Geral

Maidan,A Praça. A verdade e a Mentira do Cinema

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Maidan, o documentário que abriu a Doc Lisboa é filme exemplar dos processos de manipulação emotiva, com a enorme mistificação de se apresentar como uma recusa de interpretação dos acontecimentos que decorreram entre Dezembro de 2013 a Fevereiro de 2014, em Kiev.

Todo o filme é construído sobre a ideia pré-concebida pelo realizador, que escolhe as imagens, faz a montagem, organiza a banda sonora, para descaracterizar o que politicamente estava no terreno, construindo uma narrativa em que tudo aparece como natural, espontâneo, quase ingénuo. As imagens, a montagem, a banda sonora sublinham a solidariedade entre os manifestantes e o fundo patriótico do protesto.

As cenas das movimentações de massas, em clamor pacífico ou enfrentando a polícia, são intercaladas com planos de um canhão de água, do fumo dos gases lacrimogéneos, das chamas, dos confrontos físicos. Dramatização cuidada para passar a mensagem que era o povo ucraniano que, de forma aberta, fazia a revolução. Sergei Loznitsa tem a precaução de não filmar outras bandeiras e tarjas de propaganda que não sejam as bandeiras nacionais, as palavras de ordem contra a corrupção. Nem um símbolo nazi, nem os grupos armados dos pró-nazis. Nem uma imagem dessa gente que foi objecto de várias reportagens de jornalistas insuspeitos de qualquer conotação ou simpatia com a Rússia. Isso para Sergei Loznitsa são “produtos da propaganda estatal russa, que infelizmente é muitas vezes traduzida e disseminada pelos media ocidentais”. Não deixa qualquer fissura de dúvida sobre o seu código ético. A única verdade é a dele que não é dele mas das centrais de propaganda ocidentais. Faz isso com a candura de quem mente descaradamente para tornar a mentira mais autêntica. Faz isso com talento cinematográfico, em Maidan.

Na entrevista ao I, que temos vindo a citar, foge às críticas que lhe fazem por dar uma imagem parcial, deformada, pouco abrangente dos acontecimentos em Kiev: “eu não sou jornalista nem uma agência de notícias, cujo trabalho é passar essa imagem abrangente. O que faço é cinema, que tem funções diferentes”. Isso todos nós sabemos. No cinema há múltiplos exemplos de filmes que não se mascaram com a neutralidade ideológica “de estar acima das questões da política”, que são abertamente de propaganda e são obras-primas. Aliás, ele próprio afirma que “tudo o que faço nos meus filmes é intencional. Não pode haver acidentes. Fi-lo porque quis dar aos espectadores a hipótese de experienciarem a atmosfera dos eventos e tirarem as suas próprias conclusões”. Uma afirmação sem nenhuma seriedade intelectual. Em duas frases contradiz-se, desmente-se sem pudor. Ao ler o resto da entrevista a intencionalidade que diz existir no seu filme é transparente. Não é uma agência de notícias, nem é um jornalista, mas faz rufar alto e bom som os tambores da propaganda ocidental mais radical. Depois, filma em conformidade. Assistimos a uma admirável demonstração do que Georges Orwell disse: ”para sermos corrompidos pelo totalitarismo, não temos de viver num país totalitário” Sergei Loznitsa, que se diz democrata, está corrompido pelo totalitarismo do pensamento único dominante. Pelos interesses imediatos do império que quer impor uma ordem unipolar.

No filme as massas, os manifestantes estão despolitizados. Lutam patrióticamente pela alteração do seu próprio destino. Contra a corrupção, e o despotismo. Um idealismo em estado puro que todos sabemos, menos Sergei Loznitsa, ter sido suportado por um investimento de cinco mil «milhões de dólares como Victoria “Que se Foda a Europa” Nuland, disse com todas as letras.

Consegue os seus objectivos. O filme inicia-se com os manifestantes a cantar o hino nacional, a banda sonora é soberba, dando início a uma festiva movimentação de massas populares. Um vai e vem contínuo, Manifestantes entram e saem de escolas, das tendas. Os voluntários distribuem comida e bebida. Médicos e enfermeiros cuidam dos feridos. Discursos e poemas são ditos por gente anónima, Loznitsa tem o cuidado de apagar os lideres, O súbito som de “Ciao Vitya Ciao”, com a base na canção revolucionária italiana “Bella Ciao”, é um momento cinematográfico quase exemplar, como é exemplar o plano da camera estática a filmar a zona das conferências de imprensa, que de repente foge à nuvem de gás lacrimogéneo. Ou a marcha dos manifestantes para o parlamento, que se inicia com a visão longínqua de fumo negro, a enquadrar uma série de pequenos detalhes que dão uma sensação de urgência. Todo o filme é construído para nos transmitir as emoções daqueles meses, manipulando o enorme poder das imagens. Quase se acredita que Sergei Loznitsa quis reflectir sobre “ a insurreição popular, enquanto fenómeno social, cultural e filosófico” Utiliza esse caldo de cultura para fazer um filme de propaganda de um suposto levantamento popular espontâneo A CEE, os EUA, os seus títeres ucranianos encontraram a sua Leni Riefensthal doblez, com muito menos talento, mas bastante saber cinematográfico.

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(publicado no Jornal Avante!, em 30/10/2014)

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Cultura

Lauren Bacall, Morreu uma Estrela

Laureen Bacall

Com quase noventa anos, morreu Lauren Bacall, uma das mais extraordinárias actrizes de Holywwod. Uma voz grave com uma entoação inesquecível, um olhar que não deixava nada indiferente, mesmo nada fosse vivo, morto ou inerte. No imaginário do cinema, na sua mitologia, conta-se que Howard Hawks, já interessado por aquela rapariga de 19 anos que aparecia numa fotografia da Harper’s Bazar, ficou paralisado de surpresa quando, num “casting”, a rapariga saltou da fotografia para o palco e disse “Hello, how are you”. Começava uma carreira impar até pela intransigência com que escolhia os pápeis que lhe queriam atribuir. Por isso a produtora cinematográfica que a tinha contratado suspendeu-a uma dúzia de vezes

Célebre ficou a cena do seu primeiro filme “Ter ou não Ter” em que contracena com Humptrey Bogart e lhe diz, como só ela saberia dizer “ quando me quiseres chamar, assobia”.

Ensina-lhe a assobiar, ensina-o a fumar, era e foi até ao fim da vida uma fumadora inveterada, ensina-lhe  algumas coisas mais que acabaram em casamento. Tornaram-se num dos casais marcantes em Holywood, época do maccartismo e código Hayes, pela sua excelência como actores, pela sua postura política pela sua intransigência com as faltas de carácter.

Conhecia-a, já com setenta anos, num almoço promovido pelo Festroia e pela Câmara de Grândola, quando o Festroia trazia a Portugal um Robert Mitchum que era um bom companheiro, um Denis Hooper tão frenético ao vivo como na tela, um Almodovar excelente e imparável conversador. Lauren Bacall continuava uma bela mulher a quem os anos traziam encantos que substituam e se acrescentavam aos encantos anteriores. Era extraordinário como mantinha as distâncias exercendo uma sedução extrema.

Alguns episódios marcaram essa sua vinda a Portugal. No referido almoço, apreciando o belíssimo tinto alentejano que se bebia, logo encomendou dez caixas mostrando como continuava atenta aos prazeres da vida. Contaram-me, dou como verdadeiro, que quando descerraram placa que assinalava a sua presença no Festival, indignou-se e recusou que ela ficasse exposta se o seu nome não tivesse letras maiores ou iguais aos nomes de outros actores bem menores que ela, apontava com acinte para Jane Russell. Foram fazer nova placa rapidamente, a tempo antes de ela se ir embora. Não era um exigência de uma estrela snob. Era uma exigência justa de uma actriz que sabia o seu valor.

Assim era e foi Lauren Bacall, do príncipio até ao fim da vida. Uma estrela de cinema por mérito próprio que fazia parte do “star-system” mantendo-se fora dele, uma democrata até à medula, uma mulher por inteiro que não convivia com a mediocridade.

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Costumes, Cultura

O drama, a tragédia, o horror!

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Se fosse um trailer de um filme de guerra, um qualquer Rambo ou Chuck Noris, chegaria a haver notícia? 

Qual a razão para se aceitar como normais, naturais e moralmente sem censura cenas de extrema violência, de morte, de miséria e se reprovar e censurar a nudez e o sexo?

Que sociedade é esta que banaliza a violência e constrói tabus em relação ao corpo e à sexualidade?

Neste caso, as puritanas mentes norte americanas lá trataram do assunto com bilhetes grátis e o despedimento do pecaminoso funcionário que, por erro, passou o trailer que não devia.

E as crianças, em dois minutos, terão desfeito o mito das cegonhas pondo irremediavelmente em causa um dos pilares fundamentais da sociedade ocidental!

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Cultura, economia

Cinemas: para onde foi o público?

Cinema-Paradiso.jpg netO encerramento de 49 salas da Socorama/Castello-Lopes e a diminuição do número de espectadores de cinema (*) traduzem um menor gosto pela sétima arte ou uma mudança de hábitos no acesso aos conteúdos estimulada pelo clima de crise? Alguns estão atentos e continuam a facturar…

De há anos que se percebeu que o tradicional público de cinema tem vindo a ser canibalizado pelos novos suportes de informação, nomeadamente pelos canais de tv cabo e pela internet. A tendência acentua-se com a fortíssima diminuição de rendimentos das famílias.

O encerramento de salas de espectáculo – e, neste caso, de cinema – é algo de muito negativo para as terras que as vêem fechar as portas. Perdem-se espaços colectivos, logo sítios de convívio e de inter-acção. Os habitantes das cidades agora afectadas irão ter menos opções culturais e ficarão mais condicionados aos espaços comerciais. É mais um passo num processo de mediatização das relações entre as pessoas que já matou, por exemplo, as tertúlias dos cafés.

Curiosamente, ou não, o maior exibidor nacional de cinema, a ZON Lusomundo Cinemas (39 % dos ecrãs e 56% da receita de cinema do país em 2011) tem como “irmão” o maior distribuidor de cinema, a ZON Lusomundo Audiovisuais (44% dos filmes estreados e 52% dos espectadores em sala no mesmo ano).

Junte-se-lhes o outro “irmão”, o operador ZON de tv cabo, com cerca de um milhão e duzentos mil clientes e que explora diversos canais de cinema, e conclua-se pela posição determinante que o universo ZON ocupa na gestão do assunto cinema em Portugal.

Para adensar o ambiente, refira-se que a ZON tem vindo a negociar a sua fusão com a Optimus, do universo Sonae, que inclui a Sonae Sierra, proprietária dos centros comerciais onde a Castello-Lopes encerra agora os seus cinemas…

Se a isto não se chama concentração…

A magia do cinema, essa continuará. E as receitas do seu público continuarão a fluir – se não das salas, do cabo…

(*) Espectadores de cinema em Portugal: 2009 – 15,7 milhões; 2010 – 16,6 milhões; 2011 – 15,7 milhões; 2012 (estimativa) – 13,7 milhões. Dados do Anuário Estatístico do Instituto de Cinema e Audiovisuais 2011 (anos 2009 a 2011). Sobre este tema pode ler uma apreciação reportada a 2009

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Cultura, Geral

Um olhar pessimista sobre o mundo

Theo Angelopoulos antes de se tornar realizador de cinema, deambulou pelo curso de Direito a que se seguiu Literatura para, finalmente,  se envolver com o cinema, iniciando, em Paris os seus estudos. Não foi um percurso pacífico mas, apesar de ter entrado em conflito com os professores, acabou por o concluir com quase trinta anos. Regressou à Grécia onde começa a trabalhar como crítico de cinema, num jornal de esquerda “Mudança Democrática”. Com o golpe militar de 1967, fica desempregado. Apesar disso consegue em 1968, realizar o seu primeiro filme, “A Emissão”, uma curta-metragem. Continuou a filmar e a sua terceira longa-metragem em 1975, “A viagem dos Comediantes” traz-lhe reconhecimento internacional e vários prémios o que culminou em 1998, no festival de Cannes, com a atribuição da Palma de Ouro, a “A Eternidade e Um Dia”.

Theo Angelopoulos era um pessimista, afirmava-se um pessimista. Os seus filmes são conhecidos pelas longas cenas sem cortes em plano-sequência, pelas paisagens sombrias, o ritmo lento, os longos períodos sem qualquer fala, pelas alegorias e referências mitológicas. As suas temáticas percorrem melancolicamente os caminhos da civilização moderna. As bandas sonoras que Eleni Karaindrou, criou para os seus filmes acentuavam esses ambientes.Normalmente considera-se a sua obra dividida em duas fases: a primeira que alguma crítica classifica de marxista-brechtiana, e a segunda, a partir de “Viagem a Citera”, com abordagens mais emocionais e subjectivas.

Por terminar ficou a sua trilogia sobre a Grécia e o século XX. O primeiro filme, “The Weeping Meadow”, saiu em 2004, e remontava a 1919, com a chegada à Grécia dos refugiados de Odessa, terminando em 1949, no rescaldo da II Guerra Mundial.

Theo Angelopoulos, com 76 anos, foi ontem atropelado por um motociclo no Pireu, quando andava à procura de localizações para o seu próximo filme, um reflexão sobre a crise da Grécia e o seu futuro. Levado para o hospital, acabou por não resistir aos múltiplos ferimentos sofridos no acidente, tendo falecido horas depois.

Quase se pode afirmar que o seu atropelamento teve uma dimensão simbólica.

Para sempre fica a melancolia do seu sombrio olhar sobre a história, o mundo, o quotidiano.

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Cultura

Cinema português: E o público?

"A Bela e o Paparazzo" foi visto por 99 mil; 782 mil viram "Avatar"

O filme português que mais público chamou às salas em 2010 foi a ficção “A Bela e Paparazzo”, que somou um total de 98.889 espectadores; “Avatar”, uma produção norte-americana realizada por James Cameron, foi, no mesmo período, o filme mais visto em território nacional atingindo 782.074 espectadores, isto é, mais de sete vezes e meia o público que viu a obra de António Pedro Vasconcelos nas salas de cinema. Os dados constam no Anuário Estatístico 2010 do Cinema em Portugal, recentemente editado pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual e que faz um bom retrato estatístico das tendências nacionais.

Top 40, norte-americano

Se continuarmos “mergulhados” no Anuário e consultarmos a lista dos 40 filmes mais vistos nos nossos cinemas, constataremos que “Jantar de Idiotas”, de Jay Roach, com 126.371 espectadores, foi o último da tabela. E não encontraremos, como se depreende, nenhuma obra nacional e mesmo as com outro carimbo na produção que não o norte-americano reduzem-se a um único filme , “Resident Evil:Ressureição” (34º mais visto), uma produção anglo-franco-alemã, assinada por Paul  W. S. Anderson. Nessa lista não é sequer possível encontrar uma única produção exclusivamente europeia, apesar de terem sido exibidos 408 filmes originários do “velho continente”! Continuar a ler

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Cultura

Meu nome é Johnny, Johnny Guitar

Rever Johnny Guitar sem contar as vezes. Sempre com o deslumbramento inicial. Saber de cor diálogos extraordinários que irrompem do pântano maccartista que Emma, uma representação espantosa de Mercedes McCambrige, tão bem corporiza.
E um dos mais belos diálogos da história do cinema.

Vienna – É uma história triste.
Johnny – Sou bom ouvinte de histórias tristes.
Vienna – Há cinco anos amei um homem. Não era bom nem mau, mas amava-o. Queria casar com ele, trabalhar com ele, construir algo para o futuro.
Johnny – Deviam ter vivido felizes para sempre.
Vienna – Mas não viveram. Acabaram tudo. Ele não se via preso a uma família.
Johnny – Parece que a rapariga foi esperta em livrar-se dele.
Vienna – Lá isso foi. Aprendeu a nunca mais amar ninguém.
Johnny – Cinco anos é muito tempo. Deve ter havido bastantes homens…
Vienna – Os suficientes.
Johhny – Que aconteceria se ele homem voltasse?
Vienna – Quando um fogo se extingue só restam cinzas.
Johnny – Quantos homens já esqueceste?
Vienna – Tantos quantas as mulheres de que te lembras.
Johnny – Não te vás embora.
Vienna – Nâo me mexi.
Johnny – Diz-me uma coisa bonita.
Vienna – Que queres ouvir?
Johnny – Mente-me. Diz-me que me esperaste todos estes anos.
Vienna – Esperei-te todos estes anos.
Johnny – Que morrerias se eu não voltasse.
Vienna – Morreria se tu não voltasses.
Johnny – Diz-me que ainda me amas como eu te amo.
Vienna – Ainda te amo como tu me amas.
Johnny – Obrigado. Muito obrigado.”

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Cultura

FESTROIA, a festa do cinema em Setúbal

O Festroia, Festival Internacional de Cinema, seria um jovem adulto se fosse gente. Hoje na 27ª edição, nasceu em Troia mas as vicissitudes da vida obrigaram-no a transpor o Sado e a estabelecer-se no outro lado do rio, em Setúbal. Desde há muito que Junho é o seu mês e ele aí está, entre 3 e 12 de Junho. Uma festa do cinema de dimensão internacional mas que passa algo despercebida à escala nacional.

Nascido como um festival de inverno – a sua primeira edição decorreu em Novembro de 1985 – era então vocacionado para a promoção do complexo turístico da Torralta em Troia, é hoje um certame integralmente urbano. Se perdeu o exotismo de um festival em que as finas areias das praias de Troia disputavam (e disputavam mesmo!) os favores dos espectadores, em Setúbal ganhou o reconhecimento do público que passou a poder aceder mais facilmente às salas. Nem se sabe bem porque incorpora ainda a designação de Troia. Talvez por referência histórica. Talvez por manter o secreto desejo de lá voltar, agora que tudo foi renovado e que o resort até já dispõe de casino.

Maria de Medeiros e o cinema turco são os homenageados do 27º FESTROIA

O certame regressa este ano com a sua habitual Secção Oficial, dedicada à competição entre obras da chamada pequena filmografia (países que não excedam as 30 produções ou co-produções anuais) e que atribui os principais prémios do Festival, os Golfinhos. Maria de Medeiros e a Turquia são, respectivamente, a figura e a cinematografia homenageadas. Uma das novidades deste ano é a secção O Amor e a Cozinha, que inclui longas-metragens de grandes nomes do cinema europeu. A programação espraia-se ainda por secções tão diversas como uma Retrospectiva de Jos Stelling, The short matters on Tour, Curtos Europeus, Primeiras Obras, Panorama Juvenil, Cinema Português, Curtas Sadinas, Curtos Escolas-Lusófona, Panorama e O Homem e a Natureza, uma das mais antigas secções do Festroia.

As salas. Continuando arredado da sua principal sala, o Fórum Municipal Luisa Todi (a aguardar a conclusão de obras), o festival decorre naquela que é única opção disponível na cidade de Setúbal de Setúbal, o Auditório da Anunciada. Sala que não foi concebida para a exibição cinematográfica mas que, com alguns esforços de adaptação, como a montagem de uma cabine, equipamentos de projecção e ecrã, tem cumprido a missão. Aquela que é desde há mais de uma década a segunda sala do festival, o Cinema Charlot, foi este ano objecto de consideráveis melhorias : resolução dos problemas que originavam inundações no seu interior, pavimentos, pisos, revestimentos, decoração, projecção vídeo, climatização, conforto. Quem gostar de ver cinema ao livre pode recorrer ao Auditório José Afonso. Se estiver em Lisboa pode ver algumas das obras em duas salas do Cinema City Classic – Alvalade.

Setúbal conhece e gosta do Festroia. O público aflui, nomeadamente nas sessões de fim de tarde e noite. Apesar do continuado e relevante investimento que o Município sadino tem feito neste festival desde 1995, ano da sua completa transferência para Setúbal, continua-lhe a faltar o reconhecimento nacional de que é merecedor. Só a sua merecida projecção mediática poderá consegui-lo .

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Cultura

Setúbal regressa ao “Charlot”

Pormenor de decoração interior no Cinema Charlot

Poucas terras em Portugal se podem orgulhar de ter uma sala municipal de cinema a funcionar sete dias por semana. Setúbal é uma dessas terras. A reabertura do Cinema Charlot, sete meses após o seu encerramento para obras, é uma boa notícia para os cinéfilos e para a vida cultural da cidade e da região.

O Cinema Charlot não é um vulgar cinema. E porquê?

Em primeiro lugar, sendo propriedade da Câmara Municipal de Setúbal, que assegura a sua gestão e funcionamento, a sua programação regular resulta de uma parceria com a associação cultural FESTROIA, entidade que há mais de duas décadas organiza o FESTROIA Festival Internacional de Cinema, nascido em Troia mas que, desde 1995, está sediado em Setúbal.

Em segundo, porque é uma sala de cinema que não está integrada numa grande superfície comercial – como é agora norma – antes se localizando numa importante zona residencial da cidade de Setúbal, entre duas importantes escolas secundárias, a E.S. Bocage e a E.S. Sebastião da Gama. Um género de sala de que já na restam muitas.

Em terceiro lugar, porque o facto de não ser uma sala de exploração comercial lhe permite exibir uma programação em que é possível atender a critérios de qualidade e de diversidade de produção; programando filmografias europeias, por exemplo. Acrescente-se ainda que é também um equipamento cultural que permite outras utilizações para além da exibição cinematográfica: reuniões, congressos e outras sessões, etc, e que, ao longo dos anos, tem servido para inúmeras actividades.

O funcionamento de uma sala desta natureza representa um considerável investimento: os custos com pessoal de apoio, os custos com os equipamentos, a manutenção, a conservação. Um investimento que, deve ficar claro, não tem reprodução financeira. Também não seria isso que se esperaria de um programa municipal – embora a viabilidade financeira deva constituir uma preocupação. Mas, e é um facto, a iniciativa privada está, em Setúbal, limitada às quatro salas existentes no centro comercial Jumbo. O que é manifestamente pouco para um concelho com uma população estimada em 125.000 habitantes (em 2008), limitação que propicia a deslocação a outras salas (em fóruns comerciais) de concelhos vizinhos, nomeadamente Almada e Montijo. Sem a sala municipal a situação seria bem mais grave e deficitária para o público.

É preciso recuar a 1998 para situar o inicio da nova vida do Cinema Charlot. Após alguns anos de exploração comercial privada (Lusomundo) ao longo da década de oitenta, o original Cinema Charlot fechou as suas portas, acompanhando um amplo movimento de fecho de salas ocorrido por todo o país. Recorde-se que a Setúbal dos anos setenta/oitenta do século passado viu encerrar salas como o Grande Salão Recreio do Povo, Casino Setubalense, Cinema Júpiter, Cinema do Centro Comercial Bocage  – todas elas mais ou menos contemporâneas do Cinema Charlot.

Foi num contexto de quase inexistência de salas de cinema em Setúbal – que, aliás, se mantém até aos dias de hoje – que a Câmara sadina decidiu, por unanimidade, adquirir a sala, que então se encontrava encerrada havia anos. Estávamos em 1998 e era presidente da autarquia o socialista M. Mata de Cáceres. Após um conjunto de obras que tornaram a sala num espaço agradável e acolhedor, a sala viria a ser inaugurada em 31 de Maio de 2000, funcionando desde então ininterruptamente sob responsabilidade do Município. As surpresas estavam reservadas para pouco depois da inauguração com as primeiras chuvas fortes, quando coincidentes com marés cheias. Rapidamente se percebeu os graves problemas de drenagem de águas pluviais que envolviam o edifício e que viriam a estar na origem das dezenas de inundações que ao longo dos anos viriam a degradar a sala.

Mas, apesar de todas as deficiências e dificuldades, a sala viria a inscrever-se nos hábitos de todos os que gostam de ver cinema exibido em tela grande, ultrapassando os duzentos mil espectadores em 2008. Em resultado da sua programação e das ligações internacionais da Associação FESTROIA, o Cinema Charlot viria a ser incluído em redes internacionais de cinemas, a Europa Cinemas (uma estrutura financiada pelo programa MEDIA e pelo Centre National de la Cinématograhie) e a CICAE – Confederação Internacional dos Cinemas de Arte e Ensaio.

Sucessivas administrações municipais entenderam a importância deste equipamento municipal para o concelho viabilizando o seu funcionamento, mas foi a actual gerência do Município que, quase onze anos após abertura da sala sob gestão municipal, avançou com uma importante intervenção. Nomeadamente no domínio hidráulico, mas que permitiu também a renovação de diversos outros aspectos, como as exigências de segurança, climatização, os pisos, o revestimento de paredes, instalações para cidadãos com mobilidade reduzida, foyer, arranjo exterior. Mas em que ficam ainda a faltar alguns investimentos – nomeadamente a evolução para a exibição digital, que se espera possa vir a ser concretizada oportunamente.

É ousada a aposta municipal numa sala dedicada ao cinema. Não se sabe qual será a evolução do público de cinema num futuro próximo mas são conhecidas as dificuldades presentes: o cinema disputa públicos que tem à sua disposição múltiplas ofertas de conteúdos (canais temáticos, internet, outros suportes); uma industria de exibição que evolui rapidamente para outros padrões tecnológicos (digital, 3D); espaços de cinema inseridos nas grandes áreas comerciais de multi-consumo e que dispõem de facilidades como o estacionamento.

Mas uma sala como o Cinema Charlot, pelo seu carácter alternativo, é uma preciosidade que todos devemos contribuir para manter. E é com espectadores que os cinemas funcionam.

Nota

O Cinema Charlot voltou a abrir as suas portas ao público no passado dia 13 de Maio, para exibição do Concurso Curtas Sadinas.

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Política

25 ABRIL !

Os brandos costumes continuam a ser o manto nada diáfano da grande mentira que tenta ocultar que em Portugal houve fascismo. Que em Portugal, um regime feroz protegia os interesses espúrios de gente capaz das maiores vilanias para o obter lucros indecentes, exibindo o sorriso inocente de quem finge não saber que as mãos sujas da violência escavavam a vida de muita gente que lutava com honra, coragem e persistência, não se deixando intimidar por uma legalidade iníqua, cortada e costurada à medida para impor o silêncio da submissão a um povo cruelmente explorado.

As raízes dessa árvore que suga o húmus do trabalho da maioria do povo português continuam praticamente a ser as mesmas. Mudam de métodos e práticas conforme as circunstâncias, puxando os fios do teatro de marionetas a quem pagam para entreter os dias.

48 dá voz aos milhares que transitaram pelas masmorras da polícia política e aos que tiveram a fortuna de não transpor aquelas portas, pela voz de quarenta oito homens e mulheres que viveram brutalidades inomináveis. São 48 homens e mulheres, tantos quantos os anos do fascismo, que saltam de um quase anonimato com que se tem tentado apagar esses anos de violência branqueando a história com o objectivo de tornar aceitáveis esses tempos, os tempos actuais e os tempos futuros da exploração do homem pelo capital sem rosto.

Hoje, chamar a atenção, fazer um apelo para se ver, para se ir ver 48, é uma quase exigência para que se exume a história e não se deixe sepultado no esquecimento uma verdade intemporal e universal: resistir, mesmo nas piores situações, é sempre possível.

Hoje, na véspera de se celebrar mais uma vez o último dia do fascismo, nos cenários de crise que se vivem, em que a maioria do povo português sofre as agruras violentas das dificuldades quotidianas, em que o desemprego cresce afectando brutalmente todos, mas em particular uma juventude nascida maioritariamente depois do 25 de Abril, 48 lembra-nos que comemorar esse dia, festejar a Revolução dos Cravos, é sublinhar a traço grosso e em cor viva as esperanças que há trinta e sete anos irromperam numa onda de incontida alegria percorrendo todo o país, acordando energias que, nos quase 50 anos, a ditadura fascista tinha congelado pela violência.

Comemorar o 25 de Abril não é um exercício de nostalgia, nem um rastilho de memórias para quem o não viveu, é afirmar que a esperança que fez nascer em todos os portugueses e que tem sido sistematicamente destruída por mais de trinta anos de governação desastrosa, posta em prática pelos chamados partidos do arco do governo, está na ordem do dia, nasce mais forte em cada 25 de Abril. Continua a inundar as ruas de fraternidade. Continua a tornar o ar mais leve e puro no vermelho dos cravos. Continua a dar mais força para ultrapassar as barreiras que o querem ocultar ou atirar para a prateleira da história.

Os anos passam, mas o 25 de Abril nunca será mais um 25 de Abril, será sempre um 25 de Abril novo, para todos para quem a liberdade, a democracia, a vida são valores imperecíveis, por que se luta todos os dias.

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Cultura

Apagou-se uma Estrela

Elizabeth Taylor era uma grande actriz e uma mulher lindíssima. Sabia-o e sabia que deixava um rasto de paixões incendiadas por onde passava. Pouco se incomodava com isso, como pouco se incomodava com o tempo e o espaço que a comunicação social gastava cavando na sua tumultuosa vida privada. Casou oito vezes com sete homens. Um, Richard Burton que conheceu quando interpretou o papel de Cleopatra que a celebrizou mais do que já era, pode ter sido a paixão da sua vida, das suas vidas.

Das duas vezes em que matrimoniaram abriram a porta para uma vida de excessos de álcool, gastos sumptuários, loucuras poéticas a navegar num turbilhão de ondas sempre em maré alta, estivesse o mar calmo ou tempestuoso.

Quando o seu amigo Rock Hudson morre vítima de sida, (dizem os cosculhiveiros que durante as filmagens de o Gigante, os dois pingavam amor por James Dean, a competição sexual não corroeu a amizade) cria a American Foundation for ADS Research a que se dedicará até ao fim da vida, em que degradação física era evidente o que se percebia lhe custava bastante, para lá das operações estéticas e as camadas de maquilhagens .

Foi uma actriz extraordinária. Fez mais de 70 filmes. Para a história do cinema ficaram muitos, de que seleccionamos seis que fazem parte da história do cinema. De um deles, Lugar ao Sol, diria Chaplin que era o filme que provava a superioridade do cinema sobre todas as artes. Vendo-se o filme desculpa-se o excesso. Continuar a ler

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Geral

Esta Lisboa NÃO!

Esta Lisboa NÂO!

A Cinemateca Nacional deveria celebrar o dia de hoje passando em sessões contínuas o filme de João César Monteiro, “QUE FAREI  EU COM ESTA ESPADA
Lisboa, nas ruas a Revolução, no Tejo, ameaçador, o porta-aviões norte-americano Saratoga.

Ameaçador como o navio que transporta Orlock a Wisburg, no Nosferatu de Murnau. Os ratos a correram aterradores, saltando do convés para a cidade, pré-aviso da peste que irá invadir a cidade com o desembarque do vampiro.

Em 1975, Saratoga, o porta-aviões da NATO, ancora no Tejo. João César Monteiro e Maria Velho da Costa, empunham as suas armas, a camera de filmar a máquina de escrever. Realizam um filme militante contra essa presença intimidante.

Com Lisboa hoje sitiada, nada melhor do que rever esse filme. Se a televisão fosse de facto um serviço público era o que deveria fazer, para acender a memória.

Amanhã, Manif!

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Cultura, Geral

No Centenário de Paul Bowles

 

foografia de Daniel Blaufuks, in "My Tangier"(Difusão Cultural)

 

Este ano comemora-se o centenário de Paul Bowles (1910-1999), músico e escritor norte-americano, viajante das sete partidas do mundo – numa das suas muitas entrevistas que explica a diferença entre turista e viajante e por que nunca seria turista: “ (…) a diferença tem a ver com o tempo. Enquanto um turista costuma voltar a correr para casa ao cabo de semanas ou meses, o viajante, que não pertence a um lugar mais que a outro, desloca-se com vagar, durante anos de uma parte da terra para outra (…) outra diferença importante entre o turista e o viajante é o turista aceitar sem reservas a sua própria civilização, mas o viajante não, compara-a com as outras e rejeita as que não lhe agradam – que, continuando a empreender longas viagens, estacionou em Tanger durante mais de cinquenta anos, com a sua mulher, a escritora Jane Auer. A sua casa tornou-se um pólo magnético para artistas de todo o lado, mas sobretudo e naturalmente norte-americanos. No hall do seu apartamento era normal empilharem-se malas de viagem de William Saroyan, Tenesse Williams, Losey, Gore Vidal, Visconti, Carson McCullers, William Burroughs, Cage, Ginsberg, Bacon, Kerouac, Dali, Orson Wells, um mundo inteiro de artistas atraídos não só pelo trânsito intelectual mas também pelo ambiente exótico de Tanger, cujo estatuto particular durante a guerra possibilitou a instalação e manutenção de um ambiente de grande permissividade sexual e uma certa liberdade no consumo de drogas.

Paul Bowles, escreveu contos, romances e novelas, da poesia abdicou a conselho de Gertrude Stein, em casa de quem nos anos 50 tinha estado em Paris, compôs música para filmes. Uma ópera sua, “The Wind Remains the Same” foi mesmo estreada em Nova Iorque com a direcção de Leonard Berstein, divulgou escritores marroquinos, fez recolhas musicais no norte de África.

É sobre este intelectual de vida intensa, iniciada ainda antes da adolescência e que se prolongou por quase noventa anos, e múltiplos interesses que é uma das personalidades fascinantes do século XX, um século de tempo escasso para tanta gente e acontecimentos marcantes, que de 21 a 23 vai decorrer em Lisboa, um colóquio multidisciplinar “Do you Bowles I”. Na Faculdade de Letras, especialistas da obra de Bowles, vindos de todo o mundo, farão comunicações, enquanto na sua biblioteca acontece uma exposição bibliográfica intitulada “Pirates at Heart”. Na Cinemateca estreia-se o filme “You Are Not I” de Sara Driver e documentários de Jean Martin Domingues e Karin Debbagh e no Museu do Oriente realiza-se um concerto com António Rosado, Anabela Duarte e Richard Horowitz.
Paul Bowles é bem conhecido em Portugal. A sua obra literária está quase toda editada, o filme de Bertolucci “O Chá no Deserto”, baseado no livro “O Céu que nos Protege” obteve bastante sucesso e, em 2007, o Centro Cultural de Belém dedicou-lhe uma semana multi-disciplinar tendo como centro dinamizador uma exposição de fotografias de Daniel Blaufuks do livro “My Tangier” com belíssimas fotos do escritor e dois textos seus inéditos, escritos expressamente para essa publicação. Continuar a ler

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Cultura, Setúbal

Até para o Ano FESTROIA!

O Festróia está a terminar a sua 26ª edição. Para lá da qualidade dos filmes exibidos no quadro das secções que o caracterizam e lhe conferem identidade, são o seu ADN, e de todos os números que se poderiam referir, filmes exibidos, espectadores, horas de exibição, etc., o que queremos sublinhar, com marcador fluorescente muito luminoso, é a capacidade que a organização do Festival tem tido para ultrapassar inúmeros obstáculos e de os superar sem pôr em causa a qualidade a que nos habituou e que é a sua imagem de marca nacional e internacional.

De cortes nos patrocínios e apoios, alguns com as justificações mais absurdas e injustificáveis, à impossibilidade de, nos últimos dois anos, utilizar a sua sala principal tudo tem acontecido e tudo tem sido enfrentado, contornado, resolvido com grande determinação e imaginação, para que a imagem do Festróia não fique embaciada. Pelo contrário, continuam a inventar com grande profissionalismo ciclos paralelos, mostras especiais, workshops, actividades de apoio.

Se compararmos o seu orçamento com o orçamento de outros festivais que decorrem em território nacional, alguns que surgiram posteriormente vestindo figurino semelhante, ainda mais é de elogiar a equipa, dirigida pela Fernanda Silva que, fora de um grande centro urbano, consegue pôr em movimento uma poderosa máquina que durante oito dias exibe cinematografias excelentes, normalmente empurradas para as franjas dos circuitos comerciais que são máquinas de triturar filmes em que a maioria é de usar e deitar fora. Pelo contrário, no Festróia nada se perde, só se vai desfolhar o programa para escolher entre um e outro filme que sejam projectados em hora secante, com a certeza que a opção obriga a uma perda, por vezes com a sensação de ser quase irrecuperável.

A longevidade de um Festival como este, sempre com a fasquia do nível qualitativo colocada bem alto, deveria merecer mais atenção por parte dos poderes públicos e também de privados mais esclarecidos. Nem se percebe que, havendo uma clara equivalência entre o nível qualitativo programático, se privilegiem apoios a festivais que, por se realizarem nos maiores centros urbanos do país, têm logo a seu favor o parâmetro do público potencial. Há mecanismos de valoração e apreciação que continuam a ser relativamente nebulosos e outros que deveriam ser integrados e são quase esquecidos.

Numa política cultural que tenha por primeiro objectivo a conquista e alargamento de públicos, um índice que hierarquizasse os locais onde se realizam os projectos culturais, devia ser dos mais importantes na sua avaliação. Com esse índice bem ponderado, temos a certeza que o Festróia, subtraindo-se a avaliações necessárias mas mais subjectivas de outros itens, se situaria nos lugares de topo, merecendo apoio mais substantivo dos poderes políticos que tutelam a sua área.

Não sendo assim, a luta continua até o reconhecimento ter uma expressão mais justa nos apoios a conceder e para se continuar a arquitectar, com a escassez de meios existente, um Festróia ao nível a que nos habituou.

Até para o ano com uma nova edição do Festróia, um novo Festróia.

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Cultura, Geral

26º FESTROIA, a maratona do cinema em Setúbal

Aí está o 26º FESTROIA Festival Internacional de Cinema. Uma maratona para cinéfilos com a duração de dez dias e projecções no Auditório da Anunciada, Cinema Charlot, Auditório José Afonso e Auditório Fernando Lopes Graça (Almada).

O programa. O certame é este ano dedicado à cinematografia eslovaca, após em 2009 o ter sido aos seus vizinhos e antigos compatriotas checos. Um ciclo de “histórias da resistência” promete também ser um dos pontos altos do programa. À “Secção Oficial”, onde são atribuídos os prémios golfinho, concorrem doze produções de países da chamada pequena filmografia (países com produção inferior a 30 filmes por ano). Rogério Samora será o artista homenageado em 2010. Mantém-se ainda os habituais ciclos “Primeiras Obras”, “Independentes Americanos” e “O Homem e a Natureza” a que se acrescentam uma secção dedicada aos “grandes realizadores europeus” e filmes Curtos Europeus e de Escolas.

O FESTROIA é actualmente um dos festivais de cinema que há mais tempo se mantém em actividade. Nascido nos areais de Troia em 1985 com o duplo objectivo de divulgar cinematografias desconhecidas do público português e de promover o complexo turístico ali existente, foi seu fundador o jornalista e escritor Mário Ventura Henriques (1936-2006). Se as primeiras edições ainda decorreram em pleno Outono, a partir de 1988 o festival passará realizar-se em Junho, próximo do inicio do Verão, calendário que hoje ainda mantém.

Com o festival em Troia e os importantes apoios que lhe eram concedidos pela Torralta, empresa então responsável pelo complexo turístico de Troia, foram tempos que em estrelas como Kirk Douglas, Debbie Harry, Dennis Hopper, Krzysztof Kieslowski, Christopher Lee, Bigas Luna, Pedro Almodóvar, Lauren Bacall, Robert Mitchum, Jane Russel, Christopher Walken ou Michael York engalanaram os momentos mágicos do certame e as correspondentes coberturas jornalísticas. Estrelas convidadas pelo festival a quem Mário Ventura Henriques sempre fez questão de mostrar Setúbal e os seus pequenos e grandes encantos.

Sempre com um pé em cada lado do Sado, a partir de 1995 e com o fim dos apoios da Torralta, o FESTROIA muda-se de armas e bagagens para Setúbal. Com um importante (e fundamental) apoio da Câmara Municipal de Setúbal, que se mantém até hoje, o Festival passou a ter Setúbal como centro. Pode não ter recuperado o impacto mediático que lhe era garantido pela oferta de estadias a jornalistas e divulgadores nas excepcionais praias e resorts de Troia, ou pelas glamorosas recepções aos seus super-famosos convidados nas piscinas do complexo, mas ganhou público, muito público, dentro das salas. Muito mais que em Troia.

O desafio ao FESTROIA é hoje aumentar a sua projecção nacional e internacional como um programa cultural de elevada qualidade artística que é. Tem porventura faltado um melhor marketing; mas esse marketing tem custos elevados. E são precisos mais parceiros, nomeadamente do sector privado. Essa projecção ajuda a construir uma imagem moderna e atractiva de Setúbal e da região, o que não deixará de ter reflexos económicos positivos. Não são muitas as actividades de renome internacional que se realizam na região, de modo a que se possa prescindir ou desvalorizar este “activo”.

Sobre este assunto pode ainda consultar o post de Paulo Anjos aqui.

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Cultura

Cinema em Portugal, o ponto da situação (II)

Com base no “Anuário Estatístico 2009 do Cinema em Portugal” permito-me acrescentar mais algumas conclusões às registadas na 1º parte deste post.

5. O cinema europeu não cresce e o domínio norte-americano (EUA) nas salas mantém-se. O número de filmes com origem europeia estreados nas salas nacionais tem vindo a diminuir: de 114 em 2004 para 87 em 2009. O número de produções norte-americanas mantém-se estável (138 em 2004, 139 em 2009), tal como as co-produções Europa/EUA. Em 15.704.690 espectadores registados em 2009 nas salas portuguesas, 69% foram-no em produções com origem nos EUA, 22% em co-produções EUA/Europa e apenas 8% da Europa. As receitas de bilheteira provenientes de filmes originários dos EUA representaram 72% do total, entre 2004 e 2009, enquanto as europeias se ficaram pelos 10%.

6. Cinema português a baixa velocidade. Foram estreados nos últimos cinco anos 139 filmes portugueses. Destaque para a ficção com números oscilando entre 12 (2005) e 34 (2004). Quanto a espectadores nas salas, os filmes portugueses conquistaram naquele período um número anual de espectadores situado entre os 400.000 e o meio milhão (com excepção de 2004, com 222.870), tendo sido de 426.173 em 2009. Os filmes mais vistos no ano transacto (valores acumulados) foram: “Amália – o Filme” (214.203 espectadores), “Uma Aventura na Casa Assombrada” (122.958) e “Second Life” (90.186). O 10º filme português mais visto teve… 5.357 assistentes. Os filmes nacionais representaram, em 2009, uma receita bruta de bilheteira de 1,9 milhões de euros (2,5% de quota de mercado).

7. A litoralização. Quatro distritos, Lisboa (38%), Porto (21%), Setúbal (10%) e Faro (6%), concentram 75% dos espectadores de cinema (e representam 50,3% da população do país). Praticamente todos os distritos do interior do país apresentam valores de quota pouco acima dos 0%. Quanto à rede de salas de cinema, de um total de 577 ecrãs (com 110.914 lugares) existentes em 2009, 35% situam-se na região de Lisboa e Vale do Tejo, enquanto a Madeira (2,3%) e o Alentejo (6,1%) são os menos equipados. A implantação de ecrãs digitais é quase uma cópia da distribuição geográfica de espectadores com Lisboa, Porto, Setúbal e Coimbra a deterem 72% dos ecrãs digitais e 63% dos ecrãs 3D.

Nota final

Os tempos são de crise. Mesmo para a indústria do cinema, onde não são apenas os factores económicos que estão em jogo. A mudança dos paradigmas tecnológicos e das respectivas plataformas de acesso aos conteúdos retira público às salas de cinema. A internet, o DVD e os formatos digitais, a televisão por cabo e os canais de cinema são sérios desafios para a indústria da exibição cinematográfica.

A exibição em formato digital a três dimensões tem sido considerada a via de fuga que permitirá à industria manter os níveis de adesão de outrora. Daí os elevados investimentos que os grandes operadores da exibição têm feito, com a ZON Lusomundo Cinemas em posição de clara e esmagadora liderança. Resta saber se a aposta será ganha, já que o clima de constante mudança tecnológica pode apresentar outras soluções.

Quanto ao cinema português. Continua a confrontar-se com uma atávica desconfiança por parte de alguns segmentos do próprio público português. A sua afirmação nos circuitos de distribuição internacional contínua muito difícil. Uma dificuldade comum a outras cinematografias europeias, que, nem mesmo com o apoio dos Estados nacionais e de programas comunitárias, tem conseguido furar a “barreira”. Até cinemas outrora presentes nos ecrãs de outros países se defrontam com grandes dificuldades. Casos dos cinemas italiano e francês, país este cujo Estado é tradicionalmente um forte patrocinador desta actividade com o objectivo de promover a língua.

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Cultura

Cinema em Portugal, o ponto da situação (I)

O Instituto do Cinema e do Audiovisual, ICA, acaba de divulgar o “Anuário Estatístico 2009 do Cinema em Portugal”, um interessante reporte estatístico que faz o retrato do sector no último ano (2009) e retrospectivamente aos últimos cinco anos.

O documento é tanto mais interessante quando se sabe que o cinema é das áreas das artes e da cultura melhor servida em matéria de sistemas de controlo estatístico. Desde há anos que funciona um sistema de informação on-line entre as salas de cinema (bilheteiras) e o ICA. Sistema que inclui ainda o registo de filmes, salas, ecrãs, distribuidores e outros agentes da industria. Claro que esses dados também podem ser manipulados na sua fonte de origem. Mas o sistema merece credibilidade.

Algumas conclusões:

1. O público de cinema estagnou, se não mesmo diminuiu. Desde 2006 que o numero de espectadores nas salas de cinema tem vindo a diminuir, após ter atingido um pico de 17,1 milhões em 2005. Assim: 2006: 16,4; 2007: 16,3; 2008; 16,0 e 2009: 15,7 milhões de espectadores. Curiosamente o número de sessões aumentou de 551.850 (2005) para 651.32 (2009).

2. A produção cinematográfica norte-americana continua no ranking dos filmes mais vistos. Todos os dez filmes mais vistos em 2009 tinham a sua origem nos EUA (3 dos quais partilhavam tinham também origem num segundo país). Hegemonia que se mantém se for considerado o mesmo ranking mas para os 10 filmes mais vistos no período compreendido entre 2004 e 2009. Apenas um filme partilha a origem com outros países (Alemanha e Reino Unido), por sinal o mais visto em Portugal naquele período, “Mamma Mia!” (851.681 espectadores)

3. A distribuição cinematográfica está concentrada em elevado grau. Três empresas concentram, em 2009, 91% do total e apenas uma, a ZON Lusomundo Audiovisuais, detém 49,8% dos 271 filmes estreados e 49,2% dos espectadores. A quota de mercado da ZON Lusomundo no que se refere a longas metragens estreadas saltou de 31,0% do mercado, em 2004, para 49,8% no ano passado.

4. A projecção digital e 3D (3 dimensões) querem arrancar. 2009 é o ano da afirmação destes novos formatos. De 2 filmes exibidos com projecção digital em 2004, ou 19 em 2008, atinge-se os 77 (62 digital e 15 em 3D) em 2009, i.e. mais 240% que no ano anterior.

(continua)

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Cultura

Recordar e Ocultar: como a História se reescreve todos os dias

A televisão pública tem critérios de programação, no mínimo, estranhos. Agora, aos sábados exibe, em sequência, dois filmes que pertencem à história maior do cinema. Durante a semana vão passando coisas assim-assim ou assim assado, do bom ao sofrível, até que ao sábado têm um sobressalto e zás catrapus: duma vezada dois filmes que, quem gosta de cinema vai rever e quem começa a gostar de cinema devia ver! Aqui estamos todos de acordo, os sábados de cinema da RTP 2 abrangem um público que vai dos neófitos aos velhos cinéfilos. Com o que já não concordamos é que se faça uma sessão de cinema que começa às 22h40 e acaba, na melhor das hipóteses, às 2h00 da madrugada. Uma violência cultural. Se calhar anda por lá um sadomasoquista programador à solta que tem por princípio que a cultura se deve sofrer.

No sábado passado, homenagearam João Benard da Costa, um cinéfilo assumido. Na base dois programas, um em que várias pessoas eram convidadas a escolher o filme da sua vida, algumas tiveram que ultrapassar o problema do filme da sua vida já ter sido escolhido por outro, e um programa realizado pelo próprio João Benard da Costa, com uma selecção de filmes que considerava os mais decisivos na história do cinema. O filme da sua vida foi Johnny Guitar. Um dos filmes da vida de muita gente. Da minha também e lá estive sentado em frente ao ecrã da televisão, bebendo um bom cognac e fumando um belo charuto, (repararam que o Benard da Costa quando dissertava sobre o segundo filme da noite, Intriga Internacional, fumava e bebia uísque, bons tempos ainda não gangrenados pela mediocridade do politicamente correcto) a ver o filme pela décima vez, será mesmo décima? Isso pouco interessa, sigo o conselho que Séneca dava a Lúcio “lê, portanto, constantemente autores de confiança e quando sentires vontade de passar a outros regressa aos primeiros”. Como Benard da Costa, já sei, eu como milhares em todo o mundo, alguns diálogos de cor. São diálogos geniais que não caem no esquecimento. Já conheço o filme de fio a pavio e nunca o conheço de fio a pavio.Estou sempre a encontrar uma imagem, um plano que me deslumbra mais que numa das vezes anteriores.

Vem tudo isto a propósito do que João Benard da Costa disse na apresentação de Jonhy Guitar. Brilhante como sempre, a falar do que sabia e do que gostava. Desta vez houve um pormenor em que não tinha reparado quando isso foi exibido na primeira vez. Refere que o filme, entre muitas coisas, é também uma metáfora ao macartismo. Até aqui tudo bem, mas logo a seguir, para precisar o que tinha dito, foi esclarecendo que Nicolas Ray, o realizador, teve, e não poucos, problemas com o tenebroso senador. No entanto, o mais perseguido era o guionista, Philip Yordan, que, além de ir  parar à lista negra, teve mesmo que se exilar na Europa. Benard da Costa conta isso e diz que Philip Yordan era um homem de esquerda. Porque não disse claramente que ele era um activista do Partido Comunista Americano? Mesmo homens com a estatura intelectual de João Benard da Costa adquirem naturalmente esses vícios de linguagem, correntes numa sociedade como a nossa! Fê-lo sem qualquer malévola intenção. Fê-lo,  provavelmente como qualquer um de nós, descuidadosamente, o faria, sem perceber que, objectivamente, estava a colaborar com enciclopédias,  “papers”, teses e outras aparições que estão diariamente a reescrever a história, a rasurar ou a distorcer factos, amaciando terminologias, enevoando ilações, todo um arsenal que usa projecteis variegados dos mais aparentemente inócuos aos mais brutalmente eficazes. Tudo o que está à mão e pode produz efeitos é usado. Assim se vai reconstruindo a história com essas brancas, em que escorregamos por vezes sem dar conta que estamos a colaborar, involuntariamente, com um projecto, complexo e deliberado, de apagamento da memória.

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