Política

Mas andam a dormir, oh quê??!!

hqdefaultUma das linhas argumentativas mais desconcertantes dos defensores do candidato do PSD e do CDS à presidência da República tem sido a de que Marcelo Rebelo de Sousa está a ser alvo de ataques ao seu caráter, quando o que deveria estar em causa seriam questões de ordem política.

O próprio candidato ficou zangado por ter sido confrontado com o facto, aparentemente confirmado, de dormir pouco, esquecendo que tinha sido o próprio – ou alguém a seu mando – a usar tal caraterística pessoal, há anos atrás, como argumento valorativo da sua capacidade intelectual, pois dormir pouco permitir-lhe-ia ler mais, saber mais, ver mais. Marcelo era o homem que nunca dormia, a suprema inteligência, o homem que tudo lê e acumula sabedoria infinita. Tal asserção encontra paralelo na expressão popular que se grita aos distraídos e tontos e que, com mais ou menos variações, pode ser grafada assim: “mas andas a dormir, oh quê??!!” Mandam as regras que não se utilizem duplos pontos de interrogação, mas aqui são claramente utilizados para transmitir a ênfase colocada na expressão que compara o sono à estupidez. Portanto, Marcelo não dorme, logo é inteligentíssimo…

O desconcerto motivado pela oportunista argumentação que contesta os ataques de caráter, se é que de ataques de caráter se trata, radica na simples constatação de que o cargo de Presidente da República é um cargo unipessoal, eleito diretamente pelo voto popular e que não depende da propositura de partidos ou resulta de eleição em qualquer câmara parlamentar. Ou seja, é de esperar que quem vai exercer o mais alto cargo de magistrado da nação seja sério, não minta, não tenha, no passado, sido um delator de gente que apenas cometia o crime de pensar de forma diferente sob ditadura. E isto é uma constatação bastante simples. Assim, estranhar que se ataque Marcelo por hoje dizer o contrário do que disse ontem, revelando ser um oportunista que diz o que lhe dá jeito perante as circunstâncias apenas para ganhar (enganar os incautos) votos (até diz que é a esquerda da direita – como é se põe aqui um emoticon daqueles com um grande riso?), por ter sido um delator na PIDE, por ter inventado jantares secretos com vichissoises (embora Portas mereça sempre ser enganado) é que é verdadeiramente estranho.

Em português corrente, Marcelo é o que se pode chamar, com toda a razão, um verdadeiro troca-tintas, alguém desprovido de caráter (no sentido da coerência e da firmeza de convicções e de ser um puro oportunista). Ora, julgo que ter um presidente desprovido de caráter, um troca-tintas, é tudo o que não precisamos. Por isso, aos que ainda pensam em votar Marcelo, só lhes devemos perguntar uma coisa: “mas andam a dormir, oh quê??!!”

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Onde está o Wally?

wally-7Onde está o professor Marcelo?

Depois da comovente despedida do seu espaço de comentário, chegado ao fim da linha de quilómetros de palavreado inútil e de ter saltado para o comboio das eleições presidenciais, correndo para o lugar de maquinista, o professor Marcelo tão lépido a aparecer por tudo o que era sítio, perorando a torto a direito, saltando para dentro das pantalhas da televisão mesmo de lugares longínquos e imprevisíveis desapareceu!!!

Onde está Marcelo?

Terá sido atropelado pelo discurso terrorista do botas do poço de boliqueime? Terá ficado em coma político? Refugiou-se na piscina de Celorico a dar braçadas para recuperar do trauma parapelégico que sofreu depois do alvoroço no galinheiro dos direitinhas com a eleição do Presidente da Assembleia da República?

Onde está Marcelo?

Portugal interroga-se com a ausência de distribuição de diatribes politiqueiras, bolas de berlim, livros, chocolates, cachecois, bandeirinhas, notas da agenda politico-socialite que lhe era servido em doses semanais, durante dezenas de anos. Aquele número em directo e ao vivo que parecia uma festança marqueteira afinal era um velório e ninguém sabia antes da figura de cera que habita Belém gaguejar abjecções?

Onde está Marcelo?

PS- Soube, horas depois de escrever este post madrugador que o Wally vai aparecer hoje à noite na Voz do Operário. Ele sabe muito bem que há algo de ameaçador num silêncio muito prolongado, Sófocles dixit. Aí o temos de certo no seu melhor! Vai ser um curioso número de ginástica no solo fazendo filcs-flacs à direita e à esquerda, como bom artista português que é. Só não se sabe se no fim tira do bolso a pasta medicinal Couto!

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O Carrossel da Politiquice

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Assim que se anunciou a possibilidade de Sampaio Nóvoa ser candidato ás próximas eleições presidenciais, soaram as campainhas de alarme. Do lado dos trauliteiros direitinhas, que tinham sido simpáticos para Henrique Neto, logo começaram nas redes sociais as piadolas de mau gosto, como é de bom tom para aqueles lados. Os mais civilizados, com destaque para os comentadores que fazem disso um modo de vida, franzem o sobrolho, iniciaram a busca de sinais mais avermelhados em Sampaio Nóvoa para os expor e assustar o bom povo português. Fariam isso com Sampaio da Nóvoa ou com qualquer outro que fosse candidato a candidato a Presidente da República, com perfil idêntico.

Mais preocupantes e reveladoras do clima daquelas bandas foram as reações de socialistas mais ou menos conhecidos da opinião pública. Saltaram a terreiro em vários estilos e tons. Vera Jardim olha com distanciamento para o cargo de Presidente da República, reclamando a falta de perfil, por o ex-reitor da UL se mostrar muito interventivo e um Presidente da República deve, na sua opinião, ser um “poder moderador”(::.)”árbitro supremo do sistema, da constituição e dos equilíbrios do sistema”

Podia ter dado como exemplos o pai de todos os socialistas, Mário Soares, sempre sentado em Belém, a mitigar pachorrentamente os conflitos institucionais que não foram poucos durante os seus mandatos. Ou o seu amigo e ex-colega de escritório, Jorge Sampaio, que tudo fez para que o governo de Santana Lopes cumprisse o mandato. A falta de memória dessa gente é notável. Cautelarmente, Vera Jardim, vai dizendo que se o seu partido apoiar Sampaio da Nóvoa, ele será naturalmente o seu candidato. Uma nota a registar, embora não seja de excluir que estivesse a fazer figas enquanto fazia tal proclamação.

Outros “notáveis” socialistas são mais assertivos. Francisco Assis, estilo sorna, estofo de político mediano, reclama um candidato “genuinamente de centro-esquerda”. Para um militante de um partido que enche a boca a afirmar-se de esquerda, para um homem que se diz de esquerda, que foi candidato a secretário-geral, não está nada mal. Não nomeia, mas percebe-se que o seu Dom Sebastião é o beato Guterres ou o direitinha Gama.

Sérgio Sousa Pinto foi mais, longe, se calhar com receio que um qualquer preclaro Lello se antecipasse. Desata a zurzir em Sampaio da Nóvoa, “Não lhe basta a sublime virgindade de, em 60 anos, nunca se ter metido com partidos” e como estávamos na época pascal acrescenta “também parece agradecer a Deus a graça de ser pobre” . Conclui com mais umas tantas javardices do mesmo jaez sobre as esquerdas latino-americanas e europeias, para rematar “esta não é a minha esquerda”. Não é a esquerda dele pela razão mais simples e óbvia: ele não é nem nunca será de esquerda, por mais que queira travestir a realidade.

Todo o texto é bem revelador dos sérgios sousas pintos que andam como piolhos pelas costuras da política. É atravessado pela raiva, contra quem sendo de esquerda e tendo um currículo intelectual e profissional considerável, por opção, não se filiou num partido. É a raiva roxa de quem em toda a sua vida, só soube e sabe lustrar os fundilhos pelas cadeiras de diversas assembleias, fazendo pela vidinha, com os olhos postos nos vitorinos e passos coelhos que, à pala da política, se tornaram em facilitadores de negócios. De quem cheira o perfume fétido dos corredores da política que também o pode, na graça de Deus, fazer ficar riquinho. Não está sozinho. Pelo contrário, está bem mal acompanhado por aquela maralha que se mete muito jovem na política por cálculo, a acotovelar-se para fazerem carreira nos partidos que lhes abrem as portas do chamado arco da governança.

Sérgio Sousa Pinto não aguenta. Solta o sócrates que tem dentro de si. Estoira com grande alarido rugidos de leão de aviário. Sabia, bem sabia, que iria ter os seus quinze minutos de glória socialite-politiqueira. Para ele é insuportável que um homem, Sampaio Nóvoa ou outro, com um percurso intelectual reconhecido, que sempre tenha tido uma intervenção cidadã de esquerda, que sempre tenha mostrado ter consciência social, se intrometa nas escolhas do aparelho partidário, daquele aparelho partidário  que concede aos sérgios deta terreola. uma teta em que mama desde que se conhece, com afinco, ainda que sem grande talento. Advinha-se que o seu candidato é António Vitorino, se concorreres e ganhares dás-me um lugarzito em Belém? Em segunda escolha, os que Assis leva em andor.

Essa gente, e outra que deve andar a arrastar os pés com ardor nas alcatifas do Largo do Rato rosnando em surdina, saltam a terreiro para demonstrar, como se isso fosse necessário, que renegam a esquerda até ao fim do mundo.

Há ainda quem acredite na possibilidade de um governo de esquerda com este Partido Socialista. Essa é outra questão, magna questão, em que se deve insistir, mesmo contra todas as evidências.

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Política

Por que Durão Barroso deve ser candidato?

39729_gaDe entre todos os candidatos a candidatos a Presidente da República, há um, à Direita, que tem a obrigação de se apresentar como tal. Chama-se Durão Barroso e é um dos mais lídimos representantes dos poderes que tem governado Portugal e a UE nas últimas décadas. Está na hora de os portugueses o avaliarem.

Prestes a regressar, após dez anos à frente da Comissão Europeia, adivinha-se-lhe que pretende um lugar à altura. Daí as suas recentes aparições no terreno. Percebe-se-lhe a necessidade de se “limpar” para ficar bem no retrato que prepara para os próximos capítulos e que deixará para a posteridade.

Por isso não hesita em recorrer à “artilharia” de que dispõe no cargo que ainda ocupa para fazer essa operação de limpeza perante o público nacional. Uma grande operação político-mediática que contou com a participação activa do Presidente Cavaco Silva e do Governo – não fossem todos eles da mesma família. E a que em sequer faltou uma grande entrevista ao semanário “Expresso”.

E porque deve ser ele o candidato da Direita? E será que se estaria a lembrar de si próprio quando propõe que o PS apoie esse mesmo candidato?

Em 2004 era D. Barroso primeiro-ministro quando os portugueses se começavam a adaptar ao homem que lhes anunciara que o país estava de “tanga”. E que lhes prometera que não haveria aeroporto da Ota enquanto houvesse uma criança numa lista de espera de um hospital. O mesmo homem que meteu Portugal na fotografia que marcou a decisão de atacar o Iraque por causa de umas armas de destruição maciça que nunca foram descobertas; com os tristes e dramáticos resultados conhecidos.

E o país lá se ia habituando ao homem.

Eis quando, em boa hora (para ele e quiçá para o país), trocou o lugar para que foi eleito pela maioria dos portugueses eleitores por um posto de “alto funcionário” nomeado pelas grandes potências europeias. Assim ficando bem patente a importância que o país lhe merecia. Convém recordar que outros primeiros-ministros em exercício recusaram o lugar, mas D. Barroso fazia saber que o país ficaria bem servido consigo a dirigir a Comissão Europeia. E muitos até acreditaram.

Com a anuência do então Presidente da República J. Sampaio, o lugar foi passado a um personagem não eleito para o cargo – Santana Lopes. Felizmente que Sampaio rapidamente se arrependeu do erro e convocou eleições.

Ocupado o lugar no olimpo europeu, D. Barroso dirigiu uma Comissão que perdeu em quase tudo o que havia para perder. A iniciativa da Comissão foi sempre obnubilada pelas iniciativas de outros protagonistas do firmamento da UE. O protagonista mais recente foi o BCE dirigido por M. Draghi com os seus programas de compra de dívida que inverteram o caminho de estouro do euro. Longe iam os tempos do prestigiado J. Delors.

Chegada a crise das dívidas soberanas e os “resgates” da Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha, a Comissão de D. Barroso foi sempre mais papista que os papas do FMI e do BCE. De entre os parceiros da troika foi a Comissão Europeia quem sempre primou por exigir mais austeridade em cima da austeridade. Cortes em cima de mais cortes. Que então foi esse português mais que um porta-voz da chanceler Merkel? Qual o seu contributo para proteger os portugueses da hecatombe que sobre eles se tem abatido?

Veio agora o “florentino” – como alguns dos seus admiradores lhe chamam – recordar que chamou três vezes V. Constâncio, então Governador do Banco de Portugal, para lhe perguntar sobre o que se passava no BPN. Se o regulador pecou por ausência, que fez ele, o “florentino”, então chefe do governo e líder da maioria, para investigar as suspeitas que já então se manifestavam?

Está pois na hora de os portugueses lhe fazerem algumas perguntas que ficaram por fazer. Por isso nada melhor que ser ele o candidato da Direita. Ou será que o “florentino” irá adiar o momento de glória a que julga ter direito por medo desse julgamento? Para já anda a apalpar o terreno.

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Eleições francesas: Inverno ou Primavera?

Pode a eleição presidencial francesa contribuir para uma mudança na orientação política europeia?

A eventual derrota de Sarkozy (27,18%, na primeira volta) em 6 de Maio pode ser um factor de viragem política na Europa. Não só pelas posições que uma nova liderança francesa pode trazer para o centro da decisão da UE, caso F. Hollande (28,63%) confirme o que tem vindo a afirmar publicamente, como também pela indução de efeitos políticos noutras geografias da Europa comunitária.

Mas, para chegar ao poder, o socialista Hollande terá que congregar muitos votos agora expressos noutras candidaturas. Nomeadamente nas do centrista  François Bayrou (9,13%) e de Jean-Luc Mélenchon (11,11%) da Front de Gauche dinamizada pelos comunistas do PCF, área política que atinge o seu melhor resultado dos últimos trinta anos. E esperar que o eleitorado de Marine Le Pen (17,9%) não se desloque massivamente para F. Sarkozy.

Paris e Berlim constituem, desde há muito, o eixo histórico de decisão da política europeia. Para o bem e para o mal. A França, país com um histórico de império que continua a alimentar, pretende-se uma potência determinante no espaço internacional – continua, aliás, sem que se perceba exactamente porquê, a ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Nessa velha tradição o presidente francês N. Sarkozy tudo tem feito para manter o seu país na linha da frente da capacidade decisória da UE. Ou pelo menos na aparência dessa capacidade. Tudo tem feito para ficar “na fotografia” das principais decisões.

Sarkozy e Angela Merkel, ultrapassando todos Estados nacionais da União, trataram de reunir sucessivas vezes, ao arrepio de todas as boas práticas para a realização de consensos, condicionando as decisões colectivas das cimeiras europeias. Assim passando “por cima” da própria filosofia e das normas de decisão da União. Impondo-se mais e mais como um directório.

Mas também há muito que se percebeu que as verdadeiras decisões são tomadas pelo governo alemão, com a chanceler Merkel à cabeça, e pelos banqueiros centrais do BCE. Naturalmente em obediência à ideologia dominante dos sacrossantos interesses dos “mercados”. A própria posição económica francesa tem vindo a enfraquecer, o que já lhe mereceu a retirada do rating de triplo A. E as taxas de crescimento francesas também já viram melhores dias.

Ao que parece os franceses já perceberam que o mediático par Merkozy é muito mais alemão que francês. E começam a preocupar-se com as ameaças que pairam sobre o seu bem-estar. E isso incomoda-os.

Pela primeira vez numa eleição presidencial francesa da quinta República (1958…), o presidente em funções não parte em vantagem. O facto indicia que a maioria dos franceses já não o considera o melhor para lugar. Resta agora a N. Sarkozy tentar o canto da sereia junto do eleitorado de Marine Le Pen, a representante de um perigoso movimento de características nacionalistas e xenófobas que, regularmente, assoma ao primeiro plano da política francesa – em 2002 a presença de J. M. Le Pen na segunda volta das presidenciais forçou mesmo toda a esquerda a votar no gaulista J. Chirac.

Tudo está em aberto para a segunda volta em 6 de Maio. Como se comportarão os eleitores dos candidatos agora afastados? A maior incógnita da eleição será o comportamento dos quase seis milhões e meio de eleitores que agora votaram em M. Le Pen. Eleitores de que N. Sarkozy se tem tentado aproximar com discursos de afirmação nacionalista e algumas medidas de grande impacto mediático como as acções desencadeadas contra comunidades ciganas ou o encerramento temporário de fronteiras. Ou ainda a polémica contra hábitos culturais de comunidades magrebinas.

Serão duas semanas vertiginosas, seguidas com interesse por toda a Europa.

É grande a expectativa sobre os efeitos na Europa de uma viragem política em França. Um movimento que, com a influência de uma grande país, pode criar condições para novas abordagens às crises actuais e em que avultam a há muito discutida e sempre adiada criação de eurobonds, a rediscussão do pacto orçamental europeu que Merkel (acolitada por Sarkozy) se incumbiu de impor à UE.

Uma eleição que nos interessa.

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Política

Ter vergonha

O ministro da Defesa alemão demitiu-se na sequência de acusações de plágio na tese de doutoramento, que já tinham levado a Universidade de Bayreuth a retirar-lhe o grau de doutor.” Aferida com as práticas políticas (mas não só) correntes em Portugal, a notícia ilustra bem a diferença quanto ao conceito de responsabilidade que vigora nos dois países.

Ainda recentemente assistimos, atónitos, a uma das maiores trapalhadas registadas em mais de trinta anos de processos eleitorais: a impossibilidade de milhares de cidadãos exercer o seu direito de voto nas eleições presidenciais. O cerne da questão – a responsabilidade política por um facto da maior gravidade – foi iludido com relatórios técnicos e a demissão de um alto funcionário, um director-geral . A mensagem que se quis transmitir foi a de que os políticos responsáveis não tinham nada a ver com o assunto. Pergunta: o que é que estão lá a fazer? Será que precisamos de Governo?

Fica bem ilustrada a “teoria dos fusíveis”. Antes que o curto-circuito chegue ao quadro principal, o ministro e os secretários de Estado, “rebentam-se” uns quantos fusíveis, no caso um director-geralEstranha-se como o caso não chegou ao porteiro do ministério.

Regressando à Alemanha. Convenhamos que ter no Governo um ministro cuja tese de doutoramento foi plagiada é desprestigiante. Facto, aliás, de difícil compreensão num país berço de tantos génios… A sociedade alemã não gostou e protestou. E os protestos foram ouvidos. Retornando a Portugal. Se formos a atender às habilitações literárias dos nossos governantes, convenhamos que teríamos (como temos tido) muito que sorrir e gargalhar. Claro que não fizemos uma carta aberta dirigida ao nosso chanceler, assinada por milhares de pessoas, nomeadamente professores universitários e alunos de doutoramento, como os alemãos fizeram. A quem a dirigiríamos? Limitámo-nos a sorrir e a contar umas anedotas.

Mas não será muito mais grave ter governantes que são (ir)responsáveis por perturbações e danos muito maiores, como é o caso do ministro da administração interna?

A conclusão é que temos ainda um longo caminho a percorrer em matéria de decência e de respeito pela coisa pública e pelos lugares públicos. Era bom que os nossos governantes fizessem algum benchmarking com os exemplos que lhes chegam da Europa.

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Geral

E não se demite?

Milhares de eleitores em todo o país foram impedidos de exercer o seu direito de voto na eleição presidencial devido a problemas surgidos com a respectiva identificação nos cartões de cidadão. Cidadãos que, em número ainda indeterminado, pretendiam exercer um direito constitucional básico. Por saber está o respectivo impacte na taxa de abstenção.

Não se compreende porque é que os responsáveis políticos pelo processo eleitoral ainda não apresentaram a demissão ou não foram demitidos. Se há responsabilidades técnicas – e havê-las-ão, certamente, investigue-se e penalize-se! – há uma responsabilidade superior, de natureza política. Alguém no Governo tinha a competência e a obrigação institucional de velar pelo regular funcionamento do sistema. Ou para que servirão ministros e secretários de Estado?

O que aconteceu foi demasiado grave para passar em claro. Porque coloca o país quase ao nível do que vemos em lugares com incipientes instituições democráticas, onde grupos de observadores internacionais têm que se deslocar para verificar se todos os eleitores puderam votar.

Seria uma boa noticia para a democracia e para a credibilização do funcionamento do Estado se os responsáveis políticos por esta trapalhada assumissem – e antes de todas as “razões técnicas” – a responsabilidade pela gravidade do que aconteceu. Senhor Ministro da Administração Interna demita-se!

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Política

Presidenciais: “os erros pagam-se”

Mais do mesmo. Sem surpresas, Cavaco Silva cumpre a tradição de reeleição do Presidente em funções à primeira volta e Manuel Alegre, apesar dos importantes apoios partidários de que dispunha, vê esfumar-se, com uma pesada derrota, a sua última oportunidade de ocupar o lugar. A disputa de uma segunda volta era praticamente a única dúvida destas eleições.

A maior surpresa veio de Fernando Nobre, o aliado estratégico de Cavaco contra Alegre, que se posicionou com a postura utilizada pelo socialista nas presidenciais de 2006, a do enfant terrible empunhando a bandeira da cidadania, que apimentou com um discurso anti-partidos. José Manuel Coelho, o one man show, foi outra surpresa. Francisco Lopes logrou segurar o tradicional eleitorado comunista, a quem, aliás, a sua candidatura era destinada, mantendo a importância política do PCP.

Com a sua proverbial sobranceria e partindo com a vantagem de quem ocupa o lugar, Cavaco Silva passou pelos “casos” pessoais da campanha (SLN/BPN, casa de férias) com olímpica indiferença e sem explicações. Foi a sua estratégia de contenção de danos. Contou, como sempre, com uma “imprensa muito suave“, como ele próprio caracterizou os media portugueses no telegrama da embaixada dos EUA citado pelo Wikileaks; uma imprensa rapidamente levada “às cordas” pelo estigma da honestidade do homem e da superior importância dos “temas sérios” – como se a demonstração da seriedade dos candidatos não fosse a pedra de toque da sua seriedade enquanto políticos.

Em 2010, tal como em 2006, o PS partia para a campanha com a estratégia condicionada. “Os erros pagam-se”, como ouvimos sabiamente a Almeida Santos durante a campanha. O ciclo presidencial 2006-2016 ficou definido quando o PS patrocinou a candidatura de Mário Soares contra o seu camarada Manuel Alegre. Agora foi apenas o segundo acto de um libretto que já se conhecia. E, assim, um país sociologicamente à esquerda elege um Presidente oriundo da direita.

O que já se esperava:

A abstenção. Confirma-se que quando um Presidente em funções se recandidata para um segundo mandato a abstenção aumenta significativamente. Não há para o eleitorado a percepção de que esteja, de facto, uma mudança em perspectiva. Já em 2001, aquando da reeleição de J.Sampaio a abstenção tinha atingido 50,29%. Valor agora ampliado, embora esteja por perceber o impacte que as dificuldades e confusões registadas nas mesas de voto e que impediram um número indeterminado de eleitores de votar.

Resolvido à 1ª volta. Era a única verdadeira dúvida destas eleições, embora os estudos de opinião indicassem já a grande probabilidade de a eleição ficar resolvida no primeiro turno.

O resultado de Cavaco Silva. Apesar de reeleito, Cavaco Silva (52,94%) fica abaixo do valor registado por Jorge Sampaio (55,55%) aquando da sua reeleição em 2001. É, aliás, um dos mais baixos resultados obtidos em reeleições por presidentes em funções. Tal facto não deixará de lhe ser apontado. Contudo, ganhou em todos os distritos do país, incluindo Beja, que lhe havia fugido há cinco anos.

Francisco Lopes, o candidato do PCP. O Partido Comunista mantém intacto o seu peso eleitoral. Com 7,14% e mais de 300 mil votos ultrapassa os valores que obtivera com António Abreu (223.196 votos, 5,16%) aquando da reeleição de J.Sampaio em 2001. Embora também afectado pela abstenção, se considerados os valores da primeira eleição de Cavaco Silva, quando Jerónimo Sousa atingiu 474.083, 8,64% dos votos expressos.

As surpresas

O funcionamento do sistema eleitoral foi a maior de todas as surpresas. Inúmeros eleitores com cartão de cidadão não puderam votar um pouco por todo o país. Problemas nos sistemas informáticos do Ministério da Administração Interna mostraram falhas que já não se viam desde há muitas eleições.

A dimensão da derrota M. Alegre. Perdido que foi o efeito-surpresa conseguido nas anteriores presidenciais, viu parte do eleitorado do seu partido (e porventura dos seus votos de 2006) desertar para outras candidaturas, nomeadamente a de F.Nobre. O grupo soarista, que nunca lhe perdoou a afronta, reservou-lhe um “cá se fazem, cá se pagam”, num estilo de vingança servida fria. O patrocínio do PS e do BE condicionou Alegre, levando-a a algumas hesitações, casos do orçamento de Estado para 2011, do BPN, dos apoios públicos ao ensino particular e cooperativo e, em geral, todas as questões em os partidos seus apoiantes divergissem. Cavaco e F. Nobre incumbiram-se, com a cumplicidade de diversos dirigentes socialistas, de o empurrar para a esquerda, daí resultando a sua perca nos sectores centrais. Fica por avaliar o impacte em futuros entendimentos entre o PS e o BE.

Os resultados de Fernando Nobre e de José Manuel Coelho foram as maiores surpresas em termos numéricos. Representam, de certa forma, o voto anti-partidos. A significativa dimensão do voto em F.Nobre, 14%, augura que poderá ser tentado a fazer um percurso político; na linha das experiências (falhadas no passado) do PRD eanista ou do mais recente movimento alegrista. José Manuel Coelho foi um eficaz fenómeno comunicacional, recorrendo a uma linguagem irónica, fluída e directa, servida com técnicas de agit-prop (vide a entrega da miniatura de um submarino na sede do CDS e similares) potenciadas pela imagem televisiva.

A votação na Madeira. O mesmo J.M.Coelho, com 39,01%, consegue uma votação impressiva na Madeira. Alberto João Jardim que se cuide porque tem agora um adversário de peso pela frente. Uma verdadeira bipolarização que colocou todos os outros candidatos com votações inexpressivas.

Outros. Resultados em Setúbal. C. Silva ganhou em todos os concelhos do distrito (em Alcácer do Sal, curiosamente, apenas por mais um voto sobre F. Lopes). Ganhou também em todas as freguesias de concelho de Setúbal… com excepção do Sado, onde ficou em terceiro lugar, atrás de M.Alegre (1º) e Francisco Lopes (2º).

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Política

Um presidente e um partido

O acto eleitoral do próximo domingo irá determinar quem será o presidente da república durante cinco anos.

É muito provável que Cavaco Silva seja eleito à primeira volta e isso não constituirá grande novidade.

Mas, para além disso, o que trarão de novo as próximas eleições?

É sempre arriscado fazer previsões. Por isso alguns só arriscam fazê-las à segunda-feira. Mas, mesmo correndo o risco de inoportunidade e impertinência, considero provável que as três grandes consequências políticas destas eleições poderão ser as seguintes: o final do crescendo do fenómeno bloquista, a entrada da era Sócrates na sua etapa final e o nascimento de um novel PRD, o do século XXI.

Sem grandes considerações acerca das duas primeiras hipóteses, dizer, no entanto, que, ficando mais próximo o fim do ciclo de governação do partido socialista, isso não se consumará no curto prazo, porque, para os grandes interesses económicos e financeiros, continuará a ser importante ter em funções a dupla Cavaco-Sócrates.

Se Fernando Nobre vier a ter um resultado com dois dígitos será muito difícil não ocorrerem movimentos políticos e sociais no sentido de capitalizar e cristalizar, sob a forma de uma organização tendencialmente partidária, as sinergias formadas e as esperanças acumuladas na presente campanha.

Esta aparição partidária seria paradoxal, porque, na génese deste novo “PRD”, esteve um homem que tanto zurziu o outro: Mário Soares!

E significará outro paradoxo: muitos dos desiludidos com a deriva alegrista do BE, poderão ter um novo espaço para empregarem as suas energias militantes. Exactamente ao contrário daquilo que alguns previam: cavar na crise e encher o BE com o desencanto dos militantes socialistas de “esquerda”.

Sendo Fernando Nobre um anti-herói com provas dadas em campanhas humanitárias, pode congregar à sua volta muitos dos que, na actual política, criticam a desumanidade e a desonestidade do neoliberalismo executado ao estilo de Sócrates, e que não se reconhecem nem no caldo da esquerda pós-modernista, nem nos populismos de cariz nacionalista e fascistóide. Isto, apesar dos analistas dizerem que a campanha foi um “desastre” devido à falta de “conteúdo” político do candidato.

Tal partido, porém, como outros fenómenos sociopolíticos que se posicionam transversalmente às órbitas históricas e fundamentais, representadas, na realidade portuguesa, pelo PS, PSD e PCP, acabará por ser, mais cedo que tarde, captado e diluído naqueles grandes corpos clássicos.

Foi isso que aconteceu com o PRD, é o que virá a acontecer, parcialmente, com o BE e, mais à frente, com os próprios partidos de causa ecológica.

Mas, entretanto, será interessante ver Fernando Nobre, finalmente, a actuar como político.

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Política

Triste e escavacada campanha eleitoral

O cidadão Cavaco Silva, em 2001, quando já tinha deixado as funções políticas havia 6 anos, comprou 100 000 acções da SLN ao preço nominal de um euro.

Em 2003, continuando sem exercer quaisquer funções públicas políticas, vendeu-as com uma mais-valia de 147 500 euros.

A sua filha fez uma transacção similar no mesmo período.

A SLN- Sociedade Lusa de Negócios era, naquele tempo, uma honorável entidade financeira, que comandava o BPN- Banco Português de Negócios, legalmente constituído e avalizado pelo Banco de Portugal e por todos os centros conhecidos como escrutinadores deste tipo de actividade.

O BPN tinha negócios com centenas de empresas dos mais diversos tamanhos e qualidades, com muitas colectividades sociais, desportivas e culturais, e, ainda, com o estado e com autarquias. Tinha balcões abertos onde entravam milhares de portugueses.

Dado que o BPN e a SLN não tinham as suas acções cotadas na Bolsa, como, aliás, grande parte das empresas portuguesas, as transacções accionistas (ou de quotas) eram feitas, de forma privada, entre quem tinha o poder legal para vender e comprar.

A esmagadora maioria dos cidadãos que, em 2001, tivessem 100 000 euros para investir, não conseguiria comprar acções da SLN, muito especialmente àquele preço nominal  de um euro.

Tal como em muitos outros negócios que hoje se continuam a fazer em todo o lado, só se concretizou aquela transacção especial – devido ao favorável preço nominal praticado – porque a administração da SLN (e do BPN) e o cidadão Cavaco Silva se entenderam. Continuar a ler

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Política

É chato…

Manuel Alegre tem razão. O anúncio em que o BPP se aproveita de um texto do poeta que quer ser presidente não pode, de forma alguma, ser comparado com as alegações feitas a propósito dos investimentos acionistas de Cavaco. Comparar as duas coisas é como comparar a Feira de Castro com o olho do c… Mas que é chato ter aparecido no anúncio, lá isso é.

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Geral, Política

Eleições? Para Presidente?

Zé Povinho sem albarda, um sonho desenhado por Rafael Bordalo Pinheiro

A eleição presidencial deveria ser entusiasmante.
Em primeiro lugar, porque é a única eleição uni-pessoal do sistema eleitoral português; o eleitor escolhe directamente um candidato e não um partido (ou um grupo de cidadãos, no caso das autárquicas) que apresenta uma lista que pode ter pessoas de quem se não gosta.
Em segundo, porque o Presidente da República tem uma legitimidade extraordinária que lhe advém justamente do facto de ser eleito directamente por voto de todos os eleitores e sem intermediação de assembleias. Isto é, a relação dos eleitores com o Presidente não é intermediada – o que aumenta o seu poder simbólico perante a nação, que vê ele o último recurso do sistema político.

Mas a presente eleição presidencial é tudo menos entusiasmante. Porquê?

Primeiro. O país está mergulhado numa profunda crise económica e financeira, com profundo impacto na vida das pessoas. As preocupações da maioria estão longe das questões eleitorais, a que se juntam o descrédito e o desprestígio dos agentes políticos – ou, pelo menos, dos que compõem o sistema de poder – considerados responsáveis pelo actual estado das coisas. Os debates televisivos têm tido audiências quase insignificantes. Não é de excluir um elevado nível de abstenção.

Segundo. Instalou-se a convicção, fundada na história presidencial dos últimos trinta anos, de que os presidentes em funções fazem sempre um segundo mandato. Foi assim com R.Eanes, M.Soares e J.Sampaio. Tornou-se prática os Presidentes da República fazerem um primeiro mandato “sereno”, cinzento, sem grandes ondas e facilitador das opções dos Executivos, com o objectivo de garantir uma reeleição serena. Mário Soares, quando Presidente, foi reeleito com os votos do PSD de Cavaco Silva… O próprio sistema de eleição universal e directa, pela sua personalização, é propício à reeleição. E o actual presidente A. Cavaco Silva está agora nessa etapa.

Terceiro. A escassa perspectiva de uma segunda volta. Nenhum estudo de opinião aponta para a possibilidade de uma segunda volta. O que pode também contribuir para alguma desmobilização de partes do eleitorado. Qualquer hipótese de derrota de Cavaco Silva passa por uma segunda disputa, em que a chamada “grande esquerda” concentre o voto num único candidato – à semelhança do que aconteceu com Soares em 1986. Essa é a estratégia de Alegre. Mas seria possível repetir o contexto de “mobilização geral” dessa “grande esquerda” 36 anos depois da revolução dos cravos e afastado que está o espectro do regresso ao fascismo que esteve na base da derrota de Freitas do Amaral em meados de oitenta? Que outro factor de dramatização pode criar esse efeito.

Os candidatos.

O recandidato Cavaco Silva tentou passar incólume neste primeiro mandato, não se expondo, quase sempre secundando as opções do Executivo. Enfim, seguindo o “manual” da reeleição; é co-responsável pelo estado da nação (como já aqui expus).

O também recandidato Manuel Alegre perdeu o elan com que saiu da última eleição presidencial, esmagado pelas contradições entre ter um pé numa margem (PS e Governo) e o outro pé na outra margem (BE, oposição). Para agravar a sua situação, o sector soarista, ressabiado com a humilhação que infligiu ao seu chefe em 2006, mudou-se, de forma mais ou menos assumida, para as bandas de out-sider Fernando Nobre. Candidato que, curiosamente, pretende agora assumir a vertente descomprometida que Alegre assumiu em 2006. Factor a suscitar a curiosidade será o resultado deste candidato, cujo discurso parece querer apelar à postura de M. Alegre nas últimas presidenciais.   Continuar a ler

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Geral

Os disfarces de Cavaco

Cavaco Silva especializou-se, logo nos tempos em que foi primeiro ministro, no papel de lobo disfarçado de cordeiro e, já como Presidente da República, continua a aperfeiçoar a técnica e a colher alguns distraídos.

O homem que diz que apenas foi ao congresso do PSD na Figueira da Foz para fazer a rodagem do Citroen , cedo começou a espalhar o boato de que havia, no país, duas classes de dirigentes partidários: os que são políticos e ele.

Cavaco, santificado como homem providencial pelos que têm sempre muito a perder, nunca foi um político, assim como Salazar nunca deixou que o confundissem com essa classe. Cavaco é um governante, não alinha em politiquices. Isso é para os outros. Diz ele..

O ataque permanente à classe política, e não às políticas que se praticam a cada momento, é o pior serviço que se pode prestar à democracia. Assim nascem ditaduras, assim nascem ditadores. Cavaco, talvez porque sempre tenha aspirado a ser mais do que um governante em democracia, cultiva, com alguma eficácia, o discurso de permanente ataque aos políticos, que são sempre os outros, fazendo crer que ele está acima de tudo isso. E agora ainda nos quer fazer crer que não foi primeiro ministro dez anos, que muitas das responsabilidades do estado a que chegámos não são dele e dos seus ajudantes…

A hipocrisia do discurso praticado por Cavaco Silva há mais de 25 anos, ele que é o mais perfeito produto da política e dos partidos, continua a render. Mas já muitos viram que a pele de cordeiro lhe está a cair.

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Geral

NÃO!

Uma mentira muitas vezes repetida torna-se verdade. Será assim enquanto deixarmos que seja assim. Repetir muitas vezes a mesma coisa também funciona. Primeiro estranha-se depois entranha-se, diria o Fernando Pessoa. Vezes sem conta ouvimos elogios a Cavaco Silva atribuindo-lhe qualidades que não tem. Esperam que funcione.

Ainda ontem, no debate com Francisco Lopes, depois de o ouvirmos debitar uma gaguejante cassete, sempre a fugir a sete pés com o que Francisco Lopes, fundamentadamente, o atacava, houve quem considerasse que o professor tinha tido uma boa actuação.

Fez um inacreditável elogio da cobardia “ se alguém insultar os mercados internacionais vai haver prejuízo para a economia nacional”. Os comentadores do costume não ficaram nauseados por ter um presidente, um candidato a presidente, que publicamente se dispõe a andar de cócoras e de calças na mão perante dos mercados. Provavelmente alguns até consideram que o professor estava a dar uma lição. E estava. Estava a explicar o manual de como bem servir os senhores, com salamaleques e espinha bem curvada, enquanto eles nos mijam em cima. Um nojo.

Nada disso interessa quando os vendidos ao poder ocupam praticamente todos os espaços da comunicação social, asfixiando o pensamento crítico. Repetir, repetir sem parar as mesmas banalidades, as mesmas receitas, para inventar um perfil em quem não tem nenhum. Até querem fazer passar a ideia que Cavaco Silva tem boa imagem quando é de toda a evidência que a sua melhor imagem rivaliza com a dos piores manequins da rua dos fanqueiros.

Querem colar à força o selo de homem impoluto. No debate, quando confrontado com as negociatas do universo BPN, o banco que financiou a campanha eleitoral anterior e onde pontificavam seus amigos do peito, deu uma resposta finória, reprodução do comunicado que a Presidência da República fez quando estourou o escândalo BPN: “nada tenho a ver com o BPN” etc.

Impoluto?

Ano 2001

Cavaco Silva e a filha compraram, por um euro acção, 264 mil acções da SLN, detentora do BPN, acções que não eram cotadas em Bolsa?

Como é que foi fixado o preço de 1 euro por acção, se as acções não eram cotadas?

Ano 2003

Expresso on- line: «Cavaco Silva e a filha deram ordem de venda das suas acções, em cartas separadas endereçadas ao então presidente da administração da SLN, José Oliveira Costa. Este determinou que as 255.018 acções detidas por ambos fossem vendidas à SLN Valor, a maior accionista da SLN, na qual participam os maiores accionistas individuais desta empresa, entre os quais o próprio Oliveira Costa.» Continuar a ler

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Geral, Política

E o que é que ele tem a ver com isto?

Cavaco Silva anunciou a sua recandidatura, o segredo de polichinelo mais mal guardado dos últimos tempos. Há quatro anos elegemos o candidato Cavaco Silva com base no seu curriculum. Isto é, alguns incumbiram-se de nos chamar a atenção para as ilustres qualidades profissionais e académicas do antigo primeiro-ministo (durante quase-quase 10 anos) de professor de finanças e economia. Diziam-nos que tal seria uma mais-valia para um país`sempre à beira da crise. Alguém que não iria governar, mas que podia dar bons conselhos e instar o jovem Sócrates a trilhar “bons caminhos”.

E agora, que estamos como estamos, a galope para o empobrecimento, pergunto, de que nos valeu tão ilustre curriculum? Seria diferente se estivesse lá um poeta, um economista, um advogado, um professor universitário… ou um operário (o Brasil tem um)? Ninguém, em boa verdade, sabe responder. Mas sabemos o que se passou. Cavaco Silva, o Presidente da República, foi como os outros presidentes no primeiro mandato. Resguardou-se. Evitou polémicas que o pudessem desgastar. Mesmo contra a sua consciência, caso do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Preparou o terreno para um quase certo segundo mandato – assim manda a tradição, dois mandatos (até prova em contrário) para cada “Primeiro Magistrado da Nação”. Seriam três ou quatro se não houvesse limitação de mandatos. Coisas que merecem a nossa reflexão.

Será que, à semelhança dos antecessores, estará Cavaco à espera do seu segundo mandato para mostrar a sua natureza “executiva”? Se não, o que se terá passado neste mandato: hipóteses 1ª) O primeiro-ministro e o governo não atenderam à “discreta magistratura de influência” do Presidente, como C.S. gosta de propalar; 2ª) Os primeiros atenderam ao segundo mas os efeitos foram os que estão à vista.

Qualquer que seja a explicação o actual Presidente é co-responsável pela actual situação: dez anos primeiro-ministro (quando deixou o cargo, em 1995, o deficit público era de 5% do PIB), mais um ano como ministro das finanças do governo AD em 1980/81 e quatro como Presidente (desde 2006). São 15 anos de Poder, a caminho de 20. E não tem nada a ver com isto?

Será que foi essa má consciência que o levou a dizer, na declaração desta noite, que o que o move é a “consciência da gravidade dos problemas”.

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