Política

Golpadas

93643_Papel-de-Parede-Tubarao-do-Procurando-Nemo_1024x768Preços da electricidade, promoção da ciência e da investigação, taxa de desemprego e escolaridade obrigatória são motivos para algumas das últimas golpadas com que o Governo e os seus mentores acabam de brindar os portugueses.

Afinal o anunciado aumento de 2,8% nas tarifas fixadas para a eletricidade não passa de uma daquelas médias habilidosas que cruza dois factores: o preço da potência e a energia consumida. Afinal o aumento do custo da energia será em regra superior podendo atingir 5%!

Assim se promove a ciência e a investigação em Portugal: menos 40% de bolsas concedidas pela FCT. Foram menos 900 bolsas individuais de doutoramento e menos 444 bolsas de pós-doutoramento. E com o ministro Pires de Lima a acusar os bolseiros de “viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real”. Ao invés de melhorar o sistema, satisfazem-se a destruir uma das poucas áreas estratégicas em que o país tem demonstrado uma evolução notável.

O desemprego está a diminuir. Claro. Com a emigração massiva a atingir os níveis dos anos sessenta do seculo passado. Com os imigrantes a regressar aos seus países de origem. Com o número de empregos não-remunerados a crescer. Ah, e com a remuneração dos empregos criados a concentrar-se em torno do salário mínimo nacional… que data de 2011.

“Jovens populares” (CDS) propõem diminuição da escolaridade obrigatória do 12º para o 9º ano. Ou será um sonho cada vez menos escondido da “direita popular” de Portas e P. Coelho? Remeter à ignorância amplos sectores da população.

Bem podem dourar a pílula. A realidade aí está, mas bem escura.

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Geral

O Português Europeu, pois, o nosso!

Não venho falar do acordo ortográfico, mas de algo que me preocupa com alguma profundidade e que é o futuro daquela língua que Pessoa disse ser a sua Pátria ou vice-versa.

As notícias em torno do Ensino do Português no Estrangeiro (EPE) há muito que são preocupantes e, já em 2006 a discussão do futuro deste ensino existia, com o governo PS a dar muito pouco interesse ou resposta aos problemas que cresciam e que, entretanto, se foram agravando em 2009 e que, actualmente, atingiram proporções assustadoras.

A maioria PSD/CDS rejeitou um diploma do BE e um projecto de resolução do PCP sobre a defesa, valorização e investimento no ensino da língua portuguesa no estrangeiro. A desculpa usada pela maioria PSD/CDS para chumbar os dois documentos foi a de que o governo já estava apostado em «retirar o ensino do português no estrangeiro da prateleira.»

O governo PSD/CDS (e o ensino do português no estrangeiro passou a ser da responsabilidade quase total do Ministério dos Negócios Estrangeiros) redobrou o ataque à língua materna de forma que a Língua Portuguesa pode acabar por desaparecer junto dos filhos dos emigrantes.

Penso que se deve encarar com apreensão o futuro, porque o número de alunos sem aulas tem vindo a aumentar, com aumento do número de alunos em cada classe e mistura de alunos dos diferentes ciclos de ensino e uma redução do número de horas semanais.

É bom recordar que a Constituição Portuguesa reconhece o direito aos filhos de todos os cidadãos nacionais (mesmo que emigrados) a aprenderem a Língua Portuguesa de forma gratuita.

O governo decidiu este ano que os alunos do pré-escolar, básico e secundário têm de pagar uma propina de 120 €!

Para além de ter reduzido o número de professores sem ter em consideração o número de alunos, os professores vão sofrer reduções salariais que chegam aos 30% e alguns deles já estão em situação muito precária para não falar mesmo em situação de pobreza. Dos 600 professores que existiam em 2009, restam agora 396!

Têm sido várias as associações de emigrantes e de professores no estrangeiro a manifestarem-se contra as medidas deste governo. Há também petições que chegaram à Assembleia da República.

É com apreensão que olho para o futuro, porque são cada vez mais os jovens que se vêm forçados a emigrar por não encontrarem o seu ganha-pão neste País empobrecido, dilacerado e esventrado pela política das troikas interna e externa. Muitas serão as crianças nascidas fora e que, se não tiverem a língua e a cultura portuguesas como ligação e alguma identidade, não irão voltar a este país. Queixam-se que não há dinheiro para gastar naquilo que cegos que são (ou se fazem) seriam um grande e bom investimento.

Reconheço que será exigir muito a estes governantes sem visão de futuro e a quem faltam bases culturais e mesmo identitárias com a nossa Pátria que, a deles, deve ser aquela que se diz quem não tem pátria.

De resto, o governo entregou um anexo ao orçamento rectificativo aos deputados da Assembleia da República em inglês! Que eu saiba, só os deputados do PCP se recusaram a receber o dito desde que não fosse em português.

E se os emigrantes deixarem de enviar as suas remessas que têm sido no valor de dois biliões por ano? Aí seriam, certamente, cognominados de anti-patriotas, sem afecto pelo seu país, etc., etc.

As comunidades portuguesas são uma mais-valia importante em muitos sectores da economia nacional. Pretender reduzir o orçamento para o ensino de português no estrangeiro, que já desceu abaixo dos 35 milhões, verificando-se uma diminuição de 30% em 5 anos, demonstra uma falta de visão política que pode ter consequências graves para o país : o fim do elo de ligação que ainda existe entre portugueses residentes no estrangeiro e Portugal que, a médio prazo, poderá  levar estes a deixar de investir no país como acontece hoje.

Recordo umas férias passadas numa ilha açoriana e na qual pude ver uma quantidade de jovens, netos de emigrantes nos EUA, que não falavam nem uma palavra de português. Quando questionei uns quantos responderam-me: “Falar português? Para quê?

Por todas estas razões me sinto preocupada com o futuro da nossa língua: os novos a partirem, os luso-descendentes a não voltarem, a baixa natalidade por cá, os idosos a irem morrendo, daqui a umas décadas seremos, provavelmente, bem menos os que falaremos o português europeu e já nem haverá acordo ortográfico que nos valhe. Sim, temos os emigrantes que lá vão atamancando um português, por vezes muito razoável, ao qual vão aplicando o acordo desacordado pela maioria de nós.

E cito aquele episódio verificado com uma amiga jovem que foi a uma entrevista para tentar emprego, em Lisboa. A certa altura o entrevistador, holandês de origem, perguntou-lhe: Afinal qual é a língua que fala? A jovem ficou perplexa, pois já tinha dito que falava português, mas repetiu: portuguese ( a entrevista decorria em inglês) Ah, então, não serve, porque nós queremos alguém que fale brasileiro!

Penso ainda no que disse o escritor Agualusa aos angolanos sobre o acordo ortográfico: Angola precisa desesperamente de livros e o Brasil edita muito mais do Portugal e a um preço muito mais barato.

Pese alguma tristeza que me invade, percebo quer os adolescentes que não sabiam para que precisavam do português quer o holandês que entendia que a jovem que falava português não se deveria fazer  entender com brasileiros e o escritor Agualusa, pragmático e com certa clarividência.

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Cultura

Erguer o copo saudando o António Cabrita

Pois é,  meu caro António, não é só por aí, talvez aí se esperasse mais inquietação do que por aqui, em que o tédio assombra uma sociedade que já vive entediada. Não sei onde o Steiner referia que se faziam e publicavam milhares de teses sobre o Goethe em que o conhecimento era ocioso. Nem uma faísca.

Um mal dos tempos. O maior passatempo cultural são as caixas chinesas, as marioskas.

A malta anda mais entretida em fazer listas dos cem maiores pensadores do século XX, (tanto grande pensador e o mundo não muda?) como todos os anos se fazem listas dos mais ricos do mundo ou dos cem mais influentes nas artes. Nas artes é de rebolar de riso. Vai-se ver, estão lá os que têm dinheiro para ir às compras, mesmo que sejam como o comerciante do do Brecht, que do arroz só conhecia o preço. Nos livros, mais uma vez o Steiner, as badanas adquirem inusitada importância. Lê-se uma peça de teatro de Heiner Muller, se não ler a badana, a esmagadora maioria dos leitores nem percebe a sua relação com o teatro grego. No teatro ou no cinema. Por exemplo, não me lembro de ter lido nas críticas escritas cá no burgo, nos jornais ditos de referência, ao Fala com Ela, do Almodovar, uma alusão ao Orfeu e Euridice e estava lá tudo, com um final variante. No ano passado ou no anterior, que interessa isso, uma das figuras mediáticas da nossa cultura baralhou Rimbaud e Verlaine. Erro de palmatória tão excessivo poderia ser gralha, a tradução do verso usado era tão de pé quebrado que as gralhas não são assim e aquela nem tinha perdido uma pena por maior que tivesse sido a liberdade poética na traição ao original.

O conhecimento é cada mais virtual e menos conhecimento, é mais carregar no botão. Há museus que já registam mais visitas virtuais que visitas reais, o paradigma museológico começa a aproximar-se de uma amálgama de arte, entretenimento, marketing e comércio. Está tudo dito, é o triunfo dos formatos dos shows televisivos.

Se calhar este desenrolar, pouco cuidado, da mortalha em que esta sociedade se está a enrolar é fala de animal em extinção.

Sem te pedir licença vou fazer link para o teu post. Bem gostaria de aí estar, para esse curso livre. Grandes debates em perspectiva, nada deste saber vendido em cubos de gelo que se derretem sem sabor, nem cheiro. Claro que há excepções, não são poucas, que correm como toupeiras debaixo destes desertos e saltam para a superfície quando menos se espera. É o que nos salva da extinção completa.

Esta malta de carregar no botão, mesmo os que ainda sabem distinguir entre botões, estão cada vez mais como a Alice, no país das maravilhas, quando se agarrava ao gato Cheshire para encontrar uma saída que não sabia qual era.

–Por que caminho vou agora, perguntava Alice

–Para onde queres ir? responde o gato

–Não sei, replica Alice

–Então se não sabes para onde ir, não precisas saber o caminho!

Interessa-lhes saber? Interessa-lhes o caminho para, sem saberem para onde ir, sobreviverem.

A vida não lhes interessa.

Tilinto fragorosamente um copo contigo, para acordar os que adormeceram a ler esta prosa e irem ler o teu texto.

Um grande abraço.

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Geral

Casa Pia – Sentença Adiada/Instituição Corroída

Dura há mais de cinco anos mas, mais uma vez, a leitura da sentença foi adiada.
Protestos de todos os lados, bem sonoros os de advogados que usaram todo o arsenal jurídico à sua disposição para arrastarem o julgamento até às calendas.
No meio da vozearia, enquanto Carlos Cruz se desdobra em coisas insensatas como a de abrir um site para ser julgado pela vox populi e aproveitar o adiamento para aparecer na televisão a dizer que sente (sublinhe-se o sente) que um dos juízes tem um preconceito contra ele, clara tentativa de criar mau estar no colectivo que está a elaborar o acordão, mestre Américo surge, com a autoridade que se lhe reconhece, a dizer coisas sensatas com a serenidade de as ter vivido e ser o primeiro a denunciar
.
Vale a pena ler o que disse e que se transcreve de uma notícia do Público:
“Há entraves enormes à investigação e à instrução de um processo como este”, sublinhando que não culpa “nem a Polícia Judiciária, nem o Mistério Público, nem a instrução”.

“São muros que se criam que, às vezes, por mais que as pessoas os queiram derrubar, são impossíveis de derrubar”, disse, referindo-se a “outras formas de poderes, instituídos na sociedade portuguesa e não só, que criam verdadeiras barreiras à investigação de processos como este”.

Segundo mestre Américo, “não foi só o poder político actual”, pois “há muitos outros poderes – políticos ou não – que se levantaram e actuaram para proteger os seus membros”.

Questionado sobre se a maçonaria foi um desses poderes, mestre Américo disse: “É esse tipo de poderes. Não é só a maçonaria. Há outros”.

A poucos dias da leitura da sentença do caso Casa Pia, marcada para 05 de Agosto, (ainda não sabia que seria adiada para 3 de Setembro) mestre Américo vive “grande ansiedade” e é por isso que não estará presente no tribunal.

“A ansiedade é tal que prefiro estar sossegado no meu lar e seguir estes trâmites finais do processo que, contudo, não irá terminar aqui”, disse.

Apesar de achar que muitos culpados ficaram “de fora”, espera justiça, embora acredite que esta nunca será suficiente para as vítimas: “Não há justiça possível para o que sofreram e o que foram obrigadas a reviver”

A ansiedade de mestre Américo vai prolongar-se, provavelmente sem grandes esperanças na justiça, ao olhar para os últimos julgamentos mais mediáticos que ficaram em águas de bacalhau.

Nessa entrevista afirma, com o indiscutível saber técnico-profissional com que preparou inúmeros jovens procurados para trabalhar nas empresas de relojoaria do mundo, que, na sequência do escândalo da pedofilia, a reestruturação da Casa Pia seguiu o modelo geral. Para mestre Américo, é “um plano de estudos muito incipiente, do ponto de vista da valia das competências técnicas e profissionais, que os alunos da Casa Pia podiam antes adquirir e agora não podem, até porque não têm tempo para isso”.
O mestre receia que os alunos da Casa Pia – que “hoje já não têm de maneira nenhuma a formação técnica que antes tinham” – comecem a não ser aceites no mercado de trabalho.

“A formação (técnica) sempre foi o baluarte da Casa Pia de Lisboa. Hoje, acabou, foi arrasada”

O que tornava a Casa Pia uma instituição que se distinguia pela preparação técnica que, em várias áreas, proporcionava aos seus alunos é um capital que está a ser gravemente corroído. Esse é um crime, tão grave como os da pedofilia, que nunca será julgado.Mais uma iniciativa da celebrada cientista (esta é uma graçola para um intervalo de sonoras gargalhadas *) Maria de Lurdes Rodrigues entre muitos outros que a arrogância de que é possuída transforma em grandes feitos!

(*) para quem tiver tempo a perder e se queira rir um pouco mais, também muito eficaz contra insónias, ler “Sociedade, Valores Culturais e Desenvolvimento” em que o que não são lugares comuns ou coisas que já se leram e releram em muitos outros lados é para deitar para o lixo. Um paradigma de como se constroem alguns currícula..

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