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Memórias de Anos Pós- 25 de Abril / Os 25 Anos do 25 de Abril em Grândola, a Vila Morena

É norma que algumas datas comemorativas de um mesmo acontecimento tenham um impacto maior que outras. Não é a mesma coisa comemorar os doze anos ou os vinte sete anos do 25 de Abril do que comemorar um quarto de século da Revolução dos Cravos ou, daqui a uns anos assinalar os seus cinquenta anos.

Em 1999, o 25 de Abril fazia 25 anos. Data que, como exige a tradição, tinha que ser comemorada com mais intensidade, sobretudo em Grândola, a Vila Morena. O vereador da Cultura, Pedro Pedreira, prematuramente desaparecido, Isabel Revez, directora do Departamento em que se inscrevia a Divisão de Cultura e eu, na altura estacionado em Grândola a assessorar a Câmara em várias áreas , nomeadamente a da cultura. constituímos o núcleo central da organização das Comemorações. Foi um trabalho intenso, com grande espírito de equipa, que se realizou com a participação activa e empenhada de todos os trabalhadores da autarquia. Semanas, meses de trabalho que também foram uma festa.

Quero recordar, com orgulho a que não me eximo, sem menorizar nenhum outro evento da vasta programação que se organizou, iniciativas em que desempenhei papel central, em que algumas ultrapassaram os limites temporais e continuam a marcar Grândola.

A primeira decisão foi a de se desenhar uma imagem gráfica condizente com a importância das Comemorações. Foi convidar para a fazer José Santa-Bárbara, não só pela sua inquestionável qualidade artística mas também por ser o autor de muitas das capas dos discos de José Afonso, nomeadamente as Cantigas de Maio, onde se inscreve Grândola, Vila Morena. Santa-Bárbara teve a ideia brilhante de arrancar os sobreiros da planície alentejana substituindo-os por frondosos cravos.

Em memória de Zé Afonso, António Trindade

Em memória de Zé Afonso, António Trindade

As outras tinham a ver com o facto de Grândola, pela sua orografia, ser uma terra de passagem entre importantes centros do Portugal medievo. Por essa circunstância, não tinha castelos, monumentos nem sequer um centro histórico assinalável, embora com um centro tradicional bem interessante. Surgiu imediatamente a ideia de, aproveitando o quarto de século da Revolução de Abril, dotar a vila com várias esculturas, com ligação mais directa ou mais oblíqua com a conquista da liberdade. Ideia que Pedro Pedreira e Isabel Revez apoiaram com entusiasmo.

mural grandola Bartolomeu Cid dos Santos

O Povo é Quem mais Ordena / Bartolomeu Cid dos Santos

Pensando em quê e em quem, elaborei um memorando, logo avalizado por esse grupo de trabalho. Convidei o António Trindade para fazer uma escultura evocativa de Zé Afonso, Jorge Vieira os 25 anos do 25 de Abril, Bartolomeu Cid dos Santos, O Povo é Quem mais Ordena, estas em Grândola, João Limpinho, Os Poetas Populares, no Carvalhal. A esse grupo de artistas bem conhecidos no meio artístico, agreguei um jovem escultor, Isaque Pinheiro que realizou, A Cultura saiu á Rua num Dia Assim, em Melides. Com Bartolomeu Cid dos Santos e João Limpinho tive ainda o prazer e o privilégio suplementar de colaborar directamente, nas suas obras. Desenhei a parede e o embasamento do mural de azulejos concebido por Bartolomeu. Trabalho interessantíssimo em que discutimos fundamente a forma que melhor poderia corresponder, destacar e dar melhor leitura aos painéis de azulejos, o frontal e o de tardoz, que o Bartolomeu idealizou.. Entre o primeiro desenho e a forma final, “partimos muita pedra”. A forma final muito nos agradou. Mais fácil foi desenhar a parede de suporte para a escultura do João. A simplicidade genial da ideia do João Limpinho de transformar as lâminas de enxada nas “caras” dos poetas populares facilitou o desenho da parede suporte, uma alusão muito estilizada a esse objecto de trabalho agrícola, Procurando que nada fique esquecido registe-se que os cálculos de engenharia, obviamente mais complexos em relação O Povo é Quem mais Ordena, foram feitos por Horácio Sotero, engenheiro da CMG. Hoje, quando passo por Grândola, onde vivi anos felizes, continuo a olhar para essas intervenções escultóricas com o prazer e o legítimo orgulho de ter tido essas iniciativas, sempre suportadas pelo entusiasmo e empenho do Pedro Pedreira e da Isabel Revez.

Jorge Vieira

25 Anos do 25 de Abril / jorge Vieira

Lembro que dramaticamente o Jorge não viu a sua obra em circunstâncias que me abalaram profundamente. Por várias circunstâncias a decisão para a encomenda das esculturas, atrasou-se, o que obrigou os artistas a trabalhar com prazos muito apertados nas maquetas de molde a possibilitar a sua concretização. Qualquer escultura consome meses na sua realização. Com Abril no horizonte até ao fim do ano as maquetas tinham que estar feitas. Assim sucedeu com todos e claro com o Jorge Vieira. No dia 23 de Dezembro de 1998, pelo meio-dia, telefona-me o Jorge para me convidar a ir à sua casa em São Bento de Ana Loura, Estremoz, no dia 26, para ver a maqueta. Vários prazeres conjugavam-se. Ver a maqueta, almoçar com o Jorge e a Noémia, refira-se que o Jorge era um excelente cozinheiro, conviver, um convívio sempre muito vivo e estimulante, alegrado pela finíssima ironia, uma imagem de marca do Jorge. Eram onze horas da noite desse mesmo dia 23, quando volta a tocar o telefone. Do outro lado um grande amigo comum, recentemente desaparecido, o Zé Alberto Manso Pinheiro que, consternadíssimo, anunciava que o Jorge tinha sido vitimado por uma síncope. Nunca esquecerei o murro que levei. Chorei como não me lembro de alguma vez ter chorado. Choraria outra vez abraçando a Noémia desfeita pela dor. A vida que dá tantas alegrias também maltrata de forma violenta, muitas vezes inesperada.

JoãoLimpinho

Os Poetas Populares / João Limpinho

No meio de tanto sucesso, nem tudo correu bem. Por exemplo, por um acaso daqueles que só acontece no cinema, raramente na vida real, estava no Teatro de Almada com o Joaquim Benite, quando alguém, no alvoroço provocado já nem lembro quem, irrompe anunciando que a rádio noticiava que o José Saramago tinha ganho o Prémio Nobel da Literatura. Telefonámos. Milagrosamente conseguimos ligação. Abraços e mais abraços, parabéns e mais parabéns. Desligado o telefone olhámos um para o outro, proponho o que o Joaquim estava a pensar. Repor em Grândola, no dia 25 de Abril, A Noite. Naquele momento de euforia, ficou tudo firme. Não aconteceu apesar do nosso afinco e do afinco do Pedro Pedreira e da Isabel Revez. A decisão nunca mais era formalizada, até o Benite, em desespero, me telefonar a marcar uma data a partir da qual seria impossível realizar o espectáculo. Era um trabalho a mais na programação do teatro. A partir daquela data, não haveria tempo para ensaios, com a agravante de ter que se substituir o António Assunção, com papel importante no elenco original, já ter falecido. A data foi ultrapassada sem nenhum compromisso. Nas várias vezes em que nos encontrámos recordámos amargamente essa oportunidade perdida. Repor A Noite, nos 25 anos do 25 de Abril, no ano em Saramago iria a Estocolmo ser nobelizado. Tínhamos a secreta esperança de o ter presente em Grândola para rever a peça de teatro em que se retratava a noite de 24 para 25 de Abril, vivida na redacção de um jornal.

isaque

A Cultura saiu á Rua num Dia Assim/ Isaque Pinheiro

Outra iniciativa que se gorou pelos mesmos motivos, ruminar decisões até as tornar inexequíveis, foi a de encomendar a António Pinho Vargas 25 Variações sobre o tema Grândola, Vila Morena. Pinho Vargas é um excelente pianista e um excelente compositor. É um reconhecido cultor tanto da música sinfónica como do jazz. Reunia as condições óptimas para realizar essa obra. O problema foi similar ao sucedido com o Benite. Protelar a decisão até a tornar impossível. Havia um limite para decidir, sobretudo porque António Pinho Vargas estava a trabalhar na ópera Os Dias Levantados, com libreto de Manuel Gusmão. A partir de certo momento não poderia conciliar esses dois trabalhos. Assim se perdeu a oportunidade de Grândola se poder orgulhar de ter encomendado uma obra que , se fosse feita, estou convicto, seria marcante na historiografia da música portuguesa, ficando Grândola para sempre ligada a esse acontecimento.

Mas houve momentos de rabelaisiana galhofa. Num certo dia, com o tom imperativo, definitivo e pomposo que alguns presidentes usam para embrulhar as suas deliberações, recebemos um papel manuscrito, guardo fotocópia desse escrito, com origem no gabinete da presidência, em que se determinava que o programa musical das Comemorações dos 25 Anos do 25 de Abril deveria ser aberto por uma composição original, encomendada a um músico que na altura dava aulas na Universidade de Évora, que se intitulava, nada mais nem nada menos que REQUIEM PARA A REVOLUÇÃO!!! Gargalhadas pantagruélicas. Seria uma originalidade universal uma Revolução ser celebrada com um Requiem. Este mundo e o outro deveriam rir a bandeiras despregadas, com tal iniciativa, ainda por cima levada a efeito por uma Câmara de esquerda, da CDU. As risadas mereceriam figurar no Guiness, com um recorde que tanto pela sua dimensão como extensão, dificilmente seria ultrapassado. Haveria certamente uma excursão de saudosos salazaristas a desembarcar em Grândola celebrando sucesso tão inesperado e, para eles, tão feliz. Ainda por cima com a circunstância de o jantar da Associação 25 de Abril se realizar na vila, antecedendo o repasto, por alinhamento da programação, haveria a primeira audição mundial de tão magna, industriosa e inusitada obra.

Aqui fica esta Memorabilia, um registo, com factos alguns até agora desconhecidos, para memória futura das Comemorações dos 25 Anos do 25 Abril em Grândola, Escritos em louvor e recordação de amigos entretanto desaparecidos aqui assinalados pela referência a Pedro Pedreira, com o envio de um grande abraço à Isabel Revez, envolvendo nesse abraço todos os trabalhadores da Câmara de Grândola que bem se empenharam para que, apesar dos tropeços que nos eram estranhos, a festa fosse, como foi, um sucesso irrepetível.

De caminho, uma última nota, tenho o secreto desejo que um dia em Grândola, os nomes de duas pessoas ligadas fortemente à história da vila no pós-25 de Abril, figurem na sua toponínima: Pedro Pedreira.e Manuel Areias.

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Cultura, Geral

Para lá do Teatro

Image           A partir de uma certa altura da vida é quase natural mas inaceitável os amigos começarem a desaparecer. Quando o primeiro me faltou, sofri brutalmente. Sempre tinha olhado para os meus amigos como imortais. Todos me sobreviveriam. Foi desolado e com surpresa que o vi ausentar-se da vida. Outros se seguiram. Nunca me conformei. Um dia, esse sim natural, serei eu que me apagarei perante os amigos sobreviventes.

Tenho a idade em que sei que poucas são as coisas essenciais na vida. Uma a paixão. A capacidade de nos apaixonarmos e pela paixão desejar mesmo impossível eternidade. A outra, preciosa e rara, a amizade, Amizade exigente, atenta e crítica. Amizade que cria raízes fundas, inabaláveis.

É dessa amizade e de um desses amigos que hoje falo e que me vai fazer falta, Joaquim Benite.

São anos, muitos anos de encontros de acaso e provocados, desde quando o Joaquim, sempre com o teatro no horizonte, escrevia sobre teatro e outras coisas. Alguns anos até ao “Avançado de Centro Morreu ao Amanhecer”, a primeira peça que encenou e que coloca definitivamente o teatro no centro da sua vida. Meia dúzia de anos depois o Grupo de Teatro de Campolide profissionalizou-se. O Joaquim nunca mais parou, encenando centenas de peças de teatro que sempre e até ao fim nos surpreenderam. Até conseguir ter o seu belo Teatro Azul. Em quarenta anos de actividade o Joaquim, com a sua rara inteligência e cultura, tornou-se num dos pilares da renovação do teatro em Portugal, ganhando reputação internacional que mais se expandiu quando criou o Festival de Teatro de Almada que era “um lugar onde se encontram diferentes linhas estéticas mas que discutem, com maturidade, sobre as suas diferenças, sem se agredirem, e de forma flexível, num nível que não é o da confrontação sectária”.

Do seu trabalho no teatro, do seu lugar na história do teatro, outros falarão, muitos falarão. A evidência da importância e grandeza do seu trabalho não o deixará esquecer. Ao contrário do que uma vez disse numa entrevista “os encenadores nunca ficam na história. Só os escritores, como o Shakespeare. Sabe, acho que vale a pena viver para nos divertirmos. Lutar por coisas para cumprir missões, não. O teatro é um sinal de civilização que está na origem da sociedade. Mas o teatro não tem missão nenhuma. É uma coisa que as pessoas fazem porque gostam, as outras vêm porque lhes dá prazer.” Ele vai ficar para a história pelo seu imenso amor pelo teatro, pelo imenso gosto que tinha em fazer teatro, pelo prazer que nos proporcionava. Disso, repito, outros, muitos outros falarão, todos melhor que eu.

Quero aqui recordá-lo pela amizade que tínhamos. Pelas horas de convívio, pelas trocas de ideias sobre a vida, a cultura e a política, em que participávamos partilhando a mesma trincheira. Até pelos projectos que tivemos, sobretudo os muitos que nunca se concretizaram mas que vivemos como se fossem o último, porque era assim que ele os vivia e fazia os outros viver.

Ao voltar de uma esquina, ao entrar num teatro, ao beber um café nunca mais encontrarei o Joaquim. É com infinita tristeza que o sei.

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