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De Obama a Trump, da esperança ao medo

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Pode a vitória de Donald Trump significar o mesmo sentimento, digamos de incomodidade, que a eleição de Barack Obama em 2008? Sim, mas por razões diferentes. À esperança sucede a ameaça de retrocesso civilizacional.

Trump teve agora menos quase dez milhões de votos que o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos. Hillary Clinton alcançou mais 280 mil votos que o vencedor Trump – o que não chegou!

Tal como Barack Obama (Yes We Can), Donald Trump (Make America Great Again) chega à presidência dos Estados Unidos por se afirmar como o protagonista da “mudança”.

Obama sucedeu ao republicano G. W. Bush, o Bush filho que mergulhou o país e o mundo na 2.ª guerra do Iraque e nas suas sequelas, que duram até hoje, a par de uma das maiores depressões económicas do século XX.

Trump, um magnata pouco escrupuloso, vai suceder a um democrata com uma agenda liberal (na terminologia política americana algo aparentado ao que conhecemos na Europa como esquerda) e onde se incluíram o Obamacare, a saída do atoleiro iraquiano – a par do desastres líbio e sírio, o descongelamento das relações com Cuba ou o combate sem sucesso à proliferação de armas.

Apesar do entusiasmo que rodeou a primeira eleição de Obama, grande parte das suas promessas ficaram pelo caminho. Wall Street manteve o seu papel determinante e as desigualdades sociais agravaram-se, o acesso às armas continuou sem controlo e o racismo e a xenofobia mantiveram-se em níveis alarmantes. E as indústrias tradicionais não regressaram aos dias de glória do passado…

Mas também é certo que os EUA assistiram durante a administração Obama a um período de recuperação macro-económica, bem ilustrado pela atual (baixa) taxa de desemprego. Pudesse Obama ser re-candidato e provavelmente seria o vencedor.

O eleitorado norte-americano rejeitou, em 2008 como agora, os sucessores escolhidos nas primárias do partido do presidente em exercício, então John McCain e agora Hillary Clinton.

Os resultados da eleição de 8 de Novembro comprovaram que H. Clinton não congregou os eleitorados que haviam elegido B. Obama. E como seria isso possível? Mau grado a expetativa de poder ser a primeira mulher a ocupar o cargo, H. Clinton não foi em 2016 a candidatura outsider e mobilizadora, que B. Obama havia sido em 2008, catalizando as forças da mudança perante os sentimentos difusos de mau estar que atingem grandes parcelas de tradicionais eleitores democratas.

Clinton era desde há muito, para o bem e para o mal, alguém com uma história de vida intimamente ligada ao exercício do poder: como “primeira-dama” interventiva e gestora de dossiers durante os mandatos do marido e como Secretária de Estado (Negócios Estrangeiros) no primeiro mandato de Obama. Pior foi o facto de ser vista como um dos principais representantes do status quo político-financeiro que manda no país. Não foi ela quem beneficiou de grandes (as maiores!?) contribuições dos conglomerados financeiros na campanha? A candidata de Wall Street, como se ouviu dizer.

Pelo caminho os democratas preteriram a mobilizadora e entusiástica candidatura de Bernie Sanders (A Future to Believe In), esta sim derrotada com truques e golpes baixos pelo establisment democrata hegemonizado pelo clã Cinton e com o apoio previamente negociado de Obama.

Potenciar o medo

Foi este o mesmo país que, paradoxalmente, viu agora no multimilionário D. Trump o outsider capaz de desafiar o sistema de que tanto se aproveitou. Como não evocar a forma como cilindrou nas eleições primárias qualificados representantes do establishment republicano como Jeb Bush, Ted Cruz ou Marco Rubio, fazendo orelhas moucas aos bonzos do partido republicano.

Trump dotou-se de uma retórica direta, desbragada e odienta assente em medos profundos, como o dos emigrantes que invadem o país, ou o da China e dos outros países que destroem a economia americana. Foi violentamente hábil a potenciar as intolerâncias com público garantido, como as relativas à homofobia, ao aborto ou ao nativismo. Viu assim garantidos apoios nos mais diversos setores da opinião: dos racistas do ku klux klan e xenófobos anti-emigração, às classes médias em perca de rendimentos e afetadas pelo encerramento das indústrias.

Registe-se ainda que 5.892.512 eleitores americanos votaram noutros candidatos nunca nomeados nos noticiários: Gary E. Johnson (Libertário), Jill Stein (Verde), Evan McMullin (Independente) e Darrel Castle (Constituição).

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Democracia, SARL

Hoje nos Estados Unidos da América vota-se para eleger 37 dos seus 100 senadores os 435 membros da Câmara dos Representantes. As eleições nos EUA têm particularidades que, nalguns casos quase as tornam incompreensíveis. Olhem-se para os boletins de voto das últimas eleições presidenciais, diferentes em cada Estado, para se perceber a complexidade que um eleitor enfrenta, ou para o sistema indirecto da eleição presidencial e todo o aparato que antecedem as nomeações dos candidatos pelos partidos. Para além dessas peculiaridades, dezenas de milhões de norte-americanos nunca se inscreveram para exercer o direito de voto, e dos inscritos a taxa de abstenção é brutal rondando os 50% nas presidenciais e os 80% nas outras.

Dito isto, hoje Obama, tal como todos os seus antecessores nos últimos cem anos, excepção para Roosevelt, a meio da Grande Depressão, e Bush, depois do 11 de Setembro, irá perder a maioria da Câmara dos Representantes para os seus opositores, no Senado a maioria que lhe é favorável estará em risco.

Nada de muito surpreendente para além das peripécias de uma campanha sempre dada a extravagâncias, agora agravadas pelo surgimento de um radicalismo populista de direita, por vezes com traços fascizantes, reunido num movimento multiforme intitulado Tea-Party, ou com a curiosidade de o maior comício ter sido realizado em Washington por dois comediantes.

Pano de fundo desses cenários é a democracia norte-americana ser cada vez mais uma democracia controlada pelas grandes corporações económico-financeiras. O Supremo Tribunal considerou as empresas equivalentes a pessoas com o direito, conferido pela Primeira Emenda, de gastar quantias ilimitadas em material publicitário de cariz publicitário. Mesmo um antigo limite para os donativos foi eliminado, deixando de haver limitações nas contribuições para os comités de apoio ou rejeição a um candidato. Para tudo ainda ser pior, a obrigação dos patrocinadores empresariais se identificarem em vez de mascararem os seus contributos em comités com designações variegadas como “Americanos pela América” também foi rasurada. Agora, com respaldo jurídico, o mundo empresarial, os seus magnatas, mesmo estrangeiros, podem influenciar a seu bel-prazer a política. Já antes o faziam, dentro de um quadro regulamentar com grande largueza de critérios, agora, até esse enquadramento desapareceu.

O resultado dessa legislação é que sem limitação nas suas contribuições, podendo camuflá-las facilmente, os ultra-ricos fazem-no com maior arrogância, já sem necessidade de exibirem qualquer convicção ideológica, mas continuando a garantir, agora com maior desenvoltura, a defesa política dos seus interesses materiais.

“O moderno conservadorismo americano é, em grande medida um movimento moldado pelas multimilionários americanos e pelos seus livros de cheques e os empregos seguros para os ideologicamente fiéis, são um dos pilares do sistema”. Quem o escreve não é um marxista, nem sequer um homem de esquerda, como é entendido na Europa, é Paul Krugman, um liberal, prémio Nobel da Economia.

Economia que enfrenta uma crise que se agrava dia após dia, estagnando num pântano de onde não consegue sair e que, tornando-se mais evidente nos últimos anos Bush, com o rebentar dos subprime, desaba em cima de Obama, tão incapaz como o seu antecessor de a resolver. Os problemas avolumam-se e o que se avizinha poderá ser subitamente bem pior. A política da Reserva Federal de injectar dólares às pazadas no sistema económico-financeiro esperando quev isso incentive o investimento, o que não está a acontecer, terá no futuro próximo mais que previsíveis efeitos devastadores para a já frágil moeda norte-americana. Não é novo, tem dezenas de anos do carrossel da política económico-financeira dos EUA invariável nos seus fundamentos, estejam republicanos ou democratas no poder. As variações nunca são de fundo, mexem só no que é secundário. Não por acaso o actual governador da Reserva Federal, Ben Bernanke, foi nomeado por Bush filho, sucedendo a Alan Greenspan, nomeado por Reagan. Ser o governo dos EUA a nomear o presidente da Reserva Federal, faz parecer que essa instituição depende dele. Não é assim, sem menorizar a importância dessa escolha. A Reserva Federal, que é quem emite a divisa norte-americana,  nem sequer é uma entidade independente, é um banco privado, com objectivo de lucro comercial e os seus accionistas são a nata da banca norte-americana e internacional.

A situação é extremamente grave e insolúvel. Muitos dos especialistas económicos norte-americanos, das mais variadas sensibilidades políticas, consideram que é matematicamente impossível liquidar a dívida nacional dos EUA. Situação que já era anterior à actual administração e que se tem vindo a agravar. Calcula-se que o governo dos EUA deve mais dólares dos que realmente existem e os existentes têm um valor volátil.

Enquanto isso os norte-americanos vão votar neste clima gravíssimo em que o desemprego não abate e não serão os republicanos ou os democratas e muito menos os folclóricos teapartidários que ultrapassarão a situação, para angústia e sobressalto da direita em todo o mundo como repercute José Cutileiro, um homem inteligente, um céptico de direita como se intitula, que considera que “o mundo livre precisa mais do que nunca de uma América forte. E não há tempo a perder. A China acaba de produzir o super computador mais rápido do mundo.” A realidade é que os EUA estão cada vez mais fracos, são um gigante com pés de barro a crescer.

Mas isso são outras histórias e outros post’s.

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