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UM Buraco Negro na Informação

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As caixas negras do avião da Malaysian Airways abatido na Ucrânia, entregues pelos separatistas pró-russos de Donetsk às autoridades malaios, que estes verificaram estar em bom estado, ainda estão por decifrar por peritos num laboratório especializado sediado em Londres.
O que será tão difícil de interpretar?
Em Washington, depois da retórica de Obama cujas provas foram mais sanções económicas à Rússia, começa a ouvir-se falar de “um erro/acidente trágico“.O que quererá isto dizer?
Entretanto a informação sobre o voo MH17 da Malaysia Airways, abatido sobre a Ucrânia está a entrar num buraco negro.
Saber-se-á, um dia, a verdade? Depois de tantas certezas sem provas, alguém a reconhecerá contra si?
Recorde-se o resultado de um recente inquérito independente da ONU na Síria. Depois de todo o ocidente acusar a Síria de ataques com armas químicas, o que a Síria negava, os peritos da ONU concluíram que tinha havido ataques com armas químicas mas não podiam concluir quem tinham sido os seus autores. Um monumento de cinismo. Talvez acabe assim o inquérito ao abate do avião comercial malaio.

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Ucrânia: Vem aí uma grande guerra?

http://www.dailymail.co.uk/news/article-2677613/American-military-advisers-masterminding-Ukraines-surge-against-pro-Russian-separatists-bid-expand-Nato-east.html

Pode o conflito ucraniano arrastar a Europa para uma guerra? A pergunta está a deixar de ser retórica. Assiste-se a um crescendo assustador – centenas de milhar de pessoas deslocadas, operações militares em larga escala com destruição de vidas e bens, o dramático abate de um avião civil e agora uma escalada internacional de sanções e contra-sanções. E um horizonte onde pode caber um enfrentamento entre a Ucrânia, a OTAN e a Rússia. Pede-se bom senso!

Recapitulemos.

A mudança de regime na Ucrânia, forçada a partir das ruas de Kiev em Fevereiro, instalou no poder novos protagonistas, particularmente anti-Rússia. O frágil equilíbrio géo-estratégico de um país tão historicamente ligado à Rússia ficou em perigo, com os novos governantes ucranianos a alimentarem um ambiente desconfiança face à Rússia, que rapidamente gerou respostas do lado russo.

O risco acentuou-se com a secessão do território russófono da Crimeia e a sua adesão à Federação Russa. Os episódios de desconfiança sucederam-se e ampliaram-se a ponto de degenerarem numa guerra de secessão em algumas regiões do leste do país (Donbass), cada vez mais mortífera e sem fim à vista. Ucranianos russofonos do leste, com o apoio mais ou menos explícito do governo de Moscovo, responderam assim ao novo poder de Kiev.

Em rota de colisão

E dois países irmãos, ou com uma longa história comum, Federação Russa e a Ucrânia, entraram numa perigosíssima rota de colisão em que vários limites foram já ultrapassados. Com recurso a “obuses” comerciais e financeiros cada vez mais “pesados”, num processo iniciado com a guerra do gás (preços, dividas, desvios, etc.) e agora com uma escalada de sanções e contra-sanções que envolve um numeroso grupo de países e que certamente se refletirá nas respetivas economias.

É desde o início da crise ucraniana claro que o principal objetivo do bloco EUA/OTAN, com a UE de arrasto, é retirar a Ucrânia da área de influência russa e dos seus planos de uma comunidade euro-asiática. Processo que encontra agora na secessão do leste ucraniano um momento decisivo mas de alto risco para todas as partes.

A solução que porventura mais interessaria à Rússia seria a de federalização das regiões russófonas do leste no âmbito da Ucrânia, mas com uma ampla autonomia face a Kiev. Também poderia ser uma solução aceitável para o governo ucraniano. Só que, com o agravar do conflito e o extremar de posições, esta solução parece estar a ficar cada vez mais distante.

A OTAN tem tornado públicos sinais de apoio ao governo ucraniano, que são mais um forte estímulo à subida de temperatura do conflito. E que podem facilmente tornar o país (e não só) no palco de uma guerra bem mais abrangente, com intervenção direta da Federação Russa. E que fará então a NATO? Enviará as suas tropas para o terreno? Enviará a aviação e os misseis contra “alvos seletivos” russos? Ou ficará paralisada enredada nas contradições entre os seus membros, como já se viu no conflito da Ossétia do Sul (Georgia) em 2008.

A Ucrânia não é membro de OTAN, apesar de todas as declarações de simpatia pelos novos governantes ucranianos. Estará a OTAN a “esticar a corda” com a Rússia, empurrando a Ucrânia para a opção militar e inviabilizando uma solução negociada? Loucos são aqueles que anseiam por ver iniciada uma guerra com Rússia.

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Um novo mapa da Europa?

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Com a Crimeia a caminho da integração de facto na Rússia, está agora claro que o mapa da Europa está a mudar. O detonador mais recente e porventura mais perigoso foi o da mudança de regime operada a partir das ruas de Kiev, Ucrânia. Mas a porta já tinha sido aberta pela independência do Kosovo (da Sérvia) e o estilhaçar da Federação Jugoslava, patrocinados e forçados pelos poderes ocidentais. Resta-nos esperar pelos próximos episódios.

Há um traço comum naqueles episódios. Contradições internas no bloco de leste foram amplamente rentabilizadas pelos poderes ocidentais, sempre desejosos de enfraquecer a Rússia e tudo fazendo para lhe subtrair as áreas de influência estabilizadas após a Segunda Guerra Mundial. Quando a pressão política e económica não chegou, as forças da NATO encarregaram-se de bombardear Belgrado… uma capital europeia.

Depois da Guerra Fria, a Guerra Fria…

A Guerra Fria tinha terminado com a rubrica de M. Gorbatchov, o lider soviético a quem tinha fugido o controlo do processo de perestroika na URSS. O pacto de Varsóvia tinha-se esfumado e os países que compunham a União Soviética tinham declarado as suas independências. Mas todos continuaram a raciocinar na velha lógica dos tempos da guerra fria, isto é, Rússia igual a comunismo, logo a tudo fazer para a desestabilizar.

Ao fim da União Soviética sucederam-se os anos do enfraquecimento, do desprestígio e mesmo da humilhação russa personalizados pela presidencia de B. Yeltsin. O desmantalemanto da União deixou numerosas populações russas ou russófonas e de outras nacionalidades em “lugares errados”. São os casos dos arménios de Nagorno-Karabakh no interior do Azerbaijão, ou dos russos espalhados por quase todas as ex-repúblicas soviéticas, do Báltico ao Mar Negro passando pelo Caucaso e pela Ásia central. Com situações explosivas, como as da Ossétia do Sul e da Abecásia (na Geórgia) ou a Transnístria (na Moldova). Mas também de povos do Caucaso forçados a permanecer na Federação, como é o caso dos chechenos.

Nos últimos anos e como resultado do processo de concentração de poder operado por V. Putin, apoiado numa certa recuperação económica, a Rússia ultrapassou os anos negros que ditaram o encolhimento da sua importância geoestratégica. À aproximação das fronteiras da NATO, ou perante a sua ameaça, a Rússia respondeu logo em 2008 com a invasão de territórios com importantes concentrações de população russa na Geórgia. Estava então sinalizada a inversão da estratégia russa.

Uma mudança qualitativa

O que agora se passa na relação entre a Rússia e a Ucrânia é de grande magnitude para o equilibrio na Europa. É um facto que a Rússia não pode prescindir da Crimeia – onde se situa desde o século XVIII uma das suas mais importantes bases navais, que lhe permite aceder ao Meditarrâneo. Como é um facto que a maioria da sua população é russófona.

Mas também é um facto que há uma relação histórica muito próxima entre Rússia e Ucrânia. São povos próximos, que partilharam uma história comum que não começou nos tempos soviéticos mas séculos antes. Como concilia-la com um novo poder ucraniano que logo nos seus primeiros dias fez questão de assustar os falantes de russo do país?

Se a Crimeia vier a integrar a Federação Russa – como tudo indica – como ficará a relação e a ligação entre russos e ucranianos? Ganhará a Rússia a Crimeia mas perderá a ligação privilegiada à Ucrânia? E como resistirá a unidade nacional ucraniana às tensões libertadas por nacionalismos radicais ou assustados nos dois (ou três) lados presentes? E como não lembrar aqui a Polónia, potencia desejosa de evocar o seu papel histórico na região?

O Império contra ataca

Pode o poder instalado em Kiev dar-se ao luxo de ser anti-russo ou sequer de não manter boas relações com a Federação Russa? A que preço? O que está em jogo é demasiado para não serem tentadas soluções. Dos interesses económicos – basta olhar para as linhas de transporte de gás que atravessam o país – às ligações históricas entre ambos os povos.

Os riscos são muitos e um dos mais sérios pode ser a própria desagregação do Estado ucraniano – estimulada do exterior, a partir da Rússia (e a Polónia? ), a manter-se a presente conflitualidade, mas também do interior, nomeadamente nas zonas orientais e de maior infuência russófona.

Vendo a sua área de influência significativamente diminuída após o final da URSS, assistiu-se nos últimos anos à tentativa russa de reequilibro. Com o patrocínio das separações da Ossétia do Sul e da Abcasia e agora da Crimeia. Regiões onde há sempre significativas populações russas. O novo poder russo visa agora recuperar a influência e o prestigio perdidos

Sete décadas após a última grande reformulação geo-estratégia da Europa, acumulam-se as situações “pendentes”, numerosas na metade leste do continente, mas também presentes no lado ocidental – Escócia, Flandres, País Basco ou Catalunha.

O ténue equilíbrio que havia na Ucrânia, e de certo modo na Europa oriental, foi rompido … E agora?

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Ucrânia: o regresso da história

A crise ucraniana vem demonstrar que a história regressa sempre para lembrar o passado. Atente-se no mapa da Ucrânia: sensivelmente três quartos da sua fronteira, no norte e leste, separam o país da Bielorússia e Rússia, enquanto a parte menor a divide, a ocidente, da Polónia, Eslováquia, Hungria, Roménia e Moldávia.

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É pelo interior do território ucraniano que trespassam agora as velhas linhas de fractura herdadas dos tempos, não só da guerra fria, como da própria história mais ancestral do país. Linhas de fractura que se deslocaram para leste após a desagregação do bloco do socialismo real reunido no pacto de Varsóvia. É que os antigos aliados da URSS que partilham a fronteira ocidental da Ucrânia fazem agora parte, com exceção da Moldávia, do bloco NATO.

A história da Ucrânia, nascida a partir do principado de Kiev (seculos IX-XI), é rica, complexa e recheada de mudanças nos seus limites fronteiriços e nas configurações nacionais e plurinacionais em que se tem integrado ao longo dos séculos. Bem ao contrário da história territorial portuguesa na península!

A experiência soviética foi apenas a última aventura ucraniana antes da independência de 1991. Antes sucedera-se um prolongado domínio polaco e uma partilha complexa entre os impérios austríaco e russo (final do século XVIII), também aqui com o território ucraniano a ser dividido entre ocidente (Galicia, Ucrânia ocidental) para uns e o restante para russos. Mas sempre com afloramentos nacionais ucranianos. Nas vésperas da Ucrânia soviética (1919), entre 1917 e 1920, diversos Estados ucranianos declararam-se independentes…

Com a vitória da URSS na segunda guerra mundial novos territórios a ocidente, anteriormente integrados na Polónia, Checoslováquia e Roménia, viriam a ser incorporados na Ucrânia soviética. Enquanto outras áreas no leste viriam a sê-lo na sua congénere russa.

A implosão da União Soviética mostrou uma nova configuração territorial. Em que avulta a inclusão da estratégica península da Crimeia, agora uma república autónoma ucraniana, mas que foi russa até 1954. E que continua a manter ainda hoje uma importante base naval russa, sede da frota do Mar Negro. E é também nas margens de território ucraniano que se situa a (não reconhecida internacionalmente) república de maioria russa da Transnístria, Pridnestróvia para os russos, oficialmente território da Moldávia mas ucraniana até 1940.

A presença e influência cultural russa parecem indiscutíveis. “O russo é amplamente falado, em especial no leste e no sul do país. Segundo o censo (2001), 67,5% da população declararam falar o ucraniano como língua materna, contra 29,6% que falam o russo como primeira língua. Algumas pessoas usam uma mistura dos dois idiomas, enquanto que outras, embora declarem ter o ucraniano como língua materna, usam o russo correntemente” pode ler-se na popular Wikipedia. O que bem demonstra a lógica de miscigenação, própria de territórios que integraram grandes impérios! Não é impunemente que russos e ucranianos cruzam os seus destinos há séculos.

Ocidente e leste

Chegados à independência pós soviética de 1991, rapidamente se soltaram as tensões em que se parece dividir o país. Alternadamente e por via eleitoral sucederam-se no topo do poder, nos últimos anos, representantes das duas correntes. Viktor Yanukovytch, o “pró-russo” que até há pouco aproximara o país da UE, ganhou as últimas eleições presidenciais (2010) contra Y. Timochenko (agora encarcerada após um muito polémico julgamento) e sucedeu a Viktor Yushchenko, o “pró-ocidental”.

As recentes aproximações do presidente ucraniano à Rússia concitaram a reação de alguns sectores políticos do país, com óbvio apoio popular. Mas perante um país carente de recursos energéticos e que se confronta com graves problemas económicos, o poder russo jogou uma importante cartada – a proposta de acordos para a venda de gás a preços mais baixos e o financiamento da economia ucraniana. E o que tinha a UE para oferecer? Pouco mais que a promessa de uma associação, acompanhada de pedidos de “reformas estruturais”, leia-se, privatizações de importantes sectores!

A opção pró russa concitou protestos. Mas até aí tudo o que se passava nas ruas se compreendia. Manifestações e protestos. Com reações mais ou menos brutais de polícias pouco civilistas. (Um à parte: onde é já que já vimos isto? Seria diferente se fosse em frente aos nossos palácios de Belém ou de São Bento?).

Soprando a contestação assistiu-se à mais completa e despudorada ingerência pública. Diplomatas e outras figuras políticas europeias e americanas de maior ou menor recorte a agir em plena luz do dia, apoiando o sector contestatário, participando em comícios e dando entrevistas no centro de Kiev para as televisões.

Da União Europeia, vizinha da Ucrânia, esperar-se-ia mais bom senso. O gigante económico revela-se mais uma vez um anão político, cuja principal preocupação tem sido a de subtrair a Ucrânia ao bloco comercial e de união aduaneira que a Rússia procura desenvolver com diversos países da antiga União Soviética. Mas com muito pouco para oferecer aos ucranianos.

Com um conflito descontrolado e as pontes entre as partes cada vez mais frágeis, a contestação parece agora determinada por grupos violentos de extrema-direita. Que nem as próprias lideranças oposicionistas parecem já poder influenciar. E que não auguram nada de bom.

O Estado ucraniano pode estar em colapso e o país em risco de se fragmentar? Com as devidas distâncias não podemos deixar de temer o pior e lembrar as sangrentas fragmentações a que assistimos na antiga Jugoslávia, em várias ex-repúblicas soviéticas, na Líbia ou na Síria.

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