Cultura

A miséria do pensamento pós-moderno

Anúncio da Brut grafitado

Fredric Jameson, com uma extensa obra sobre o pós-modernismo, escalpeliza as intima relações entre o pós-modernismo e as generalizações sociológicas que anunciam um novo tipo de sociedade que alcunham de sociedade pós-industrial. Argumenta que “qualquer que seja o ângulo de análise sobre o pós-modernismo na cultura e nas humanidades tem necessariamente uma posição política, implícita e explícita, com respeito á natureza do capitalismo multinacional dos nossos dias” (…) à lógica desse capitalismo tardio”.

O pós-modernismo produziu deliberadamente a perca de historicidade, a fragmentação do pensamento, o esvaziamento do pensamento ideológico que retira sentido aos partidos políticos que se tornam um fim em si-próprio, organizações eleitorais sem definição nem mobilização ideológica, representando determinados interesses económicos que lhes dão apoio variável e pontual. O resultado é visível a olho nu quando se procuram diferenças entre as práticas políticas do PS, PSD e CDS. A democracia, despida da retórica em que se procura confundi-la com esses partidos, é cada vez menos uma realidade correspondente ao ideal democrático. O paradigma democrático do voto como expressão da vontade popular, quando usado para votar num desses partidos é um voto perdido para a democracia.

Nas outras áreas a expansão do pós-modernismo é devastadora. Nas artes, o apagamento das fronteiras entre culturas, a chamada alta cultura e a cultura popular, produziu uma polpa onde flutuam objectos e produtos sem outro destino que não seja o da exploração publicitária do trabalho formal. As ciências sociais foram tomadas de assalto pela miséria do pensamento. Continuar a ler

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Geral

Educação, Demagogia e a Cartilha Neo-Liberal

Na ordem do dia, continua a questão dos subsídios aos colégios privados. É evidente que o subsídio estatal só se justifica quando, a rede de escolas do ensino público não cobre as necessidades de uma região. Para colmatar essa deficiência o estado deverá utilizar recursos disponíveis até a resolver. Aquilo a que se assiste ultrapassa claramente essa fronteira. A trave mestra, nem sempre visível, da mentira dessa batalha é o direito dos pais seleccionarem a escola, pública ou privada, para os filhos. Claro que a escolha penderá sempre para uma escola privada, atendendo á mentalidade dominante diligentemente condicionada. Os rankings não enganam, têm é um nariz maior que o do Pinóquio.

Nessa linha de pensamento primeiro está a exigência dos subsídios às escolas privadas, mesmo que não cumpram o papel de suprir a ausência de escola pública, e em segundo lugar o célebre cheque-escola que permitiria às famílias a liberdade de escolha.

Curiosamente os que exigem que o Estado subsidie a escola privada são os mesmos que estão contra qualquer tipo de intervenção ou ajudas do Estado. Os que bramam contra o despesismo do Estado e as empresas públicas deficitárias. Os que defendem a concorrência sem constrangimentos em todos os sectores de actividade, tenha ou não tenha objectivos sociais, culturais ou outros. Por aqueles que pregam o menos estado, condicionados por um pensamento economicista com ante-olhos e míope.

No ensino a demagogia ainda é mais chocante. As escolas privadas podem aplicar os critérios de selecção que muito bem entenderem, seja por exame prévio académico, por opção pedagógica, a começar pela limitação do número de alunos por aula, ou mesmo por decisão religiosa. Anulam tudo ou quase tudo que pode tornar o trabalho do professor mais improdutivo. Claro que isso se vai reflectir nos rankings, uma vigarice pedagógica, e a miragem do cheque-escola, faz o maravilhoso passe de mágica de convencer os pais que seria possível a liberdade de escolher a melhor escola para os seus filhos.

Ao Estado ficaria reservado o papel de premiar o falso mérito das escolas privadas subsidiando-as e de manter as escolas públicas para serem os armazéns do refugo.

É essa é uma das muitas faces da democracia tal como é entendida por uma direita hipócrita que olha para o Estado como o veículo de transferência de tudo, do conhecimento e cultura aos bens de investimento e áreas de negócio, para os privados se banquetearem e exibirem as suas virtudes. Em resumo, usar o dinheiro dos contribuintes e os bens públicos para conforto dos privados.

Sobrevoando a batalha dos subsídios à escola privada, sem cuidar dos casos reais em que isso se justifica, os arautos do fim dos subsídios embrulham-se numa demagogia sem fronteiras nem segredos apoiados por uma comunicação social de escribas e opinantes estipendiados para transformar as vulgatas neo-liberais na cartilha do próximo futuro. Os passos seguintes seriam apoderar-se do Estado para o desmantelar em benefício das classes dominantes.

É essa a liberdade que nos vendem diariamente, procurando embotar a capacidade crítica,  guilhotinar à nascença a possibilidade de sequer pensar que é possível pensar numa sociedade outra, em que a humanidade se liberte das grilhetas mentais e económicas que hoje, com as mais variadas formas e feitios lhes são impostas.

Explorar o legítimo interesse no futuro dos filhos é o passo mais óbvio e simples de uma manipulação rasca para a seguir se abrir caminho à mais desenfreada exploração.

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Costumes, Geral

O homicídio de C.Castro e as lições de Cantanhede

Um dos fenómenos mais notáveis do caso “homicídio de Carlos Castro”, do ponto de vista social, ocorreu em Cantanhede (5.004 habitantes em 2004) na noite do dia 13. Centenas de pessoas reuniram-se na praça Marquês de Marialva para testemunhar a sua solidariedade ao jovem filho da terra  acusado do crime e à respectiva família. Na maioria jovens, mas também pessoas de outras gerações, segundo os relatos da imprensa (1), (2).

O facto – que demonstra a iniludível simpatia que muitos, na sua terra, têm pelo jovem Renato – cria-nos uma perplexidade. Como é possível ser-se solidário com alguém que terá cometido um crime desta natureza? Não é comum ver-se este tipo de simpatia da comunidade nestas circunstâncias.

O que explicará tal empenho da comunidade?

O conhecimento pessoal directo e a convivialidade existentes numa pequena cidade, como é o caso, pode constituir uma primeira explicação. Facto ampliado por se tratar de alguém que recentemente teve uma notória exposição televisiva num programa de grande audiência. Para os de Cantanhede, ele é “um dos nossos”.

A juventude transporta consigo as imagens da beleza, de ingenuidade e da pureza. O jovem Renato transporta(va) tudo isso consigo. Para todos os que partilham esse estereótipo, isso também o transforma “num dos nossos”.

Seria diferente se C.Castro não fosse visto por parte da população como um homossexual de idade madura que recorreu à sua fama, influência e dinheiro para seduzir um jovem  belo, ingénuo e puro ? Mas, reduzindo ainda mais a questão, seria diferente se Castro não fosse homossexual?

O conhecimento dos factos é ainda muito sumário. Só em julgamento será possível perceber os contornos do caso. Por isso, manda o bom senso, que se espere, com reserva. A simpatia por “um dos nossos”, qualquer que seja o lugar em que nos incluímos, não pode fazer esquecer os factos, nem desvalorizá-los (ou valorizá-los) por o presumível autor ser quem é e a vítima ter sido quem era.

O homicídio de C. Castro foi uma tragédia pessoal que emociona o país. A maior dimensão da tragédia foi para o próprio C.Castro, porque foi vítima de um crime hediondo, cometido com desmedida malvadez. Em segundo, para o jovem suspeito de ter cometido o crime, porque, a ser condenado, levará muitos anos a recompor a sua vida. É também um drama – ampliado pela pressão mediática – para as respectivas famílias.

É um drama que vem recordar fissuras e descontinuidades relativas às opções sexuais das pessoas e que subsistem e se confrontam na sociedade portuguesa.

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economia, Política

Perguntas para 2011

Nunca nas últimas décadas um ano começou com expectativas tão baixas e um céu tão carregado de tons escuros. Receia-se o pior e o clima económico e social a todos amedronta. Aqui se deixam algumas das dúvidas e perguntas que nos preocupam neste principio de ano.

Política

O comportamento de A.Cavaco Silva após a sua previsivel reeleição como Presidente da República e a duração do Governo de J.Sócrates e da própria Assembleia da República são as grandes incógnitas com que se inicia o ano. Eleições antecipadas podem fazer parte desse cenário.

Haverá uma segunda volta nas eleições presidenciais? E quanto à abstenção. Será ultrapassado o record, 50,29 %, obtido aquando da reeleição de Jorge Sampaio em 2001 ? Conseguirá Alegre somar os seus votos de 2006 aos de M.Soares e F.Louçã? E Francisco Lopes conseguirá atingir o resultado do PCP/CDU nas últimas eleições legislativas? Fernando Nobre terá um resultado-surpresa?

Reeleito Cavaco, será que o presidente manterá a sua habitual bonomia (do género não gosto mas promulgo e de discreta influência) perante a acção do Executivo? Demitirá o Governo? Dissolverá a Assembleia? Com que justificação? Devido à possível entrada do FMI e à consequente atribuição de responsabilidades ao Governo – com fez saber num dos recentes debates eleitorais? Proporá o PSD, com o apoio do CDS, uma moção de censura para derrubar o Executivo? E como votará a oposição de esquerda essa moção?

Teremos eleições legislativas antecipadas este ano? Continuar a ler

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Política

Fariseus

Portugal é um país rico em personagens queirosianos. Há boleia dos apelos à austeridade, da contenção de despesas, aparecerem uns figurões denunciando gastos e desperdícios, aproveitando todas as ocasiões para, clara ou sub-repticiamente, levar água ao seu moinho. Recentemente, comentando as Comemorações da República, o chefe da Casa Real, Paulo Teixeira Pinto, considerou que “o gasto nas comemorações da República era obsceno tendo em conta a situação que o país vive”.

Para esse maganão, que auferia um ordenado de 700 mil euros mensais, mais prémios de desempenho anuais superiores a um milhão de euros, contas redondas em dinheiro líquido nunca receberia menos de 12 milhões/ano, a que se somavam mordomias de automóvel, avião a jacto, cartão de crédito, etc., pelo trabalho de polir com os fundilhos das calças as cadeiras do conselho de administração do BCP a mando de uma dessas sociedades semi-secretas, toupeiras do mundo negócios e tráfico de influências que toda a gente sabe quem são e algumas traficâncias que fazem e em quem ninguém mexe, nada disso é obsceno! Só nos anos em que passeou pelos corredores e salões do BCP, deve ter arrecadado verba igual ao orçamento da Comissão para as Comemorações do Centenário da República. Quando foi corrido, por levar o banco quase à falência, deram-lhe uma indemnização de 10 milhões de euros e uma reforma de 500 mil euros/ano. Isto não é obsceno, é pornografia da mais reles. Também, com actores destes mais não se pode exigir.

Esse marmanjo a viver principescamente à conta da arraia-miúda, no intervalo da mixórdia de quadros que pinta e poemas que escreve (é tão cabotino que não tem vergonha em os mostrar, deve pensar que o dinheiro compra tudo, mesmo o bom senso e o bom gosto), tem a lata de tecer considerações sobre os custos das comemorações e os tempos difíceis que se vivem! Pelo caminho dirige a comissão que faz a proposta de revisão constitucional do PSD em que, entre outras malfeitorias, se destaca a possibilidade de se despedir a torto e a direito, quase por dá cá aquela palha.

E um manto real encharcado de m…. de todas as cores, menos obviamente a azul, na tromba desses Abranhos?

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Política

Racionalidade Irracional

Os exegetas deste sistema económico sublinham as suas virtudes, realçando a racionalidade que o mercado introduz no seu funcionamento. Com maior ou menor regulação, o livre funcionamento dos mercados é o deus ex-machina do sistema. No outro dia chamaram-nos a atenção e  tropeçamos com um desses produtos fabricados para satisfazer um nicho de mercado. Papel higiénico de categoria superior em que o de gama mais baixa tinha em “alto-relevo flores, perfume e micro-textura” que proporciona a “suavidade de uma pétala de rosa”. Curioso seria saber como se fizeram os testes para garantir tal apuro. Terá alguém andado a limpar-se à vez com folhas de papel e pétalas de rosa, até o papel ficar calibrado? A gama média está “impregnado com extracto de pêssego” e cor condizente. Seria bom conhecer o estudo de mercado em que se conclui que o buraco anal tem preferência acentuada pelo pêssego. O topo de gama reserva o máximo prazer e vitamina tudo por onde passa, “é garantida maciez superior”, obtida com “óleo de amêndoas e vitamina E”! O custo é o que se calcula. Numa família de três pessoas que gaste uma média de 6 folhas/descarga na sanita/dia, gastará em papel higiénico qualquer coisa como 1/3 do ordenado mínimo nacional!!! Coisa altamente indecorosa e mal cheirosa, apesar de papel deste quilate minorar o fedor.

Não se percebe é como se rentabiliza, outro dos paradigmas do sistema, esse investimento em papel higiénico. Podemos imaginar que quem compre um daqueles relógios que custam centenas de milhares de euros, se sinta obrigado a verificar as horas de 30 em 30 segundos para amortizar o investimento. Que quem compre uma garrafa de vinho de 5.000 euros, encha cuidadosamente o copo até meio, cheire tão intensamente que faça evaporar algum líquido, que meta na boca e bocheche, devolvendo o vinho ao copo, enquanto a garrafa se vai esgotando nas gotas que nesse exercício se escapam pelo esófago. Entendemos igualmente que quem compre uma assoalhada com quatro rodas e 600 cavalos de motor por uns milhões de euros, passe a vida a entrar a sair do carro grunhindo vrrooommm. Mas papel higiénico?

E qual será a racionalidade de um sistema que produz tão vasta gama de produtos supérfluos, luxos que vão pia abaixo ou que não têm qualquer utilidade a não ser como marca de água distintiva de quem nada em dinheiro? Dirão que enquanto existirem compradores para bidés de ouro há nichos de mercado por satisfazer. É esse o normal funcionamento dos mercados. Repugnante argumentação em defesa da mais bestial imoralidade, só possível pela desenfreada exploração do homem e da terra, pela abusiva apropriação dos meios de produção acumulando desmesuradas mais-valias que sacam directamente do trabalho dos outros ou mesmo sem nada produzirem, na mais desbragada e pura especulação.

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Costumes, Política

Fantasma da Sala Oval

Oportunidade única. Cavalheiro de 64 anos, culto, em boa forma física, situação cardiovascular revista recentemente, formado nas melhores universidades do país, oito anos experiência governativa de topo e de práticas sexuais na Sala Oval da Casa Branca certificadas pelo Congresso. Oferece-se para convívio sério e desinibido. Se procura prazer e sedução atreva-se. Exige-se e retribui-se com total discrição. Deslocações grátis a casa ou hotéis. Programas para meio-dia ou dia inteiro. Módulos muitos interessantes para convívio. Discussões teóricas e práticas. Temas e subtemas base:

1 – Como controlar a gritaria orgástica para não alarmar a segurança (trancar as portas e meter preservativos nos buracos das fechaduras)

2 – Aproveitar os minutos entre despachos e reuniões para libertação do tédio pela prática sexual (treinar a mão para a assinatura não tremer mesmo no cume da excitação)

3 – Fumar e não inalar, princípio universal aplicado a qualquer campo da actividade humana (safar-se com algumas nódoas negras dos apertões da mulher e dos senadores)

4 – Tony Blair e a importância da experiência Lewinsky no seu apoio à guerra do Iraque (como ser a Mónica de Bush sem pôr em perigo a conversão à igreja católica).

Outros temas podem ser submetidos a apreciação com um mínimo de oito dias antecedência. Pausas para café ou almoço não incluídas, custo adicional.

Ofertas especiais para recordar o encontro: Pares de meias e/ou cuecas autografadas.

Ao preço base acresce uma taxa de 50% por cada dia de uso, até quatro dias; 75% por cada dia uso de cinco a um limite máximo de oito dias. Cheiro perfeitamente natural. Garantia de qualidade, intensidade e persistência sem conservantes artificiais. Produtos ecológicos com certificação Al Gore.

Contactos para inscrições: clinton.lucky.family@usa.gov

Passam-se recibos para desconto no IRS e reembolso de IVA. Inscrições sujeitas a limite. Fecham quando as receitas cobrirem as dívidas contraídas por Hilary Clinton na campanha para a presidência.

É a vida. Dar umas cambalhotas nos sofás da Casa Branca sai caro. As escapadelas Hugh Grant sempre são mais em conta!

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