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HERBERTO HELDER 1930-2015

Era muito jovem quando conheci Herberto Helder, em 1961. Deu-me o seu segundo livro, A Colher na Boca. No ano anterior Luís Pacheco tinha publicado na Contraponto O Amor em Visita. Ainda o comprei ao Pacheco, antes de se esgotar. Foi um deslumbramento que cresceu poema a poema até ao seu último poema publicado na Morte sem Mestre.

herbertocolher

A colher de súbito cai no silêncio da língua.

Paro com a gelada imagem do tempo nos sentidos

puros. E sei que não é uma flor aberta

ou a noite cercada de águas extremas.

Paro por esta monstruosa,

ingénua força. de uma morte.

– A colher envolvida pelo silêncio extenuante

da minha, boca, da minha vida.

Que faço? Bem sei como se alimenta um homem,

e tímido e arguto

alimenta a sua. irénica inspiração solar,

a inocente astronomia

de ossos e estrelas, veias e flores

e órgãos genitais –

para que tudo se construa docernente,

com as mulheres sentadas nos seus vestidos coalhados,

sorrindo fixamente como as crianças na lírica, ‘

tenebrosa densidade da carne.

A colher cheia de alimento. Era um jogo vivo,

casto; ponderado – por certo

de uma beleza confusa e evocativa.

Eis: sou um homem que instante a instante

ganhava um sabor de perene

sentido, uma duração de sombra extasiada,

laboriosa, inclinada. no grave centro

  1. primavera – a sombra

das minhas mãos.

A colher  subia como um instrumento da criação,

firme subia nos dedos

como que invocando, unindo os fragmentos

do espirito,

a mímica na sugerida integridade

da pessoa

colocada na. doce integridade do tempo.

Mas pare. Cai no silêncio da língua

a colher que era-quem sabe?-música,

intimidade, sinal fortuito

de uma. essência, de um génio interior.

O puro roer devagar roerá

a colher na mão e a boca na. colher,

e no sangue imóvel o pudor da imagem onde

coagulava a leve espessura das casas. Essas que ardiam

assimetria festiva e sagaz das invenções.

–Cai

no s11ênc1o da llngua a colher tao brusca.

Herberto Helder é uma voz extraordinária e rara do grande e sublime mistério que é a poesia, porque, como ele escreveu, nada pode ser mais complexo que um poema/organismo superlativo absoluto vivo/apenas com palavras/apenas com palavras despropositadas/ movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes/nada mais que isso, /música,/e o silêncio por ela fora

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Cultura, poesia

Credo… mais um poema

CREDO

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,

creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. Amém.

Natália Correia

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Cultura, poesia

Bela… é a poesia!

A vida é o resultado de um conjunto de realidades aparentemente insignificantes que nos rodeiam, mas também de histórias e de emoções que perduram na memória de cada um de nós.

Bucólica

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga, Diário I, Coimbra, 1941

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Geral

Morreu um Poeta

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Esta semana morreu o poeta e escritor irlandês Seamus Heaney, Prémio Nobel da Literatura em 1995.

Nasceu na Irlanda do Norte em 1939 e Luz Eléctrica é o seu último livro. Homem de esquerda, a sua obra poética é uma constante surpresa entre a ênfase elegíaca e um conhecimento de todos os legados literários. Para lembrar este poeta maior do século XX, um dos seus últimos poemas numa edição da Quasi.

 

 

 

LUZ  ELÉCTRICA

 

Salvo de vela coagulado, enfarruscado pelo pavio…

A unha do polegar esmagada

Daquele vetusto polegar aleijado era pérola franzida,

 

Quartzo rigoroso, detritos em Cumas,

Na primeira casa onde vi luz eléctrica

Ela sentava-se de pantufas de feltro desapertadas

 

O ano inteiro, na mesma cadeira, e sussurrava

Numa voz que no seu máximo não fazia

Que sussurrar. Ficámos ambos desesperados

 

Na noite em que lá me deixaram para dormir, quando chorei

E chorei sobre as cobertas, sob o esbanjamento da luz

Que deixaram acesa no quarto. “Que te molesta, menino,

 

Que te molesta, valha-te Deus?” Urgente, sibilante,

Aquele molesta remoto e antigo. Águas de caverna assustadoras

Batendo num embarcadouro. E o desamparo dela sem me amparar.

 

Ceceio e relapsia. Redemoinho de inglês sibilino,

Embates de água entre barco e doca, para os quais,

Animula, eu despertava a tempo

 

Enquanto os barcos rumorejavam pelo Belfast Lough ao encontro

Do letargo de cabeça contra-o-vidro próprio de um comboio matinal,

Do cerne de “ora-aqui-estás-e-onde-estás-tu'”

 

Da própria poesia. Traseiras de casas

Como a de casa dela, despensas e calandas

Nos quintais junto à linha de uma Inglaterra fugidia.

 

Um espantalho banal por entre parcelas de pousio,

Depois um campo de futebol de arrabalde, a estranha distância,

Searas como o Campo de Pano de Ouro.

 

E eu também vim a Southwark,

saindo da boca do metro para a luz do sol,

Sopro do Moyola junto à “plaga distante” do Tamisa.

 

 

 

De pé na cadeira de costas em arco, eu conseguia

Chegar ao interruptor. Deixavam-me e ficavam a ver-me,

Um toque na pequena pevide esperava a magia

 

Rodando o botão da telefonia acendia-se a luz

No mostrador. Deixavam-me e ficavam a ver-me

Percorrer à vontade as estações do mundo.

 

Depois elas desapareceram e o Big Bem e as notícias

Acabaram. O aparelho tinha sido desligado,

Tudo em silêncio por detrás do blackout a não ser

 

O clique-clique das agulhas de tricot, o vento na chaminé,

Ela sentava-se  de pantufas de feltro desapertadas

A luz eléctrica brilhava sobre nós, eu receava

 

O veio e a unha enegrecida da unha dela,

Com tal dureza de plectro, de tal brilho furta-cor, que ainda deve

Subsistir por entre as contas e vértebras no solo de Derry.

 

 

 

Notas na edição portuguesa da Quasi/ Luz Eléctrica-Seamus Heaney/ tradução de Rui Carvalho Homem

“Campo de Pano de Ouro”: designação por que ficou conhecido o terreno, perto de Calais, onde Henrique VIII de Inglaterra e Francisco I de França se encontraram, com as respectivas cortes, em 1520, com o propósito de tentar firmar uma aliança. A designação decorre da enorme riqueza dos pavilhões, atavios e outras formas de exteriorização de poder nos quais os dois monarcas rivalizaram, esforçando-se por se impressionar mutuamente.

A referência a Southwark e a “plagas distantes” remete para o início dos Contos de Cantuária de Geoffrey Chaucer. É numa taberna em Southwark que se reúnem os pergrinos apresentados e descritos neste texto. O Moyola , por sua vez, é um rio irlandês importante no espaço de referência da obra poética de Seamus Heaney.

 

 

 

 

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OS OLHOS DAS CRIANÇAS

Atrás dos muros altos com garrafas partidas
bem para trás das grades do silêncio imposto
as crianças de olhos de espanto e de medo transidas
as crianças vendidas alugadas perseguidas
olham os poetas com lágrimas no rosto.

Olham os poetas as crianças das vielas
mas não pedem cançonetas mas não pedem baladas
o que elas pedem é que gritemos por elas
as crianças sem livros sem ternura sem janelas
as crianças dos versos que são como pedradas.

Sidónio Muralha

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Geral

Confiança

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura…
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova…                                                                                     

Miguel Torga

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Geral

O GLOBO

Ofereçamos o globo às crianças, ao menos por um dia.

Para que brinquem com ele como se fosse um balão multicolor,
para que brinquem e cantem por entre as estrelas.

Ofereçamos o globo às crianças,
entreguemo-lo como uma maçã enorme,
como uma bola de pão quente.

Que ao menos por um dia comam até se fartarem.

Ofereçamos o globo às crianças,

Que ao menos por um dia o mundo aprenda a camaradagem.

As crianças tomarão o globo das nossas mãos
e plantarão nele árvores imortais.

A Páscoa sugere-me este belo poema de Nazim Hikmet, grande poeta turco, falecido em 1963.

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Cultura, Geral

OS CALCETEIROS

A semana foi muito intensa e sinto-me um pouco cansada.

Apetecia-me ter uma conversa com os vizinhos da Praça. Bater-lhes à porta e dizer:falemos!

Não sei se José Saramago tinha ou não razão quando escreveu em O Memorial do Convento que são” Os sonhos e as conversas das mulheres que fazem avançar o mundo“, mas eu estou de acordo com ele.

Mas…

Os meus vizinhos estarão já a dormir, certamente. Assim, deixo-vos este belo poema de António Osório.

OS CALCETEIROS 

Escrevem na rua:
juntam
cuidadosamente
palavras

pegam-lhes
sílaba a sílaba
escolhem, unem,
completam,
tocam
ao de leve por cima
e continuam.

Com o maço
e o suor
assinam.

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Política

Guerra Junqueiro, para ler e pensar!

“Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio,/
fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora,/
aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias,/
sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice,/
pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;
um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom,
e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que
um lampejo misterioso da alma nacional,
reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,
não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha,
sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima,
descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação,
da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador; e este, finalmente,
tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política,

torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções,
incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos,
iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero,
e não se malgando e fundindo, apesar disso,
pela razão que alguém deu no parlamento,
de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.”

Guerra Junqueiro, 1886

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Internacional, Política

Grécia

“Crise da Dívida: Grécia em Roda Livre?” titula um jornal. Desfilam os números. Nada de novo. Oculta-se que políticas conduziram a essa situação e que políticas são aplicadas pelos espertos do costume, um bando de corvos também anda por cá, para a (não) resolver.

POVOS DA EUROPA, POVOS DO MUNDO! ACORDEM!
Preciso lavar os olhos, os neurónios. A correr vou buscar Ritsos à estante.
.OS MODELOS (*)

Não esqueçamos nunca — disse — as boas lições, aquelas
da arte dos Gregos. Sempre o celeste lado a lado
com o quotidiano. Ao lado do homem, o animal e a coisa —
uma pulseira no braço da deusa nua; uma flor
caída no chão. Recordai as formosas representações
nos nossos vasos de barro — os deuses com os pássaros e
com outros animais, e juntamente a lira, um martelo, uma maçã, a arca, as
[tenazes;
ah!, e aquele poema em que o deus, ao terminar o trabalho, retira o fole de junto do fogo, recolhe uma a uma as ferramentas
dentro da arca de prata; depois, com uma esponja, limpa o rosto, as mãos, o pescoço nervudo, o peito peludo.
Assim, limpo, bem arranjado, sai à tardinha, apoiado nos ombros de efebos todos de oiro — trabalhos de suas
[mãos
que têm força, e pensamento, e voz; — sai para a rua,

mais magnífico que todos, o deus coxo, o deus operário. Continuar a ler

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Cultura

CAMPO da POESIA

Há vinte e dois anos,com 50 anos, morreu  Luiza Neto Jorge, um dos maiores poetas de língua portuguesa.

Deixou uma obra pouco extensa de grande densidade e luminosidade poética.

Uma leitura obrigatória para festejar a poesia.

DIFÍCIL POEMA DE AMOR

Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa
do juiz supremo dos amantes. Para que os juízes
me possam julgar, conhecerão primeiro o amor desonesto infinito feito de marés ambulantes
de espinhos nas pálpebras onde as ruas são os pontos únicos
do furor erótico e onde todos os pontos únicos do amor
são ruas estreitíssimas velocíssimas que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação. Continuar a ler

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Cultura, Geral

A genialidade de Jorge de Sena

Ontem. em Setúbal onde não acontece nada de nada ( aleixo dixit ) na Biblioteca Municipal realizou-se uma sessão de cinema com Sinais de Fogo um filme de Luís Filipe Rocha, sobre o romance de Jorge de Sena, um dos maiores romances da literatura portuguesa. No fim Luís Filipe Rocha dialogou com os assistentes, bastante menos dos que poderiam estar. Se calhar andavam com o aleixo à caça de acontecimentos culturais. Vidas…

Foi uma conversa interessantíssima sobre cinema, escritores, o filme que tinha sido exibido, a vida que é o que acaba por estar sempre presente.

Vim de boleia com o Luís, e do muito que falámos Jorge de Sena  e da relação que com ele, o Luís Filipe Rocha tinha iniciado e mantido há muitos anos, muito antes de fazer o filme, que o Jorge de Sena nunca viu. Admirando toda a sua extensa obra, a excelência da poesia, qualquer que seja o tema ou a métrica usada, foi amplamente referida.

Em volta dessa conversa, não resisti,  fui buscar um dos livros do Jorge de Sena, Poesia I, edição da Morais, que desde 1960 (como o tempo passa!) que sempre me tem acompanhado. Vai-se desconjuntando sem perder uma folha.

Seis poemas das “Evidências” ( propositadamente sem selecção, seguem a sequência numérica) são a evidência da genialidade de Sena, escrevendo dos melhores poemas de amor e eróticos em língua portuguesa. Continuar a ler

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Cultura

19 MARÇO 2011 – A NOITE

Hoje vamos poder ver a maior lua das últimas duas décadas
vamos admirá-la ouvindo dois andamentos da
Sonata ao Luar de Beethoven
por Emil Gillels

lendo este magnífico poema de
Cecília Meireles

Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

Cecília Meireles, in ‘Vaga Música’


Sonata ao luar, presto agitato

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Cultura, Setúbal

BOCAGE

Hoje, 15 de Setembro, é feriado municipal em Setúbal, assinalando o dia em que, nessa cidade, Bocage nasceu. Poeta extraordinário, um talento que a si-mesmo se devorava, Bocage é, na língua portuguesa, um dos seus poetas maiores e é o maior poeta do iluminismo cujas ideias, na época revolucionárias, se encontram bem presentes na sua poesia.
De Bocage disse Camilo Castelo Branco; “é um poeta de uma absoluta singularidade, soberbo no arrojo das ideias, na travação harmónica das palavras, no descomunal das metáforas. As hipérboles são excelentes, se disparam indignação e zombaria.”
De Bocage transcreve-se um excerto de um dos mais belos poemas algum dia escritos em português “Carta a Marília”

Pavorosa ilusão de Eternidade,
Terror dos vivos, cárcere dos mortos;
D’almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Sistema de política opressora,
Freio que a mão dos déspotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas:
Dogma funesto, detestável crença,
Que envenena delícias inocentes!
Tais como aquelas que o céu fingem:
Fúrias, Cerastes, Dragos, Centimanos,
Perpétua escuridão, perpétua chama,
Incompatíveis produções do engano,
Do sempiterno horror horrível quadro,
(Só terrível aos olhos da ignorância)
Não, não me assombram tuas negras cores,
Dos homens o pincel, e a mão conheço:
Trema de ouvir sacrílego ameaço
Quem d’um Deus quando quer faz um tirano:
Trema a superstição; lágrimas, preces,
Votos, suspiros arquejando espalhe,
Coza as faces co’a terra, os peitos fira,
Vergonhosa piedade, inútil vênia
Espere às plantas de impostor sagrado,
Que ora os infernos abre, ora os ferrolha:
Que às leis, que às propensões da natureza
Eternas, imutáveis, necessária,
Chama espantosos, voluntários crimes;
Que as vidas paixões que em si fomenta,
Aborrece no mais, nos mais fulmina:
Que molesto jejum roaz cilico
Com despótica voz à carne arbitra,
E, nos ares lançando a fútil bênção,
Vai do grã tribunal desenfadar-se
Em sórdido prazer, venais delícias,
Escândalo de Amor, que dá, não vende.

II

Oh Deus, não opressor, não vingativo,
Não vibrando com a destra o raio ardente
Contra o suave instinto que nos deste;
Não carrancudo, ríspido, arrojando
Sobre os mortais a rígida sentença,
A punição cruel, que execede o crime,
Até na opinião do cego escravo,
Que te adora, te incensa, e crê que és duro!
Monstros de vis paixões, danados peitos
Regidos pelo sôfrego interesse
(Alto, impassivo númen!) te atribuem
A cólera, a vingança, os vícios todos
Negros enxames, que lhes fervem n’alma!
Quer sanhudo, ministro dos altares
Dourar o horror das bárbaras cruezas,
Cobrir com véu compacto, e venerando
A atroz satisfação de antigos ódios,
Que a mira põem no estrago da inocência,
(. . .)
Ei-lo, cheio de um Deus, tão mau como ele,
Ei-lo citando os hórridos exemplos
Em que aterrada observe a fantasia
Um Deus algoz, a vítima o seu povo:
(. . .)
Ah! Bárbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lágrimas, de estragos,
Serena o frenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores, que derramas,
Para fundar o império dos tiranos,
Para deixar-lhe o feio, o duro exemplo
De oprimir seus iguais com férreo jugo.
Não profanes, sacrílego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto!
Esse, de quem te ostentas tão válido,
É Deus de teu furor, Deus do teu génio,
Deus criado por ti, Deus necessário
Aos tiranos da terra, aos que te imitam,
E àqueles, que não crêem que Deus existe.
(. . .)

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Geral

Leo Ferré – 6

Os labirintos do amor e das mulheres são um dos temas de Leo Ferré que, sempre com texto e música esplendorosos,  de uma grande mestria poética e musical, expõe de modo controverso. Desafiando as convenções, sublinhando a ironia do homem manipulado pelos artifícios das mulheres, “que nunca foram crianças” como afirmará com espanto teatral, por vezes mesmo surge um certo halo de misoginia ou uma concessão patética como em Avec Le Temps. Tudo, quase tudo coexiste nesse grupo de canções de Leo Ferré.

Em “Petite” descreve o desejo que uma jovem, muito jovem, pode com  perversa e duvidosa inocência, despertar num homem maduro, que sabe os riscos em que não poderá incorrer por ela transportar entre as coxas o Código Civil. É uma canção do desassossego de saber que não vai ultrapassar o interdito, sustendo-se sobre o abismo.

Vingts Ans são os enganos quando na bagagem se transporta sempre reserva de esperança que se atira fora com o mesma facilidade com que se atira milho aos pombos, quando se ama para toda a vida, uma vida que dura o tempo de um grito. Quando o tempo para a frente é leve e ligeiro porque essa é a idade que sempre se tem quando se procura o coração de criança.

La Fleur de l’Age segue esse mesma linha. Dirá Ferré que a flor da idade é uma ideia que vive dentro do soutien, uma ideia que dura uma noite. Na continuação faz uma variante sobre uma mesma ideia: As palavras de amor são como as flores/ só se colhem uma vez// amo-te aqui, amo-te algures/ amo-vos todas cada uma por sua vez/no teu jardim colhi tudo/  para nós dois/não há mais que uma réstia de sol da tua vida/ que um pouco de neve nos meus cabelos. E acaba com uma variante: As palavras de amor são como as flores/ só se apanham uma vez// amo-te um pouco com todo o meu coração/ desfolho-me entre os teus dedos/cortei tudo no meu jardim/não ficou nada para amanhã/talvez um pouco da minha alegria passageira/ na  neblina das tuas  sedas.

Canção de desespero ainda mais vincado é Ton Style, em que raparigas, homens e mulheres estão tão envolvidos nesta sociedade sem espessura e de imagens superficiais que se enredam em cenas onde são actores e espectadores “ dans ces mondes perdus de l’an quatre-vingt mille/quand nous n’y serons plus et quand nous renaitrons/tous cês trucs un peu fous tout cela c’est ton style/Ton style c’est ton cul c’est ton cul c’est ton cul c’est ton cul.

Canção onde a misoginia se torna mais evidente é em Oiseaux du Malheur. Ferré traça um paralelo entre as mulheres e os pássaros de mau agoiro, que tem a graça e voam maravilhosamente como as mulheres, que guardam nos seus ninhos todas as nossas crianças. É com elas que nós dormimos, é por elas que nós morremos, aprendendo a dúvida e a miséria, os nossos belos pássaros de mau agoiro. Oiseaux de malheur, a danação que os homens aceitam alegre e apaixonadamente.

Uma das últimas canções de Ferré, será mais correcto dizer poema  flutuando sobre música, é de uma alucinante beleza, Les Amants Tristes.
Aqui se percebe claramente a importância do texto, e a importância da música que integra e suporta o texto para se obter uma canção.

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Leo Ferré – 4 / VERLAINE

A fechar esta série de poetas musicados e cantados por Leo Ferré, um lindíssimo poema de amor de Verlaine que traz à memória a tumultuosa paixão que viveu com Rimbaud.
Música magnífica com ressonâncias de compositores românticos, Chopin? Shumann? Wolf? , a suportarem versos esplendorosos de paixão delicadíssima.
No próximo fim-de-semana e até ao final do mês de Agosto, Ferré nasceu a 24, Ferré poeta, cantor compositor.

Verlaine, Ame te Souvient-il

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Leo Ferré – 1 / ARAGON

Leo Ferré é um dos grandes intérpretes da canção francesa e da canção de texto, em que o poema tem uma importância fundamental. Numa época em proliferam festivais de música dominadas pelo paradigma anglo-saxónico de uma música internacional nos sentimentos e norte-americana na forma, ouvir e lembrar estes grandes autores interpretes atirados para os recantos não invadidos pelo marketing, independentemente da sua nacionalidade, é um colírio para a alma.
Leo Ferré, além de uma obra extensa em que escreveu texto e música, fez música para poemas de alguns dos maiores poetas franceses, nomeadamente Rimbaud, Verlaine, Baudelaire, Aragon, Apollinaire com um raro brilhantismo.
Neste mês de Agosto em que Leo Ferré faria 95 anos, vamos visitar a sua obra.
Iniciamos esta série de canções escritas e interpretadas por Leo Ferré com um poema de Aragon- Est-ce ainsi que les hommes vivent

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