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Brexit ou o sintoma da doença

brexit-referendum-results-map-red-blueAs uniões voluntárias de países, tal como as de pessoas, têm na sua génese o propósito de aumentar o bem-estar dos seus povos! Sem esse resultado as uniões fracassam. A maioria dos eleitores britânicos mostrou não estar satisfeita com a UE e por isso os votantes do brexit somaram mais um milhão duzentos e setenta mil votos que os do remain.

Chantagem foi o que não faltou sobre o eleitorado britânico. Ameaças dos maiores cataclismos procuraram condicionar o voto do público. Responsáveis políticos dos vários países e da União e dirigentes de empresas multinacionais desfilaram pelas televisões de todo o mundo. Nem sequer Obama faltou à chamada!

É certo que, de entre as principais motivações, poderão avultar os motivos “egoístas”. A mesma imigração que tem levado centenas de milhares de trabalhadores e óptimos profissionais de todo o mundo ao RU e contribuído para o sucesso da economia britânica, terá suscitado um efeito de rejeição. Como entenderão os ilhéus os grandes acampamentos de candidatos a imigrantes que se acumulam no lado francês do canal ou os milhares que atravessam a Europa em direção ao RU?

É também certo que a gestão europeia da crise dos refugiados, que procuram os países ricos do norte como local de destino – nomeadamente o Reino Unido, tem sido morosa e ineficaz. Países esses que pagam agora, com elevados juros, as suas responsabilidades nos erros de falta de visão que conduziram ao desmoronamento de vários Estados no norte de África e Médio Oriente.

Fica ainda claro que a UE tem estado muito mais preocupada em gerir os calhamaços das finanças do que em preocupar-se com o bem-estar económico dos seus povos e as soluções políticas que o possam determinar. Por isso, desde há anos, é um risco para as lideranças perguntarem aos eleitores o que quer que seja sobre consolidação e federalização do projeto europeu, com todos os referendos realizados a terem resultados inversos aos pretendidos.

É justo recordar que o projecto das comunidades europeias nasceu como uma construção de paz entre nações (França, Alemanha ocidental, Itália, Benelux e, mais tarde Reino Unido) que se guerrearam ao longo de séculos e a um ponto de exaustão por duas vezes nos últimos cem anos.

Mas também convém recordar que as Comunidades Europeias que antecederam a UE foram uma construção política para impedir a expansão do ideal comunista no ocidente europeu e a afirmação da URSS – um panorama que desapareceu há um quarto de século mas que alguns, nas mais altas instâncias europeias, teimam em continuar a ver na Rússia post-soviética.

As memórias dos tempos difíceis vão-se atenuando, sobretudo entre as lideranças nacionais e europeias que trataram desvalorizar a importância da coesão e da solidariedade entre os povos. Submetidos a elevadas provações e percas de soberania (onde vai a subsidiariedade de há anos atrás?) em nome de valores incompreensíveis e por isso recusados.

O resultado do referendo britânico é também um sintoma do mau estar que alastra pela Europa da UE. Fracturas que agora serão agora mais facilmente expostas: a deficiente resposta ao problema das dividas públicas, a imposição dolorosa das regras do pacto orçamental com o recurso a ameaças de sanção, as indefinições perante os problemas dos refugiados e da emigração, o terrorismo… Um poder formalmente sediado em Bruxelas, mas com a real capacidade de decisão entregue a um directório cuja última palavra é alemã.

Last but not least. A liderança (conservadora) britânica demonstrou mais uma vez a grandeza da sua secular democracia. Tal como no referendo sobre a independência da Escócia, de Setembro de 2014, foi o povo quem escolheu. Quantas vezes se perguntou por cá aos eleitores, como aliás em muitos outros países da UE,  sobre matérias de tão grande magnitude como a integração europeia? E quando essas promessas feitas, logo foram esquecidas!

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Os Valores Democráticos

Papel higiénicoÉ extraordinário o coro ocidental de elogios ao falecido rei Abdullah da Arábia Saudita que descobrem como um dos seus. Um defensor dos valores democráticos, coisa que ele nem sabia o que seria, como o secretário -geral da ONU, Ban Ki Moon, teve o cuidado de recordar. Provavelmente têm razão, os valores democráticos do Ocidente são uma tábua de logros, pronta a usar para os passar a ferro conforme as conveniências de momento. Só assim se podem compreender os encómios a semelhante personagem.

Descobrem qualidades democráticas de envergadura na sua governação como rei absoluto de um país onde a pena de morte está sempre no horizonte de quem ousa desafiar um poder discricionário que se rege pela sharia aqui, pelos vistos, abençoada e tolerada pelo ocidente dito democrático que a condena noutras paragens do Médio Oriente.

Não é preciso recuar muito no tempo para se tirar a temperatura democrática da Arábia Saudita. Recentemente um crítico da Casa Saud e mitigadamente da fé islâmica. Foi condenado a dez anos de prisão e a sofrer 1000 chibatadas em doses públicas de 50 chibatadas durante 20 semanas, depois das orações de 6º feira, para tudo ficar na graça de Alá. Um feito, entre muitos outros, que fazem Abdullah ser lembrado como um rei democrata não só pelo secretário-geral da ONU, mas também por John Kerry e, como tal, com direito a bandeiras a meia haste no Reino Unido.

Aliado de sempre do Ocidente, ou não fosse ele o elo mais seguro da ligação intima entre o dólar e o preço do crude, os celebrados petrodólares que vão sustentando a mentira da economia norte-americana, conhecido financiador de grupos islamitas radicais, da Al-Qaeda ao Estado Islâmico apesar de uma lei promulgada em 2013, proibindo o financiamento de grupos terroristas, para aliados se calarem. Todo o mundo sabe que a Casa Saud, seguidora e impulsionadora do radicalismo wahabita, continua a despejar centenas de milhares de dólares nos bolsos dos radicais islâmicos. É por este tirano que os sinos ocidentais dobram!

Vale tudo para essa gentalha ocidental sem qualquer dignidade ou princípios. É assombroso, nauseante, se alguma coisa ainda nos possa espantar do cinismo e hipocrisia dos países defensores dos valores democráticos ocidentais, que Christine Lagarde, se una a esse coro apologético, para lembrar Abdullah como um defensor dos direitos das mulheres! Isto num país onde as mulheres são proibidas de conduzir, têm o direito a voto muitíssimo controlado, onde mesmo quatro das filhas de tão democrático monarca foram condenadas a catorze anos de reclusão porque ousaram reivindicar um mínimo de direitos, nessa sociedade duramente tutelada pelos homens.

O próprio Abdullah ao ouvir essas louvações deve dar voltas e reviravoltas no túmulo. Não vai ter mais descanso!

Morre agora esse contumaz violador dos direitos humanos, amortalhado por valores democráticos que nunca defendeu em vida. Um imundo e pestilento espectáculo que diz tudo sobre os dirigentes do mundo ocidental e da sua corte.

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