diversas cidades, Londres, Paris, Praga, enfrentando sucessos bons e maus, travando conhecimento com pessoas, mapeando um percurso que é sobretudo literário, pelo que a acção, personagens e lugares podem mesmo não existir enquanto entidades não ficcionais. Da partida ao regresso a Lisboa, o autor vai colocando marcos que assinalam um pessimismo histórico e cultural a aplainar o mundo para depositar uma verdade: a de que ele é igual em qualquer uma das suas sete partidas.

É um livro inusitado, surpreendente e povoado por fantasmas de homens passados e pelos fantasmas do homem contemporâneo que transportam ecos de uma infinitude de textos onde vibram séculos, numa longa e brilhante reflexão sobre a condição humana e a vida porque “A vida, meu caro, é ilegível. Acontece / e desaparece. Não há inteligência / que a descodifique: vem em linguagem-nada, / surge no corpo como surge o dia, e como / se dia e vida individual fossem materiais paralelos, / A vida não surge em prosa / nem em poesia – e a existência não fala / inglês, apesar de tudo. A natureza dos acontecimentos / resiste às invasões matreiras da publicidade e / dos filmes. Já não é mau.”

Uma Viagem à Índia
— melancolia contemporânea
(um itinerário)
Gonçalo M. Tavares
Prefácio de Eduardo Lourenço
Editorial Caminho/Leya
Capa Rui Garrido
Maquete do texto Maria João Lima
Grafismo do Itinerário Luís Maria Baptista

( publicado no Guia de Eventos de Setúbal, Janeiro 2011)

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Cultura

Ágape, Agonia

William Gaddis poucos livros escreveu. Em português, Alguém Lá Fora Parado (Chapenter’s Gothic) foi editado no Brasil e está esgotado há já algum tempo. Informação colhida na Book House- Centro Cultural Brasileiro — que raio para quê aquela entrada em inglês —  já lá vai quase um ano.

Agora a Ahab, uma pequena e recente editora que gravita fora da órbita dos grandes grupos editoriais, publicou Ágape, Agonia, um livro póstumo de Gaddis.

É um acontecimento editorial relevante que se regista com atraso de vários meses, apareceu nas estantes das livrarias em Junho, porque apesar dos vários impulsos não o deixámos ultrapassar a ordem arbitrária da nossa fogueira pessoal onde arde o imenso prazer de ler.

A Ahab divulga que brevemente irá publicar Chapenter’s Gothic. Fiquem atentos!Com este andamento e o que se anuncia o Pequod nunca naufragará e o seu capitão navegará para sempre.
Para quem ainda não leu Ágape, Agonia, aqui se deixa a primeira página que, temos a certeza, os fará correr até à livraria mais próxima.

Não mas compreendam eu tenho de explicar tudo isto porque não sei, não sabemos quanto tempo me resta e preciso de trabalhar no, de terminar este trabalho enquanto, bom trouxe para aqui esta pilha de livros apontamentos papéis recortes e sabe Deus que mais, tenho de pôr ordem nisto tudo deixar as coisas organizadas para repartir os meus bens e arrumar de vez com todas as preocupações e consumições anexas enquanto aqui estou para ser aberto e raspado e cosido e aberto novamente esta maldita perna olha para isto, toda coberta de grampos parece aquela armadura japonesa antiga da sala de jantar sinto-me como se estivesse a ser desmantelado peça a peça, apartamentos, casas de campo, estábu¬los, pomares e tantas decisões a tomar tantas distracções raios as partam tenho aqui algures neste monte de papelada os registos de propriedade as plantas as escrituras, pôr isto em ordem antes que tudo entre em colapso e seja devorado pelos advogados e pelos impostos como tudo o resto porque é disso que se trata, é disso que a minha obra trata, do colapso de tudo, do sentido, da linguagem, dos valores, da arte, para onde quer que olhemos só vemos caos e desordem, a entropia a tomar conta de tudo, tecnologia e entretenimento quando cada criança de quatro anos tem já o seu computador, cada um transformado em artista de si próprio donde é que (…)

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Cultura, Geral

No Centenário de Paul Bowles

 

foografia de Daniel Blaufuks, in "My Tangier"(Difusão Cultural)

 

Este ano comemora-se o centenário de Paul Bowles (1910-1999), músico e escritor norte-americano, viajante das sete partidas do mundo – numa das suas muitas entrevistas que explica a diferença entre turista e viajante e por que nunca seria turista: “ (…) a diferença tem a ver com o tempo. Enquanto um turista costuma voltar a correr para casa ao cabo de semanas ou meses, o viajante, que não pertence a um lugar mais que a outro, desloca-se com vagar, durante anos de uma parte da terra para outra (…) outra diferença importante entre o turista e o viajante é o turista aceitar sem reservas a sua própria civilização, mas o viajante não, compara-a com as outras e rejeita as que não lhe agradam – que, continuando a empreender longas viagens, estacionou em Tanger durante mais de cinquenta anos, com a sua mulher, a escritora Jane Auer. A sua casa tornou-se um pólo magnético para artistas de todo o lado, mas sobretudo e naturalmente norte-americanos. No hall do seu apartamento era normal empilharem-se malas de viagem de William Saroyan, Tenesse Williams, Losey, Gore Vidal, Visconti, Carson McCullers, William Burroughs, Cage, Ginsberg, Bacon, Kerouac, Dali, Orson Wells, um mundo inteiro de artistas atraídos não só pelo trânsito intelectual mas também pelo ambiente exótico de Tanger, cujo estatuto particular durante a guerra possibilitou a instalação e manutenção de um ambiente de grande permissividade sexual e uma certa liberdade no consumo de drogas.

Paul Bowles, escreveu contos, romances e novelas, da poesia abdicou a conselho de Gertrude Stein, em casa de quem nos anos 50 tinha estado em Paris, compôs música para filmes. Uma ópera sua, “The Wind Remains the Same” foi mesmo estreada em Nova Iorque com a direcção de Leonard Berstein, divulgou escritores marroquinos, fez recolhas musicais no norte de África.

É sobre este intelectual de vida intensa, iniciada ainda antes da adolescência e que se prolongou por quase noventa anos, e múltiplos interesses que é uma das personalidades fascinantes do século XX, um século de tempo escasso para tanta gente e acontecimentos marcantes, que de 21 a 23 vai decorrer em Lisboa, um colóquio multidisciplinar “Do you Bowles I”. Na Faculdade de Letras, especialistas da obra de Bowles, vindos de todo o mundo, farão comunicações, enquanto na sua biblioteca acontece uma exposição bibliográfica intitulada “Pirates at Heart”. Na Cinemateca estreia-se o filme “You Are Not I” de Sara Driver e documentários de Jean Martin Domingues e Karin Debbagh e no Museu do Oriente realiza-se um concerto com António Rosado, Anabela Duarte e Richard Horowitz.
Paul Bowles é bem conhecido em Portugal. A sua obra literária está quase toda editada, o filme de Bertolucci “O Chá no Deserto”, baseado no livro “O Céu que nos Protege” obteve bastante sucesso e, em 2007, o Centro Cultural de Belém dedicou-lhe uma semana multi-disciplinar tendo como centro dinamizador uma exposição de fotografias de Daniel Blaufuks do livro “My Tangier” com belíssimas fotos do escritor e dois textos seus inéditos, escritos expressamente para essa publicação. Continuar a ler

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Cultura, Setúbal

“O Segredo de Miguel Zuzarte” de Mário Ventura na RTP1

Mário Ventura Henriques é um nome grande da literatura portuguesa contemporânea. Grande mas frequentemente esquecido. Jornalista de profissão e autor de uma importante obra literária, iniciada com a publicação de “A Noite da Vergonha”, em 1963, Mário Ventura é detentor de um curriculum literário que se prolongou por obras tão significativas e referenciais como o romance “Vida e Morte dos Santiagos”, Prémio Pen Clube Português em 1985.

Jornalista e escritor a que, para nós, em Setúbal, se juntou a função de agente cultural, na qualidade de fundador, em 1985, do FESTROIA – Festival Internacional de Cinema de Troia, um dos mais egrégios certames cinematográficos nacionais, de que foi director até à sua morte em 2006. Alguém que juntou à sua carreira profissional e literária um percurso de resistência anti-fascista e afirmação política. O município sadino reconheceu o seu valor atribuindo-lhe, em 2001, a Medalha de Honra da Cidade.

Aqui se saúda a lembrança da RTP de produzir uma mini-série televisiva de dois episódios, a partir da adaptação de uma obra de  Mário Ventura, “O Segredo de Miguel Zuzarte”, dada à estampa em 1999. A série, da responsabilidade da produtora HOP,  é exibida na RTP1 nos dias 9 e 10 de Outubro. A adaptação integra-se no espírito das comemorações do centenário da República.

Tal como parte significativa das obras do lisboeta M.Ventura, a história passa-se no Alentejo, por ocasião da implantação da república. Centra-se na figura de um jovem telegrafista monárquico que, tendo recebido a notícia da vitória republicana, corta a ligação (o telégrafo) da aldeia ao mundo.

Quatro anos após a sua morte, é bom (re)ver Mário Ventura na televisão portuguesa!

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Cultura, Geral

VARGAS LLOSA, Nobel Literatura 2010

Os prémios têm a particularidade de fazer justiça, cometendo injustiças. Vargas Llosa, foi este ano distinguido com o prémio de maior notoriedade mundial, o Prémio Nobel da Literatura.

Justíssima decisão que tardava e que deixa de fora uma plêiade de escritores que mereceriam igualmente receber o Prémio. Quer dizer, o justiçado do ano de 2010 foi durante anos injustiçado e sendo-lhe atribuído o prémio foram vários os escritores injustiçados. Alguns deles, como muito outros antes deles, morrerão sem serem contemplados ficando sempre sentados no átrio dos pretendentes. É esse, será sempre esse, o pecado original dos prémios. Há que sublinhar que o laureado de 2010 é indiscutível, o que nem sempre acontece.

Vargas Llosa é um escritor que, quando publicou o seu primeiro livro, logo se distinguiu de uma corrente que era dominante nas Américas Latinas, o realismo mágico que, de Alejo Carpentier a Jorge Luís Borges deslumbrava meio mundo, apesar e contra as enormes distâncias e diferenças entre eles.

Os três primeiros livros que foram editados em Portugal, Conversa na Catedral, Pantaleão e as Visitadoras, A Cidade e os Cães, revelavam um realismo puro e duro moldado numa escrita poderosa. Apesar de ir contra corrente, por cá a hostilidade a toda e qualquer literatura que se aparentasse mal ou bem com o neo-realismo estava na ordem do dia, Vargas Llosa impôs-se rapidamente vendo os seus livros, depois de publicados na língua original, serem quase imediatamente editados por cá. Há que abrir um parêntese para sublinhar a importância da clarividência dos editores, no caso de Nelson de Matos, com longa trajectória na edição.

Nem todos os livros de Vargas Llosa figurarão na gigantesca mesa-de-cabeceira que habita as nossas cabeças, mas livros como a já referida Conversa na Catedral, A Guerra do Fim do Mundo, A Tia Júlia e o Escrevedor, A Festa do Chibo, devem aí ter lugar de destaque.

Politicamente Mário Vargas Llosa, que tão feroz e nuamente descreve as ditaduras de direita nas Américas, começou a flutuar por um esquerdismo que desembocou num liberalismo normalizado que o atira para a defesa de intervenções e posições políticas de direita que são repetidamente desmentidas e vituperadas nas tramas dos seus romances. Mistérios da mente humana que seriam menos misteriosos se a sua inegável e rara qualidade de escrita plasmasse a ideologia que resguarda, o que não colocaria em causa a sua notável obra literária.

Mário Vargas Llosa não é um desconhecido dos leitores portugueses. O Prémio Nobel é um incentivo para que o continuem a ler, deslumbrando-se com a sua escrita, com o enredo romanesco. Em nossa opinião, podem dispensar, com vantagem, ensaios, escritos políticos e coisas aparentadas, ganhando tempo para ler os seus romances.

ADENDA: em Maio de 2007, no Guia de Eventos de Setúbal, uma nota de leitura sobre o livro de Vargas Llosa, Travessuras da Menina Má

QUAL O VERDADEIRO ROSTO DO AMOR? (*)

Um livro de sucessivos encontros/desencontros entre um jovem peruano, Ricardo, que consegue rapidamente alcançar o que sempre quis, viver em Paris, não sem antes se ter apaixonado por uma jovem, supostamente chilena, que lhe entra pela vida como um cometa, deixando um lastro de luz que nem as suas súbitas e constantes desaparições apaga.

A vida de Ricardo fica como que suspensa dos encontros que tem por acaso ou que provoca com a Menina Má nos palcos em que ela está a representar as personagens, as aventuras que corporizam as suas ambições. Instala-se o amor como uma doença em Ricardo. Nada o cura. Nem o pragmatismo cruel da Menina Má fugindo para ir viver algures uma nova sorte. Nem mesmo as mentiras que logo despistam frágeis confianças a despontar. A Menina Má sabe que ele também sabe que estará sempre pronto para a receber com uma enternecedora “piroseira” amorosa.

Um amor de rostos múltiplos, da comédia à tragédia, que escapa a qualquer definição, é contado com maestria por Vargas Llosa que, como sempre, mergulha na realidade para ficcionar uma história na margem da perfeição.

(*) Antetítulo do livro

TRAVESSURAS DA MENINA MÁ / Mário Vargas Llosa

Editora: Dom Quixote / Tradução: J.Teixeira de Aguilar

Revisão do Texto: João Pedro George

Capa: Atelier Henrique Cayatte

376 páginas

1ª edição portuguesa: Setembro 2006



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Cultura

Ferreira Gullar / Camões 2010

(…) meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
ao lado de uma padaria
sob o signo de Virgo
sob as balas do 24º BC
na revolução de 30
e desde então segue pulsando como um relógio

num tic tac que não se ouve
(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)

tic tac tic tac
enquanto vou entre automóveis e ônibus

entre vitrinas de roupas

nas livrarias

nos bares

tic tac tic tac

pulsando há 45 anos

esse coração oculto

pulsando no meio da noite, da neve, da chuva

debaixo da capa, do paletó, da camisa

debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe  operária

meu coração de menino

Escreve Ferreira Gullar em Poema Sujo, o seu livro mais conhecido, escrito em 1975, no exílio em Buenos Aires, publicado em 1976, e considerado por Vinicius de Moraes “o mais importante poema escrito, em qualquer língua, nas últimas décadas.”

Aos 21 anos obteve o seu primeiro prémio num concurso de poesia do Jornal de Letras e parte da sua terra natal, São Luis de Maranhão, para o Rio Janeiro onde participa no movimento da poesia concreta, em que é figura central e com quem rompe passados meia dúzia de anos para liderar os neoconcretistas, cujo manifesto redigiu e que é um célebre ensaio: A Teoria do Não-Objecto.

Abandonará também esse grupo motivado pela urgência moral de apontar a sua poesia aos temas da injustiça social, da opressão política. Na mesma linha escreve várias peças de teatro em parceria com vários autores. No entanto, nunca abandonará os temas líricos e existenciais. A sua linguagem reelabora-se constantemente explorando os caminhos poéticos.

Paralelamente desenvolve uma importante obra ensaística sobre literatura, artes visuais e estética. Argumentação contra a Morte da Arte, questionando a validade do vanguardismo pós-moderno, Indagações de Hoje, sobre literatura, Relâmpagos, sobre pintores e escultores, são importantes contributos para a compreensão das artes.
Aos 80 anos, como noticia o Público, é-lhe atribuído, com toda a justiça, o Prémio Camões.

Em Portugal, a editora Quasi editou em 2003 , Ferreira Gullar/ Obra Poética, onde, em meio milhar de páginas, se pode ler o que é fundamental na sua obra poética

Prometi-me possuí-la muito embora

ela me redimisse ou cegasse.
Busquei-a na catástrofe da aurora,
e na fonte e no muro onde sua face,

entre a alucinação e a paz sonora
da água e do musgo, solitária nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se me temesse ou me odiasse.

Assim persigo-a, lúcido e demente.

Se por detrás da tarde transparente

seus pés vislumbro, logo nos desvãos

das nuvens fogem, luminosos e ágeis!
Vocabulário e corpo – deuses frágeis –

eu colho a ausência que me queima as mãos

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