Setúbal

Os matraquilhos da Taberna do Luciano

 

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Antiga Taberna do Luciano, na Rua Ladislau Parreira. Foto de Maurício Abreu.

Descobri há dias esta foto a circular nas redes sociais setubalenses. A única coisa que tem de interessante é retratar um tempo que foi o da minha infância, com os personagens que subitamente recordamos daqueles tempos das nossas vidas em que tudo parecia possível. Era o tempo em que, vindos da escola, parávamos para, ainda antes do almoço que as mães tinham já na mesa, jogar ruidosamente aos matraquilhos que estão no meio do estabelecimento de venda de tinto e branco a copo. Dez tostões, dez bolas, dois para dois e muita risota com a azelhice dos parceiros e adversários de ocasião. Os jogos prolongavam-se até se esgotarem os dez tostões que sobravam nos bolsos, ou porque não tínhamos comido a sandes na escola ou porque tínhamos poupado no bilhete da camioneta da carreira. Sempre era uma forma de adiar a pescada cozida com brócolos que as nossas mães, estranhamente, naqueles tempos tanto gostavam de cozinhar…

Era assim num tempo em que os miúdos entravam em tabernas, mas não as frequentavam. Este era um dos pretextos que nos permitia lá entrar. O outro era ir ao vinho para o almoço, tarefa reservada aos rapazes. Aquele era o reino masculino onde alguns dos membros mais agressivos da espécie ditavam todas as regras ou mesmo a ausência de lei. Já bastava que lá em casa elas mandassem e todos quisessem pensar que nelas mandavam eles. A taberna não era, por isso, o sítio mais adequado para raparigas. Isso era coisa apenas para as mulheres já adultas que nem sempre estavam dispostas a deixar o marido a fermentar na mesa onde, isolado, se destacava o mesmo copo repetidamente esvaziado.

Na rua da Taberna do Luciano – o taberneiro que, de cotovelos no balcão sorri para foto, acompanhado pelo filho, o jovem que se encontra entre o naipe de velhos tabernistas que posam sérios e compenetrados – conviviam a frutaria, a leitaria, a mercearia do César, a regataria da Elvira, mais à frente a mercearia do Botão (acho…), o relojoeiro, o carvoeiro, a loja de roupa, o estofador, o electricista e vendedor de eletrodomésticos e ainda uma panificação com alguma importância. Era a Rua Ladislau Parreira, que, com a Vasco da Gama e o Largo da Fonte Nova, eram o centro comercial do bairro de Tróino. Havia também a papelaria, a Drogaria, o fotógrafo, o Hugo Alfaiate na Vasco da Gama, a retrosaria, a farmácia e o funileiro. E havia as tabernas. Com a do Luciano eram para cima de cinco, e sempre com clientela.

Era o meu bairro.

Naquelas ruas crescíamos a jogar ao pião, íamos onde bem queríamos, gozávamos com o Evaristo da mercearia, homónimo do outro do filme de Francisco Ribeiro onde uns gozões enervavam o merceeiro Evaristo, encarnado pelo ator António Silva, perguntando-lhe se “tens cá disto”, com a diferença de o nosso Evaristo não se zangar tanto.

Juntávamo-nos num grupinho sentado horas a fio no pial da porta da churrasqueira da Rua Paulino de Oliveira e descobríamos, depois do pião, dos matrecos, do bugalho, do jogo da carica e do prego que, afinal, as miúdas tinham piada. Eram giras e atraíam. Como sempre, alguns sabiam falar com elas e outros nem sequer se atreviam a olhá-las. A Zubaida, morena pequena, despertava paixões em quase todos. Miúda, mas já vivaça como todas as miúdas, sabia alimentar e manter em suspenso os egos de quem lhe interessava e despachar o resto dos basbaques que descobriam nela possibilidades nunca antes imaginadas, embora ela já as tivesse descoberto todas. Depois, havia a Joaquina da Rua do Ligeiro. A Joaquina atrevida e generosa. Com ela, as possibilidades imaginadas por muitos tornaram-se mesmo realidade. Devíamos homenageá-la…

As tragédias caíam em cima de nós como bombas. Aconteceu quando morreu a mãe do Guerra, ainda antes de ter cinquenta anos, com doença que nenhum de nós compreendia. Voltou a acontecer quando o Canina, a fazer de guarda redes, voou para apanhar bola mais distante e morreu com a cabeça esmagada contra a trave (ou terá sido a baliza que lhe caiu em cima? Aqui falta-me a memória…). A viagem na camioneta alugada para o funeral, coisa frequente naqueles tempos, foi uma mistura de tristeza e de alegria pelo convívio que o Canina, na hora da despedida, nos ofereceu. Ele que era um miúdo malandreco havia de ter gostado de ir ali com a Zubaida e a Joaquina…

E havia o Sebastião, amigo que, na última vez que o vi, toldado pelos fumos ou pelos ácidos, ou por tudo ao mesmo tempo, já nem me reconheceu. Apenas queria uma moeda. Na moeda que me pediu vi que a infância dele foi, afinal, diferente da minha, embora partilhássemos o mesmo pial, os mesmos jogos e as mesmas piadas. O Sebastião foi para o mar, como foram todos os homens da sua família. Ainda que soubesse evitar o vento que o podia empurrar para fora da barra, perdeu o Norte para sempre.

Lembro-me dos jogos com ele e com o Saraiva, amigo do peito a quem se perde para sempre o rasto, na Taberna do Luciano, naqueles matrecos que, uma vez por mês, recebiam a visita de um especialista em lubrificações que faziam deslizar as traves dos bonecos do Sporting e do Benfica como deslizam os peixes na água. Não havia matrecos como aqueles. Aqueles homens que pareciam já ter nascido na Taberna do Luciano nem sequer nos viam e muito menos ouviam. Nem nós sabíamos do que falavam eles, se é que falavam. Para quê? Bastavam-nos dez tostões para dez bolas e os golos marcados na baliza do outro lado, disparados mesmo cá do fundo pelo guarda redes em acelerada roleta, o único jogador a quem, pelas regras que alguém inventou numa qualquer taberna, era permitido rolar sobre si mesmo a muitas rotações por minuto, disparando a bola a velocidades estonteantes. Quando entrava na outra baliza, a gritaria que se seguia talvez, e só nesse caso, podia fazer com que aqueles homens reparassem em nós. Nunca consegui perceber se alguma vez aconteceu. Mas tenho a certeza de que, naquela indiferença de quem apenas olha para os companheiros de taberna pelo vidro fosco do copo, todos sabiam que eu era filho do Batista e que o Sebastião e o Saraiva eram filhos de outros que eles conheciam e até talvez se cruzassem com eles na taberna.

Só muito mais tarde percebi por que se sentavam horas a fio na taberna a colecionar copos nas mesas de mármore guarnecidas com aqueles bancos com furo no meio do assento para meter o dedo e transportar de um lado para o outro. Tinham sido derrubados pela pobreza, a própria e a alheia. Trabalharam desde que, como eu, iam também à taberna de qualquer outro Luciano jogar matraquilhos e rir com os amigos. Agora, depois de uma eternidade a trabalhar, fosse na pesca fosse noutro qualquer trabalho com salário de miséria, faltava-lhes o sorriso e a paciência para os matrecos e sobrava-lhes a vontade de beber tintos e brancos, conscientes de que a espiral de pobreza em que sempre viveram não lhes permitiu ir mais longe, como sonharam naquela idade em que tudo parecia possível. Restava-lhes o consolo do copo de tinto e de poderem ignorar os miúdos que enfiavam moedas de dez tostões na ranhura dos matrecos estacionados no centro da taberna.

Na verdade, para eles aquela taberna não tinha centro. Tinha apenas recantos escuros, onde cada um permanecia escondido na própria sombra e nas trevas da velha casa da Ladislau Parreira.

Os nomes usados nesta história são fictícios, à exceção de Luciano, o dono da taberna. 

Já depois de publicado este texto aqui, o designer José Teófilo Duarte recordou-me que esta foto foi tirada pelo fotógrafo setubalense Maurício de Abreu para integrar uma publicação desenhada pelo José Teófilo sobre tabernas de Setúbal.

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