Geral, Setúbal

Unidade de Saúde Móvel ou o problema dos médicos de família e dos enfermeiros que não existem?

Centro de Saúde de São Sebastião

A partir de hoje a Praça do Bocage passa a ter contributos de convidados sobre temas da atualidade setubalense. Tais contributos serão publicados sob o nome de Bocage, que escolhemos para podermos albergar na nossa página as opiniões de vários autores que não fazem parte do painel regular de comentadores do blogue. Não é, neste caso, um pseudónimo, mas sim um nome que permite que vários protagonistas da nossa vida local aqui deixem o seu testemunho sobre os mais variados temas*.

O contributo inaugural é de Ricardo Oliveira, vereador da Câmara Municipal de Setúbal que tem o pelouro da saúde e que, neste texto, demonstra a reduzida seriedade política da mais recente proposta do PSD setubalense.


Ricardo Oliveira
Vereador do pelouro da Saúde da Câmara Municipal de Setúbal

Recentemente surgiu um título de primeira página no Setubalense/Diário da Região atribuindo aos eleitos do PSD e do PS na Assembleia de Freguesia de Gâmbia, Pontes e Alto da Guerra a consideração de que a Freguesia sofre problemas de saúde pública, pois não tem um Centro de Saúde no território. Curiosa afirmação!

Os dois partidos que têm sido Governo ao longo dos anos e que são responsáveis pela ausência de respostas à população, tanto desta freguesia como do concelho de Setúbal, e de desinvestimento no SNS, em especial no seu parente pobre – os cuidados de saúde primários, como que assobiando para o ar, na proximidade de eleições para o Parlamento Europeu e Legislativas e numa altura em que o Governo PS com o apoio do PSD tentam impor às autarquias locais uma transferência de competências desadequada e sem meios, lembraram-se que, apesar do forte crescimento da Gâmbia, Pontes e Alto da Guerra e das reivindicações da população da Junta de Freguesia, este território continua sem qualquer Centro de Saúde.

Navegando na crista da onda, um dos partidos da oposição na Freguesia e nos órgãos municipais – Câmara Municipal e Assembleia Municipal de Setúbal – apresentou uma proposta em sessão de câmara para a aquisição de uma unidade de saúde móvel para esta freguesia, através de protocolo a ser assinado entre a CMS e a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT). Curiosa proposta!

Tudo isto foi proposto e é defendido pelos partidos que há décadas asseguram o negócio dos seguros privados de saúde e a proliferação de clínicas e hospitais privados alimentados pelo dinheiro dos funcionários públicos e pelo desinvestimento no SNS.

Ignorando o grave problema de Setúbal, incluindo da Freguesia da Gâmbia Pontes e Alto da Guerra, de insuficiência de médicos de família (cerca de 62% das pessoas inscritas no Centro de Saúde de S. Sebastião/Vale do Cobro e 64% das inscritas no Centro de Saúde da Praça de República/Beira Mar não têm médico de família), este partido inventou a fórmula mágica para assegurar cuidados médicos à população da Freguesia mais oriental do Concelho: a Câmara de Setúbal apresentaria uma candidatura a fundos comunitários (no máximo cofinanciariam 50% e não os 80% referidos na proposta); a Câmara disponibilizava um local na freguesia para apoio à população para acederem à dita unidade móvel (uma carrinha); a Câmara disponibilizava um assistente técnico para organizar o atendimento da população na dita carrinha; a Câmara forneceria o combustível e o motorista para a carrinha; e ainda, a Câmara asseguraria tudo o que fosse necessário para o funcionamento do projeto de  unidade móvel de saúde.

Dito isto, algumas perguntas ficam no ar… Quem asseguraria os médicos que não existem e os enfermeiros que não existem nos centros de saúde, nem na Unidade de Cuidados à Comunidade do concelho de Setúbal e dos concelhos de Sesimbra e Palmela que compõem o território do Agrupamento de Centros de Saúde Arrábida (ACES Arrábida)? Quem asseguraria as consultas nos centros de saúde de Setúbal para os utentes que, após consulta de enfermagem na dita unidade de saúde móvel, fossem referenciados para serem vistos por médico de família?

Tudo isto foi proposto e é defendido pelos partidos que sempre estiveram no governo e sempre tiveram a responsabilidade da saúde e do SNS. Tudo isto foi proposto e é defendido pelos partidos que há décadas asseguram o negócio dos seguros privados de saúde e a proliferação de clínicas e hospitais privados alimentados pelo dinheiro dos funcionários públicos e pelo desinvestimento no SNS.

* Sempre que a administração do blogue entender poderá utilizar o nome Bocage como pseudónimo

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Política, saúde

Já Chega!

Rosina Andrade é médica, anestesista, dona de um humor mordaz e acutilante. As suas palavras são um grito de alerta que vale a pena ler e divulgar… a bem do Serviço Nacional de Saúde.

Já Chega!

Na “ressaca” de uma consoada que pela primeira vez em seis anos consecutivos pude festejar junto da família, reservo uns momentos para maçar quem quiser ler estes desabafos.
A maior parte dos meus amigos do FB conhece-me bem, porque muitos são mais do que amigos virtuais. Conhecem o meu modo de estar por vezes truculento, o espírito não alinhado e rebelde, a intolerância para o disparate e a displicência, a falta de corporativismo. Costumam resumir tudo na designação “mau feitio”. Os mais contaminados pelos eufemismos em voga dirão que tenho um baixo quociente de inteligência emocional. Não discordo do veredicto, prefiro ter mau feitio a ter mau carácter e o meu QI (não emocional) avaliado, em tempos de juventude, em 138 e 140 parece afastar-me dos níveis de debilidade e embotamento de raciocínio.
Vem tudo isto a propósito de que, sendo médica, me sinto diariamente agredida, insultada e difamada pelos profissionais do “eu acho” e do “eles deviam”.
Para quem me conheça menos eu apresento-me: médica anestesista, 57 anos, 31 de profissão dedicada nos últimos 14 anos sobretudo à Neuro-anestesia, dez dos quais no H. de S. José.
Para esclarecimento de muitos que transformam os honorários médicos em mistérios de sociedades secretas, a minha remuneração na categoria de assistente hospitalar graduada, com exclusividade na função pública, horário de 42 horas semanais (actualmente 39, pela redução anual de uma hora após os 55 anos) é de 4107 € (preço hora ~ 22 €) dos quais receberei no fim do mês ~ 2400 € (preço hora ~ 9€). A condição contratual de exclusividade obriga-me à prestação de mais 12 horas extra semanais se a instituição hospitalar o exigir (e exige), resultando em 53 horas semanais, das quais 24 são um período contínuo. Posso ser solicitada (e pressionada) a realizar mais horas semanais. Actualmente, face à carência de recursos na área de anestesiologia, perfaço, em média, 70 horas semanais (39 em actividade de bloco operatório programado, o resto em urgência) e tenho um fim de semana por mês sem urgência (nos meses mais compridos posso chegar à loucura de ter dois). Por lei poderia não realizar trabalho nocturno a partir dos 50 anos e ter isenção total de trabalho de urgência a partir dos 55. Se eu e os meus colegas do H de Faro cumprirmos a lei do trabalho à risca, a urgência cirúrgica será encerrada porque restam três elementos para garantir o apoio anestésico 24/24 horas – 7 dias por semana. Em resumo, com o ordenado base e as horas acrescidas, recordo – 70 horas semanais – a minha remuneração fica em – 3800€. Acima da média dos ordenados em Portugal? Sem dúvida! Mas 70 horas representam a soma do horário de dois médicos sem exclusividade que é de 35 horas.
Portanto, meus senhores, os malandros dos médicos trabalham ao fim-de-semana mesmo quando a lei os isenta; e também trabalham nos feriados.
Perguntam alguns porque têm os médicos que ganhar mais do os maquinistas do metro, do que os policias, do que os licenciados em geral. Faço um pequeno desvio para falar das forças da ordem. Os que têm como dever zelar pela nossa segurança são talvez a única categoria profissional mais odiada do que os médicos. Desprestigiados, mal remunerados, sujeitos a julgamentos e em alguns casos a penas de prisão quando cumprem a missão que lhes é profissionalmente exigida. Ridículo e afrontoso que um polícia tenha que pagar o próprio equipamento, surreal que se responsabilize por danos em viaturas usadas em serviço. Não há salário demasiado alto para quem arrisca a vida para que a nossa esteja segura. Existem abusos, sabemos que sim, protestamos contra a caça à multa e algumas arbitrariedades de que somos vitimas. Mas imagino como será difícil ver uma e outra vez sair pela porta da frente o marginal que horas antes detiveram, não raramente arriscando a vida, e que um juiz, de interpretação mais liberal da lei, põe e liberdade.
Vivemos numa sociedade acéfala de faz de conta, de inversão de valores, do politicamente correcto, do fundamentalismo da tolerância, dos chavões momentâneos gritados em ondas emocionais bem orquestradas, em proveito próprio, pelos bonecreiros da política.
Somos formatados para pensar o que os media querem que pensemos, sem contraditório, sem interrogação, adormecidos e embalados em conceitos pre fabricados. Continuar a ler

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Política, saúde

As Andas do Sr. Ministro

Lá em casa, em família, usava-se a expressão “pôr-se em andas” num sentido pejorativo sempre que alguém procurava mostrar-se superior ou tentava enganar alguém.

Neste caso, isto é, em relação ao ministro em causa, o da Saúde, ambos os sentidos se aplicam, mas sobretudo, o de continuar com as mentiras para nos enganar sobre o estado a que já levou o SNS.

Do Conselho Distrital de Setúbal da Ordem dos Médicos saiu um comunicado que já é conhecido do público e que denuncia a situação que se vive nos três serviços de urgência dos hospitais da Península. Muito mais se poderá dizer acerca de outros serviços, condenados a serem asfixiados para que as instituições privadas dos grandes grupos possam florescer, sobretudo, à custa da ADSE para a qual todos os que estão ligados à Função Pública vão descontando mais e mais sem  a devida explicação onde são aplicados esses aumentos.

Não pretendo pôr em causa a ADSE – a Assistência na Doença aos Servidores do Estado – mas somente perceber a que bolsos vão parar os descontos sempre aumentados por este Governo, formado por quem sabe o que está a fazer e não por meninos, enfant-terribles, de famílias políticas que os protegem e são protegidas dos senhores que hoje governam o mundo e também Portugal. Não, não são meninos, são sequazes destes, mesmo que deem sinais cada vez maiores de uma renovada incompetência, ignorância e flatulência (não é isso que estão a pensar, pois quero dizer presunção).

A ADSE deveria estar a ser utilizada em beneficio do SNS porque são, afinal, os malandros dos funcionários públicos e reformados da Função Pública que a pagam ao longo de anos e anos e suportam, deste modo, a transferência de cada vez maiores quantias de dinheiros públicos para satisfazer a gula dos negociantes da saúde.

Voltando ao referido Ministro, o da não-assistência médica e do não-tratamento e da morte antecipada e sofrida de muitos portugueses, o qual, apesar dos dados sobre algumas das parcerias público-privadas e sobre as recomendações do Tribunal de Contas sobre o Hospital da Cruz Vermelha (português e não outro) arranja as tais andas para se colocar a uns metros da realidade e negar a evidência dos factos. Poderiam ter-se poupado em três anos 29,8 milhões de euros se os doentes tratados naquele hospital tivessem sido tratados nos hospitais públicos que tinham, de resto, capacidade de resposta.

Os hospitais das 4 parcerias público-privadas vão receber um financiamento de 378 milhões mais 8,5 milhões do que em 2013 enquanto os hospitais públicos vão ver os seus financiamentos diminuídos com os cortes que o SNS vai sofrer com este Orçamento muito cozinhado pelo FMI e que os trabalhadores, os reformados e todos os demais democratas contestam e até franjas de outros que sentem na pele os cortes que também os atingem. (lembra os versos bem conhecidos: primeiro foram os operários…)

Paulo Macedo afirmou isto: o governo tem mantido uma postura de não querer renegociar os contratos destas parcerias,(PPP’S) porque todas as renegociações feitas no passado prejudicaram o Estado. Estão a ler bem! Assim, em vez de se alterar o que provoca esses prejuízos mantem-se o erro e toca a financiar mais uma vez os grupos privados de saúde que já são beneficiados com o que recebem da ADSE.

Os funcionários públicos e os reformados da Função Pública quanto pagam afinal para terem direito à Saúde? Já alguém terá feito as contas? Impostos gerais, ADSE e mais impostos aplicados à F. Pública. Pagam IRS, IVA, TUC, IMI, e ainda ADSE e taxas de solidariedade, aumentos de IRS, cortes de subsídios de férias e Natal! Sei lá que mais virá!

E reporto-me a essa “águia” do BES Saúde que afirmou que a ADSE era muito boa, porque, ao contrário dos seguros-doença, não tinha plafond, isto é, não impunha uma quantia a partir da qual o doente deixa de ter direito ao tratamento por se ter esgotado a quantia prevista pela apólice.

Se a ADSE serve para alimentar os grandes grupos privados da saúde, porque não usá-la em benefício do SNS? Ao qual sempre a ADSE pagou tarde e mal as quantias devidas? E porque deixou de fazer os pagamentos? E tem taxas moderadoras mais altas para a ADSE no SNS do que nos privados? E vamos certamente ver aumentados os descontos para a ADSE face à diminuição brutal de funcionários públicos.

Claro que não defendo ideias de acabar com a ADSE, mas de que a mesma fosse utilizada, e bem, como forma de sustentar o SNS, evitando que a pretensa “gordura” do Estado seja derretida para as panelas dos grandes grupos financeiros.

 

As andas do Sr. Ministro são muito mais altas quando se fala dos cortes/racionamentos dos medicamentos, exames complementares, consultas, cirurgias!

Quais são, na realidade, as consequências actuais e futuras sobre o estado de saúde dos portugueses? O Ministro e o Governo não fazem estudos sérios do impacto dessas medidas sobre a assistência médica aos utentes e doentes do SNS. Não há dados sobre quaisquer variáveis que comprovem os benefícios dos cortes realizados. E quanto à tão falada sustentabilidade do SNS, estamos todos bem conversados sobre a altura das andas em que se colocam os governantes quando mentem sobre isso. Ora, se tivessem esses dados, o Sr. Ministro e o Governo não seriam motivados para o uso de andas. O que na realidade eles comprovariam é que a qualidade da prática médica diminuiu de forma acentuada e a acessibilidade dos cuidados tornou-se uma miragem para largas faixas de doentes; comprovariam o stress cada vez mais intenso dos trabalhadores da saúde devido ao aumento de horas de trabalho, às equipas deficitárias, ao aumento da distância dos doentes ao local de atendimento e à convicção crescente de que a tendência será para o seu agravamento.

O Governo já terá começado a fazer o que aconselhou o Observatório Nacional de Saúde sobre a monitorização das consequências da política de austeridade (de racionamento) do SNS? Credo que ideia! Pela reunião do Observatório, na passada primavera, ficámos a saber ou, melhor vimos confirmado, que o Ministro Paulo Macedo tinha ido para além da imposição feita pela troika o que nem com os malabarismos das andas o governo conseguiu esconder.

Vem agora o Sr. Ministro mostrar-se muito preocupado com o envelhecimento da população. Desde há uns anos a esta parte que vejo uma dissonância sempre agravada entre as afirmações dos governantes e o que eles verdadeiramente pensam. Isto é, quando nos vieram falar intensivamente como papagaios sobre acessibilidade e que a centralidade do SNS deveria ser o doente, fiquei com a pulga a morder-me atrás da orelha: ouvira muito antes o bombardeio com a qualidade dos serviços, paragonas sobre paragonas e, afinal, a qualidade diminuiu drasticamente e o doente é tudo menos a centralidade dos cuidados de saúde neste 3º ano de troikas e a acessibilidade tornou-se uma caricatura cada vez maior com o ajuntamento de serviços e sua deslocalização para as três cidades tal como o eram no tempo do fascismo: Lisboa, Coimbra e Porto.

Paulo Macedo não acrescentou nada sobre as medidas a tomar para se combater a quebra de natalidade do País como se também esta situação fosse irreparável ou inultrapassável. Sr. Ministro, gostaria muito de perceber o que quer dizer com “o País tem de se adaptar a uma nova realidade”.

Com as suas medidas…

 

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Política, saúde, Setúbal

A volta que isto vai ter de levar…

VER

Anos a fio lutei, lutámos muitos, para que a forma de tratar os doentes do foro psiquiátrico mudasse e muito havia para mudar. Foi uma dura batalha que se prolongou mesmo 25 de Abril adentro, embora as portas que se abriram muito tenham ajudado, sobretudo, para se poder falar livremente sobre a situação em que os serviços de psiquiatria portugueses se encontravam. Progressivamente as vitórias foram chegando, vitórias que foram muito palpáveis nas reformas profundas dos hospitais e dos serviços de consulta externa, mas também mais subtis, mais difíceis de apontar, mas essenciais para que se consolidassem aquelas. Refiro a mudanças de mentalidades, de preconceitos existentes que eram tão poderosos que mesmo técnicos da saúde e gestores os perfilhavam.

E hoje? O que está a acontecer? Uma destruição silenciosa, mas que se vai tornando cada vez mais visível e que, brevemente, os doentes e as famílias irão perceber até que ponto foi profunda, dos serviços prestadores dos cuidados psiquiátricos.

Em Setúbal, conseguiu-se um serviço de internamento para doentes agudos em 2001 e com ele a consolidação de um serviço de urgências de 24 horas muito mais próximo dos doentes, embora ainda muitos deles tivessem de vir de zonas como Santiago de Cacém. Contudo, já não tinham de ir sistematicamente para Lisboa onde até ali eram atendidos. Quilómetros de distâncias, horas e horas de espera para, não raro, serem devolvidos à procedência com uma receita nas mãos a qual tanta vez não alterou o estado do doente que teria de voltar mais uma, duas vezes, tantas vezes sem conta, ao serviço de urgência em Lisboa, no Hospital Miguel Bombarda.

Pois bem, a partir das 20 horas e até às 8 horas já não existe uma urgência psiquiátrica na Península de Setúbal. Antes, havia ambulâncias, bombeiros disponíveis, para o transporte. E a partir de agora? Pobres doentes e pobres famílias que irão repetir o calvário de outros doentes e outras famílias para as quais o fascismo respondeu com a maior das indiferenças. Paulo Macedo estaria muito bem nesse tempo, porque consegue ser ainda mais indiferente, cínico e cruel.

Hoje, os fascistas estão mais encapotados, utilizam um linguajar modernaço, termos enganadores, falaciosos que depois a TV se encarrega de repetir para que as pessoas aceitem a inevitabilidade de tudo o que estes capatazes dos poderosos deste mundo põem em marcha, depois de umas aulas práticas nos Clubes Bilderberg’s ou nos hotéis de muitas estrelas onde os instalam para que percebam como a vida pode ser boa e luxuosa (recordo-me das palavras escritas por John Perkins no livro Confissões de Um Assassino Económico) se forem bem comportados para com o sistema iníquo de que se tornam escravos.

Mas não são só os doentes do foro psiquiátrico que estão a ficar sem urgências na Península durante a noite. Já assim estão os de oftalmologia e outras especialidades virão, e outros “programas” estarão na forja com as anti-medidas tomadas pela ARS (Administração Regional de Saúde) de Lisboa e Vale do Tejo a que pertence a Península de Setúbal, com o beneplácito do Ministro e do Governo e a complacência e cumplicidade de médicas/os que ocupam lugares na gestão /administração dos serviços de saúde.

Voltaremos rapidamente aos tempos em que as urgências estavam concentradas em Lisboa, no Hospital de S. José e Santa Maria o que, de resto, parece ser o fim último deste governo a quem foi “explicado” que as funções sociais do Estado são um dos inimigos a abater. Tudo privatizado para lucro dos detentores do capital.

Pode haver retrocessos, conquistas que se perdem, mas os trabalhadores já demonstraram ao longo dos séculos que têm, contêm em si, a força capaz de provocar mudanças, roturas que levem a sociedade a caminhos do progresso.

Como diz a canção: “ E se Abril ficar distante deste país, deste povo, a nossa força é bastante para fazer um Abril novo”.

A luta organizada é a nossa arma mais poderosa; foi ela que preparou o caminho para aquela manhã clara, nítida e libertadora. Outra faremos, até porque os mortos também vão ao nosso lado.

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Política, saúde

«A Fome é negra»

A leitura da rúbrica Sociedade e Saúde da Visão de hoje, fez-me pensar, uma vez mais, naquela máxima que a Thatcher alardeou nos seus bons tempos de bruxa –mor do neoliberalismo:

A economia é o método, mas o objectivo é mudar-lhes a alma»!

Que importa que morram um aqui e outro ali? Que importa que passem fome além e acolá? Que importa que emigram para longe ou para perto?

As suas almas neoliberais deixam-se tranquilamente dormir sem pesadelos nem remorsos. Ofuscados pelo poder e pela riqueza que vão acumulando, lá fazem o que lhes dizem para ser feito. «Ora, ora, se não for eu, outros o farão!» A eles a quem não irão dizer: «hoje não temos remédios ou só há remédios para dois, mas não para três».

E quase tudo foi legitimado por cientistas impantes por poderem ter os seus minutos de glória!

Estamos a regressar em velocidade da mais veloz banda larga para anos de fome, de miséria, de desemprego, de trabalho mal pago,de falta de assistência médica, de velhices pobres e penosas, de crianças com raquitismo, sem educação e sem futuro. Aos meninos de Soeiro Pereira Gomes que nunca tiveram infância!

Onde o progresso? Para que serve o enorme desenvolvimento cientifico e tecnológico que deveria estar ao serviço dos seres humanos?

Medicamentos inovadores? Oh, meus caros, isso é coisa de ricos! Utilização de técnicas menos invasivas e, por isso, com menores custos de sofrimento? Isso é para quem pode pagar! Hospitais limpos? Que esquisitos que estais! Material médico bom? Mas que ideia estranha!

E vão repetindo a letra ao ritmo da música da UE! Até conseguiram convencer gente que vive do esforço do seu trabalho!

Do Brasil, chega-me a voz do grande Josué de Castro da minha juventude: «Cuidado, que a fome é negra».

Acrescento eu: «E capaz de todas as violências como resposta à violência de um Estado e de governantes frios, arrogantes e insensíveis que nos olham farisaicamente! Eles, afinal, não são mais do que lacaios ao serviço dos verdadeiros predadores mundiais aqueles que acumulam dinheiro, destroem o Estado Social, destroem seres humanos, devastam a natureza e apodrecem pela corrupção os agentes que colocam no poder para que melhor possam dominar os povos.

Vão ser derrotados uns e outros, porque os povos começam a contestar o império dos predadores, organizam resistências e combatem com a certeza de que só a luta lhes poderá devolver a imensa esperança num mundo melhor.

Porque a esperança, o sonho, a liberdade estão profundamente enraizados nos povos.

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Política, saúde

A DEVASSA

O Ministério da Saúde soma e segue nos actos de absoluto desprezo pelos cidadãos portugueses.

A devassa de dados que deveriam ser confidenciais já circulam na Net e para aceder aos mesmos nem é preciso ser perito no assunto.

Outra vergonha a manchar este Governo! O Estado que deveria ser o guardião da confidencialidade dos dados referentes aos portugueses, fornece-os livremente na Net.

Foram muitos os médicos que chamaram a atenção para a necessidade de serem protegidos os dados que ficariam registados nas prescrições medicamentosas e exames complementares de diagnóstico electrónicos. O Ministro fez orelhas moucas a isso. A incompetência deste Sr. Ministro está a ser tal que ainda acaba num guiness de qualquer coisa.

Centro Hospitalar de Setúbal

Sr. Ministro, se fosse o responsável máximo de uma qualquer corporação – grande empresa –  e a mesma tivesse uma filial sem um Conselho de Administração nomeado durante 10 meses seguidos, como reagiria? O que lhe aconteceria? Como seria classificado pelos que lhe pagassem? Pois é isso mesmo. Incompetência, desleixo, incúria, má gestão.

Pois bem. O Centro Hospitalar de Setúbal está há 10 meses a ser administrado e gerido por um Conselho de Administração demitido, mas em gestão corrente. Portanto, impossibilitado de definir políticas e estratégias de acção. Também não tem desde há muitos meses um Director Clínico em funções, devido à reforma da anterior Directora Clínica.

Esta situação tem causado muitas perplexidades e dificuldades como se poderá compreendera todos os que trabalham na Instituição.

Não vou dizer que está sem rei nem roque, pois o referido conselho tem procurado segurar as pontas como vai podendo, mas é escandalosa a situação.

Sr. Primeiro-ministro onde anda? Também não sabe de nada?

As tentativas de centralizar muitos serviços em Lisboa continua, diminuindo a oferta na Península.

Não é só o Serviço de Oncologia do Hospital do Barreiro que está em perigo. Existem muitos outros! Aqui mesmo à nossa porta!

De resto, o comunicado dos órgãos da Ordem dos Médicos do Distrito de Setúbal foi muito claro e põe a nú as graves situações que se irão gerar se forem para a frente os desígnios do governo em matéria de política de saúde para a península.

Só temos razões e grandes razões para irmos amanhã para a rua exigir:

Fora com as troikas e mais os seus roubos!

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Política

A INVERDADE DO PRESIDENTE CAVACO

Há uma coisa que a troika e, particularmente, os portugueses sabem, é que se fosse hoje primeiro-ministro também cumpriria e honraria os compromissos estabelecidos pelo Estado Português.”

Estas declarações são de José Seguro, secretário-geral do PS. Se fosse 1º ministro, agiria como Passos Coelho.

Não temos dúvidas, pois o rotativismo político tem sido uma construção quase perfeita do neoliberalismo a que desde sempre aderiu o PS e o aplicou de forma sistemática, mascarando-se de socialista no nome.

A direita sempre soube ser paciente. Foram precisos 36 anos de balancé para paulatinamente terem destruído tudo o que de democrático, isto é, destinado aos que vivem ou viveram do seu trabalho, trouxe o 25 de Abril. Foram pacientes, porque sempre souberam que teriam pela frente como foram tendo, em maior ou menor grau, a resistência, a luta e o Não à morte dos valores de Abril.

Não nos surpreendem, pois, as declarações de Seguro, pois ele é uma continuidade na continuidade do PS. Rodam as pessoas, mas as ideias, os propósitos e os actos políticos do PS são os mesmos.

Sócrates foi o culminar de políticas que o antecederam e preparam o caminho para os golpes quase mortais que agora são aplicados pelo PSD/CDS com a cumplicidade de Seguro que diz claramente que se fosse ele e não Passos Coelho lá estaria a seguir o “bom caminho”, cumprindo zelosamente as leis da troika estrangeira que se compraz em constatar como temos governantes e aspirantes a sê-lo tão cumpridores, tão cumpridores e zelosos que a troika, ela própria, nem acredita muito bem ter estes engulhos a servirem-lhe de bandeja o que mais desejam já que eles não passam de meros serventuários do capital que os corrompe para ainda os amesquinhar mais. Continuar a ler

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Geral

O (des)governo e o sangue

Não se revestisse o assunto do dramatismo de tudo o que tem que ver com a vida e a morte, seria quase cómica a recente aparição do ministro da Saúde, Paulo Macedo, nas televisões efectuando uma dádiva de sangue. Mas será que foi o reconhecimento de um erro?

Paulo Macedo é ministro do mesmo Governo que se incumbiu de, numa das suas decisões mais irreflectidas, desarticular o sistema de incentivo à dádiva voluntária e benévola de sangue, ao deixar de isentar os dadores das taxas moderadoras, mantendo-as apenas nas prestações em cuidados de saúde primários.

É sabida a importância que o movimento de dadores benévolos de sangue tem, em todo o país, para a estabilidade do sistema; associações e cidadãos que têm, ao longo dos anos, assegurado o fornecimento regular de sangue ao Serviço Nacional de Saúde, numa base não comercial e solidária.

A diminuição das reservas de sangue atinge actualmente um ponto de gravidade que já não pode ser escondido, como prova a mediática dádiva ministerial ou a recente admissão da possibilidade de adiamento de cirurgias por Hélder Trindade, presidente do Instituto Português do Sangue e da Transplantação. Algumas fontes ligadas ao sector estimam que as quebras das dádivas atinjam já os 20%.

A injustificação das faltas ao trabalho por dádiva de sangue, até aqui garantidas legalmente, e que o Governo se apresta a aplicar na legislação de trabalho, será mais uma machadada no sistema. A que se soma a retirada de apoios para o transporte de dadores ou o crescente ambiente de instabilidade nas empresas e locais de trabalho que impede muitos dadores de efectuarem as suas dádivas.

Estavam à espera de quê?

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Geral

II – Suicídio – Ajuda e prevenção

Tal como referi, vou acabar a abordagem sobre a temática do suicídio. Espero que não tenha defraudado o companheiro Álvaro que me lançou o desafio. Espero ainda poder dado algum contributo válido para que todos possamos mudar as nossos preconceitos e sejamos compreensivos e colaborantes com quem tem o sofrimento de achar o suicídio o único recurso para a sua vida.

No caso de suicídio, nada poderemos fazer em relação à pessoa que o cometeu. Podemos ajudar os familiares amparando-os na sua fase de luto.

 Para ajudarmos alguém que fez uma tentativa de suicídio ou ameaça com o suicídio, temos de evitar que surjam alguns dos sentimentos que habitualmente aqueles comportamentos suscitam em nós. (hostilidade, rejeição, angústia). É importante que o nosso principal pensamento seja o de que esse alguém está em sofrimento e que precisa de ajuda. Temos de nos desfazer de todas as ideias feitas que nos podem levar a atitudes incorrectas.

Todas as ameaças de suicídio devem ser encaradas com muita seriedade, mesmo que possam parecer manipulativas. Toda a ameaça de suicídio deve ser considerada um pedido de ajuda,de socorro, talvez o mais pungente e infeliz de todos. O suicídio não é um acto de cobardia ou de coragem, pois o que faz com que uma pessoa pense na morte como solução é uma dor insuportável e a crença de não existirem alternativas.

Assim há um certo número de ideias a combater: Continuar a ler

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saúde

1 – Suicidio – causas e factores de risco

Quadro de E. Manet

O suicídio é um fenómeno bastante complexo, porque envolve múltiplos aspectos: emocionais, sociais, religiosos, culturais e filosóficos. Ainda é tratado como um tabu e, por isso, o seu próprio estudo, em termos científicos, foi feito muito tardiamente.

A morte é algo com que o ser humano não consegue lidar sem sofrimento. De resto, a busca da imortalidade tem sido uma constante e talvez seja o sonho maior na história da humanidade. E, neste século XXI, o sonho mantém-se, embora questões centrais em torno dessa imortalidade não sejam discutidas.

A morte voluntária e programada é percebida, em geral, como uma afronta à vida e causa sempre sentimentos de hostilidade, de culpabilidade, de angústia, senão mesmo de censura e de rejeição, no seio familiar, dos amigos e da sociedade, em geral.

Todas as religiões consideram o suicídio um acto condenável e algumas mesmo um pecado.

Só no século XX, em muitos países, o suicídio deixou de ser um crime que podia mesmo atingir a família de quem o cometera.

Embora o suicídio seja um acto profundamente individual e ligado ao direito de liberdade de decidir sobre a própria vida, o mesmo não pode ser desligado do contexto social onde ocorre. Hoje, é considerado um problema de saúde pública.

 Dados sobre suicídio no mundo Continuar a ler

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Política, saúde

Saúde Rima com Crise?

Uma das primeiras consequências das crises é a alimentação desequilibrada em quantidade e qualidade e, quer uma quer outra, darão origem a doenças e a menor resistência imunológica, nomeadamente, nas populações de risco.

As crianças e adolescentes em crescimento tornar-se-ão menos resistentes a infecções, poderão sofrer de anemias e terão um rendimento escolar menor. O raquitismo generalizado em Portugal só terminou com a melhoria generalizada das condições de vida trazidas pelo 25 de Abril.

No nosso concelho, já há muitas crianças que só têm uma refeição quente na Escola.

É de prever que a obesidade possa também aumentar, devido não só à má alimentação, mas ao seu excesso como uma forma de tentar diminuir o stress.

A curto ou médio prazo, assistiremos a mortes não expectáveis na população idosa e doente, já deficientemente alimentada com as pensões baixas que auferem há muitos anos e com maiores dificuldades no acesso aos cuidados de saúde.

A esperança de vida média diminuirá tal com aconteceu em outros paises onde houve crises mais ou menos prolongadas.

A tuberculose que mantém prevalências ainda altas, nomeadamente no nosso concelho, poderá vir a aumentar, porque se juntam todos os ingredientes para que tal aconteça.

A instabilidade profissional e social e o stress persistente levarão a desequilibrios que tanto se podem manifestar fisica como psiquicamente.

A instabilidade emocional e cognitiva, a insónia, o aumento acentuado da  ansiedade e da depressão serão as reacções que poderemos esperar de uma sociedade geradora de tanta desesperança, angústia e de agravamento de doenças crónicas anteriores. Também os problemas cardiovasculares poderão aumentar devido ao stress económico e psicossocial.

A depressão e a ansiedade atingirão também as crianças que sofrem tantas vezes  em silêncio com as condições perturbadas de vida familiar a que forçosamente assistirão.

O desemprego, para além da situação financeira e familiar que provoca, induz a sentimentos de inferiodade, de culpa, de impotência e de insegurança que levam à depressão e ao possível suicídio.

A taxa de suicídios em Portugal têm aumentado e, de acordo com as próprias previsões governamentais, irá aumentar.

Irá aumentar o consumo de alcool e de drogas, aumentará a violência sobre a mulher através da prostituição, do tráfico no negócio do sexo e da violência doméstica. É possivel também assistirmos a um novo aumento do HIV e da SIDA.

Podemos contabilizar tudo o que a crise poderá provocar? Quem morrerá de ataque cardíaco com o stress? Quem se tornará hipertenso? Quem fará um acidente vascular cerebral? Quem se tornará obeso? Quem se tornará ansioso crónico? O número de insucessos escolares?Quem se suicidará?

O Médico, o Psiquiatra que podem fazer? Receitar medicamentos e confortar!

O fim da linha é, muitas vezes, a Psiquiatria e esta não tem soluções, porque o problema ultrapassa-a. Terapeutas? Assistentes sociais? Médicos de família? Como podem resolver questões tão reais como o desemprego, a pobreza, a falta de dinheiro para comprar medicamentos, pagar a prestação da casa, etc.?

Ah, sim, temos os bancos alimentares, os refeitórios sociais, situações de humilhação extrema para quem sempre viveu do seu trabalho. São soluções?

Em tempos de crise, os serviços de saúde tornam-se mais necessários que nunca e a sua acessibilidade deveria estar mais fácil e próxima;  com a política de saúde actual visando destruir o SNS e tornando o acesso cada vez mais longínquo e caro  ficaremos muito longe de prevenir e de tratar, em tempo útil, os impactos na saúde da crise económico-social que atinge o País.

Contudo, a esperança, o inconformismo, a determinação não se ganham ficando-se isolado a deixar-se consumir pela resignação, pela ansiedade e pela depressão. Há que dar as mãos, unir esforços, mobilizarmo-nos para a luta organizada e erguermos as vozes e dizer:

Basta! Queremos de volta os valores do 25 de Abril!

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Política, saúde

A equação dos impossíveis e a eterna atracção pelo abismo

Com a devida autorização do autor, aqui fica um artigo do médico setubalense José Poças sobre a forma como muitos profissionais de saúde vêem hoje o que se está a passar no Serviço Nacional de Saúde.

“… aqueles que tornam impossível a revolução pacífica, tornam inevitável a revolução violenta…” (sic.) John F. Kennedy (1917 – 1963)

“… a Europa ainda não morreu, mas muitos europeus já envergam um luto antecipado … “ Viriato Soromenho Marques (sic), in Visão, 2012/03/01
Alguns dos cidadãos deste País pensarão, no momento presente, que estão apenas a viver um mero pesadelo…

Outros porém, numa tentativa “lógica” de se evadirem de uma realidade que lhes é demasiado penosa para ser consciencializada quotidianamente, procuram abstrair-se dela, ainda que sub-conscientemente, através das mais diversas estratégias, que passam, por exemplo, pela recusa sistemática em tomarem atenção aquilo que a comunicação social ou os políticos lhes vão dizendo, pela retoma obsessiva do consumo de substâncias mais ou menos (i)lícitas, pela persistência compulsiva em manter um padrão consumista que sabem intimamente ser ruinoso, ou pela procura incessante de novos (ou repetitivos) motivos de interesse que os abstraia da crua realidade (futebol, televisão, cinema, religião, etc).

Ainda uns quantos, com uma importância numérica seguramente crescente, incapazes de se contentarem com a mediocridade de um futuro sem futuro, ou impelidos por dificuldades verdadeiramente insuportáveis no seu dia-a-dia, decidem corajosamente embarcar rumo ao desconhecido, deixando para traz família, amigos, vizinhos, colegas de trabalho (ou de infortúnio), haveres, e projectos profissionais (ou frustrações!), à procura de poderem ver os seus mais básicos e legítimos anseios correspondidos numa outra terra, por mais distante que ela seja, tal como o fizeram inúmeras gerações de seus compatriotas ao longo dos muitos séculos de existência desta nossa Nação. Continuar a ler

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saúde

A Saúde – números e factos

A Saúde é uma das maiores áreas de negócio a nível mundial e, negócio melhor do que a saúde, só a indústria de armamento.”

Este “elevado” conceito foi proferido pela Presidente da Comissão Executiva da Espírito Santo Saúde aqui há uns tempos. Também clama por uma maior liberalização a nível dos cuidados de saúde primários.

Estas declarações põem a nú o que pretendem os privados da saúde em Portugal.

De facto, nos anos 90 em que muita coisa aconteceu em termos de privatizações, vemos os grandes grupos económicos estenderem as garras para os lucros na saúde, garras que aumentaram com todas as conivências dos sucessivos governos a partir de então que, tornando cada vez mais frágil o SNS, foram criando as condições para a aceitação da sua privatização por parte dos portugueses.

O próprio Sr. Correia de Campos dá o dito por não dito sobre algumas questões, nomeadamente, sobre as taxas moderadoras. Correia de Campos reconhece, num livro que publicou, que a criação de novas taxas moderadoras não visou moderar o acesso, como na altura justificou, mas preparar a opinião pública para uma alteração do financiamento do sistema.

Temos aqui de salientar desde já algo que é a fundamental diferença entre o Estado e os privados: o Estado investe na Saúde, os privados investem, sobretudo, na doença.

O SNS português, aquele que foi considerado pela OMS um dos melhores do mundo, foi alvo dos ataques das forças de direita logo após o seu nascimento com todo o tipo de ataques ideológicos até aos constrangimentos orçamentais. Na sua defesa estiveram a maioria dos seus profissionais de saúde e também os utentes.

Daqui também decorre que a sanha destruidora tenha aumentado, visando a sua total destruição ou mantendo serviços mínimos na lógica implementada pelo FMI e pelo Banco Mundial, nos anos oitenta do século passado, de que seriam necessários cuidados de saúde primários selectivos, dirigidos aos mais pobres, deixando de lado o carácter universal dos cuidados, porque isso era muito caro. Quanto à promoção da saúde, foi reduzida a acções de informação e de educação para se obterem práticas mais saudáveis, deixando de lado os determinantes sociais da saúde.

O determinante fundamental na saúde passou a ser o do lucro e, se possível, do lucro máximo.

O direito à saúde é um direito humano fundamental e, por isso, os governos têm a obrigação de implementar políticas de saúde que visem toda a população e cuja realização requer a acção de muitos outros sectores sociais e económicos além do sector saúde. Além disso, o desenvolvimento económico e social está dependente da saúde e esta daquele.

Os portugueses já pagam directamente do seu bolso cerca de 30% das despesas totais com a saúde. Esse valor em Inglaterra é de 10% e em França é de 7%.

Em 2008, (dados do Eurostat) os gastos totais em cuidados de saúde em percentagem do PIB foram em França de 10,9, na Alemanha de 10,3, na Suécia de 8,8 e na Finlândia de 7,9,sendo os gastos do governo, respectivamente, de 8,7%, 8,2%, 7,5% e 6,2%. Em Espanha, os gastos foram de 8,7% e de 6,5%.

Em Portugal foram de 9,5% e 6,5%. Em 2005, estes números foram de 9,8% e de 7,0%.

Quanto às despesas em cuidados de saúde por habitante, medidas em Paridade do Poder de Compra Padrão na França foram de 2.963€ as totais e as do governo de 2303€, na Alemanha foram de 3092 € e de 2367 €, na Suécia de 2842€ e de 2317€ e na Finlândia foram de 2464€ e de 1834€. Em Espanha foram de 2320€ e de 1685€.

Em Portugal foram de 1957€ e de 1274€.

O setor público é a principal fonte de financiamento de saúde em todos os países europeus, exceto no Chipre.

Estes números ajudam-nos a perceber a mistificação de que o Estado em Portugal gasta muito em cuidados de saúde.

A outra mistificação é de que os cuidados de saúde são tendencialmente gratuitos; contudo, o SNS é suportado pelo pagamento dos impostos; pagam mais os que têm mais rendimento, assegurando-se a universalidade no acesso; no acto da sua prestação é que são tendencialmente gratuitos. É um serviço pré-pago e isto é importante que se comprenda.

A Resolução 58.33 da Assembleia Mundial de Saúde de 2005 refirma que todos devem ter acesso a serviços de saúde sem necessidade de sacríficios financeiros (incluindo a perda de rendimentos) no momento em que deles venham a precisar.

A defesa urgente e intransigente do nosso SNS geral, universal e gratuito é fundamental para garantirmos a acessibilidade de todos os portugueses aos cuidados de saúde independentemente da sua situação económica e social.

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Geral

Gripe A, lembram-se?

Um pesado silêncio foi-se apropriando da Gripe A até quase já ninguém se lembrar do ambiente de alarme que ainda há bem pouco tempo estava na ordem do dia. Quem ainda se lembra que, em Portugal, o Ministério da Saúde chegou a fazer uma previsão dois milhões e meio de pessoas de infectadas com o virus da gripe A, ex-gripe dos porcos?

Teoricamente o risco de pandemia foi apagado, deixou de ser notícia. O que é estranho é não ser notícia, ou ser notícia quase sem destaque, o inquérito que decorre na Comissão de Saúde do Parlamento Europeu, e as investigações do British Medical Journal e do Bureau of Investigative Journalism de Londres visando esclarecer a actuação da OMS (Organização Mundial de Saúde) nesse processo.

O que já está apurado é suficiente para se ficar indignado e muitíssimo inquieto. Indignado porque está confirmado que os principais peritos que participaram na redacção das directrizes da OMS declarando o nivel 6, nível máximo, de pandemia quando os sintomas de gripe eram relativamente moderados, foram remunerados pela Roche e a GlaxoSmithKline, os dois principais laboratórios que tinham desenvolvido vacinas ou medicamentos contra os vírus gripais.

As recomendações aceites e depois transmitidas pela OMS, dirigida por Margaret Chan que, antes de ocupar esse cargo tinha tinha um papel de relevo com os alarmes da pandemia da gripe das aves que, no entanto nunca ultrapassou um nível moderado, foram redigidas por quatro peritos em colaboração com o Grupo de Trabalho Cientifico Europeu sobre a Gripe ( ESWI no acrónimo inglês). A gravidade é que o ESWI é totalmente financiado pela Roche e dois dos outros peritos, René Snacken e Daniel Lavanchy, tinham participado nos anos anteriores em eventos promovidos pela Roche e pela GlaxoSmithKline. Tudo começa a ter contornos quase conspirativos quando se verifica que vários outros peritos, que elaboraram documentos estratégicos da OMS sobre a pandemia gripal, como os professores Karl Nicholson ( Universidade de Leicester), Albert Osterhaus (Universidade Erasme, Roterdão) e Frederick Hayden (Universidade de Vírginia) foram pagos pela industria farmacêutica para publicarem artigos científicos em que se certificava o valor medicamentoso no combate aos sintomas da gripe do Tamiflu da Roche e o Pelenza da GlaxoSmithKline. A investigação em curso inquiriu a OMS se os peritos que participaram nas suas decisões e que constituíram uma, ainda secreta, comissão de urgência tinham entregue declarações de interesses. A OMS respondeu afirmativamente, mas considera essas declarações de natureza confidencial. Estes elementos, todos apurados, foram publicados pelas entidades referidas.

O que é certo é que, com a declaração de pandemia nível 6, as vendas de vacinas, em alta de preço, dispararam estimando o banco JP Morgan que os lucros obtidos por esses dois laboratórios se situam entre os 6 e os 9 milhões de euros. A esse lucro conseguido em tempo recorde há que somar a brutal valorização bolsista dessas duas empresas. Sabe-se que muitos países têm enormes stocks de medicamentos antivirais e vacinas contra o vírus da gripe A. Se a saúde já é um grande negócio, a gripe A foi o grande negócio da primeira década do século XXI.

Muitíssimo inquietante é a perca de credibilidade de um organismo como a OMS. No futuro, quando produzir aviso similar, quem irá imediatamente acreditar? Pode ser que seja mesmo sério. De maneira suave, o relator do inquérito do Parlamento Europeu, o inglês Paul Flynn, refere que se obteve ” uma prova esmagadora de que a gravidade da pandemia foi altamente sobrestimada pela OMS” que houve “grave falta de transparência deste grupo de trabalho da OMS” e “cedência dos seus peritos a pressões exteriores e ilegítimas”.

Pertencendo ao grupo parlamentar conservador, não se poderia esperar que fizesse a denúncia clara do que realmente está em causa, que é a investigação cientifica, em qualquer área, estar cada vez mais subordinada a interesses económicos. Ser uma investigação feita com objectivos precisos e cujos resultados têm que ser rapidamente rentabilizados, em detrimento da investigação pura, aquela que não sabe o que vai descobrir e que é a que produz os grandes saltos qualitativos da ciência. Newton não andava a perseguir a gravidade para a comercializar, nem Galileu descobriu o movimento uniformemente acelerado para o vender, nem a Madame Curie explorou o campo da radioactividade e descobriu os elementos químicos rádio e polónio para uma qualquer empresa e muito menos Pasteur fabrica a vacina contra a raiva a soldo da indústria farmacêutica. Não é que a investigação feita por empresas, ou que as empresas pagam às universidades para a realizarem, não deva ser feita. O risco é que se corre é a urgência obter lucros a qualquer preço para cobrir o investimento. A gripe A está a tornar-se um caso exemplar. Vamos a ver que conclusões se alcançam e como se previnem casos futuros. Coisa difícil de recuperar é a credibilidade da Organização Mundial de Saúde. Com todo o alarme que mundialmente se gerou o que talvez tenha mesmo melhorado são alguns hábitos higiénicos. Mas a que preço!!!

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Política, Setúbal

Descubra as diferenças II

Descubra as diferenças entre o que a presidente da Câmara do Montijo disse à TSF sobre o encerramento nocturno das urgências pediátricas do Hospital do Barreiro, no dia 9 de Junho [aqui], e o que disse no dia 14 (terceiro registo; os dois primeiros são de Maria das Dores Meira) [aqui], à mesma rádio, depois de saber que a ARSLVT tinha recuado na decisão de encerramento.

Chama-se a isto corrigir a pontaria. Ou coisa pior…

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Setúbal

Operacionalizar, o novo termo do léxico do Ministério da Saúde

A Câmara Municipal de Setúbal manifestou hoje o seu desacordo com a decisão de encerrar, no período nocturno, as urgências pediátricas do Hospital de São Bernardo no período nocturno, encaminhando todos os casos para o Hospital Garcia de Orta. A ARSLVT anunciou oficialmente a decisão de uma forma absolutamente desastrosa e ofensiva para os setubalenses e para as populações servidas por aquelas urgências. A Presidente da Câmara Municipal de Setúbal manifestou, entretanto, a sua indignação com a decisão e com as explicações dadas pela ARSLVT e pelo próprio Ministério da Saúde. Aqui ficam alguns excertos da declaração que leu esta tarde na conferência de imprensa que deu a propósito deste assunto:

«A ARSLVT justifica a decisão com o que parece classificar como baixa afluência a esta urgência pediátrica que serve os concelhos de Setúbal, Palmela, Sines, Santiago, Alcácer e Grândola. Acrescenta-se numa circular normativa datada de 9 de Junho — que dá conta, também, do encerramento nocturno da urgência pediátrica do Centro Hospitalar Barreiro-Montijo — que estas medidas têm com o objectivo, e passo a citar, “operacionalizar o funcionamento ininterrupto e regular das Urgências de Pediatria na Península de Setúbal”.

«A “operacionalização” referida pela ARSLVT parece ser encarada com optimismo pelo Ministério da Saúde que, numa nota divulgada hoje pela comunicação social, esclarece que o transporte dos casos de urgência para Almada pode ser feito por auto-estrada, já que este Hospital se encontra apenas a 40 quilómetros, “percurso que, em auto-estrada, pode ser efectuado em 30 minutos”. Só por total insensibilidade e desconhecimento do que é a realidade de Setúbal e das áreas servidas pelo Hospital de São Bernardo se pode afirmar que o Garcia de Orta se encontra a 40 quilómetros de concelhos como Alcácer do Sal, Grândola, Santiago ou Sines.

«A Câmara Municipal de Setúbal discorda, em absoluto, da “operacionalização” promovida pela ARSLVT e destaca, desde já, a total insensibilidade e irresponsabilidade do Ministério da Saúde perante a necessidade de serviços de saúde qualificados de uma população de mais de 200 mil pessoas. Parece-nos mesmo uma ofensa, uma falta de bom senso, afirmar que este encerramento é uma “operacionalização”, quando, na verdade, se trata da anulação de uma importante valência do Hospital de São Bernardo justificada, apenas, por falta de médicos.

«Mais grave é que esta falta, para usar um termo clínico, está diagnosticada desde Abril passado, quando a administração do Centro Hospitalar de Setúbal informou a Administração Regional de Saúde de que se corria o risco de, nos meses de Verão, o número de clínicos disponíveis não ser suficiente para assegurar as necessidades de funcionamento das urgências pediátricas.

«Se a ARS sabia deste problema, como pode agora vir argumentar que a decisão de encerramento visa uma “operacionalização”?

«Se sabia deste problema há dois meses, por que razão não encontrou soluções que evitassem a tal “operacionalização” de que fala agora?

«Os setubalenses e as populações servidas pelo Hospital de São Bernardo merecem mais respeito e não podem continuar a ter os seus serviços de saúde geridos de forma tão incompetente e pouco séria. Falar em “operacionalização”, quando o que se pretende é evitar custos com a saúde das populações, só pode mesmo ser encarado como uma ofensa.

«Resta-nos saber, já que estamos perante uma “operacionalização”, termo que, no léxico da ARS parece designar algo de positivo, se este encerramento é apenas por três meses ou se passará a definitivo.

(…)

«Somos, assim, forçados a exigir que o Ministério da Saúde anule de imediato esta medida e aplique as necessárias correcções ao funcionamento da ARS-LVT para que não se repitam situações destas.

«Setúbal é o principal pólo urbano de uma vasta região, tem uma importância crucial no desenvolvimento e crescimento de toda a península e da Área Metropolitana de Lisboa. É, pois, mais do que natural que exijamos respeito por todos os que aqui vivem e trabalham e têm direito a serviços de saúde de qualidade.»

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Setúbal

Setúbal sem urgência pediátrica nocturna?

A ironia não podia ser maior. Passada que está uma semana sobre o Dia Mundial da Criança, o Ministério da Saúde apronta-se para encerrar definitivamente a urgência externa pediátrica nocturna do Hospital de São Bernardo, em Setúbal, segundo notícia do jornal “24 horas” de hoje. Prevê-se que os utentes que procurem aquele serviço hospitalar, entre a meia-noite e as nove da manhã, sejam encaminhados para o Hospital Garcia de Orta, em Almada.

A concretizar-se tal decisão, será mais uma má notícia para Setúbal e a região do Sado. Segundo a mesma notícia o hospital setubalense recebe anualmente cerca de 30.000 crianças nas urgências pediátricas, das quais cerca de um terço, 10.000, em período nocturno. Atente-se que o Hospital de São Bernardo atende as populações de uma área que inclui, para além dos concelhos de Setúbal e Palmela, toda parte sul do distrito, Alcácer do Sal, Grândola, Santiago do Cacém e Sines, num total superior a 250 mil habitantes.

Muito mal vão as coisas quando a medida é justificada com falta de meios humanos. Estando Setúbal a meia hora da capital, onde se concentram importantes recursos clínicos, não se compreende a dificuldade em dotar o Hospital de São Bernardo com médicos daquela especialidade no período nocturno. Os responsáveis pelos serviços públicos de saúde estão pois a dever-nos uma explicação.

Esperemos que partidos políticos, deputados do distrito e responsáveis autárquicos dos municípios abrangidos por tão danosa medida não deixem de fazer ouvir o seu protesto. É que, com alguma frequência, decisões de tão elevada importância para a qualidade de vida das populações são tomadas sem que quase ninguém se aperceba delas.

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