Geral

Tempo de Antena Cultural

Homúnculo
Homunculo de Natália Correia, pelo Teatro Estúdio Fontenova no XIX Festival de Teatro de Setúbal

Nos últimos tempos, os sinais são bem mais antigos, declarações de responsáveis por áreas culturais acentuam a tendência para orientar a cultura para um horizonte publicitário. O que anteriormente tinha um forte vínculo com o saber, a transmissão do saber e do saber fazer na cultura e na ciência, hoje são achas na fogueira da promoção. O fundamental, o que interessa é vender, vender a qualquer preço. Para quem detém poder na área da cultura, as manifestações culturais são instrumentos de promoção publicitária dos bens culturais. Uma visão que não se distingue da dos departamentos comerciais, do marketing de qualquer empresa, actue ou não actue no campo da produção de bens culturais. Bienais de artes, festivais literários, colóquios, exposições, lançamento de livros e discos, e o que a imaginação do mercado endrominar, que se multipliquem não com qualquer objectivo cultural mas a bem da promoção publicitária, da venda do “produto” independentemente do valor efectivo. A cultura é vista como um enorme circo iluminado por um sol enganador em que a omnipresente linguagem dos mercados esvazia de significado da cultura, do que é cultural na diversidade da transmissão e aquisição de saberes. O direito à cultura reduz-se ao direito dos consumidores de escolher um livro, um filme, ir a concerto de visitar museus ou exposições que perdeu o norte nos catálogos de farta oferta em que deliberadamente se confunde o que é entretenimento, padronizado por indústrias que exploram um gosto médio sem espessura, que não obrigam nem incentivam qualquer reflexão, com as da criação artística e cultural que promovem e incentivam a transmissão e a produção de conhecimento.

No mesmo plano colocam-se actividades que tem por objectivo primeiro o gerar lucro financeiro com as que podem obter lucros financeiros mas que não são realizadas tendo nesse objectivo o seu motor principal. Não se pode exigir que o Filme do Desassossego tenha o mesmo êxito de bilheteira de um Pátio das Cantigas revisitado. Ou que uma ópera de Francisco António de Almeida arraste as multidões do Festival do Sudoeste. Ou que a reedição de O Delfim de Cardoso Pires tenha o êxito editorial de O Amor é outra Coisa da Rebelo Pinto. A primeira das muitas causas de não poder haver qualquer expectativa desse género é a demissão do Estado em promover a cultura, nomeadamente através do serviço público de rádio e televisão, meios que tinha a obrigação de utilizar. Em linha com essa demissão, estão os critérios de atribuição de subsídios à criação artística e cultural que deveriam privilegiar a descentralização cultural e não os de uma suposta valorização da produção artística nacional nos mercados internacionais com critérios mais que duvidosos. Veja-se o apoio concedido à dupla João Louro/Maria do Corral, que se inscrevem na grande farsa que é a arte contemporânea, que tanto deslumbram Barreto Xavier e no apoio recusado XVII Festa do Teatro/Festival Internacional de Teatro de Setúbal, com significativas diferenças de custos em euros, a bitola da Secretaria de Estado da Cultura, para se perceber os não desígnios culturais da governação.

As palavras-chave dessas políticas ditas culturais são mercado e promoção. Atravessam todos os discursos da máquina cultural montada por este governo, não se deve esquecer que o responsável máximo pela Cultura é o primeiro ministro. O que exigem dos escritores, cineastas, encenadores, artistas visuais ou de teatro, músicos, de todo o universo de criação artística e cultural é que não limitem a sua acção à produção artística e cultural mas que a prolonguem no trabalho de promoção das suas obras. Insinuem despudoradamente que essa é mesmo um campo de trabalho que devem privilegiar. Na prática as políticas culturais do governo são políticas publicitárias em que a avaliação do trabalho artístico e cultural é subsidiária dos resultados económicos que obtenham. Que esse deve ser o trabalho fundamental dos artistas e das acções culturais é o que está subjacente nos discursos e entrevistas dos agentes governamentais da cultura.

Há uma fé ilimitada que todas as acções de promoção, desde que esse seja o objectivo primordial, são boas, não interessando se são excelentes ou medíocres. Todos sabem, menos os governantes e seus agentes, que promover a mediocridade cultural tem o efeito de amplificar a mediocridade. Legitimar a mediocridade até se atingir o ponto de não retorno da ausência, do vazio cultural, no aniquilamento da qualidade, empurrando os cidadãos para a iliteracia cultural, o que os amputa da capacidade dade do exercício da cidadania.

A afirmação e a convicção de que “a cultura” gera lucro, o ex-libris da Economia da Cultura e dos enormes equívocos das indústrias culturais e criativas, onde se confundem, sem inocência, actividades industrializadas de entretenimento com actividades sem lucro financeiro. Legitima os critérios da economia do dinheiro, os interesses dos patrocinadores a contabilidade dos públicos. É chocante ver os tempos de antena concedidos pelos canais ditos de serviço público aos festivais estivais de músicas pronta a ouvir e deitar fora e por tabela a publicidade gratuita obtida pelos promotores e patrocinadores e o ruidoso silêncio em relação a iniciativas culturais relevantes que decorrem paralelamente.

A pegada cultural deste governo é a exaltação do mercado financeiro que deixa marcas, o que não desresponsabiliza os artistas, os produtores culturais que concorrem para esse estado de coisas actual. Degrada a cultura nos seus múltiplos sentidos de afirmação da condição humana e da transformação da vida o que não é compaginável a sedução pelo dinheiro. Há que descodificar a linguagem do mercado, defender a dimensão simbólica efectiva da produção cultural como um processo de conhecimento, um direito de cidadania que o Estado, Poder Central e Local têm que promover. Em tempo de eleições é de sublinhar que quanto mais cultos forem os cidadãos mais esclarecida serão as suas escolhas.

Standard
Geral

Memórias de Anos Pós- 25 de Abril / Os 25 Anos do 25 de Abril em Grândola, a Vila Morena

É norma que algumas datas comemorativas de um mesmo acontecimento tenham um impacto maior que outras. Não é a mesma coisa comemorar os doze anos ou os vinte sete anos do 25 de Abril do que comemorar um quarto de século da Revolução dos Cravos ou, daqui a uns anos assinalar os seus cinquenta anos.

Em 1999, o 25 de Abril fazia 25 anos. Data que, como exige a tradição, tinha que ser comemorada com mais intensidade, sobretudo em Grândola, a Vila Morena. O vereador da Cultura, Pedro Pedreira, prematuramente desaparecido, Isabel Revez, directora do Departamento em que se inscrevia a Divisão de Cultura e eu, na altura estacionado em Grândola a assessorar a Câmara em várias áreas , nomeadamente a da cultura. constituímos o núcleo central da organização das Comemorações. Foi um trabalho intenso, com grande espírito de equipa, que se realizou com a participação activa e empenhada de todos os trabalhadores da autarquia. Semanas, meses de trabalho que também foram uma festa.

Quero recordar, com orgulho a que não me eximo, sem menorizar nenhum outro evento da vasta programação que se organizou, iniciativas em que desempenhei papel central, em que algumas ultrapassaram os limites temporais e continuam a marcar Grândola.

A primeira decisão foi a de se desenhar uma imagem gráfica condizente com a importância das Comemorações. Foi convidar para a fazer José Santa-Bárbara, não só pela sua inquestionável qualidade artística mas também por ser o autor de muitas das capas dos discos de José Afonso, nomeadamente as Cantigas de Maio, onde se inscreve Grândola, Vila Morena. Santa-Bárbara teve a ideia brilhante de arrancar os sobreiros da planície alentejana substituindo-os por frondosos cravos.

Em memória de Zé Afonso, António Trindade

Em memória de Zé Afonso, António Trindade

As outras tinham a ver com o facto de Grândola, pela sua orografia, ser uma terra de passagem entre importantes centros do Portugal medievo. Por essa circunstância, não tinha castelos, monumentos nem sequer um centro histórico assinalável, embora com um centro tradicional bem interessante. Surgiu imediatamente a ideia de, aproveitando o quarto de século da Revolução de Abril, dotar a vila com várias esculturas, com ligação mais directa ou mais oblíqua com a conquista da liberdade. Ideia que Pedro Pedreira e Isabel Revez apoiaram com entusiasmo.

mural grandola Bartolomeu Cid dos Santos

O Povo é Quem mais Ordena / Bartolomeu Cid dos Santos

Pensando em quê e em quem, elaborei um memorando, logo avalizado por esse grupo de trabalho. Convidei o António Trindade para fazer uma escultura evocativa de Zé Afonso, Jorge Vieira os 25 anos do 25 de Abril, Bartolomeu Cid dos Santos, O Povo é Quem mais Ordena, estas em Grândola, João Limpinho, Os Poetas Populares, no Carvalhal. A esse grupo de artistas bem conhecidos no meio artístico, agreguei um jovem escultor, Isaque Pinheiro que realizou, A Cultura saiu á Rua num Dia Assim, em Melides. Com Bartolomeu Cid dos Santos e João Limpinho tive ainda o prazer e o privilégio suplementar de colaborar directamente, nas suas obras. Desenhei a parede e o embasamento do mural de azulejos concebido por Bartolomeu. Trabalho interessantíssimo em que discutimos fundamente a forma que melhor poderia corresponder, destacar e dar melhor leitura aos painéis de azulejos, o frontal e o de tardoz, que o Bartolomeu idealizou.. Entre o primeiro desenho e a forma final, “partimos muita pedra”. A forma final muito nos agradou. Mais fácil foi desenhar a parede de suporte para a escultura do João. A simplicidade genial da ideia do João Limpinho de transformar as lâminas de enxada nas “caras” dos poetas populares facilitou o desenho da parede suporte, uma alusão muito estilizada a esse objecto de trabalho agrícola, Procurando que nada fique esquecido registe-se que os cálculos de engenharia, obviamente mais complexos em relação O Povo é Quem mais Ordena, foram feitos por Horácio Sotero, engenheiro da CMG. Hoje, quando passo por Grândola, onde vivi anos felizes, continuo a olhar para essas intervenções escultóricas com o prazer e o legítimo orgulho de ter tido essas iniciativas, sempre suportadas pelo entusiasmo e empenho do Pedro Pedreira e da Isabel Revez.

Jorge Vieira

25 Anos do 25 de Abril / jorge Vieira

Lembro que dramaticamente o Jorge não viu a sua obra em circunstâncias que me abalaram profundamente. Por várias circunstâncias a decisão para a encomenda das esculturas, atrasou-se, o que obrigou os artistas a trabalhar com prazos muito apertados nas maquetas de molde a possibilitar a sua concretização. Qualquer escultura consome meses na sua realização. Com Abril no horizonte até ao fim do ano as maquetas tinham que estar feitas. Assim sucedeu com todos e claro com o Jorge Vieira. No dia 23 de Dezembro de 1998, pelo meio-dia, telefona-me o Jorge para me convidar a ir à sua casa em São Bento de Ana Loura, Estremoz, no dia 26, para ver a maqueta. Vários prazeres conjugavam-se. Ver a maqueta, almoçar com o Jorge e a Noémia, refira-se que o Jorge era um excelente cozinheiro, conviver, um convívio sempre muito vivo e estimulante, alegrado pela finíssima ironia, uma imagem de marca do Jorge. Eram onze horas da noite desse mesmo dia 23, quando volta a tocar o telefone. Do outro lado um grande amigo comum, recentemente desaparecido, o Zé Alberto Manso Pinheiro que, consternadíssimo, anunciava que o Jorge tinha sido vitimado por uma síncope. Nunca esquecerei o murro que levei. Chorei como não me lembro de alguma vez ter chorado. Choraria outra vez abraçando a Noémia desfeita pela dor. A vida que dá tantas alegrias também maltrata de forma violenta, muitas vezes inesperada.

JoãoLimpinho

Os Poetas Populares / João Limpinho

No meio de tanto sucesso, nem tudo correu bem. Por exemplo, por um acaso daqueles que só acontece no cinema, raramente na vida real, estava no Teatro de Almada com o Joaquim Benite, quando alguém, no alvoroço provocado já nem lembro quem, irrompe anunciando que a rádio noticiava que o José Saramago tinha ganho o Prémio Nobel da Literatura. Telefonámos. Milagrosamente conseguimos ligação. Abraços e mais abraços, parabéns e mais parabéns. Desligado o telefone olhámos um para o outro, proponho o que o Joaquim estava a pensar. Repor em Grândola, no dia 25 de Abril, A Noite. Naquele momento de euforia, ficou tudo firme. Não aconteceu apesar do nosso afinco e do afinco do Pedro Pedreira e da Isabel Revez. A decisão nunca mais era formalizada, até o Benite, em desespero, me telefonar a marcar uma data a partir da qual seria impossível realizar o espectáculo. Era um trabalho a mais na programação do teatro. A partir daquela data, não haveria tempo para ensaios, com a agravante de ter que se substituir o António Assunção, com papel importante no elenco original, já ter falecido. A data foi ultrapassada sem nenhum compromisso. Nas várias vezes em que nos encontrámos recordámos amargamente essa oportunidade perdida. Repor A Noite, nos 25 anos do 25 de Abril, no ano em Saramago iria a Estocolmo ser nobelizado. Tínhamos a secreta esperança de o ter presente em Grândola para rever a peça de teatro em que se retratava a noite de 24 para 25 de Abril, vivida na redacção de um jornal.

isaque

A Cultura saiu á Rua num Dia Assim/ Isaque Pinheiro

Outra iniciativa que se gorou pelos mesmos motivos, ruminar decisões até as tornar inexequíveis, foi a de encomendar a António Pinho Vargas 25 Variações sobre o tema Grândola, Vila Morena. Pinho Vargas é um excelente pianista e um excelente compositor. É um reconhecido cultor tanto da música sinfónica como do jazz. Reunia as condições óptimas para realizar essa obra. O problema foi similar ao sucedido com o Benite. Protelar a decisão até a tornar impossível. Havia um limite para decidir, sobretudo porque António Pinho Vargas estava a trabalhar na ópera Os Dias Levantados, com libreto de Manuel Gusmão. A partir de certo momento não poderia conciliar esses dois trabalhos. Assim se perdeu a oportunidade de Grândola se poder orgulhar de ter encomendado uma obra que , se fosse feita, estou convicto, seria marcante na historiografia da música portuguesa, ficando Grândola para sempre ligada a esse acontecimento.

Mas houve momentos de rabelaisiana galhofa. Num certo dia, com o tom imperativo, definitivo e pomposo que alguns presidentes usam para embrulhar as suas deliberações, recebemos um papel manuscrito, guardo fotocópia desse escrito, com origem no gabinete da presidência, em que se determinava que o programa musical das Comemorações dos 25 Anos do 25 de Abril deveria ser aberto por uma composição original, encomendada a um músico que na altura dava aulas na Universidade de Évora, que se intitulava, nada mais nem nada menos que REQUIEM PARA A REVOLUÇÃO!!! Gargalhadas pantagruélicas. Seria uma originalidade universal uma Revolução ser celebrada com um Requiem. Este mundo e o outro deveriam rir a bandeiras despregadas, com tal iniciativa, ainda por cima levada a efeito por uma Câmara de esquerda, da CDU. As risadas mereceriam figurar no Guiness, com um recorde que tanto pela sua dimensão como extensão, dificilmente seria ultrapassado. Haveria certamente uma excursão de saudosos salazaristas a desembarcar em Grândola celebrando sucesso tão inesperado e, para eles, tão feliz. Ainda por cima com a circunstância de o jantar da Associação 25 de Abril se realizar na vila, antecedendo o repasto, por alinhamento da programação, haveria a primeira audição mundial de tão magna, industriosa e inusitada obra.

Aqui fica esta Memorabilia, um registo, com factos alguns até agora desconhecidos, para memória futura das Comemorações dos 25 Anos do 25 Abril em Grândola, Escritos em louvor e recordação de amigos entretanto desaparecidos aqui assinalados pela referência a Pedro Pedreira, com o envio de um grande abraço à Isabel Revez, envolvendo nesse abraço todos os trabalhadores da Câmara de Grândola que bem se empenharam para que, apesar dos tropeços que nos eram estranhos, a festa fosse, como foi, um sucesso irrepetível.

De caminho, uma última nota, tenho o secreto desejo que um dia em Grândola, os nomes de duas pessoas ligadas fortemente à história da vila no pós-25 de Abril, figurem na sua toponínima: Pedro Pedreira.e Manuel Areias.

Standard
Geral

Cultura Gold

images Paulo Portas, com eleições à vista, tirou mais um coelho da cartola. Alargou a atribuição de vistos gold a quem invista na cultura. O mínimo 350 mil euros. Mais barato do que se fizer aquisições imobiliárias, 500 mil euros, ou transferir um milhão de euros, para uma conta sediada em Portugal,. A primeira e já sabida curiosidade, é o governo PPD/CDS, andar a captar capitais com essas ofertas, e preocupar-se pouco ou mesmo nada com os grandes capitalistas nacionais, useiros e vezeiros na fuga de capitais para paraísos fiscais, são centenas de milhões de euros por mês, informa o Banco de Portugal, ou em escapar aos impostos, localizando empresas em países que lhes concedem benefícios, alguns escandalosos como se veio a conhecer com o Luxemburgo Leaks, prática semelhante mas mais agressiva da que a praticada por outras paragens como a Holanda, país de acolhimento a belmiros e soares dos santos. A segunda curiosidade é essa gente vender-se barato. Oferecem um visto gold a troco de uns amendoins para a cultura. O Secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, veio esclarecer que o montante de 350 mil euros é para criar “precisamente um incentivo adicional”. Acentuou que “o governo está empenhado em divulgar esta medida junto de potenciais investidores mostrando-lhes o que se faz cá se faz.” Dá o exemplo do que aconteceu nos EUA, no Kennedy Center onde, durante três semanas, estiveram “integrados na mostra cultural Iberian Suite mais de uma centena de criadores portugueses e lusófonos com os seus mais recentes trabalhos nas áreas do teatro, da dança, da música, das artes visuais, da literatura, da gastronomia” . A caldeirada das indústrias criativas. O enunciado dá para perceber o conteúdo de tanta criação, cócócóró. A luzidia comitiva era uma montanha russa assim porque não era assado. Lamenta Barreto Xavier “não termos projecção internacional enquanto potência de arte contemporânea significativa” e acrescenta com vergonha “por vezes temos uma ideia exagerada sobre nós próprios a esse respeito”. Mais umas banalidades a juntar às com que nos mimoseia cada vez que abre a boca. Deste governo que outro secretário de Estado se podia esperar? A concessão de vistos gold para a área da cultura está no mesmo nível de mediocridade. Depois de sucessivos anos de desinvestimento no sector da Cultura, até se atingir o estado comatoso actual, não serão os vistos gold que a vai reanimar. Atearão uns fogachos fátuos, iremos ver de que calibre. Os vistos gold serão apoios intermitentes e pontuais. Obviamente, até pela sua natureza, excluem-se de qualquer plano cultural, mesmo de curto prazo. Em nada contribuirão para uma política cultural, mesmo a não política do actual governo. Serão dirigidos com a vista curta de obter rapidamente benefício. Isso vai favorecer quem já tem nome, a mais das vezes não por valor real mas por bem dirigidas operações de marketing. Será mais fácil comprar uns tricotados ou umas panelas à Joana Vasconcelos, lá estará o olho vivo da Everything is News para não deixar escapar a oportunidade, do que apoiar um projecto de João Limpinho, apesar do saber, da seriedade artística, da qualidade estética demonstrada nas esculturas que integram o Museu está na Rua, no Bairro da Bela Vista em Setúbal. Será mais fácil encomendar um espectáculo musical a Rodrigo Leão do que uma obra a António Pinho Vargas, apesar do abismo artístico e estético que os separa. Outros exemplos poderiam ser enumerados. Apesar desse quadro, sempre se poderia ter colocado a fasquia mais alto e com outro fundamento. Dirigi-los para um sector específico, o do património construído, muito em avançado estado de degradação, exemplo próximo o Conservatório Nacional, e não deixar os investimentos serem feitos quase a vontade do freguês. Sem normas, o melhor, mais de acordo com o seu gabarito, será Barreto Xavier montar uma banca de venda de produtos culturais na Feira de Carcavelos, especializada em vistos gold. O Paulinho, frequentador habitual desses eventos, lá o iria visitar para ver como corre o negócio e degustar um menu de farturas pós-modernas. Lugar para diálogos pouco confidenciais: “O senhor vice primeiro-ministro engraxa? Não, hoje engraxo nas Necessidades!” Esta gente vende-se barato e sem critério.

(publicado no jornal Avante! em 16/4/2015)

Standard
Geral

Contra as Políticas de Gosto

magritte

Ontem, Dia Mundial do Teatro, num debate público, dos muitos que se realizaram pelo país, houve quem defendesse a existência de uma política de gosto, como quase um paradigma a ser seguido pelos poderes central e local. Tinha uma nuance, defendia uma política de gosto contra uma política de bom gosto.

É uma questão que surge com alguma frequência, que merece ser debatida.

Qualquer política de gosto, de bom gosto, de mau gosto, de gosto assim ou assado, inquina sempre qualquer política cultural que deve sobrevoar, ignorar qualquer política de gosto.

Os exemplos, a experiência bem o demonstram.

Um entre muitos exemplos. É uma política de gosto que determina, na sua origem, a programação do Teatro de São Carlos, impondo um modelo em que era dominante a ópera italiana de divertimento e representação, que acabou por se alargar ao Teatro Nacional e Normal, tramando a reforma iluminista de Garrett. Por essa política de gosto, com um fundo ideológico evidente, mesmo as primeiras representações de Wagner no Teatro de São Carlos, são cantadas em italiano e em estilo italiano. O que apesar disso, provocou um imenso debate. A música de Wagner, mesmo subvertida desse modo, não permitia a exibição de números vocais em que se apreciava mais a voz, as acrobacias da voz, o bel canto, que o conteúdo dramático, apesar da extrema exigência do repertório wagneriano. É também essa política de gosto que, em grande medida, explica porque no Teatro de São Carlos, tão rapidamente se passou dos barrocos para os românticos, sendo os clássicos tão tardiamente executados, como aconteceu com Mozart. Uma política que só foi definitivamente banida quando João de Freitas Branco assumiu a sua direcção.

Uma política de gosto é sempre corrosiva de qualquer política cultural. Sartre, nos anos cinquenta verberava as políticas de gosto, que desembocam sempre, visível ou encapotadamente, no gosto ou não gosto, sem base em análises estéticas, artísticas e sociológicas fundamentadas. Di-lo, em Qu’est-que la Literature de forma mesmo desabrida: “só a minha empregada de doméstica é que gosta ou não gosta de um romance”.

Um dia, Lopes-Graça foi publicamente confrontado com a obra de Mahler. Era conhecida a distância que o compositor tinha em relação aos românticos. Não desmentiu o que o separava dessa corrente musical, de compositores como Brahms, Lizst, Bruckner, Mahler. Citou as invectivas de Romain Rolland no Jean-Christophe, a Brahms. No fim envolveu-se numa longa e esclarecida dissertação sobre o que distinguia as interpretações de Mahler por Bruno Walter, Otto Klemperer, Hermann Scherchen, Dimitri Mitropoulos. Ficou evidente que Lopes-Graça, não gostando de Mahler, reconhecia a sua importância até ao pormenor de questionar as várias formas de o ler musicalmente. A apreciação de uma obra estava acima e além de qualquer política de gosto.

Nenhuma política cultural poderá estar sujeita a políticas de gosto. As políticas de gosto contaminam a produção de cultura enquanto instrumento de progresso da humanidade para a condicionarem como instrumento de distâncias e distinções.

A cultura, soma do fazer e do saber fazer, é sempre uma transição entre o que existe e o que se transforma seja na natureza ou no espírito dos homens. Transição constante e variável entre regulação e crescimento espontâneo por força do trabalho que a diversifica e aprofunda. Cultura é ainda um instrumento de dominação da natureza e/ou da humanidade numa sociedade que se apropria dos frutos do trabalho, de todos os frutos do trabalho, do mais banal cordel ao mais complexo poema, para deles fazer merca­dorias. Apropriação que é trave mestra do sistema de produção capitalista que aprofunda o divórcio entre o homem e a natureza, o homem e seus semelhantes, entre o homem individual e a sua individualidade. Onde a alienação corta transversalmente toda a actividade humana.

Alienação que se aprofunda gravemente quando se sujeita a cultura às oscilações do gosto. Gosto, políticas do gosto que se abismam sempre numa deriva tardo-romântica, esteticista e decadente, nos labirintos das modas, em contraponto com as concepções materialistas e racionalistas.

Italo Calvino, nas Seis Propostas para o Próximo Milénio, está sempre a questionar, directa e indirectamente as políticas do gosto, como entre muitos outros, o já tinham feito Adorno ou Walter Benjamin.

Políticas culturais não se podem sujeitar a políticas de gosto, contra o nosso próprio gosto. As políticas culturais não se podem balizar por um canon, que é o que acaba sempre por ser estabelecido por uma política de gosto. Têm que ir mais além com o objectivo de combater um gosto médio, imposto sobretudo pelos meios de comunicação social,  que nos assalta a cada esquina, promovendo  o olhar dis­traído, o ouvido distraído, a cabeça distraída que o zapping pelos média vai insidiosamente instalando. É cada vez mais necessário e urgente construir uma cultura, feita de culturas onde circulem as ideias de solidariedade e participação, onde se lute pela transforma­ção da vida e emancipação do homem, contra o discurso dominante do fim da história, por considerarem que já não se pode encarar o seu fim no sentido marxista de transformações radicais ou mesmo significativas quanto à forma de organização e de vida da sociedade humana, do fim das ideologias leia-se fim do marxismo, porque a burguesia capitalista, envergonhadamente, nunca se assumiu como uma ideologia, do fim da política, leia-se fim da política ideológica, marxista por perca definitiva do horizonte utópico.

É urgente promover políticas culturais que  lutem contra a danação de ficarmos amarrados a caminhar num espaço vazio onde tudo pode acontecer mas nada é decisivo. É urgente trazer a cultura, na sua multiplicidade e comple­xidade, para a arena da luta social e política contra o discurso domi­nante da competitividade a qualquer preço submetida aos ditames do mercado e da moda, das políticas de gosto.

Standard
Geral

Califado Anti-Literatura

Jihadista

José Rodrigues dos Santos, mascarado de escrevente, prepara-se

para mais uma sessão de decapitação literária

À semelhança dos anos anteriores, o balanço anual dos livros mais vendidos em Portugal, confirma o persistente efeito térmita que afecta a literatura portuguesa.

Mais uma vez, José Rodrigues dos Santos está no topo, confirmando que a sua jihad contra a literatura consolida-se ano após ano. Promete continuar até nada restar de literatura. Uma luta que iniciou com êxito em 2007.

Jihadistas desse calibre são raros. Têm uma capacidade de luta, liderança com maus hábitos e  instinto de sobrevivência acima dos padrões normais. Dispõem de arsenais de armas de destruição maciça invejáveis. Todos os anos despejam centenas de páginas portadoras de virus letais que atacam as células cerebrais,. Todos os anos enviam para campos de extermínio escritores, para progressivamente os seus nomes e obra sejam olvidados.

Não tem concorrência por mais que outros escreventes, como Miguel Sousa Tavares ou Margarida Rebelo Pinto, se esforcem. Os grupos terroristas em que militam, embora tenham o mesmo objectivo acabar de vez com a literatura, não conseguem êxitos semelhantes.

Tuido aponta para que, no século XXI, José Rodrigues dos Santos seja proclamado Califa do Califado Anti-Literatura e outras Artes e Luzes.

Glória à Insignificância em Todo os seu Esplendor.

Standard
Geral

Ravel

Ravel morreu há 77 anos. Compositor que é sobretudo conhecido pelo Boléro, obra a que ironicamente se referia como “a minha obra prima infelizmente vazia de música”, embora não ficasse indiferente às interpretações. É bem conhecido o episódio em que interpelou Toscanini depois de o ouvir reger o Boléro à sua maneira, duas vezes mais rápido e sempre acelerando.

Ravel, que muito cedo se interessou por música, manteve com o Conservatório uma relação particular, entrando e saindo até completar o estudo de composição com Gabriel Fauré. Completou também o curso de piano, mas não foi concertista que se notabilizasse, ao contrário do seu contemporâneo Rachmaninoff. Dizia que o piano era um instrumento pesado para ele, uma frágil figura, muito afectado por várias doenças ao longo da sua vida. A sua obra para piano, a solo, de camera ou concerto é das mais importantes na história da música, em particular da música francesa. Começou por ter uma forte influência de Debussy, mas rapidamente as diferenças entre as suas obras tornaram-se muito significativas. Raízes de música popular da sua terra de origem , o País Basco francês, o orientalismo que conheceu na Exposição Universal de 1889 e que depois explorou, mesmo o jazz, são decisivas na obra de Ravel. Durante os seus quarenta anos de actividade, distingue-se pela subtileza e por um agudo sentido criativo.

As suas relações com os interpretes eram de grande exigência. Além do episódio com Toscanini, também ficou conhecida a sua fúria ao ouvir as ornamentações do pianista austriaco Paul Wittgenstein, a quem tinha sido amputado o braço direito e que lhe tinha encomendado uma obra para a mão esquerda, de que resultou essa obra prima que é o Concerto para a Mão Esquerda. No pólo oposto muito apreciava o modo como Pedro de Freitas Branco sabia ler as suas obras. Considerava mesmo que La Valse, não conheceria melhor maestro.

Ravel escreveu várias obras primas como o quarteto Xerazade, a fantasia lírica, que é uma ópera L‘Enfant e les Sortileges sobre um poema de Colette, poetisa que não apreciava especialmente, a ópera Dafnès e Chloé, os dois Concertos para Piano, as inúmeras peças para piano, algumas quase em formato miniatura, mas que são notáveis como Gaspard la Nuit,, Le Tombeau de Couperin, Minueto sobre um tema de Haydn. Obras orquestrais com Rapsódia Espanhola, Ma Mére l’Oye, Pavana para uma Infanta Defunta As Valsas Nobres e Sentimentais, só para citar algumas obras.

Sobre Ravel, com esse título, Jean Echenoz escreveu um interessantíssimo romance, reportando-se aos seus dez últimos anos de vida. Não um romance em que se descreve esse período de vida de Ravel, mas um romance em que a vida do compositor se enche de vida, de inquietudes, de fantasias, tudo com uma grande humanidade e ternura.

Standard
Geral

Tio Patinhas a Caminho de Belém

2008_06joanavasconcelos_gtio patyinhasa

O novo Museu dos Coches abre um enorme buraco no muito depauperado orçamento da cultura. A sua construção foi um erro brutal, decidido por obtusos peritos em turismo, sem nenhuma sustentação em políticas culturais (*) Com um custo de 35 milhões de euros, contrapartidas do Casino de Lisboa, o novo Museu dos Coches terá um custo de funcionamento anual de 3,5 milhões de euros,estimativa da SEC, Será necessário o número de visitantes ultrapassar o milhão/ano. Quase cinco vezes o número de visitantes actuais, num Museu que é dos mais visitados.

O descalabro na cultura, vai-se acentuar. Os perigos que se aproximam , vão abrir uma caixa de Pandora nos frágeis alicerces de uma política cultural praticamente inexistente, com um orçamento irrisório.

O prenúncio é feito pela nomeação de António Lamas (AL) para o Centro Cultural de Belém. Não é um fim, mas o principio da integração numa única entidade do eixo monumental e museológico Belém-Ajuda. É conhecida a defesa que AL faz em aplicar o modelo da Parques Sintra-Monte da Lua em Belém(**).

Há uma enorme diferença entre o património gerido pela Parques de Sintra-Monte da Lua e a que poderá integrar o Distrito Belém-Ajuda. Em Sintra não existem equipamentos com vida e objectivos culturais próprios e diversificados. As receitas de alguns dos Palácios, cobre os défices de outros. O mesmo com os parques, jardins e florestas. AL argumenta que a Parques de Sintra-Monte da Lua, não recebe apoios do OE, é auto-sustentável. Uma falácia. Se o OE não gasta um cêntimo para a manutenção e recuperação desse património, foi porque perdeu verbas avultadíssimas gerradas pelos Palácios que eram tutelados pelo Estado e foram transferidos, sem custos, para a Parques de Sintra-Monte da Lua. Essa a raiz da boa gestão AL.

Em relação a Belém-Ajuda a diversidade dos equipamentos culturais é uma evidência. Uma gestão integrada, teria poupanças marginais com serviços de limpeza. segurança e manutenção conjuntos. Com a partilha de sistemas de bilhética. O que carece de demonstração são as outras vantagens que A L enuncia. É uma realidade que tem sido largamente debatida pelos técnicos dos museus e monumentos daquela zona, desenvolvida em debates públicos com largíssima participação. As sugestões, muitas reproduzidas por AL, têm sido olimpicamente ignoradas pelos sucessivos ocupantes das cadeiras governamentais da cultura.

A carência de meios, humanos e materiais, é cada vez maior. As vantagens das trocas de experiências e da elaboração de projectos comuns, tem sido objecto, como referido, de grande reflexão que aponta para uma funda articulação entre equipamentos, com o seu reforço identitário, o que ultrapassa em muito as reflexões de AL, mais preocupado com a vertente económica, subordinando os projectos culturais a esse objectivo. Com o descalabro a bater à porta quando se inaugurar o Museu dos Coches, o seu custo de funcionamento actual, 600 mil euros/ano multiplica-se por seis , o modelo apontado por AL adquire corpo. A sua bondade é que deve ser questionada, se não será proceder à macdonalização de eixo Belém-Ajuda, com AL em “master-chef”.

É forte a tentação de criar-uma empresa, originalmente de capitais públicos, que integre os Museus dos Coches,Arqueologia,Etnologia, Arte Popular, Marinha, da Presidência, EDP. Monumentos dos Jerónimos, Torre de Belém, Padrão dos Descobrimentos, Palácio da Ajuda. O Centro Cultural de Belém, Planetário, Cordoaria. Os jardins Tropical e Botânico.

O perigo não está na visão de AL, está quando se lêem as GOP da Cultura que preconizam a gestão “mais racional e eficiente dos organismo da cultura”,, do património poder ser administrado por “entidades terceiras” , de se“reduzir a dependência dos financiamentos públicos directos”. Sabemos bem de mais o que isto quer dizer. Com um governo que só vê virtudes na gestão privada, que privatiza ou está predisposto a privatizar, os bens públicos mais essenciais, a privatização da futura empresa Distrito Belém-Ajuda, com o seu valiosíssimo património, renderia, no imediato, uns valentes cabedais. Para essa gente de vistas curtas, ausência de cultura e principios estará certamente em cima da mesa. A beatificação cultural da Everything is New pela mão da SEC é um primeiro passo na disneyficação da política cultural. Para o Distrito Belém-Ajuda devem desejar que o Tio Patinhas esteja a caminho. Já deve estar andar dentro das cabeças dos “nossos” governantes para descalçar o pedregulho que o novo Museu dos Coches acrescenta às outras pedras e pedrinhas que estão dentro daquela bota. Temos uma certeza: aquela gente não se importa em cometer esse crime, essa traição à nossa identidade nacional e cultural.

(*)leia-se o argumentário arrogante e estúpido, à escala do personagem, do Director Geral do Turismo de Lisboa na Revista Turismo de Lisboa/Maio 2009)

(**)”O modelo da Parques de Sintra-Monte da Lua é aplicável em Belém” António Lamas, Público 30/10/2013

( publicado no jornal Avante! de 13711/2014)

Standard