Geral, Política

Uma lufada de ar fresco

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O acordo político apelidado de geringonça revela, seis meses após a constituição do Governo, que funciona melhor do que aquilo que lhe auguraram. Cada dia é um dia de negociação e o Parlamento adquiriu uma função central no sistema político. Uma lufada de ar fresco! Entre a reposição de rendimentos e o cumprimento dos ditames do pacto orçamental corre uma estreita faixa que ditará o sucesso do Governo de A. Costa.

Estabilidade

A solução encontrada trouxe ao país estabilidade política e uma solução maioritária no parlamento – o que não é coisa pouca perante os resultados eleitorais de Outubro de 2015.

O ineditismo da solução credibilizou a Política ao revelar caminhos nunca antes experimentados em quarenta anos de regime democrático. Uma solução que, não sendo inédita na Europa, pode ainda encontrar eco em Espanha com as eleições de 26 de Junho.

Baixas expectativas

A constituição de um Governo PS apoiado pelos partidos da esquerda foi recebida com uma odienta campanha em que não faltou a apodrecida artilharia anti-comunista, suportada pela maioria dos comentadores residentes das televisões e imprensa mainstream ­ – parte deles já começou aliás a “virar o bico ao prego”. Eram pois baixas as expectativas com que foi recebido.

Ao Governo de A. Costa não foi concedido o tradicional benefício da dúvida. Desde o primeiro dia que se confronta com mar alteroso. Mas o mais preocupante é a oposição que chega dos círculos de decisão europeia, nomeadamente da Comissão, com ameaças permanentes de castigos em torno da sacrossanta questão do défice. É manifeste que esses círculos querem impor orientações políticas estritas, deixando o Governo com margem de manobra muito reduzida.

As baixas expectativas e a permanente ameaça dos “comentadores” da eminência de uma quebra do apoio político ao Governo têm também sido um dos maiores estímulos para o êxito de geringonça até ao momento.

O parlamento e a negociação permanente

Sem maiorias claras saídas das eleições, o parlamento preenche nesta legislatura aquela que é uma das suas mais importantes vocações, a de centro do debate e da decisão política. Bem ao contrário do que o sistema nos havia habituado desde há muito – uma mera câmara de eco de maiorias absolutas

Negociação intensa e permanente, com divergências expostas e do conhecimento público – uma (nova) forma de fazer política. Uma saudável forma de fazer politica!

Apesar dos acordos das esquerdas, não deixa de ser possível assistir a uma certa geometria variável, nomeadamente nas matérias que não constam nos acordos bilaterais celebrados entre PS, PCP, BE e PEV.

Uma nova atitude na frente europeia

A atitude subserviente de “ir além da troika” que P. Coelho propalou aos quatro ventos deu poucos resultados. Ou, para a usar a expressão cínica de um líder parlamentar do PSD “O país melhorou mas a vida das pessoas não”.

É certo que a Comissão Europeia ameaça agora Portugal com sanções pelos resultados conseguidos… com as políticas e as medidas a que obrigou o país ou pela trajectória orçamental deste ano. Sanções essas que, quando forem discutidas, não deixarão de trazer ao debate as violações do tratado por parte de Estados ricos – uma caixa de pandora, como se adivinha.

Uma posição negocial mais interventiva e exigente na frente europeia não deixa de revelar uma nova postura. Mesmo os socialistas europeus dão agora alguns sinais de perceber que a agenda em que se deixaram envolver com o pacto orçamental é má e só contribui para aumentar as desigualdades entre os países da UE, mantendo a situação de estagnação.

São visíveis sinais de diálogo, anda tímidos, entre os Governos dos países vítimas da paranóia austeritária, como Portugal, Grécia, Itália, com a Espanha em stand by. A solução que sair das eleições espanholas – nomeadamente se com uma maioria de esquerda, não deixará de se reflectir nos grandes equilíbrios europeus.

Europa: mudar de rumo?

É lógico que tinha que haver “reversões” de decisões do governo anterior, tão más e danosas elas foram. A começar por alguma reposição de rendimentos, que teve na origem cortes que afectaram  a generalidade da população mas que se abateram em especial sobre pensionistas e trabalhadores dos sectores da administração e empresas públicas.

A anulação da privatização de empresas com actividade de importante impacto social, caso dos transportes e TAP, foi uma medida de sanidade pública. Sempre foi claro que a fúria privatizadora – que alienou empresas fundamentais para a soberania, como a EDP ou a ANA,  não tinha a simpatia da maioria da população.

Parte importante do sucesso da geringonça joga-se agora no crescimento da economia, em que o relançamento do consumo interno tem merecido especial atenção. Mas joga-se também na inversão das suicidárias políticas de austeridade e na reformulação dos critérios do pacto orçamental, transformado numa “camisa-de-onze-varas” para os países mais pobres da União. Para isso é  necessário um novo equilíbrio politico na Europa.

 

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O VOTO NÃO É A VONTADE DO POVO

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Há quem cante hinos de louvor a estas eleições inglesas e, perdendo a cabeça, diga que é uma vitória da política. Um discurso pateta que abre para todas as especulações com o chorrilho de banalidades que as sustentam. Vai ser esse o prato forte da comunicação social, mais os comentadores de serviço, todos muito satisfeitinhos em ocupar o tempo com bagatelas grandiloquentes. A variante política das júlias, gouchas e teresasguilhermes, que irão ocupar tempos infindos com a glorieta do Cameron, as desgraças de Miliband, Clegg e Farage que se demitiram para os seus partidos renascerem. Os mais ousados dirão mesmo que eles se demitem para esses partidos se reinventarem. Excessos de imaginação para apimentar um panorama político prevísivel, um pouco rídiculos olhando para o que pouco diferencia, em Inglaterra, conservadores e trabalhistas. Por outras bandas a cegarrega não é muito dfiversa.  Definitivamente o discurso futebolistico é o paradigma da ciência política da malta. As equipas perderam, muda-se de treinador. Talvez mesmo de tática. Discute-se política com o mesmo empenmho e conhecimento dos treinadores de bancada, de café. , o jogo é que não muda. Fica sempre dentro daquelas quatro linhas. Fora delas, para essa gente, não há nada. Chamam a isso política, jogo político, mesmo que não exista a não ser como slogan. O pensamento político  reduz-se a tiradas rasteiras . O fundo é o mesmo, mas sem a grandeza nem o brilho do Principe de Salinas. Ainda só fui ver os resultados, tinha um objectivo que se pode ler no restante post. Ainda não os li, ouvi e vi, lá irei ao desfile. Não devo andar longe da realidade. há sempre uma bruxeleante esperança de ouvir algo que surpreenda. Um ângulo que nos tenha escapado. De certeza não falarão de uma coisa essencial e substancial, a fraude democrática que é o sistema eleitoral inglês.

Curiosa ou sintomaticamente ninguém irá fazer notar, sublinhar que a democrática Grã-Bretanha é um exemplo de como o voto não é a vontade do povo.

Um sistema eleitoral completamente distorcido permite que um partido, disso se tem aproveitado tanto conservadores como trabalhistas, ganhe o número de lugares de deputados suficientes para ter a maioria absoluta do parlamento, sem que isso corresponda ao número de votos conquistados, à vontade do eleitorado.

Estas eleições mostram como sistemas eleitorais podem manipular a vontade dos votantes.

Se aplicarmos o número de votantes num partido e o número de deputados eleitos por esse partido, restringindo esse o universo aos Conservadores, Trabalhistas, Liberais e UKIP, verifica-se: como é fácil os grandes partidos elegerem deputados:

Partido Conservador cada 34 348 votos / elegeu 1 deputado

Partido Trabalhista 42 881 votos / 1 deputado

Partido Liberal 296 450 votos / 1 deputado

UKIP 3 659 630 votos / 1 deputado

Um outro exercício que pode ser feito é aplicar a percentagem de votos em cada partido ao total dos deputados do Parlamento, excluindo-se os outros pequenos partidos e o Nacional Escocês que elegeu 56 deputados. Os resultados são surpreendentes:

Partido Conservador Deputados eleitos 330 / Deputados que elegeria 209 – 121 deputados

Partido Trabalhista Deputados eleitos 232 / Deputados que elegeria 203 – 29 deputados

Partido Liberal Deputados eleitos 8 / Deputados que elegeria 48 + 40 deputados

UKIP Deputados eleitos 1 / Deputados que elegeria 78 + 77 deputados

A diferença entre o total do número de eleitos 571 e o total que elegeriam 531, são 40 lugares que seriam ocupados por todos os outros partidos se aplicado o metodo proporcional. Podem ler-se os números ao contrário. Os Conservadores tiveram mais 121, mais 36, 6 % e os Trabalhistas mais 29, mais 12,5 % do número de deputados que teriam eleito se o sistema fosse proporcional.

Por estes números se percebe a vigarice eleitoral que nada na massa cinzenta de muitos dos nossos deputados quando enchem a boca com a aproximação do eleitor ao deputado, a reorganização dos círculos eleitorais e mais umas quantas falácias que, bem aplicadas, acabariam por dar a maioria absoluta a um partido que obtivesse uma minoria de votos. Quando se mexe nos sistemas proporcionais, reescrevem as fronteiras dos círculos eleitorais retalhando o território por cálculo eleitoral, o resultados é sempre subverter a vontade popular em benefício de máquinas partidárias que têm a competição eleitoral como o seu objectivo e fim, perdido qualquer horizonte ideológico.

O arsenal dos truques democráticos é inesgotável. Tudo para obter maiorias que não correspondem à vontade dos eleitores. Vejam-se as últimas leis eleitorais em Itália, a última do Berlusconi, tão escandalosa que foi chumbada pelo Tribunal Constitucional e agora a de Renzi. Olhe-se para esse panorama inglês nessa pátria da democracia!

Leituras políticas destas eleições é outro assunto relativamente interessante, não fora a votação coreana no Partido Nacional Escocês que deve fazer rebobinar o filme do referendo independentista para se registarem as ameaças, as chantagens, as mentiras, as ingerências estrangeiras que desabaram sobre a Escócia. Um filme sempre pronto a ser exibido, com guiões não muito diferentes, com os mais diversos protagonistas, sempre que os interesses do grande capital e o pensamento dominante se sente beliscado. Nem são necessárias grandes ameaças para os cães de fila, com os media na frente, se soltarem.

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UM Buraco Negro na Informação

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As caixas negras do avião da Malaysian Airways abatido na Ucrânia, entregues pelos separatistas pró-russos de Donetsk às autoridades malaios, que estes verificaram estar em bom estado, ainda estão por decifrar por peritos num laboratório especializado sediado em Londres.
O que será tão difícil de interpretar?
Em Washington, depois da retórica de Obama cujas provas foram mais sanções económicas à Rússia, começa a ouvir-se falar de “um erro/acidente trágico“.O que quererá isto dizer?
Entretanto a informação sobre o voo MH17 da Malaysia Airways, abatido sobre a Ucrânia está a entrar num buraco negro.
Saber-se-á, um dia, a verdade? Depois de tantas certezas sem provas, alguém a reconhecerá contra si?
Recorde-se o resultado de um recente inquérito independente da ONU na Síria. Depois de todo o ocidente acusar a Síria de ataques com armas químicas, o que a Síria negava, os peritos da ONU concluíram que tinha havido ataques com armas químicas mas não podiam concluir quem tinham sido os seus autores. Um monumento de cinismo. Talvez acabe assim o inquérito ao abate do avião comercial malaio.

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O Triunfo dos Porcos

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A vigarice intelectual continua a provocar-me uma indignação quase adolescente,  quando a intransigência era maior.
Apesar de já prever e conhecer a reacção,  por vezes não  resisto a ir ver programas de televisão que, certamente, me irão indignar. Um deles é  o Frente a Frente da SIC Noticias,  agora muitíssimo melhor moderada,  pelos personagens que por lá desfilam. Um dos seus figuras paradigmáticos é Matos Correia.  O ar porcino acentua a prosápia com que debita mentirolas,  mistifica a realidade,  faz passar gato por lebre,  vende vigésimos premiados. É um dos muitos outros que proliferam e são a maioria dos opinantes na comunicação social. Todos  das mesmas famílias políticas de direita,  alguns mascarados de independentes e/ou tecnocratas. Nessa gente as excepções são raríssimas,  emergindo por razões muitas  vezes conjunturais. A dominante são os matos correias,  os nunos melos.
Nos últimos dias tem sido um carrocel de rasteirices argumentativas para passar a ideia falsa como Judas, de que os contribuintes estão a salvo de serem chamados, mais uma vez, para pagar os desmandos do BES. A farândola agita a excelsa panaceia encontrada com o resgate dos dinheiros públicos aplicados para salvar o BES da falência,  um objectivo correcto, com o recurso ao Fundo de Resolução. Não dizem é que esse Fundo é gerido pelo Banco de Portugal e pelo Ministério das Finanças e que é constituído por uma contribuição extraordinária do sistema bancário, mais ou menos 40 milhões por ano, mais parte dos impostos do mesmo sistema bancário que são assim subtraídos ao dinheiro público,  portanto dinheiro que é de todos nós contribuintes,  que é retirado do Orçamento do Estado. Não  falam da imensa batota que é afirmar que o FR será obrigado a pagar o que não se conseguir pagar com a venda a retalho do BancoBom.  Mesmo que fosse só um terço do que foi emprestado pelo que estava em caixa do dinheiro da troika, mais os 3,5 mil milhões que o BCE emprestou ao BancoBom para devolver o que o Banco de Portugal tinha lá metido a mais,  o FR com os seus próprios meios levaria uns quinze para pagar o que eles dizem irá ser pago, no máximo, em dois anos. De certeza que os bancos não estão pelos ajustes de pagar uma conta de que o actual responsável ė o Estado. A vigarice intelectual é um cavalo à solta sem freio.
O que é inquietante,  o caso BES é um pequeno exemplo, é que isto é  expressão da clarividência do ódio imbecil,  a demonstração da estúpida tenacidade das opiniões falsas,  apócrifas  que,  por vezes,  acabam por fazer vencimento de forma espantosa. Aqui e  no mundo é o triunfo dos porcos para que contribui activamente esse baixo clero contemporâneo que chafurda na pocilga de um pensamento dominante débil,   poderosamente sustentado por uma comunicação social estipendiada e domesticada.
As armas são incomparavelmente desiguais mas não podemos desistir com a consistência da água mole.

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autarquias, Cultura, Fascismo, Política, Revolução

Quando ouvem falar em cultura, continuam a puxar logo da pistola

Sem título

Aqui, pelas margens do rio Sado, o CDS e os seus dirigentes continuam iguais a si próprios, fieis à herança e às melhores tradições trauliteiras da direita portuguesa.

João Viegas, dirigente do CDS e Deputado à Assembleia da República, à semelhança do Governo que apoia e para o qual a cultura pode muito bem encaixar-se numa qualquer Secretaria de Estado, não tem qualquer pudor em aprovar sucessivos cortes ao financiamento das autarquias locais, em apoiar o Governo que fecha a torneira para toda e qualquer expressão artística e cultural que não seja oca e de elogio ao regime, em aprovar políticas recessivas que conduzem as economias locais à ruína, em defender um Governo que não cumpre a lei das Finanças Locais e, ainda, apontar o dedo às autarquias que vão promovendo algumas iniciativas e investindo em infra-estruturas e na produção e fruição cultural.

Claro está que, no caso em concreto, ficamos sem saber se o problema está no preço pago pelos espectáculos ou nas comemorações do 25 de Abril, estou certo que se fossem concertos mais perto de um 25 de Novembro ou até de um 28 de Maio a indignação não seria tanta.

Repare-se na subtileza e fino humor do ilustre Deputado ao referir-se a um dos maiores e mais conceituados autores/cantores da língua portuguesa como o «camarada Sérgio Godinho», revelando o facciosismo que lhe tolda o pensamento e a demonstrar que é o preconceito político e ideológico que determina a sua intervenção e não qualquer preocupação com os dinheiros do Município.

Compreendo que quem sistematicamente se comporta desta forma perante as mais diferentes realizações artísticas e culturais tenha dificuldades em compreender a obra do Sérgio Godinho ou dos Naifa, mas já é mais estranho não ouvir nem uma palavra sobre os milhares de Setubalenses que na Praça do Bocage ou no Fórum Luísa Todi festejaram Abril e as suas conquistas, nem uma palavra sobre o papel das autarquias, neste caso do Município de Setúbal, na concretização da obrigação constitucional de garantir o acesso à cultura, promovendo a sua democratização, substituindo muitas vezes à Administração Central (apenas mais um comando constitucional com que este Governo tem dificuldade de conviver), nem uma palavra sobre o extenso programa de comemorações da Revolução em Setúbal.

Enfim, nem uma palavra, porque quando ouvem falar de cultura…

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Costa Amigo, o Relvas e o Isaltino estão contigo

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Há um novo paradigma nas eleições democráticas das mais ou menos abertas às mais mais ou menos fechadas ou mesmo completamente fechadas. É o paradigma António Costa, eleito por unanimidade presidente da Comissão Executiva e do Conselho Metropolitano da Área Metropolitana de Lisboa (AML), depois de afastar, como não quer a coisa mas não deixando outra saída em quem tem coluna vertebral, coisa de que ele tem uma vaga ideia do que seja, que não fosse abandonar a votação para não legitimar tamanha tropelia. Um caso de estudo em regimes democráticos.

Pela mão do amigo Miguel Relvas, António Costa sem mexer uma palha seria sempre eleito para uma das presidências da Área Metropolitana de Lisboa. Mesmo que tivesse havido uma abstenção abstrusa e um único votante no concelho de Lisboa, ele próprio a votar em si-próprio, a lei Relvas garantia um dos cargos de presidência de uma das comissões da AML. Malhas que as democracias tecem, cerzindo as leis à medida dos interesses de momento, como aqui já foi explanado por Demétrio Alves no “post” O Eleitor de Oiro. Emalhamentos que xicos-espertos, sem rei nem roque, costuram  para legalizar processos tortuosos, em que os fins justificam os meios, para que o Estado de Direito continue a ser o estado do direito dos mais fortes à liberdade atropelando todos os princípios e qualquer ética. António Costa, mal a lei foi publicada, deve ter enviado um cartão de agradecimento ao amigalhaço Miguel Relvas, antecipando os abraços democráticos que devem ter trocado, rebolando-se de gozo com as consequências da aplicação da lei. A democracia fica sempre mal servida por Costas & Relvas.

O Miguel Relvas bem deve ter corado de vergonha quando António Costa vituperou a falta de coragem para levar a lei até às últimas consequências. Ter deixado a porta entreaberta para critérios da lei anterior continuarem em vigor. Pela lei Relvas, o partido cujos municípios somassem maior número de eleitores, independentemente dos resultados eleitorais, elegeria um presidente de um dos órgãos. Para ocupar os dois órgãos seria necessário ter também o maior número de presidências de municípios. Pelo primeiro critério, tendo sido António Costa, eleito presidente de Lisboa mesmo que, como já referimos, com a hipótese absurda de haver uma abstenção desaustinada e um só votante, o Costa no Costa, a sua eleição estava garantida. Como se está a ver nada mais transparentemente democrático!

Pelo segundo critério é que a porca torce, torcia o rabo. A CDU ganhou nove municípios, com um total de 233.414 votantes, o PS, seis com um total de 355.114 votantes (só Lisboa contribuiu com 32,8% desses votos numa coligação que era um ponto de encontro de várias vontades e opções ideológicas, como lembrou Helena Roseta para sublinhar a pluralidade de uma lista, com vários grupos de cidadãos organizados, que se albergava debaixo da bandeira do PS, opinião que António Costa rebateu soezmente no discurso de vitória em que quase afirmou, para Seguro e o PS ouvirem evidentemente, que a vitória se devia a ele e só a ele) o PSD dois, com um total de 196.524 votos, e o delfim do Isaltino, toma lá aquele abraço comovido, que ganhou Oeiras com 25.071 votos.

O PCP propôs ao PS que cada um dos partidos ocupasse a presidência de um dos órgãos da Área Metropolitana de Lisboa. Hipótese liminarmente rejeitada por António Costa que. como bom democrata, queria todo o poder para ele nem que  tivesse que se deitar com o diabo.

A única saída era aliar-se aos presidentes de câmaras ganhas pelo PSD e, o mais fácil, à Câmara de Oeiras, ganha por um discípulo desse autarca exemplar que foi Isaltino Morais. Um exemplo também para o António Costa, sobretudo em anos em que vai rever o PDM. Isaltino grande líder estou contigo, o teu seguidor será meu vice-presidente.

Homem avisado, António Costa preparou o terreno em Lisboa, rasgando uma regra tácita, em que as vice-presidências da Assembleia Municipal eram ocupadas pelas outras forças mais votadas. Sempre virado para a direita enquanto fala para a esquerda ouvir, numa conversa fiada que tem treinado desde a juventude, afastou a CDU de qualquer acordo, antecipando o que iria fazer na Área Metropolitana. Com essas alianças somou tantas câmaras, nove, quantas as que a CDU ganhou. Estava desfeito o nó que o amigo Miguel Relvas não tinha desfeito. António Costa foi eleito por unanimidade absoluta, obtida com a ausência de indignação justificadíssima dos autarcas CDU, É o novo paradigma democrático, o Paradigma António Costa, um político cheio de qualidades, quase nenhuma com qualidade. Ainda há pouco tempo, no programa Quadratura do Círculo, insurgia-se de forma pouco habitual no seu estilo de experimentado e meloso intriguista, contra a alteração estatutária que António José Seguro propunha, em que as propostas de listas de candidatos a deputados pelo PS  abandonariam o método proporcional e a lista vencedora ficaria com todos os candidatos, nem que vencesse por um voto. Para António Costa isso acabava com a suposta marca de água do PS que seria a pluralidade interna. E, coisa rara nele, engrossava a voz enxofradíssimo, quase a ultrapassar as fronteiras da exaltação que  essa proposta lhe causava, apesar de tudo bem mais aceitável que a celerada lei Relvas que o beneficiava descaradamente e de que não discordava de algum modo. Essa gente é assim, sempre pronta para o contrabando ideológico e de princípios desde que saquem vantagens.

Bem pregava Frei António Costa contra as malvadezas do Seguro, malvadezas que só o são dentro do PS mas que são óptimas se, em variante menos justificável e mais violenta, fazem tábua rasa de qualquer veleidade democraticamente pluralista, quando aplicadas na Área Metropolitana de Lisboa, por via de uma lei miserável que abençoou em silêncio e logo  utilizou, fazendo  as alianças espúrias necessárias para ultrapassar os buraquinhos deixados pelo legislador e que punham em perigo o poder absoluto. Ou talvez as alianças não sejam nada espúrias e revelem, para quem ainda tenha ou tivesse ilusões, que António Costa, como o rematador de pólo aquático da Palombella Rossa, aponta à esquerda, sempre à esquerda para rematar à direita, sempre à direita. Aliás António Costa especializou-se em dizer coisas de esquerda, que chegam a ultrapassar a esquerda pela esquerda, para melhor fazer políticas e, sempre que necessário, alianças à direita. Nunca se viu, em todo o seu já longo percurso político, António Costa fazer outra coisa que não seja rasteirar a esquerda na primeira curva em que com ela se cruza. Um artista faceto, um político sem príncipios, um homem da confiança do grande capital como se viu ainda há bem pouco tempo quando fez um ultimato a Seguro, em que acabou por recuar só para tomar mais balanço. Apercebeu-se que ainda não tinha chegado a sua hora apesar dos apoios angariados entre correlegários e os externos que os representantes do capital lhe garantiam. Por ela tem feito tudo, com a habilidade que se lhe reconhece, dando doces mas vigorosas dentadas nos adversários colegas de partido, puxando os cordéis nos bastidores, largando bombas de relógio nos corredores do Rato, rasteirando e intrigando brilhantemente para que não apareça outro Sócrates que lhe atrase o destino para que se acha predestinado e que desde a juventude, as elites socialistas preconizam.

Ao assistir a estas manobras, lembrámo-nos da primeira aventura autárquica de António Costa, quando em 1993 concorreu ao município de Loures. Ainda estavam os votos mal contados, a votação era-lhe favorável. Não perdeu tempo a fazer um extemporâneo discurso de vitória. Na RTP 1, entre vários comentadores, Cáceres Monteiro e Nuno Rogeiro. Cáceres Monteiro babava-se a ouvir António Costa cantando vitória.. Depois a má notícia, Costa tinha perdido. Cáceres Monteiro, muito rápido, quase lacrimejante, desatou a fazer o elogio de António Costa, a lamentar a perda que era para Loures ter atirado para a lixeira a oportunidade de ser dirigida por tão promissor político, ter dado a vitória ao engenheiro “Demérito” Alves (sic). O alvoroço tem desses imprevistos. Nuno Rogeiro sarcástico corrigiu-o. Cito de memória: “Não é Demérito é Demétrio Alves, e você ainda não percebeu que a população de Loures preferiu o ferrari ao burro?!” Aludindo há corrida que o Costa tinha promovido entre um burro e um ferrari na Calçada do Carriche,

Agora o burro, que não é nada burro como os burros não o são, vingou-se e de braço dado com Miguel Relvas e Isaltino Morais, dois democratas estrénuos como ele e de gabarito equivalente, ocupou todos os cadeirões presidenciais da Área Metropolitana de Lisboa. Reconheça-se que o burro vai longe. É um animal político trabalhador, obstinado, com objectivos bem definidos que mascara habilidosamente para os adversários, dentro e fora do seu partido, só deles se aperceberem quando já não há, ou quase não há, retorno. Consumado politiqueiro, onzeneiro experimentado, tem poses e discursos de sereia que disfarçam a voracidade saturnina. Mesmo quando parece recuar está a avançar dando a volta ao texto. O tempo em que teve hesitações que foram escolhos na sua carreira, parece definitivamente ultrapassado. No pântano da democracia, enquanto a democracia for um pantanal mal cheiroso, António Costa está entre os que prometem ir mais longe. Terá é que não ser tão sofrego como na referida edição da Quadratura do Círculo e não desatar a correr atrás do seu fado, para recuperar o tempo e as oportunidades que por maus cálculos deixou passar. Dona Constança Vitorino anda a fazer pela vidinha e os outros não passam de uns seguros de trazer por casa. Oh Costa, tenha calma, nem sempre terá Relvas por muleta, mas os ventos, maus ventos para todos nós, são-lhe favoráveis.

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Educação, Política

Retrato de um País a saque

Por detrás de cada ataque à Constituição, aos serviços públicos, aos funcionários públicos, aos professores, existe um objectivo claro e determinado, uma opção política de fundo, comprometida com os interesses das classes dominantes.

Se for necessário dar cabo da educação pública, gratuita e de qualidade para todos, se for preciso rasgar a Constituição, se for preciso degradar as condições do ensino público, se for preciso despedir milhares de professores, se for preciso… eles estão dispostos a tudo para agradar aos amigos e continuar a promover as condições para a criação de fortunas erguidas sobre a miséria de um povo.

De cada vez que dizem que o Estado não tem dinheiro e que nos temos de habituar a viver cada vez mais miseravelmente, mentem!

Mentem, porque o que se assiste, diariamente, é à escassez de meios e recursos para os serviços públicos e as prestações sociais que tocam a esmagadora maioria da população e, em particular, as camadas mais desfavorecidas, e a sua abundância para as negociatas e o favorecimento de grupos económicos e financeiros que, muitas vezes, agem nos limites da lei.

A pretexto da liberdade querem rever uma Constituição que ainda vai servindo de factor de resistência ao vale tudo desta gente, a pretexto da liberdade acabam com as funções sociais do Estado, aprofundando desigualdades e injustiças, mas será em nome e no exercício da Liberdade que os protagonistas destas criminosas políticas de exploração e empobrecimento serão julgados.

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