A Praça de Touros Carlos Relvas, o Estado e os privados

A prevista recuperação da Praça de Touros Carlos Relvas, em Setúbal, resultante de um protocolo celebrado entre o Município sadino e uma empresa de espectáculos tauromáquicos é uma boa notícia para a Festa brava e para o património edificado sadino.

Desde há anos que a bela praça sadina, construída em 1889 com a designação inicial de Praça D.Carlos, está encerrada por não cumprir os critérios mínimos exigíveis ao seu funcionamento, tendo mesmo perdido a respectiva licença. Tal facto tem impedido não só a realização de corridas de toiros como de outros eventos, caso das Marchas Populares. Simultaneamente tem-se assistido à continuada degradação do edifício.

Convenha-se que, para uma cidade com a dimensão de Setúbal, uma praça centenária encerrada é um problema. Um problema que transcende o foro privado dos seus proprietários para se transformar num problema para a comunidade, não fosse aquele espaço um dos mais importantes recintos de espectáculos da cidade e um relevante testemunho arquitectónico da história setubalense. Cumpriria, em primeira instância, aos respectivos proprietários resolver os problemas da praça. Mas, como em muitas situações, o facto é que não foram capazes de o fazer, deixando, assim, o edifício fechado durante anos, sem utilidade e entregue a uma lenta mas inexorável degradação.

A partir de uma concertação de interesses parece ter sido agora possível desenhar uma solução que se espera venha a garantir o funcionamento da “Carlos Relvas” nos próximos anos: o interesse público, que reclama que a praça esteja operacional e proporcione espectáculos taurinos (e outros), e o interesse privado, com a exploração comercial desses espectáculos. A Câmara Municipal financiará a operação em 120.000 euros, repartidos por um período de seis anos, enquanto uma empresa do ramo tauromáquico, a Aplaudir, de João Bolota, que tomou a praça de arrendamento, se compromete a efectuar as reparações e melhoramentos necessários a para garantir o licenciamento do espaço e o respectivo funcionamento.

Foi adequada a intervenção da Câmara sadina? A decisão mereceu a aprovação unânime de todas as bancadas representadas no executivo municipal. De outra forma correr-se-ia o risco de se assistir a uma ainda maior degradação do edificado e ao riscar de Setúbal da lista das cidades com tradição taurina ou, em alternativa, à realização destes espectáculos em praças desmontáveis que estão longe de garantir as melhores condições para a assistência e não correspondem às tradições sadinas neste domínio.

Mas não nos devemos esquecer que, como é frequente no nosso país, e perante a inexistência de respostas por parte do sector privado, foi mais uma vez o Estado, neste caso através do município sadino, que veio substituir-se ao que deveria ser da iniciativa dos particulares. Recordemo-nos que os proprietários da praça chegaram a colocá-la à venda. Entretanto continuaria a degradar-se. E qual a comunidades que quer ver um edifício com a monumentalidade da sua Praça de Touros – e a “Carlos Relvas” não é um qualquer redondel -sem utilização e a degradar-se?

Muito do futuro da praça irá depender do êxito comercial dos espectáculos que ali venham a ter lugar. É conhecida a recente tendência para a conversão das praças clássicas em espaços mistos, de comércio e espectáculos (caso do Campo Pequeno) – uma hipótese que também já chegou a ser divulgada. Esperemos que a solução tenha êxito e que a “Carlos Relvas”, honrando a sua memória secular, continue a ser um espaço dedicado à festa de toiros.

A Festa de Toiros é nossa! (II) – Política

Touros de morte na Praça Carlos Relvas, Setúbal, 1927. In "Um Tesouro Guardado Setúbal D'Outros Tempos", Américo Ribeiro, 1992

Voltaram os anti-taurinos à carga contra a realização da prevista tourada integrada no programa da Feira de Sant’Iago, através de intervenções em recentes reuniões da Assembleia Municipal (AM) e da Câmara Municipal de Setúbal (CMS).

Os proibicionistas, sempre com o chapéu de protectores dos animais, seguiram em Setúbal, como já haviam feito em Sintra, a estratégia de propor na AM a criação de um regulamento de bem-estar animal. Proposta que, aliás, mereceu aprovação quase unânime. Interessante de seguir vai ser verificar o “salto” da preocupação com o bem-estar animal – genericamente partilhado por todos – para a proibição das corridas de toiros e/ou os apoios municipais à sua realização, efectivos objectivos dos anti-taurinos. Alguns dias depois da reunião da AM uma proposta anti-tourada seria derrotada pela maioria (CDU) em reunião pública da CMS.

Em primeiro lugar. Fizeram bem em dirigir-se aos órgãos representativos do município, onde se encontram presentes os partidos políticos com expressão eleitoral e os presidentes das juntas de freguesia do concelho (estes apenas na AM). São os fóruns certos para auscultar o sentimento e a opinião da população.

Em segundo lugar. Farão mal se entenderem ir para a porta da praça de touros (desmontável), como já vimos noutras ocasiões. Farão mal porque irão por em causa o direito de quem gosta do espectáculo. E farão mal porque serão responsáveis por potencialmente colocarem em causa a ordem pública. É que, por vezes, os ânimos exaltam-se – e isso ninguém deseja.

Pode e deve discutir-se o espectáculo tauromáquico – não é sagrado, aliás, já muito poucas coisas o são. O problema é que os anti-taurinos, para além de não gostarem do espectáculo – e estão no seu direito – queriam mais. Queriam que a CMS não o autorizasse. Isto é, queriam proibi-lo. E isso é inadmissível numa sociedade democrática onde a tolerância e o respeito pela diferença são valores primordiais.

Será útil que os nossos autarcas discutam o importante e amplo assunto do bem-estar animal que, como recurso táctico, tem sido utilizado como arma de arremesso contra o espectáculo tauromáquico.  Bem-estar animal recorda-me logo a dimensão sanitária e de qualidade da relação de  vizinhança dos inúmeros problemas com canídeos e gatídeos nas nossas cidades. Por incrível que pareça é dos problemas mais transversais a todos os bairros.

O tema tauromáquico não divide partidariamente. Consultando os programas dos principais partidos não se encontram referências explicitas ao espectáculo tauromáquico; apenas o B.E. se pronuncia contra , de forma equívoca, “touradas de morte”; será que se refere à festa anual de Barrancos? Isto apesar de a sua única autarca ter postura política própria, certamente ditada pelo conhecimento do meio e das gentes que governa (ver post de Paulo Anjos). É sabido que todos os partidos têm gente a favor e gente contra, ou seja, a divisão está no interior dos partidos.

aqui referi que a tauromaquia tem um forte cunho em diversas regiões do país. Setúbal, não tendo o elevado grau de aficion taurina de terras como a Moita, Alcochete ou Vila Franca de Xira, também tem tradição. Por alguma razão tem uma praça de touros centenária (1889) onde se realizaram anualmente diversas corridas até ao seu encerramento por falta de condições. E tem grupos de aficionados (Tertúlia Tauromáquica Setubalense e Grupo Taurino “Maletilhas”) e de forcados. Isto é não ter tradição? Aliás, desde que me conheço como gente, que sempre se realizaram corridas de toiros em Setúbal, na praça Carlos Relvas, no Verão e, sobretudo, por ocasião da Feira de Sant’Iago. Obviamente que uma praça desmontável não tem o prestigio e as condições de uma praça fixa. Mas, em muitas terras do país que não tem praças fixas é essa a única solução possível. Apenas se exige que sejam salvaguardas as condições de segurança.

É uma “questão de consciência”.

Perguntas (pouco) inocentes

Ainda a propósito dos touros e das touradas, ocorreram-me algumas perguntas que apenas são para ser colocadas no plano político desta discussão, sem que tenhamos de entrar na discussão apaixonada que pretende saber se os apreciadores do espectáculo taurino são bárbaros, selvagens e todo o arsenal verbal com que habitualmente são premiados.

As perguntas estão apenas relacionadas com o empenho que o Bloco de Esquerda colocou, em Setúbal, nesta discussão, lançando para a querela os seus mais destacados militantes e dirigentes locais, com o inesperado apoio do vereador eleito pelo PSD na Câmara Municipal de Setúbal, um confesso apreciador de touradas que não hesitou, perante a possibilidade de ter algum protagonismo, em ir para os cornos do touro e apresentar um texto, convertido em moção, que lhe havia sido entregue pelos membros — bloquistas e eventualmente não bloquistas — de um movimento anti-tourada em Setúbal.

As perguntas (pouco) inocentes resultam apenas de uma consulta ao site da Câmara Municipal de Salvaterra de Magos, a única detida no país pelo Bloco de Esquerda, e são as seguintes:

1 – Está em vigor neste concelho algum regulamento de bem estar animal como os que são defendidos pelos bloquistas em Setúbal?

2 – O BE já fez ou participou um alguma acção neste concelho contra as touradas?

3 – Os dirigentes do BE foram alguma vez convidados pela presidente da Câmara Municipal de Salvaterra para as festas populares do concelho, a Festa do Foral dos Toiros e do Fandango?

Tudo aponta para que a resposta às três perguntas seja negativa. Admito que possa estar enganado, mas se não estiver, como se justifica então esta disparidade de critérios? Será porque o BE não quer assumir o risco de afrontar o eleitorado de Salvaterra e assim perder a única autarquia em que detém a presidência? E a coerência, onde anda?

As boas touradas de volta

Setúbal prepara-se para receber, depois de alguns anos sem espectáculo taurino, uma monumental tourada em praça especialmente armada para o efeito por ocasião da Feira de Santiago, no dia 31 de Julho. Será, não tenho qualquer dúvida, um excelente espectáculo, um daqueles que nos fará esquecer as outras «touradas» a que temos de assistir todo o ano e em algumas das quais somos até chamados a participar.

Reafirmando o que aqui já escreveu o Carlos Anjos, trata-se de um dos traços distintivos do povo lusitano que ainda perdura neste mundo globalizado de almas equalizadas pelo aterrador poder dos media, um vestígio de outros tempos e dos rituais de celebração praticados pelos nossos antepassados.

É um lugar comum banal, mas é bem verdade que povo sem passado, sem tradições, sem memória, povo que não sabe de onde vem, não será nunca capaz de saber para onde ir. Respeitar e honrar as tradições é, por isso, um dever a que não nos devemos furtar.

Quanto à eterna defesa dos direitos dos animais, será sempre uma discussão coxa de quem esquece todas as restantes crueldades que cometemos, quotidianamente, para comer. Não consigo convencer-me que seja melhor morrer num matadouro do que numa praça de touros…

Venham os touros e os valentes que os vão enfrentar!

A Festa de Toiros é nossa!

Apressam-se alguns activistas setubalenses anti-touradas a contestar a já anunciada realização de corridas de toiros em Setúbal por ocasião da Feira de Sant’Iago, tradição interrompida nas suas duas últimas edições.

Não compreendo a luta encarniçada que os auto-nomeados defensores dos animais fazem contra a festa de toiros. São muitos os que em Portugal apreciam as corridas de touros e outras manifestações taurinas. Maioria ou minoria, não se sabe. Diversas zonas do país têm profundas e arreigadas tradições associadas aos toiros. Locais onde a vida das comunidades se desenvolveu em íntimo contacto com a cultura taurina. Na generalidade do Ribatejo, um pouco por todo o Alentejo, em partes relevantes do distrito de Setúbal – Moita, Montijo, Alcochete e mesmo Setúbal. Para não falar dos Açores – onde na ilha Terceira decorrem com extraordinário entusiasmo popular as “corridas à corda”. A secção de municípios com actividade taurina da Associação Nacional de Municípios Portugueses conta com 36 municípios, o que significa que cerca de 12% dos concelhos portugueses se reconhecem com fortes tradições tauromáquicas. A tauromaquia é pois um elemento da identidade cultural dessas regiões e onde, em alguns casos, se registam especificidades locais muito fortes, veja-se os casos de Monsaraz, Barrancos ou mesmo Vila Franca de Xira ou Moita.

A tourada e todas as outras festas de touros são um traço distintivo dos países ibéricos, aliás com grande expressão no mundo latino-americano. Dizem alguns que é barbárie. Nada de mais errado. A cultura taurina é plena de códigos e rituais, do movimento ao vestuário, passando pela postura ou pelos acessórios. O objecto sacrificial é um touro bravo, animal de uma raça cuidada e apurada para a Festa. Sem esse apuramento e sem a tourada essa raça não existiria. O Homem luta com o toiro, mas a sua vitória não é garantida. É um espectáculo em que, como em qualquer arte, a qualidade depende dos artistas, dos animais e de outros elementos.

Segundo dados de 2007, a tauromaquia, em apenas 190 sessões, registou quase 300 mil espectadores e rendeu mais de cinco milhões de euros. Valor que ultrapassou a música erudita, a ópera, a dança ou o circo – facto que não desvaloriza nem desprestigia estas artes, mas que afirma a importância da tauromaquia.

A moderna tendência para a normalização tem procurado tudo higienizar. Tem sangue? Então só na televisão ou nos jogos de vídeo. Já M.Foucault nos explicava, em 1975, o progressivo afastamento da expiação do castigo do espaço público e o seu resguardo entre quatro paredes.

Proibir as touradas? Talvez mais um dos maus frutos da globalização. Sermos iguais a outros povos, sem factores que nos distingam? A nossa riqueza está naquilo que nos afirma. Parte da nossa intelligentsia politicamente correcta, inspirada em exemplos de além-fronteiras quer agora, curiosamente, “proibir”. Proibir? Um conselho, quem não gosta não tem que assistir. A um muito discutível direito dos animais, temos que contrapor o direito à afirmação da identidade cultural.

PS – Setúbal continua, lamentavelmente, sem poder contar com a sua bela Praça de Touros Carlos Relvas. Carente de obras de recuperação, foi há algum tempo anunciado um projecto que visa a sua renovação e adaptação às modernas tendências ditadas a partir do exemplo da Praça de Campo Pequeno (Lisboa) – integração de comércio, restauração e valência para a realização de outros espectáculos.