Setúbal

Outra vez a Feira de Sant’iago

Imagem da Feira na noite de 2 de Agosto

A Feira de sant’iago é um tema discutido em Setúbal ininterruptamente há mais de trinta anos. Primeiro, antes de 2004, quando mudou para as Manteigadas, a discussão anual girava em torno da necessidade de retirar a feira da avenida Luisa Todi por manifesta falta de condições, quer de espaço e de circulação e estacionamento automóvel, quer de salubridade e incómodos para os negócios de restauração. Depois de 2004, a discussão foi mantida e o que se debate desde então é a necessidade de fazer regressar a feira à avenida Luisa Todi. Com o tempo, todos perceberam que não era viável esse regresso. Uns lançaram a ideia de a fazer na zona ribeirinha, outros apenas dizem que se devia era fazer no centro da cidade e ainda há mais alguns que encontraram a saída airosa de defender um referendo para ocultar as próprias responsabilidades na decisão de mudança da feira. “Somos um partido. que não cristaliza as suas posições“, foi o que disse, mais coisa menos coisa, o candidato do PS à câmara de Setúbal sobre a proposta do referendo, quando confrontado com a questão simples de saber por que razão não fez o PS tal referendo em 2001, quando estava no poder e escreveu no plano estratégico do POLIS que a feira iria mudar para as Manteigadas para se fazer o arranjo da avenida Luisa Todi. E pronto, todos os problemas relacionados com a feira ficariam resolvidos no passe de mágica do referendo local. Nada mais simples. Era só estalar os dedos e pôr os setubalenses a referendar a feira e tudo se resolveria.

Em comum têm os defensores destas teses a incapacidade de explicar como se fazia a feira no centro da cidade. Por um lado, ninguém sabe como funcionaria na zona ribeirinha, por outro ninguém diz em que outro espaço se poderá fazer a festa. Outro ponto comun é que já ninguém defende a realização da feira na avenida Luisa Todi. Ninguém mesmo.

Temos, assim, um debate artificialmente empolado apenas por puro oportunismo eleitoral, num caso, e por falta de seriedade política, noutro.

Depois da relocalização da feira em 2004 já se realizaram três eleições autárquicas e sempre a força política que promoveu a mudança venceu. Evidentemente que não se pode dizer, simplesmente, que tal representa um apoio à mudança. Porém o eleitorado sabe perfeitamente qual é a posição da CDU sobre a matéria e sempre a apoiou com o seu voto. E por que é não é exagero afirmar isto? Porque em ano de eleições o tema da feira tem sido sistematicamente transformado em tema central da campanha eleitoral e nem assim se convenceram os setubalenses a votar contra quem defende que a feira tem de ser nas Manteigadas.

O que é importante é que a Feira de Sant’iago continua a ser a mesma coisa de sempre, só que agora num espaço diferente. Além disso, sempre houve pessoas que não gostavam de ir à feira na avenida, pessoas que gostavam de ir, pessoas que iam apenas para comer a bifana, outras para ir aos carrinhos de choque, outras para ver outras pessoas, outras porque sim e outras porque não.

Pretender que há um motivo universal para ir ou não ir à feira é pura e simplesmente destituído de sentido. O que vi na noite de 2 de agosto (quarta-feira), por exemplo, foi uma feira a abarrotar de gente nos carrinhos de choque, no espetáculo do AGIR, no Seninho, na Luisinha, nas cuecas dos indianos, no frango assado do restaurante da Urra. E tenho a certeza de que vi isto, ou seja, vi muitos milhares de pessoas naquele espaço onde agora podem ir a pé as pessoas que moram ali nas redondezas, e são muitas.

O que parece é haver por aí muito preconceito social escondido por causa de a feira ser na Bela Vista, onde moram os ciganos e os pretos. O que muita gente se esquece é que ali moram muitos mais do que apenas esses.

Esta conversa da feira já cheira tão mal que muita gente já nem liga e vai lá divertir-se, alheando-se desta polémica que tem sido artificialmente mantida.

Ainda bem, porque aquela é e continuará a ser a festa de Setúbal e de todos os que dela gostam, e esses são muitos. São cada vez mais.

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Política, Setúbal

A nova Feira de Santiago

Todos os anos, por esta altura, a maior festa de Setúbal assenta arraiais, desde 2004, na zona das Manteigadas, depois de décadas instalada na Avenida Luísa Todi. Nove anos após a mudança, o tema da transferência de local da Feira de Santiago continua a gerar acesas discussões e acentuadas divergências. Nem seria de esperar outra coisa. Afinal de contas, quem tem mais de 20 anos lembra-se bem do que era a feira naquele espaço, lembra-se do que ali se divertiu e lembra-se dos hábitos que adquiriu de ir à avenida na última semana de julho e na primeira de agosto para comer uma fartura e ver gente.

A discussão sobre a mudança de local da Feira de Santiago não nasceu, porém, em 2004, quando a Câmara Municipal de Setúbal decidiu a mudança para um novo espaço. A discussão, na verdade, tem décadas. Não me lembro de ano em que, antes da feira começar e depois de acabar, não tivesse sido retomada a discussão sobre a necessidade de mudar a feira de lugar por causa das deficientes condições em que se realizava. Por um lado, eram colocadas como razões para a urgente mudança de local as dificuldades de estacionamento, por outro os incómodos que causava a interrupção durante mais de 15 dias do principal eixo viário da cidade. Havia ainda quem, com razão, invocasse o ruído provocado pela festa ou a falta de condições sanitárias e, do lado dos proprietários dos restaurantes da avenida, havia quem lamentasse a concorrência que, por aqueles dias, era feita pelas roullotes de comes e bebes ali instaladas. Ou seja, todos gostavam de ter ali a feira, mas a esmagadora maioria defendia a mudança, poder autárquico incluído.

A discussão tinha, sempre, a limitada duração de pouco mais de 15 dias e morria por aí. Os setubalenses reconheciam que era necessária a mudança, a Câmara Municipal também reconhecia e mostrava-se empenhada em encontrar solução, mas pronto, não passava daí.

A discussão ganhou novos contornos quando, em Outubro de 2001, é apresentado, em véspera de eleições autárquicas, o Plano Estratégico da operação de requalificação urbana Setúbal POLIS, elaborado pelo Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território e pela Câmara Municipal de Setúbal, com o apoio do Parque das Nações e dos consultores Quaternaire Portugal. Era José Sócrates ministro do Ambiente, Manuel da Mata Cáceres presidente da Câmara Municipal de Setúbal e Teresa Almeida vereadora do urbanismo, a mesma militante do PS que viria a ser, em 2009, candidata deste partido à Câmara Municipal. Continuar a ler

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Setúbal

Saudades da Feira de Santiago

A Feira de Sant’iago abriu as portas no passado fim de semana e, logo no primeiro dia, registou uma enorme enchente que desmente os que, ano após ano, se apressam a anunciar a morte desta grande festa.

Antes de continuar, é importante que faça uma declaração de interesses. Para mim, que nasci no que foi o Parque das Escolas, ali cresci e brinquei, sempre com aquela enorme festança a fazer de vizinha no pino do Verão, ainda o circo com os seus leões e elefantes, e alguns com zebras amestradas, assentava arraiais no espaço fronteiro ao Duarte dos Frangos, a melhor feira foi a da Avenida Luisa Todi. A feira dos bares roullote arrumados ao longo da estrada, das filhozes do Chico Padreca — ainda as farturas não se tinham apoderado do cardápio do feirante crónico — dos cachorros quentes regados a imperial fresquinha, dos restaurantes do frango assado salpicado de pó, que, talvez por isso, ainda sabiam melhor, dos assadores de polvo duro de partir o dente. A feira da Bolacha Piedade ainda mais dura que o polvo, no tempo em que só se comia a especialidade naqueles quinze dias, dos espectáculos no Largo dos Bombeiros, a feira da minha infância, dos martelinhos e das bolinhas com elásticos a fazer de io io dos pobres.

Arronches Junqueiro, distinto setubalense abordou, em 1930, no livro «Setúbal na segunda metade do século XIX», o tema da mudança de local do certame operada no princípio do século XX. O escritor recordava, com especial saudade, os “realejos, sinetas, tambores, gaitinhas, pregões” que faziam “um coro especial, característico da feira, que nunca se repete durante o ano em qualquer festa que se realize. É da feira. Só ela o produz. E em prova de que assim é, apresento o contraste entre este bulício, e o quase silêncio que reina hoje na actual Feira de Santiago. É que são diferentes as duas feiras: a primeira morreu quando passou a sua iluminação do petróleo para o acetileno; a segunda nasceu com a electricidade. Diferença de cenário, diferença de objectivos, trazem a modificação nos costumes.”

Para melhor?” ̶ perguntava Arronches Junqueiro. “Evidentemente que sim” — foi a decisiva resposta que deu à pergunta. E acrescentou  ̶  “nenhum de nós toleraria hoje a feira de há cinquenta anos. Se alguma saudade me desperta a recordação dela, é apenas saudade de mim.”

Saudade de mim… É também o que sinto quando recordo a feira na avenida. Mas apenas isso, porque, na verdade, e como dizia Arronches Junqueiro, ontem como hoje «são diferentes as duas feiras»: a que se fazia na avenida e a que se faz hoje nas Manteigadas.

As virtudes da festa na avenida Luisa Todi eram, claramente, suplantadas pelos problemas logísticos e organizativos que ali criava. Falta de estacionamento, caos instalado no trânsito durante três semanas, incómodos para os residentes numa vasta área habitacional, ausência de estruturas básicas que suportassem o afluxo diário de dezenas de milhares de pessoas, falta de instalações para os feirantes. Depois, há que acrescentar a estes problemas a obra de requalificação feita na avenida, incompatível com a utilização do espaço para este tipo de iniciativas.

É certo que, na última campanha eleitoral para as autarquias, houve quem anunciasse que havia projecto para mudar a feira cá para baixo; que podia ser feita na várzea; que a avenida tinha espaço de sobra. Houve até quem avançasse com a possibilidade de a fazer na Rua da Saúde, na zona da lota e do quartel dos bombeiros, embora nunca se tivesse esclarecido como se processaria o trânsito das viaturas de emergência nem os acessos à lota dos pescadores.

Para a história, o que fica é que a ideia de mudar a feira para as Manteigadas surgiu, pela primeira vez, no plano estratégico do programa Polis, elaborado em 2001, era vereadora do urbanismo a arquitecta Teresa Almeida.

É importante que se recorde o que se escreveu, então, neste plano sob a direcção do executivo municipal presidido pelo socialista Mata Cáceres, coadjuvado no pelouro do urbanismo por aquela que viria a ser a candidata do PS nas eleições autárquicas de 2009:

«Actualmente, o Parque José Afonso é o “campo” ou o “logradouro do circo que chega à cidade”. (…) Durante 15 dias sucede a famosa Feira de santiago, que, embora formando uma parte da afirmação identitária da cidade, actualmente esta caracteriza-se por uma certa degradação ao nível da sua imagem e apresentação. A feira, apesar do seu carácter histórico e popular, é considerada pelos actores auscultados, actualmente, como “um claro elemento de degradação urbana da cidade”.»

Eis a primeira abordagem do assunto, a páginas 27 e 28 do plano estratégico. Mais à frente, na página 44, nova carga:

«O grande constrangimento aqui existente [no Parque José Afonso] surge ao nível da realização da Feira de Santiago. Após uma cuidada auscultação de todos os actores verificou-se que praticamente todos eles surgem de acordo em que a actual situação da feira anual não pode continuar com está. Se bem que este aspecto da alteração do local da Feira de Santiago deva ser objecto de uma análise mais aprofundada»

Finalmente, propunha-se «a passagem da feira anual para uma outra zona da cidade, ainda bastante central. A zona das Manteigadas, assumidamente uma das novas centralidades da cidade, tem sido apontada como hipótese mais preferencial. Esta é uma zona onde já estão instalados o politécnico de Setúbal, a Escola Superior de Educação e onde já vive, actualmente, cerca de 50 por cento da população da cidade. Será importante que a Feira de Santiago já esteve, na maior parte da sua existência, instalada noutro local.»

Fica claro que a transferência da feira para outro local era uma necessidade assumida há muito pelos decisores, necessidade que alguns ocultam agora por mero oportunismo político. Não é possível classificar tal atitude de outra forma.

Quanto a mim, reafirmo que preferia mil vezes a feira na avenida. Mas concordo que, ali, a festa já era inviável e que era necessário mudar. Foi o que se fez, e bem…

Para os mais jovens, a feira é sinónimo de Manteigadas e a avenida já é história. Lembrem-se disto.

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Cultura, Setúbal

Música em grande na Feira de Santiago

O programa da Feira de Santiago deste ano já é conhecido e está recheado de coisas boas, embora estranhamente ainda ninguém tenha dado por elas. O programa está escarrapachado no Guia de Eventos de Setúbal de Julho e o que revela é que, logo no dia de abertura, 24 de Julho, actua Tiago Bettencourt e Mantha, seguidos de uma nova fadista, Teresa Lopes Alves, que aparece aqui apadrinhada pelo homem dos Toranja; no dia 27 passam pelo palco principal da feira os setubalenses dos More than a Thousand e, no dia 29, o som tradicional dos Deolinda. No dia 30, um setubalense nascido no Irão, Mazgani, toca para o público da feira nas Manteigadas. Dia 31, o espectáculo para as massas Idolomania traz a Setúbal as novas vedetas lançadas na SIC.

No dia 1 de Agosto, música para os putos com Fulia Kids Tour, com Ruca e amigos. Logo a seguir, no dia 3, The Legendary Tiger Man e Rita Red Shoes ocupam o palco e, no dia 5, salta para as Manteigadas o ídolo de jovens e menos jovens que seguiu as pisadas do pai, nem mais nem menos do que Micael Carreira. O palco é encerrado no dia com o inevitável e setubalense Toy.

Como diria o Charroque da Profundurra, “apá sóce, vames mazé à fêrra”

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