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Grécia, a morte anunciada

OXI

O que, de certo modo pelo andar dos acontecimentos, seria expectável aconteceu. O Syriza abandonou a sua fachada de esquerda que a conservadora e reaccionária Europa adjectiva de radical, para assumir a sua matriz social-democrata.

Depois de fazer um referendo em que os gregos disseram claramente NÃO, Tsipras e o Syriza, a maioria do Syriza, aceitaram tudo, quase integralmente tudo o que a troika exigia. Aumento do IVA, grandes cortes nas reformas, privatização dos transportes, dos portos e dos aeroportos, etc. Uma capitulação em toda a linha, submetendo-se a todas as medidas que dizia rejeitar, depois de ter sido eleito com um programa em que afirmava que nunca iria aceitar. No Parlamento grego faz um discurso vergonhoso, trocando os pés pelas mãos, numa releitura miserável do resultado do referendo. Votaram NÃO às propostas da troika, mas NÃO votaram a favor da saída do euro. Para não sairmos do euro, temos que aceitar as medidas contra as quais se votou no referendo. Para a miséria moral, a vigarice intelectual ser completa, faz uma pirueta e inventa uma nova treta “este acordo levará a um programa europeu. O FMI terá apenas papel de consultor técnico. A troika, como a conhecemos, chegou ao fim.”. Para o quadro das tretas, mentiras e mentirolas ficar completo orgulha-se de evitar o grexit e de se ir discutir pela primeira vez a sustentabilidade da dívida, quando todo o mundo sabe que a dívida grega é impagável

Com o que vai desabar novamente sobre a Grécia, sem que o problema estrutural da dívida seja resolvido, o país vai entrar nos cuidados paliativos, com a morte anunciada. Ficará para sempre a lição de dignidade do povo grego que, contra todas as miseráveis  e violentas chantagens, votou NÃO, uma lição de democracia, de luta contra os poderes dominantes! O povo não cedeu. Cedeu o governo e o partido em que o povo tinha confiado.

Para uma certa esquerda que embandeirou em arco com o Syriza, as esperanças que se iria mudar a face política da Europa esfumaram-se com o desabar do castelo de cartas do programa Syriza. Esperanças infundadas se tivessem olhado atentamente as práticas do governo de Tsipras que nada fez para adquirir força nas negociações, Se atentassem ao seu demissionismo que os fez não se dotar com as ferramentas mínimas que seriam uma base, mesmo frágil, para reverter a situação catastrófica em que a Grécia estava mergulhada. Ferramentas e meios que tinham quando assumiram o governo e que desprezaram por vício ideológico, como referimos aqui no blogue.

Para a direita e direitinhas, o grande gozo de terem quebrado o Syriza. Verem-no de braço dado com a direita e centro-direita grego, a Nova Democracia, o Pasok, o To Potami, além do Anel, com quem já estavam coligados. É a alegria do triunfo da Europa, afirmando-se como um espaço não democrático. Da exibição pública de uma Europa subordinada ao grande capital e aos seus interesses financeiros, especulativos.

O Syriza colocou a Grécia em estado de coma profundo, ligada à máquina. Um dia, não será muito longínquo, a máquina será desligada para mal do povo grego. Farfalharem esperanças numa nova política que nunca existiu por não terem dado um passo, um só passo firme nessa direcção. Uma política de muitas parras sem um bago de uva, para entretém das hostes de esquerda por esse mundo fora. Uma política que enganou sem absolvição o povo grego, comprometendo o seu futuro. A História não lhes perdoará a traição.

Para a esquerda no seu todo, da mais firme à mais vacilante, é uma derrota. Para uns, o Syriza anunciava uma grande vitória sobre a Europa de burocratas sem alma nem sentido político, guiados por falsos pragmatismos que os transformam em eunucos de guarda ao harém do grande capital. O que não aconteceu, nem aconteceria. Para outros o abrir de uma pequena brecha na cidadela política e ideológica da CEE, do BCE, do FMI, fazendo entrever uma vereda no beco sem saída em que está estacionado em estado agónico o mundo actual. O que poderia ter acontecido.

Estes seis meses de tropeções, ambiguidades, vacilações Syriza, as ilusões que borboletearam, demonstram a actualidade do Radicalismo Pequeno Burguês de Fachada Socialista, de Álvaro Cunhal. Impõem-se reler a sua Introdução de uma meridiana clareza na análise ideológica e política que faz da emergência desses grupos, nos seus aspectos positivos e negativos.

Para a esquerda, para as esquerdas, analisar, estudar e perceber as lições syrizas é trabalho urgente. A História também não lhes perdoará se não o fizerem.

PS. Por cá, os porcos refocilam no chiqueiro. Numa das linhas da frente um idiota contabilista que agora julga que o decorrer dos sucessos lhe dão razão. Publica um tweet de um amigo o aconselhava a mudar de opinião em relação à Grécia. O amigo é um tonto como ele. Ele não mudou, nunca mudaria, nem mudará. A noz de massa cinzenta que lhe ocupa o crânio não lhe dá hipótese. Para ele um tweet: Zé, li o teu tesxto a agradecer o pacote de austeridade ao Syriza. Continuas estúpido como sempre! Nem vale a pena recordar-te que a dívida grega é impagável A dívida grega como a portuguesa, são impagáveis! É a verdade, estúpido! Impagáveis e com as políticas do PSD/CDS/PS/SYRIZA/PASOK/NOVA DEMOCRACIA ou outros quejandos, a agravar a vida de portugueses e gregos! A economia nunca sairá da cepa torta! As tuas contas são uma merda! Tentas enganar o pagode! Nem para isso tens jeito! Se tivesses alguma vergonha e um minimo sentido de auto-crítica já tinhas deixado de debitar parvoidades! O Brassens é que te topa , a ti e aos teus parceiros de ginjeira! 

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vigaristas,aldrabões e todos os outros ões

burro

Desta gente espera-se tudo! mesmo tudo! já nada nos devia espantar! A realidade ultrapassa sempre a ficção.

Ontem Paulo Portas, à boleia da crise grega, faz um discurso nas Jornadas parlamentares PSD/CDS digno de um vendedor da banha da cobra! Hoje ouve-se Passos Coelho tirar da cartola este coelho com mixomatose: “O discurso do medo era o trunfo do governo, os gregos destrunfaram esta maioria”

Nenhuma evidência trava esses vigaristas intelectuais, esses vendedores de vigésimos premiados que todos os dias vendem nos meios de comunicação social. Claro que o pano de fundo da comédia grotesca que essa gente caricata escreve, encena e representa, é o imenso fracasso das suas políticas austeritárias que nos empurram para o buraco grego. A transpiração de medo que a solução que for encontrada para crise grega, qualquer que seja, ainda que contra a vontade dos burocratas com sangue de barata instalados em Bruxelas, será a negação do que andaram a vender nos últimos quatro anos. O relatório do FMI, que  tentaram esconder, aponta nessa direcção. Mesmo que seja insatisfatória a solução, não deixará de haverá uma reestruturação da dívida e medidas para ultrapassar ima austeridade estúpida. Quem vende gato por lebre convencido que nunca será descoberto, continuará  a palavrear de mentirolas quase inocentes a gravosas e enormes mentiras. Há gente presa, há gente interdita por muito menos. A realidade é que haverá sempre gente que ainda compra a esses Oliveiras da Figueira (o homem que vendia frigorificos aos esquimós e sobretudos aoa congoleses) um automóvel em primeira mão. O pior é que é garantido que o carro não tem motor e a carroceria é de baquelite!
Oliveira da FigeiraMesmo o mais medíocre farsante, como são estes senhorecos, terá sempre espectadores, neste Portugal do Burro em Pé(*) . O Portugal visto tal e qual é. Uma sociedade desapiedada em que os pobres são abandonados, em que as crianças passam fome, em que os velhos são mesmo tratados como trapos. O Portugal de antanho que Passos Coelho  e Paulo Portas revisitaram e ressuscitaram.

Espera-se, deseja-se que a lucidez conquiste cada vez mais portugueses!

(*) Burro em Pé, José Cardoso Pires, publicado em Dezembro de 1979, pela Moraes Editores, ilustrada com pinturas de Júlio Pomar e capa de Sebastião Rodrigues.

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A Tragédia Grega e a Miséria Moral da Europa

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Cada dia, cada hora mostra a duplicidade, o cinismo, a falta de ética dos mangas-de-alpaca europeus e da sua aliada no FMI. A miopia política é agravada pela miséria moral que anda à solta nos corredores de Bruxelas.

As últimas declarações de vários responsáveis europeus, em particular de jean-Claude Juncker são a demonstração mais acabada do estado de podridão intelectual dessa gente.

Juncker tem o supremo desplante de se apresentar como vítima da intransigência do governo grego. Diz-se traído nos seus esforços, dele e da camarilha que o rodeia, em manter a Grécia no euro, para bem do grande capital. Sabe muitíssimo bem que a troika, agora chamada de instituições, foi encostando o governo grego à parede, obrigando-o a ir de cedência em cedência até a um ponto em que era impossível ao governo do Syriza recuar mais sem perder totalmente a credibilidade que lhe restava depois de terem ultrapassado todas as linhas vermelhas, todas bem longe do inscrito no programa de Tessalónica, a base do seu programa eleitoral que foi sufragado pelo povo grego nas últimas eleições. As cedências do governo do Syriza riscaram muitas das medidas proclamadas, reformularam outras até as tornar irreconhcíveis, atiraram outras tantas para as calendas numa tentativa de se manter “ na sua casa comum, a Europa”, Foi o governo do Syriza que foi adequando a sua proposta inicial às do nefando memorando da troika. A sua promessa de romper com os memorandos, como tinha gritado alto e bom som, já nem era um eco a soar frágil entre as colunas do Partenon. O relato que Varoufakis publicou no seu blogue sobre a reunião de 27 de Julho, sobre o rompimento das negociações, evidencia a torpeza do Eurogrupo e o desespero do Syriza em não romper com a Europa, rasgando muito, quase todo, o seu programa eleitoral. O mandato que o povo lhe conferiu. Nada comoveu e demoveu a voracidade das instituições a mando do grande capital.

O referendo que vão realizar é de facto um novo programa eleitoral em que aceita quase tudo o que lhe foram impondo. Desde as primeiras propostas até às que hoje foram conhecidas o Syriza foi atirando para a fogueira europeia  s suas promessas eleitorais, mostrando a sua debilidade ideológica, a fragilidade dos seus príncipios. Quem não recua praticamente nada é a troika, como se pode ler na sua última proposta.

Apesar diso tudo a inefável Europa continua a chantagem contra o referendo. Na primeira linha Jean Claude Juncker, um tipo sem vergonha au vem a público desnudar o seu cinismo, a sua doblez que não tem fronteiras, não tem limites. Diz-se traído, puxa dos seus galões de europeísta convicto, pronto a sacrificar-se no altar da Europa Comum. É o mesmo Juncker que traíu os seus parceiros da europeus quando, primeiro-ministro do Luxemburgo, fez acordos por baixo da mesa com  mais de 300 grandes empresas desviando milhares de milhões de euros do tesouro de vários países, Grécia incluída, que fugiam ao fisco através desse paraíso fiscal no centro da Europa, um Luxemburgo membro desde a primeira hora da Europa Connosco. Candidato a presidente da Comissão Europeia, justificou as suas patifarias, um modo delicado de as classificar, com a sua legalidade. Não haviam de ser legais! Era ele que as tornava legais, promulgando as leis. O que só pode fazer inveja aos Al Capones que não podendo fazer leis, eram “obrigados” a  impô-las recorrendo às bala. A diferença está no armamento de que cada um dispunha. É este Juncker, agora presidente da Comissão Europeia que continua a brandir a bandeira da solidariedade, da firmeza nos príncipios.  È este Juncker que tem o desplante de dizer “sinto-me traído porque os meus esforços e o de outros não foram tidos em conta” (…) “ não propusemos cortes nos salários e nas pensões” uma mentira tão descarada que foi a própria Comissão Europeia que imediatamente o desmentiu, chamaram rectificação! Um nojo!

Os outros não enojam menos. O presidente do do grupo parlamentar do PPE vem a terreiro gritar que “ Tsipras devia abandonar os jogos florais e assumir as suas responsabilidades perante o povo grego” Pois devia , devia. Os jogos florais de Tsipras são o atirar para o lixo o programa eleitoral pelo que o povo grego o elegeu. Essa é que é a sua grande responsabilidade e não a que está implicita na crítica desse mandarete.

Outro descarado sem-vergonha é Schaulbe que diz ter pena do povo grego! Esse carsa-de-pau que na Europa, depois da II Guerra Mundial a Alemanha é a campeã dos incumprimentos, das reestruturações e dos perdões da dívida. Que nãom indmenizou a Grécia, dos roubos e da destruição que fez na Grécia!

É esta a Europa, os dirigentes europeus que temos que dão ordens, que escrevem e impõem leis para tornar legais os seus desmandos.

A Europa está podre! A miséria moral, a hipocrisia, a sua conduta contra os povos, ao serviço dos mercados andam à rédea solta com os meios de comunicação social pela trela.

À Grécia um último rasgo de dignidade, votando NÃO no referendo, com a incerteza ou com a quase certeza, que as medidas anti-populares, contra o povo grego, não as originais da troika em linha com as que durante seis anos, com os governos PASOK e Nova Democracia implementaram com os resultados que estão à vista do mundo,  mas outras igualmente duras, vão continuar,  que é o que as cedências das novas propostas do governo Syriza anuncia. O mau é sempre mau, mesmo que não seja o pior, porque pior é sempre possível. Uma tragédia em que a luz da esperança é fraca e bruxeleante no meio do pantano desta degradação. Seremos os condenados da terra a esta danação? Ontem como hoje a evidência da necessidade e a urgência dos povos de todo o mundo se unirem contra a ditadura bárbara e totalitária dos mercados!

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Uma bomba de relógio ameaça a europa e a democracia

heratfield É miserável o espectáculo das negociações entre a Grécia e a CEE, BCE e FMI, as reuniões do Eurogrupo e dos primeiros ministros. Uma comédia cínica em que a tragédia grega se consome. Um banquete mal encenado de abutres que em público se disfarçam de pelicanos, com a comunicação social domesticada a sustentá-los, de forma directa ou sinuosa. Nós, portugueses, somos enxovalhados e envergonhados pelas declarações da múmia paralítica que habita em Belém, do texugo Passos Coelho com as suas frases estereotipadas e fedorentas da assexuada pinguim Maria Luís Albuquerque (concorrer com a Merkel não é fácil!) a grasnar inanidades. Todos com a mesma contumácia com que aqui dentro mentem, cometem os maiores desaforos. Olham e lêem a realidade com os seus olhinhos infantis de bandido, a ver se a miséria que plantam, o ogre que alimentam, continuam à solta. Os últimos anos de roubos ao povo português, os rombos no erário público, a venda ao desbarato dos bens públicos, resultaram num enorme e rotundo fracasso. Um gigantesco e assustador monolítico avança a grande velocidade para Portugal, ameaçando-nos: a dívida já é 130% do PIB, há quatro anos era 95%! Os cofres voltaram a estar cheios, mas agora de passivos, de dívidas! A economia continua em coma! A dívida, o serviço de dívida continua imparável, foi empurrado para mais longe! É o caminho certo para o desastre! No horizonte, se não se mudar de política, o caminho de pedras dos gregos.

Cá como lá , a questão de fundo não é económico-financeira! É política! Olhe-se para a Grécia, os números já pouco interessam. Como já tem pouco interessa que a Grécia tenha chegado ao fundo do buraco onde está pela mão do PASOK e da Nova Democracia que, durante seis anos, aplicaram o receituário da troika que provocou a catástrofe actual. Nem interessa se as estratégias negociais da Grécia/Syriza foram incipientes e, por isso, as negociações se complicaram por erros de encenação e representação no teatro de sombras da diplomacia. Nem sequer o mais importante do que está em jogo são os milhões que a Grécia tem que receber para não entrar em bancarrota. Há argumentos que banzam pela falsidade, pela perfídia. Agora, sendo difícil continuar a apoiar as exigências das instituições, apareceu uma nova cáfila de comentadores e jornalistas que dizem compreender a inflexibilidade do FMI, por não ser um organismo político (esta é de morrer a rir!) e por o dinheiro do FMI ser duzentos países, pelo que deve ser seu guardião e defensor. O FMI enquanto ameaça a Grécia se não pagar dois mil milhões de euros, empresta mais 40 mil milhões, a somar a um primeiro empréstimo de 15 mil milhões, à Ucrânia já depois da Rada, o parlamento desse país dirigido por uma camarilha corrupta nazi-fascista, ter aprovado uma lei em que se decreta o não pagamento aos credores! A Ucrânia está e declara-se em bancarrota, o FMI, a CEE e os EUA continuam despreocupadamente a conceder-lhe créditos, sem uma carquilha de hesitação.

É falso que a dimensão da crise grega seja principalmente económica e financeira. A Grécia representa menos que 2% do PIB da CEE. Uma irrelevância! Discutir e encharcar os noticiários com danças e contradança dos números e das medidas propostas ée contrapropostas, é falsear a realidade. A crise grega é uma crise política! A humilhação que a matilha neoliberal quer infligir à Grécia é para que a Grécia se torne um exemplo de como a democracia só existe, só interessa e é aceite se cumprir as regras impostas pelos mandaretes do grande capital, a direita e seus aliados, os socialistas tipo Hollande ou Blair e outros, conjunturalmente mais moderados na via da infidelidade à sua matriz. A esquerda que, mesmo timidamente e sempre de cedência em cedência, ousou enfrentar esses padrões está condenada ao ostracismo. Um aviso aos eleitores dos outros países europeus, votem, votem sempre para fingir que a democracia é um valor universal da civilização ocidental. Se votarem num partido mais à esquerda ficam condenados a serem excluídos da nossa grande famíglia, que procura que o modelo eleitoral se vá apurando até alcançar a grande mistificação do modelo norte-americano em que se escolhe entre hilarys e bushes. Para essa gente o voto só é válido se legitimar o trânsito entre uns e outros, outros e uns que só se diferencia nos pormenores. A máfia democrática o que quer , humilhando o povo grego, a sua vontade expressa nas urnas é condicionar a liberdade de escolha, a liberdade de voto, violar a consciência cívica e política dos cidadãos. O que se quer impor é uma democracia fortemente vigiada.  A democracia do campo de concentração do grande capital, a ditadura dos mercados. Nada disto devia ser inesperado. Se o Syriza acreditava que a Europa iria aceitar a vontade do povo grego, que a solidariedade europeia era mais que uma declaração inscrita num papel é porque não estava preparado para enfrentar a Europa.

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Mudam as marionetas, não mudam os bonecreiros

Foi armado de slogans, atirar-se ao mar de tubarões que a Europa é com os seuss dirigentes marionetas dos grandes grupos financeiros. A crise grega, estes últimos cinco meses, contém grandes ensinamentos e deve provocar grandes preocupações na Esquerda. O Syriza, enredado nos seus ziguezagues ideológicos, está a perder uma oportunidade histórica com uma política de sucessivos recuos, sem ter cavado uma trincheira bem armada onde pudesse resistir e, eventualmente, contra-atacar. A derrota do Syriza, como se está a desenhar, é uma derrota para toda a esquerda, sem poupar nenhuma força de esquerda, das mais coerentes ás mais vacilantes. Do ponto de vista prático não se percebe como é que o Syriza assim que foi empossado não tomou medidas para evitar a fuga de capitais, chegaram aos mil milhões por dia. Como não nacionalizaram bancos, deixando-os em roda livre em conluio com o BCE. Conluio alargado ao Banco Central da Grécia. Sem ferramentas financeiras os 50 000 milhões que existiam no tesouro, nos bancos e nos depósitos, quando formaram goiverno, começaram a desaparecer, antes de mais para pagar a dívida que tonitruantemente diziam não ir pagar ou não pagar com as condições que até aí tinham sido impostas. O plano anti-austeridade do Syriza foi sendo ruidosamente roído pelas instituições, até se chegar a este beco. Deixaram que os recursos que inicialmente dispunham,  fossem pilhados pela União Europeia e seus comparsas, o BCE e o FMI. Enquanto isso, julgavam que a Europa se preocupava com o efeito da saída da Grécia no euro? Ou, do ponto de vista político, que a Europa se assusta com um possível reforço da Aurora Dourada, que Tsipras e Varoufakis a espaços, acenaram? Pensavam que as instituições se comoveriam com o voto do povo grego num programa que punha em causa, a austeridade, apesar de, em muitos pontos, ser evasivo? Depois de a banca privada, sobretudo a alemã e a francesa, ter ficado a salvo de possíveis incumprimentos gregos, para isso serviram os últimos empréstimos e não para apoiar a Grécia a sair do ciclo vicioso que a tritura à meia década, atingido esse desiderato, era previsível que a troika apertasse os cordões à bolsa, continuando a apertar o garrote com medidas de estruturais que são a pirataria mais descarada da economia, das infra estruturas, da já depauperada soberania dos países a bem dos mercados e do capital financeiro.

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A coluna vertebral é a mesma, os protagonistas é que mudam

O maior peso da direita mais radical até ao nazi-fascismo na Europa, mesmo no mundo, não é coisa que cause grande preocupação, tal como num passado ainda recente, aos corifeus europeus. O grande capital europeu e trasantlântico foram grandes suportes da subida de Hitler ao poder, enquanto a esquerda se dilacerava. A história tem sempre lições que não devem ser esquecidas. Para essa gente a vontade de um povo é zero se não estiver em consonância com o poder político a mando do capital financeiro. Não é surpreendente que o Syriza, tal como o Podemos, em Espanha, o Cinco Estrelas, em Itália e o mais que aparecer por essa Europa sempre que necessário, tenha sido acarinhado como uma alternativa à esquerda classificada de tradicional O que não deixa de ser surpreendente é que se descredibilize por culpa própria e seja descredibilizado de maneira tão rápida. Perderam utilidade para os mandatários e ideólogos do pensamento único. Num primeiro momento ainda devem ter calculado que, ao aliarem-se com um partido de direita xenófoba, o ANEL, acabariam por ser aceites. Nos primeiros meses, tudo parecia correr de feição, enquanto o Syriza ia deslocando as suas linhas vermelhas até à beira do abismo de perderem completamente a confiança do povo grego, sobretudo os seus votantes. Terá acreditado o Syriza que a troika se comoveria com a vontade do povo grego e que havia um ponto em que, depois de tantas cedências, aceitaria um programa completamente desfigurado,  mas que mesmo assim, não correspondia totalmente às suas exigências? Aparentemente foi o caminho que seguiram em cinco meses de negociações que lhes demonstravam o contrário. A inépcia política, os princípios cambaleantes, os radicalismos de pacotilha, são o caldo de cultura para, quando chega o momento das decisões estratégicas, seguir sempre o caminho da colaboração, muitas vezes já sem regras, que acaba por deixar os povos sem alternativa.

A Europa range os dentes ao referendo que é a tábua de salvação de um Syriza, de uma certa esquerda, perante um naufrágio anunciado. O referendo é o último recurso para voltarem a ter algum crédito. O problema é que podem ganhar o referendo mas se continuarem pela mesma via a derrota do povo grego está garantida.

A grande ilusão que os Syrizas espalham, que a Grécia demonstra de forma ineludível, é que quando um governo de esquerda chega ao poder tem que assumir medidas para ter poder real. Está condenado à derrota se não as assume. Poder real que só se consegue com o controle, ainda que parcial,  do poder económico, com o controle das alavancas essenciais do poder económico para terem poder político. Sem armas para controlar ou fortemente influenciar o complexo financeiro- industrial, o grande comércio, a grande agro-indústria, os meios de comunicaçâo social, que dominam o aparelho de Estado, ficsm de mãos atadas. Ao não assumir essa frente de luta o Syriza começou por ser saudado, nos grandes órgãos de comunicação social da Europa de da América do Norte, pelo seu realismo político. Os elogios ampliaram-se quando enfrentou internamente, dentro da sua coligação, as tendências de esquerda (Plataforma de Esquerda, Tendência Comunista, Ambientalistas) em nome de um acordo com a Europa, justificando cedências consideráveis, sem perceber, por inépcia política e débil preparação ideológica, que a Europa, tinha por único objectivo prolongar, continuar os programas de austeridade que tinham arrasado a Grécia, atirando-a para níveis de pobreza inimagináveis. O realismo político de Tsipras, o marxismo errático e libertário de Varoufakis, passeando essa nova política de reunião em reunião, de concessão em concessão, foram demonstrando que o que havia de facto de novo era o sem-gravatas, as fraldas da camisa de fora.

A inefável Europa Connosco, através da crise grega, está a enviar um sério aviso aos povos europeus. Deixem-se dessa treta da democracia, da vontade popular. Não podem votar em quem, mesmo que timidamente, belisque os interesses do grande capital. Não se tolerará nem sequer um Syriza! Em Portugal, para esses ditadores de fachada democrática, votar no Partido Comunista Português e seus aliados ou no Bloco de Esquerda só será aceite se a discriminação for garantida. Se forem encerrados num ghetto onde podem esbracejar, vociferar desde que não saíam do ghetto por o ghetto estar bem cercado. Gente avisada, a gente gira de o Livre/Tempo de Avançar preparou-se para a bênção da farsa democrática. Já fez a primeira comunhão. A comunhão solene seguir-se-á. Sabem que Bruxelas, atenta à voz de Berlim, recompensa os traidores.

A derrota do Syriza, por mais fortes e justas críticas que se lhe façam, será uma derrota para toda a Esquerda, não só na Europa mas no mundo. A Esquerda, sem ter que alinhar com o Syriza mas serm necessariamente excluir o Syriza, vive um momento histórico na luta contra a direita de fachada democrática e seus aliados do centro e de uma esquerda latrinária que de esquerda só tem o nome. A procura de alianças à esquerda, por mais difícil e dolorosa que seja, é necessária, sem quebras de princípios fundamentais, com o objectivo bem definido de enfrentar e derrotar a direita e seus comparsas. Tendo bem claro que o poder abstracto, não escrutinado do capital financeiro ocupa largos territórios, que a sua ditadura é bárbara e totalitária. Que já tem, nas linhas recuadas, o nazi-fascismo perfilado no horizonte. Cresce em toda a Europa. Já está no poder, de facto ou lateralmente, na Hungria, na Croácia, na Polónia, nos países bálticos, na Ucrânia. O ovo da serpente está a ser chocado. A luta vai ser áspera e muito dura. A esquerda tem que se realinhar. Será que a lição do Syriza será aprendida? As ilusões espalhadas por esse revisionismo de esquerda, pagam-se caro, e são pagas por toda a esquerda.

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Só não vê o perigo quem não quer ver

As ilustrações utilizadas, do grande artista que foi John Heartfield, devem ser olhadas com a devida distanciação histórica, apesar da sua actualidade

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A Grécia, a CEE os seus mandantes, seus mandaretes e monicas lewinskis

A ESPERA DOS BÁRBAROS

— Que esperamos na ágora congregados?

 

Os bárbaros hão-de chegar hoje.

Porquê tanta inactividade no Senado?

Porque estão lé os Senadores e não legislam?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje.

Que leis irão fazer já os Senadores?

Os bárbaros quando vierem legislarão.

 

Porque se levantou tão cedo o nosso imperador,

e está sentado à maior porta da cidade

no seu trono, solene, de coroa?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje.

E o imperador espera para receber

o seu chefe. Até preparou

para lhe dar um pergaminho. Aí

escreveu-lhe muitos títulos e nomes.

 

— Porque os nossos dois cônsules e os pretores

saíram hoje com as suas togas vermelhas, as bordadas

 

porque levaram pulseiras com tantas ametistas,

e anéis com esmeraldas esplêndidas, brilhantes;

porque terão pegado hoje em báculos preciosos

com pratas e adornos de ouro extraordinariamente cinzelados?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje;

e tais coisas deslumbram os bárbaros.

 

– E porque não vêm os valiosos oradores como sempre

para fazerem os seus discursos, dizerem das suas coisas?

 

Porque os bárbaros chegarão hoje;

e eles aborrecem-se com eloquências e orações políticas.

 

– Porque terá começado de repente este desassossego

e confusão. (Como se tornaram sérios os rostos.)

Porque se esvaziam rapidamente as ruas e as praças,

e todos regressam as suas casas muito pensativos?

 

Porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.

E chegaram alguns das fronteiras,

e disseram que já não há bárbaros.

 

E agora que vai ser de nós sem bárbaros.

Esta gente era alguma solução.

                                                               Konstandinos Kavafis

(tradução Joaquim Manuel Magalhães/Nikos Pratsinis)

ovelhas

 

Os cônsules, pretores que entre dois partidos sozinhos ou coligados, se sucediam na Grécia, impondo ao povo grego as soluções dos bárbaros foram democraticamente derrotados. As iníquas reformas estruturais, um saco de mentirolas que nada reestrutura e tudo destrói,  que garrotavam a economia, aumentavam a dívida, mantinham os privilégios da oligarquia, aprofundavam  a corrupção, atiravam cada vez mais gregos para a miséria e o desemprego, foram democraticamente derrotadas. Quem venceu pelo voto, propõe outro caminho para sair da crise, caminho dentro do quadro político, económico e social dos bárbaros. Nem isso os bárbaros aceitam. Inquietam-se porque não querem que seja sequer possível pensar que há outras saídas para a crise económica dos países que se debatem com dívidas que são impagáveis, consequência da crise mais geral da Europa tatuada no sistema que se arrasta agónico mas que se julga eterno, sem alternativas.

Governantes e seus sequazes querem ditar, impor as suas leis sobre os países devastados por uma estúpida cegueira que alimenta os oligopólios financeiros, promove uma crescente desigualdade social, instala um desastre económico e social de proporções inquietantes. Mentem manipulando as estatísticas para travestir o desastre. Mentem. mentindo sempre e, sem pudor,  fazem circular a mentira por uma comunicação social mercenária ao seu serviço.

Na CEE, os países que se sujeitaram às receitas das troikas, viram as suas dívidas em relação ao PIB aumentar exponencialmente entre 2007 e 2014. Irlanda 172%, Grécia 103%, Portugal 100%, Espanha 92%. A dívida mundial que em 2007 era de 57 biliões de dólares, em 2010 foi de 200 biliões de dólares, ultrapassando em muito o crescimento económico. Tendência que continua o seu caminho para o abismo, em benefício dos grandes grupos financeiros, entrincheirados nos chamados mercados. O chamado serviço da dívida, os juros, são incomportáveis. São esses os êxitos de uma política cega submetida à ganância usuária que não tem fronteiras ou qualquer ética.

Os governos deixaram de estar ao serviço dos seus povos, nem estão sequer dos seus eleitores. São correias de transmissão dos oligopólios financeiros que se subtraem a qualquer escrutínio democrático ou outro de qualquer tipo. Traçam um quadro legal que os suporta e legitima a ilegitimidade. A democracia é uma chatice, um entrave, um pauzinho nessa gigantesca engrenagem que nos atira barranco abaixo, com efeitos devastadores para a humanidade. Nada interessa a não ser o lucro de quem especula sem produzir nada. As pessoas são uma roda nessa engrenagem.

chaplin

Charlie Chaplin, TEMPOS MODERNOS

Quem não caminha ordeiramente nesse rebanho, quem se opõe, mesmo que mandatado e sufragado democraticamente, é considerado irresponsável, como disse o ogre Wolfang Schauble, ministro da economia da Alemanha, em relação à Grécia. As suas enormidades ecoam pela boca dos seus bufões, das suas monicas lewinskis por todos os cantos de uma Europa submissa aos diktats do bando de arruaceiros financeiros que rouba a tripa forra países e povos. Em Portugal, as nossas monicas lewinskis são mais fatelas, mais rascas com se tem visto e ouvido de Cavaco a Passos Coelho, de Portas a Pires de Lima mais a matilha dos seus sarnentos rafeiros de fila. Espumam raiva, ódio dos ecrãs televisivos às ondas radiofónicas. Quem se atreve a riscar, ainda que levemente, essa realidade em que nos enforcam é logo atacado e silenciado quanto baste por essa matilha de pensamento ulcerado.

Os burocratas europeus dogmáticos, leitores e intérpretes da cartilha neoliberal dizem que a realidade é assim mesmo! Será?

A realidade nunca é a realidade que nos querem impingir como Aragon tão bem descreveu. Há mais vida para lá desse biombo com que a querem esconder qualquer luz, mesmo bruxuleante, de esperança para a humanidade.

ISTO È UMA OVELHA,escultura de João Limpinho

 

AS REALIDADES

Era uma vez uma realidade

com as suas ovelhas de lã real

a filha do rei passou por ali

e as ovelhas baliam que linda ai que linda está

a re a re a realidade

Era uma vez noite de breu

e uma realidade que sofria de insónia

então chegava a fada madrinha

e placidamente levava-a pela mão

a re a re a realidade

No trono estava uma vez

um velho rei que muito se aborrecia

e pela noite perdia o seu manto

e por rainha puseram-lhe ao lado

a re a re a realidade

 

CODA: dade dade a reali

dade dade a realidade

A real a real

idade idade dá a reali

ali

a re a realidade

era uma vez a REALIDADE.

Aragon

(tradução António Cabrita)

ceci nést pas une pipe

pintura de Magritte

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Geral

Os Valores Democráticos

Papel higiénicoÉ extraordinário o coro ocidental de elogios ao falecido rei Abdullah da Arábia Saudita que descobrem como um dos seus. Um defensor dos valores democráticos, coisa que ele nem sabia o que seria, como o secretário -geral da ONU, Ban Ki Moon, teve o cuidado de recordar. Provavelmente têm razão, os valores democráticos do Ocidente são uma tábua de logros, pronta a usar para os passar a ferro conforme as conveniências de momento. Só assim se podem compreender os encómios a semelhante personagem.

Descobrem qualidades democráticas de envergadura na sua governação como rei absoluto de um país onde a pena de morte está sempre no horizonte de quem ousa desafiar um poder discricionário que se rege pela sharia aqui, pelos vistos, abençoada e tolerada pelo ocidente dito democrático que a condena noutras paragens do Médio Oriente.

Não é preciso recuar muito no tempo para se tirar a temperatura democrática da Arábia Saudita. Recentemente um crítico da Casa Saud e mitigadamente da fé islâmica. Foi condenado a dez anos de prisão e a sofrer 1000 chibatadas em doses públicas de 50 chibatadas durante 20 semanas, depois das orações de 6º feira, para tudo ficar na graça de Alá. Um feito, entre muitos outros, que fazem Abdullah ser lembrado como um rei democrata não só pelo secretário-geral da ONU, mas também por John Kerry e, como tal, com direito a bandeiras a meia haste no Reino Unido.

Aliado de sempre do Ocidente, ou não fosse ele o elo mais seguro da ligação intima entre o dólar e o preço do crude, os celebrados petrodólares que vão sustentando a mentira da economia norte-americana, conhecido financiador de grupos islamitas radicais, da Al-Qaeda ao Estado Islâmico apesar de uma lei promulgada em 2013, proibindo o financiamento de grupos terroristas, para aliados se calarem. Todo o mundo sabe que a Casa Saud, seguidora e impulsionadora do radicalismo wahabita, continua a despejar centenas de milhares de dólares nos bolsos dos radicais islâmicos. É por este tirano que os sinos ocidentais dobram!

Vale tudo para essa gentalha ocidental sem qualquer dignidade ou princípios. É assombroso, nauseante, se alguma coisa ainda nos possa espantar do cinismo e hipocrisia dos países defensores dos valores democráticos ocidentais, que Christine Lagarde, se una a esse coro apologético, para lembrar Abdullah como um defensor dos direitos das mulheres! Isto num país onde as mulheres são proibidas de conduzir, têm o direito a voto muitíssimo controlado, onde mesmo quatro das filhas de tão democrático monarca foram condenadas a catorze anos de reclusão porque ousaram reivindicar um mínimo de direitos, nessa sociedade duramente tutelada pelos homens.

O próprio Abdullah ao ouvir essas louvações deve dar voltas e reviravoltas no túmulo. Não vai ter mais descanso!

Morre agora esse contumaz violador dos direitos humanos, amortalhado por valores democráticos que nunca defendeu em vida. Um imundo e pestilento espectáculo que diz tudo sobre os dirigentes do mundo ocidental e da sua corte.

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Internacional, Política

Possível implementação de um imposto sobre a riqueza – relatório do FMI

PERGUNTA ESCRITA DE JOÃO FERREIRA E INÊS ZUBER NO no PARLAMENTO EUROPEU  – com a devida vénia ao PCP

Num relatório publicado no início de Outubro pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) refere-se que um imposto sobre a riqueza teria “fortes hipóteses” de sucesso, precisando que uma cobrança de 10% nos 15 países da zona euro permitiria a estes países repor os défices aos níveis de antes da crise.
A ideia suscitou polémica, porquanto é sabido que a opção para “repor os défices”, plasmada, desde logo, nos programas UE-FMI, tem sido a de cortar nos rendimentos da generalidade da população (salários, reformas, prestações sociais, funções sociais do Estado), poupando as grandes fortunas, que, nalguns casos, até têm aumentado o seu pecúlio.
Em face da polémica, responsáveis do FMI vieram entretanto afirmar que o imposto sobre a riqueza era apenas uma “sugestão” de peritos do FMI e não uma recomendação política da instituição.

Solicitamos à Comissão Europeia que nos informe sobre o seguinte:
1. Tem conhecimento do referido relatório? Que avaliação faz do mesmo?
2. Qual a sua posição relativamente à criação de um imposto sobre a riqueza?
3. Reconhece que, como é afirmado no relatório, existe “margem suficiente” em economias avançadas para aumentar os impostos sobre as grandes fortunas?
4. Em face dos dados agora dados a conhecer pelo relatório, manterá a Comissão a sua posição de defesa de cortes nos rendimentos da generalidade da população (salários, reformas, prestações sociais, funções sociais do Estado), sob o pretexto de “repor os défices”?

 Haverá resposta? Quem se abalança a adivinhar?

Até breve!

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economia, Geral

O INAUDITO REGRESSO AOS MERCADOS

SLAVE MARKET   Em Portugal ainda se vive a ressaca de ontem! Voltámos aos mercados! Ouviram bem, voltámos aos mercados, berrava e continua berrar a comunicação social estipendiada ao serviço dessa manobra de propaganda !!! Com tanta notícia, um frémito orgástico atravessou como um ciclone o país! Os mercados refastelavam-se pelas faldas das terras lusitanas abrindo as pernas sem pudor! Finalmente tinham voltado para grande alegria e festança governamental e dos seus patrões conhecidos e ocultos.

As notícias de alguns incidentes não ensurdeciam os acordes que se faziam ouvir anunciando a boa nova. Nem o desastre de um investidor enlouquecido de euforia a cavalgar os quinhentos cavalos do seu Ferrari rumo ao leilão de dívida pública a cinco anos colocada no mercado pelo governo português, que se despistou quando um cisco das faíscas provocadas pela actividade frenética despoletada por essa emissão nos mercados, lhe entrou olho dentro atravessando a cabeça, saindo disparada para o paraíso da especulação onde disparou o alarme da boa nova: Portugal tinha voltado aos mercados. Nem o gigantesco engarrafamento que provocou e impediu milhares de portugueses de chegarem a tempo de manifestarem a sua alegria no Terreiro do Paço.

Em São Bento o primeiro, com a sua voz de barítono hesitante, rezava acocorado debaixo da secretária: Mercados nossos, que estais algures; venham a nós os vossos investimentos; cobrem-nos os juros que quiserem, agora e sempre. Os investimentos de cada dia nos dai hoje; especulem o que puderem porque nós estaremos sempre de cu para o ar recebendo as vossas ordens de compra, não nos abandoneis mais nem nos livreis do vosso mal. Ámen que vou convocar um Conselho de Ministros de celebração e para saber o que andaram a fazer para comemorar tão magno acontecimento.

O ministro da Solidariedade e Segurança Social convocou uma marcha de todos os desempregados para irem a pé a Fátima, rezar no altar dos Mercados. A sua esperança era que sendo muitos e estando muito deles no limite do escanzelamento, os óbitos equilibrassem as contas cumprindo as metas do FMI. Nos gabinetes faziam-se previsões. Colocam-se as metas a atingir. Calculava-se que acelerando o passo o número de óbitos poderia ter um crescimento positivo na ordem dos 5 ou 6%. Transmitiam-se ordens para marcar o ritmo do andamento.

Ao Ministério da Saúde chegavam números promissores. A exaltação provocada pela chegada aos mercados provocara uma afluência inusitada nas urgências dos hospitais. Apoplexias, ataques cardíacos, violentas arritmias tinham originado essa correria. Muitos não seriam atendidos por não terem meios para pagar as taxas moderadoras. Os mortos juncavam as portas das urgências, O ministro pedia números para transmitir rapidamente aos seus pares para se fazerem os cálculos de quanto se ia, no imediato, poupar em pensões. Paralelamente arrepelava os cabelos. Tivesse tido a coragem de aumentar mais cinco cêntimos as taxas, os números seriam muitíssimo melhores.

O ministro da Economia e do Emprego estava descoroçoado. Os número diário das falências mantinha-se estável, perto de 65. Devia ter aumentado uns 2, 3% assim não tinha serviço para mostrar, uma chatice num momento daqueles em que todos os seus pares mostravam trabalho, empenho e sabiam de cor a cartilha do FMI. Sentia-se um cábula, ele professor emigrado numa obscura universidade, só não tão obscura por estar do outro lado do Atlântico.

No Terreiro do Paço a multidão era compacta. Nunca tanta gente, nem mesmo com o Tony Carreira, tinha acorrido aquele espaço para festejar o regresso aos mercados. A gritaria era mais que muita.

Mães elevavam as crianças nos braços para que os mercados as vissem e, se possível, as abençoassem. O ministro do Estado e das Finanças discretamente espreitava entrincheirando atrás dos cortinados o seu sorriso salazarento. Gaguejava telefonicamente o relato do estado de excitação da nação aos ouvidos do FMI, congratulando-se com o bom rumo dos acontecimentos que tornavam obsoleto o seu último relatório. A ida aos mercados alterara positivamente a situação, A confirmarem-se os números já disponíveis o número de pensionistas tinha baixado radicalmente tornando a segurança social quase sustentável. O número de utentes do SNS levara um corte substancial. Iam-se poupar milhões na saúde.

Com a festa que decorria à frente do seu ministério muitas mães e pais tomados de arrebatamento largavam crianças que caiam ao rio sem que ninguém ou quase ninguém desse por isso tal o alarido que fazia confundir os gritos de aflição com os de alegria. Mandara discretamente os seus assessores ao telhado do ministério para fazer uma estimativa das crianças que eram tragadas pelas águas. Iria comunicar o número ao Ministro da Educação do Ensino Superior e da Ciência para se avaliar quanto se iria poupar nos próximos anos com este sucesso, extensível a outras capitais de distrito, por informações filedignas que chegavam hora a hora ao seu ministério.

Todos esses acontecimentos davam grande satisfação a quase todos os governantes: Nem todos. Os moedeiros falsos que
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Política

O salário ou a vida

Os miseráveis que nos governam lançaram hoje uma inaceitável ação de chantagem sem precedentes sobre os portugueses e sobre os juízes do Tribunal Constitucional.

Conhecidos que são todos e mais alguns pedidos de fiscalização da constitucionalidade do orçamento de estado para 2013, os spiners do Governo puseram na rua um relatório do FMI, datado de dezembro, que preconiza mais uma série de medidas de redução da despesa para resolver os problemas que os outros cortes já feitos, que também iriam resolver o problema do déficit do Estado, afinal não resolveram. Ou seja, vamos de corte em corte, até ao corte final, quando já nada houver para cortar.

Querem, com este miserável relatório, dizer-nos que o que nos espera é muito pior do que as medidas propostas pelo Governo se o Tribunal Constitucional declarar a inconstitucionalidade de várias normas de um orçamento do qual até o partido do Governo diz mal.

Se isto não é falta de seriedade; se isto não é tratar os portugueses como gente que não merece qualquer respeito, então não sei o que será seriedade.

Longe vão os tempos em que Passos e Portas garantiam que tudo se resolvia com o corte das gorduras do Estado, as tais que eles não encontraram. Faz lembrar a história das armas de destruição maciça: todos garantiam que elas existiam, mas ninguém as tinha visto.

Esta gente decidiu que havia de nos roubar até ao último cêntimo que temos no bolso para o entregar aos especuladores financeiros que animam esta economia de casino em que vivemos.

Agora dizem-nos que temos professores e polícias a mais, os funcionários públicos são demasiado bem pagos, os médicos fazem muitas horas extraordinárias, trabalhamos poucas horas…

Afinal, o que querem de nós? O salário ou a vida?

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Política

Plano B?

O Orçamento do Estado para 2013 ainda não foi votado mas o FMI reclama já medidas que compensem o seu mais que certo incumprimento, situação que se antevê com o aprofundamento da recessão.

Está agora claro que se navega à vista.

A retoma. Até há bem pouco tempo P. Passos Coelho anunciava-a para o próximo ano. Mas por estes dias o que se discute é se a recessão será de 2, 3 ou 4% em 2013 e onde parará a taxa de desemprego. Com o contributo do napalm fiscal (Bagão Félix dixit) das novas tabelas de IRS, a que se acrescenta uma sobretaxa de 4% e ainda mais uma taxa de “solidariedade” de 2,5% para os “ricos” com rendimentos a partir de 80 mil euros.

O regresso ao mercado da dívida soberana em Setembro de 2013, que até há pouco era apresentado como um dos grandes objectivos, deixou de constar no discurso governamental. Entretanto o FMI encarregou-se de aclarar o que o Governo escondia, a sobretaxa de 4% prolongar-se-á até 2014 ou mesmo depois.

A dívida pública. Não haverá inversão da trajetória da dívida pública, antes pelo contrário.  Portugal pagará em juros 7,1 mil milhões de euros, mais 125,5 milhões que este ano. A dívida directa do Estado chegará a 196,1 mil milhões de euros, o que corresponde a quase 120% do PIB.

Junte-se o desemprego, que continua a crescer – com o correspondente aumento da despesa do Estado com os respetivos subsídios de desemprego -, a brutal diminuição do rendimento dos portugueses – com o inevitável reflexo recessivo no mercado interno…

Nem o melhor observador consegue divisar “moita donde saia o coelho”, isto é, perceber como vão ser atingidas as metas contratadas com a troika, nomeadamente o deficit, ou dinamizar a economia, saindo da recessão e estimulando a criação de empregos.

Consenso de fachada

A grande conclusão é mesmo a que o Governo nada sabe sobre o futuro do país, nem tem qualquer perpectiva para oferecer aos portugueses. Até o patrono FMI parece descrer das soluções adoptadas e chamar a atenção para o teste ao “consenso político alargado”. 

A concertação social é apenas uma quimera institucional e para troika ver. Então não é com a maior das displicências que, contra o acordado, o governo vai alterar a idade da reforma, como antes violou o acordo sobre o salário mínimo nacional?

Só mesmo a participação da UGT no acordo de concertação social celebrado durante a vigência deste Governo, tem permitido manter uma fachada de consenso. Se se mantém um (cada vez mais frágil) consenso político-partidário PS, PSD e CDS, em torno do memorandum com a troika, a verdade é que o consenso social foi quebrado e poderá estar prestes a desabar, atendendo-se ao estrondo dos muitos milhares de pessoas e à diversidade de grupos sócio-profissionais que se manifesta nas ruas.

O greve geral pan europeia que decorrerá a 14 de Novembro em Portugal, Espanha, Grécia, Malta e Chipre não deixará de ser um sério aviso aos poderes europeus do mau estar atingido. E um aviso de que se começam a desenhar formas de entendimento na Europa do Sul, se não entre Governos, entre organizações sindicais e movimentos de protesto

Assinalável é ainda o facto de o FMI já ter percebido a gravidade da situação portuguesa – apesar de não desatarrachar a canga que impôs ao país. Enquanto isso o Governo PSD-CDS assobia para o lado fingindo não ver a realidade que agiganta. Devem estar à espera de  manifestações violentas e de destruição e propriedade para o perceber.

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Negócios da grécia

Da Grécia contaram-se e contam-se as mais mirabolantes histórias para demonstrar como os trabalhadores eram uns privilegiados, os serviços públicos e as empresas estatais primavam pela má gestão e por dar benefícios extraordinários aos seus funcionários. Todos se lembram dos celebrados 15 meses de ordenado, que supostamente os assalariados gregos recebiam e que afinal mais não era que o subsídio de férias ser cumprido em duas faias iguais. Histórias não faltaram na comunicação social para demonstração urbi et orbi de que o povo grego era preguiçoso e andava a viver à tripa forra, era o grande culpado do défice público que colocara a Grécia á beira da bancarrota. Esse jornalismo estipendiado e mercenário existe para prestar serviço ao poder do capital. Aliás deve-se consultar quem são os accionistas da comunicação social para percebermos o que é a liberdade de imprensa e para que servem os critérios jornalísticos. As montagens noticiosas constroem imagens falsas para fazer uma barragem de fumo sobre a realidade. Se a queremos conhecer, ainda que parcialmente, temos que respigar por todo o lado para construir um puzzle que nos aproxime dela.

Em relação à Grécia o que é actualmente relevante, demonstrador do enorme cinismo dos que lêm impões pacotes de austeridade sobre pacote de austeridade, é que, submetida a um apertado controlo da troika, com a imposição de um brutal empobrecimento e de perdas de direitos  que atingem o povo grego sem dó nem piedade, continuem a ser feitas despesas que agravam  o endividamento enormemente. Num país a sofrer uma crise tão desmesurada, é autorizada a compra, aos EUA, de 400 tanques Abrams e de três fragatas à França , para grande raiva da Alemanha que, depois de vender dois submarinos (nos últimos anos tem vendido mais uns tantos) se vê preterida neste negócio da grécia. Continuar a ler

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economia, Internacional, Política

A Ganância da Usura

Na Grécia o número de suicídios aumentou 40%!!!

SUICIDA, escultura de Virgílio Domingues, poliester e acrílicolhes

São vítimas da crise, das políticas de governantes cegos à vida humana e subservientes à usura dos mercados e seus braços armados, o FMI, o BCE, a EU, e tropa de choque, as agências de notação financeira.
Ao terrorismo financeiro dos chamados investidores que ganham de forma desproporcionada sem nada produzirem, explorando despudoradamente situações de necessidade com a maior impunidade, sem nada acontecer. A lei prevê punir com prisão quem fizer da usura modo de vida. Uma lei para punir os pequenos usuários quando esse é o modo de vida natural do capital financeiro.

“Os comportamentos ética e criminalmente punidos tratando-se de comuns cidadãos deixam de o ser no caso de grandes usurários internacionais que ‘fazem da usura modo de vida’ e dos seus cúmplices em instituições e governos europeus, e quando o devedor é, não apenas um, mas todos os cidadãos de um Estado.” (Manuel António Pina)

Comportamentos assassinos. Comportamentos que matam a sangue frio, sem precisarem de armas, sem que as mortes lhes sejam assacadas, nem lhes pesem na consciência, coisa que não têm. Agora já não é um bando de tratantes que governa o mundo. É um bando de tratantes assassinos, movidos pela ganância da usura que cilindra a felicidade, que garrota a dignidade, que liquida a vida. Continuar a ler

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Política

Procrusto, a Troika, o governo de Passos Coelho

Poul Thomsen, do FMI, Jurgen Kruger, da EU e Rasmus Ruffer, do BCE, voltaram a Portugal para verificar se o governo cumpre os seus ditames e não procrastina nenhuma das medidas que impuseram a Portugal. Estão bem treinados para representarem os seus papéis num espectáculo bastante entediante de tão repetitivo. É uma troupe de tecnocratas com sangue de barata, habituada a viajar pelo mundo, simulando fazer grandes análises e desenhar grandes modelos macroeconómicos onde quer que pousem, para tudo acabar na apresentação de uma bula com mais do mesmo, só variando nos números. No essencial, as medidas que preconizam são as mesmas que aplicam onde quer que desembarquem. Ao embrulho chamam reformas estruturais que acabam sempre com o mesmo resultado: o desastre económico e financeiro, o empobrecimento generalizado, o favorecimento dos mais ricos e poderosos, a corrosão brutal dos direitos sociais, a destruição do sector empresarial do Estado a favor da iniciativa privada e retirando-lhe o poder estratégico de intervenção. Continuar a ler

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Geral

Uma Injustiça

Dominique Strauss- Kahn foi preso, em Nova Iorque, acusado de violação e sequestro.
É causa de alguma admiração. Pensava-se, pensa-se, e bem, que um dos itens curriculares mais decisivos na selecção dos técnicos do FMI e, por maioria de razão, dos seus dirigentes, é a implacabilidade no confisco, devassa e potência na acção, sem recurso a viagras.

Desde a sua fundação o FMI é conhecido por sequestrar e violar economias de países inteiros, fornicando a vida de milhões de pessoas. Ainda por cima obrigam as suas vítimas a pagar a suposta qualidade do trabalho que, quando acabado, é transferido para os mercados para que as sevícias continuem.

Experiência para tão longa e proficiente actividade não pode ser um exercício meramente metafísico. Tem que ser musculado em exercícios práticos que exigem vigorosos esforços, adestramento continuado. É uma exigência profissional.
Percebe-se que Strauss-Kahn, momentaneamente afastado do seu local de trabalho, sem ter à mão nem lugares nem aparelhos de treino, começasse a ter receio que essa circunstância pudesse influenciar o seu apronto físico. Daí o não querer perder uma oportunidade de manter a forma. De louvar o risco que correu. A queixosa fugiu sem lhe dar uma dentada, o que de algum modo revela alguma, mas não total, compreensão perante as urgências que assaltam tão experientes técnicos no sequestro, violação e fornicação.

Sugere-se que se faça um abaixo-assinado em defesa de Strauss- Kahn a bem do futuro do FMI. Espera-se que, em Portugal o PS, PSD e CDS, a começar pelos seus mais altos dirigentes, tomem essa iniciativa, incentivando os seus militantes e as hordas de jornalistas e comentadores que, de cerviz curvado, louvaminham por tudo o que é sítio a violação colectiva a que a troika, com destaque para o FMI, vai submeter Portugal. Têm o direito de ocupar as primeiras filas, os lugares onde ainda se pode receber umas gorjetas. A rapaziada não é tonta e sabe que nas filas seguintes, as sevícias ampliam-se e é só sacanço.

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Acabar com a Hidra

Reformas estruturais foi o que mais houve em Portugal desde que aderiu à União Europeia e, sobretudo, desde que aceitou fazer parte da moeda única trocando o escudo pelo euro, que já era um erro tornou-se um erro ainda maior com uma cotação disparatada, em que o escudo foi sobreavaliado. Nessa altura por onde andava a tropa fandanga que agora desfila nos meios de comunicação social a aplaudir o programa imposto pela chamada troika? Embandeirava em arco, primeiro com a adesão à CEE, depois com a adesão à moeda única. Sempre munidos com a sapiência técnica de quem não percebia que a partir desse momento tínhamos o destino marcado a caminho da forca. Quem apontava os riscos, enunciava os perigos era objecto dos piores anátemas por não apoiar esses passo a caminho do apocalipse que eles confundiam com o caminho para a modernidade. O resultado está-se agora a ver.

Depois da adesão à União Europeia o nosso, frágil, tecido produtivo além de perder competitividade, foi paulatinamente destruído. Indústrias, agricultura e pescas foram arrasadas seguindo cegamente as políticas europeias sectoriais que sempre protegeram os mais poderosos em detrimento dos mais fracos, a quem atiravam uns sacos de euros para os manterem em silêncio, acelerando a transferência para os privados dos bens públicos. Essas sim, foram reformas estruturais que as bestas apocalípticas trombeteavam como o caminho triunfal da Europa connosco.

V iu-se ao que conduziu essa auto-estrada de regresso ao passado. Quando a crise económica era mais visível, lá vinha a ladainha das reformas estruturais, como se elas não estivessem de facto a acontecer com a desindustrialização, com os campos ao abandono distribuindo subsídios para que deixassem de ser cultivados, com o abate da quase totalidade da frota pesqueira, isto num país que tem um uma área de águas territoriais incomparável em relação à sua superfície territorial, com privatizações que só não eram selvagens porque se faziam leis à medida.

Até que, à beira da bancarrota, se foi pedir ajuda a quem nunca ajudou nada nem ninguém. Só tem agravado a crise económica dos países por onde tem passado, espalhando pobreza e reforçando o capital e a especulação financeira. Para sair do túnel onde nos meteram não foram em direcção à bruxuleante luz que havia lá no fundo, abriram caminho para outro túnel sem fim à vista. Qualquer um, por mais leigo que seja percebe o enorme buraco em que estamos metidos e no maior buraco em que vamos cair.

O pacote da dita ajuda só apoia com mãos cheias de euros a banca, o capital financeiro. Dos 78 mil milhões de euros previstos mais de 15% são oferecidos à banca, um saco que pode engordar até quase 45%! Um escândalo!!!
Enquanto a generalidade da população é condenada ao empobrecimento, a banca e as grandes fortunas continuam intocáveis.

Enquanto se dão todas as condições para o capitalismo monopolista acelerar a sua reconstituição, promove-se o declínio do que resta do nosso tecido produtivo.

A essas reformas estruturais somam-se o tornar mais fácil e barato despedir, reduzir os apoios sociais, encarecer o acesso à saúde e ao ensino.

Reformas estruturais que, somadas às anteriores, vão aumentar o desemprego, conduzir portugal para sucessivos anos de recessão.

Os partidos responsáveis pelas políticas que, em mais de trinta anos, nos conduziram a esta situação, atirando Portugal para a miséria, são os mesmos que descobrem que afinal o programa de ajuda não vai ser tão doloroso como se previa, que acham que existe margem de manobra para ainda piorar o que já está muito mal ou que estão dispostos a dar contribuições positivas para que nada nos desvie do caminho do desastre.

São esses políticos lerdos e seu séquito que, hidra de sete cabeças, buzinam a toda a hora nos meios de comunicação social com a inevitabilidade das soluções para os problemas de que eles e só eles são responsáveis, enquanto praticamente silenciam a voz de quem denuncia que vamos saltar da frigideira para o fogo.

É urgente que se façam sacrifícios, mas sacrifícios para sairmos desta situação. Para que se destruam essas reformas estruturais e se façam por reformas estruturais de facto, que coloquem nas mãos do estado as ferramentas essenciais para que Portugal caminhe para o progresso.

Enquanto as comadres se zangarem e acusarem-se em grande alarido para enganarem o Zé Povinho para o jogo das cadeiras continuar, não vamos lá!

Chega de mudar de governações! O que é necessário e urgente é mudar de políticas!

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Política

Eles comem tudo…

Comem tudo e não querem deixar nada. A sínteses das medidas mais gravosas que o FMI quer impor aos portugueses já é conhecida. Não fica pedra sobre pedra do que os portugueses construíram laboriosamente no pós 25 de Abril, tudo em nome da “saúde” do sistema financeiro ou, melhor, da saúde financeira de meia dúzia.

O mais extraordinário é que ainda se vai ouvindo gente do PS a querer convencer-nos de que este é um bom programa de “ajuda”, a querer convencer-nos de que a “ajuda” do FMI é uma vitória de Sócrates. Ainda ontem ouvi algo parecido na reunião de câmara em Setúbal, vindo dos vereadores do PS. É a total falta de decoro político e de respeito pela inteligência de todos nós.

Pois então tomem lá uma síntese, preparada pelos deputados do PCP, das medidas mais gravosas já conhecidas e depois digam-me se ainda continuam a dizer que esta é uma boa “ajuda”? Continuar a ler

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Política

FÁBULA PASCAL – 2ª edição revista e aumentada

Os três da vida airada, cocó, ranheta e facada, estão hoje e amanhã de papo para o ar nos seus hotéis de luxo, intervalando nas malfeitorias que irão reiniciar mal o senhor ressuscite para ascender aos céus, abençoando aquela gente que finge produzir qualquer coisa de jeito a trabalhar afincadamente, prescindindo da tolerância de ponto e andando num virote na 6ª feira santa, para gáudio de um jornalismo fedorento e políticos de filibata que logo apontaram o dedo aos mandriões do costume que não querem fazer nada a não ser abocanhar essas benesses.

Este é um tempo de fingimentos e para fingirem mal e porcamente que trabalham à séria, os super merceeiros querem acabar já com o próximo 1ºde Maio, esse dia amaldiçoado, os banqueiros arrotam postas de pescada à mesa do orçamento para não se ouvir o farfalhar dos milhões nos seus bolsos a abarrotar, os três da vida airada fingem transpirar abundantemente a copiar as receitas que já estavam escritas ainda eles não eram nascidos, os coelhos passam pelas gateiras de portas carunchosas para tasquinhar relvas intragáveis, os sócrates debitam sentenças que fazem o borda-d’água corar de inveja, o cavalo de pau passeia nos jardins de belém relinchando em surdina, os velhadas do restelo babam manifestos de boas intenções de que o inferno está cheio, as bruxas lêem o futuro nas sondagens adivinhando que tudo irá de mal a pior se isto continuar assim, um tonto que apareceu no vinte de abril a dizer disparates perdeu o pouco do norte que ainda tinha, os morangos com açúcar continuam a sua saga foleira, o país é cada vez mais uma lixeira de parvoidades e de cassandras que preconizam a inevitabilidade de apertar o cinto depois de andarem anos a dar colo e carinhos aos que termitavam o tecido produtivo enchendo-o de buracos para deixar passar a luz do sol do euro que iluminava o deserto que ia crescendo, atravessado por auto estradas que não levavam a lado nenhum.

Foram avisados e bem avisados da peste que plantavam e contaminava o país. Agora dizem que é tarde e que não há nada a fazer se não estender a mão para receber o que nos quiserem dar e por o cu a jeito para levar uns pontapés. Fazem tudo e mais alguma coisa para não perderem muitos dos privilégios que foram sacando, ano após ano, à nossa conta.

Há que agarrar na vassoura para vassourar sem dó nem piedade as teias de aranha de servidão económica e mental que prenderam trinta sete anos de liberdade.

Vai ser difícil? Vai!

Vamos viver uns anos ainda pior do que já vivemos agora? Vamos!

Não podemos desistir de fazer pela vida uma nova vida, de recuperar o orgulho de ter as mãos limpas pelo trabalho honrado e livre dessas térmitas, de fabricar o sol da canção dos amanhãs que cantam, enquanto eles grunhem chafurdando em ideias velhas e relhas.

Mãos à obra!

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Política

Eleições para quê?

Eleger significa escolher, preferir de entre vários. No caso de eleições legislativas significa escolher um partido ou uma coligação que, por sua vez, representem  diferentes políticas servidas por medidas que as corporizem. Mas as eleições marcadas para 5 de Junho serão quase tudo menos isso – isto é, não se vão escolher, nem políticas, nem medidas, só personalidades e partidos. Será uma falsa escolha.

E porquê?

O país, através do seu poder legitimamente constituído, o Governo, solicitou apoio financeiro externo junto da União Europeia, reconhecendo a sua incapacidade para deter o aumento dos custos com a dívida soberana. O apoio pretendido traduzir-se-á num empréstimo estimado num valor entre 80 e 90 mil milhões de euros. Terá como contrapartidas medidas de grande impacto social para a população, como é habitual nas receitas do FMI.E sabe-se que as negociações terão como ponto de partida o conjunto de medidas inscritas no PEC 4, como os nossos prestamistas já fizeram saber.

Em meados de Maio, isto é, a meio de uma campanha eleitoral que já começou, os portugueses irão ficar a conhecer o que os espera nos próximos anos. Isto se tudo não descarrilar – na Alemanha e na Finlândia, por exemplo, por formas diversas, há já movimentos contra o empréstimo a Portugal.

A verdadeira eleição – aquela que ditará a austeridade a que seremos sujeitos – vão os portugueses acompanhando através dos meios de comunicação social, campo em que actores políticos e jornalísticos têm agora terreno fértil para lançar “bombas sociais” destinadas a assustar a população. Basta uma breve consulta às primeiras páginas do jornal “Correio da Manhã”.

Entretanto o país assiste atónito ao desempenho do seu sistema político, nomeadamente de governantes e dirigentes dos dois maiores partidos: um congresso partidário surrealista para aplaudir um líder que mal se refere ao que se passa no país; um líder do maior partido da oposição que, cada vez que fala, perde pontos nas sondagens; ministros que fazem declarações desencontradas – Teixeira dos Santos “manda” a UE negociar o acordo com a oposição enquanto Luís Amado lamenta publicamente as “vergonhas” por que o país passa; personagens das segundas linhas entretidos em fazer foguetório verbal na televisão no diz que esteve mas esteve.

É já claro que os partidos do chamado “arco governativo” (PS, PSD e possivelmente o CDS) vão assinar um compromisso para aceitação das medidas que a UE/FMI decidir e que estão a ser negociadas por estes dias. O cardápio não deverá divergir muito daquele a que gregos e irlandeses estão a ser submetidos e de que nós também já começámos a sentir com as primeiras versões do PEC: mais subidas no IVA, aumentos de impostos sobre consumo, reduções das deduções no IRS, reduções na função publica e congelamento ou diminuição de salários, cortes nas reformas, pensões, subsídios de desemprego e outras prestações sociais. Mas muita da especificidade e do detalhe poderá estar na capacidade negocial do governo.

Que haverá então para escolher quando chegar o dia 5 de Junho? O país está perante uma não escolha. Ganhe J. Sócrates, ganhe Passos Coelho, qualquer um deles irá executar o resultado da nossa dramática perca de soberania.

Pode-se-ia seguir-se a “via islandesa”, adaptada, e procurando renegociar a dívida? Poderia, mas com outros protagonistas. Mas, para que isso fosse possível, seria necessário um suporte político que não existe entre o eleitorado. Era preciso uma alternativa política com potencial eleitoral que não começou ainda a ser construída.

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NÃO! A Islândia não cede!

Mais uma vez os islandeses dizem NÃO a pagarem as aventuras de um banco privado. Os islandeses dizem novamente NÃO a um pagamento negociado com ingleses e holandeses em que estes,  na mira de recuperarem algum já tinham aceite a desindexação da coroa islandesa do euro o que, com a desvalorização da coroa, representava o contentarem-se em receber menos 40% do começaram por exigir, com a arrogância normal do grande capital. Perdida essa batalha, foram aceitando novas formas, juro fixo, e prazos de pagamento, quinze anos. Mesmo assim o que estava a ser referendado correspondia a que cada família islandesa pagasse 150 euros por mês, durante quinze anos.

O escândalo é exigir a um Estado, aos seus cidadãos contribuintes, que paguem as dívidas de um banco privado que se estabeleceu em Inglaterra e Holanda, com o acordo desses países e que, de especulação em especulação, foi á bancarrota. Quem é que devia fiscalizar as actividades desse banco? O governo da Islândia, claro nas actividades feitas no seu território. As entidades reguladoras inglesas e holandesas, nos negócios feitos nos seus países. Sabemos como essas coisas acontecem, não nos esquecemos do regulador Victor Constâncio e dos casos BPN e BPP. Conhecemos isso de ginjeira, nem nos admiramos se o banco tinha notação AAA, atribuído pelas célebres agências de ratting, como tinha o Lehmann Brothers em vésperas de falir.

Continuam os ingleses e holandeses aos gritos à porta da Islândia. Fazem ameaças das mais variadas, como o não fizeram investidores e fundos de pensões alemães, quando perderam milhões com a falência do Lehmann Brothers. Pudera os EUA são centenas de milhões e são a maior força militar mundial. A Islândia tem pouco mais de meio milhão de habitantes e não tem exército. Faz toda a diferença!

As intimidações continuaram, vão continuar, cercando esse pequeno país. O FMI do primeiro NÃO afirmava que não os ia “ajudar”. Ajuda do FMI? Os islandeses devem achar que isso é uma boa piada e mandaram borda fora o governo de direita que se preparava para pedir a intervenção do FMI.

A EU, aquele seu comissário para os assuntos económicos que aparece sempre com receitas velhas como os trapos, teve uma iniciativa que nos dá uma bela imagem do que é capaz para o capital lhe reconhecer a competência de cabo de esquadra. Preparou uma lei em que os governos ficam obrigados a garantir 100% dos depósitos em bancos da EU. A lei foi elaborada e aprovada depois da crise islandesa ter sido despoletada. Queria a Comissão Europeia  que a Islândia se submetesse a uma lei feita por medida e meses depois dos acontecimentos, para obrigar os contribuintes islandeses a pagar a especulação de um banco privado. A imaginação de que o personagem se reclama, como vimos recentemente nas televisões, deve ser a de quem não tem ética alguma desde que o capital ganhe em qualquer  tabuleiro.

Os islandeses é que continuam irredutíveis. Durante toda a semana foram bombardeados pelas virtudes do novo acordo, pelas virtudes de, se o aceitassem, poder aderir à EU. Alvejados com sondagens que davam a vitória certa do sim. Só quase à boca das urnas é que as sondagens colocaram a hipótese de um empate. O resultado até agora conhecido, não foi como o do anterior referendo com a vitória do NÃO a alcançar 94 %. Mesmo com os panos quentes de condições mais favoráveis, a amplificação das ameaças, a manipulação informativa, mais uma vezos islandeses, mais uma vez, não cederam.

O que diz a Comissão Europeia e os seus arrogantes burocratas: “ vamos tomar nota” dos resultados do referendo “sobre uma questão que é aos islandeses que cabe pronunciarem-se”. Perderam a voz grossa! Mesmo a questão da adesão da Islândia à EU, que tinha sido pedida pelo anterior governo de direita, continua na mesa das negociações. Não se sabe é se a Islândia continua interessada.

Os analistas, essa raça infestante da inteligência, calculam que a recuperação económica da Islândia vá ser mais complicada e que patati, patata, isto quando até o FMI parece rendido às evidências. A Islândia, depois de estar á beira da bancarrota, tem boas perspectivas de crescimento, dizem os institutos ocidentais.

Por cá como, citando Karl Marx, “o cretinismo burguês está em toda a sua beatitude” e está omnipresente na comunicação social, não se aprende, nem se sabe aprender nada com o que está a acontecer na Islândia.

O FEEF/FMI é a Nossa de Fátima dos pastorinhos acantonados nos partidos que são os garantes dos burocratas de Bruxelas, a quem a Sra. Merkel puxa as orelhas,  e das sumidades tecnocráticas fechadas nos seus gabinetes onde correm como baratas tontas e batem nos vidros como moscas atarantadas enquanto a realidade está lá fora, sempre em movimento.

Com gente desta pode-se mudar de governação, nunca se mudará de política.

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