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O FADO

Depois do flamenco e do tango o FADO é agora património imaterial da humanidade. Nada mais justo. Será de valorizar quatro nomes que estiveram na primeira linha dessa luta.: Carlos do Carmo, Mariza, Sara Pereira, directora do Museu do Fado e Rui Vieira Nery. Dois cantores incontornáveis, a dedicada e competente directora do Museu do Fado, um musicólogo que, entre muitos outros trabalhos relevantes, tem traçado, com o rigor e o conhecimento sempre presentes nas suas invertigações, a história do fado. Para celebrar esse sucesso escolhemos quatro fadistas de quatro gerações diferentes: Alfredo Marceneiro, Amália Rodrigues, Carlos do Carmo e Camané, este num cena do filme “Fados” de Carlos Saura.

Nas músicas e nas letras dois nomes que deram um contributo decisivo para a evolução do fado. Alain Oulman, que recorrendo, a grandes poetas portugueses, marcou uma viragem na música do fado e na carreira, já então excepcional, de Amália Rodrigues, provocando uma alteração tão grande que os músicos acompanhantes da fadista comentavam jocosamente, quando iam tocar um desses fados, “agora vamos tocar as óperas”. O outro nome é o de Ary dos Santos que recupera continuadamente o valor poético para as palavras do fado que, na altura, se arrastavam pelos mais planos e desinteressantes textos.

Não encontrámos um dos fados de Alfredo Marceneiro que queríamos inserir e desmentem o marialvismo que, vulgarmente, se cola ao fado. Nem sempre, mesmo nos fados mais tradicionais é assim. Querem verso mais anti-machista que “ na vida de uma mulher há sempre um homem qualquer”? O fado hoje é nosso e de todo o mundo.

ALFREDO MARCENEIRO

AMÁLIA RODRIGUES

CARLOS DO CARMO

CAMANÉ

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Música no Dia de Todos os Santos

No Dia de Todos os Santos, esta música em que os crentes se deslumbram perdendo o horizonte da fé e os não crentes, como eu, encontram o sublime prazer da música sem atender o objectivo com que foi produzida. A magnificencia perfeita desta missa de Ockeghem comprova que a arte desconhece o progresso. A música ( ou a pintura ou a literatura) que séculos depois foi genialmente escrita não torna obsoleta a que lhe é anterior.

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Cultura

Jacques Brel – 7


A sul de qualquer norte, Jacques Brel corre atrás dos sonhos É Jacky que em Knokke lê Zoute  canta para mulheres fatais / com voz de acordeão / em argentino de carcassone para melhor exibir a virilidade a gajas fáceis, maquilhadas como árvores de natal / e cantará em cada noite as canções do tempo em que se chamava Jacky // que tinha os seus dias de ilusão julgando-se governador de Macau/ rodeado de lânguidas mulheres e traficando ópio / ou até ser considerado mestre cantor cantando as suas canções a caminho do paraíso para mulheres com asas brancas lamentando o tempo que viveu na terra e ficar no céu entre Deus Pai e Deus Filho a engendrar um paraíso onde os anjos, os santos e o diabo lhe cantarão a sua canção a canção do tempo em que se chamava Jacky em que tinha a sua hora da sorte, uma hora que só acontece algumas vezes e que afinal é a hora em que chega a sua vez de ser parvo.

É uma canção sempre a correr atrás das ilusões mesmo que só durem uma hora o tempo suficiente para Brel se encontrar, criticando o mundo da canção de variedades, uma certa de forma de estar na vida e as miragens que afinal tanto se plantam neste como no outro mundo.

JACKY

 

 

 

 

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Cultura

Jacques Brel – 6

 

Brel particulariza a crítica à burguesia salientando alguns dos seus espécimes. São as beatas que preservam a virtude defendendo-se do pecado e que envelhecem tão mais rapidamente quanto mais confundem o amor e a água benta. Exibem com tal convicção o seu fervor religioso que até o diabo se castra de raiva e deus perde a fé

LÊS BIGOTTES

As grandes famílias, os emblemas dos valores burgueses, são radiografadas sem complacências e Brel atinge um clímax de causticidade em Grand-Mére. A história de um triângulo constituído pelo Senhor, pela Senhora e pela criada é o pretexto para por a nu toda a hipocrisia das relações burguesas. Enquanto a senhora faz prosperar os negócios manipulando e corrompendo políticos e militares e tranquiliza a consciência pela prática da caridade, o Senhor, lamentando que esses espectáculos não promovam os valores sociais e espirituais na criada, persegue-a enganando a senhora. Ao fim de semana, quando os negócios da senhora entram de férias o senhor arrasta-se choramingando o remorso pelos quatro cantos da casa, é a vez de a senhora enganar o senhor com a criada, explicando-lhe que os homens são todos uns comediantes. Continuar a ler

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Cultura

Jacques Brel – 5

O amor em falência. As mulheres amadas que não chegam ou quando chegam o abandonam ou tornam a vida num inferno. A solidão que cresce à sua volta plantando desertos, torna Brel nostálgico das infâncias que correm atrás de improváveis faroestes, fora disso é a decadência que assume romanticamente. Exibe as frustrações, consente solidariedades fáceis dos que perseguem paraísos artificiais.

São os filhos da noite que se deitam com os primeiros alvores do dia e se levantam à hora das matinas. Elas com a arrogância de exibirem uns seios firmes e belos, eles com a segurança em que se advinha que os papás foram uns felizardos. Eles e elas consumindo as noites lavando melancolias que não sujam as mãos, contando poemas que não leram, romances que não escreveram, amores que não viveram, verdades que não servem para nada. O amor indispõe-os por isso consomem a noite bebendo o último uísque, dizendo a última palavra brilhante, dançando o último tango, vivendo o último desgosto e se principiaram a noite dançando com os olhos pregados nos seios da parceira, acabam-na chorando com os olhos sempre colados ao peito das sócias das noitadas. São os filhos da noite que amanhã terão noite igual a que se seguirá outra igual. Continuar a ler

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Cultura

JACQUES BREL – 4

HOJE, HÁ 33 ANOS, MORREU JACQUES BREL. REGRESSOU DO SEU EXíLIO VOLUNTÁRIO NAS ILHAS MARQUISE. GRAVA UM ÚLTIMO DISCO. MORRE UNS DIAS DEPOIS NUM HOSPITAL EM BOBIGNY. AINDA NÃO TINHA 50 ANOS!

Em Jacques Brel não se encontra uma única canção de amor paixão. Mesmo as que numa primeira audição se aproximam da canção de amor apaixonado como Ne me Quitte pás ou Chanson dês Vieux Amants, quando ouvidas atentamente são na realidade canções quase patéticas que retratam o amor miragem na procura de um absoluto impossível.. Canções patéticas mas belíssimas. Quem não foi, pelo menos uma vez na vida, quem não se sinta capaz de, pelo menos uma vez na vida voltar a ser  l‘ómbre de ton ombre / l’ombtre de ta main / l’ombre de ton chien, não viveu a vertigem do amor,. provavelmente, passou ao lado da vida. Continuar a ler

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