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O Animal Não Aguenta

Marretas

Lembram-se dos Marretas? Cada episódio era iniciado por uma música frenética. De súbito surpresa, a música de abertura era um slow languidíssimo. Era, até o bateria, o Animal, desatar num solo estapafúrdio, batendo furiosamente em todos os tambores e pratos enquanto gritava: O Animal  Não Aguenta!

Lembrei-me desta cena quando hoje, num desses jornais de distribuição gratuita, me deparo ao lado da notícia de Cavaco a indigitar Passos Coelho, com um discurso miserável bem ao nível dessa gente, com uma coluna inteira, fundo colorido para não passar despercebida, letra de corpo bem grado para a leitura ser fácil, direito a fotografia, esta declaração de Francisco Assis: “Para que desde logo não reste a mais remota dúvida quanto à minha posição, devo declarar que sou frontal e absolutamente contra a ideia de um qualquer governo assente numa maioria de esquerda”.

Aí fica para quem ainda tivesse alguma dúvida: O personagem nunca foi, não é nem nunca será de esquerda! Haja crise para essas coisas se tirarem a limpo e deixarem de andar a enganar a malta com falinhas mansas. Há um ponto em que… O(s) Animal(is) não Aguenta(m)!

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O Carrossel da Politiquice

carrs

Assim que se anunciou a possibilidade de Sampaio Nóvoa ser candidato ás próximas eleições presidenciais, soaram as campainhas de alarme. Do lado dos trauliteiros direitinhas, que tinham sido simpáticos para Henrique Neto, logo começaram nas redes sociais as piadolas de mau gosto, como é de bom tom para aqueles lados. Os mais civilizados, com destaque para os comentadores que fazem disso um modo de vida, franzem o sobrolho, iniciaram a busca de sinais mais avermelhados em Sampaio Nóvoa para os expor e assustar o bom povo português. Fariam isso com Sampaio da Nóvoa ou com qualquer outro que fosse candidato a candidato a Presidente da República, com perfil idêntico.

Mais preocupantes e reveladoras do clima daquelas bandas foram as reações de socialistas mais ou menos conhecidos da opinião pública. Saltaram a terreiro em vários estilos e tons. Vera Jardim olha com distanciamento para o cargo de Presidente da República, reclamando a falta de perfil, por o ex-reitor da UL se mostrar muito interventivo e um Presidente da República deve, na sua opinião, ser um “poder moderador”(::.)”árbitro supremo do sistema, da constituição e dos equilíbrios do sistema”

Podia ter dado como exemplos o pai de todos os socialistas, Mário Soares, sempre sentado em Belém, a mitigar pachorrentamente os conflitos institucionais que não foram poucos durante os seus mandatos. Ou o seu amigo e ex-colega de escritório, Jorge Sampaio, que tudo fez para que o governo de Santana Lopes cumprisse o mandato. A falta de memória dessa gente é notável. Cautelarmente, Vera Jardim, vai dizendo que se o seu partido apoiar Sampaio da Nóvoa, ele será naturalmente o seu candidato. Uma nota a registar, embora não seja de excluir que estivesse a fazer figas enquanto fazia tal proclamação.

Outros “notáveis” socialistas são mais assertivos. Francisco Assis, estilo sorna, estofo de político mediano, reclama um candidato “genuinamente de centro-esquerda”. Para um militante de um partido que enche a boca a afirmar-se de esquerda, para um homem que se diz de esquerda, que foi candidato a secretário-geral, não está nada mal. Não nomeia, mas percebe-se que o seu Dom Sebastião é o beato Guterres ou o direitinha Gama.

Sérgio Sousa Pinto foi mais, longe, se calhar com receio que um qualquer preclaro Lello se antecipasse. Desata a zurzir em Sampaio da Nóvoa, “Não lhe basta a sublime virgindade de, em 60 anos, nunca se ter metido com partidos” e como estávamos na época pascal acrescenta “também parece agradecer a Deus a graça de ser pobre” . Conclui com mais umas tantas javardices do mesmo jaez sobre as esquerdas latino-americanas e europeias, para rematar “esta não é a minha esquerda”. Não é a esquerda dele pela razão mais simples e óbvia: ele não é nem nunca será de esquerda, por mais que queira travestir a realidade.

Todo o texto é bem revelador dos sérgios sousas pintos que andam como piolhos pelas costuras da política. É atravessado pela raiva, contra quem sendo de esquerda e tendo um currículo intelectual e profissional considerável, por opção, não se filiou num partido. É a raiva roxa de quem em toda a sua vida, só soube e sabe lustrar os fundilhos pelas cadeiras de diversas assembleias, fazendo pela vidinha, com os olhos postos nos vitorinos e passos coelhos que, à pala da política, se tornaram em facilitadores de negócios. De quem cheira o perfume fétido dos corredores da política que também o pode, na graça de Deus, fazer ficar riquinho. Não está sozinho. Pelo contrário, está bem mal acompanhado por aquela maralha que se mete muito jovem na política por cálculo, a acotovelar-se para fazerem carreira nos partidos que lhes abrem as portas do chamado arco da governança.

Sérgio Sousa Pinto não aguenta. Solta o sócrates que tem dentro de si. Estoira com grande alarido rugidos de leão de aviário. Sabia, bem sabia, que iria ter os seus quinze minutos de glória socialite-politiqueira. Para ele é insuportável que um homem, Sampaio Nóvoa ou outro, com um percurso intelectual reconhecido, que sempre tenha tido uma intervenção cidadã de esquerda, que sempre tenha mostrado ter consciência social, se intrometa nas escolhas do aparelho partidário, daquele aparelho partidário  que concede aos sérgios deta terreola. uma teta em que mama desde que se conhece, com afinco, ainda que sem grande talento. Advinha-se que o seu candidato é António Vitorino, se concorreres e ganhares dás-me um lugarzito em Belém? Em segunda escolha, os que Assis leva em andor.

Essa gente, e outra que deve andar a arrastar os pés com ardor nas alcatifas do Largo do Rato rosnando em surdina, saltam a terreiro para demonstrar, como se isso fosse necessário, que renegam a esquerda até ao fim do mundo.

Há ainda quem acredite na possibilidade de um governo de esquerda com este Partido Socialista. Essa é outra questão, magna questão, em que se deve insistir, mesmo contra todas as evidências.

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Política

Contar espingardas

A corrida pela liderança do PS começa, finalmente, a dar-nos algumas pistas do que poderá vir a ser o combate político nos próximos tempos. Depois de um decepcionante debate do programa de Governo, com a transitória líder parlamentar a dar a mão ao PSD em tudo o que era essencial, espera-se agora alguma animação suplementar, em especial porque será curioso (e penoso) ver como vão os candidatos socialistas conciliar o que apoiaram há meses no memorando da troika com as necessidades oposicionistas de combater as medidas gravosas que estão para chegar.

Estrategicamente, porque se trata de contar espingardas, os dois candidatos, Seguro e Assis, escolheram como um dos temas de arranque da campanha interna a prevista redução do mapa municipal, por imposição do FMI e do BCE. Seguro escreveu até aos seus camaradas presidentes uma carta em que afirma, «com clareza» que é «contra a extinção dos actuais concelhos» sem o acordo das populações. Já Assis advoga que «há outras formas de o fazer», nomeadamente «através do associativismo intermunicipal e da alteração da lei eleitoral autárquica».

Os dois sabem bem que os autarcas do PS, no momento de votar para a liderança do partido, são elementos cruciais na formação dos necessários sindicatos de voto (além dos outros truques em que os aparelhos locais do PS são especialistas) para garantir a vitória de um ou de outro candidato. O PS é a maior força autárquica nacional, com 132 presidentes de câmara, 119 dos quais governam em maioria absoluta. Estes são, contudo, uma pequena parte dos 921 eleitos socialistas nas autarquias do país, muitos deles com posições de relevo nas estruturas concelhias e distritais do PS. Continuar a ler

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