abril ... sempre

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25 de Abril… sempre!

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Educação, Política

Retrato de um País a saque

Por detrás de cada ataque à Constituição, aos serviços públicos, aos funcionários públicos, aos professores, existe um objectivo claro e determinado, uma opção política de fundo, comprometida com os interesses das classes dominantes.

Se for necessário dar cabo da educação pública, gratuita e de qualidade para todos, se for preciso rasgar a Constituição, se for preciso degradar as condições do ensino público, se for preciso despedir milhares de professores, se for preciso… eles estão dispostos a tudo para agradar aos amigos e continuar a promover as condições para a criação de fortunas erguidas sobre a miséria de um povo.

De cada vez que dizem que o Estado não tem dinheiro e que nos temos de habituar a viver cada vez mais miseravelmente, mentem!

Mentem, porque o que se assiste, diariamente, é à escassez de meios e recursos para os serviços públicos e as prestações sociais que tocam a esmagadora maioria da população e, em particular, as camadas mais desfavorecidas, e a sua abundância para as negociatas e o favorecimento de grupos económicos e financeiros que, muitas vezes, agem nos limites da lei.

A pretexto da liberdade querem rever uma Constituição que ainda vai servindo de factor de resistência ao vale tudo desta gente, a pretexto da liberdade acabam com as funções sociais do Estado, aprofundando desigualdades e injustiças, mas será em nome e no exercício da Liberdade que os protagonistas destas criminosas políticas de exploração e empobrecimento serão julgados.

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Geral, Política

Tunísia. Da revolução dos cravos à revolução de jasmim

Ao vermos as imagens que por estes dias nos chegam da Tunísia não podemos deixar de sorrir e lembrarmo-nos do nosso 25 de Abril e da nossa revolução dos cravos. Naquele recanto do Magrebe é a revolução de jasmim. As flores nos canos das armas e a decorar os aparatos de guerra, uma imagem que nós conhecemos em 1974.

A Tunísia não é um país que faça habitualmente cabeçalhos nos media internacionais. Aliás, como todos os países pequenos. Excepto quando ocorrem catástrofes e revoluções. E assim foi, mais uma vez.

Pequenos, Portugal e Tunísia têm alguns pontos de contacto. A começar pelas respectivas populações, ambas à volta de 10 milhões de habitantes. No contexto magrebino os seus indicadores sociais são dos mais aproximados dos europeus. Ambos os países têm também histórias impares e notáveis situadas no passado. É na Tunísia que se localizou Cartago, a Cidade-Estado de grande influência em todo o Mediterrâneo (apogeu por volta do sec. III aC). Acrescente-se que a Tunísia é ainda um destino turístico conhecido por muitos portugueses. Sem recursos petrolíferos relevantes, ao invés de alguns dos seus vizinhos, é um dos países do Magrebe mais abertos ao exterior, como o prova o filão turístico que explora desde há anos. E um daqueles onde mais se fará sentir a influência europeia em matéria de costumes, mormente nas cidades costeiras; gostam de dizer aos estrangeiros que o seu primeiro presidente, H. Bourguiba, proibiu a poligamia e promoveu a condição das mulheres.

As manifestações de protesto iniciadas há cerca de um mês nas cidades tunisinas vieram mostrar ao mundo o que passava despercebido, fosse pela pequena dimensão do país, fosse pela escassa atenção dos media, fosse ainda pelas cumplicidades das potenciais europeias. Que a Tunísia era uma regime ditatorial dirigido por um general (como é habitual) de nome Ben Ali, há vinte e três anos no poder; poder este tomado por um golpe que substituiu o velho herói da independência, H. Bourguiba, o qual, por sua vez, dirigira o país nas três décadas anteriores. Um regime que, ouvido o povo nas ruas, era uma cleptocracia de família sustentada pela repressão e pela manipulação do sistema político.

Apesar de tudo o regime era acarinhado pela União Europeia e pelo chamado ocidente em geral, por ser um declarado inimigo de fundamentalistas islâmicos. O seu ex-presidente, agora em fuga, era visita regular das respectivas capitais onde, ao que parece, nunca ninguém lhe falou em direitos humanos e democracia. O partido do ex-presidente (RCD) fazia mesmo parte da Internacional Socialista; organização que, significativamente, anunciou na semana passada a sua expulsão. E apesar ainda de, poucos dias antes da fuga de Ben Ali, o governo francês lhe ter oferecido assistência para reprimir as manifestações pacíficas que acabariam de levar à queda do regime…

Com o receio do fundamentalismo islâmico (cujo berço, a Arábia Saudita, agora acolhe o afamado presidente anti-fundamentalista tunisino), as potências ocidentais têm desculpabilizado e apoiado regimes cuja única carta da apresentação é a contenção desse fundamentalismo, mas para quem o respeito pelos seus povos é uma breve alínea. O mesmo receio atávico (o do comunismo, à época) que justificou a tolerância de que o regime ditatorial de Salazar e Caetano beneficiou durante décadas. Só que quando chegam os momentos de mudança, ninguém sabe para direcção eles irão.

As consequências da revolução tunisina ameaçam fazer-se sentir noutros países do Magrebe e do mundo árabe. O povo que veio para as ruas e que contagia os militares dá inicio a um processo que ninguém sabe como vai evoluir. Onde é que nós já vimos isto? Em Portugal.

Para já saudemos os tunisinos pela Liberdade que acabam de conquistar – esperemos que a tenham mesmo conquistado.

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Ratzinger e Boff

Em dia de visita papal, nada mais oportuno do que recordar o “silêncio obsequioso” que Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, impôs a Leonardo Boff, sacerdote brasileiro empenhado na teologia da libertação. Empenhado, sobretudo, no combate às desigualdades, à miséria, à iniquidade de um capitalismo que tudo devora e tritura.

Nada de mais oportuno do que homenagear Boff e todos os que com ele continuam a lutar por um mundo melhor.

Mas não foi apenas o silêncio imposto a Boff pelo Prefeito que escondeu a pedofilia, honrando, aliás, a antiquíssima tradição católica da hipocrisia. Ratzinger também retirou ao teólogo a Cátedra no Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis. Felizmente, o tempo das fogueiras já tinha acabado…

Ratzinger foi, aliás, um digno herdeiro das mais profundas e arreigadas tradições da congregação a que presidiu que, noutros tempos, era conhecida por Santo Ofício ou, simplesmente, por Inquisição. A mesma organização que, nos tempos em que o “silêncio obsequioso” era apenas para os muito pequenos deslizes, resolvia tudo o resto com fogo purificador.

Bem sei que passaram muitos anos, mas os tiques continuam lá e Ratzinger ampliou-os…

Este é o Papa que hoje se passeou pela Avenida da (nossa) Liberdade.

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