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A eleição e as maiorias de Esquerda

Broken_glassAté que ponto a perca de maioria absoluta pela coligação de direita foi uma mudança qualitativa na situação política portuguesa? E a maioria de esquerdas que vai existir no parlamento pode ser uma maioria de esquerda?

A velha estrutura político-partidária do país, nascida em 1974, revelou mais uma vez uma notável resistência. Desta vez face à hecatombe que se abateu sobre os portugueses nos últimos anos.

Ao arrepio do que tem vindo a acontecer nos países submetidos às brutais intervenções da troika, sobretudo na Grécia e Espanha, os partidos do rotativismo nacional (PS, PSD e CDS) continuaram a somar uma elevada expressão eleitoral, a rondar os 70% dos votos. Valor que não deixa de representar um significativo recuo de cerca de 8% face às eleições 2011. Se a coligação PSD/CDS perdeu uns volumosos 725 mil votos, o PS, o outro membro do auto designado arco da governação, recuperou apenas 183 mil.

O Partido Socialista, apesar de derrotado na luta pelo primeiro lugar, mantém uma posição de grande partido do sistema, agora com uma capacidade real de determinar o futuro (do) Governo. Apoiando o Governo da direita ou procurando alternativas com Bloco e CDU.

Mas, como o resultado da eleição indicia, podem também  estar a passar os tempos de hegemonia que permitiam ao PS um rápido acesso ao poder. Perdeu quando beneficiava de uma expectativa de vitória fácil, face a um Governo desgastado por anos de austeridade e empobrecimento da população. E agora confronta-se com o crescimento de uma esquerda crítica da austeridade imposta pelo tratado orçamental e que “encosta” os socialistas ao bloco conservador (como adiante se verá).

A esquerda “à esquerda” do PS, representada essencialmente pela CDU (mais quatro mil votos) e o BE (um dos grandes vencedores, com mais 261 mil votos), regista um aumento ainda assim moderado de 5,4% face a 2011, mas atingindo quase 20% do total dos votos, se contabilizadas também as votações nas pequenas formações da área.

A abstenção prosseguiu a sua paulatina ascensão, atingindo agora 43% face aos 41% de 2011, e desta vez ampliada basicamente por anteriores eleitores do PSD e CDS (400 mil), mas também do PS (204 mil), segundo estudo da Aximage (CM, 06.10.2015).

Com excepção do PAN – que mostra ser um movimento consistente e não dependente do mediatismo de figuras públicas – foram “cilindrados” todos os epifenómenos que tinham surgido no calor dos anos de brasa e ficado bem salientes nas últimas eleições europeias.

A fronteira do tratado orçamental

Mais que outras questões, uma fronteira criada pela adopção do tratado orçamental divide hoje o espectro político-partidário. E passa, muito provavelmente, pelo interior do PS, sendo certo que a maior parte dos dirigentes socialistas subscreve os ditos critérios, temerários por uma permanência no euro que se revela cada vez mais penosa.

O tratado orçamental, que o PS de Sócrates prometeu referendar, plasma a visão da direita europeia. Que os socialistas alegre e despreocupadamente assinaram de cruz. Facto de que, aliás, já se arrependeram, constatada que está a rápida ruína e empobrecimento dos países da Europa do sul. Apanhados na armadilha, os socialistas europeus não revelam  capacidade para alterar o rumo das coisas.

Tal como no passado o sistema político partidário continua bloqueado, com completa vantagem para o bloco PSD/CDS: pragmático na abordagem ao Poder, como já o havia mostrado no passado, sem concorrência à sua direita. E face a um PS paralisado nas grandes opções orçamentais porque engajado nos compromissos do tratado orçamental – que o tornam num aliado objectivo dessa Direita.

Não parece pois possível ver nos resultados das eleições uma maioria de Esquerda. Restam agora os jogos tácticos entre as formações políticas que se sentam no lado esquerdo do hemiciclo do parlamento. É preciso olhar noutra direção.

* À  data da redacção deste texto não são ainda conhecidos os resultados dos círculos da emigração.

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O Raio Verde

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Uma onda de emoção percorre o Portugal dos pequeninos! Este ano, Paulo Portas, mestre das falácias televisivas, não tem lugar nos debates entre os líderes dos partidos e coligações concorrentes às eleições. Vão ficar os portugueses privados de assistirem, em formato compacto, aos malabarismos e aos números de ilusionismo do Paulo Portas. Ao tom confessional com que anuncia milagres! Ao tom teatralmente convincente com que vende tudo, da lavoura a frigoríficos a esquimós, da segurança social a ferraris a sem-abrigo, de novas oportunidades de negócio a apartamentos na lua, de promessas de pleno emprego a curto prazo a ilhas submersas! Está Portugal em risco de não assistir àquele número sempre repetido de Paulo Portas pontuar cada frase com olhar esdrúxulo de estão a ver como sou mesmo, mesmo esperto. Nem às suas grotescas indignações!

O CDS está em polvorosa! O seu grande líder, o seu líder condenado à pequena imortalidade do Portugal nosso remorso, que se treinou desde a creche para ter papel de primeiro plano na política nacional, de ser uma estrela de primeira grandeza no mundo dos espectáculos La Feria da política, vai ficar na sombra daquele canastrão com voz de barítono hesitante e sangue de barata. O CDS está atacado de delirium tremens com a hipótese do seu querido líder ter um eclipse parcial durante o período eleitoral. Ficar limitado a calcorrear feiras, a concorrer com a ciganada, a escovar escamas de peixe dos casacos de fino recorte, a comer entremeadas e beber vinho carrascão, a usar megafones, a distribuir panfletos para desfazer maus-olhados socialistas e fazer amarrações democrata-cristãs. Será notícia, será sempre notícia, os media sempre adoraram os seus tiques, o perfume das públicas virtudes vícios privados vaporizado pelos seus maneirismos, os seus bonés. Para completar a fotografia fica a faltar a sua aparição nos debates, o número do homem de estado que ele ensaiou até quase cair para o lado. Nem seria necessário tanto esforço em que tem as suas qualidades histriónicas. Paulo Portas leva muito a sério o seu destino de comediante das artes políticas. Está inquieto com as traças que ameaçam esburacar a lã com que tecia os tapetes que o levariam ao topo. A sentar-se triunfante no galo de barcelos, cantando estridentemente para o galinheiro o apreciar.

E agora Paulo? Com medo de perder deputados CDS, entalou-se! Aquelas sondagens que o Marco António anunciou com aquela pronúncia grosseira de político camiliano, fizeram mossa nas hostes democrata-cristãs. Fingiram que não existiam, embora sentissem a mordidela. Não evitaram o ataque de brotoeja que fez o Jaguar ganhar pó na garagem em vez de bem luzidio transportar o pequeno líder em grande estilo para os estúdios televisivos.

O desalento, a raiva pelo erro de cálculo. Número dois de bico calado! Não pode ser! Não pode ser! Não pode ser! A solução apareceu de onde menos se poderia esperar. O Raio Verde!!! A grande solução, o grande salto em frente, pela mão de um leitor tardio de Júlio Verne que andava perdido nos corredores do Largo do Caldas! Uma revelação maior que a do arcanjo Gabriel à Virgem. A Heloísa Apolónia de “Os Verdes” coligada com o PCP na CDU, também deve ter voz. É uma injustiça nunca ter participado nos debates eleitorais! O desespero tem estes lances democráticos. Para acalmar a euforia aparece Corregedor da Fonseca e a Intervenção Democrática. Não tem grupo parlamentar mas faz parte da coligação CDU! Faltava esta para empalidecer o raio verde!

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