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NOTAS DE VIAGEM /PINTURA DE JOSÉ MOUGA na casa da Cultura em Setúbal

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NOTAS DE VIAGEM de José Mouga está até 5 de Novembro na Casa da Cultura de Setúbal. È mais uma exposição importante, das muitas que José Teófilo Duarte tem organizado nesse espaço, que o dignificam e o colocam na lnha da frente das galerias de exposições temporárias de Setúbal. Um oásis que José Teófilo Duarte planta, cuida e faz crescer, num panorama quase deserto de ideias e qualidade.

É uma exposição que marca uma novo caminho na pintura de José Mouga, um pintor sem mestre mas com mestres, em que um dos mestres é o próprio José Mouga que interroga sem complacência o que o José Mouga está a pintar, que caminho está a descobrir e como o está a fazer. Assim a pintura de José Mouga é uma permanente redescoberta, com percurso muito próprio que sem se deixar inscrever em nenhuma escola ou tendência se relaciona com elas sem por elas se deixar limitar. Como escreve Rui Mário Gonçalves no catálogo da exposição “Observa-se a pintura de José Mouga e não se encontra logo o modo com que devemos falar dela. Refiro-me à sua obra em geral. Cada quadro seu é uma superfície invasora(…) A pintura de Mouga , na sua imediatidade visual e voluntária elementaridade é uma pintura exaltante, ajuda a ser alegre (…) de muitos modos se pode falar dela, mas eu penso que sempre com alegria.”

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Estas Notas de Viagem, marcadas por visões de ciprestes “belos como linhas e como proporções, tal como um obelisco egípcio” ( Van Gogh) que José Mouga foi recuperar à sua memória longínqua, aos registos que fez quando jovem soldado miliciano que já se fazia acompanhar de um caderno de capa preta, igual aos cadernos de capa preta que nunca o abandonaram, onde os desenhou como os olhos os viam e como os olhos os imaginavam. Abandonados, mas não esquecidos, durante anos em que ficaram sepultados nesse caderno de juventude, ressurgem agora em todo o seu esplendor, em mais um diálogo entre o jovem Mouga, com anos de saber da pintura, da prática da pintura e o velho Mouga que questiona o trabalho que está a ser realizado. Como sempre o resultado é surpreendente. Mais surpreendente para quem não acompanhou, ao longo dos anos,. a sua pintura que é uma das mais importantes da história de arte em Portugal, como resumidamente escrevi no texto que fiz para o catálogo.

josé Mouga

Os anos 70 em Portugal foram anos de ruptura nas artes. Nas artes plásticas, a pintura começou a ser posta em questão. Nesse processo vários artistas optaram ou por aprofundar as gramáticas pictóricas das abstracções em que a linha e a cor se tornavam obsessivamente dominantes ou por figurações que olhavam para o modelo, fosse paisagem ou figura humana, descobrindo novas lógicas.

José Mouga é um dos artistas centrais nesses anos de ruptura. Sem nunca abandonar os pressupostos teóricos que sustentam a materialidade da pintura, esteve sempre aberto à pesquisa, ao amplo conjunto de possibilidades que a pintura lhe proporcionava. O seu acto de criar foi e é uma investigação que constrói com a pintura, pensando-a e realizando-a. Um percurso de invenção, como se tivesse o propósito de construir o mundo, de nos dar a ver esse mundo como presente que também é todo o passado e todo o futuro, como disseram Fernando Pessoa e T.S.Elliot.

A pintura de José Mouga, seria interessante e instrutivo organizar uma exposição senão retrospectiva pelo menos antológica da sua obra, tem processos de observação, descrição e representação que colocam problemas que o pintor equaciona sem ter resposta definitiva mas que fornecem aos seus espectadores ferramentas para os decifrar.

Uma pintura em que as geometrias variáveis, das figurações abstractas ou figurativas, têm origem nas transformações culturais, nos saberes pictóricos que José Mouga experimenta e atravessa para encontrar insistentemente a necessidade de as transmitir para as telas onde não há acasos, mas uma forte relação entre a visão, a percepção, entre o que vê enquanto coisa concreta e coisa mental, que usa a pintura como uma grelha de referências, uma estrutura do pensamento visual.

José Mouga tem uma constante necessidade de experimentação, de procura. Uma lógica que o obriga a por sempre em causa os procedimentos anteriores para os integrar em novos procedimentos que vão construindo o seu caminho, assumindo os riscos que o futuro sempre coloca enquanto é desconhecido e não se materializa numa tela, em muitas telas.

Esta exposição de José Mouga responde cabalmente a uma questão que tem atormentado nos últimos decénios as artes visuais. Estaremos a viver o tempo do fim da pintura ? Ou mais contidamente, e agora, a pintura? A resposta, uma das respostas está nestas paredes, nestes quadros, nesta exposição que afirma que a pintura continua inquestionável. Que o seu potencial narrativo, tanto na abstracção como na figuração, comunica directamente connosco, é o grão de verdade semeado num mundo inconsequente nos múltiplos ruídos comunicacionais, visuais e sonoros, que o afundam na irracionalidade, na alienação.

Esta exposição de José Mouga é a evidência do recomeço eterno da pintura.”

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TRAMPOLINICES

ImagAtalante e MeleagroAtalante e Meleagro caçando o Javali de Cálidon, Peter Paul Rubens ( imagem cedida por MNAA/DGPC)

Alertado por um amigo meu, uma das grandes autoridades das artes em Portugal, fui ao Museu Nacional de Arte Antiga visitar a muito propagandeada exposição RUBENS, BRUEGHEL, LORRAIN. A Paisagem Nórdica do Museu do Prado.

Já ia com um pé, para não dizer os dois pés atrás, depois de ler a nota de Imprensa do MNAA e as notícias nos jornais. Esta parceria entre o MNAA e o Museu Nacional do Prado, que é descrito e muito bem, como o mais importante de Espanha e um dos mais importantes do mundo, com a intermediação da Everything Is New, tinha um leve cheiro a trimetilaminúria.

Na referida Nota de Imprensa lê-se: “ A Everything Is New volta a apostar na produção de uma grande exposição, após o sucesso da primeira experiência realizada no Palácio Nacional da Ajuda onde foram batidos recordes nacionais de visitantes, com Rubens, Brueghel, Lorrain, A Paisagem Nórdica do Museu do Prado, o MNAA inicia um novo caminho na produção de grandes exposições associando-se à produtora cujo rigor e profissionalismo na organização de eventos se encontram completamente reconhecidos, possibilitando a otimização dos circuitos difusores e um acréscimo de eficácia na relação com o turismo nacional”. Texto em estilo futebolistico, escrito segundo as regras do novo acordo ortiográfico. A referida primeira experiência e incursão da EIN nas artes “que bateu recordes nacionai de visitantes” foi a exposição kitch da nossa adorável Joaninha que começa a competir em popularidade com o Tony Carreira pela mão e pelo pé de Álvaro Covões, senhor de grandes saberes circenses adquiridos com os seus antepassados. Não se enganou ao escolher a Joaninha que, depois de bem amestrada, lhe deve proporcionar chorudos ganhos. Está tudo certo, a grande arte para ele é o cacau! O que já não está certo é o MNAA embarcar nesse ferry-boat, apresentando como uma exposição de extraordinária importância, uma exposição simpática, agradável em que dois grandes pintores, Rubens e Lorrain estão pouco representados, embora com obras notáveis, e os Brueghel, os filhos e netos do ausente Pieter Brueghel, o Velho, esse sim um extraordinário pintor, que viveram, pintaram e tiveram êxito à sua sombra, levam ao engano pelo uso legítimo do apelido. O que não é legítimo é o título enganador.

Claro que a exposição nunca é gratuita. Uma exposição trombeteada como coisa extraordinária e rara, conseguida com o suor do “rigor e profissionalismo na organização de eventos” transposto para as exigências das indústras criativas e culturais que não deixam ver arte à borla, chão que já deu uvas. O Covões não está ali para perder grana. Ele é como a Formiga Bossa Nova do Alexandre O’Neil (*). Não lhe causa urticária alguma a intrujice de esta ser uma exposição representativa da Paisagem Nórdica do Museu do Prado.

Como diz esse meu amigo, esta exposição, que um bom marquetingue elege como singular, inusual e incomum “é uma exposição destinada às cidades de província espanholas”, circuito em que Lisboa agora já se pode inscrever.

Claro que isto não anda desligado de tudo o resto que se passa em Portugal, onde se tornou vulgar vender gato por lebre e na cultura ser contumazmente ignorante, falacioso, sem príncipios como se viu agora com o caso Miró, sobre o que escreveremos em breve.

Enquanto os deixarmos esse bando de pantomineiros que me mede tudo pela bitola do cifrão, vai delapidando Portugal, tanto física como eticamente.

Na imagem: Atalente e Meleagro Caçando o Javali em Cálidon/Peter Paul Rubens 

(imagem facultada por MNAA/DGPC)

(*) (…) Assim devera eu ser:

de patinhas no chão,

formiguinha ao trabalho

e ao tostão.

Assim devera eu ser

se não fora

não querer.

(-Obrigado, formiga!

Mas a palha não cabe

onde você sabe…)

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A minha Casa é a Pintura

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Hoje inaugura-se na Casa da Cerca, – Centro de Arte Contemporânea, / um centro de artes pensado, desenhado, dirigido por ele durante muitos anos) a primeira grande exposição de Rogério Ribeiro, depois da sua morte wm 2008. Exposição a não perder que nos faz (re)descobrir o prazer que a arte nos proporciona. para a assinalar e para celebrar esse grande artista e homem que foi Rogério Ribeiro, fui á gaveta das memórias buscar este texto que escrevi na (maldita) oportunidade da sua morte.

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ROGÉRIO RIBEIRO

 A PINTURA

COMO TEATRO JUBILATÓRIO DO MUNDO

Rogério Ribeiro foi um artista em movimento perpétuo alimentado por um imenso amor à pintura. Atravessou a vida a desenhar e a pintar o que lhe era tão essencial como o bater do coração ou respirar o vento das lutas que vão construindo o homem e animavam a sua mão prodigiosa inventando a realidade de paisagens naturais e humanas que preenchem algumas das páginas mais sublimes da história de arte portuguesa

Foi homem de projectos, inúmeros projectos em várias frentes de trabalho do mesmo trabalho de transmitir a sua enorme paixão pela arte, produzindo, mostrando, ensinando. A morte essa flor que só se abre uma vez, que quando abre nada se abre com ela, abriu-se no lugar geométrico dos trabalhos que estavam a sair da mesa da imaginação do Rogério Ribeiro para lhe lançar uma sombra definitiva que os oculta dos nossos olhares sempre suspensos pela sua capacidade de nos dar a ver as estórias em que afirmava a certeza de acreditar na arte, no futuro da arte, no futuro da humanidade.

em finais de Janeiro encontrámo-nos na inauguração de uma exposição. mudara de atelier pintava uma série de que conhecera os primeiros trabalhos e que tinha sido iniciada em finais do ano anterior estava a fazer estudos para um S. Sebastião que lhe tinham encomendado para uma igreja o S. Sebastião estás a ver aquele suplício de onde se desprende uma sensualidade que quase anula o simbolismo do sacrifício conheces um texto Mishima que incide exactamente sobre a névoa que se instala na fronteira entre o martírio e o prazer e que ele sublinha ao ter a sua primeira experiência sexual aos pés da imagem torturada do S. Sebastião somos perseguidos pelos japoneses ria-se naquele seu jeito muito próprio não conheço traz-me esse texto.

 

Seriam telas, tapeçarias, papéis, painéis azulejares ou mesmo simples enunciados que, com grande economia de palavras, rasgavam luminosos horizontes. Coisas ainda em esboço, ainda rascunhadas outras quase definitivas, que iriam completar o imenso legado que o Rogério Ribeiro nos deixou construídas como ele próprio dizia “numa permanente tensão entre a “obrigação” da narrativa e a “traição” da pintura, a zona mais intensa do amor, do prazer, do gosto pelo puro pintar.

Na sua pintura coexistiam, coexistiram e cruzavam-se sempre esse gozo e prazer de pintar com a livre amarração a uma narrativa que não era um bordão, mas o chão úbere de onde nascia a pintura, o desenho, mesmo quando se iria situar nas fronteiras da mais absoluta abstracção. Essa necessidade narrativa é sempre evidente quer os textos existam, “Até Amanhã Camaradas” de Manuel Tiago, “Liberté” de Paul Eluard, nas crónicas de Fernão Lopes sobre a Revolução de 1383-1385 decifradas por António Borges Coelho, “Ícaro”, do “Livro Oitavo das Metamorfoses” de Ovídio, “ Triunfo do Amor Português” de Mário Cláudio, “O Ano de 1993” de José Saramago, ou sejam escritos por ele e estejam impressos como na exposição “Desenhos Recentes” (2003-Casa da Cerca), pungente poema “a morte não mata a dor” ou estejam indiciados nos títulos das exposições, “O Atelier, A Paleta, Os Anjos, o Pintor”, “Um Quadrado Azul, um Potro, Sete Bruxas, Sete medos, Alguns Valentes e um Pintor”, “Mudam-se os Tempos, Ficam as Vontades” ou “O Pintor e a Leitura”. Textos que convergem com a imagem para delimitar um espaço teórico onde, em todos os desenhos, pinturas, gravuras que completam as séries, se desenvolve uma iconologia em que a pintura e o desenho, sobrevoando o texto que é a sua água subterrânea e a ideologia que é a sua pulsação, se afirmam como um objecto estético que tem uma finalidade em si sem denegar a circunstancialidade temporal, socialmente balizada, do acto criativo.

os  japoneses perseguem-nos lembras-te quando em Leipzig entramos na igreja de St. Thomas e estavam a tocar uma Paixão do Bach tocavam esplendorosamente para lá de um qualquer virtuosismo como se estivessem possuídos pela mesma fé do Bach era evidente que não tinham ali ficámos a ouvi-los suspensos do lugar e da música deste-me dei-te anos muito mais tarde um cd dessa Paixão a de S.João onde era bem evidente que tocavam muito para lá do brilhantismo tantas vezes superficial de outras interpretações dei-ta para recordarmos esse momento mágico de uma viagem com outros momentos mágicos como aquele em Dresden quando entrámos numa sala do Museu e ficámos paralisados de assombro a ver vários auto retratos do Rembrandt não os sabíamos ali dei-te o cd na inauguração de uma exposição das tuas ilustrações ao Ano de 1938 do Saramago ficámos os três a falar sobre como o tempo retira às artes o seu valor de uso imediato muitas vezes para que foram intencionalmente feitas para manter todo o seu poder de assombro nas mãos tínhamos a evidência daquela orquestra japonesa distante do objectivo religioso porque Bach tinha composto aquela obra prima

Rogério Ribeiro era um extraordinário chefe de equipa sabendo ouvir e estimulando todos os intervenientes com o seu saber, a sua imaginação, a sua capacidade de encontrar soluções, a sua leitura da planificação do tempo para cumprir o objectivo. Na Festa do Avante!, a viajar do Jamor para a Ajuda até se fixar na Atalaia, foi encontrando soluções que resolviam brilhantemente os meios rudimentares em que se ancoravam as mil e uma exigências de um acontecimento impar em dimensão e variedade de valências.

Tal como na memorável exposição que desenhou para o Pavilhão dos Desportos ( hoje Carlos Lopes) a comemorar os 60 anos de Luta do PCP e que transformou aquele espaço num extraordinário e inesquecível percurso.

Era um saber que tinha apurado noutros trabalhos. Na coordenação do projecto de remodelação das salas de pintura no Museu de Arte Antiga depois de ter integrado a equipa de Sommer Ribeiro para o Museu Gulbenkian e dirigir o sector de arquitectura de interiores do atelier de Carlos Roxo, Carlos Tojal e Manuel Moreira. Saber que depois de Abril irá transmitir na então Escola Superior de Belas-Artes reestruturando o ensino do Design.

Saber, cultura e capacidade de organização que irá plasmar num seu projecto antigo, muito desejado e que conseguiu realizar em Almada, montando um Centro de Arte Contemporânea, a Casa da Cerca, exemplar tanto no tratamento dos espaços interiores e exteriores como na programação que se impõe sobretudo num tempo em que outros espaços com muitíssimo mais meios se derretem em mediocridades mundanas ao correr das modas que um dia serão varridas pela História.

Saber, cultura, imaginação e capacidade de trabalho transbordante que marcava encontros connosco nas inúmeras exposições individuais e colectivas que realizou, nas tapeçarias e painéis cerâmicos em vários edifícios públicos e em vários lugares do mundo. Que, no meio de tanta actividade, tinha sempre tempo para a intervenção cívica e política e nunca dispensava estar com os amigos.

tínhamos encontro marcado para te levar as Confissões de uma Máscara e para me mostrares o que estavas a fazer pretexto para falarmos falarmos sem norte para no tapete das palavras se acrescentar mais e mais iluminação interior ao prazer de conviver de nos sabermos vivos possuídos de indignações adolescentes com o pantanal em que se afundam os que nos querem lixar sonhos e a vida apesar de tudo a alegria de viver em que insistimos conhecedores de um mundo futuro que provavelmente nunca viveremos tenho o Mishima fechado à minha frente estou a ouvir a Paixão segundo S.João pelo Bach Collegium do Japão

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Antoni Tápies, a pintura como matéria

O pintor e escultor catalão Antoni Tàpies, considerado um dos maiores representantes europeus da arte abstracta do pós-guerra, morreu nesta segunda-feira, aos 88 anos, em Barcelona.

O seu percurso é bastante original. Empurrado pelo pai para estudar Direito, em 1942 uma lesão pulmonar interrompe os estudos e obriga-o a ficar internado durante quase dois anos. Começa a copiar Van Gogh e Picasso. O seu médico, quando sai da clínica, abandona o curso de direito e vai para Pais, estabelece contacto com Picasso. Mas são os surrealistas que o fascinam bem como o existencialismo, então no seu apogeu, com Sartre e Beauvoir a pontificarem nas tertúlias filosóficas, enquanto Breton é o papa do surrealismo. Vivendo esse ambiente efervescente, faz colagens, pinta, embrenha-se na filosofia budista e na literatura surrealista, faz amizade que durará para sempre com Miró. É um complexo caldo de cultura por onde vai fazendo o seu caminho sobre as leituras do período em que esteve retido no sanatório, quando a sua atenção se concentrava em Nietzsche, Dostoievsky e na música de Wagner.

Funda um grupo Dau el Set, que abandona três anos depois quando começa a explorar novas técnicas de desenho, colagens sobre plásticos, litografia, trabalhos em bronze, cimento e cerâmica.

Em 1960, Tàpies participou numa mostra da nova pintura e escultura espanhola no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque e esteve representado na exposição “Before Picasso, After Miró”, do Museu Guggenheim da mesma cidade. É o reconhecimento internacional desse artista que se integrava na tradição cultural da Catalunha, com uma dimensão política simultaneamente autonómica e contra o franquismo (foi preso em 1966), numa altura em que a sua obra, utilizando materiais inusuais, explora fundamente a matéria. Em que os seus quadros estão sempre a escapar-se à limitação bidimensional e aos materiais e técnicas da pintura tradicional. Os materiais que usa apoderam-se da superfície pintada, como se o seu olhar pairasse sobre a terra, recuperando territórios que, deixando intocada a riqueza das suas texturas vão reviver nas suas “telas”, seja qual for o seu suporte.

Foi também um importante teórico, acreditava que “a pintura só valia a pena se fosse útil à sociedade, porque senão não valia a pena fazê-la”,  e um grande divulgador da arte contemporânea através da Fundação Antoni Tápies, que fundou 1990.

Em 2004, quando a audição e a vista fraquejavam, disse numa entrevista ao El País “A morte está sempre no jogo dos opostos. Na vida fazemos separações: o que chega e o que parte, o alto e baixo, o espiritual e o material”. Foi assim que este artista autodidacta sempre viveu. Continuar a ler

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Cultura

Pesadelos oníricos

Nos finais do século XV, em Itália iniciava-se o Renascimento. A cultura e as artes trilhavam novos caminhos. Marcavam o fim da Idade Média feudal e o aparecimento da era capitalista. Um poeta extraordinário, Dante, é, ao mesmo tempo, o último poeta medieval e o primeiro poeta dos tempos modernos. Na Divina Comédia, ainda estão as visões apocalípticas, as danações, que aguardam os homens que não resistem às tentações e não podem aspirar à redenção que premeia os homens bons e os santos.

O pintor que melhor materializou, em pinturas e desenhos, esse ambiente sombrio da Idade Média, foi Hieronymus Bosch (1450-1516). Sob a influência de uma forte formação religiosa e vivendo sob um céu cinzento e baixo “ que é preciso perdoar-lhe”, pinta um mundo decadente, corrupto, putrefacto retratado em animais e humanos grotescos que representam as cenas mais desconcertantes, horrores anunciando a chegada do Anti-Cristo, prenunciando o Juízo Final.
Bosch imagina cenas macabras, com monstros imaginários e catástrofes de diversa natureza, transforma o bizarro em arte, o horrível em belo. É um alucinado, de pesadelo oníricos que é considerado um percursor dos surrealistas
Só existem sete quadros com autoria confirmada. Um deles está no Museu Nacional de arte Antiga, A Tentação de Santo Antão (1495-1500). Existem dezasseis cópias/réplicas deste quadro, mas só uma, a que a está no Museu de Arte de São Paulo é atribuída a Bosch, à oficina de pintura de Bosch.
Agora, até 25 de Setembro é possível ver e confrontar esse tríptico com o do juízo Final e os das Provações de Job, expostos pela primeira vez em Portugal.
É uma exposição, realizada em parceria com o Museu Groeninge (Bruges, Bélgica), a cuja colecção pertencem os outros dois trípticos.

CONFRONTOS: BOSCH e o seu CÍRCULO

Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Em todas as visitas nocturnas (entrada gratuita) encontram-se patentes as galerias de pintura europeia, artes decorativas europeias e ourivesaria francesa.

Visitas orientadas para grupos
Terça-feira (tarde), Quarta a Sexta-feira (manhã e tarde)
Limitadas a 30 pessoas, inscrição por ordem de chegada

Visita à exposição temporária.
Com marcação prévia através de e-mail mnaa.se@imc-ip.pt ou telefone 213912800. Indicar nome e telefone da entidade, nome e telefone do responsável pelo grupo, número de participantes, dia e hora pretendidos.
Acções Destinadas a Educadores e Professores
Sábado, 3 Setembro | 10h30-13h00
Sábado, 17 Setembro | 14h30-17h00

Horário do Museu
3ª feira: 14h00-18h00
4ª feira a Domingo: 10h00-18h00
Encerrado às 2ªs feiras, 3ªs feiras de manhã
5ª feiras aberto até às 23h30, encerra das 18h00 às 20h30

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Cultura

Lucien Freud (1923-2011)

Em Londres, para onde se tinha exilado nos anos 30 escapando ao nazismo, morreu ontem à noite, aos 88 anos, Lucien Freud. É o grande renovador da arte figurativa e a sua influência é enorme em todos os pintores figurativos do século XX. Lucien Freud, pintor de retratos e nus, despe-os de todo o romantismo. Dramatiza-os, explora as suas idiossincrasias, mergulha no âmago da intimidade para contaminar a forma.

“Eu pinto pessoas. Não para mostrar como elas são, mas sim como parecem para mim. Minhas telas têm a ver com esperança, memória, sensualidade e, principalmente, envolvimento.” escreveu no catálogo da tate Museum, em 2002.

Freud, pinta retratos e o corpo humano de forma crua sem complacências, sem idealizações nem sentimentalismos. São figuras eróticas e grotescas sempre capazes de nos fascinar. Por detrás do olhar impiedoso com que retrata o mundo estava um grande artista e homem generoso.

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