Geral

No meio da Festa

XIX BIENAL

Este ano a Bienal da Festa do Avante! Realizou a sua décima nona edição. Da primeira, realizada no Jamor, a esta na Atalaia, a Bienal tem variado no tipo de participação na base de um formato que, no essencial, se tem mantido com participação aberta e artistas convidados. A diferença entre a primeira e a XIX, está na selecção por júri dos participantes. Uma inovação que, salvo erro, foi introduzida na terceira Bienal. Com o decorrer do tempo uma nova secção passou a integrar as bienais, a de atribuir um dos seus espaços a uma disciplina específica das artes. A primeira foi preenchida por jovens escultores da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, a deste ano pela Arte Urbana.

A grande diferença entre a Bienal da Festa do Avante! e as bienais de artes que se realizam por todo o mundo é a da Festa do Avante! se excluir da órbita do capitalismo cultural, em que as bienais, feiras de arte e variantes se inscrevem, que é dominado pelos museus, galerias, onde as cotações das obras de arte e dos artistas são determinadas, posteriormente afinadas nos leilões. Revistas de arte de referência, a maior parte propriedade desses agentes do mercado, fazem anualmente listas dos quinhentos artistas mais cotados e das cem pessosa mais influentes no mundo das artes. Refira-se que nos últimos anos alguns portugueses têm figurado nessas listas. Na primeira lá se encontra Joana Vasconcelos, na segunda já lá esteve o comendador Berardo, o que diz muito e quase dispensa comentários. Esse sistema, em tudo semelhante ao sistema bancário, colocou o mercado das artes num nicho do mercado de artigos de luxo. Os espaços dos museus e galerias são espaços com uma aura de sacralidade onde as obras se tornam intemporais. Uma aura que O’Doherthy, artista e teórico, comparou ao das igrejas medievais e que vale dinheiro. A Bienal da Festa do Avante! tem tudo o que as outras bienais têm, menos o ser um espaço com essas características. Vai ao encontro das pessoas, muitas delas, provavelmente a maioria, não são ou não eram frequentadores habituais de galerias. Isso altera não as obras de arte, mas a visão das obras de arte. A mesma obra de arte que já esteve exposta numa galeria é outra obra de arte quando é exposta na Bienal da Festa do Avante!

A surpresa que constituiu a realização da I Bienal diluiu-se com o tempo. Nos dias de hoje os visitantes da Festa do Avante! sentiriam a sua ausência. Numa Festa que todos os anos não é sempre a mesma, que se renova e rejuvenesce sem fadiga, a Bienal deve corresponder a essa legítima expectativa, o que tem procurado fazer nas suas sucessivas edições. A próxima, a vigésima, tem a obrigação de ser um salto qualitativo, como é usual nos números redondos dos calendários.

Este ano a Bienal acolheu o que se designa universalmente por Arte Urbana. Aparentemente uma contradição porque a Festa do Avante! sempre foi uma grande e variada mostra de arte urbana na multiplicidade dos seus espaços, em que a imaginação se solta para os animar visualmente. Devem ser lembrados os grandes paineis, realizados por artistas, dos mais destacados no nosso panorama artístico, que iluminaram a Festa na Ajuda. Anos atrás, na Atalaia, quando se homenageou Malangatana, foi exposto um grande painel por ele pintado expressamente para a Festa do Avante! São ainda de recordar os paineis pintados por Rogério Ribeiro que, além de durante muitos anos deixar o seu risco sempre inovador em todo o recinto da Festa, os pintou com a genialidade que transparece em toda a sua obra.

Hoje a Arte Urbana entrou no léxico universal depois de muitos anos ser olhada de lado pelo sistema artístico. Artistas como o britânico Bansky ou o português Vhils têm obra espalhada pelo mundo. São solicitados para realizarem intervenções nas mais distantes cidades. São objecto de exposições em galerias e museus. Têm estilos que os fazem reconhecer rapidamente, com a facilidade com que reconhecemos Goya ou Vieira da Silva. Depois de muitos anos em que os grafitis, os precursores da Arte Urbana, serem considerados transgressores e perseguidos, os poderes instituidos perceberam que a Arte Urbana enriquecia cultural e artisticamente os seus espaços, as paredes degradadas das suas cidades. Começaram a usá-los para os ornamentarem e taparem feridas. Os artistas que praticam Arte Urbana ultrapassaram essa função ornamental, criando verdadeiras obras de arte.

Portugal sempre foi um espaço particular na ocupação das paredes degradadas. Há que lembrar os murais que invadiram o país no pós 25 de Abril em que, por vias muito diferentes, se distinguiram os murais do PCP e do MRPP, as forças mais activas e criativas. O PCP pela convocação de artistas seus militantes ou ideologicamente próximos que pintavam colectivamente os murais. O MRPP, na base de um trabalho prévio de desenho depois transposto para as paredes por grupos especializados. Na altura, essa actividade causou escandalo na Europa reaccionária que via nos murais um sinal da “anarquia” provocada pela Revolução de Abril. Outros tempos. Como outros tempos são os de hoje em que na mesma cidade, Lisboa, que se orgulha e exibe pelo mundo a sua galeria de Arte Urbana, se incentiva essa actividade e se prendem, identificam e humilham jovens da JCP que pintam murais com mensagens políticas. A Arte Urbana também é usada para domesticar as paredes.

A inclusão da Arte Urbana na Bienal da Festa do Avante! traduz o reconhecimento dessa realidade e as obras que foram produzidas em directo, antes e durante a Festa, são uma radiografia não só do que ela é mas do que ela está a ser. A diversidade das obras representa bem os novos caminhos que os artistas que se dedicam, com êxito, a essa nova categoria artística estão a explorar. De como se estão a libertar de um processo conceptual originariamente muito ligado à banda desenhada e à arte pop. Depois desta primeira intervenção é bastante provável, mesmo desejável, que a Arte Urbana adquira outra expressão no contexto geral da Festa.

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