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Livros que se devem procurar

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Agora que Maria Velho da Costa (em 2013) recebeu o prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores, reconhecendo a grande originalidade, inventiva e criatividade da escritora, rebuscámos um livro, escrito em parceria, que teve uma circulação restrita.

Trata-se do guião para uma série televisiva sobre Camilo Castelo Branco, a ser realizada por Alberto Seixas Santos, que, com “a sua habitual minúcia e exigência na pesquisa, neste caso literária e histórica”, confiou a António Cabrita e a Maria Velho da Costa o guião de “uma trilogia cinematográfica, que se desdobraria em série televisiva, que retratasse o estro, a aventura e o acinte de Camilo Castelo Branco”.

Bem português o destino desse projecto. Sem se saber bem porquê, nem sequer se filmou uma cena do livro, quando os autores decidiram recuperar o trabalho literário realizado, publicado uns anos depois pela Íman Edições, editora suicidada nas danças e contradanças que anunciavam a concentração das editoras.

Se antes já não era fácil encontrá-lo escondido nas prateleiras carregadas indiferenciadamente de obras notáveis, assim-assim e mesmo abomináveis, agora só se encontra nesses novos alfarrabistas que estão instalados nas estações de metro e comboio ou em tendas que aparecem e desaparecem país fora. Quando está presente é fácil vislumbrá-lo, virtudes da belíssima capa de José Teófilo Duarte.

Destino muito camiliano de “Inferno”, que se divide em três temas: 1-O Demónio do Ouro (focalizado na vida material); 2-Onde Está a Felicidade? (centrado na vida sentimental do escritor); 3-Noites de Insónia (a escrita e a pulsão suicida de Camilo). De forma bastante original, fundada numa poderosa escrita, “Inferno” é um fresco sobre a vida, a genialidade e os demónios de Camilo. 

(publicado no Guia de Eventos de Setúbal / Janeiro,Fevereiro) 

Procurem-no agora que, com o prémio e muito justamente, a obra de Maria Velho da Costa vai ser, assim o esperamos, mais procurada, para que esta obra, feita em parceria, não continue quase secreta.

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Um livro de vez em quando

“O carácter de um homem é o seu destino”

“O carácter de um homem é o seu destino” diz a abrir o romance Augie March citando Heráclito, depois de fazer uma auto-retrato sucinto: “ sou americano, nascido em Chicago – Chicago, aquela cidade sombria – , e encaro as coisas da maneira que aprendi a fazer sozinho, em estilo livre, Vou, portanto fazer o relato á minha maneira: o que bater primeiro, é o primeiro a entrar; ás vezes uma pancada inocente, outras nem tanto.”
Esse é o travejamento deste romance que conta aa aventuras desse jovem nascido na época da Grande Depressão, um optimista romântico que, em múltiplas andanças e aventuras se torna num cínico pessimista. Andanças e aventuras que decorrem nos Estados-Unidos, Europa e México, exercendo as mais inusitadas profissões que vão do contrato de pugilistas ao tráfico de emigrantes, do roubo de livros à organização de sindicatos, da segurança de Trotsky ao treino de águias temperamentais na caça de lagartos gigantes, vivendo os episódios mais mirabolantes.
Augie March é dotado de perspicácia natural, voracidade de conhecimento e imparável energia, que o fazem reagir aos inacreditáveis encontros e desafios que a vida lhe proporciona. Tudo isto sem considerações morais e com uma enorme capacidade de improviso. Cada pessoa é uma fonte de saber, cada encontro uma oportunidade de mudança agarrada com vitalidade.
Augie March é classificado como um romance de formação e aprendizagem, à semelhança de David Copperfield, de Charles Dickens, ou Huckeberry Finn, de Mark Twain, em que o personagem principal se cruza com inúmeros e inesquecíveis personagens secundários.
Um romance em que a vida é motor da escrita e se sobrepõe á arte.

As Aventuras de Augie March
Saul Bellow
Quetzal editores
Tradução Salvato Telles de Menezes
Revisão: João Assis Gomes
Capa Rui Rodrigues
1º edição portuguesa Setembro 2010
1ª edição original 1953
710 páginas
( publicado no Guai de Eventos de Setúbal, Dezembro 2011)

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Um Livro de vez em quando

UM MANIFESTO CONTRA A GUERRA

Entre 13 e 15 de Fevereiro de 1945, a cidade de Dresden foi brutal e desnecessariamente bombardeada pela força aérea inglesa e norte-americana. Foram largadas 4000 toneladas de bombas incendiárias. 33 quilómetros quadrados do centro da cidade foram completamente arrasados. Dresden, não era alvo militar, nem sequer tinha artilharia antiaérea para se defender. O número de mortos foi calculado em 250 mil, quase o dobro de Hiroxima.
Kurt Vonnegut, jovem soldado voluntário do exército norte-americano, estava prisioneiro dos alemães, em Dresden. Presenciou e sobreviveu aos bombardeamentos. Nos dias a seguir andou a trabalhar nas valas comuns e nas piras em que se enterravam e queimavam os cadáveres. Este episódio, um verdadeiro crime de guerra, marcou tanto Vonnegut que, sob várias formas, aparece em outros dos seus livros, sem o lugar central que tem neste.
Em 1967, volta a Dresden com um companheiro de armas e de prisão. Visita o Matadouro Cinco, a sua prisão militar, escreve este livro, Matadouro Cinco ou a Cruzada das Crianças – Uma Dança de Serviço com a Morte. É um magnífico libelo pacifista, escrito em tom irónico. Billy Pilgrim, o herói do livro, sofre de uma doença que o faz andar para trás e para a frente no tempo e no espaço, vivendo em simultâneo várias realidades que o fazem visitar um extravagante planeta, onde é exibido num zoo. As suas histórias são contadas por um desvairado escritor de livros de ficção científica que nunca ninguém leu, mas regista com minúcia os alucinados relatos de guerra de Billy Pilgrim, que são a experiência vivida por Vonnegut na II Guerra Mundial.
Matadouro Cinco é um extraordinário manifesto contra o horror e o absurdo da guerra em que os episódios hilariantes não permitem gargalhadas e a profunda amargura que o atravessa não dá espaço para lágrimas. Um livro duríssimo embalado num tom burlesco que acaba por enfatizar a violência dos episódios. Um retrato devastador do inferno da guerra, na sua ilógica e brutal insensatez.
(publicado em Leituras, no Guia de Eventos de Setúbal, Novembro 2011)

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Um Livro de vez em quando

LIVROS QUE QUEIMAM

Ernesto Sabato foi um homem anti-mundano. Nasce em 1911, em Buenos Aires. Doutorou-se em Física. Trabalhou em radiações atómicas no Laboratório Curie até aos 34 anos. Abandona uma carreira científica de sucesso para se dedicar à filosofia e à literatura, que entendia “como uma dolorosa tentativa de chegar ao fundo do mistério, e ao comprometimento como testemunho, contra todas as formas de aniquilação”. Ate morrer, quase com cem anos, escreve inúmeros ensaios e três romances, O Túnel, Sobre Heróis e Túmulos e Abbadón, o Exterminador. Com esses três livros torna-se num dos mais importantes e influentes escritores argentinos. Em português europeu. está traduzido O Túnel. São livros que obrigam o leitor a moderar a velocidade de leitura, travado pela fascinação. Não há espaço para facilidades, enquanto vai deixando um rasto de oxidações de ouro nas células cinzentas do leitor.

O Túnel é um livro sobre o amor que promete não tranquilidade mas os perigos da intensidade da paixão que queima como ferro em brasa. Sobre a luz e as sombras que nos habitam e se vão alternando até ao impossível. Sobre a solidão e a ânsia de a ultrapassar sem que essa ultrapassagem alguma vez deixe de ser uma ilusão
Aparentemente há uma história contada na primeira pessoa, o pintor Juan Pablo Castel, que relata o crime que cometeu assassinando a mulher por quem se tinha apaixonado, Maria Iribarne, que era a única pessoa que o podia compreender: “ existiu uma pessoa que poderia entender-me, mas foi precisamente essa pessoa eu matei”. Matou-a, não suportando ter sido abandonado, o que o atira para a solidão de onde, afinal, nunca tinha saído.

O Túnel tem uma estrutura de romance policial, sem nunca o ser. Uma história que é contada sem nunca se esgotar para dar espaço ao leitor, à imaginação do leitor. Um livro raro escrito com o mesma intensidade de quem dizia: “A condição mais preciosa do criador é o fanatismo. Tem de ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se à sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante se pode fazer.”

(publicado em Leituras/Guia de Eventos de Setúbal-Outubro 2011)

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Cultura

Um livro de vez em quando

UMA SAGA DE GRANDEZAS E DECADÊNCIAS

Naguib Mahfouz é o único Prémio Nobel da Literatura egípcio. Escritor com uma obra extensa, conhecida e aplaudida em todo o mundo, escreveu a Trilogia do Cairo em que, a pretexto de contar a história de uma poderosa família da classe média, a família Gaw wad Ahmad, relata o trânsito do Egipto da ocupação britânica no pós- I Guerra Mundial, até à independência. Povoado por inúmeras personagens que vão surgindo e desaparecendo ao longo dos tês livros, Entre os Dois Palácios, O Palácio do Desejo e O Açucareiro, Mahfouz, provoca uma reflexão profunda sobre as contradições da evolução de um Egipto tradicional, colonizado, enfeudado a um islamismo em conformidade com os rigores do Alcorão . para um Egipto que se vai adaptando ao mundo moderno , um conflito, por vezes extremamente violento, entre os ideais islâmicos, os sonhos pessoais e a realidade, em que se vai forjando e conquistando a independência. O patriarca da família Ahmad, que a controlava com mão de ferro seguindo os princípios religiosos, enquanto á noite explorava os prazeres da cidade do Cairo, assiste à longa decadência da sua família e á emergência dos seus três netos que se adaptam à vida moderna e corporizam as grandes linhas políticas e sociais em confronto nesse Egipto em busca da autarcia e a atingir a idade adulta. Um é comunista, outro fundamentalismo muçulmano, ambos, com ideologias diametralmente opostas, lutam e acreditam convictamente num mundo melhor, enquanto o terceiro, o seu neto predilecto, faz carreira política sem grandes escrúpulos e na base de uma relação homossexual com um político influente.
A escrita de Naguib Mahfouz, impregnada de uma grande oralidade, constrói cenas dramáticas com uma grande densidade e retrata os personagens com extremo pormenor e um refinamento só possível nos grandes escritores.
Trilogia do Cairo é uma saga tolstoiana imperdível. Uma excelente proposta para ocupar os tempos livres das férias.
(publicado no Guia Eventos Setúbal Agosto/Setembro)

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Cultura

Um livro de vez em quando

A ESPESSURA DO PESSIMISMO

O escritor uruguaio Juan Carlos Onetti tem vindo a ganhar o reconhecimento que escritores da América Latina lhe tributam. Citem-se Cortázar “Caro Onetti, uma vez mais encontrei tudo lá, tudo o que te faz diferente e único entre nós”, Garcia Marquez “Onetti é todo ele demasiado bom e demasiado asfixiante para a América Latina”, Vargas Llosa em extenso ensaio à obra de Onetti “uma imensa alegoria da frustração que foi viver na América Latina durante a década em que esta foi palco de sucessivas ditaduras militares.”

O universo de Juan Carlos Onetti é muito singular. Decorre numa cidade mítica Santa Maria, como Macondo de Marquez ou Comala de Rulfo, lugar no mapa do realismo mágico que usa mas não abusa.
Cidade decadente, devorada pelo progresso das ruínas por onde deambulam homens e mulheres vivendo vidas que não se cumprem. Façam o que fizerem o seu caminho é um percurso de frustrações inexoráveis, sobressaltado pela visita de personagens solitárias, desesperadas, amorais.

O Estaleiro, obra-prima de rigor e delicadeza, foge a qualquer classificação. É um dos melhores exemplos do universo onetiano. Larsen retorna, cinco anos depois, à cidade de onde tinha sido expulso. Emprega-se como gerente de um estaleiro onde há muito tempo não é reparado nenhum barco. Os empregados vendem peças que estão abandonadas para ganhar o dinheiro que não obtém com salários contabilísticos. Larsen esgota-se no esforço inútil de tirar o estaleiro do caos em que está imerso, enquanto faz a corte a Angélica Inês, uma rapariga tonta filha do dono do estaleiro. Um mundo de seres que vagueiam à beira do abismo, arrastados pela torrente de um pessimismo que parece inspirado na própria vida de Onetti que, nos últimos anos da sua vida de exilado em Madrid, não saia de casa, não por qualquer problema físico, mas porque tinha em casa tudo o que lhe interessava e era essencial: a mulher, a cadela, os romances policiais de Chandler e Hammett.

( publicado em Leituras / Guia de Eventos de Setúbal Junho 2011)

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Uma Pausa para Ler

UM LIVRO QUE ILUMINA A LITERATURA

O último livro de Gonçalo M. Tavares é um livro singular. Singular não só na história da literatura mas também na sua já extensa obra. Dividido em dez cantos, como os Lusíadas, com a aparência de um poema, não tem nenhum elemento formal que o aparentem a um poema. Também não é um romance como estamos habituados a conhecer. Uma Viagem à Índia é uma narração em verso, com uma estrutura radicalmente inovadora que prenuncia que tudo, lugares, personagens, categorias, será minado e explodido.

A colagem à arquitectura e a algumas peripécias dos Lusíadas, é explicada por Eduardo Lourenço no prefácio que considera o livro “uma navegação de alma pós-moderna (…) uma verdadeira epopeia mental”

Uma Viagem à Índia é a odisseia de um homem Bloom, referência explícita ao protagonista do Ulisses de Joyce, que foge de Lisboa, na sequência de acontecimentos trágicos, na demanda de auto-conhecimento com que quer apagar/redimir o passado. Viaja para a Índia, terra dos grandes sábios místicos. Vai passando por diversas cidades, Londres, Paris, Praga, enfrentando sucessos bons e maus, travando conhecimento com pessoas, mapeando um percurso que é sobretudo literário, pelo que a acção, personagens e lugares podem mesmo não existir enquanto entidades não ficcionais. Da partida ao regresso a Lisboa, o autor vai colocando marcos que assinalam um pessimismo histórico e cultural a aplainar o mundo para depositar uma verdade: a de que ele é igual em qualquer uma das suas sete partidas.

É um livro inusitado, surpreendente e povoado por fantasmas de homens passados e pelos fantasmas do homem contemporâneo que transportam ecos de uma infinitude de textos onde vibram séculos, numa longa e brilhante reflexão sobre a condição humana e a vida porque “A vida, meu caro, é ilegível. Acontece / e desaparece. Não há inteligência / que a descodifique: vem em linguagem-nada, / surge no corpo como surge o dia, e como / se dia e vida individual fossem materiais paralelos, / A vida não surge em prosa / nem em poesia – e a existência não fala / inglês, apesar de tudo. A natureza dos acontecimentos / resiste às invasões matreiras da publicidade e / dos filmes. Já não é mau.”

Uma Viagem à Índia
— melancolia contemporânea
(um itinerário)
Gonçalo M. Tavares
Prefácio de Eduardo Lourenço
Editorial Caminho/Leya
Capa Rui Garrido
Maquete do texto Maria João Lima
Grafismo do Itinerário Luís Maria Baptista

( publicado no Guia de Eventos de Setúbal, Janeiro 2011)

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