Cultura

Ágape, Agonia

William Gaddis poucos livros escreveu. Em português, Alguém Lá Fora Parado (Chapenter’s Gothic) foi editado no Brasil e está esgotado há já algum tempo. Informação colhida na Book House- Centro Cultural Brasileiro — que raio para quê aquela entrada em inglês —  já lá vai quase um ano.

Agora a Ahab, uma pequena e recente editora que gravita fora da órbita dos grandes grupos editoriais, publicou Ágape, Agonia, um livro póstumo de Gaddis.

É um acontecimento editorial relevante que se regista com atraso de vários meses, apareceu nas estantes das livrarias em Junho, porque apesar dos vários impulsos não o deixámos ultrapassar a ordem arbitrária da nossa fogueira pessoal onde arde o imenso prazer de ler.

A Ahab divulga que brevemente irá publicar Chapenter’s Gothic. Fiquem atentos!Com este andamento e o que se anuncia o Pequod nunca naufragará e o seu capitão navegará para sempre.
Para quem ainda não leu Ágape, Agonia, aqui se deixa a primeira página que, temos a certeza, os fará correr até à livraria mais próxima.

Não mas compreendam eu tenho de explicar tudo isto porque não sei, não sabemos quanto tempo me resta e preciso de trabalhar no, de terminar este trabalho enquanto, bom trouxe para aqui esta pilha de livros apontamentos papéis recortes e sabe Deus que mais, tenho de pôr ordem nisto tudo deixar as coisas organizadas para repartir os meus bens e arrumar de vez com todas as preocupações e consumições anexas enquanto aqui estou para ser aberto e raspado e cosido e aberto novamente esta maldita perna olha para isto, toda coberta de grampos parece aquela armadura japonesa antiga da sala de jantar sinto-me como se estivesse a ser desmantelado peça a peça, apartamentos, casas de campo, estábu¬los, pomares e tantas decisões a tomar tantas distracções raios as partam tenho aqui algures neste monte de papelada os registos de propriedade as plantas as escrituras, pôr isto em ordem antes que tudo entre em colapso e seja devorado pelos advogados e pelos impostos como tudo o resto porque é disso que se trata, é disso que a minha obra trata, do colapso de tudo, do sentido, da linguagem, dos valores, da arte, para onde quer que olhemos só vemos caos e desordem, a entropia a tomar conta de tudo, tecnologia e entretenimento quando cada criança de quatro anos tem já o seu computador, cada um transformado em artista de si próprio donde é que (…)

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Cultura, Geral

No Centenário de Paul Bowles

 

foografia de Daniel Blaufuks, in "My Tangier"(Difusão Cultural)

 

Este ano comemora-se o centenário de Paul Bowles (1910-1999), músico e escritor norte-americano, viajante das sete partidas do mundo – numa das suas muitas entrevistas que explica a diferença entre turista e viajante e por que nunca seria turista: “ (…) a diferença tem a ver com o tempo. Enquanto um turista costuma voltar a correr para casa ao cabo de semanas ou meses, o viajante, que não pertence a um lugar mais que a outro, desloca-se com vagar, durante anos de uma parte da terra para outra (…) outra diferença importante entre o turista e o viajante é o turista aceitar sem reservas a sua própria civilização, mas o viajante não, compara-a com as outras e rejeita as que não lhe agradam – que, continuando a empreender longas viagens, estacionou em Tanger durante mais de cinquenta anos, com a sua mulher, a escritora Jane Auer. A sua casa tornou-se um pólo magnético para artistas de todo o lado, mas sobretudo e naturalmente norte-americanos. No hall do seu apartamento era normal empilharem-se malas de viagem de William Saroyan, Tenesse Williams, Losey, Gore Vidal, Visconti, Carson McCullers, William Burroughs, Cage, Ginsberg, Bacon, Kerouac, Dali, Orson Wells, um mundo inteiro de artistas atraídos não só pelo trânsito intelectual mas também pelo ambiente exótico de Tanger, cujo estatuto particular durante a guerra possibilitou a instalação e manutenção de um ambiente de grande permissividade sexual e uma certa liberdade no consumo de drogas.

Paul Bowles, escreveu contos, romances e novelas, da poesia abdicou a conselho de Gertrude Stein, em casa de quem nos anos 50 tinha estado em Paris, compôs música para filmes. Uma ópera sua, “The Wind Remains the Same” foi mesmo estreada em Nova Iorque com a direcção de Leonard Berstein, divulgou escritores marroquinos, fez recolhas musicais no norte de África.

É sobre este intelectual de vida intensa, iniciada ainda antes da adolescência e que se prolongou por quase noventa anos, e múltiplos interesses que é uma das personalidades fascinantes do século XX, um século de tempo escasso para tanta gente e acontecimentos marcantes, que de 21 a 23 vai decorrer em Lisboa, um colóquio multidisciplinar “Do you Bowles I”. Na Faculdade de Letras, especialistas da obra de Bowles, vindos de todo o mundo, farão comunicações, enquanto na sua biblioteca acontece uma exposição bibliográfica intitulada “Pirates at Heart”. Na Cinemateca estreia-se o filme “You Are Not I” de Sara Driver e documentários de Jean Martin Domingues e Karin Debbagh e no Museu do Oriente realiza-se um concerto com António Rosado, Anabela Duarte e Richard Horowitz.
Paul Bowles é bem conhecido em Portugal. A sua obra literária está quase toda editada, o filme de Bertolucci “O Chá no Deserto”, baseado no livro “O Céu que nos Protege” obteve bastante sucesso e, em 2007, o Centro Cultural de Belém dedicou-lhe uma semana multi-disciplinar tendo como centro dinamizador uma exposição de fotografias de Daniel Blaufuks do livro “My Tangier” com belíssimas fotos do escritor e dois textos seus inéditos, escritos expressamente para essa publicação. Continuar a ler

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Cultura, Setúbal

“O Segredo de Miguel Zuzarte” de Mário Ventura na RTP1

Mário Ventura Henriques é um nome grande da literatura portuguesa contemporânea. Grande mas frequentemente esquecido. Jornalista de profissão e autor de uma importante obra literária, iniciada com a publicação de “A Noite da Vergonha”, em 1963, Mário Ventura é detentor de um curriculum literário que se prolongou por obras tão significativas e referenciais como o romance “Vida e Morte dos Santiagos”, Prémio Pen Clube Português em 1985.

Jornalista e escritor a que, para nós, em Setúbal, se juntou a função de agente cultural, na qualidade de fundador, em 1985, do FESTROIA – Festival Internacional de Cinema de Troia, um dos mais egrégios certames cinematográficos nacionais, de que foi director até à sua morte em 2006. Alguém que juntou à sua carreira profissional e literária um percurso de resistência anti-fascista e afirmação política. O município sadino reconheceu o seu valor atribuindo-lhe, em 2001, a Medalha de Honra da Cidade.

Aqui se saúda a lembrança da RTP de produzir uma mini-série televisiva de dois episódios, a partir da adaptação de uma obra de  Mário Ventura, “O Segredo de Miguel Zuzarte”, dada à estampa em 1999. A série, da responsabilidade da produtora HOP,  é exibida na RTP1 nos dias 9 e 10 de Outubro. A adaptação integra-se no espírito das comemorações do centenário da República.

Tal como parte significativa das obras do lisboeta M.Ventura, a história passa-se no Alentejo, por ocasião da implantação da república. Centra-se na figura de um jovem telegrafista monárquico que, tendo recebido a notícia da vitória republicana, corta a ligação (o telégrafo) da aldeia ao mundo.

Quatro anos após a sua morte, é bom (re)ver Mário Ventura na televisão portuguesa!

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Cultura, Geral

VARGAS LLOSA, Nobel Literatura 2010

Os prémios têm a particularidade de fazer justiça, cometendo injustiças. Vargas Llosa, foi este ano distinguido com o prémio de maior notoriedade mundial, o Prémio Nobel da Literatura.

Justíssima decisão que tardava e que deixa de fora uma plêiade de escritores que mereceriam igualmente receber o Prémio. Quer dizer, o justiçado do ano de 2010 foi durante anos injustiçado e sendo-lhe atribuído o prémio foram vários os escritores injustiçados. Alguns deles, como muito outros antes deles, morrerão sem serem contemplados ficando sempre sentados no átrio dos pretendentes. É esse, será sempre esse, o pecado original dos prémios. Há que sublinhar que o laureado de 2010 é indiscutível, o que nem sempre acontece.

Vargas Llosa é um escritor que, quando publicou o seu primeiro livro, logo se distinguiu de uma corrente que era dominante nas Américas Latinas, o realismo mágico que, de Alejo Carpentier a Jorge Luís Borges deslumbrava meio mundo, apesar e contra as enormes distâncias e diferenças entre eles.

Os três primeiros livros que foram editados em Portugal, Conversa na Catedral, Pantaleão e as Visitadoras, A Cidade e os Cães, revelavam um realismo puro e duro moldado numa escrita poderosa. Apesar de ir contra corrente, por cá a hostilidade a toda e qualquer literatura que se aparentasse mal ou bem com o neo-realismo estava na ordem do dia, Vargas Llosa impôs-se rapidamente vendo os seus livros, depois de publicados na língua original, serem quase imediatamente editados por cá. Há que abrir um parêntese para sublinhar a importância da clarividência dos editores, no caso de Nelson de Matos, com longa trajectória na edição.

Nem todos os livros de Vargas Llosa figurarão na gigantesca mesa-de-cabeceira que habita as nossas cabeças, mas livros como a já referida Conversa na Catedral, A Guerra do Fim do Mundo, A Tia Júlia e o Escrevedor, A Festa do Chibo, devem aí ter lugar de destaque.

Politicamente Mário Vargas Llosa, que tão feroz e nuamente descreve as ditaduras de direita nas Américas, começou a flutuar por um esquerdismo que desembocou num liberalismo normalizado que o atira para a defesa de intervenções e posições políticas de direita que são repetidamente desmentidas e vituperadas nas tramas dos seus romances. Mistérios da mente humana que seriam menos misteriosos se a sua inegável e rara qualidade de escrita plasmasse a ideologia que resguarda, o que não colocaria em causa a sua notável obra literária.

Mário Vargas Llosa não é um desconhecido dos leitores portugueses. O Prémio Nobel é um incentivo para que o continuem a ler, deslumbrando-se com a sua escrita, com o enredo romanesco. Em nossa opinião, podem dispensar, com vantagem, ensaios, escritos políticos e coisas aparentadas, ganhando tempo para ler os seus romances.

ADENDA: em Maio de 2007, no Guia de Eventos de Setúbal, uma nota de leitura sobre o livro de Vargas Llosa, Travessuras da Menina Má

QUAL O VERDADEIRO ROSTO DO AMOR? (*)

Um livro de sucessivos encontros/desencontros entre um jovem peruano, Ricardo, que consegue rapidamente alcançar o que sempre quis, viver em Paris, não sem antes se ter apaixonado por uma jovem, supostamente chilena, que lhe entra pela vida como um cometa, deixando um lastro de luz que nem as suas súbitas e constantes desaparições apaga.

A vida de Ricardo fica como que suspensa dos encontros que tem por acaso ou que provoca com a Menina Má nos palcos em que ela está a representar as personagens, as aventuras que corporizam as suas ambições. Instala-se o amor como uma doença em Ricardo. Nada o cura. Nem o pragmatismo cruel da Menina Má fugindo para ir viver algures uma nova sorte. Nem mesmo as mentiras que logo despistam frágeis confianças a despontar. A Menina Má sabe que ele também sabe que estará sempre pronto para a receber com uma enternecedora “piroseira” amorosa.

Um amor de rostos múltiplos, da comédia à tragédia, que escapa a qualquer definição, é contado com maestria por Vargas Llosa que, como sempre, mergulha na realidade para ficcionar uma história na margem da perfeição.

(*) Antetítulo do livro

TRAVESSURAS DA MENINA MÁ / Mário Vargas Llosa

Editora: Dom Quixote / Tradução: J.Teixeira de Aguilar

Revisão do Texto: João Pedro George

Capa: Atelier Henrique Cayatte

376 páginas

1ª edição portuguesa: Setembro 2006



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Cultura

Ferreira Gullar / Camões 2010

(…) meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
ao lado de uma padaria
sob o signo de Virgo
sob as balas do 24º BC
na revolução de 30
e desde então segue pulsando como um relógio

num tic tac que não se ouve
(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)

tic tac tic tac
enquanto vou entre automóveis e ônibus

entre vitrinas de roupas

nas livrarias

nos bares

tic tac tic tac

pulsando há 45 anos

esse coração oculto

pulsando no meio da noite, da neve, da chuva

debaixo da capa, do paletó, da camisa

debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe  operária

meu coração de menino

Escreve Ferreira Gullar em Poema Sujo, o seu livro mais conhecido, escrito em 1975, no exílio em Buenos Aires, publicado em 1976, e considerado por Vinicius de Moraes “o mais importante poema escrito, em qualquer língua, nas últimas décadas.”

Aos 21 anos obteve o seu primeiro prémio num concurso de poesia do Jornal de Letras e parte da sua terra natal, São Luis de Maranhão, para o Rio Janeiro onde participa no movimento da poesia concreta, em que é figura central e com quem rompe passados meia dúzia de anos para liderar os neoconcretistas, cujo manifesto redigiu e que é um célebre ensaio: A Teoria do Não-Objecto.

Abandonará também esse grupo motivado pela urgência moral de apontar a sua poesia aos temas da injustiça social, da opressão política. Na mesma linha escreve várias peças de teatro em parceria com vários autores. No entanto, nunca abandonará os temas líricos e existenciais. A sua linguagem reelabora-se constantemente explorando os caminhos poéticos.

Paralelamente desenvolve uma importante obra ensaística sobre literatura, artes visuais e estética. Argumentação contra a Morte da Arte, questionando a validade do vanguardismo pós-moderno, Indagações de Hoje, sobre literatura, Relâmpagos, sobre pintores e escultores, são importantes contributos para a compreensão das artes.
Aos 80 anos, como noticia o Público, é-lhe atribuído, com toda a justiça, o Prémio Camões.

Em Portugal, a editora Quasi editou em 2003 , Ferreira Gullar/ Obra Poética, onde, em meio milhar de páginas, se pode ler o que é fundamental na sua obra poética

Prometi-me possuí-la muito embora

ela me redimisse ou cegasse.
Busquei-a na catástrofe da aurora,
e na fonte e no muro onde sua face,

entre a alucinação e a paz sonora
da água e do musgo, solitária nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se me temesse ou me odiasse.

Assim persigo-a, lúcido e demente.

Se por detrás da tarde transparente

seus pés vislumbro, logo nos desvãos

das nuvens fogem, luminosos e ágeis!
Vocabulário e corpo – deuses frágeis –

eu colho a ausência que me queima as mãos

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