Setúbal

As novas elites

Quem segue com mediana atenção o que acontece nas redes sociais, esse ecossistema permanentemente em fogo, sabe que é lá que vivem os seres mais perfeitos, capazes e competentes do planeta.

A nova elite política, artística, técnica, científica, intelectual e desportiva tem intensa vida nas redes. São os membros desta classe que conhecem, como ninguém, o que é melhor para a cidade e para o país e que identificam de imediato, sem margem para dúvidas, tudo o que está mal. A nova elite não dá opinião sobre os temas. Não. Isso é para quem nada sabe das questões. Estes especialistas sabem, de ciência certa, o que está mal, embora não saibam como o fazer bem. Sabem por onde o país e a cidade não devem ir, mas não sabem que outros caminhos devem seguir. Mas isso pouco importa aos novos elitistas. O que interessa é, a cada momento, postar sentenças sobre tudo e sobre todos. É a democracia, dizem; é a liberdade de expressão, estúpido, acusam. É isso tudo e muito mais. É, acima de tudo, a exposição da ignorância embrulhada em arrogância e, muitas vezes, em anonimato confortável.

A democracia das redes sociais é, hoje, a mais perfeita contradição com o que deve ser a democracia, um sistema em que, de preferência, todos têm informação para poderem dar opinião e decidir em consciência. Porque, na verdade, todos temos a liberdade de falar, mas também de ficar calados. É ali, nas caixas de comentários do Facebook e dos jornais, que se percebe a dimensão da desinformação em que vivemos, a fragmentação do conhecimento, a incapacidade de relacionar e procurar informações, a exuberância e atrevimento da ignorância. Os media, neste tempo de notícias falsas, de factos alternativos, de pós-verdade, também ajudam pouco. A este propósito é, aliás, interessante citar uma frase proferida há dias por um famoso ator norte-americano, a quem pediam para comentar um rumor, manifestamente falso, sobre a sua atividade política. Respondia Denzel Washington aos jornalistas que, quando não se lê jornais, está-se desinformado; mas quando se lê jornais, então aí está-se mal informado. Questionado sobre qual seria a alternativa, Denzel responde que essa é a grande questão e pergunta qual será, a longo prazo, o efeito do excesso de informação em que vivemos hoje. Um dos efeitos, para o ator, é que os jornalistas apenas querem ser os primeiros a dar a notícia, esquecendo a necessidade de ser rigoroso, ou, como ele diz, de “dizer a verdade”. A grande responsabilidade é ser rigoroso, e não apenas ser o primeiro a dar a notícia. E esta deve também ser a responsabilidade de quem comenta nas redes sociais, independentemente do nível de responsabilidade e visibilidade que tem nesses comentários.

Nunca como hoje tivemos tanto acesso à informação, às notícias. Temos canais noticiosos 24 horas por dias, sites na Internet que apenas dão notícias, jornalismo cidadão, imagens de tudo e de nada. Porém, a realidade é enganadora. Dominique Wolton, sociólogo francês considerado um dos mais destacados estudiosos das questões da comunicação, afirma que “hoje, o que é preocupante, é que há muito mais tecnologias, mas a diversidade do que é produzido e difundido é escassa. É uma espécie de falhanço: muitas tecnologias, muita informação, mas menos comunicação. Isto é um problema politico”.

Wolton classifica a Internet como “um espaço de liberdade de expressão”, mas isso, garante, “não é comunicação. Comunicação é o recetor estar interessado no que diz o emissor. Posso não estar de acordo com o que diz, mas respondo, e há uma discussão. Na internet, na maior do tempo não há discussão. Cada um conta a sua vida, mas não é porque toda a gente se exprime que toda a gente comunica. Cada um está só e podemos chegar a uma situação em que há seis mil e 500 milhões de internautas autistas. Há aqui um desafio político e cultural. Ou, então, o capitalismo vai prosperar com a internet e com as novas possibilidades dos big data, a partir dos quais as grandes corporações vão ficar a saber dos gostos de cada um e dar-nos todos os programas de que gostamos no nosso smartphone”. O sociólogo acrescenta uma ideia pouco consensual, mas que merece debate aprofundado: “não existe regulamentação da internet e são precisas leis nesse sentido”.

Este é um retrato fiel do que se passa hoje nas sociedades da informação, ou melhor, da desinformação.

Convencionou-se que todos podemos e devemos comentar tudo, mesmo que pouco saibamos dos assuntos em debate. E todos nos transformamos assim em especialistas; todos ascendemos a uma nova elite capaz de opinar sobre o que quer que seja, a elite que sabe que aprofundar o canal de navegação do Porto de Setúbal é uma asneira porque sim, que sabe que fazer ciclovias é um erro porque ninguém anda de bicicleta, que sabe que David Chow, o homem que quer fazer uma marina em Setúbal, está falido porque se confunde perdas líquidas com falência, apenas para citar três exemplos retirados dos comentários que se fazem sobre a vida setubalense.

Muitos cidadãos, ansiosos por participar e ter um papel ativo na vida das suas comunidades, confundiram, irremediavelmente, o ato de cidadania que é ter opinião e manifestá-la nos locais adequados com os posts que fazem no Facebook. A democracia é bem mais exigente do que isso. Participar requer informação, exige que se emitam opiniões nos locais certos, perante aqueles que elegemos para nos governar, e não apenas nas urnas de quatro em quatro anos e, agora, no Facebook. A cidadania não se confina às redes sociais, ainda que seja forçoso reconhecer que estas redes são importantes espaços de manifestação de opinião, embora também sujeitos a sérias manipulações e distorções.

Os meios disponíveis para participar na vida das comunidades existem e nem estão distantes. Para falar apenas na vida da nossa cidade, a cidadania pode ser exercida nas coletividades, em comissões de bairro para resolver problemas concretos, nas assembleias de freguesia, nas assembleias municipais e reuniões públicas da câmara municipal. Além destes canais, há todo um mundo de possibilidades que se abrem, mesmo recorrendo aos novos media e às redes sociais, para que possamos exercer, responsavelmente, a cidadania.

Hoje, muitas autarquias disponibilizam canais de comunicação eficientes para que os cidadãos possam transmitir opiniões, ideias, reclamações. Infelizmente, assistimos a uma tremenda falta de participação nestes fóruns, enquanto assistimos à ascensão das arrogantes e ignorantes novas elites das redes sociais que se confrontam, sistematicamente, com aqueles que exercem os mandatos para os quais foram eleitos e são vistos como os incapazes desta equação.

Claro que as redes sociais são instrumentos importantes para exercer a liberdade de expressão e uma forma expedita de divulgar informação e exercer a cidadania. Mas não são a única nem a mais importante. O grande desafio dos nossos dias é sermos capazes de sair de casa, abandonar o teclado do computador ou do telemóvel e começar a participar mais ativamente, cara a cara, sem anonimato e sem medo de dar opinião, na vida das nossas cidades e sociedades.

Podemos fazê-lo na rua, na reunião de câmara, na coletividade, nos sindicatos, nos escuteiros, nos clubes de futebol, olhos nos olhos. Descobriremos, certamente, que é muito mais interessante, animado e recompensador do que apenas escrever umas coisas no Facebook…

 

PS – Já depois de publicado este texto na Gazeta Setubalense, jornal online para o qual foi expressamente escrito, lembrei-me, a propósito da última frase, desta cena do filme Ocean’s Eleven que descreve muito bem o que se passa hoje nas sociedades ocidentais, em que a realidade, mesmo que esteja ao lado ou à frente dos nossos olhos, é substituída pelas redes sociais pelas imagens, pela intermediação. Tal como no filme, preferimos cada vez mais estar sentados em frente ao ecran do computador do que participar ao vivo nos acontecimentos.

 

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Geral, Política

Magalhaezoadas

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No sábado, na última página do Expresso chocámos com uma notícia hilariante. O deputado do PS, José Magalhães justifica a apresentação de um projecto-lei que quer “autorizar os partidos e os candidatos a utilizarem as redes sociais, nomeadamente o Facebook, em alturas de campanha eleitoral”. O Magalhães acrescenta uma daquelas tiradas patéticas em que é useiro e vezeiro, num jornal a pose está oculta mas não deve ter desmerecido da tirada, “a internet é uma forma importante de os políticos poderem chegar aos cidadãos”. La Palisse em todo o seu esplendor! Aqui está um segredo de polichinelo que essa ave, que tornou a arribar à AR, proclama sem se rir, mas para nos fazer rir. O projecto lei, certamente da sua lavra, o rapaz sempre foi muito dado ás coisas da informática com um conhecimento reader’s digest, não tem a mínima utilidade. O espaço internético está invadido pelos políticos em todo o mundo e em Portugal. Ou talvez o seu interesse resida naquela referência particular ao Facebook. Estará o Zé Magalhães à espera que o Marc Zuckerberg o recompense? Isto de fazer publicidade ao anunciar oficialmente, talvez mesmo no corpo do decreto-lei,  uma marca deve, deveria, ser bem pago. Esperemos que o Marc não seja ingrato. As indas e vindas do José Magalhães à AR mostram-no como um avida dollars que perdeu toda a decência a que o PCP, quando era seu deputado, o obrigava. Bem quis travestir a sua saída do PCP como um acto de dissidência ideológica. Ainda nos lembramos como num programa de rádio, o Pacheco Pereira o gozava desmedidamente, desmontando a teatrada, ele entaramelando justificações.

Tirando a hipótese Zuckerberg, outra hipótese, mais rebuscada mas não menos possível, é de colocar. Porque é que o Expresso dá aquela notícia que não tem pés nem cabeça? A única justificação é a de dar visibilidade ao embaciado José Magalhães, porque a Impresa quer ver se ele lhes larga a porta,  por onde tenta reentrar na Quadratura do Círculo. O cheiro dos maravedis fazem-no perder a pouca lucidez que ainda terá. É evidente que a utilidade do Zé Magalhães é menos que zero. Primeiro, porque ao longo dos anos, desde que sentou pela primeira vez na AR, a espessura óssea foi ganhando espaço à massa cinzenta, até ao estado crítico actual, como se vê por esta iniciativa parlamentar. Depois porque o seu valor de uso reduziu-se drasticamente na medida em que o seu ser ex-PCP perdeu o prazo de validade.

O drama do Magalhães é julgar-se importante. Que iria ele fazer num programa que tem um maquiavel vivendo o drama de não ter príncipe, um político que só faz política para fazer, directa e indirectamente, tráfico de influências, e outro político muito activo no traçar de metas para a sua carreira e que usa essa tribuna como motor auxiliar nessa corrida? Nada! Num programa que deve ter um baixo nível de audiência, que só se mantém pelas repercussões de algumas opiniões ali expressas são reproduzidas noutros meios de comunicação social, a utilidade do José Magalhães é nula.

Ouça um bom conselho Zé Magalhães, antes que o ridículo o mate com mais umas propostas de decretos-lei do mesmo jaez, aproveite o tempo para escrever umas parvoidades que a sua amiga Zita Seabra logo as publicará como publica todo o lixo que vai parar à sua editora. Vá para esse caixote do lixo, nem sequer caixote de lixo da história, que é o vosso, e doutros da vossa estirpe, o  vosso habitat por excelência.

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Cultura, Geral

Facebook, o novo peep show

A rede social Facebook, criada em 2004, é hoje uma das mais fascinantes manifestações do novo paradigma comunicacional, com uma presença massiva na internet. Em pouco tempo atingiu um número estimado em mais de 500 milhões de utilizadores activos – valor que se aproxima do conjunto de toda a população dos 50 países e oito territórios que constituem o continente europeu – e continua a aumentar todos os dias.

O êxito desta rede é tal que pessoas, empresas, entidades públicas e todo o tipo de organizações não dispensam já o “Livro das Caras”. Nos contactos pessoais; na publicidade e divulgação; como presença institucional. Se, inicialmente, o facebook terá nascido para a comunicação inter-pessoal entre pessoas de grupos homogéneos (universidades), nos dias que correm ele entrou definitivamente nas estratégias de comunicação de pessoas e organizações, um recurso sempre ditado pela máxima publicitária “estar onde estão as pessoas”. Moda passageira ou modelo que veio para ficar? Ninguém sabe.

As vantagens são óbvias. Sem precisar de sair da frente do seu computador (ou telemóvel, cujos utentes são duas vezes mais activos) o membro da rede escolhe “amigos” e aceita pedidos de “amizade”; constitui e adere a grupos; envia e recebe mensagens; comunica on-line. Cada utilizador tem, segundo dados do facebook, um número médio de 130 “amigos”; segundo a mesma fonte, as pessoas que integram a rede gastam nela cerca de 700 biliões de minutos por mês.

Tudo virtual, claro. Já mal nos lembramos dos tempos (aqueles que são desses ditos tempos) em que tínhamos que sair de casa para encontrar os amigos no café ou noutro local público ou fazer um certo investimento emocional (!) para conhecer pessoas e fazer amigos.

Mas agora não estamos só entre pessoas. No domínio dos contactos pessoais realizados na rede, preocupamo-nos com o que lá escrevemos ou colocamos (imagens, vídeos, textos)? É-nos relevante que o manancial de dados pessoais que lá escrevemos fique guardado em servidores informáticos que concentram um tal volume de informação? Que saibam onde estudámos, ou onde trabalhamos, ou com quem contactamos diariamente? Que alguém reúna todo esse conhecimento e dele possa dispor. Para muitos, tal é irrelevante. Não vemos a “cara” de quem guarda e gere essa informação, não o sentimos no nosso dia-a-dia. Para quê então preocuparmo-nos? Haverá razão para tal?  Fará sentido recordar o personagem Big Brother e o romance “1984” (ed.1949) de George Orwell (1903-1950)?

O conceito de privacidade é hoje provavelmente diferente de há uns anos. Ou tem uma nova dimensão, anteriormente desconhecida. Na sua versão tradicional, privacidade tem uma forte relação com a proximidade física, o espaço vital de cada um, dados por indicadores como a distância ao outro ou as áreas reservadas à esfera pessoal. O “isolamento comunicacional” ditado pela ligação a uma máquina e a uma rede assegura-nos essa nova espécie de “privacidade”, um espaço onde há presenças que não são físicas. À imagem da privacidade dos gabinetes individuais dos peep-shows. Mas… claro que sabemos que há lá gente…

* Peep show, segundo a versão inglesa da Wikipedia, is an exhibition of pictures, objects or people viewed through a small hole or magnifying glass. Though historically a peep show was a form of entertainment provided by wandering showmen, nowadays it more commonly refers a presentation of a sex show or pornographic film which is viewed through a viewing slot.

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