Política

A simpatia interessada pelo BE

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São coisas destas que me tiram do sério. Sim, posso até aceitar que fico com azia. Mas quem não ficaria, perante o fervor com que os media pegam ao colo no BE e lhe garantem a progressão que, de outra forma, muito dificilmente conseguiria. São absolutamente corretas as teses que defendem que o sucesso do BE mais não é do que uma construção erigida no espaço público pelos media, provavelmente manipulados por gente receosa do crescimento de outras forças de esquerda, mas seguramente orientados por uma fação jornalística que simpatiza, de há muito, com a política de causas patrocinadas pelo Bloco, com as quais ocultaram raízes ideológicas, de tal forma que hoje não sabemos, com rigor, onde se inspira este partido, embora recordemos as origens estalinistas e trotskistas que estiveram na sua base,acompanhadas pela admiração pelos socialismos albanês e chinês.

Pelo exemplo retirado do “Expresso” e mostrado acima se comprova que os “gatekeepers” continuam a aplicar a mesma seletividade de sempre. A mesma visão enviesada que os impede de cobrir uma ação do PCP, porque, dizem, “é sempre a mesma coisa”, “a mesma cassete”, o “mesmo discurso de sempre”.

Talvez seja, porque os problemas continuam a ser os mesmos: a precariedade, a exploração, o desemprego, o abuso patronal, os baixos salários, os ataques à contratação coletiva. A pobreza e a miséria.

É uma seletividade que cansa, porque sempre apontada na mesma direção.

Em particular porque sabemos quem é que está à frente das lutas nas empresas, quem é que organiza as ações reivindicativas nas ruas, quem é que cria condições, mais do que ninguém, para o desgaste da direita, que, nos sindicatos, trabalha afincadamente.

Claro que é necessário olhar para o reverso da medalha. E o que lá está, do ponto de vista da justiça das causas, do valor das ações, tem valor real muito elevado. Porém, o valor facial desse reverso, do ponto de vista da agilidade pública e mediática, continua a ser reduzido.

Nesse reverso está uma linguagem que, apesar de transmitir valores justos e corretos, é velha, embora aqui e acolá pontuada pela luminosidade de que só alguns protagonistas partidários são capazes. Uma linguagem associada a métodos de comunicação ultrapassados, ao esquecimento imperdoável das redes sociais, ignorando que, provavelmente, a esmagadora maioria dos jovens consome informação não na imprensa tradicional, mas sim em meios como o Twitter, o Reddit ou o Facebook. Veja-se o exemplo de Jeremy Corbin, o recém-eleito líder do Partido Trabalhista Britânico, que posta no Facebook boa parte das suas interpelações no parlamento ao primeiro-ministro conservador, as quais são baseadas, essencialmente, em questões que lhe são remetidas por cidadãos.

A popularidade mediática do BE é uma construção de “Gatekeepers” motivados por diferentes interesses, mas também não deixa de ser o resultado de algum talento e de uma inevitabilidade do funcionamento do espaço mediático: quem não ocupa lugar, perde-o. Ou seja, se não nos fizermos ouvir, outros serão capazes de o fazer por nós.

Não basta falar. É fundamental que nos façamos ouvir. E aí, mas só aí, o BE vai à frente…

 

Depois disto, é fundamental uma nota final em jeito de declaração de interesse. Não sou dos que diabolizam o BE. Acho até, como se veio a demonstrar, que são parte fundamental de uma solução de esquerda para o país que defendi com alguma intensidade nos últimos anos. Porém, é impossível não reparar nas abissais diferenças de cobertura mediática entre o BE e o PCP…

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Costumes, Media, Política

Ana Gomes e a idoneidade

As recentes afirmações da eurodeputada Ana Gomes sobre a idoneidade de Paulo Portas constituem um dos mais vergonhosos momentos da política portuguesa dos últimos anos.

É certo que Ana Gomes, ela própria um caso sério de (falta) de idoneidade, em especial depois destas declarações, faz já parte daquela galeria de inimputáveis do regime, liderada pelo impagável Alberto João Jardim, mas nem isso lhe dá o direito de lançar as mais absurdas suspeitas sobre quem quer que seja, em particular sobre quem não foi pronunciado ou condenado por nenhum crime. Nesta altura deveria dizer que não simpatizo especialmente com Paulo Portas, mas, na verdade, nem sequer é isso que está em causa. O que importa aqui é assumir uma posição de princípio sobre a relevância, ou não, de aspectos da vida privada dos governantes ou dos indigitados governantes para as actividades desenvolvidas no âmbito de uma esfera pública que resulta das actividades inerentes aos cargos políticos.

O que Ana Gomes fez, mais do que lançar uma suspeita, sejamos claros, sobre a suposta homossexualidade de Portas (ou pior, sabe-se lá…), foi lançar-lhe um sério aviso que, na prática, é uma ameaça. A única dúvida é saber se Ana Gomes é, de facto, uma franco atiradora isolada ou se as suas declarações resultam de uma estratégia elaborada a outros níveis. Seja como for, Ana Gomes é a personagem ideal para lançar estas ameaças sem ser levada a sério pela generalidade da opinião pública, ainda que tais ameaças sejam, de facto, para levar a sério pelos visados.

As declarações de Ana Gomes apenas têm paralelo no “Breve Manifesto Anti-Portas em Português Suave“, da autoria do falecido deputado socialista Carlos Candal, que, enquanto candidato por Aveiro à Assembleia da República, nas legislativas de 1995, enfrentou Paulo Portas nesse mesmo círculo eleitoral. Candal, porém, apenas insinua, levemente, mas com ligeireza, a suposta homossexualidade de Portas e fá-lo num documento de combate político em que ressalta uma extensa cultura política e conhecimento da realidade local de Aveiro, em oposição ao desconhecimento de Portas do que por ali se passava. Continuar a ler

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