economia, Política

O Burro do Cigano

É impossível descortinar qual vai ser o desempenho político do novo presidente francês escassas horas depois de ter tomado posse, mas é importante destacar que elegeu a justiça como principal tema do discurso inaugural da sua presidência.

O interessante é perceber de que justiça fala o novo presidente. Para Hollande, a justiça está na “repartição dos esforços”, o que significa que “não pode haver sacrifícios sempre para os mesmos”. E acrescentou: “este vai ser o sentido das reformas do Governo”.

A declaração, simples mas verdadeiramente importante no atual contexto de ferozes políticas de austeridade, das quais está arredado o investimento, em particular o público, tão diabolizado nos últimos dias pelo nosso ministro Gaspar das Finanças, devia ser ouvida com atenção na presidência portuguesa do Conselho de Ministros. Devia, mas dificilmente será, porque já todos percebemos que há ali um sério problema de ouvido, que o mesmo é dizer, uma séria incapacidade de entender o que é esta justiça de que fala Hollande. De que muitos falam há muito em Portugal, muito antes de Hollande acordar para a política… Ainda assim, é bom que haja alguém na Europa que finalmente amplifique esta ideia e que lhe dê a dimensão de que necessita.

Percebe-se melhor esta incapacidade quando lemos nos jornais que os salários dos gestores das principais cotadas na bolsa de Lisboa não seguiram a tendência geral de perda de rendimentos que se verificou em 2011. As remunerações dos presidentes executivos destas vinte empresas aumentaram Continuar a ler

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justiça

O Pagode da Justiça!

Isaltino Morais está mais que condenado pelos crimes que cometeu e que conseguiram ser provados, o que não foi tarefa fácil. A partir da condenação, recursos somam-se a recursos seguindo um programa estabelecido para esgotar o calendário até os crimes prescreverem e evitarem a prisão. Quer dizer, quando o último recurso possível for indeferido, confirmando os crimes que conseguiram ser provados, esses mesmos crimes prescreveram. Por mais voltas que se dê, isto é de uma irracionalidade que não dá para entender.

Ninguém de bom senso percebe como é possível o calendário para a prescrição não ficar suspenso enquanto os recursos, sejam da defesa ou da acusação, estão a ser avaliados. Tornando os recursos um instrumento jurídico cuja única finalidade parece ser deixar correr a areia na ampulheta, até se esgotar.
Ninguém percebe como é possível e aceitável aquela enormidade de recursos. Como não se percebe como é possível arrolar números astronómicos de testemunhas para um julgamento se prolongar anos e anos. Como já não se percebe que justiça se pratica, mesmo sabendo que justiça e direito são coisas distintas e que o direito é sempre o direito do mais forte à liberdade.
O que o comum dos mortais vê é um gajo cheio de fome que roube uns pães ser condenado e preso a alta velocidade. Um marmanjo que se banqueteia com o dinheiro dos outros, que chafurda na corrupção ou mesmo que cometa crimes de outra natureza mas igualmente graves, se pagar bem a advogados especialistas em manobras jurídicas acaba por se safar. Ou tem uma enorme probabilidade de se safar com danos mínimos. É filme a que assistimos com um travo de impotência . É o que tem acontecido em todos os casos mais mediáticos. É o que provavelmente irá acontecer com BPN, BPP, Face Oculta e outros que andam a saltar ao pé-coxinho, de recurso em recurso. Continuar a ler

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Geral, Política

Varrer Abril

Num dos seus últimos actos legislativos o governo cessante fez publicar o decreto-lei n.º 70/2011, de 16 de Junho.

Trata-se de um diploma integrado no programa SIMPLEGIS, que faz parte do SIMPLEX, com o qual o XVIII Governo Constitucional pretendia concretizar diversas medidas de simplificação legislativa, com três objectivos essenciais:

i) Simplificar a legislação, com menos leis;

ii) Garantir às pessoas e empresas mais acesso à legislação;

iii) Melhorar a aplicação das leis, para que estas possam atingir mais eficazmente os objectivos que levaram à sua aprovação.

Não todos, mas uma boa parte dos cidadãos têm a ideia de que, não obstante as intenções anunciadas, a justiça piorou em Portugal nos últimos seis anos, tantos quantos esteve Sócrates no governo.

E mais: piorou, não porque os magistrados, advogados, polícias e funcionários judiciais sejam incapazes, ou estejam piores, mas porque através de diversas intervenções políticas menos transparentes se debilitou o estado de direito.

Há quem, com conhecimento de causa, diga que aquelas medidas e atitudes prejudiciais perpetradas por vários agentes aconteceram deliberadamente para dificultar a aplicação da justiça, complicando as leis, fragilizando o sistema e criando intersticios por onde os criminosos se escapam.

Mas, porque se trouxe à colação o DL 70/2011? Continuar a ler

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Internacional

O júbilo da morte

As reacções de júbilo ao assassinato de Bin Laden por forças especiais do exército americano fizeram-me lembrar a célebre frase franquista “Viva la muerte” pronunciada por Milán Astray perante Miguel de Unamuno, na celebrações do dia da raça, na Universidade de Salamanca, em 1936. Ainda que não pareça, dos que rejubilaram com a morte de Bin Laden nas ruas de Nova Iorque e Washington poucos se recordarão de Astray, mas muitos recordarão, porém, Unamuno. Mas não dos seus ensinamentos…

Unamuno teve de recordar ao general Milan Astray que tal frase, pronunciada numa universidade, um “templo de saber” de que ele, Unamuno, era o principal guardião, constituía um “paradoxo ridículo e repelente” e não hesitou em classificar o militar franquista como um “inválido” de guerra, tal como Cervantes foi, mas sem a “grandiosidade espiritual do poeta”.

Na morte de um criminoso como Bin Laden é fácil manifestar júbilo nas ruas; é fácil justificar a morte brutal sem direito a julgamento porque Bin Laden foi responsável pelo mais horrendo atentado terrorista de que há memória. Sem dúvida que não pode haver perdão para Bin Laden e seus seguidores. Mas não pode também haver perdão para os que ignoraram que o primado da aplicação da justiça por um terceiro imparcial tenha sido tão flagrantemente violado. Faltou-lhes a “grandiosidade espiritual” de que falava Unamuno. A grandiosidade que não faltou depois da II Guerra Mundial às forças aliadas e permitiu  julgamento dos criminosos de guerra nazis em Nuremberga.

O mundo mudou, de facto. Mas, ao contrário do que se poderia esperar, está a evoluir mais no sentido do que também Astráy gritou a Unamuno depois de admoestado pelo filósofo: “murte a la inteligência!”

A arrogância americana está a matar a inteligência de gente como Durão Barroso, um dos que reagiu com júbilo à execução de Bin Laden pelos americanos. Provavelmente, será um dos que rejubilará com a eventual morte de Kadhaffi, ainda que já tenha partilhado com ele algumas infusões numa tenda montada no deserto…

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Política

UM PAÍS SEM VERGONHA NEM DIGNIDADE

Selo de Apoio e Solidariedade com os Presos Políticos desenho Eduardo Nery / edição Partido Comunista Português

Amanhã Portugal devia acordar corado pela mais intensa vergonha.

Margarida Fonseca Santos, autora, Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira, ex-directores do Teatro Nacional D. Maria II, vão a julgamento acusados pelos sobrinhos de Silva Pais, pelo crime de difamação e ofensa da memória de pessoa falecida por, no entender da acusação terem denegrido a imagem do último director da PIDE/DGS, com a adaptação teatral que foi feita do livro “A Filha Rebelde”.

Mais uma inominável vergonha nacional!

Depois do 25 de Abril a maioria dos torcionários da PIDE/DGS saíram em liberdade sem uma arranhadela. Os envolvidos em casos mais mediáticos, casos dos assassinatos de José Dias Coelho e Humberto Delgado, apanharam penas levíssimas ou deixaram-nos fugir para o estrangeiro. Pelo caminho ficaram centenas de mortos, milhares de torturados e de presos anos e anos sem saberem quando iriam viver a liberdade possível. Milhares de deportados e exilados.

Depois do 25 de Abril, nos (poucos) julgamentos da pandilha de verdugos, muitas vezes quem era verbalmente maltratado eram as vítimas, para gáudio da escumalha.

A ignomínia foi tal que Cavaco Silva, primeiro-ministro, recusou a reforma por serviços relevantes a Salgueiro Maia, capitão de Abril que cercou e deteve Marcelo Caetano no quartel do Carmo, concedendo-a a dois ex-inspectores da PIDE/DGS. Só por esse acto a sua carreira política num país que tivesse uma gota de dignidade tinha ficado definitivamente acabada! Assim, foi para casa tecer a renda de bilros que acabou por o levar ao cadeiral de Belém, enquanto se entretinha a comprar acções da SLN e do BPN ao seu amigo Oliveira Costa!

Com este passado que humilha a Revolução dos Cravos, não admira que os sobrinhos de Silva Pais, o último director da PIDE/DGS que durante doze anos exerceu zelosamente o seu cargo de torcionário-mor, supervisionando torturas, assassinatos, prisões, venham defender o bom nome do canalha, como isso fosse sequer possível.

País de servos com alma de escravos! País de gente sem coluna vertebral!

Ainda se admiram que votem, maioritariamente, em quem votam!!!

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Geral

Salto à Vara

E vão dois!
depois de Manuel Godinho, o grande industrial, os advogados de Armando Vara, o grande banqueiro, seguem a mesma linha de argumentação, a inevitável anulação das escutas, de caminho,entalam Ana Paula Vitorino que, conjecturavelmente, fará o que eles dela esperam.

Começou a 2º parte do filme Face Oculta. As cenas, e muitos dos actores são os do costume. O Zé Povinho sabe que vai ver o que eles sabem que ele sabe ir ver. Um bródio.

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Costumes, Política

Sempre na Linha da Frente!

No nosso querido Portugal só acontecem coisas que inflacionam o orgulho nacional. Há sempre um português que se distingue e deve ser universalmente conhecido pela sua capacidade de iniciativa, de inventiva, de arrojo, de vencer os momentos de adversidade. São as sequelas da nossa saga de dar novos mundo ao mundo.

Hoje comemora-se o Dia Internacional do Combate contra a Corrupção. Antecipando-se a essa celebração, o empreendedor sucateiro Manuel Godinho, que, presumivelmente (cuidado com a língua!), repito, presumivelmente (não vá o diabo tecê-las), repito mais uma vez, presumivelmente (ufa, já devo estar a salvo de algum mal entendido). andou a corromper meio mundo por todo o país, requereu, através dos seus advogados, a nulidade das escutas em que é o principal protagonista (anular escutas é uma banalidade, é sempre a abrir desde o Apito Dourado) porque os juízes que o mandaram prender preventivamente estão sediados numas terriolas perdidas no centro do país, enquanto ele Godinho andava por todo o território nacional a recolher sucata, a produzir riqueza, a dar emprego a muita gente e a distribuir benesses por muita outra.

Não se admite que uns doutorecos, sentados nos tribunais de Ovar e Aveiro, tenham a pretensão de ultrapassar as suas fronteiras territoriais para perseguir um empresário que, sem sombra de fadiga, percorria Portugal de lés a lés.

Manuel Godinho quer ser o primeiro a apagar as velas do bolo de aniversário do Dia Internacional de Combate à Corrupção, apagando as escutas telefónicas que presumivelmente (já não deve ser preciso repetir) o incriminam.

Juntemos as nossas vozes à do Godinho, cantemos lá vamos cantando e rindo, levados, levados sim, pela voz do som tremendo das tubas clamor sem fim da nosso querido sistema democrático e da política de direita que nos (des)governa há trinta anos.

Não há no mundo um país como o nosso Portugal!

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Geral

Justiça?

O caso Freeport que se arrastou durante quase dez anos em investigações entre Portugal e Inglaterra, com passagem por Haia, um triângulo das Bermudas onde desapareceram todos os presumíveis corrompidos e dinheiro que ninguém sabe onde pára, vai finalmente a julgamento.

Arguidos dois, Charles Smith e Manuel Pedro. São acusados de corromperam uns fantasmas por cujos bolsos circularam milhões de euros de que se perdeu o rasto, e que navegou pelas inevitáveis offshores.

Mais uma curiosidade da justiça portuguesa.

No banco dos réus sentam-se corruptores sem que ao lado esteja alguém que tenha sido corrompido.

Há dinheiro, milhões de euros, utilizados para comprar favores mas não há favores comprados.

Há dinheiro, muitos milhões de euros, que se evaporaram e não se sabe onde voltaram a adquirir o estado sólido.
A única coisa verdadeiramente real e palpável é a existência do Freeport em Alcochete, num território que pertencia a uma Reserva Natural, que foi desanexado dessa Reserva quando o governo estava moribundo e o Ministro do Ambiente e seus Secretários de Estado despachavam já com um pé na rua.

Não houve um golpe de vento senão, enquanto a mãozinha rabiscava a assinatura, iam fazer companhia ao Martim Moniz, ficando entalados na porta do ministério.

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Costumes

O c*r*lho como muleta oratória

A frase do título não é minha, mas gostava que fosse. O autor, um obscuro juiz do Tribunal da Relação de Lisboa descoberto por Eduardo Pitta, acaba de dar uma inestimável ajuda a todos os que, descontrolados em ambientes sociais mais formais, ejaculam precocemente uma sonora caralhada capaz de deixar meio mundo estarrecido pela audácia da ordinarice.

Bem sei que, por esta altura, o ordinarão já sou eu, que, com a que se segue, já aqui postou três caralhadas sem mais nem menos. É do caralho… E vão quatro.

Na verdade, já estou um pouco encaralhado com a quantidade de ordinarice que hoje pus em letra de forma. Nunca me tinha acontecido… Mas não tanta como a que o douto juiz Calheiros da Gama utilizou para encaralhar um sargento que se sentiu ofendido por um subordinado lhe ter pedido para ir , adivinhem… para o caralho.

O juiz considerou que, afinal, a coisa nem sequer é grave e, para isso, gastou uns bons milhares de caracteres a explicar que não tem mal nenhum um subordinado enviar o seu superior hierárquico, neste caso um sargento, para o caralho. O que nos alivia sobremaneira, pois agora, sempre que aqueles senhores guardas nos mandarem parar na estrada, ou porque não temos a lâmpada do pisca a piscar ou o farol não alumia convenientemente ou outra parvoíce qualquer, podemos sempre enviar o senhor para aquela grande reserva onde se se encontra já o tal sargento. Não faz mal nenhum…

Escreve-se no sumário do acórdão do douto juiz que a «palavra “caralho”, proferida por militar (Cabo da Guarda Nacional Republicana), na presença do seu Comandante, em desabafo, perante a recusa de alteração de turnos, não consubstancia a prática do crime de insubordinação por outras ofensas, previsto e punível pelo artigo 89º, n.º 2, alínea b), do Código de Justiça Militar. Será menos própria numa relação hierárquica, mas está dentro daquilo que vulgarmente se designa por “linguagem de caserna”, tal como no desporto existe a de “balneário”, em que expressões consideradas ordinárias e desrespeitosas noutros contextos, porque trocadas num âmbito restrito (dentro das instalações da GNR) e inter pares (o arguido não estava a falar com um oficial, subalterno, superior ou general, mas com um 2º Sargento, com quem tinha uma especial relação de proximidade e camaradagem) e são sinal de mera virilidade verbal. Como em outros meios, a linguagem castrense utilizada pelos membros das Forças Armadas e afins, tem por vezes significado ou peso específico diverso do mero coloquial».

Só agora me apercebo de como seria bom que se pudesse usar o caralho, sistematicamente, como muleta oratória. Mas, que caralho, as pessoas poderiam ficar ofendidas…

Ora então tomem lá um belo pedaço de oratória, extraído do site do Instituto das Tecnologias de Informação na Justiça, e se quiserem mais instruções jurídicas, directamente da Relação de Lisboa, como usar a a muleta, vejam aqui o acórdão do TRL:

Segundo as fontes, para uns a palavra “caralho” vem do latim “caraculu” que significava pequena estaca, enquanto que, para outros, este termo surge utilizado pelos portugueses nos tempos das grandes navegações para, nas artes de marinhagem, designar o topo do mastro principal das naus, ou seja, um pau grande. Certo é que, Continuar a ler

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Política

Leis à medida

O Governo entregou a um dos seus consultórios de advogados preferidos, a Sérvulo e Associados, mais um trabalhinho por 42 mil euros, certamente porque nos gabinetes do Estado não existem juristas qualificados. A tarefa de produzir um projecto de diploma sobre arbitragem fiscal foi parar às mãos de um doutor de nome Leite de Campos, por sinal filho do outro doutor Leite de Campos que anda por aí a lançar tiros de pólvora a torto e a direito na discussão orçamental.

Depois de aturado esforço, o que saiu das mãos dos brilhantes doutores privados a quem o Estado entrega a missão de produzir a legislação pública foi a singela proposta de criar uma justiça fiscal para ricos e pobres. Ouvidos os interessados na matéria – que se adivinha, sem dificuldade, quem são – o que saiu do escritório dos senhores advogados foi uma proposta em que se criavam dois tipos de tribunais, como revela o jornal “Público”: um comum para pequenos casos com árbitros do Centro de Arbitragem Administrativo do Ministério da Justiça, e um tribunal especial para grandes contribuintes, grandes empresas, com árbitros indicados pelas partes, que poderiam dirimir tanto questões de facto como de direito. (Já agora, o que são grandes contribuintes? É que eu já me considero um grande contribuinte, com a expectativa assegurada de vir ainda a contribuir mais em 2011 para os cofres do fisco)

Não fosse ter saltado ao caminho o pessoal do sindicato dos trabalhadores dos impostos, que detectaram a marosca a tempo e horas e lançaram o alerta, e a coisa teria já pernas para andar. O Governo, acabrunhado por ter sido apanhado com a boca na botija, tratou de pegar na proposta privada e lá lhe fez umas (profundas) modificações que tornam a coisa menos escandalosa. Entretanto, voaram 42 mil euros para pagar uma lei encomendada a juristas ao serviço dos interesses dos que procuram sempre arranjar formas de criar mais buracos nos crivos fiscais.

Esta pequena história revela uma enorme quantidade de coisas sobre o funcionamento deste Estado de Bloco Central patrocinado pelos gémeos PS e PSD. Uma delas é que a elaboração de leis que deviam defender o interesse público foi parar às mãos dos que defendem interesses privados, num perfeito exemplo de promiscuidade, da total subversão do Estado de Direito e de distorção do funcionamento da democracia. Nada que não saibamos, mas que não deixa de criar alguma perplexidade quando é exposto tão cruamente, como neste caso. Quantas destas brilhantes leis, talhadas à medida dos fregueses que as encomendam e salpicadas de vírgulas e pontos oportunos andarão pelas páginas do Diário da República? A outra é que, quando se fala de desperdícios do Estado, talvez seja por aqui que se deve começar a cortar, e não nos salários daqueles que não têm mais meios de subsistência que não o dinheiro que recebem no fim do mês. Será difícil, bem sei, porque depois já não haverá tantos lugares para ocupar nos escritórios privados quando se acaba a festa no Governo. Mas não custa nada tentar…

O povo agradecia.

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Política

A Verdade da Mentira/A Mentira da Verdade

Teresa Lewis, nos Estados Unidos da América, e Sakinah Mohammadin Ashtiani, no Irão, têm vários pontos em comum. Foram ambas acusadas de, em colaboração com os seus amantes, terem assassinado os respectivos maridos. Foram ambas condenadas à morte e viram os seus recursos recusados. Hoje, se não houver um perdão de última hora, Teresa Lewis será executada. Sakinah continua em prisão.
Aparentemente são, no essencial, processos muito semelhantes. O tratamento dos dois casos pela comunicação social e a sua repercussão até ao nível da política internacional é que é completamente diferente. Merece reflexão.

Em primeiro lugar em nenhum lado se lê, ouve, ou vê qualquer ansiedade com a pena de morte continuar a ser prática comum em muitos países, o que deveria estar no topo das preocupações de todos, particularmente, de quem opinou e opina sobre esses dois casos.

Em segundo lugar as notícias sobre Teresa Lewis, muito mais escassas e com muito menor relevo, detém-se, sobretudo, em minudências. Em quase cem anos é segunda mulher condenada à morte no estado da Virgínia, segue-se o descritivo do crime e do processo. Nada que provoque alarme.

Sakinah rapidamente se tornou em arma de arremesso contra o Irão, metendo ao barulho primeiros-ministros, em particular Sarkozy,  um filósofo e ensaísta, Bernard-Henry Levy, célebre não só pelas causas públicas que defende como por ter sido vítima e promotor de fraudes filosóficas. Abaixo-assinados, manifestações, oferta de asilo feito por Lula, tudo ao som dos tambores da comunicação social. Objectivo salvar Sakinah de ser morta por lapidação pelo crime de adultério, como está disposto na Sharia.

Começa por ser extraordinário que nenhum jornalista cuide de saber que a República Islâmica do Irão aboliu a morte por lapidação, comum no tempo do Xá, em 2002. Em 2001 a morte por lapidação tinha sido suspensa por moratória mas, num distrito iraniano de maioria sunita, os juízes de um caso de pedofilia condenaram à morte por lapidação um homem, o que provocou um intenso debate nacional. Isso depois de no Irão a lei religiosa ser separada da lei civil, e a Sharia deixar de ser utilizada para julgar qualquer crime. Registe-se que, mesmo na Arábia Saudita, provavelmente o país mais rigoroso na aplicação da Sharia, apesar de beneficiar do silêncio garantido pela amizade visível com os EUA e enviesada com Israel, a morte por lapidação, mais vulgar nos países e distritos sunitas e mais rara nos xiitas, já tem sido, nos últimos anos, pouco utilizada. O que deve continuar a ser veementemente condenado. Se a pena de morte é uma barbárie, a morte por lapidação é uma crueldade inominável.

Pior é alterarem o crime, de assassinato para adultério, para o mundo inteiro lapidar virtualmente o regime iraniano. Não são poucos os pontos em que o Irão merece e merecerá crítica, mas alterar a verdade tão grosseiramente deve ser denunciado. Tem um objectivo político preciso e acaba por provocar uma sistemática e generalizada atitude de dúvida que empurra para a beira do abismo de se considerar que toda a comunicação social é lixo. Em assinalável percentagem, é lixo e lixo tóxico, mas mesmo no lixo é possível encontrar raridades.

Ao ler estes casos devem-se colocar sérias questões. De quantas verdades se faz uma mentira. Quantas mentiras destroem a verdade. Em quantas coisas acreditamos e são mentira. De quantas coisas duvidamos e são verdade. Até que ponto estamos intoxicados, sem ter capacidade para o perceber. Somos vítimas sistemáticas da propaganda, tal e qual como o seu inventor, um think-tank democrata, um elitista liberal norte-americano (*), teorizou quando explanou a tese da “validade e interesse de manipular a opinião pública em democracia” afirmando que se devia “construir o consenso público” engendrando “falsas realidades” que, posteriormente, se devem transformar em “eventos noticiosos”. Teoria imediatamente adoptada e amplamente disseminada e estudada nas agências governamentais norte-americanas.

Diariamente disparam sobre nós essas balas. Sakinah é uma delas. Muitas vezes nem sequer nos apercebemos que fomos atingidos. Verdadeiramente trágico é quando já não se sangra!

(*) Propaganda, crystallizing public opinion/ Edward Bernays, Liverright, New York 1928

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Costumes

Casa Pia – A Gaja

Finalmente as quase duas mil páginas do acórdão dos juízes do Processo Casa Pia foram entregues a todos os directamente interessados e tornado público.

Os advogados de defesa, capitaneados pelo inevitável Sá Fernandes, começaram imediatamente a exigir mais tempo para o contestar. Sá Fernandes faz mesmo o favor de dizer que desiste de o impugnar, diz isto sem se rir, certamente para nos fazer rir. Foi um longo o intervalo de tempo entre a leitura da súmula do acórdão e a sua entrega. Vários acidentes sobrepuseram-se, devem ser analisados seria e cuidadosamente para não voltarem a acontecer. Num processo tão mediático corroem ainda mais a imagem da justiça. Foi um período de tempo excessivo aproveitado a todo o vapor pelos intervenientes com mais fácil acesso a uma comunicação social permissiva e ávida pelo acessório onde as questões centrais se diluem. A justiça tem aqui uma grande lição para tirar conclusões urgentes e iniciar práticas que melhorem o seu funcionamento.

Durante esses dias o bombardeamento da esquadrilha Carlos Cruz-Sá Fernandes foi intenso. Eram lançadas bombas por tudo quanto era sítio, para fazer passar a ideia que durante todos estes anos o que existiu foi um combate da palavra de uns contra a palavra dos outros, e que o tribunal acreditou mais nuns que noutros. Pelo que se vai conhecendo do teor do acórdão, isso é uma perversidade com um claro propósito populista..

Para que essa visão redutora fosse incutida na generalidade das pessoas, valeu tudo. Directamente pela referida parelha, indirectamente por todos os que, objectivamente cúmplices da referida parelha mesmo que com ela não tenham o mínimo contacto, se empenharam a difundir essa tese e, lateralmente, atacar a outra protagonista, a juíza Ana Peres.
Com acinte, foram dizendo tudo. Que tinha quatro filhos, o que a ocupava excessivamente. Uma licença de parto. Que não percebia nada de informática. Que tinha a cabeça no casamento da filha ou do filho, para o caso não interessa. Famílias numerosas é no que dá. Só faltou dizer como é que uma gaja com aquela vida  é juíza. De certeza que o que conhece de Códigos são as páginas que passa a ferro, nem tem tempo para mais. Devia era estar em casa a lavar togas.

O objectivo é duma evidência cortante: pôr em causa a capacidade de Ana Peres para presidir ao colectivo de juízes e, por essa via, dinamitar o valor do acórdão.

Quando tanto se fala em igualdade de direitos entre sexos, se fazem leis com quotas, etc., o mais rasca marialvismo salta a terreiro para alimentar o argumentário mais descabelado com propósitos pouco dignos.

Realmente, o lugar das gajas é em casa a coser meias e a pôr as panelas ao lume.

Faltava este selo para colar nessa gente!

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Costumes, Geral

Casa Pia / cenas pouco edificantes

foto publicada no Expresso

Foi anunciado que hoje será finalmente entregue o acórdão do Processo Casa Pia a todos os interessados. Nos entretantos a manipulação da informação sobre o julgamento da Casa Pia ultrapassou o inimaginável e, certamente, irá continuar.

No dia da leitura do acórdão saltaram os advogados de defesa a dizer cobras e lagartos da juíza Ana Peres. Ricardo Sá Fernandes, com o descaramento que se lhe conhece, insinuou de viva voz no tribunal e depois em todos os microfones que passaram no seu raio de acção,  foram muitos, que o acórdão não estava redigido.

Agora, no meio dos abundantes noticiários, sabe-se por uma pequena referência feita por um dos advogados de defesa que a juíza Ana Peres perguntou por duas vezes aos advogados se queriam que ela lesse a totalidade do acórdão. Ao lado da juíza estavam cinco grossos volumes.

Nenhum jornalista registou isso, só agora um jornal referiu esse facto. Ricardo Sá Fernandes é que não perde tempo e a pretexto dos problemas informáticos com a transcrição do acórdão, de que foi avisado pela juíza e que verificou pessoalmente, continua a vociferar: “ Falou de problemas informáticos, de qualquer coisa com a digitalização, não sei. O que é um facto é que, se não tinham o acórdão pronto, mais valia terem adiado a leitura da sentença, qualquer coisa era melhor que isto.” Ele bem sabe que esses problemas não põem em causa a defesa. Os prazos só começam a contar depois de entregue o acórdão a todos os juristas implicados no processo. Homem atento também ouviu a juíza perguntar se queriam que lesse todo o acórdão. Cinicamente fingiu nada ter ouvido, bem sabe que isso lhe daria mais tempo de antena e beneficiaria, em especial, o seu constituinte.

O espaço concedido na comunicação social a Carlos Cruz é escandaloso. A avaliar pela sua prestação nos “Prós e Contras”, — essa maravilha da informação séria, independente, que cuida com desvelo olarilolé a pluralidade de opiniões oralilolá — em que procurou descaradamente, em directo e ao vivo, manipular afirmações de outros intervenientes e usou dados pseudo científicos para tentar descredibilizar a acusação, só quem acredita cegamente que a intuição nunca falha, argumento de elevado teor científico da promotora de um abaixo-assinado a favor do Cruz que agora começou a correr , é que pode acreditar, sem reservas, que ele é inocente.
Cá estamos para ver sem o condenar mas também sem o ilibar até ao fim do processo. Sem histerismos nem argumentações que simulam a dúvida para defenderem sonsamente a tese da inocência dos arguidos.

Vergonhosas, verdadeiramente vergonhosas foram as intervenções do bastonário da Ordem dos Advogados. Falou que se desunhou sobre a não entrega do acórdão, como isso agravasse a situação dos réus, agora condenados em 1ª instância. Depois servia-se da voz tipo adamastor para atacar dois dos principais empenhados na defesa das vítimas dos crimes de pedofilia que ele considerava os poderosos do processo e a quem acusava de ser quem mais aparecia na comunicação social.

Se medirem rigorosamente o tempo de antena, desde o principio da investigação até hoje, duvidamos que Catalina Pestana ou Pedro Namora ocupem os primeiros lugares. Directa ou indirectamente foram sempre os arguidos e os advogados de defesa que ocuparam largos espaços na comunicação social. Se somarmos os tempos entre defesa e acusação, a diferença deve ser abissal. Marinho Pinto, que também faz parte do lote dos assaltantes à credibilidade do processo, é que não tem dúvidas. Mais, denunciando o que supostamente o escandaliza, nunca referiu coisas escandalosas que aconteceram durante a investigação como a da jornalista Inês Serra Lopes, filha de Serra Lopes defensor de Carlos Cruz, ter pago a uma funcionária da RTP, para ir à Polícia Judiciária com uma fotografia de um outro  funcionário da RTP, sósia de Carlos Cruz, tentar baralhar as investigações. A tramóia foi descoberta. Ela foi condenada em todas as instâncias judiciais. Fazer coisa daquelas não lhe retirou credibilidade profissional entre os seus pares, somos um país de brandos costumes e , dentro das corporações, eticamente permissivo. Será que Marinho Pinto acredita que a jornalista, filha exemplar movida por um arrepiante amor filial, teve essa iniciativa porque que quis dar uma mãozinha ao querido paizinho, fazendo-lhe uma surpresa no dia de aniversário?

O bastonário, de alguns advogados com alguém bem disse, nem sequer se insurge com as cirúrgicas alterações ao Código Penal, feitas em 2007, e que claramente beneficiam os supostos arguidos e os já arguidos.

Pensa-se, provavelmente mal, que essas manobras e outras como a dos psicólogos norte-americanos, trazidos a Portugal pela parceria Serra Lopes-Sá Fernandes-Carlos Cruz para deporem como peritos, defendendo a tese que violar as crianças desprotegidas só as favorecia porque lhes aumentava a auto-estima, deveriam ter sido referidas. Coisas desse jaez, à margem da investigação e do processo e que visavam claramente influenciá-lo é que são verdadeiramente escandalosas e deveriam causar algum escândalo tal como as insistências de Fátima Campos Ferreira, questionando se os casos de pedofilia já tem um longo historial porque só agora com estes arguidos é que houve processo? Ou o sr. dr. acha que as vitimas são mesmo credíveis? Portanto são credíveis as que acompanhou profissionalmente. E as outras? E por aí fora, sempre nesse registo em que, pela voz de vários intervenientes, com o seu consentimento tácito, os malandros do processo acabam por ser os investigadores da polícia judiciária, o juiz Guerra que conduziu a investigação e, sobretudo, quem mais denunciou o escândalo da pedofilia na Casa Pia, Catalina Pestana, Pedro Namora que originou este processo. Esqueceram-se do mestre Américo mas lá chegarão. Uma inversão eticamente miserável. É isto o nosso jornalismo dito de referência.Nota final para a grande exibição de vaidade de Daniel Oliveira nesse programa. Transpira-a por todos os poros, não há desodorizante que lhe valha. Disse convictamente banalidades, como é seu hábito, mas com um objectivo preciso: colocar em causa tanto a investigação como o processo. Nada de novo para adorno do personagem, agora barricado na dúvida sistemática, coisa que raramente o assalta noutros assuntos, e são muitos, sobre os quais perora com a mesma espessura com que abordou este.

Esperemos que hoje seja entregue o acórdão para acabar com esta parte da especulação. Outras serão imediatamente iniciadas porque, ao contrário do que apregoam e de que se dizem sofredores, o que andam a engendrar é uma espécie de julgamento popular para ver se conseguem de algum modo influenciar os recursos que se irão seguir. Carlos Cruz foi bem claro quando citou várias vezes o número de apoiantes que angariou com o seu blog. Número de apoiantes que vai aumentar com um anunciado  abaixo-assinado pedindo a sua absolvição. Cenário nos antípodas do descrito por Marinho Pinto e Daniel Oliveira que desenharam com requinte um julgamento popular a que, na sua opinião, tinham estado sujeitos os arguidos agora condenados durante os anos em que decorreu o processo. pelos vistos erraram o alvo.

Repete-se : não condenamos mas também não ilibamos ninguém até ao fim do processo. O que não calamos são indignações perante factos decorridos que tentam manipular um juízo se esse juízo for contrário aos seus interesses.

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Costumes

Negócios Jurídicos

Ricardo Sá Fernandes é presença assídua na televisão e noutros meios de comunicação social. Está sempre na primeira fila, em bicos de pés a levantar freneticamente o dedo para saberem onde está. Os colegas, quando entram ou saem das audiências, sabem sempre onde está o dr. Ricardo Sá Fernandes. É só olhar à volta e ver o aglomerado de câmaras e máquinas fotográficas.

Não é que as suas opiniões sejam particularmente relevantes ou tenham acrescida substância. Nada disso, por vezes até  é confrangedor vê-lo andar às voltas de afirmações que proferiu para as deixar cair sem grandes cacos. É parte de uma estratégia de marketing que o tornam conhecido entre o mercado potencial. É a transposição para o direito da máxima de Warhol: “ a maior arte é um negócio e o que é importante é ser-se célebre nem que seja por cinco minutos”. Ricardo Sá Fernandes soma muito mais que cinco minutos. Da Universidade Moderna à Casa Pia, passando pelo caso Sá Carneiro até à Face Oculta, é um ver que te avias.Em qualquer caso que potencialmente tenha repercussão na comunicação social, lá está o dr. Ricardo Sá Fernandes. Poucos escapam à fina malha da sua rede de captação. Havendo um processo mediático é praticamente certo e sabido que lá estará o celebrado dr. É garantido que qualquer que seja o painel de causídicos envolvidos é sempre ele a estrela mediática. O artista convidado com maior tempo de antena. O Tony Carreira dos advogados nacionais.

Agora, no final do caso Casa Pia, fez tudo para aparecer. Primeiro, no tribunal levantando a dúvida se o acórdão já estaria efectivamente redigido, o que lhe garantia, ele sabia-o de ginjeira, um enxame de jornalistas e idas à televisão.
Na Sic Notícias, exibindo indignações, lá foi dizendo que não era propriamente isso que tinha dito, ou se tinha dito o significado era outro, mais frito e cozido,  até que o jornalista o confrontou com a afirmação feita por Carlos Cruz na conferência de imprensa “os meus advogados nunca defenderiam um abusador sexual”. Ricardo Sá Fernandes, atirando as certezas absolutas de Carlos Cruz borda fora, atalhou para explicar que não era bem assim. De um confesso abusador sexual a um inocente acusado de abuso sexual, há um vasto leque de personagens e todos merecem defesa jurídica. Generalidades rústicas ditas com convicção, que apontam para a porta do seu escritório que deve estar sempre aberta protegida por um detector de interesses.

Ficámos esclarecidos. A multidão de personagens, acusados dos mais diversos crimes, inocentes ou culpados, pode contar com o empenho do dr, Ricardo Sá Fernandes. Presume-se, naturalmente, que terão que garantir um bom rendimento material ou imaterial.

Ao ouvir aquela intervenção, com muito teatro e pouca espessura, recorda-se um escrito de Luiz Pacheco a Maldonado Gonelha “ Carta a Gonelha” em que, a dado passo e citando de cor, se escreve : Vi-te na televisão. Falaste bem com a costumada volubilidade (…) eu adivinhar-te a sina (.) o que tu queres é cacau.

Ora para ao cacau somar cacau, provavelmente sairá um livro para a mesa do canto, ideia que não escaparia à mais burra das socialites, Literariamente estará ao nível das revistas rosa, a mão que escreve também não dá para mais,  nem é isso que interessa porque será aí que terá a mais grossa fatia do seu mercado e por essas bandas as exigências estilisticas são praticamente nula. A grande e extrema curiosidade é que as verdadeiras vítimas, os alunos da Casa Pia, nunca existirem para o magnífico dr. Ricardo Sá Fernandes, excepto quando os continuou a violentar nos interrogatórios com perguntas capciosas.

Oh! Ricardito, qual era a cor das peúgas que usavas quando fizeste o exame da 2ª classe? Que camisa vestias quando perdeste a virgindade?

O Ricardo Sá Fernandes ainda vai arrecadar mais algum com direitos de autor de um livro fedorento! Há sempre clientela para chafurdar no lixo e como o dr. aparece muitas vezes na televisão é um ganho publicitário garantido.
Nesta sociedade decadente, até este post irá contribuir para o tilintar de mais uns cêntimos nos seus bolsos. Não cobramos nada por isso. É só para se saber que sabemos.

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Costumes

Carlos Cruz

Hoje abandonei, finalmente, o benefício da dúvida que dei a Carlos Cruz todos estes anos. Se duvidei da acusação que lhe era feita, apenas foi porque o admirava profissionalmente e sempre o considerei um grande entrevistador e apresentador. Será sempre, para mim, um bom profissional, mas não é possível esquecer que, afinal, andava mesmo a fazer o que não devia… Pelo menos, é isso o que o tribunal considera provado. Pena é que, com a justiça que temos, este pedófilo ainda possa continuar por aí por mais uns bons tempos à custa de recursos e tudo o resto…

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Costumes, Geral

Justiça, JÁ!

Depois de anos a produzir manobras dilatórias em cascata, os advogados de defesa dos arguidos do Processo Casa Pia querem o acórdão, já! Estranha pressa que não devia surpreender depois do muito que já se ouviu, tanto no que se conhece terem argumentado durante o julgamento, como nas intervenções que fazem no inusitado tempo de antena que têm tido!

Quando, serenamente, for compilado tudo o que o foi dito em diversas instâncias e lugares, em directo e diferido, pelos directamente intervenientes, arguidos e seus advogados, haverá coisas que muito espantarão quem se der ao trabalho de ler essa peça de teatro, de mau teatro, a que se tem assistido e em que as vítimas, até parecem não existir, são duplamente violentadas: primeiro, física e moralmente, pelos presumíveis culpados e por muitos outros possíveis culpados que escaparam ao banco dos réus; depois do crime denunciado, intelectualmente, por quem usa qualquer arma para alcançar os objectivos procurando desacreditá-los.
Passados todos estes anos, os jovens violados, quando eram pré-adolescentes e adolescentes, são hoje adultos com os percursos mais diversos, da recuperação possível a abismos abomináveis. Em qualquer dos casos, não é indiferente o que foram forçados a sofrer. O que é brutalmente diferente é olhá-los enquanto crianças e olhá-los hoje. Essa diferença temporal não é indiferente na formação de um juízo. Há quem saiba manipular muito habilmente essa realidade.

Agora saltam os advogados a querer justiça já! sendo claro que, para eles, justiça é os arguidos serem inocentados ao molho! Culpado há só um, Carlos Silvino e mais nenhum! Mas esse está fora do baralho dos arguidos mediáticos!
Há um aspecto nada falado e que tem enorme importância neste julgamento: o aspecto económico e publicitário. Só quem tem muitos recursos pode contratar advogados daquele gabarito!

Quanto é que os advogados já receberam de honorários e quanto esperam futuramente receber em conformidade com o resultado das decisões do tribunal? Não deve ser pouco.

A somar a essas verbas haverá que adicionar o valor da publicidade que obtiveram, e continuam a conseguir, com o decurso do julgamento. Isso é por demais evidente que vale muito.

Ninguém fala disso ou por pudor ou lá pelo que seja, mas essa é a outra face deste julgamento e do circo mediático montado à sua volta e que tem usado com grande à vontade, particularmente por alguns advogados.

Nos tempos que correm, o crime, algum crime, tornou-se um nicho de negócio! Um rico negócio!!!

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Costumes

O que distingue as árvores públicas das privadas?

Num agosto recheado de notícias judiciais que só o são porque envolvem o primeiro-ministro, vale a pena dar atenção a uma pequena notícia estampada hoje no “Público” online.

Dá-nos conta o relato jornalístico de uma sentença do Tribunal Fiscal e Administrativo de Almada que foi anulada pelo Supremo Tribunal Administrativo num caso que remonta a 2000 (e ainda há quem se queixe que o Freeport durou seis anos…), data em que uma árvore de grande porte caiu em cima de um carro que circulava numa estrada nacional e deixou uma jovem de 20 anos tetraplégica. A jovem apenas tem sensibilidade do pescoço para cima e precisa de apoio constante dos familiares para sobreviver, familiares que, para isso, encerraram o negócio que tinham.

As leis e a justiça que temos, em particular a dos tribunais superiores, sempre pronta a satisfazer as necessidades dos poderosos e dos grandes, decidiu anular a sentença do TFA de Almada, que havia condenado a Estradas de Portugal a pagar à jovem 1,4 milhões de euros de indemnização, ou seja, uma ninharia perante o que aconteceu.

Porém, a empresa alegou que a árvore, embora estivesse a três metros da faixa de rodagem, estava num terreno privado e, por isso, nada tem a ver com o acidente. Os ilustres juízes do do STA concordaram com isto…

Atenção pois a quem circula em estradas nacionais bordejadas de árvores! Cuidado! Antes de avançar destemidamente para o asfalto, informe-se se as árvores são particulares ou públicas. Se lhe cair uma privada em cima, já sabe o que o espera. O STA manda-o dar uma curva… Se for pública, apenas teremos de esperar dez anos para ver o que inventa a Estradas de Portugal para se safar.

Obviamente, esta sentença traz enorme alívio à depauperada Estradas de Portugal, que não só se livra de desembolsar o milhão e quatrocentos mil euros, como se livra de desembolsar futuras indemnizações com o que se acontecer nas bordas da estrada, maioritariamente privadas. Mas não é para admirar.  A empresa nem sequer se preocupa muito com o que se passa na própria estrada, por que se haveria de preocupar com o resto?

A justificação que os supremos juízes deram , pelo menos a que é transcrita no “Público”, como se pode ler aqui, seria hilariante, se não fosse, na verdade, trágica.

Mostra bem ao que estamos sujeitos neste estranho país, em que os agentes da justiça não têm tempo de fazer perguntas ao primeiro ministro e levam dez anos a produzir sentenças absurdas como esta e, estranhamente, injustas.

A sensação de que o terceiro imparcial se afastou do nosso sistema judicial é, pois, cada vez mais forte. Sinto-o eu e muitos portugueses, não tenho qualquer dúvida.

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Geral

Casa Pia – Sentença Adiada/Instituição Corroída

Dura há mais de cinco anos mas, mais uma vez, a leitura da sentença foi adiada.
Protestos de todos os lados, bem sonoros os de advogados que usaram todo o arsenal jurídico à sua disposição para arrastarem o julgamento até às calendas.
No meio da vozearia, enquanto Carlos Cruz se desdobra em coisas insensatas como a de abrir um site para ser julgado pela vox populi e aproveitar o adiamento para aparecer na televisão a dizer que sente (sublinhe-se o sente) que um dos juízes tem um preconceito contra ele, clara tentativa de criar mau estar no colectivo que está a elaborar o acordão, mestre Américo surge, com a autoridade que se lhe reconhece, a dizer coisas sensatas com a serenidade de as ter vivido e ser o primeiro a denunciar
.
Vale a pena ler o que disse e que se transcreve de uma notícia do Público:
“Há entraves enormes à investigação e à instrução de um processo como este”, sublinhando que não culpa “nem a Polícia Judiciária, nem o Mistério Público, nem a instrução”.

“São muros que se criam que, às vezes, por mais que as pessoas os queiram derrubar, são impossíveis de derrubar”, disse, referindo-se a “outras formas de poderes, instituídos na sociedade portuguesa e não só, que criam verdadeiras barreiras à investigação de processos como este”.

Segundo mestre Américo, “não foi só o poder político actual”, pois “há muitos outros poderes – políticos ou não – que se levantaram e actuaram para proteger os seus membros”.

Questionado sobre se a maçonaria foi um desses poderes, mestre Américo disse: “É esse tipo de poderes. Não é só a maçonaria. Há outros”.

A poucos dias da leitura da sentença do caso Casa Pia, marcada para 05 de Agosto, (ainda não sabia que seria adiada para 3 de Setembro) mestre Américo vive “grande ansiedade” e é por isso que não estará presente no tribunal.

“A ansiedade é tal que prefiro estar sossegado no meu lar e seguir estes trâmites finais do processo que, contudo, não irá terminar aqui”, disse.

Apesar de achar que muitos culpados ficaram “de fora”, espera justiça, embora acredite que esta nunca será suficiente para as vítimas: “Não há justiça possível para o que sofreram e o que foram obrigadas a reviver”

A ansiedade de mestre Américo vai prolongar-se, provavelmente sem grandes esperanças na justiça, ao olhar para os últimos julgamentos mais mediáticos que ficaram em águas de bacalhau.

Nessa entrevista afirma, com o indiscutível saber técnico-profissional com que preparou inúmeros jovens procurados para trabalhar nas empresas de relojoaria do mundo, que, na sequência do escândalo da pedofilia, a reestruturação da Casa Pia seguiu o modelo geral. Para mestre Américo, é “um plano de estudos muito incipiente, do ponto de vista da valia das competências técnicas e profissionais, que os alunos da Casa Pia podiam antes adquirir e agora não podem, até porque não têm tempo para isso”.
O mestre receia que os alunos da Casa Pia – que “hoje já não têm de maneira nenhuma a formação técnica que antes tinham” – comecem a não ser aceites no mercado de trabalho.

“A formação (técnica) sempre foi o baluarte da Casa Pia de Lisboa. Hoje, acabou, foi arrasada”

O que tornava a Casa Pia uma instituição que se distinguia pela preparação técnica que, em várias áreas, proporcionava aos seus alunos é um capital que está a ser gravemente corroído. Esse é um crime, tão grave como os da pedofilia, que nunca será julgado.Mais uma iniciativa da celebrada cientista (esta é uma graçola para um intervalo de sonoras gargalhadas *) Maria de Lurdes Rodrigues entre muitos outros que a arrogância de que é possuída transforma em grandes feitos!

(*) para quem tiver tempo a perder e se queira rir um pouco mais, também muito eficaz contra insónias, ler “Sociedade, Valores Culturais e Desenvolvimento” em que o que não são lugares comuns ou coisas que já se leram e releram em muitos outros lados é para deitar para o lixo. Um paradigma de como se constroem alguns currícula..

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Política

um arco-iris no freeport

A comoção assalta o país ao ouvir a declaração do 1º ministro, agora que o chamado caso Freeport acaba, como se esperava em nada ou quase nada.

Comoção que se sublinha quando o 1º ministro invoca os altos padrões pelos quais sempre se regeu o Ministério do Ambiente que então tutelava.

Altos padrões que, por exemplo,  viabilizaram o projecto do Vale da Rosa, em Setúbal, na base da imprescindível utilidade pública de um estádio de futebol. Ele nem pestaneja! São os mesmos altos padrões que estão impressos nos projectos de arquitectura de que orgulhosamente assumiu a paternidade e que são do mais elevado gosto pimba que assola o país e, pelos vistos, a cabeça criadora do 1º ministro.

O nosso 1º ministro, depois de seis anos de suspeições, deveria ter feito outro discurso, mais assertivo. Os seus assessores se tivessem outro gabarito, deveriam ter bebido noutras fontes para que, embora sem atacar a justiça, pusessem em causa o estado ético da nação. Poderia ter baseado o seu discurso no de alguém que, também perseguido pela justiça, assim se lamentava:

“Hoje em dia, as pessoas já não respeitam nada. Dantes, punham-se num pedestal a virtude, a honra, a verdade e a lei. A corrupção campeia na vida americana dos nossos dias. Onde não se obedece à lei, a corrupção é a única lei. A corrupção está a minar este país. A virtude, a honra e a lei esfumaram-se das nossas vidas.”

O nosso 1º ministro bem pode subscrever este sentido desabafo, depois de, durante seis anos, ter vivido entre as labaredas ateadas por todos os que o atacaram, até ver a virtude, a honra e a lei vingarem. Ele, como o autor desse lamento feito alguns dias antes de ser preso por fuga ao fisco depois de ser repetidamente ilibado dos outros crimes, confia na lei.

Advinham quem, em declarações feitas a 17 de Outubro de 1931 à revista Liberty, estava tão preocupado com a honra, a verdade, a lei, sobre o estado moral da sua pátria os EUA? Abram o link. Um exemplo do valor das palavras!!!

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Política

Justiça, Diz ele

Barroso esclarece que a questão da golden share não é uma questão ideológica, é uma questão jurídica!

Oh homem, então a justiça é neutra? É ideologicamente pura? Está descontaminada de qualquer poeira ideológica?

As leis não são a expressão do pensamento dominante? Não o defendem com unhas e dentes?

Questão jurídica, quando já se sabe o que a justiça vai decidir?

Dizem que o homem é licenciado em Direito. Parece que sim, na altura era chefe de fila do MRPP e muitas cadeiras foram passadas administrativamente. Tamanha ignorância — não é assim tamanha e, sobretudo, não é nada inocente — deve ter a ver com isso o que, misturado com o cinismo que esses anões da corte da Branca de Neve Neo-Liberal exibem nos sorrisos dentífricos que passeiam pelos corredores do poder, é a mixórdia do cocktail de mentiras que nos repetem a toda a hora do dia, para ver quando se transformam em verdade. Nunca serão verdades mesmo que, momentaneamente o pareçam. Serão sempre verdades travestidas.

Vem este agora, com aquele ar de traficante de prata que é papel de estanho, esconder-se debaixo da mesa da justiça!
Todos sabemos que Durão Barroso já perdeu a vergonha há muito tempo. Não nos esquecemos das mentirolas das entradas e saídas do governo, quando já tinha vendido a alma ao diabo.

É uma maneira de estar na vida de Durão Barroso. Barroso, esqueçam o Durão, quem iria acreditar que ele é durão depois de ver as cenas da comédia fatela do mordomo lusitano de rabo alçado, a abrir os portões das Lajes para receber Bush, a Mónica Lewinsky de Bush que se chamava Toni e o carregador de malas Zé Maria, que iam aldrabar o mundo com armas de destruição maciça que não existiam. Existia um ditador brutal, ex-amigo deles todos, a mandar num país deitado sobre vastos lençóis de petróleo.

As histórias que essa malta inventa para justificar as malfeitorias que fazem.

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