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Tempo de Antena Cultural

Homúnculo
Homunculo de Natália Correia, pelo Teatro Estúdio Fontenova no XIX Festival de Teatro de Setúbal

Nos últimos tempos, os sinais são bem mais antigos, declarações de responsáveis por áreas culturais acentuam a tendência para orientar a cultura para um horizonte publicitário. O que anteriormente tinha um forte vínculo com o saber, a transmissão do saber e do saber fazer na cultura e na ciência, hoje são achas na fogueira da promoção. O fundamental, o que interessa é vender, vender a qualquer preço. Para quem detém poder na área da cultura, as manifestações culturais são instrumentos de promoção publicitária dos bens culturais. Uma visão que não se distingue da dos departamentos comerciais, do marketing de qualquer empresa, actue ou não actue no campo da produção de bens culturais. Bienais de artes, festivais literários, colóquios, exposições, lançamento de livros e discos, e o que a imaginação do mercado endrominar, que se multipliquem não com qualquer objectivo cultural mas a bem da promoção publicitária, da venda do “produto” independentemente do valor efectivo. A cultura é vista como um enorme circo iluminado por um sol enganador em que a omnipresente linguagem dos mercados esvazia de significado da cultura, do que é cultural na diversidade da transmissão e aquisição de saberes. O direito à cultura reduz-se ao direito dos consumidores de escolher um livro, um filme, ir a concerto de visitar museus ou exposições que perdeu o norte nos catálogos de farta oferta em que deliberadamente se confunde o que é entretenimento, padronizado por indústrias que exploram um gosto médio sem espessura, que não obrigam nem incentivam qualquer reflexão, com as da criação artística e cultural que promovem e incentivam a transmissão e a produção de conhecimento.

No mesmo plano colocam-se actividades que tem por objectivo primeiro o gerar lucro financeiro com as que podem obter lucros financeiros mas que não são realizadas tendo nesse objectivo o seu motor principal. Não se pode exigir que o Filme do Desassossego tenha o mesmo êxito de bilheteira de um Pátio das Cantigas revisitado. Ou que uma ópera de Francisco António de Almeida arraste as multidões do Festival do Sudoeste. Ou que a reedição de O Delfim de Cardoso Pires tenha o êxito editorial de O Amor é outra Coisa da Rebelo Pinto. A primeira das muitas causas de não poder haver qualquer expectativa desse género é a demissão do Estado em promover a cultura, nomeadamente através do serviço público de rádio e televisão, meios que tinha a obrigação de utilizar. Em linha com essa demissão, estão os critérios de atribuição de subsídios à criação artística e cultural que deveriam privilegiar a descentralização cultural e não os de uma suposta valorização da produção artística nacional nos mercados internacionais com critérios mais que duvidosos. Veja-se o apoio concedido à dupla João Louro/Maria do Corral, que se inscrevem na grande farsa que é a arte contemporânea, que tanto deslumbram Barreto Xavier e no apoio recusado XVII Festa do Teatro/Festival Internacional de Teatro de Setúbal, com significativas diferenças de custos em euros, a bitola da Secretaria de Estado da Cultura, para se perceber os não desígnios culturais da governação.

As palavras-chave dessas políticas ditas culturais são mercado e promoção. Atravessam todos os discursos da máquina cultural montada por este governo, não se deve esquecer que o responsável máximo pela Cultura é o primeiro ministro. O que exigem dos escritores, cineastas, encenadores, artistas visuais ou de teatro, músicos, de todo o universo de criação artística e cultural é que não limitem a sua acção à produção artística e cultural mas que a prolonguem no trabalho de promoção das suas obras. Insinuem despudoradamente que essa é mesmo um campo de trabalho que devem privilegiar. Na prática as políticas culturais do governo são políticas publicitárias em que a avaliação do trabalho artístico e cultural é subsidiária dos resultados económicos que obtenham. Que esse deve ser o trabalho fundamental dos artistas e das acções culturais é o que está subjacente nos discursos e entrevistas dos agentes governamentais da cultura.

Há uma fé ilimitada que todas as acções de promoção, desde que esse seja o objectivo primordial, são boas, não interessando se são excelentes ou medíocres. Todos sabem, menos os governantes e seus agentes, que promover a mediocridade cultural tem o efeito de amplificar a mediocridade. Legitimar a mediocridade até se atingir o ponto de não retorno da ausência, do vazio cultural, no aniquilamento da qualidade, empurrando os cidadãos para a iliteracia cultural, o que os amputa da capacidade dade do exercício da cidadania.

A afirmação e a convicção de que “a cultura” gera lucro, o ex-libris da Economia da Cultura e dos enormes equívocos das indústrias culturais e criativas, onde se confundem, sem inocência, actividades industrializadas de entretenimento com actividades sem lucro financeiro. Legitima os critérios da economia do dinheiro, os interesses dos patrocinadores a contabilidade dos públicos. É chocante ver os tempos de antena concedidos pelos canais ditos de serviço público aos festivais estivais de músicas pronta a ouvir e deitar fora e por tabela a publicidade gratuita obtida pelos promotores e patrocinadores e o ruidoso silêncio em relação a iniciativas culturais relevantes que decorrem paralelamente.

A pegada cultural deste governo é a exaltação do mercado financeiro que deixa marcas, o que não desresponsabiliza os artistas, os produtores culturais que concorrem para esse estado de coisas actual. Degrada a cultura nos seus múltiplos sentidos de afirmação da condição humana e da transformação da vida o que não é compaginável a sedução pelo dinheiro. Há que descodificar a linguagem do mercado, defender a dimensão simbólica efectiva da produção cultural como um processo de conhecimento, um direito de cidadania que o Estado, Poder Central e Local têm que promover. Em tempo de eleições é de sublinhar que quanto mais cultos forem os cidadãos mais esclarecida serão as suas escolhas.

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Memórias de Anos Pós- 25 de Abril / Os 25 Anos do 25 de Abril em Grândola, a Vila Morena

É norma que algumas datas comemorativas de um mesmo acontecimento tenham um impacto maior que outras. Não é a mesma coisa comemorar os doze anos ou os vinte sete anos do 25 de Abril do que comemorar um quarto de século da Revolução dos Cravos ou, daqui a uns anos assinalar os seus cinquenta anos.

Em 1999, o 25 de Abril fazia 25 anos. Data que, como exige a tradição, tinha que ser comemorada com mais intensidade, sobretudo em Grândola, a Vila Morena. O vereador da Cultura, Pedro Pedreira, prematuramente desaparecido, Isabel Revez, directora do Departamento em que se inscrevia a Divisão de Cultura e eu, na altura estacionado em Grândola a assessorar a Câmara em várias áreas , nomeadamente a da cultura. constituímos o núcleo central da organização das Comemorações. Foi um trabalho intenso, com grande espírito de equipa, que se realizou com a participação activa e empenhada de todos os trabalhadores da autarquia. Semanas, meses de trabalho que também foram uma festa.

Quero recordar, com orgulho a que não me eximo, sem menorizar nenhum outro evento da vasta programação que se organizou, iniciativas em que desempenhei papel central, em que algumas ultrapassaram os limites temporais e continuam a marcar Grândola.

A primeira decisão foi a de se desenhar uma imagem gráfica condizente com a importância das Comemorações. Foi convidar para a fazer José Santa-Bárbara, não só pela sua inquestionável qualidade artística mas também por ser o autor de muitas das capas dos discos de José Afonso, nomeadamente as Cantigas de Maio, onde se inscreve Grândola, Vila Morena. Santa-Bárbara teve a ideia brilhante de arrancar os sobreiros da planície alentejana substituindo-os por frondosos cravos.

Em memória de Zé Afonso, António Trindade

Em memória de Zé Afonso, António Trindade

As outras tinham a ver com o facto de Grândola, pela sua orografia, ser uma terra de passagem entre importantes centros do Portugal medievo. Por essa circunstância, não tinha castelos, monumentos nem sequer um centro histórico assinalável, embora com um centro tradicional bem interessante. Surgiu imediatamente a ideia de, aproveitando o quarto de século da Revolução de Abril, dotar a vila com várias esculturas, com ligação mais directa ou mais oblíqua com a conquista da liberdade. Ideia que Pedro Pedreira e Isabel Revez apoiaram com entusiasmo.

mural grandola Bartolomeu Cid dos Santos

O Povo é Quem mais Ordena / Bartolomeu Cid dos Santos

Pensando em quê e em quem, elaborei um memorando, logo avalizado por esse grupo de trabalho. Convidei o António Trindade para fazer uma escultura evocativa de Zé Afonso, Jorge Vieira os 25 anos do 25 de Abril, Bartolomeu Cid dos Santos, O Povo é Quem mais Ordena, estas em Grândola, João Limpinho, Os Poetas Populares, no Carvalhal. A esse grupo de artistas bem conhecidos no meio artístico, agreguei um jovem escultor, Isaque Pinheiro que realizou, A Cultura saiu á Rua num Dia Assim, em Melides. Com Bartolomeu Cid dos Santos e João Limpinho tive ainda o prazer e o privilégio suplementar de colaborar directamente, nas suas obras. Desenhei a parede e o embasamento do mural de azulejos concebido por Bartolomeu. Trabalho interessantíssimo em que discutimos fundamente a forma que melhor poderia corresponder, destacar e dar melhor leitura aos painéis de azulejos, o frontal e o de tardoz, que o Bartolomeu idealizou.. Entre o primeiro desenho e a forma final, “partimos muita pedra”. A forma final muito nos agradou. Mais fácil foi desenhar a parede de suporte para a escultura do João. A simplicidade genial da ideia do João Limpinho de transformar as lâminas de enxada nas “caras” dos poetas populares facilitou o desenho da parede suporte, uma alusão muito estilizada a esse objecto de trabalho agrícola, Procurando que nada fique esquecido registe-se que os cálculos de engenharia, obviamente mais complexos em relação O Povo é Quem mais Ordena, foram feitos por Horácio Sotero, engenheiro da CMG. Hoje, quando passo por Grândola, onde vivi anos felizes, continuo a olhar para essas intervenções escultóricas com o prazer e o legítimo orgulho de ter tido essas iniciativas, sempre suportadas pelo entusiasmo e empenho do Pedro Pedreira e da Isabel Revez.

Jorge Vieira

25 Anos do 25 de Abril / jorge Vieira

Lembro que dramaticamente o Jorge não viu a sua obra em circunstâncias que me abalaram profundamente. Por várias circunstâncias a decisão para a encomenda das esculturas, atrasou-se, o que obrigou os artistas a trabalhar com prazos muito apertados nas maquetas de molde a possibilitar a sua concretização. Qualquer escultura consome meses na sua realização. Com Abril no horizonte até ao fim do ano as maquetas tinham que estar feitas. Assim sucedeu com todos e claro com o Jorge Vieira. No dia 23 de Dezembro de 1998, pelo meio-dia, telefona-me o Jorge para me convidar a ir à sua casa em São Bento de Ana Loura, Estremoz, no dia 26, para ver a maqueta. Vários prazeres conjugavam-se. Ver a maqueta, almoçar com o Jorge e a Noémia, refira-se que o Jorge era um excelente cozinheiro, conviver, um convívio sempre muito vivo e estimulante, alegrado pela finíssima ironia, uma imagem de marca do Jorge. Eram onze horas da noite desse mesmo dia 23, quando volta a tocar o telefone. Do outro lado um grande amigo comum, recentemente desaparecido, o Zé Alberto Manso Pinheiro que, consternadíssimo, anunciava que o Jorge tinha sido vitimado por uma síncope. Nunca esquecerei o murro que levei. Chorei como não me lembro de alguma vez ter chorado. Choraria outra vez abraçando a Noémia desfeita pela dor. A vida que dá tantas alegrias também maltrata de forma violenta, muitas vezes inesperada.

JoãoLimpinho

Os Poetas Populares / João Limpinho

No meio de tanto sucesso, nem tudo correu bem. Por exemplo, por um acaso daqueles que só acontece no cinema, raramente na vida real, estava no Teatro de Almada com o Joaquim Benite, quando alguém, no alvoroço provocado já nem lembro quem, irrompe anunciando que a rádio noticiava que o José Saramago tinha ganho o Prémio Nobel da Literatura. Telefonámos. Milagrosamente conseguimos ligação. Abraços e mais abraços, parabéns e mais parabéns. Desligado o telefone olhámos um para o outro, proponho o que o Joaquim estava a pensar. Repor em Grândola, no dia 25 de Abril, A Noite. Naquele momento de euforia, ficou tudo firme. Não aconteceu apesar do nosso afinco e do afinco do Pedro Pedreira e da Isabel Revez. A decisão nunca mais era formalizada, até o Benite, em desespero, me telefonar a marcar uma data a partir da qual seria impossível realizar o espectáculo. Era um trabalho a mais na programação do teatro. A partir daquela data, não haveria tempo para ensaios, com a agravante de ter que se substituir o António Assunção, com papel importante no elenco original, já ter falecido. A data foi ultrapassada sem nenhum compromisso. Nas várias vezes em que nos encontrámos recordámos amargamente essa oportunidade perdida. Repor A Noite, nos 25 anos do 25 de Abril, no ano em Saramago iria a Estocolmo ser nobelizado. Tínhamos a secreta esperança de o ter presente em Grândola para rever a peça de teatro em que se retratava a noite de 24 para 25 de Abril, vivida na redacção de um jornal.

isaque

A Cultura saiu á Rua num Dia Assim/ Isaque Pinheiro

Outra iniciativa que se gorou pelos mesmos motivos, ruminar decisões até as tornar inexequíveis, foi a de encomendar a António Pinho Vargas 25 Variações sobre o tema Grândola, Vila Morena. Pinho Vargas é um excelente pianista e um excelente compositor. É um reconhecido cultor tanto da música sinfónica como do jazz. Reunia as condições óptimas para realizar essa obra. O problema foi similar ao sucedido com o Benite. Protelar a decisão até a tornar impossível. Havia um limite para decidir, sobretudo porque António Pinho Vargas estava a trabalhar na ópera Os Dias Levantados, com libreto de Manuel Gusmão. A partir de certo momento não poderia conciliar esses dois trabalhos. Assim se perdeu a oportunidade de Grândola se poder orgulhar de ter encomendado uma obra que , se fosse feita, estou convicto, seria marcante na historiografia da música portuguesa, ficando Grândola para sempre ligada a esse acontecimento.

Mas houve momentos de rabelaisiana galhofa. Num certo dia, com o tom imperativo, definitivo e pomposo que alguns presidentes usam para embrulhar as suas deliberações, recebemos um papel manuscrito, guardo fotocópia desse escrito, com origem no gabinete da presidência, em que se determinava que o programa musical das Comemorações dos 25 Anos do 25 de Abril deveria ser aberto por uma composição original, encomendada a um músico que na altura dava aulas na Universidade de Évora, que se intitulava, nada mais nem nada menos que REQUIEM PARA A REVOLUÇÃO!!! Gargalhadas pantagruélicas. Seria uma originalidade universal uma Revolução ser celebrada com um Requiem. Este mundo e o outro deveriam rir a bandeiras despregadas, com tal iniciativa, ainda por cima levada a efeito por uma Câmara de esquerda, da CDU. As risadas mereceriam figurar no Guiness, com um recorde que tanto pela sua dimensão como extensão, dificilmente seria ultrapassado. Haveria certamente uma excursão de saudosos salazaristas a desembarcar em Grândola celebrando sucesso tão inesperado e, para eles, tão feliz. Ainda por cima com a circunstância de o jantar da Associação 25 de Abril se realizar na vila, antecedendo o repasto, por alinhamento da programação, haveria a primeira audição mundial de tão magna, industriosa e inusitada obra.

Aqui fica esta Memorabilia, um registo, com factos alguns até agora desconhecidos, para memória futura das Comemorações dos 25 Anos do 25 Abril em Grândola, Escritos em louvor e recordação de amigos entretanto desaparecidos aqui assinalados pela referência a Pedro Pedreira, com o envio de um grande abraço à Isabel Revez, envolvendo nesse abraço todos os trabalhadores da Câmara de Grândola que bem se empenharam para que, apesar dos tropeços que nos eram estranhos, a festa fosse, como foi, um sucesso irrepetível.

De caminho, uma última nota, tenho o secreto desejo que um dia em Grândola, os nomes de duas pessoas ligadas fortemente à história da vila no pós-25 de Abril, figurem na sua toponínima: Pedro Pedreira.e Manuel Areias.

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Cultura Gold

images Paulo Portas, com eleições à vista, tirou mais um coelho da cartola. Alargou a atribuição de vistos gold a quem invista na cultura. O mínimo 350 mil euros. Mais barato do que se fizer aquisições imobiliárias, 500 mil euros, ou transferir um milhão de euros, para uma conta sediada em Portugal,. A primeira e já sabida curiosidade, é o governo PPD/CDS, andar a captar capitais com essas ofertas, e preocupar-se pouco ou mesmo nada com os grandes capitalistas nacionais, useiros e vezeiros na fuga de capitais para paraísos fiscais, são centenas de milhões de euros por mês, informa o Banco de Portugal, ou em escapar aos impostos, localizando empresas em países que lhes concedem benefícios, alguns escandalosos como se veio a conhecer com o Luxemburgo Leaks, prática semelhante mas mais agressiva da que a praticada por outras paragens como a Holanda, país de acolhimento a belmiros e soares dos santos. A segunda curiosidade é essa gente vender-se barato. Oferecem um visto gold a troco de uns amendoins para a cultura. O Secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, veio esclarecer que o montante de 350 mil euros é para criar “precisamente um incentivo adicional”. Acentuou que “o governo está empenhado em divulgar esta medida junto de potenciais investidores mostrando-lhes o que se faz cá se faz.” Dá o exemplo do que aconteceu nos EUA, no Kennedy Center onde, durante três semanas, estiveram “integrados na mostra cultural Iberian Suite mais de uma centena de criadores portugueses e lusófonos com os seus mais recentes trabalhos nas áreas do teatro, da dança, da música, das artes visuais, da literatura, da gastronomia” . A caldeirada das indústrias criativas. O enunciado dá para perceber o conteúdo de tanta criação, cócócóró. A luzidia comitiva era uma montanha russa assim porque não era assado. Lamenta Barreto Xavier “não termos projecção internacional enquanto potência de arte contemporânea significativa” e acrescenta com vergonha “por vezes temos uma ideia exagerada sobre nós próprios a esse respeito”. Mais umas banalidades a juntar às com que nos mimoseia cada vez que abre a boca. Deste governo que outro secretário de Estado se podia esperar? A concessão de vistos gold para a área da cultura está no mesmo nível de mediocridade. Depois de sucessivos anos de desinvestimento no sector da Cultura, até se atingir o estado comatoso actual, não serão os vistos gold que a vai reanimar. Atearão uns fogachos fátuos, iremos ver de que calibre. Os vistos gold serão apoios intermitentes e pontuais. Obviamente, até pela sua natureza, excluem-se de qualquer plano cultural, mesmo de curto prazo. Em nada contribuirão para uma política cultural, mesmo a não política do actual governo. Serão dirigidos com a vista curta de obter rapidamente benefício. Isso vai favorecer quem já tem nome, a mais das vezes não por valor real mas por bem dirigidas operações de marketing. Será mais fácil comprar uns tricotados ou umas panelas à Joana Vasconcelos, lá estará o olho vivo da Everything is News para não deixar escapar a oportunidade, do que apoiar um projecto de João Limpinho, apesar do saber, da seriedade artística, da qualidade estética demonstrada nas esculturas que integram o Museu está na Rua, no Bairro da Bela Vista em Setúbal. Será mais fácil encomendar um espectáculo musical a Rodrigo Leão do que uma obra a António Pinho Vargas, apesar do abismo artístico e estético que os separa. Outros exemplos poderiam ser enumerados. Apesar desse quadro, sempre se poderia ter colocado a fasquia mais alto e com outro fundamento. Dirigi-los para um sector específico, o do património construído, muito em avançado estado de degradação, exemplo próximo o Conservatório Nacional, e não deixar os investimentos serem feitos quase a vontade do freguês. Sem normas, o melhor, mais de acordo com o seu gabarito, será Barreto Xavier montar uma banca de venda de produtos culturais na Feira de Carcavelos, especializada em vistos gold. O Paulinho, frequentador habitual desses eventos, lá o iria visitar para ver como corre o negócio e degustar um menu de farturas pós-modernas. Lugar para diálogos pouco confidenciais: “O senhor vice primeiro-ministro engraxa? Não, hoje engraxo nas Necessidades!” Esta gente vende-se barato e sem critério.

(publicado no jornal Avante! em 16/4/2015)

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Contra as Políticas de Gosto

magritte

Ontem, Dia Mundial do Teatro, num debate público, dos muitos que se realizaram pelo país, houve quem defendesse a existência de uma política de gosto, como quase um paradigma a ser seguido pelos poderes central e local. Tinha uma nuance, defendia uma política de gosto contra uma política de bom gosto.

É uma questão que surge com alguma frequência, que merece ser debatida.

Qualquer política de gosto, de bom gosto, de mau gosto, de gosto assim ou assado, inquina sempre qualquer política cultural que deve sobrevoar, ignorar qualquer política de gosto.

Os exemplos, a experiência bem o demonstram.

Um entre muitos exemplos. É uma política de gosto que determina, na sua origem, a programação do Teatro de São Carlos, impondo um modelo em que era dominante a ópera italiana de divertimento e representação, que acabou por se alargar ao Teatro Nacional e Normal, tramando a reforma iluminista de Garrett. Por essa política de gosto, com um fundo ideológico evidente, mesmo as primeiras representações de Wagner no Teatro de São Carlos, são cantadas em italiano e em estilo italiano. O que apesar disso, provocou um imenso debate. A música de Wagner, mesmo subvertida desse modo, não permitia a exibição de números vocais em que se apreciava mais a voz, as acrobacias da voz, o bel canto, que o conteúdo dramático, apesar da extrema exigência do repertório wagneriano. É também essa política de gosto que, em grande medida, explica porque no Teatro de São Carlos, tão rapidamente se passou dos barrocos para os românticos, sendo os clássicos tão tardiamente executados, como aconteceu com Mozart. Uma política que só foi definitivamente banida quando João de Freitas Branco assumiu a sua direcção.

Uma política de gosto é sempre corrosiva de qualquer política cultural. Sartre, nos anos cinquenta verberava as políticas de gosto, que desembocam sempre, visível ou encapotadamente, no gosto ou não gosto, sem base em análises estéticas, artísticas e sociológicas fundamentadas. Di-lo, em Qu’est-que la Literature de forma mesmo desabrida: “só a minha empregada de doméstica é que gosta ou não gosta de um romance”.

Um dia, Lopes-Graça foi publicamente confrontado com a obra de Mahler. Era conhecida a distância que o compositor tinha em relação aos românticos. Não desmentiu o que o separava dessa corrente musical, de compositores como Brahms, Lizst, Bruckner, Mahler. Citou as invectivas de Romain Rolland no Jean-Christophe, a Brahms. No fim envolveu-se numa longa e esclarecida dissertação sobre o que distinguia as interpretações de Mahler por Bruno Walter, Otto Klemperer, Hermann Scherchen, Dimitri Mitropoulos. Ficou evidente que Lopes-Graça, não gostando de Mahler, reconhecia a sua importância até ao pormenor de questionar as várias formas de o ler musicalmente. A apreciação de uma obra estava acima e além de qualquer política de gosto.

Nenhuma política cultural poderá estar sujeita a políticas de gosto. As políticas de gosto contaminam a produção de cultura enquanto instrumento de progresso da humanidade para a condicionarem como instrumento de distâncias e distinções.

A cultura, soma do fazer e do saber fazer, é sempre uma transição entre o que existe e o que se transforma seja na natureza ou no espírito dos homens. Transição constante e variável entre regulação e crescimento espontâneo por força do trabalho que a diversifica e aprofunda. Cultura é ainda um instrumento de dominação da natureza e/ou da humanidade numa sociedade que se apropria dos frutos do trabalho, de todos os frutos do trabalho, do mais banal cordel ao mais complexo poema, para deles fazer merca­dorias. Apropriação que é trave mestra do sistema de produção capitalista que aprofunda o divórcio entre o homem e a natureza, o homem e seus semelhantes, entre o homem individual e a sua individualidade. Onde a alienação corta transversalmente toda a actividade humana.

Alienação que se aprofunda gravemente quando se sujeita a cultura às oscilações do gosto. Gosto, políticas do gosto que se abismam sempre numa deriva tardo-romântica, esteticista e decadente, nos labirintos das modas, em contraponto com as concepções materialistas e racionalistas.

Italo Calvino, nas Seis Propostas para o Próximo Milénio, está sempre a questionar, directa e indirectamente as políticas do gosto, como entre muitos outros, o já tinham feito Adorno ou Walter Benjamin.

Políticas culturais não se podem sujeitar a políticas de gosto, contra o nosso próprio gosto. As políticas culturais não se podem balizar por um canon, que é o que acaba sempre por ser estabelecido por uma política de gosto. Têm que ir mais além com o objectivo de combater um gosto médio, imposto sobretudo pelos meios de comunicação social,  que nos assalta a cada esquina, promovendo  o olhar dis­traído, o ouvido distraído, a cabeça distraída que o zapping pelos média vai insidiosamente instalando. É cada vez mais necessário e urgente construir uma cultura, feita de culturas onde circulem as ideias de solidariedade e participação, onde se lute pela transforma­ção da vida e emancipação do homem, contra o discurso dominante do fim da história, por considerarem que já não se pode encarar o seu fim no sentido marxista de transformações radicais ou mesmo significativas quanto à forma de organização e de vida da sociedade humana, do fim das ideologias leia-se fim do marxismo, porque a burguesia capitalista, envergonhadamente, nunca se assumiu como uma ideologia, do fim da política, leia-se fim da política ideológica, marxista por perca definitiva do horizonte utópico.

É urgente promover políticas culturais que  lutem contra a danação de ficarmos amarrados a caminhar num espaço vazio onde tudo pode acontecer mas nada é decisivo. É urgente trazer a cultura, na sua multiplicidade e comple­xidade, para a arena da luta social e política contra o discurso domi­nante da competitividade a qualquer preço submetida aos ditames do mercado e da moda, das políticas de gosto.

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Califado Anti-Literatura

Jihadista

José Rodrigues dos Santos, mascarado de escrevente, prepara-se

para mais uma sessão de decapitação literária

À semelhança dos anos anteriores, o balanço anual dos livros mais vendidos em Portugal, confirma o persistente efeito térmita que afecta a literatura portuguesa.

Mais uma vez, José Rodrigues dos Santos está no topo, confirmando que a sua jihad contra a literatura consolida-se ano após ano. Promete continuar até nada restar de literatura. Uma luta que iniciou com êxito em 2007.

Jihadistas desse calibre são raros. Têm uma capacidade de luta, liderança com maus hábitos e  instinto de sobrevivência acima dos padrões normais. Dispõem de arsenais de armas de destruição maciça invejáveis. Todos os anos despejam centenas de páginas portadoras de virus letais que atacam as células cerebrais,. Todos os anos enviam para campos de extermínio escritores, para progressivamente os seus nomes e obra sejam olvidados.

Não tem concorrência por mais que outros escreventes, como Miguel Sousa Tavares ou Margarida Rebelo Pinto, se esforcem. Os grupos terroristas em que militam, embora tenham o mesmo objectivo acabar de vez com a literatura, não conseguem êxitos semelhantes.

Tuido aponta para que, no século XXI, José Rodrigues dos Santos seja proclamado Califa do Califado Anti-Literatura e outras Artes e Luzes.

Glória à Insignificância em Todo os seu Esplendor.

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Ravel

Ravel morreu há 77 anos. Compositor que é sobretudo conhecido pelo Boléro, obra a que ironicamente se referia como “a minha obra prima infelizmente vazia de música”, embora não ficasse indiferente às interpretações. É bem conhecido o episódio em que interpelou Toscanini depois de o ouvir reger o Boléro à sua maneira, duas vezes mais rápido e sempre acelerando.

Ravel, que muito cedo se interessou por música, manteve com o Conservatório uma relação particular, entrando e saindo até completar o estudo de composição com Gabriel Fauré. Completou também o curso de piano, mas não foi concertista que se notabilizasse, ao contrário do seu contemporâneo Rachmaninoff. Dizia que o piano era um instrumento pesado para ele, uma frágil figura, muito afectado por várias doenças ao longo da sua vida. A sua obra para piano, a solo, de camera ou concerto é das mais importantes na história da música, em particular da música francesa. Começou por ter uma forte influência de Debussy, mas rapidamente as diferenças entre as suas obras tornaram-se muito significativas. Raízes de música popular da sua terra de origem , o País Basco francês, o orientalismo que conheceu na Exposição Universal de 1889 e que depois explorou, mesmo o jazz, são decisivas na obra de Ravel. Durante os seus quarenta anos de actividade, distingue-se pela subtileza e por um agudo sentido criativo.

As suas relações com os interpretes eram de grande exigência. Além do episódio com Toscanini, também ficou conhecida a sua fúria ao ouvir as ornamentações do pianista austriaco Paul Wittgenstein, a quem tinha sido amputado o braço direito e que lhe tinha encomendado uma obra para a mão esquerda, de que resultou essa obra prima que é o Concerto para a Mão Esquerda. No pólo oposto muito apreciava o modo como Pedro de Freitas Branco sabia ler as suas obras. Considerava mesmo que La Valse, não conheceria melhor maestro.

Ravel escreveu várias obras primas como o quarteto Xerazade, a fantasia lírica, que é uma ópera L‘Enfant e les Sortileges sobre um poema de Colette, poetisa que não apreciava especialmente, a ópera Dafnès e Chloé, os dois Concertos para Piano, as inúmeras peças para piano, algumas quase em formato miniatura, mas que são notáveis como Gaspard la Nuit,, Le Tombeau de Couperin, Minueto sobre um tema de Haydn. Obras orquestrais com Rapsódia Espanhola, Ma Mére l’Oye, Pavana para uma Infanta Defunta As Valsas Nobres e Sentimentais, só para citar algumas obras.

Sobre Ravel, com esse título, Jean Echenoz escreveu um interessantíssimo romance, reportando-se aos seus dez últimos anos de vida. Não um romance em que se descreve esse período de vida de Ravel, mas um romance em que a vida do compositor se enche de vida, de inquietudes, de fantasias, tudo com uma grande humanidade e ternura.

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Tio Patinhas a Caminho de Belém

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O novo Museu dos Coches abre um enorme buraco no muito depauperado orçamento da cultura. A sua construção foi um erro brutal, decidido por obtusos peritos em turismo, sem nenhuma sustentação em políticas culturais (*) Com um custo de 35 milhões de euros, contrapartidas do Casino de Lisboa, o novo Museu dos Coches terá um custo de funcionamento anual de 3,5 milhões de euros,estimativa da SEC, Será necessário o número de visitantes ultrapassar o milhão/ano. Quase cinco vezes o número de visitantes actuais, num Museu que é dos mais visitados.

O descalabro na cultura, vai-se acentuar. Os perigos que se aproximam , vão abrir uma caixa de Pandora nos frágeis alicerces de uma política cultural praticamente inexistente, com um orçamento irrisório.

O prenúncio é feito pela nomeação de António Lamas (AL) para o Centro Cultural de Belém. Não é um fim, mas o principio da integração numa única entidade do eixo monumental e museológico Belém-Ajuda. É conhecida a defesa que AL faz em aplicar o modelo da Parques Sintra-Monte da Lua em Belém(**).

Há uma enorme diferença entre o património gerido pela Parques de Sintra-Monte da Lua e a que poderá integrar o Distrito Belém-Ajuda. Em Sintra não existem equipamentos com vida e objectivos culturais próprios e diversificados. As receitas de alguns dos Palácios, cobre os défices de outros. O mesmo com os parques, jardins e florestas. AL argumenta que a Parques de Sintra-Monte da Lua, não recebe apoios do OE, é auto-sustentável. Uma falácia. Se o OE não gasta um cêntimo para a manutenção e recuperação desse património, foi porque perdeu verbas avultadíssimas gerradas pelos Palácios que eram tutelados pelo Estado e foram transferidos, sem custos, para a Parques de Sintra-Monte da Lua. Essa a raiz da boa gestão AL.

Em relação a Belém-Ajuda a diversidade dos equipamentos culturais é uma evidência. Uma gestão integrada, teria poupanças marginais com serviços de limpeza. segurança e manutenção conjuntos. Com a partilha de sistemas de bilhética. O que carece de demonstração são as outras vantagens que A L enuncia. É uma realidade que tem sido largamente debatida pelos técnicos dos museus e monumentos daquela zona, desenvolvida em debates públicos com largíssima participação. As sugestões, muitas reproduzidas por AL, têm sido olimpicamente ignoradas pelos sucessivos ocupantes das cadeiras governamentais da cultura.

A carência de meios, humanos e materiais, é cada vez maior. As vantagens das trocas de experiências e da elaboração de projectos comuns, tem sido objecto, como referido, de grande reflexão que aponta para uma funda articulação entre equipamentos, com o seu reforço identitário, o que ultrapassa em muito as reflexões de AL, mais preocupado com a vertente económica, subordinando os projectos culturais a esse objectivo. Com o descalabro a bater à porta quando se inaugurar o Museu dos Coches, o seu custo de funcionamento actual, 600 mil euros/ano multiplica-se por seis , o modelo apontado por AL adquire corpo. A sua bondade é que deve ser questionada, se não será proceder à macdonalização de eixo Belém-Ajuda, com AL em “master-chef”.

É forte a tentação de criar-uma empresa, originalmente de capitais públicos, que integre os Museus dos Coches,Arqueologia,Etnologia, Arte Popular, Marinha, da Presidência, EDP. Monumentos dos Jerónimos, Torre de Belém, Padrão dos Descobrimentos, Palácio da Ajuda. O Centro Cultural de Belém, Planetário, Cordoaria. Os jardins Tropical e Botânico.

O perigo não está na visão de AL, está quando se lêem as GOP da Cultura que preconizam a gestão “mais racional e eficiente dos organismo da cultura”,, do património poder ser administrado por “entidades terceiras” , de se“reduzir a dependência dos financiamentos públicos directos”. Sabemos bem de mais o que isto quer dizer. Com um governo que só vê virtudes na gestão privada, que privatiza ou está predisposto a privatizar, os bens públicos mais essenciais, a privatização da futura empresa Distrito Belém-Ajuda, com o seu valiosíssimo património, renderia, no imediato, uns valentes cabedais. Para essa gente de vistas curtas, ausência de cultura e principios estará certamente em cima da mesa. A beatificação cultural da Everything is New pela mão da SEC é um primeiro passo na disneyficação da política cultural. Para o Distrito Belém-Ajuda devem desejar que o Tio Patinhas esteja a caminho. Já deve estar andar dentro das cabeças dos “nossos” governantes para descalçar o pedregulho que o novo Museu dos Coches acrescenta às outras pedras e pedrinhas que estão dentro daquela bota. Temos uma certeza: aquela gente não se importa em cometer esse crime, essa traição à nossa identidade nacional e cultural.

(*)leia-se o argumentário arrogante e estúpido, à escala do personagem, do Director Geral do Turismo de Lisboa na Revista Turismo de Lisboa/Maio 2009)

(**)”O modelo da Parques de Sintra-Monte da Lua é aplicável em Belém” António Lamas, Público 30/10/2013

( publicado no jornal Avante! de 13711/2014)

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Jordi Savall, Cultura e Cidadania

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Amanhã a Catalunha vai votar se quer ser um Estado Independente. Um novo país independente ou um país estado independente federado com a Espanha, as duas perguntas são :“Quer que a Catalunha seja um Estado?” E, em caso afirmativo, “Quer que esse Estado seja independente?”, ou permaneça com o estatuto actual que, em resultado dessa consulta, tudo aponta não ser igual ao que vigora. As aspirações catalães à independência são muito antigas. Basta lembrar que em 1640, a Espanha confrontrou-se com duas lutas pela independência, Portugal e Catalunha. Não podendo acorrer eficazmente aos dois lados, um no extremo ocidental outro no extremo oriental da península Ibérica, a monarquia espanhola saiu derrotada em Portugal e vitoriosa na Catalunha.

Esta semana esteve em Portugal um catalão que é um dos grandes músicos de sempre, Jordi Savall. Um catalão convicto que vai votar esteja onde estiver como afirmou. Para lá dos concertos, sempre memoráveis, Jordi Savall, falou com a comunicação social. Uma conversa interessantíssima, que deve ser lida.

O seu pensamento sobre a música, sobre a prática da música, composição e interpretação, recusa liminarmente a arte pela arte, afirmando que “quando a música é só estética, acaba-se em Auschwitz”. Está em linha com Walter Benjamin(*) e todos os que defendem a arte em conflito e unidade com a sociedade. A sua autonomia e a sua dependência dos momentos históricos em que se realiza. Jordi Savall afirma a importância da arte e da cultura como valores de cidadania, dando à música um papel central. “A música é que dá sentido ao ser humano”(…) sem a música não nos poderíamos entender, ela dá sentido às palavras”. O contrário dessa música de consumo, internacional nos sentimentos e anglo-saxónica na forma, pronta a usar e a esquecer, que inunda a comunicação social, com relevo para a rádio e a televisão. Sublinha “as músicas populares que são as que melhor definem a história de um povo e as que têm mais emoção”(:..)músicas que sobreviveram ao esquecimento e ajudaram os povos a sobreviver isso é o que lhes dá força e beleza ainda hoje”. Fazem parte da cultura dos povos. Esse saber e saber fazer, de que a arte é parte importante, sempre em luta contra a alienação da democracia espectacular, o totalitarismo mais acabado, um modo de repressão de fachada democrática, que as atira para o esquecimento, as apaga nas estantes das ultra minorias sonoras.

Jordi Savall explicou as razões da recusa em receber o Prémio Nacional da Música, atribuido pelo Ministério da Educação, Cultura e Desporto. A recusa nada teve a ver com a situação que se vive na Catalunha mas com uma razão de fundo que têm tudo a ver com as políticas culturais. “Foi para dizer em voz alta o que sempre disse: Espanha não se preocupa com a música, com os músicos, não trata do seu património musical. Há falta de interesse”, (…)“Quando me atribuíram o prémio fiquei contente. É um prémio bonito, e ainda vem acompanhado por 30 mil euros, mas depois pensei como posso aceitar o prémio de pessoas que durante anos se esqueceram da música?

Uma lição de dignidade e coerência aos que por cá não se importam de receber prémios em silêncio envergonhado ou com discursos ditos civilizados por quem anda a destruir conscientemente a cultura ou a ser seleccionado e condecorado por um Presidente da Republica que foi primeiro ministro de um governo que censurou Saramago e João César Monteiro, que negou a pensão à viúva de Salgueiro Maia e a concedeu a pides/dgs Enfim, cada um é como quem é, a tentação comendadora de ter o brilho de uma medalha ao peito é muita, embora seja uma decisão bem mais fácil, se não apagarem a memória, que a de Jordi Savall. Maria Teresa Horta fê-lo. Alexandra Lucas Coelho, também o fez de outro modo, ao receber o prémio da APE, com discurso contundente.

Regresse-se a Jordi Savall, à música, a Espanha. Assinale-se o referendo catalão, com a forma possível com o enquadramento de uma lei herdada do franquismo. Ouçam o sempre extraordinário e surpreendentre Jordi Savall que, com Montserrat Figueras, fundou os grupos de música antiga La Capella Reial de Catalunya, Le Concert des Nations e Hespèrion XXI, referências no mundo musical.

(*)Fiat ars—pereat mundus, diz o fascismo que, como confessou Marinetti, espera da guerra a satisfação artística da percepçãoi transformada pela técnica. Trata-se vsivelmente da consumação da arte pela arte. A humanidade que antigamente , com Hopmero, foi objecto de contemplação para os deuses olímpicos, tornou-se objecto dfe contemplação de si-própria. A alienação de si próp+ria atingiu o grau que lhe permite viver a sua própria aniquilação como um prazer estético de primeira ordem. È assim a estetização da política praticada pelo fascismo. O comunismo responde-lhe com a poplitização da arte.

A Obra de Arte na Época da sua Possibilidade de Reprodução Técnica, Wlater Benjamin, in A Modernidade, Obras Escolhidas de Walter Benjamin, edição e tradução de João Barrento, Assírio e Alvim, 2006

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NOTAS DE VIAGEM /PINTURA DE JOSÉ MOUGA na casa da Cultura em Setúbal

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NOTAS DE VIAGEM de José Mouga está até 5 de Novembro na Casa da Cultura de Setúbal. È mais uma exposição importante, das muitas que José Teófilo Duarte tem organizado nesse espaço, que o dignificam e o colocam na lnha da frente das galerias de exposições temporárias de Setúbal. Um oásis que José Teófilo Duarte planta, cuida e faz crescer, num panorama quase deserto de ideias e qualidade.

É uma exposição que marca uma novo caminho na pintura de José Mouga, um pintor sem mestre mas com mestres, em que um dos mestres é o próprio José Mouga que interroga sem complacência o que o José Mouga está a pintar, que caminho está a descobrir e como o está a fazer. Assim a pintura de José Mouga é uma permanente redescoberta, com percurso muito próprio que sem se deixar inscrever em nenhuma escola ou tendência se relaciona com elas sem por elas se deixar limitar. Como escreve Rui Mário Gonçalves no catálogo da exposição “Observa-se a pintura de José Mouga e não se encontra logo o modo com que devemos falar dela. Refiro-me à sua obra em geral. Cada quadro seu é uma superfície invasora(…) A pintura de Mouga , na sua imediatidade visual e voluntária elementaridade é uma pintura exaltante, ajuda a ser alegre (…) de muitos modos se pode falar dela, mas eu penso que sempre com alegria.”

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Estas Notas de Viagem, marcadas por visões de ciprestes “belos como linhas e como proporções, tal como um obelisco egípcio” ( Van Gogh) que José Mouga foi recuperar à sua memória longínqua, aos registos que fez quando jovem soldado miliciano que já se fazia acompanhar de um caderno de capa preta, igual aos cadernos de capa preta que nunca o abandonaram, onde os desenhou como os olhos os viam e como os olhos os imaginavam. Abandonados, mas não esquecidos, durante anos em que ficaram sepultados nesse caderno de juventude, ressurgem agora em todo o seu esplendor, em mais um diálogo entre o jovem Mouga, com anos de saber da pintura, da prática da pintura e o velho Mouga que questiona o trabalho que está a ser realizado. Como sempre o resultado é surpreendente. Mais surpreendente para quem não acompanhou, ao longo dos anos,. a sua pintura que é uma das mais importantes da história de arte em Portugal, como resumidamente escrevi no texto que fiz para o catálogo.

josé Mouga

Os anos 70 em Portugal foram anos de ruptura nas artes. Nas artes plásticas, a pintura começou a ser posta em questão. Nesse processo vários artistas optaram ou por aprofundar as gramáticas pictóricas das abstracções em que a linha e a cor se tornavam obsessivamente dominantes ou por figurações que olhavam para o modelo, fosse paisagem ou figura humana, descobrindo novas lógicas.

José Mouga é um dos artistas centrais nesses anos de ruptura. Sem nunca abandonar os pressupostos teóricos que sustentam a materialidade da pintura, esteve sempre aberto à pesquisa, ao amplo conjunto de possibilidades que a pintura lhe proporcionava. O seu acto de criar foi e é uma investigação que constrói com a pintura, pensando-a e realizando-a. Um percurso de invenção, como se tivesse o propósito de construir o mundo, de nos dar a ver esse mundo como presente que também é todo o passado e todo o futuro, como disseram Fernando Pessoa e T.S.Elliot.

A pintura de José Mouga, seria interessante e instrutivo organizar uma exposição senão retrospectiva pelo menos antológica da sua obra, tem processos de observação, descrição e representação que colocam problemas que o pintor equaciona sem ter resposta definitiva mas que fornecem aos seus espectadores ferramentas para os decifrar.

Uma pintura em que as geometrias variáveis, das figurações abstractas ou figurativas, têm origem nas transformações culturais, nos saberes pictóricos que José Mouga experimenta e atravessa para encontrar insistentemente a necessidade de as transmitir para as telas onde não há acasos, mas uma forte relação entre a visão, a percepção, entre o que vê enquanto coisa concreta e coisa mental, que usa a pintura como uma grelha de referências, uma estrutura do pensamento visual.

José Mouga tem uma constante necessidade de experimentação, de procura. Uma lógica que o obriga a por sempre em causa os procedimentos anteriores para os integrar em novos procedimentos que vão construindo o seu caminho, assumindo os riscos que o futuro sempre coloca enquanto é desconhecido e não se materializa numa tela, em muitas telas.

Esta exposição de José Mouga responde cabalmente a uma questão que tem atormentado nos últimos decénios as artes visuais. Estaremos a viver o tempo do fim da pintura ? Ou mais contidamente, e agora, a pintura? A resposta, uma das respostas está nestas paredes, nestes quadros, nesta exposição que afirma que a pintura continua inquestionável. Que o seu potencial narrativo, tanto na abstracção como na figuração, comunica directamente connosco, é o grão de verdade semeado num mundo inconsequente nos múltiplos ruídos comunicacionais, visuais e sonoros, que o afundam na irracionalidade, na alienação.

Esta exposição de José Mouga é a evidência do recomeço eterno da pintura.”

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Cultura

Lauren Bacall, Morreu uma Estrela

Laureen Bacall

Com quase noventa anos, morreu Lauren Bacall, uma das mais extraordinárias actrizes de Holywwod. Uma voz grave com uma entoação inesquecível, um olhar que não deixava nada indiferente, mesmo nada fosse vivo, morto ou inerte. No imaginário do cinema, na sua mitologia, conta-se que Howard Hawks, já interessado por aquela rapariga de 19 anos que aparecia numa fotografia da Harper’s Bazar, ficou paralisado de surpresa quando, num “casting”, a rapariga saltou da fotografia para o palco e disse “Hello, how are you”. Começava uma carreira impar até pela intransigência com que escolhia os pápeis que lhe queriam atribuir. Por isso a produtora cinematográfica que a tinha contratado suspendeu-a uma dúzia de vezes

Célebre ficou a cena do seu primeiro filme “Ter ou não Ter” em que contracena com Humptrey Bogart e lhe diz, como só ela saberia dizer “ quando me quiseres chamar, assobia”.

Ensina-lhe a assobiar, ensina-o a fumar, era e foi até ao fim da vida uma fumadora inveterada, ensina-lhe  algumas coisas mais que acabaram em casamento. Tornaram-se num dos casais marcantes em Holywood, época do maccartismo e código Hayes, pela sua excelência como actores, pela sua postura política pela sua intransigência com as faltas de carácter.

Conhecia-a, já com setenta anos, num almoço promovido pelo Festroia e pela Câmara de Grândola, quando o Festroia trazia a Portugal um Robert Mitchum que era um bom companheiro, um Denis Hooper tão frenético ao vivo como na tela, um Almodovar excelente e imparável conversador. Lauren Bacall continuava uma bela mulher a quem os anos traziam encantos que substituam e se acrescentavam aos encantos anteriores. Era extraordinário como mantinha as distâncias exercendo uma sedução extrema.

Alguns episódios marcaram essa sua vinda a Portugal. No referido almoço, apreciando o belíssimo tinto alentejano que se bebia, logo encomendou dez caixas mostrando como continuava atenta aos prazeres da vida. Contaram-me, dou como verdadeiro, que quando descerraram placa que assinalava a sua presença no Festival, indignou-se e recusou que ela ficasse exposta se o seu nome não tivesse letras maiores ou iguais aos nomes de outros actores bem menores que ela, apontava com acinte para Jane Russell. Foram fazer nova placa rapidamente, a tempo antes de ela se ir embora. Não era um exigência de uma estrela snob. Era uma exigência justa de uma actriz que sabia o seu valor.

Assim era e foi Lauren Bacall, do príncipio até ao fim da vida. Uma estrela de cinema por mérito próprio que fazia parte do “star-system” mantendo-se fora dele, uma democrata até à medula, uma mulher por inteiro que não convivia com a mediocridade.

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Geral

Livros que se devem procurar

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Agora que Maria Velho da Costa (em 2013) recebeu o prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores, reconhecendo a grande originalidade, inventiva e criatividade da escritora, rebuscámos um livro, escrito em parceria, que teve uma circulação restrita.

Trata-se do guião para uma série televisiva sobre Camilo Castelo Branco, a ser realizada por Alberto Seixas Santos, que, com “a sua habitual minúcia e exigência na pesquisa, neste caso literária e histórica”, confiou a António Cabrita e a Maria Velho da Costa o guião de “uma trilogia cinematográfica, que se desdobraria em série televisiva, que retratasse o estro, a aventura e o acinte de Camilo Castelo Branco”.

Bem português o destino desse projecto. Sem se saber bem porquê, nem sequer se filmou uma cena do livro, quando os autores decidiram recuperar o trabalho literário realizado, publicado uns anos depois pela Íman Edições, editora suicidada nas danças e contradanças que anunciavam a concentração das editoras.

Se antes já não era fácil encontrá-lo escondido nas prateleiras carregadas indiferenciadamente de obras notáveis, assim-assim e mesmo abomináveis, agora só se encontra nesses novos alfarrabistas que estão instalados nas estações de metro e comboio ou em tendas que aparecem e desaparecem país fora. Quando está presente é fácil vislumbrá-lo, virtudes da belíssima capa de José Teófilo Duarte.

Destino muito camiliano de “Inferno”, que se divide em três temas: 1-O Demónio do Ouro (focalizado na vida material); 2-Onde Está a Felicidade? (centrado na vida sentimental do escritor); 3-Noites de Insónia (a escrita e a pulsão suicida de Camilo). De forma bastante original, fundada numa poderosa escrita, “Inferno” é um fresco sobre a vida, a genialidade e os demónios de Camilo. 

(publicado no Guia de Eventos de Setúbal / Janeiro,Fevereiro) 

Procurem-no agora que, com o prémio e muito justamente, a obra de Maria Velho da Costa vai ser, assim o esperamos, mais procurada, para que esta obra, feita em parceria, não continue quase secreta.

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Um génio do nosso tempo/Um camarada de sempre

Oscar Niemeyer não comemorou os 105 anos, que faria em 15 de Dezembro, como gostaria e como o fez no ano passado, no seu atelier a trabalhar, a festejar com os amigos, desenhando e bebendo um copo de bom vinho. Na realidade a viver a vida que, como sempre afirmou, é o que mais importa.

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(…) Sempre acrescentei nas minhas palestras que não dava à arquitectura maior importância, e não havia nada de desprezo nas minhas palavras. Comparava-as com outras coisas mais ligadas à vida e ao homem, referia-me à luta política, à colaboração que todos nós devemos à sociedade, aos nossos irmãos mais desfavorecidos. O que poderia ser a arquitectura comparada à luta por um mundo melhor, sem classes, todos iguais? (…)

Era assim esse homem genial de extraordinária dimensão humana. «Minha agenda está sempre cheia» disse Oscar Niemeyer, no dia em que fez 103 anos. Continuava activo em todas as áreas que sempre o interessaram e motivaram. Politicamente dava o seu contributo militante ao Partido Comunista Brasileiro, o que não abandonou o marxismo-leninismo. Como homem de cultura interessava-se particularmente pela cosmologia e mantinha a rotina de uma reunião semanal para se actualizar com os progressos dessa área científica. Dava um pequeno passeio a pé. Continuava a ler avidamente literatura e poesia. A sua capacidade de trabalho, agora centenária, continua a espantar. Em Fevereiro de 2012, visitou o Sambódromo, palco do Carnaval no Rio de Janeiro, que projectou há quase 30 anos e que foi recentemente ampliado, com a sua aprovação, para os Jogos Olímpicos de 2016. Niemeyer, visivelmente cansado, 104 anos são 104 anos, já não percorreu o espaço pelos seus próprios pés, fê-lo num carro aberto, à torreira do sol carioca. Foi muito saudado por populares que participam nos desfiles carnavalescos. Uma das últimas homenagens que recebeu, em vida, para si a melhor das homenagens: a homenagem do seu povo. Com a simplicidade desarmante que sempre o caracterizou, disse que aquele era um projecto mais de outros arquitectos que dele. Tinha-o desenhado mas quem tinha acabado, modificado, acrescentado tinham sido os arquitectos seus colaboradores. Disse isso como disse em relação a outros projectos, entre eles o Casino Parque da Madeira. Excluía-se discretamente do sistema de estrelato que invadiu a arquitectura, como muitas outras áreas da vida pós-moderna. Embora todas as alterações fossem sujeitas à sua aprovação, Niemeyer chamava para a linha da frente os arquitectos que com ele trabalhavam. Era um homem de incontornável grandeza humana. Continuar a ler

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Cultura, austeridade

ImageNo meio do vórtice que está a empurrar Portugal para o abismo, com milhões de trabalhadores no desemprego, com milhares de empresas a entrarem em falência, com o roubo descarado, por via directa e indirecta, que o governo faz aos trabalhadores, reformados e pensionistas fabricando uma política de esbulho que transfere os rendimentos do trabalho para o grande capital, com as manchas de pobreza a cresceram hora a hora, com a condenação a situações limite dos deficientes, dos que sofrem de doenças crónicas físicas ou psíquicas, com o Estado a ser desmantelado, socavando-se a sua capacidade de intervenção, com os direitos sociais, económicos e políticos corroídos, pauperizados até serem meramente formais, enquanto se destrói o país para o submeter às garras do grande capital e se esvaziam os cidadãos dos seus direitos mais elementares, acções violentas e violentadoras cinicamente postas em prática sob a capa do fantasma das liberdades democráticas, numa idealização das liberdades, cirúrgica e hipocritamente removidas do contexto económico e social para, puras e absolutas, consolidarem privilégios de classe, porque se os detentores do grande capital e os seus serventuários têm largas e amplas margens de liberdades em contraponto são cada vez mais reduzidas as liberdades pessoais de milhares de trabalhadores qualquer que seja a sua actividade, exercida numa fábrica ou num escritório, no campo ou numa nuvem informática, num consultório ou no palco de um teatro, submetidos a longas e duríssimas horas diárias de labor, pessimamente remuneradas, entregues às incertezas instaladas do dia seguinte. A liberdade deles é a do direito do mais forte à liberdade de legalizar os instrumentos de exploração e dominação. Usam a democracia em seu proveito e das classes que os sustentam, não hesitando em mentir despudoradamente para arrebanharem os votos que legitimam os desmandos que vão cometer, traindo os que neles confiaram. Falam, usam, agitam a bandeira da democracia enquanto a democracia for a base da ordem económica e social que lhes garante os privilégios pela mais desenfreada exploração como a que hoje se assiste em Portugal. Exercem a violência sem um tremor na mão. Levam a violência, a física e a psicológica, aos extremos que forem necessários sem uma ruga de hesitação, como a história o tem abundantemente demonstrado, como todos os dias este o governo o demonstra assumindo medidas que ferem os cidadãos, que desprezam o povo, que torna quase impossível a vida dos trabalhadores, reformados, pensionistas, pequenos e médios empresários a favor do grande capital, no altar de vilania do deus dinheiro.

Neste contexto, quando cada vez mais mulheres e homens, atirados para a pobreza ou para as suas margens, nunca reconheceram ou deixam de reconhecer a forma abstracta do pão, por só verem no pão o combustível necessário para lhes assegurar a sobrevivência, poderá questionar-se a premência de exigir 1% para a cultura. Se não se deveria sepultar temporariamente essa reivindicação debaixo de outras urgências colocadas pelo estado de sítio imposto pelo governo, pela troika que vai fazendo caminho por entre os maleáveis escolhos de uma oposição hesitante e intermitente o que a torna objectivamente cúmplice da situação que se vive. Continuar a ler

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Cultura, Setúbal

Setúbal, um bom momento

Contra os maus ventos que assolam o país e os portugueses, Setúbal prepara-se para viver um bom momento enquanto comunidade. E é no domínio da Cultura e do Património que a cidade do Sado se prepara para o fazer.

A reabertura do Fórum Municipal Luisa Todi (15 de Setembro), a maior sala de espectáculos sadina, após quatro anos de atribuladas obras de profunda remodelação, o 28º FESTROIA Festival Internacional de Cinema de Setúbal (21 a 30 de Setembro) e a inauguração da nova Casa da Cultura (5 de Outubro) constituem esse momento.

Também a recuperação do Convento de Jesus, a emblemática obra de traça manuelina datada de 1490, viu aberto um concurso público para a respetiva empreitada, prevendo-se a sua conclusão até ao Verão do próximo ano. Uma obra que Setúbal aguarda há décadas

Investimentos municipais com um futuro espinhoso e certamente recheado de dificuldades, mas necessários em tempos difíceis. Para que aprofundemos a nossa dimensão de comunidade. Mas também para contrariar a espiral destrutiva com que alguns tudo pretendem destruir, desmantelar, menorizar ou mortificar.

Um desafio a todos os setubalenses e amigos de Setúbal. Aos seus habitantes, às suas  associações culturais, desportivas e recreativas, às suas empresas. A todos.

 

 

 

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Cultura, Política

Salvem a Cultura!

Andei um pouco arredia da minha/nossa Praça por motivos vários. Finalmente, vou para férias. Confesso-vos que estou mesmo necessitada delas.

Antes de partir, quero deixar-vos aqui um convite, porque a Cultura está em perigo, neste País. Acorrei todos a salvá-la destes Vasconcelos que, sem vergonha, nos vendem a Pátria.

A Educação, as Artes, o Património Edificado, Museus, Bibliotecas, Arquivos correm sérios riscos, porque «eles comem tudo e não deixam nada». Não vamos deixar que tal aconteça.

Dia 5, logo, pelas 18 horas vai ser apresentado em Setúbal o Manifesto em defesa da cultura, no Passo do Olival, aquele simpático restaurante da Arronches Junqueira, 74.

Lutemos por 1% cento do orçamento do estado para a cultura.

O combate tem de ser feito em todas as frentes.

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Cultura, Política

A Cultura que PSD/CDS não querem

Nada escapa à fúria destruidora e anti-democrática deste Governo

A cultura, quase silenciosamente, vai sofrendo um estrangulamento financeiro que irá matar todas as actividades culturais que não sejam aquelas que o governo vê como desejáveis: as ligadas aos lucros do mercado. Para este governo, a cultura é, apenas, uma mercadoria e não um direito de todos.

Apenas 0,07% do PIB é investido na Cultura, apesar da OCDE recomendar, pelo menos, 1%. Para termos uma ideia da importância que é dada à cultura neste País, em riscos de perder a sua identidade, verificamos que o dinheiro que é pago pelos contribuintes – em juros e em “apoios” à banca no âmbito do acordo com  a troika externa – equivale a mais de 250 anos de apoios à Cultura.

Foram suspensos os apoios à criação cinematográfica, os concursos por parte da DGArtes e introduziram-se alterações aos modelos de financiamento e diminuição de verbas que levará à morte dezenas de estruturas de produção, de ensino e de criação de arte.

Numerosas companhias de teatro estão à beira da extinção, pois aos cortes de financiamento público de 38 a 60%, associa-se o facto de que muitas Autarquias, garrotadas financeiramente pelo governo, estão a denunciar protocolos e há outras que se atrasam nos pagamentos contratualizados.

Milhares de cidadãos, homens e mulheres, participam democraticamente em processos criativos, individuais ou coletivos, cooperativos, empresariais ou associativos, fabricando o tecido cultural que mantém viva a identidade nacional e que a renova a cada dia que passa, através das mais diversas formas de expressão: o teatro, o cinema, a pintura, a escultura, a literatura, a dança.

Esses milhares de criadores não têm o apoio dos gigantes cinematográficos, não têm o amparo da grande distribuição livreira nem do monopólio editorial que vem silenciando quem ousa escrever diferente, nem têm meios para anunciar as suas peças de teatro em grandes jornais ou na TV.

A limitação dos apoios chega mesmo ao cúmulo de se manifestar em cláusulas dos contratos assinados com as companhias onde se lê que o Governo apenas garante o financiamento do primeiro trimestre. Ora, então não se está mesmo a ver o Governo assinar um contrato-programa com uma grande empresa, digamos, por exemplo, a Lusoponte, e dizer que só assume responsabilidade por um trimestre? Não… Para esses contratos- programa, o Governo trata sempre de garantir a disponibilidade da verba necessária, mesmo quando são contratos ruinosos para o Estado.

Só existe mesmo uma solução: a luta, a luta e mais uma vez a luta. Em todos os locais, em todos os sectores. Só a luta permite vencer e abrir portas a uma alternativa possível que existe se assim o decidir o povo português.

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Cultura, Política

Para Acabar de vez com a Cultura

Marca de àgua/ Basquiat

Portugal irá viver em 2012 o primeiro de muitos anos de agravamento de desemprego, da perda de direitos sociais e humanos, do fosso entre os ricos, cada vez menos e cada vez mais ricos, e os pobres, cada vez em maior número e cada vez mais pobres. O primeiro de muitos anos de miséria material e moral, daquilo a que o primeiro-ministro e os seus pares apelidam com grande despudor de democratização da economia. Será o primeiro ano de muitos outros anos cogitados em segunda mão por aquelas mentes bafientas que querem fazer retroceder Portugal a os anos do fascismo sem a brutalidade, no dizer deles os excessos, mas com igual nível de exploração, de desigualdades sociais, de perca de liberdades, direitos e garantias dos cidadãos e dos trabalhadores. Será o primeiro ano de muitos outros anos, se no meio do caminho que essa gente cheia de empáfia julga ir trilhar sem escolhos, não se colocar uma enorme pedra de resistência que os trave definitivamente. Uma pedra onde brilhe a luz do aço de Abril, forjado nos ideais de uma democracia económica, social, política e cultural avançada.

A cultura é um dos campos mais ameaçado pela devastação que este governo está a produzir em todos os outros campos onde arremete.

Que se poderia esperar quando se soube que a pasta da cultura seria sobraçada pelo primeiro-ministro de que não se conhece interesse cultural para lá de ter tido incursões corais onde exibiu a sua voz de barítono tartamudeante, de ter chumbado num casting do La Feria, essa estrela intermitente das teatradas nacionais, e de se poder presumir que teve e tem manhãs de fulgurantes cantorias na casa de banho. Com tal currículo as expectativas eram nulas. Para essa gente a cultura seria e será sempre cousa distante, útil para abrilhantar noites mundanas, exibir em momentos político-sociais curiais, visitar cautelosamente para ser visto para os apropriados registos fílmicos e fotográficos.

Havia a necessidade de escolher um comparsa, o que não seria muito difícil. Na vida de um primeiro-ministro há sempre um intelectual qualquer pronto a servir e justificar todas e quaisquer malfeitorias. O Coelho, habituado às perdigueirices da política, rapidamente se apercebeu que tinha à mão de semear alguém que bem se quadrava nos seus propósitos maiores: lixar a cultura sem fazer muito barulho. Foi tiro e queda. Há que dizer que quando apontou ao Viegas já o Viegas andava há algum tempo a aparecer e desaparecer no campo de tiro da barraca de feira da campanha eleitoral a fazer-se ao acerto do disparo. Actor muito activo de uma cultura balsâmica onde confluem com igual importância e recebem tratamento equivalente as literaturas, os vinhos de alto gabarito, os comentários de futebol, os uísques raros, a mais refinada gastronomia, os charutos da melhor linhagem, os mais reaccionários comentários políticos embrulhados em sedas artificiais que bem se moldam ao seu pensamento de liberalote de meia tijela pós-moderna. Pertence áquela raça de intelectuais orgânicos, como Gramcsi os definiu, aqueles que “dissimulam cinicamente a dominação burguesa em seus pontos essenciais. Cumprem a missão odiosa de fazer aceitar uma ordem e fornecendo-lhe justificativas. Trabalham para afirmar e propagar as verdades parciais engendradas pela burguesia e úteis ao seu «poder» “(Les Chiennes de Garde, Paul Nizan, Maspero 1978).  Tudo o que para ele se pode inscrever no circo dos requintados interesses culturais de uma certa cultura mundana onde se esfumam os questionamentos da cultura que, na teoria e na prática, sobressalta e procura transformar a vida. Por onde passa, Viegas deixa o rasto perfumado e persistente do conformismo que bem se quadra com as suas habilidades de surfista sempre na crista das modas ditas culturais. Agora a sua expectativa é lixar a cultura em surdina, fumando umas charutadas da paz.

O seu sorriso simpático pronto a acolher todo o mundo e ninguém, nas teias de aranha das suas argúcias a que estava habituado, do lá vai a cultura, dá cá o pé, lá passou a cultura, toma lá o pé, perante umas rugosidades que não conseguia aplainar, rapidamente se transformou num rictos implacável, ameaçando, demitindo, impondo o seu querer e as medidas mais estapafúrdias para afundar a cultura argumentando que “nos próximos anos temos que nos habituar a uma mudança completa de paradigma”

Viegas vai aclarando o paradigma no meio da mais indecorosa demagogia. O que mais diz, repete e soletra, acentuando cada sílaba para que não restem dúvidas é: “Não há dinheiro!”. Um Goebbels de pacotilha. Enquanto o outro puxava da pistola cada vez que ouvia falar de cultura, este puxa da carteira, com a mesma velocidade e pontaria. Os resultados são idênticos!

(publicado no Avante! 1988, 5 janeiro 2012)

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Celebremos Fernando Lopes-Graça

Hoje, há 105 anos, nasceu em Tomar um dos maiores génios musicais portugueses: Fernando Lopes-Graça.

Compositor, músico, pedagogo, investigador, musicólogo, crítico musical é
um dos maiores intelectuais nacionais.

Um génio que sempre assumiu orgulhosamente a sua condição de português e comunista.
Não deixemos que esta data marcante na história de Portugal, da cultura, da música e do pensamento musical fique em branco.

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Manifesto em Defesa da Cultura

BIBLIOTECA , Vieira da Silva

Ontem em Lisboa, foi toirnado público um manifesto em Defesa da Cultura, subscrito por mais de cinquenta pessoas ligadas às mais diversas áreas da cultura.
marca um primeiro na luta pela defesa da cultura e dos bens culturais contra uma política que objectivamente <os está a destruir.
Um alerta forte a todo o país.

MANIFESTO EM DEFESA DA CULTURA

1. Destruição e perversão do princípio de serviço público; estrangulamento financeiro; desmantelamento, redução e desqualificação de serviços; centralização e agregação burocrática de instituições; mercantilização: as políticas de agressão à Cultura seguidas pelos últimos governos criaram uma situação insustentável. O PRACE do governo PS gerou uma estrutura ineficiente e enfraquecida, em diversos aspectos irracional, que colocou serviços e instituições à beira da paralisia e do colapso, situação que os sucessivos PEC’s agravaram brutalmente. Com o governo PSD/CDS, aos cortes cegos seguiu-se a reestruturação cega. O PREMAC vai ainda mais longe nos aspectos negativos do PRACE. Num enunciado de fusões, extinções, criações/fusões/extinções sem qualquer fundamentação séria conhecida, esta reestruturação cega leva ao limite a situação de crise geral existente nas estruturas da administração central com responsabilidades nas diferentes dimensões da actividade cultural. Continuar a ler

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