Cultura

Um livro de vez em quando

UMA SAGA DE GRANDEZAS E DECADÊNCIAS

Naguib Mahfouz é o único Prémio Nobel da Literatura egípcio. Escritor com uma obra extensa, conhecida e aplaudida em todo o mundo, escreveu a Trilogia do Cairo em que, a pretexto de contar a história de uma poderosa família da classe média, a família Gaw wad Ahmad, relata o trânsito do Egipto da ocupação britânica no pós- I Guerra Mundial, até à independência. Povoado por inúmeras personagens que vão surgindo e desaparecendo ao longo dos tês livros, Entre os Dois Palácios, O Palácio do Desejo e O Açucareiro, Mahfouz, provoca uma reflexão profunda sobre as contradições da evolução de um Egipto tradicional, colonizado, enfeudado a um islamismo em conformidade com os rigores do Alcorão . para um Egipto que se vai adaptando ao mundo moderno , um conflito, por vezes extremamente violento, entre os ideais islâmicos, os sonhos pessoais e a realidade, em que se vai forjando e conquistando a independência. O patriarca da família Ahmad, que a controlava com mão de ferro seguindo os princípios religiosos, enquanto á noite explorava os prazeres da cidade do Cairo, assiste à longa decadência da sua família e á emergência dos seus três netos que se adaptam à vida moderna e corporizam as grandes linhas políticas e sociais em confronto nesse Egipto em busca da autarcia e a atingir a idade adulta. Um é comunista, outro fundamentalismo muçulmano, ambos, com ideologias diametralmente opostas, lutam e acreditam convictamente num mundo melhor, enquanto o terceiro, o seu neto predilecto, faz carreira política sem grandes escrúpulos e na base de uma relação homossexual com um político influente.
A escrita de Naguib Mahfouz, impregnada de uma grande oralidade, constrói cenas dramáticas com uma grande densidade e retrata os personagens com extremo pormenor e um refinamento só possível nos grandes escritores.
Trilogia do Cairo é uma saga tolstoiana imperdível. Uma excelente proposta para ocupar os tempos livres das férias.
(publicado no Guia Eventos Setúbal Agosto/Setembro)

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Cultura

Um Livro de vez em quando

FESTEJAR A ESCRITA

Há trinta anos Mário de Carvalho irrompeu com fragor no mundo literário de língua portuguesa com dois livros de contos, Contos da Sétima Esfera e Casos do Beco das Sardinheiras. Dois anos depois A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho, no ano seguinte Fabulário. Descobria-se uma inventiva que ultrapassava todas as margens, um prazer lúdico saltava todas as barreiras, invadia aqueles textos ancorados em relatos domésticos, fantásticas ou históricos.

Novelas e romances, entre eles, um dos mais notáveis de língua portuguesa Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, foram-se sucedendo. Em 2000, uns Contos Vagabundos, confirmaram a prática da concisão mas não faziam esquecer aqueles três primeiros livros.

Com O Homem do Turbante Verde, Mário Carvalho evidencia-se como grande mestre da narrativa curta seja a história relatada secante a vivências do autor, tenha uma raiz “kafkiana”, seja paródica ou provocadora de inquietações extremas, ocorra em cenários bloqueados impossíveis de reconhecer ou que nos sejam familiares, decorram as peripécias integradas num vago contexto histórico que se torna de uma actualidade cortante ou se localizem em tempos próximos. Todos os contos são notáveis.

São dez contos magníficos, arrumados tematicamente, de uma imaginação fértil que se espraia por um português límpido de vocabulário extenso e construção sem fissuras. Uma exibição do virtuosismo de ter uma história para contar e sabê-la contar como poucos o saberão fazer.

Lê-se de um fôlego. A muitos dos contos, em que acontecem maldições ferroviárias, brutalidades inomináveis e inexplicáveis, o erro distraído de um burocrata que é imperdoável num meio doentiamente deformado, a crescente paranóia de um individuo que vai fechando a casa para melhor se entrincheirar, voltamos atraídos e inquietados por um pessimismo que se entrevia nas suas duas últimas novelas Sala Magenta e A Arte de Morrer Longe e aqui adquire uma dimensão com outra espessura.

O Homem do Turbante Verde é um livro de contos que festeja a literatura.

(publicado no Guia de Eventos de Setúbal/Leituras , Julho 2011)

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Cultura

Um livro de vez em quando

A real espessura do vazio

Rentes de Carvalho, transmontano obrigado a exilar-se por motivos políticos para o Brasil, acaba por desembarcar na Holanda, com o cargo de assessor do adido comercial da embaixada brasileira. Ai se fixou. Aí se licenciou. Aí começou a leccionar Literatura Portuguesa e a dedicar-se em exclusivo à escrita até esse momento fragmentada em vasta colaboração em jornais. Nos finais dos anos 60 publica, na desaparecida Prelo, Montedor que anunciava o surgimento de um grande escritor.

A sua relação com a Holanda, com a sua cultura e civilização, “a única paixão que os move é a criação de novas regras”, com a liberdade e frieza de costumes, assombram o transmontano viajado e adquire um lugar central na sua obra, sempre oscilando entre a crítica feroz e uma relativa aproximação a essa realidade. Na literatura portuguesa esse olhar acerado sobre o lugar onde se fixaram e de onde já se sentem incapazes de sair, terá paralelo com outro exilado político, Alexandre Pinheiro Torres e Inglaterra

Rentes de Carvalho começa por ter imenso êxito, não em Portugal, mas na Holanda com dois livros escritos directamente em neerlandês: Portugal, um Guia para Amigos e Os Holandeses.

Entre os seus (todos bons) romances A Amante Holandesa sobressai. As personagens, as paisagens, o enredo em que as surpresas estão no virar da página no conjunto de angústias e frustrações, a medida humana de cada uma das personagens, naquilo que revelam, mas sobretudo naquilo que escondem. O ponto de partida é uma história quase banal, com muito de autobiográfico. Um jovem, Amadeu, deixa a sua isolada aldeia transmontana para se fixar na cosmopolita Holanda, trabalhando como estivador no porto de Amesterdão. É nesse país que o protagonista se envolve com uma rica holandesa, fria, indiferente, desenfreada na cama. Constrói uma espécie de amor como um puzzle que nunca acaba porque faltam sempre peças, mesmo as que já tinham sido colocadas no sítio correcto, o que dá uma ilusão de que o amor pode existir mas acaba por o magoar.

De regresso à sua terra, Amadeu reencontra-a como era. Universo imobilista, opressivo, uma violência latente de paixões, fraquezas, desejos recalcados. Vulcão em actividade debaixo do manto dos brandos costumes.“Num meio pequeno é assim que se sobrevive. As raivas, as invejas e os ódios vêm esporadicamente à tona, por vezes explodem, mas logo depois tudo assenta e o dia-a-dia continua a arrastar-se, sempre igual, imutável na sua fingida serenidade.”

Reata amizade com um colega de infância. As longas conversas que ambos travam, permitem uma reflexão sobre a vida que ambos tiveram até esse momento e sobretudo o desencanto pela consciência acerca do carácter ilusório do amor que vai cavando o vazio com que o romance termina.

Um livro que fica em nós para lá da sua leitura.

( publicado no Guia de Eventos de Setúbal, maio 2011)

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Geral

Livros e Leituras

O homem não tem poder sobre nada
enquanto tem medo da morte
quem não tem medo da morte possui tudo


Tolstói, Guerra e Paz

 


Há cem anos morreu Tolstói. Deixou uma obra imensa em que se encontram romances, Guerra e Paz, com quase duas mil páginas e seiscentas personagens, e pequenas narrativas como A Morte de Ivan Ilitch. A intensidade dramática, a contenção narrativa, a acutilância na anatomia psicológica dos personagens, fazem de toda a obra literária de Tolstói um paradigma. Nenhum outro escritor colhe o consenso do universo literário que, unanimemente, o considera o maior dos escritores.
Ler, reler Tolstói é sempre extraordinário. Mesmo já conhecendo o que se vai ler, é sempre impressionante assistir aos longos dias inúteis do sofrimento físico brutal de Ivan Ilitch, só superado pela dor moral. “Apreciar a vida? Mas como, se estes dias já não têm as mesmas cores, o mesmo sabor, pois o fim é conhecido? Afinal o que se fez, o que se deixa? Muito pouco! Pouquíssimo!!” Ou saber que Anna Karenina, descobrindo que o que mais ama em Vronsky é a própria paixão, se vai suicidar proclamando vingança “ ali, ali mesmo no meio, ele será punido e eu ficarei livre de todos e de mim mesma” e tornar a ler isso com a emoção de uma primeira leitura. Ou continuar a ficar suspenso no delírio do marido quando descobre o romance entre a mulher e o violinista com quem toca A Sonata de Kreutzer de Beethoven, e a música se transforma numa fúria imensa que acaba num crime de sangue. Ou ler Guerra e Paz para descobrir a insignificância de Napoleão ou do czar Alexandre I, na épica história da invasão da Rússia, personagens menores dos acontecimentos históricos descritos com um realismo insuperável “os que se chamam grandes homens são etiquetas que dão o seu nome aos acontecimentos históricos e, assim como as etiquetas, não têm relação com esses acontecimentos”.
Poderá parecer um exagero, mas não ter lido Tolstói é lacuna grave no conhecimento da literatura.

Lev Tolstói
• GUERRA e PAZ, editorial Presença, tradução Nina Guerra/Filipe Guerra
4 volumes ( vol I-400 páginas/vol II – 436 páginas/vol III-452
páginas/ vol IV-416 páginas)
• ANNA KARENINA, Relógio d’Água editores, tradução de António Pescada, 832 páginas
• A SONATA de KREUTZER, BI- Livro de Bolso, tradução de Nina Guerra/Filipe Guerra, 120 páginas
• A MORTE de IVAN ILICHT, Leya-Dom Quixote, tradução de António Pescada, 110 páginas

 

( publicado em Leituras, Guia de Eventos de Setúbal / Janeiro 2011)

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Cultura

UM LIVRO, por vezes

A INUTILIDADE DAS BIOGRAFIAS

No Livro dos Salmos, o versículo 11 do Salmo 116 reza: Dizia na minha precipitação. Todos os homens são mentirosos. É aí que Alberto Manguel recolhe o título do seu livro publicado em 2008 e agora editado em português.

O dispositivo narrativo é conhecido. Foi explorado exaustivamente por Durrell no Quarteto de Alexandria. Sobre um mesmo acontecimento, um mesmo personagem, cruzam-se opiniões que se contradizem, corroboram, sobrepõem, reescrevem, num jogo semelhante ao de resolver o cubo de Rubik, sem nunca o acabar.

Um escritor argentino, Alejandro Bevilacqua, autor genial (será mesmo o autor?) de um só livro, O Elogio da Mentira, e de miseráveis telenovelas escritas para assegurar a sobrevivência, cai de uma varanda do seu apartamento madrileno. Suicídio? Assassinato? Queda acidental? Um jornalista francês, de ascendência espanhola, Jean-Luc Terradillos decide investigar esse acontecimento e escrever a biografia de Bevilacqua. Fala longamente com os seus próximos.

O primeiro a ser ouvido é um escritor também argentino, o próprio Alberto Manguel, que se apresenta como seu privilegiado confidente no exílio em Espanha, que compartilham depois de terem fugido à ditadura militar argentina. Joga na ambivalência de dizer “que o conheceu superficialmente por não o ter querido conhecer realmente”, o que não o inibe de desenvolver elaboradas teorias para explicar cada passo da vida de Bevilacqua.

O segundo é a amante espanhola de Bevilacqua que omeça por declarar que “Manguel é um imbecil, não sei o que te terá dito a ti, sobre Alejandro mas ponho as mãos no fogo, em com está tudo errado” (…) A mim é que deves ouvir, a mim a quem Alejandro contou a vida inteira: a verdadeira, a íntima, a escabrosa”. Conta como resgatou Bevilacqua da escrita simplória das telenovelas para a escrita maior de um romance genial. Trabalhos que empreendeu porque, para ela, nada é mais erótico que a fama literária.

O terceiro de quem se regista o depoimento é um cubano, ex-companheiro de cela de Bevilacqua numa prisão argentina, que acabaria por trocar a literatura por amor de uma mulher. Um drama que o seduz e em que Alejandro é marginal. Supostamente desapareceu pelo que deixou de existir. Reaparece em Madrid vai ao encontro de Bevilacqua no lançamento do livro de que também se diz autor, despoletando o drama que irá justificar a investigação de Terradillos. O último é um delator que já morreu e continua do além a denunciar todos e nenhum, acertando e desacertando  o que foi investigado, fazendo transitar as certezas adquiridas para o território das incertezas, assim como o caminho inverso.

Com todo o material recolhido, Terradillos deixa-se enredar e derrotar nesse labirinto de espelhos: um assassinato que não é um assassinato, uma morte acidental que também é decidida, um livro com muitos supostos autores. Desiste: “Decidi não escrever o retrato de Bevilacqua. Amante, herói, amigo, vítima, traidor, autor apócrifo, suicida acidental e tantas coisas mais: são muitas para um único homem” e em desespero “ Com o meu gesto de renúncia, é Alejandro Bevilacqua quem adquire corpo, voz, presença. Sou eu, o seu leitor, o seu esperançado cronista, eu, Jean-Luc Terradillos, quem desaparece.”

Leitura que produz imenso prazer expondo uma tese que muito agradaria a Borges: todas as biografias são projectos inúteis!

(texto publicado em Leituras, Guia de Eventos de Setúbal, Outubro 2010)

TODOS OS HOMENS SÃO MENTIROSOS

Alberto Manguel

Editora Leya/Editorial Teorema

Tradução: Umbelina Sousa

Revisão: Miguel Martins Rodrigues

Capa: Neusa Dias/Oficina do Livro

Edição: Abril 2010

Edição original 2008

192 páginas

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