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O PCP e a travessia do Sado

A propósito do Comunicado do Executivo da Comissão Concelhia de Setúbal do PCP em defesa da aplicação do tarifário metropolitano à travessia fluvial entre Setúbal e Tróia, surgiram nas redes sociais os mais diversos comentários.

A esmagadora maioria de pessoas apoiam a ideia e consideram uma exigência da mais elementar justiça, outros questionam o tempo em que a proposta é feita, ora por estarmos em ano eleitoral, ora por um vereador do PSD ter feito semelhante proposta.

Sem querer entrar na lógica de quem disse o quê primeiro, julgo, no entanto, que é necessária alguma seriedade na discussão deste assunto.

E, no que ao PCP diz respeito, importa reconhecer que esta questão pouco tem de eleitoralista ou que só agora tenham os comunistas acordado para este assunto.

O PCP, ao contrário de outros Partidos em Setúbal, teve sempre a mesma posição sobre a questão do preço da travessia do Sado.

Desde o momento da celebração do contrato de concessão entre a APSS e a Atlantic Ferries que o PCP diz que o interesse público não está defendido e que o empreendimento turístico da Sonae utiliza o preço das deslocações como um factor impeditivo do acesso às praias pelos Setubalenses.

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Geral, Guerra, Jugoslávia, PCP

Ainda sou do tempo…

sarajevowar

(Odd Andersen/AFP)

Ainda sou do tempo em que, em Portugal, o PCP era uma voz praticamente isolada a contestar as teses, a propaganda e a manipulação informativa sobre a chamada guerra da Bósnia.  Do tempo em que jornalistas, comentadores e especialistas diversos em Relações Internacionais, conflitos armados, política internacional e afins, dedicavam algum do seu saber nas televisões, rádios e jornais, para manifestar total incompreensão pelo posicionamento do PCP, só justificável, diziam eles, à luz de um anacrónico alinhamento com posições russas ou, mais cruel e desumano, com a apologia de todo e qualquer mal que fizesse frente aos EUA e à UE.

Aliás, se se quiser aprofundar mais o tema, podem ser lidos diversos textos sobre o tema, publicados no Avante, no Militante, nas Resolução Política dos Congressos, em intervenções na Assembleia da República (como aqui e aqui, a título de exemplo) ou quem quiser um olhar mais aprofundado sobre o posicionamento dos vários partidos políticos portugueses perante a guerra da Bósnia-Herzegovina (1992-1995), pode ler este artigo, de Ana Rocha Almeida, publicado na Revista Portuguesa de História, da Universidade de Coimbra.

20 anos depois, com o que a história já nos contou, com o Tribunal Penal Internacional da a ex-Jugoslávia, em Haia, a reconhcer que Slobodan Milosevic não teve responsabilidades em crimes de guerra, começa a ser possível ouvir e ler testemunhos e análises que confirmam a ingerência externa das grande potências na desestabilização e desmembramento da Jugoslávia, a manipulação da informação feita através dos principais órgãos de comunicação que cobriram o conflito, o papel da NATO e a parcialidade com que actuou (e para a qual foi criado) o Tribunal Internacional Penal.

Esta notícia do Expresso sobre o lançamento do livro do major-general Carlos Branco, “A Guerra nos Balcãs. Jihadismo, Geopolítica e Desinformação”, é disso exemplo.

Mas agora que já não é só o PCP a denunciar estas situações, onde estão os fabricantes de notícias, os especialistas e os comentadores que fizeram o serviço sujo de manipulação das opiniões com vista a justificar a guerra? Onde andam eles e como convivem com as suas responsabilidades?

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Curiosidade

No âmbito da discussão do Orçamento de Estado para 2016, o PCP anunciou um conjunto de propostas alteração e, entre elas, a redução da taxa máxima de IMI de 0,5% para 0,4%.

Vamos ver como é que os partidos que em Setúbal gritam pela redução da taxa máxima de IMI votam na Assembleia da República esta proposta que, a ser aprovada, independentemente das leituras que se façam do contrato de reequilíbrio financeiro e das obrigações que dele decorrem, teria como efeito imediato a redução da taxa de IMI praticada em Setúbal.

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No meio da Festa

XIX BIENAL

Este ano a Bienal da Festa do Avante! Realizou a sua décima nona edição. Da primeira, realizada no Jamor, a esta na Atalaia, a Bienal tem variado no tipo de participação na base de um formato que, no essencial, se tem mantido com participação aberta e artistas convidados. A diferença entre a primeira e a XIX, está na selecção por júri dos participantes. Uma inovação que, salvo erro, foi introduzida na terceira Bienal. Com o decorrer do tempo uma nova secção passou a integrar as bienais, a de atribuir um dos seus espaços a uma disciplina específica das artes. A primeira foi preenchida por jovens escultores da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, a deste ano pela Arte Urbana.

A grande diferença entre a Bienal da Festa do Avante! e as bienais de artes que se realizam por todo o mundo é a da Festa do Avante! se excluir da órbita do capitalismo cultural, em que as bienais, feiras de arte e variantes se inscrevem, que é dominado pelos museus, galerias, onde as cotações das obras de arte e dos artistas são determinadas, posteriormente afinadas nos leilões. Revistas de arte de referência, a maior parte propriedade desses agentes do mercado, fazem anualmente listas dos quinhentos artistas mais cotados e das cem pessosa mais influentes no mundo das artes. Refira-se que nos últimos anos alguns portugueses têm figurado nessas listas. Na primeira lá se encontra Joana Vasconcelos, na segunda já lá esteve o comendador Berardo, o que diz muito e quase dispensa comentários. Esse sistema, em tudo semelhante ao sistema bancário, colocou o mercado das artes num nicho do mercado de artigos de luxo. Os espaços dos museus e galerias são espaços com uma aura de sacralidade onde as obras se tornam intemporais. Uma aura que O’Doherthy, artista e teórico, comparou ao das igrejas medievais e que vale dinheiro. A Bienal da Festa do Avante! tem tudo o que as outras bienais têm, menos o ser um espaço com essas características. Vai ao encontro das pessoas, muitas delas, provavelmente a maioria, não são ou não eram frequentadores habituais de galerias. Isso altera não as obras de arte, mas a visão das obras de arte. A mesma obra de arte que já esteve exposta numa galeria é outra obra de arte quando é exposta na Bienal da Festa do Avante!

A surpresa que constituiu a realização da I Bienal diluiu-se com o tempo. Nos dias de hoje os visitantes da Festa do Avante! sentiriam a sua ausência. Numa Festa que todos os anos não é sempre a mesma, que se renova e rejuvenesce sem fadiga, a Bienal deve corresponder a essa legítima expectativa, o que tem procurado fazer nas suas sucessivas edições. A próxima, a vigésima, tem a obrigação de ser um salto qualitativo, como é usual nos números redondos dos calendários.

Este ano a Bienal acolheu o que se designa universalmente por Arte Urbana. Aparentemente uma contradição porque a Festa do Avante! sempre foi uma grande e variada mostra de arte urbana na multiplicidade dos seus espaços, em que a imaginação se solta para os animar visualmente. Devem ser lembrados os grandes paineis, realizados por artistas, dos mais destacados no nosso panorama artístico, que iluminaram a Festa na Ajuda. Anos atrás, na Atalaia, quando se homenageou Malangatana, foi exposto um grande painel por ele pintado expressamente para a Festa do Avante! São ainda de recordar os paineis pintados por Rogério Ribeiro que, além de durante muitos anos deixar o seu risco sempre inovador em todo o recinto da Festa, os pintou com a genialidade que transparece em toda a sua obra.

Hoje a Arte Urbana entrou no léxico universal depois de muitos anos ser olhada de lado pelo sistema artístico. Artistas como o britânico Bansky ou o português Vhils têm obra espalhada pelo mundo. São solicitados para realizarem intervenções nas mais distantes cidades. São objecto de exposições em galerias e museus. Têm estilos que os fazem reconhecer rapidamente, com a facilidade com que reconhecemos Goya ou Vieira da Silva. Depois de muitos anos em que os grafitis, os precursores da Arte Urbana, serem considerados transgressores e perseguidos, os poderes instituidos perceberam que a Arte Urbana enriquecia cultural e artisticamente os seus espaços, as paredes degradadas das suas cidades. Começaram a usá-los para os ornamentarem e taparem feridas. Os artistas que praticam Arte Urbana ultrapassaram essa função ornamental, criando verdadeiras obras de arte.

Portugal sempre foi um espaço particular na ocupação das paredes degradadas. Há que lembrar os murais que invadiram o país no pós 25 de Abril em que, por vias muito diferentes, se distinguiram os murais do PCP e do MRPP, as forças mais activas e criativas. O PCP pela convocação de artistas seus militantes ou ideologicamente próximos que pintavam colectivamente os murais. O MRPP, na base de um trabalho prévio de desenho depois transposto para as paredes por grupos especializados. Na altura, essa actividade causou escandalo na Europa reaccionária que via nos murais um sinal da “anarquia” provocada pela Revolução de Abril. Outros tempos. Como outros tempos são os de hoje em que na mesma cidade, Lisboa, que se orgulha e exibe pelo mundo a sua galeria de Arte Urbana, se incentiva essa actividade e se prendem, identificam e humilham jovens da JCP que pintam murais com mensagens políticas. A Arte Urbana também é usada para domesticar as paredes.

A inclusão da Arte Urbana na Bienal da Festa do Avante! traduz o reconhecimento dessa realidade e as obras que foram produzidas em directo, antes e durante a Festa, são uma radiografia não só do que ela é mas do que ela está a ser. A diversidade das obras representa bem os novos caminhos que os artistas que se dedicam, com êxito, a essa nova categoria artística estão a explorar. De como se estão a libertar de um processo conceptual originariamente muito ligado à banda desenhada e à arte pop. Depois desta primeira intervenção é bastante provável, mesmo desejável, que a Arte Urbana adquira outra expressão no contexto geral da Festa.

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Artes, CDU, Festa do Avante, música, PCP

Foi linda a Festa, pá!

 

Para muitos a Festa não existiu, para outros ela aconteceu porque o Marcelo esteve lá, para outros, ainda, ela até se realizou, mas apenas por causa da música, porque ninguém quer saber de política e muito menos do PCP.

Para a maioria da comunicação social aquilo que importa noticiar é a cor dos cortinados da casa de José Sócrates, não se vislumbrando qualquer interesse numa iniciativa que junta centenas de milhares e onde a política, a música, a pintura, a escultura, a fotografia, a dança, o teatro, o cinema, a gastronomia, o artesanato e a ciência fazem da Festa do Avante! um acontecimento único e sem paralelo no nosso país.

No entanto, por muito que a tentem esconder ou menosprezar o seu real significado, nós sabemos que foi linda a Festa, pá!

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A Farândola Política

Falhei!!!

Não fui um dos oito mil idiotas inteligentes que foram soprar uma lufada de ar fresco com que procuram limpar o ar das flatulências que largam por tudo o que é sítio, no circo democrático montado pelo Livre /Tempo de Avançar,Um ciclo vicioso onde consomem energias e meninges para ver se têm um assento na AR e, eventualmente, conseguirem umas migalhas da mesa do poder. Boquinhas sequiosas prontas para todo o serviço. Querem, e conseguem, obter mais um tempo de antena, como se não fosse suficiente a atenção desmesurada e canina que os meios de comunicação, a mando dos seus patrões, lhe dedica. Podem babar as maiores banalidades, logo será enviado um jornalista para dar cobertura, com direito a foto e notícia a várias colunas, ao nada que um dos queridos lideres do Livre/Tempo de Avançar debitar. Para aperitivo do que se anuncia, Ana Drago  já teve direito a bolsar inanidades , com grande destaque. As discriminações atingem sempre outros que são também alvo desses divertidos dirigentes políticos. Veja-se o impacto que a grande manifestação do PCP teve na comunicação social. É a  vergonha dos critérios editoriais de um suposto jornalismo plural, objectivo. O escandalo é tal que José Pacheco Pereira se sentiu na obrigação de o denunciar na revista Sábado. Mas é essa mesma gente que, se no passado recente, timha ordens para não deixar cair nenhuma cuspidela do Livre/Tempo de Avançar em saco roto, agora vai começar a multiplicar o espaço e o tempo para acolher as charlas, mesmo que não digam nada.. As teatradas dos dons robertos menores desse partido político serão sempre bem recebidas. Os trompetes da comunicação social estipendiada estarão sempre prontos para os publicitar, esperando o capital que a sustenta, recompensa futura pela atenção que dispensam a essa gente gira. Que os diverte com o seu estilo político que lembra os dançarinos dervixes a rodarem sobre si próprios sem saírem do mesmo sítio.

Noutro plano, o que o Livre/Tempo de Avançar celebra é o triunfo do pensamento político play-station, ao serviço do revisionismo ideológico. A história acabará por os atirar para o caixote do lixo.

Livre tempo de avançar

Ao ver a fotografia, que o Público publica, com grande destaque, dos candidatos do Livre/Tempo de Avançar na escadaria da Assembleia da República, género grupo excursionista dirigido pelo pequeno líder Oliveira, lembrei-me de um discurso político, com outro gabarito e consistência, que João Cesar Monteiro filmou nesse cenário. Não exactamente ali, mas ao lado. com o mesmo enquadramento. A enorme, a abissal diferença é entre as arlequinadas do Livre/Tempo de Avançar e o disparo certeiro, sarcástico e sério do João César Monteiro, que se devia rebolar a rir  com essa maltosa que faz política assim para a seguir a fazer assado.

Divirtam-se com esta cena do Vai e Vem

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A Persistência da Cassete

acasseteFrancisco Seixas da Costa mantém um blogue, genérico nos temas que versa, que se lê com interesse.

Cruzamo-nos algumas vezes. Amigos meus, muito próximos, alguns desaparecidos, entre outros Bartolomeu Cid dos Santos, Fernanda Paixão dos Santos, Pedro Pedreira, incluem-se na sua vastíssima roda de amizades.

Frequento, com bastante irregularidade, o seu blogue em acordo variável com as opiniões que emite. Em franco desacordo com o que escreve quando se refere ao meu partido, o Partido Comunista Português, onde somos todos desumanos no dizer de um dos seus seguidores, o que não mereceu contradita do autor do “post” pelo que, com propriedade, deduzo que considera ajustado tal epíteto, em linha com o conteúdo do texto que provocou a dita observação. Um “post” em que a pretexto da morte de Francisco Canais Rocha, declara: “Nunca na minha vida consegui condenar alguém que, sob tortura, tivesse “falado”. Sei lá como me portaria se tivesse de suportar idênticas circunstâncias! Tenho amigos que “falaram” e outros que “não falaram” na cadeia. Não tenho menor ou mais apreço por eles, por essa razão. Acho assim miserável que o PCP nunca tivesse reabilitado este seu antigo militante. Um partido também se mede pela sua humanidade.”

Também eu nunca condenei ninguém por ter “falado” na cadeia. Quem está submetido a selváticas torturas só se estiver disposto a morrer as pode suportar até ao extremo limite. São muitos os camaradas que heroicamente ultrapassaram as violências inomináveis a que foram sujeitos. Sem essa determinação, num exemplo abstracto mas real, quem suporte a ferocidade de dez dias de tortura de sono, estátua, agressões físicas e psicológicas, chegue ao fim desse tempo resistindo, até aos verdugos desistirem, fica sem saber se na hora seguinte, na meia hora seguinte, no quarto de hora seguinte, a sua resistência não seria quebrada. Iria, numa fracção de segundo, do Capitólio para a Rocha Trapeia. Por isso, nunca condenei ninguém que “falou”, para usar a gíria em uso. Os limites da resistência humana são infinitos mas sempre desconhecidos. Honra para quem, em nenhuma circunstância, falou ou falaria, por terem a determinação que referi.

Esclarecido este ponto considero que Seixas da Costa deveria cuidar melhor do que afirma. São muitos os militantes do PCP que “falaram” e que, depois do 25 de Abril, voltaram a militar activamente no seu Partido. São muitos os militantes do PCP que “falaram”, e estão hoje no PCP, de militantes de base a dirigentes, mesmo no Comité Central, ou que foram deputados tanto na Assembleia da República como no Parlamento Europeu. São hoje bastante menos do que foram depois do 25 de Abril. Menos, unicamente pela lei da vida. Estas evidências arrasam a acusação de o PCP ter “ausência de humanidade”. O PCP diferencia-se de outros partidos onde o rancor mesquinho, de alguns dos seus mais altos dirigentes, atira à mínima divergência sem hesitações para o inferno alguns dos seus companheiros, mesmo os mais próximos, até íntimos. Seixas da Costa deveria informar-se melhor antes de incorrer em erros e emitir juízos que põem em causa a sua credibilidade.

Ao ler outros “posts” poderemos concluir que há um objectivo, mais geral. O de demonstrar, por fás e nefas, a impossibilidade de um acordo de esquerda por culpa do PCP.

Num “post” mais recente, a pretexto de um artigo do Avante! sobre a queda do Muro de Berlim, é delicioso assistir ao alinhamento do texto que vai de um paternalismo à beira da abjecção que embrulha em ternura por uns supostos saudosos de um passado próximo e por um “ PCP (que é) hoje um museu de si próprio, que deve ser conservado com todo o cuidado que sempre deve ser concedido às espécies em extinção” para concluir “que (é) um partido a quem tenho, como muitos portugueses, uma eterna dívida de gratidão pela sua inigualável e sacrificada luta para derrubar a ditadura”. Continuar a ler

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Política

Debates à Esquerda

desert wall.tifAs eleições legislativas aproximam-se a passos largos. Depois de anos de hecatombe social está por perceber se há novas alternativas à coligação da Direita.

Resistirá o actual quadro partidário, mantendo-se a tradicional alternância dentro do centrão? Ampliar-se-ão os sinais de fragmentação de voto já manifestados nas últimas eleições autárquicas e europeias? Surgirá à Esquerda uma nunca experimentada alternativa credível e com possibilidade de aceder ao poder?

O estado de degradação a que governação da Direita conduziu o país nos últimos anos tornou imperiosa a existência de uma alternativa política. Uma alternativa de opções de fundo, que não apenas uma mera alternância entre os velhos, ou novos, protagonistas do centrão (PS, PSD e às vezes CDS) e as suas políticas que pouco se têm distinguido nos últimos quase quarenta anos. Anos marcados pela sobreposição do poder financeiro.

A interrupção do desastre terá que considerar como objectivos de primeira ordem a manutenção do Estado social, nomeadamente no acesso à educação, à saúde e à segurança social, a definição de um sector público estratégico inalienável, a prioridade da criação de emprego e a valorização do trabalho. Para o conseguir não restarão muitas dúvidas de que a dívida terá que ser reestruturada, bem como renegociada a aplicação dos critérios do tratado orçamental que pesam sobre o país e a maioria dos portugueses como uma pesada canga.

Uma das linhas de debate à Esquerda tem sido o papel que o PS pode ter nessa alternativa. As actuais movimentações no seio do Bloco de Esquerda, que culminaram com a saída de alguns seus militantes proeminentes, imbricam, segundo os próprios, na relação com o PS e na possibilidade de o influenciar em algumas opções cruciais.

Pretendem alguns que a alteração de fundo de que o país precisa passa pela perspectiva de o PS regressar ao poder nas próximas eleições legislativas.  Propõem-se a com ele negociar para lhe mudar a sua longeva postura de partido centrista, que oscila entre a social-democracia e a tentação néo-liberal… Ora piscando à esquerda, ora à direita.

As intenções parecem boas. Fazer o PS virar à Esquerda e partilhar uma nova postura sobre aquele que é o actual nó górdio da situação política e económica do país – a necessidade de negociar as políticas decorrentes do tratado orçamental europeu, que consequências tão nefastas têm trazido para o país.

É expectável que o PS, que em Abril de 2012 votou favoravelmente o tratado sem qualquer objecção, venha a ter alguma atitude séria que conduza à sua renegociação? Nem Costa nem Seguro foram até à data explícitos sobre o tema, percebendo-se o quão manietados estão pelos compromissos com os seus colegas europeus. Não fossem, aliás, os socialistas europeus co-responsáveis pela monstruosidade que afunda o país.

Resulta claro que só um reforço eleitoral à esquerda do Partido Socialista poderá fazê-lo inflectir de posição e levá-lo a negociar. Uma alteração que corroa a sua expressão eleitoral e reforce, nomeadamente, um eixo que tem hoje expressão no CDU-PCP/PEV e BE, ou outras formações desta área política.

Mas é também lamentavelmente claro, como já aqui exprimi em (1) e (2), que o eleitorado não tem tido à sua disposição uma opção clara de Esquerda que lhe dê um sinal de esperança numa solução de governação. Só o crescimento eleitoral dessa área poderá criar uma nova opção política na sociedade portuguesa que se equilibre com o Partido Socialista, numa perspectiva de efectivo acesso à governação. E aí talvez seja possível negociar seriamente com o PS. Não antes disso.

Sem um pólo agregador e por “falta de comparência” pode começar a ser tarde para que o eixo da alternativa política se desloque para a Esquerda. E como não há vazios em política essa ausência será preenchida por novas formações ou pela manutenção do centrão.

São algumas as experiências de limitado (?) sucesso de grupos que tenta(ra)m influenciar o rumo centrista com laivos de neoliberalismo do PS. Do MES à Refundação Comunista, passando pela Fraternidade Operária/UEDS de Lopes Cardoso. Sempre acabaram acomodados no velho PS centrista. E mais ou menos transformados em lenços avermelhados na lapela rosa socialista…

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economia, Política

Ter razão cedo de mais?

Agora que os “notáveis” já defendem a “reestruturação” da dívida pública, vale a pena ler o projeto de resolução apresentado pelo PCP no primeiro dia de funcionamento da Assembleia da República saída das eleições de junho de 2011 (20 de junho), no qual se defende a renegociação da dívida pública. Compare-se, depois, as mesmas propostas com as que os “notáveis” agora fazem…

Mais uma vez, é ter razão cedo de mais.

Ou não…

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Álvaro Cunhal, PCP, Política

Uma descoberta chocante!

IMG470Ao folhear a fotobiografia de Álvaro Cunhal, recentemente editada pelas Edições Avante, descubro uma foto em que aparece um tal de Mário Soares.

À luz das teses de Carlos Brito (o tal que não leu o livro) e Joaquim Vieira, tal só se poderá justificar por um relaxamento das práticas estalinistas, pela incapacidade de cortar a fotografia e reescrever a história à moda dos regimes de inspiração socialista.

O estalinismo do PCP já não é o que era…

E o que justificará este amolecimento do PCP?

Um desvio de direita, sabotagem de um grupo de dissidentes, um erro de edição com photoshop, medo do que iriam pensar os Britos e Vieiras deste país?

Precisa-se, urgentemente, de um pêcêpólogo (daqueles encartados) que esclareça!

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PCP, Política

E o prémio “eles comem criancinhas” vai para…

Das várias coisas que li a propósito da realização do XIX Congresso do PCP, pela sua cretinice, desonestidade, falsidade, mentira, preconceito, destaco as seguintes:

O PCP veste Prada e…Gucci! do inenarrável João Lemos Esteves

O(s) partido(s) dos funcionários do chamem-lhe o que quiserem Henrique Monteiro

Os partidos dos funcionários (II) do insuspeito do costume Daniel Oliveira

O fascismo de Álvaro Cunhal continua vivo do credível, sério e democrata Henrique Raposo

Todos eles a escreverem nos blogues do Expresso fica-se com a sensação de que poderiam ter disfarçado a encomenda e ter feito, ainda que de leve, qualquer referência às propostas e alternativas apresentadas no Congresso do PCP.

Limitam-se a mentir e destilar ódio, confirma-se que o PCP, apesar das certidões de óbito que lhe foram passadas, continua a incomodar muita gente, porque será?

 

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PCP, PCP, Política

Os valores de Abril no futuro de Portugal!

congpcpEste fim-de-semana, em Almada, decorre o XIX Congresso do PCP.

Para lá dos preconceitos, das frases feitas e das caricaturas, milhares de pessoas participaram na construção e realização do Congresso onde o que está em causa é a transformação radical da sociedade em que vivemos, a construção de uma alternativa patriótica e de esquerda, o fim do caminho de desastre a que o País está sujeito pelos Partidos da troika.

Pela profundidade da análise contida nos documentos em discussão, pela amplitude dos temas tratados, pela capacidade de analisar criticamente a realidade em que vivemos, acompanhar este Congresso é imprescindível para aqueles que defendem a ruptura com a política de direita e os seus protagonistas e a construção de uma alternativa.

Depois de tantas e tantas certidões de óbito passadas em seu nome, ainda cá está o PCP a resistir à ofensiva capitalista e à política de direita, ainda cá está o PCP como uma força social transformadora sem paralelo no nosso País, como o Partido da juventude, da classe operária e de todos os trabalhadores, como o Partido da superação do capitalismo e da construção de uma sociedade justa, livre e democrática, o socialismo e o comunismo.

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Política

Ter razão (muito) antes do tempo…

Ter razão antes do tempo equivale, normalmente, a sermos apelidados de catastrofistas, pessimistas ou coisas ainda piores.

Carlos Carvalhas, que foi secretário-geral do PCP, teve-a, de facto, muito antes do tempo, ainda que, na altura, o que dizia fosse perfeitamente previsível.

Eis o que disse Carvalhas sobre a moeda única:

«A moeda única é um projecto ao serviço de um directório de grandes  potências e de consolidação do poder das grandes transnacionais, na guerra com as transnacionais e as economias americanas e asiáticas, por uma nova divisão internacional do trabalho e pela partilha dos mercados mundiais.

A moeda única é um projecto político que conduzirá a choques e a pressões a favor da construção de uma Europa federal, ao congelamento de salários, à liquidação de direitos, ao desmantelamento da segurança social e à desresponsabilização   crescente das funções sociais do Estado.»

Disse-o em 1997, numa Interpelação do PCP sobre a Moeda Única.

Para quem diz que os comunistas são conservadores, repetem sempre a mesma cassete, estão presos a um modelo que faliu, as palavras de Carvalhas são a melhor lição. Pena é que não a aprendam…

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Política

Moção de censura? Sim. E depois?

A credibilidade e a capacidade política do governo Passos Coelho ficaram seriamente danificadas com a questão TSU. Representando um veredicto popular sobre as políticas da troika, a manifestação popular de 15 de Setembro (e certamente também a de 29) bem podem significar o principio do fim deste governo e desta maioria. E o que tem a Esquerda para oferecer ao povo?

Percebe-se que a capacidade de decisão de P. Coelho foi seriamente afectada e que o governo navega à vista, tendo interiorizado a imensa contestação que, “orgânica” ou “inorganicamente” alastra pelo país. Pressionado pelos agentes da troika e pelo povo em sentidos contrários, o governo dá mostras de desorientação.

Um governo está, por regra democrática, a prazo. E no actual contexto esse prazo pode vir a ser muito breve. Se a coligação PSD-CDS for apeada do poder, quem lhe pode suceder? Com a atual composição parlamentar só a reedição do bloco central PSD-PS reuniria uma maioria; ou como recurso um governo de inicial presidencial.

Mas a verdadeira questão é como se pode gerar uma verdadeira alternativa de políticas, susceptível de ser sufragada pela maioria dos portugueses.

O crescente afastamento dos portugueses face aos “políticos” e o desprestígio da vida partidária não abonam em favor de uma sociedade moderna e democrática. Mas demonstram também que não tem sido geradas alternativas suficientemente credíveis no interior do actual sistema político-partidário.

Apesar de as responsabilidades pelo actual estado de coisas ser claramente atribuível aos partidos do auto-designado “arco da governação” (PS, PDS e em menor medida o CDS), que se reveza na governação há mais de trinta anos, os políticos são todos “farinha do mesmo saco” para uma parte muito significativa dos portugueses.

Atenhamo-nos ao espectro partidário existente, já que não parece que estejam em vias de por aí surgirem novos protagonistas…

Os partidos

O PS. É o partido central do actual sistema político, oscilando entre a social-democracia e “terceira via” néo-liberal. Os trágicos resultados da anterior governação socialista irão pairar por muito tempo sobre o partido. É credível uma alternativa à Esquerda que inclua o PS? Se sim, como poderão os socialistas compatibilizar a aceitação do memorandum de entendimento, de que foram primeiros responsáveis, com o repúdio pelas medidas que ele implica e cujo fracasso está à vista? Como desatará a Direcção socialista este nó?

O PCP. Mais que nos votos, a influência do PCP mede-se nas organizações sociais e nos sindicatos. A sua área de poder é tradicionalmente o mundo autárquico. Desde 1976 nunca foi claramente perceptível qualquer aposta táctico-estratégica do PCP para aceder ao poder executivo. Está assim por perceber se o PCP está disponível para integrar uma solução de convergência com o(s) outro(s) partido(s) da esquerda parlamentar? Ou mesmo uma solução mais ampla e de mínimo denominador comum.

O BE. Parece assente que, com maiores ou menores oscilações nos resultados eleitorais, o Bloco assentou arraiais e o seu peso conta no xadrez político. Percebe-se no seu discurso uma vontade de aceder ao poder. A mudança de liderança em simultâneo com um novo modelo dual é uma fase crítica para este partido que ainda mantém diversas formações políticas no seu interior.

Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português não estão aparentemente afastados por muito. Votam conjuntamente no parlamento com frequência. Partilham, cada um na sua trincheira, muitas lutas. Mas há escolhos históricos por ultrapassar, aqueles que derivam ainda dos enfrentamentos entre o PCP e a extrema-esquerda nos primórdios do regime democrático.

Com as posições actuais a Esquerda está longe de se constituir como uma alternativa consistente e credível. Tem contra si um histórico de desentendimento, face a uma direita pragmaticamente coligável. Mas como o “caminho faz-se andando”, vejamos.

Uma plataforma comum

A relação com a troika é hoje central e incontornável.

É possível rejeitar o memorandum de entendimento com a troika e recuperar a soberania? Se o fizermos como se procederá ao financiamento do país? Como se honrarão os compromissos com os credores? Euro, sim ou não?

Qualquer alternativa de Esquerda que se perfile terá que responder, de forma credível e circunstanciada a estas perguntas. E reunir consenso nas respostas e soluções apresentadas. E estar disposta a traduzi-las num programa político e económico e numa coligação ou frente política que o suporte. E a arcar com o ónus de governar. Não havendo soluções de um só partido, poderão haver soluções de programa?

Se a Esquerda não o fizer continuará a ser vista pela maioria da população e do eleitorado como uma não-alternativa! E o rotativismo continuará a fazer o caminho por mais uns tempos.

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Política

Quero-te lá encontrar

Hoje, no momento em que Passos Coelho estiver a anunciar novas medidas de austeridade, prosseguindo o seu objectivo de destruir o País e tornar mais difícil a vida dos portugueses, estarei na Festa, na minha/nossa Festa.

A Festa é local de encontro de amigos, camaradas, vizinhos, colegas, familiares, é local onde todos nos encontramos com a música, a dança, o teatro, o cinema, a literatura, o debate, a gastronomia, o desporto, a fotografia, a pintura, a Festa é ponto de encontro entre o passado e o presente e destes com as sementes do futuro, lá encontra-se a esperança, a liberdade, a fraternidade, a militância, a alternativa,  o projecto de uma sociedade nova, lá encontra-se um povo que não se resigna e não tem medo de se insurgir contra a injustiça e a desigualdade.

Este fim-de-semana, é a partir da Festa que se dará resposta ao crime que está a ser cometido pelo governo e pelos senhores das abstenções violentas contra o País.

Porque a luta e a resistência também é feita de festa e alegria, de convívio e cultura, de sorrisos e abraços sinceros, quero-te lá encontrar, quero-te ver na Terra dos Sonhos, pois esta é a luta pelo direito à felicidade, uma luta onde todos contam.

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economia, Política

Ferreira Leite viu finalmente o óbvio

A antiga ministra das finanças e líder do PSD, Manuela Ferreira Leite (MFL), viu finalmente o óbvio. Compreendeu, até, o que os comunistas andam a dizer há mais de um ano, com uma diferença: os comunistas falam em renegociação da dívida, Ferreira Leite defende uma consolidação das contas públicas “mais lenta”.

Vale a pena comparar o que disse a ex-lider do PSD hoje em Setúbal, de acordo com uma notícia da Lusa reproduzida no “Expresso”, e o que disse o deputado do PCP Agostinho Lopes (AL) na Assembleia da República, no passado dia 1 de junho, no debate agendado pelo PCP para discutir a renegociação da dívida pública. Constata-se, no essencial, um alinhamento no discurso, apenas com o desfasamento de mais de um ano…

A ex-ministra social-democrata Manuela Ferreira Leite defendeu hoje, em Setúbal, que a consolidação das contas públicas devia ser feita de uma forma “mais lenta, mais pausada, para não se matar o doente com o tratamento”.

O que disse Agostinho Lopes

Há que travar este caminho. Há que criar um outro rumo, uma alternativa patriótica que rompa com o Memorando da Troika, uma alternativa de esquerda que rompa com as políticas do Pacto de Agressão.

Uma alternativa que, tal como fizemos em Abril de 2011 e hoje atualizamos, estabelece as orientações a usar pelo Governo para renegociar a dívida pública, determinando a sua origem, legitimidade e natureza, fixando um serviço de dívida compatível com as condições de crescimento da economia portuguesa que inclua adequados períodos de carência, prazos alargados de amortização e pagamentos anuais de juros indexados ao crescimento das nossas exportações.

“Do meu ponto de vista, há apenas uma saída que eles [a troika] deveriam considerar: era, sim senhor, este é o caminho, esta é a direção, esta é a receita, este é o tratamento, mas não tratamento de choque, um tratamento mais lento, mais pausado, para não matarmos o doente pelo tratamento, em vez de o deixarmos morrer pela doença”, disse.

O que disse Agostinho Lopes

Esta é uma constatação que não surpreende o PCP. Como a vida comprova, as políticas de empobrecimento da Troika estão a provocar a forte diminuição da atividade económica e uma queda das receitas fiscais e das contribuições, e o aumento das prestações sociais para fazer face à evolução dramática do desemprego. Esta espiral negativa está mais uma vez a conduzir ao disparar do défice orçamental, estimado em 7,4% no final do primeiro trimestre, 40% do valor total previsto para todo o ano, 2,9 p.p. acima do défice previsto pelo Governo para 2012 (4,5%)!

“Acho que vai ter que haver aqui uma solução que obviamente deverá ser considerada pela troika no sentido de não nos desmoronar completamente. Porque a taxa de desemprego significa que o sistema produtivo se está a desmoronar. Por isso não há capacidade de aumentar um determinado tipo de coisas”, acrescentou.

A ex-líder do PSD, que falava em Setúbal, no ciclo de conferências sobre “Consolidação, Crescimento e Coesão”, promovido pelo PSD em todo o país, considerou também que o memorando com a troika “estabeleceu determinado número de regras que não se adaptam à realidade do país”.

Segundo Manuela Ferreira Leite, a receita da troika para a consolidação das contas públicas portuguesas não teve em conta a estrutura produtiva do país, constituída essencialmente por pequenas e médias empresas que, muitas delas, poderão não sobreviver às dificuldades económicas que estão a enfrentar.

O que disse Agostinho Lopes

Um ano depois o País está bem pior e, como então tínhamos avisado, nem mesmo a dívida pública desceu, bem pelo contrário. Em 2011 pagamos mais de 6200 milhões de euros de juros e encargos, com uma taxa média superior à de 2010 (4,1%). Apesar disso, a dívida pública continuou sempre a aumentar, subiu para 184 mil milhões, mais 23 mil milhões de euros que em 2010.

“Nós para recuperarmos a credibilidade evidentemente que temos que o cumprir [o acordo com a troika], mas isso não impede de considerar que a troika estabeleceu determinado tipo de regras que nem sempre se adaptam ao nosso país, nem se poderiam adaptar na medida em que a receita que utiliza para os diferentes países é mais ou menos sempre a mesma”, argumentou.

O que disse Agostinho Lopes

Ao contrário do que PS, PSD e CDS insinuaram há um ano, a dívida pública não está nem vai diminuir. Pelo contrário, vai continuar a aumentar. Em 2014, o País vai pagar 8300 milhões de euros de juros e encargos para que a dívida suba para um valor de 200 mil milhões de euros. É o próprio Governo quem o diz!

“A troika quando analisou o nosso país, não tomou em consideração a nossa estrutura produtiva e social. É extremamente difícil pensarmos que estas consequências não teriam efeitos arrasadores em termos de crescimento económico”, acrescentou.

O que disse Agostinho Lopes

O País soube ontem que a queda na receita dos impostos indiretos totais foi muito maior do que o Governo admitira na execução orçamental de Abril. Afinal, os impostos indiretos não caíram só 3,5%; caíram 6,8%! A receita não caiu só 233 milhões de euros! Caiu 472 milhões, o dobro do que o Governo dissera.
Pior: estima-se já um previsível descalabro na execução orçamental.

Manuela Ferreira Leite salientou também a “especificidade” do tecido social português, onde só a classe média e média baixa paga impostos.

 A antiga ministra das Finanças explicou que uma grande parte da população portuguesa não paga impostos, porque não tem rendimentos que o justifiquem, e que há uma outra parte com rendimentos elevados, mas que são poucos, pelo que só a classe média e média baixa é que pagam impostos.

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Política

A esquerda de Mário Soares

Será que Mário Soares, quando escreve que para ele é “claro que a Esquerda é hoje diferente do passado” e que “precisamos de voltar aos nossos valores [os da esquerda], sem perder de vista as novas carências sociais e políticas de uma sociedade em rapidíssima mudança“, tal declaração equivale a um reconhecimento de que o PS, assim como outros partidos socialistas europeus, se desviaram de tal forma dos “valores” de esquerda que se transformaram em formações partidárias irreconhecíveis que apenas tentam abocanhar a maior fatia que conseguirem do  grande centrão político em que todas se tentaram misturar?

Ia embalado na leitura do artigo de Soares de hoje no Diário de Notícias já  com esta questão na cabeça, para a qual sabia a resposta, e logo aparece o fundador do PS a afirmar que o “Socialismo Democrático, devemos reconhecê-lo, nos anos sombrios de Bush, embarcou no economicismo da “terceira via” defendido por Tony Blair“. A seguir, Soares dá uma sova no que agora se chama a “esquerda radical” (designação que se tornou mais frequente com o rescaldo das eleições gregas), e que, aliás é uma curiosa definição da esquerda quando aplicada no caso português, ou melhor, daqueles que não abandonaram nunca os valores de esquerda no nosso país e sempre os defenderam e, por isso, acabam com a designação, julgo que algo depreciativa na boca de quem a usa, de “radicais”. Uma distinção que apenas visa distinguir a esquerda boa, supostamente a do PS, da esquerda má, a dos comunistas e bloquistas, naturalmente para criar uma nova narrativa de bons e maus, de claro e escuro, do que é a “esquerda democrática”, aquela que, afinal, Soares agora reconhece ser a culpada do estado a que chegámos.

Se assim não fosse, Mário Soares não teria necessidade de afirmar que é necessária uma “refundação socialista” que volte “aos seus valores de sempre” (sempre esquecidos uma vez no poder), que seja “capaz de dialogar em permanência com o movimento sindical, no seu conjunto, com os verdes, tão dispersos e estranhos aos partidos, e adaptar-se às novas realidades do mundo de hoje, para poder sair da crise institucional, social, económica e política, carente de valores e de dirigentes capazes“.  Mais interessante ainda é o recado que Soares envia, sem destinatário identificado, mas que não custa a adivinhar, no qual refere “militantes nacionais” que “algumas vezes se enganaram de partido, faltando-lhes a sensibilidade social e a vontade política para diminuir as desigualdades, entre as pessoas e os Estados e, acima de tudo, conservando sociedades de bem-estar“.

Escreve o ex-presidente que em Portugal, por exemplo, “sempre tivemos, além do socialismo democrático, partidos da Esquerda radical, comunista, mais fechada hoje do que nos tempos de Cunhal (que tinha uma grande flexibilidade tática) e a Esquerda bloquista que ficou, eleitoralmente, entalada ente os partidos comunista e socialista. Mas afirmou-se ainda a Esquerda não partidária, cidadã e a Esquerda dos “indignados”, com laivos anarco-populistas“. Não deixa de ser curioso ouvir Soares a falar, em oposição às práticas da actual direcção do PCP, da “flexibilidade tática” de Cunhal, certamente em tempos e conjunturas absolutamente distintas, e não ser capaz de uma condenação mais eficaz, que não apenas um mero “reconhecimento” do que foi o erro “economicista” da terceira via detectado há muito pela tal “esquerda radical”…

Soares está assustado perante a possibilidade de o PS continuar a perder boa parte da sua influência eleitoral e clama já pelo ruptura com a troyka, reivindicando a necessidade de o partido regressar aos valores que ele diz de esquerda. Por isso aposta já na criação de uma linha entre o que designa, com letra grande, aliás, por Socialismo Democrático e esquerda radical para assustar os mais impressionáveis. Soares sempre viu mais longe que os outros e, perante as vozes crescentes que defendem convergências na esquerda “radical”, ensaia um exercício de triangulação política, que foi, aliás, muito bem executado por François Hollande, no qual tenta apoderar-se dos valores de esquerda que, a acreditar nele, sempre residiram no PS.

Soares, como sempre, é sibilino e não desilude. Sabe muito, mas engana cada vez menos. É que muitos já perceberam que o PS, com Soares à cabeça, padece de um grave problema de dupla personalidade que faz com que pratique no poder o contrário do que afirma quando na oposição.

A esperança, sejamos claros, é que o PCP, como grande e verdadeiro partido de esquerda que é (deixemos o “radical” de lado) seja capaz de caminhar no sentido da construção de plataformas de acção política e, quem sabe, eleitorais, com o Bloco de Esquerda e outros “democratas e patriotas”, para utilizar a expressão incluída no documento preparatório do próximo congresso do PCP, para que se constitua uma força verdadeiramente capaz de influenciar o rumo das políticas do país.

Esta é a discussão que se impõe.

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Cultura, Política

A Morte saiu à Rua

Aos 38 anos, José Dias Coelho é assassinado a tiro na rua que ,depois do 25 Abril, receberá o seu nome.

Cinquenta nos depois, na mesma calçada em que caiu vitima de dois tiros dados à queima roupa por uma brigada da PIDE chefiada por José Gonçalves, vai realizar-se, às 17.45, uma homenagem a José Dias Coelho. Às 18.30, dá-se a sessão evocativa na Junta de Freguesia de Alcântara com a presença de jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP.

Lembrar quem deu a vida por uma sociedade livre de exploração e opressão, é lembrá-lo e com ele lembrar todos os que lutaram contra o fascismo. É lembrar todos os crimes do regime fascista, que depois da Revolução de Abril ficaram impunes ou foram escandalosamente condenados a penas ligeiríssimas.

Lembrar José Dias Coelho é lembrar toda uma vida de combate e a história de combate, de ontem e hoje, por uma sociedade sem explorados do seu partido, o Partido Comunista Português.

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