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Tio Patinhas a Caminho de Belém

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O novo Museu dos Coches abre um enorme buraco no muito depauperado orçamento da cultura. A sua construção foi um erro brutal, decidido por obtusos peritos em turismo, sem nenhuma sustentação em políticas culturais (*) Com um custo de 35 milhões de euros, contrapartidas do Casino de Lisboa, o novo Museu dos Coches terá um custo de funcionamento anual de 3,5 milhões de euros,estimativa da SEC, Será necessário o número de visitantes ultrapassar o milhão/ano. Quase cinco vezes o número de visitantes actuais, num Museu que é dos mais visitados.

O descalabro na cultura, vai-se acentuar. Os perigos que se aproximam , vão abrir uma caixa de Pandora nos frágeis alicerces de uma política cultural praticamente inexistente, com um orçamento irrisório.

O prenúncio é feito pela nomeação de António Lamas (AL) para o Centro Cultural de Belém. Não é um fim, mas o principio da integração numa única entidade do eixo monumental e museológico Belém-Ajuda. É conhecida a defesa que AL faz em aplicar o modelo da Parques Sintra-Monte da Lua em Belém(**).

Há uma enorme diferença entre o património gerido pela Parques de Sintra-Monte da Lua e a que poderá integrar o Distrito Belém-Ajuda. Em Sintra não existem equipamentos com vida e objectivos culturais próprios e diversificados. As receitas de alguns dos Palácios, cobre os défices de outros. O mesmo com os parques, jardins e florestas. AL argumenta que a Parques de Sintra-Monte da Lua, não recebe apoios do OE, é auto-sustentável. Uma falácia. Se o OE não gasta um cêntimo para a manutenção e recuperação desse património, foi porque perdeu verbas avultadíssimas gerradas pelos Palácios que eram tutelados pelo Estado e foram transferidos, sem custos, para a Parques de Sintra-Monte da Lua. Essa a raiz da boa gestão AL.

Em relação a Belém-Ajuda a diversidade dos equipamentos culturais é uma evidência. Uma gestão integrada, teria poupanças marginais com serviços de limpeza. segurança e manutenção conjuntos. Com a partilha de sistemas de bilhética. O que carece de demonstração são as outras vantagens que A L enuncia. É uma realidade que tem sido largamente debatida pelos técnicos dos museus e monumentos daquela zona, desenvolvida em debates públicos com largíssima participação. As sugestões, muitas reproduzidas por AL, têm sido olimpicamente ignoradas pelos sucessivos ocupantes das cadeiras governamentais da cultura.

A carência de meios, humanos e materiais, é cada vez maior. As vantagens das trocas de experiências e da elaboração de projectos comuns, tem sido objecto, como referido, de grande reflexão que aponta para uma funda articulação entre equipamentos, com o seu reforço identitário, o que ultrapassa em muito as reflexões de AL, mais preocupado com a vertente económica, subordinando os projectos culturais a esse objectivo. Com o descalabro a bater à porta quando se inaugurar o Museu dos Coches, o seu custo de funcionamento actual, 600 mil euros/ano multiplica-se por seis , o modelo apontado por AL adquire corpo. A sua bondade é que deve ser questionada, se não será proceder à macdonalização de eixo Belém-Ajuda, com AL em “master-chef”.

É forte a tentação de criar-uma empresa, originalmente de capitais públicos, que integre os Museus dos Coches,Arqueologia,Etnologia, Arte Popular, Marinha, da Presidência, EDP. Monumentos dos Jerónimos, Torre de Belém, Padrão dos Descobrimentos, Palácio da Ajuda. O Centro Cultural de Belém, Planetário, Cordoaria. Os jardins Tropical e Botânico.

O perigo não está na visão de AL, está quando se lêem as GOP da Cultura que preconizam a gestão “mais racional e eficiente dos organismo da cultura”,, do património poder ser administrado por “entidades terceiras” , de se“reduzir a dependência dos financiamentos públicos directos”. Sabemos bem de mais o que isto quer dizer. Com um governo que só vê virtudes na gestão privada, que privatiza ou está predisposto a privatizar, os bens públicos mais essenciais, a privatização da futura empresa Distrito Belém-Ajuda, com o seu valiosíssimo património, renderia, no imediato, uns valentes cabedais. Para essa gente de vistas curtas, ausência de cultura e principios estará certamente em cima da mesa. A beatificação cultural da Everything is New pela mão da SEC é um primeiro passo na disneyficação da política cultural. Para o Distrito Belém-Ajuda devem desejar que o Tio Patinhas esteja a caminho. Já deve estar andar dentro das cabeças dos “nossos” governantes para descalçar o pedregulho que o novo Museu dos Coches acrescenta às outras pedras e pedrinhas que estão dentro daquela bota. Temos uma certeza: aquela gente não se importa em cometer esse crime, essa traição à nossa identidade nacional e cultural.

(*)leia-se o argumentário arrogante e estúpido, à escala do personagem, do Director Geral do Turismo de Lisboa na Revista Turismo de Lisboa/Maio 2009)

(**)”O modelo da Parques de Sintra-Monte da Lua é aplicável em Belém” António Lamas, Público 30/10/2013

( publicado no jornal Avante! de 13711/2014)

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Setúbal

Os estrategos

visitSetubal

Os dirigentes locais de Setúbal do PSD nunca param de surpreender. Depois de, em 2011, o então líder concelhio ter apelidado de “fontanários” um importante conjunto de obras e iniciativas que a autarquia tinha em curso, aparece o agora líder concelhio deste partido, Nuno Carvalho, em artigo publicado no jornal “O Setubalense”, a atacar a autarquia por apenas investir em “betão” e, deduz-se, esquecer a estratégia de promoção turística da cidade.

É assim… Quando não se tem mais nada para dizer, insinua-se que não há estratégia, desvia-se a atenção do essencial, desvaloriza-se o que está feito…

O líder concelhio de então, Paulo Calado, já o tinha feito em 2012, quando, para qualificar o trabalho autárquico da CDU, chamou “fontanários” às obras municipais em curso e previstas, entre as quais se encontravam a Casa da Cultura, o Fórum Municipal Luísa Todi ou o Passeio Ribeirinho da Praia da Saúde. Chamar-lhes fontanários foi, porém, quase um ato de contrição, pois um ano antes, o dirigente social-democrata garantia, em declarações à imprensa local, que tais iniciativas seriam apenas um “conjunto de placas em edifícios públicos a anunciar obras que não se farão no ano de 2011 e que muito dificilmente serão feitas nos anos seguintes”.

Afinal, fizeram-se…

O tal “betão” que, ontem, asseguravam os dirigentes locais do PSD, dificilmente seria concretizado, é o mesmo que lamentam hoje ter sido feito. Nota-se que aqui há estratégia. E da mais elaborada.

Os estrategas locais do PSD dizem-nos agora que é preciso mais turistas em Setúbal e que, se não os há, é porque a autarquia não convida ninguém a visitar a cidade, o que faz com que, no Litoral Alentejano os restaurantes até possam cobrar três vezes mais por um peixe assado, porque aquilo está cheio de turistas. Não se percebe se o articulista acha que anda a pagar pouco em Setúbal ou se prefere ir pagar três vezes mais noutro lado… Seja como for, é importante que os restaurantes locais tomem isto em consideração, pois assim até pode ser que consigam, finalmente, recuperar as perdas que têm registado graças ao brutal aumento do IVA da restauração imposto pelo PSD, aumento que a maioria dos empresários da restauração decidiu absorver para não perder mais clientes. Mesmo que não aumentem os preços, os restaurantes setubalenses podem sempre cobrar mais aos líderes locais do PSD, pois estes até já manifestaram a sua generosa disponibilidade para pagar três vezes mais.

Toda esta conversa surgiu dois dias antes de um fim de semana repleto de iniciativas, como o “Setúbal à Prova”, o “Há Festa No Parque”, o “Sunset Wine Party ”, sempre com o suporte de um centro de divulgação turística de excelência a funcionar na Casa da Baía, espaço onde, pela primeira vez, a autarquia abriu uma loja de vinhos e produtos regionais a preços de produtor e onde os operadores turísticos têm espaço para vender e divulgar os seus produtos, além de aqui se realizarem, em especial no Verão, variadíssimas iniciativas culturais.

Nem é preciso citar muitos exemplos, pois quem vive nesta cidade sabe que nunca como hoje houve tanta gente a visitar-nos, a vir aos nossos restaurantes, a fazer passeios no rio, a ver golfinhos, a conhecer a cidade.

Claro, dirão os estrategas, a responsabilidade disso não é da autarquia…

Mas como sustentar tal ideia, se foi a autarquia quem avançou com uma candidatura conjunta com a AHRESP para modernizar dezenas de espaços de restauração na avenida Luísa Todi e na Fonte Nova?

Se é a autarquia que, com os operadores turísticos e a hotelaria constrói oferta turística que permite a criação de pacotes turísticos, com hotel e experiência associada, seja ver golfinhos ou aves, seja apenas ir conhecer a Arrábida?

Não terá sido a autarquia que investiu num centro de promoção turística como a Casa da Baía? E que assumiu a gestão do Moinho de Maré da Mourisca, transformado em ponto privilegiado de observação de aves e de visita ao estuário do Sado, um segmento turístico integrado no turismo de natureza e com enormes potencialidades na região.

E não é a autarquia que hoje, como nunca, promove a gastronomia local, com semanas temáticas, festivais e outras iniciativas, como o “Setúbal à Prova”? E o investimento na requalificação da zona ribeirinha, não é factor de atração de turistas e outros visitantes? A Festa de fim de ano, promovida, desde há três ou quatro anos, em conjunto com a Amorim Turismo e a Sonae, e que se afirma como uma das grandes festas de fim de ano da pensínsula de Setúbal, não será também uma forma de convidar turistas a visitar-nos, de criar oportunidades de negócio para a nossa restauração e hotelaria?

E não foi a autarquia que devolveu à cidade a sua maior sala de espetáculos totalmente requalificada e integrada nos circuitos nacionais, com espetáculos capazes de atrair mais e novos visitantes?

Já que falamos de turismo e da promoção de Setúbal, não se pode esquecer o portal internet criado pela autarquia, no qual se apresenta vasta informação sobre as potencialidades e equipamentos turísticos locais, portal que, seguramente, o dirigente do PSD não teve ainda oportunidade de visitar. Pode fazê-lo, AQUI.

Embora o articulista não tenha dado exemplos do “betão” a que se referia, pode-se supor que estaria a falar, entre outras obras, da Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal, investimento que apenas se concretizou porque a autarquia decidiu adquirir ao Estado, por 2,3 milhões de euros, o edifício do Quartel do Onze, para logo de seguida o entregar de novo ao Estado para que ali fosse constituído um centro de formação fundamental para a qualificação da nossa oferta turística.

Setúbal, que tem hoje uma visibilidade mediática como nunca teve, que é alvo de reportagens em televisões estrangeiras, em revistas de viagens ( e nesta também), em revistas de programação cultural; que foi escolhida para ser palco de uma telenovela que estará um ano no ar, na SIC, com a possibilidade de ser vendida para outros mercados, não tem, nas palavras dos dirigentes locais do PSD, estratégia turística.

Claro que, uma vez mais, confundem desejos com realidades, além de misturarem uma profunda ignorância do que se passa na cidade com alguma má-fé política que, como se sabe, é fatal…

 

CORREÇÃO – Por lapso, no primeiro parágrafo deste texto, Nuno Carvalho surgia como líder da bancada do PSD na Assembleia Municipal, cargo que já não desempenha, sendo agora presidente da concelhia deste partido. Ao visado, apresento as minhas  desculpa pelo lapso. (corrigido no dia 27 de maio às 11h13)

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Geral, Setúbal

Os 3 castelos estão de volta!

ImagemSetúbal, Palmela e Sesimbra, sendo concelhos distintos e detendo cada um a sua forte personalidade, mantém entre si uma cumplicidade, senão mesmo uma certa unidade que lhes advém, quer da história, quer da continuidade geográfica e paisagística. E são terras que partilham esse magnífico espaço mágico que é a Arrábida, traço da sua identidade comum. Vem o caso a propósito da iniciativa das respectivas Câmaras Municipais, em conjunto com a ADREPES *, de recuperar a ideia da promoção da sua “pequena” região sob a égide dos seus três castelos.

Os castelos e fortalezas de Setúbal (São Filipe), Palmela e Sesimbra são um património histórico da maior importância. Como não recordar que foi em Palmela que se sedeou a Ordem de Santiago, a imponência da fortaleza filipina de Setúbal vigiando a cidade e a barra do Sado ou ainda a traça medieval da obra de Sesimbra sobranceira ao mar. São, por si só, motivos de atração turística. Acolhendo-se ainda, nos dois primeiros, pousadas de grande prestígio.

Mas é um facto que a Arrábida, a sua região e os seus três castelos continuam arredados dos principais programas e circuitos turísticos. Não por falta de argumentos próprios.

A sub-região da Arrábida, cujos três concelhos somavam 232 mil habitantes em 2011, distribuídos por 828 Km2, já dispôs, aí pelos anos setenta do século passado, de uma promoção conjunta que se dava pelo nome de circuito ou região dos Três Castelos. Não tinha ainda nascido a mais ampla Região de Turismo de Setúbal/Costa Azul (correspondente ao distrito) – que durante mais de duas décadas fez um trabalho notável de divulgação da região, criando a Costa Azul, essa marca feliz e difícil de esquecer.

Há poucos anos e por decisão do Governo, a R.T. da Costa Azul foi “engolida” por uma Entidade Regional de Turismo que engloba agora toda a Região de Lisboa, de Mafra e Vila Franca de Xira a Setúbal. Atendendo às suas dimensão e suposta capacidade de investimento, espera-se que possa promover os seus territórios de forma mais eficaz. O que ainda está por demonstrar.

O que é indiscutível é que a sub-região dos 3 castelos (ou da Arrábida, grosso modo) carece de continuar a ser promovida com abordagens específicas. Que continuem a valorizar o que esse território tem de único: nas rotas do património cultural material e imaterial, na gastronomia e nos vinhos, nos aspectos naturais e ambientais. Seja ela promovida a partir da iniciativa de três municípios, seja da entidade regional.

Como não valorizar um território que serve de razão à fortíssima candidatura da Arrábida a património mundial da UNESCO? Que melhor argumento para a sua promoção?

* Associação para o Desenvolvimento Rural da Península de Setúbal

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Sobre este assunto ver também “Setúbal, Grândola e a Costa Azul

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Geral, Setúbal

Setúbal, Grândola e a Costa Azul

A recente assinatura de um protocolo entre os municípios de Setúbal e Grândola e as entidades regionais de turismo de Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo Litoral, visando a realização de um conjunto de actividades e acções em parceria, mostra o quanto a realidade se encarrega de desmentir aqueles que a pretendem encaixar nas suas visões. E mostra o quanto a capacidade de decidir tem que estar próxima dessa mesma realidade.

Os concelhos de Setúbal e Grândola integram-se numa unidade geográfica e paisagística que tem na foz do Sado um dos seus principais focos de atracção. A estância turística de Troia, nascida nos anos setenta do seculo passado e administrativamente integrada no concelho de Grândola, cresceu em íntima relação com Setúbal. Se na margem norte do rio a cidade de Setúbal se tem afirmado como um centro urbano de primeira grandeza, dotado de  importantes infra-estruturas, no outro lado do Sado a linha de praia que constitui a costa entre Troia e Sines é uma das mais maravilhosas dádivas da natureza.

Dos Três Castelos à Costa Azul

Desde há décadas que há percepção da unidade desta região em torno do rio Sado e da cordilheira da Arrábida. Por isso nela se incluem as antiquíssimas aglomerações de Palmela e Sesimbra e os respectivos termos. Ainda no início dos anos trinta e para efeitos de valorização e promoção turística, estratégias que então davam os primeiros passos, assistiu-se à formação da Comissão de Iniciativa de Setúbal dedicada à região dos três castelos (Setúbal, Palmela e Sesimbra).

Com a progressiva afirmação do poder municipal democrático após o 25 de Abril e com as câmaras municipais associadas numa dinâmica distrital – Setúbal já era distrito desde 1926 – foi um pequeno passo até à criação, em 1985, da Região de Turismo de Setúbal/Costa Azul. Uma região que integrava todos concelhos da chamada margem sul do Tejo (ou norte do Sado, como se preferir) e o Alentejo Litoral compreendido entre Troia e Porto Covo, Sines.

O fim da Costa Azul ?

A reforma das regiões de turismo promovida pelo Governo Sócrates em 2008, no sentido da concentração de meios e recursos e da sua aproximação à organização territorial das NUT’s II, ditou o fim da Região de Turismo da Costa Azul. O território de referência desta, o distrito de Setúbal, foi dividido por duas novas entidades, o Turismo de Lisboa e Vale do Tejo, com sede em Santarém, e o Turismo do Alentejo Litoral, que se passaram a ocupar dos lados norte e sul do Sado, respectivamente e criando como que numa fronteira inter-regional.

Setúbal ficou a perder, vendo diminuído o seu protagonismo e assistindo à transferência da sede da nova agência para a capital ribatejana. Equilíbrios intra-regionais entre cidades que terão que ser ponderados em futuras situações de fusão ou concentração de organismos da administração desconcentrada. E pior, o facto não deixou de constituir um revés para as estratégias de promoção da Costa Azul, afastando do Sado/Arrábida o centro de decisão. 

Retomar a iniciativa

Não sabe ainda qual a continuidade que será dada ao trabalho de duas décadas e meia e que permitira já alguma notoriedade à marca Costa Azul. Mas sabe-se que os municípios, os melhores conhecedores da realidade local, sentem já a necessidade de entendimentos entre si para estratégias de proximidade, procurando reganhar a iniciativa perdida e uma capacidade decisória em matérias de grande importância para as comunidades locais.

No caso de Setúbal e Grândola visando “a organização e dinamização do turismo nas duas margens”, que se traduzirá, segundo o protocolo assinado, para as Câmaras de Setúbal e Grândola: em “elaborar projectos de desenvolvimento turístico que abranjam as respectivas regiões, reuniões e acções para implementação dos projectos, estabelecer estratégias de promoção dos projectos aprovados pelas partes”, enquanto as entidades regionais de turismo se comprometem a “cooperar no sentido do bom desenvolvimento dos projectos planificados entre a CMS e CMG, associando-se nas iniciativas de interesse turístico” e “colaborar na divulgação e promoção dos projectos de âmbito turístico”.

A aproximação entre Setúbal e Grândola, a que não foi estranha a estratégia de relançamento do complexo de Troia, poderá ser estendida, com mútuas vantagens, a outros concelhos circunvizinhos do Sado e da Arrábida, desde logo, Palmela, Sesimbra e Alcácer do Sal. Uma via a explorar.

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Setúbal

Pára… estamos em festa

Bem podemos fingir que nos esquecemos das agruras do presente, dos aumentos do IVA, dos preços, do desemprego e do que mais se anuncia. Enfim, bem podemos fingir que nos esquecemos do empobrecimento para que caminhamos a passos largos. Vamos entrar num tempo em que tal nos é permitido.

Com o anunciar do Verão chegam-nos as festas e as férias, estas para a maioria dos que ainda as têm. Sem Verão e festas quem conseguiria resistir? A festa é isso mesmo, o renovar do ciclo. Na terra e nas plantas como nas pessoas. As famílias reencontram-se, os emigrantes regressam temporariamente às suas terras, pára-se para se confraternizar, sobretudo à volta da mesa. Não somos esfuziantes como nuestros hermanos do outro lado da fronteira, mas revemo-nos nas nossas romarias de Verão sob a égide das nossas santas protectoras. E, em Setúbal, reconhecemo-nos também à roda de uma travessa com sardinhas assadas. Mais simples não é possível, excepto quando dispara o preço do popular peixe.

Vem pois aí um tempo relaxe e de festas. Mas um tempo que também se profissionalizou e que entrou no campeonato da concorrência entre vilas, cidades e regiões. Quem faz mais, com maior impacto mediático, com mais “estrelas”. Vivemos numa época em que até as festas se sofisticaram – todas as terras querem fazer boa figura e atrair turistas e gentes de outras terras. É a economia a funcionar. Vai daí que é preciso promove-las… e isso custa muito dinheiro.

Mas em boa verdade as festas de Verão também sempre foram momentos de afirmação das comunidades, adornadas ou não de modas sofisticadas. Lembro-me bem de ver, em tempos idos, a imagem de Nossa Senhora do Rosário de Troia – uma das mais genuínas expressões da religiosidade popular das gentes do mar de Setúbal – coberta de notas de conto, percorrendo em procissão o areal da Caldeira, afixadas por mestres e outros membros da comunidade piscatória.

São também muitos os que querem um Festival de Verão à sua beira, com muitos artistas e muita cerveja – um filão dos tempos modernos que reúne as modernas tribos urbanas sob a égide da indústria cervejeira. E que certamente não deixarão de ser contabilizados como uma moderna “indústria criativa”.

Só em Setúbal, com ou sem preocupação de brilhar, veja-se a lista das festas/manifestações artísticas a realizar nos próximos meses. E que, certamente, pecará por defeito:

• A “Maior sardinhada do mundo”; • Viniset,  salão de vinhos e actividades conexas da Península de Setúbal“Há Festa no Parque”, festa de encerramento do ano lectivo; • o festival internacional de cinema FESTROIA; • os desfiles das Marchas Populares e as ruas engalanadas por ocasião dos Santos populares (infelizmente já poucas); • as duas semanas da Feira de Sant’Iago; • as touradas; • São Julião em Festa, SETFESTA e FESTANIMA – festas do movimento associativo, respectivamente das freguesias de São Julião, a primeira, Anunciada e Santa Maria a segunda e de São Sebastião a terceira; • Festa do Moinho das Marés, também de associações, mas das freguesias da zona nascente do concelho; • o Encontro Motard do Grupo XupaKabras; • As festas religiosas-populares: os Círios de Nª Senhora da Arrábida (Setúbal e Azeitão), Nossa Senhora do Rosário de Troia, São Pedro de Alcube, Nossa Senhora da Conceição (Aldeia da Piedade, Azeitão), Nossa Senhora da Saúde (Vila Fresca de Azeitão); • Festas da Arrábida e Azeitão (Vila Nogueira de Azeitão); • os Festivais de Folclore do Grupo de Danças e Cantares Regionais do Faralhão e do Rancho Folclórico de Praias do Sado; • a Festa do Teatro do Teatro Estúdio FonteNova; • espectáculos no polémico Auditório José Afonso; • os bailes e festas de rua promovidas por colectividades de bairro.

Há pouca percepção desta diversidade. Justamente porque sem projecção mediática e sem publicidade eficaz  são, salvo raras excepções, como se não existissem. Ficam assim circunscritas à sua escala local.

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