Geral, Política

É a isto que chamam ajustamento

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Ainda a propósito do post anterior sobre os Direitos das Crianças, vale a pena ouvir a seguinte peça jornalística: Crianças chegam ao hospital doentes por terem fome.

PSD e CDS parecem não se importar e, naquilo que só pode ser considerado uma brincadeira de mau gosto, chamam-lhe ajustamento.

Eu chamo-lhe crime e aponto o dedo aos criminosos!

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Costumes, Política

Coisa mais Feya

O deputado do CDS Diogo Feyo disse ao jornal “Público”, no dia 27 de Fevereiro, que “cada greve feita acaba por ser uma mancha na imagem do país”. A opinião, em si, vinda de quem vem, nada tem de novo. A novidade está na forma como é assumida publicamente, 38 anos depois, apenas 38 anos depois, de os portugueses terem conquistado, de forma inequívoca e pacífica, um direito que funda e caracteriza as sociedades democráticas, os estados de direito.

A sanha neoliberal que faz parte do código genético da direita portuguesa, mas não certamente apenas desta direita, associada ao ambiente de crise que vivemos (provocado pelas mesmas políticas que agora prometem resolver os problemas) permite todo o tipo de atrocidades, como temos visto. Mas, a bem de alguma ainda restante paz social, tão característica dos comportamentos portugueses, seria aconselhável, já não diria uma mudança de opinião, mas uma moderação pública de argumentos que apenas provocam mais e mais indignação, somada a toda a que já nos motivaram.

A greve, além de direito democrático, é direito constitucional ancorado na liberdade e na imperiosa necessidade de defender os interesses dos que têm menos poder nas relações laborais, ou seja, os trabalhadores. Negar este direito, com argumentos fascistas do tipo daqueles que Diogo Feyo utiliza, só pode ser entendido como uma provocação de mau gosto vinda de quem nunca deverá ter sofrido na pele a injustiça, a pobreza e a desigualdade.

Diogo Feyo e os seus pares do CDS, como aquele jovem deputado que sugeriu aos funcionários públicos a rescisão do contrato caso não quisessem aceitar a mobilidade territorial que este Governo de irresponsáveis quer impor à função pública, falam de barriga cheia para recuperar um país que já não existe, que começou a desaparecer em Abril de 1974. Por muito que isto pareça uma frase feita, um chavão de esquerda que, cada vez mais, provoca esgares irónicos nos mais retrógrados elementos da nossa direita, não deixa de ser um facto comprovado. Continuar a ler

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economia, Geral

Governanças Formais e Informais

Os políticos, à míngua de ideias e projectos, ocupam o espaço público com espectáculos quase diários, sempre muito apregoados, mesmo quando estão completamente esvaziados de substância, embora prossigam sempre o mesmo objectivo: agravar a exploração dos que sempre foram explorados.

A comunicação social serventuariamente amplifica essas cenas. Hoje tem-nos sido servido, em doses reforçadas, mais uma dessas diversões em directo do Forte de S. Julião da Barra. Lá sai uma notícia para o ouvido do canto:
“No Conselho de Ministros informal, o Governo, diz o seu porta-voz na primeira das suas intervenções, definiu hoje os quatro principais pilares das reformas estruturais a realizar em 2012. Essas reformas passam pelo reforço da concorrência e da competitividade, articulação entre Estado e economia, valorização do capital humano e confiança.”


Nada de novo na frente ocidental. Nem o anticiclone dos Açores deu um ar da sua graça. Trocando por miúdos, decifra-se que, se o que já se sabe não é nada bom o que nos espera será ainda pior. Esta tropa fandanga a única coisa que sabe fazer é aumentar o buraco para onde está a conduzir o país, embrulhado em paleios que só enganam quem quer ser enganado.
Os próximos anos vão todos ser piores. A crise vai agravar-se, o desemprego aumentar, o ataque aos direitos sociais vão-se intensificar. Os pobres cada vez mais pobres, a classe média passada ferro, os ricos cada vez mais ricos. São as prometidas e sempre iguais reformas estruturais.
Estas teatradas bafientas lembram-nos o antes do 25 de Abril. As conversas em família. Já quase lá estamos novamente em questões dos direitos sociais e qualidade de vida. Resta-nos uma liberdade cada vez mais video vigiada.
O discurso dominante não muda. É o da impostura, da trapaça, sempre acenando as bandeirinhas dos superiores interesses nacionais, enquanto o Estado é paulatinamente destruído para ser posto ao serviço do grande capital.
É uma praga assola o país. Está a espoliar os portugueses do seu direito à vida. Há uma luta patriótica e de esquerda necessária e urgente que tem que continuar sem hesitações nem equívocos.

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Geral

Ignomínias!

A FICHA - escultura de Virgílio Domingues

Fica-se perplexo quando políticos que ocupam os mais altos cargos não perdem uma oportunidade para fazer demonstração pública da sua pequena dimensão ética e política. Fica-se indignado quando algumas coisas acabam forçosamente por ser conhecidas e a sociedade não é percorrida por um frémito contra as improbidades.

Fica-se abismado quando o mais extraordinário nas revelações feitas pela Wikileaks não serão as revelações em si-mesmo, mas o não causarem espanto de maior, para lá do que percorre alvoraçadas chancelarias.

É inquietante como, pouco a pouco durante dezenas de anos, se foi injectando nas sociedades a aceitação de uma normalidade em que os seus direitos, a sua dignidade, conquistada em séculos de lutas heróicas, são reduzidos a quase nada debaixo das patas das cavalgadas neo-liberais aceleradas por Reagan e Thatcher que tem o desplante de dizer que “a sociedade como tal, não existe”. Não longe dos teóricos nazis que defendiam que a humanidade era uma ficção, existiam unicamente raças, umas melhores que outras e uma superior a todas.

Ontem a comunicação social noticiou que o governo português vai ceder dados do BI de todos os portugueses aos Estados Unidos da América, bem como outras informações adicionais, nomeadamente a biométrica que é recolhida e compilada por um sistema informático oferecido e montado pelo FBI. Agora é só ligar o cabo óptico e zás, em segundos está tudo em segurança no nosso amigo americano.

Com o pretexto da luta contra o terrorismo, os EUA de Bush aceleraram e legalizaram um programa de recolha de informações que já existia e era activíssimo, não tinha era cobertura onde se abrigasse, tornando-se legal. O que antes produziria um sobressalto entra nos eixos da regularidade,torna-se uma actividade normatizada, de rotina.

Uma pequena história real, demonstrativa da extrema atenção com que os EUA desde sempre contemplaram os cidadãos de todo o mundo. Nos anos 70, depois do 25 de Abril, o registo criminal dos presos políticos portugueses foi obviamente expurgado desse facto. Um hoje conhecido catedrático e cientista português, preso vários anos na sequência da crise académica de 62, vai para os EUA doutorar-se. Ao fim do primeiro ano volta a Portugal de férias. Quando regressa barram-lhe a entrada na fronteira do aeroporto de Nova Iorque. É interrogado, durante mais de vinte e quatro horas, sobre a sua anterior actividade política em Portugal. A autorização para ficar só surge com o compromisso pessoal de não sair do território norte-americano enquanto estivesse a acabar o doutoramento e dos directores da universidade onde estudava que ficaram responsáveis por monitorizar o seu comportamento. O terrorismo, os eixos do mal, etc, ainda eram uma ficção e os EUA, sem guarda-chuva legal, já eram activíssimos no controle de qualquer cidadão. Esta história factual, tem outra face interessante. Na altura, em Portugal fazia-se intensa propaganda sobre o desvio dos arquivos da PIDE para Moscovo. Como se vê, intensa e eficaz barreira de fumo para os arquivos, com destino marcado, sobrevoarem o oceano Atlântico.

Agora o governo prepara-se para obedecer aos ditames de quem quer continuar a controlar e pilhar o mundo, com o pretexto da luta contra o terrorismo, sabendo-se que as fronteiras dessa definição têm uma elasticidade infinita.

Qualquer um de nós desde que não se sujeite às leis desta sociedade ignominiosa é hoje um potencial terrorista e amanhã figurará nas listas dos procurados. Basta ler o que com esse projecto se pretende: “prevenir e lidar com o terrorismo internacional e deve abranger a cooperação na identificação atempada de indivíduos conhecidos por estarem, ou terem estado, envolvidos em actividades que sejam consideradas terroristas”. Releia-se a citação da Thatcher e temos o quadro do que podem ser “actividades que sejam consideradas terroristas”. Enquadra tudo o que se quiser.

Miserável são os nossos governantes, no caso com Sócrates e Luís Amado na primeira linha, baixarem a cerviz à voz de comando do boss.

Estão bem acompanhados por um Presidente da República, que descalça os sapatos para que o ranger das solas não incomode os mercados ou um presidente da comissão europeia que encera os salões da senhora Merkel, depois de treinar como mordomo a abrir as portas dos Açores para Bush e a sua Mónica Lewinsky, Toni Blair anunciarem ao mundo o fruto da sua mancebia.

Essa gente envergonha-nos! Dia 23 de Janeiro vamos começar a correr com eles!

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1º de Maio… em 2010?

1º de Maio de 1974 por João Abel Manta

Comemorar o 1º de Maio. Qual o seu sentido hoje? O que nos separa da comemoração do 1º de Maio de há um século?

É verdade que o nível de vida de grande parte da população melhorou consideravelmente ao longo dos últimos cem anos e, em Portugal, sobretudo após o 25 de Abril de 1974. Generalizou-se o direito a um horário de trabalho digno, a férias pagas, aumentaram os direitos sociais: à protecção na doença e na velhice, à saúde. Aos trabalhadores foi reconhecido o fundamental direito à negociação colectiva, enquanto parte mais fraca da relação laboral. Lembremo-nos que, ainda hoje e apesar da insipiência do nosso Estado Social, não é assim em todo o lado.

Um longo caminho foi percorrido desde esse já longínquo dia de 1886, em que milhares de trabalhadores desfilaram pelas ruas de Chicago, reivindicando a redução da jornada de trabalho diária para 8 horas. A história das relações laborais na Europa do século XX é uma história recheada de Primeiros de Maio.

E hoje? Podemos convencer-nos da bondade de fragilizar e eliminar a negociação colectiva e sujeitar os trabalhadores à mera negociação individual, sob a ilusória justificação da valia individual? Podemos convencer-nos da bondade da liberalização de horários de trabalho? Podemos ainda convencer-nos da bondade da desmaterialização do vínculo laboral – “empresários” que são trabalhadores por conta de outrem? Teremos nós o direito de desistir de tudo o que gerações antes de nós com muito sacrifício conseguiram?

Para que serviu o 1º de Maio de 1886 e todos os dias das muitas lutas que se lhe seguiram? Certamente não foi para que os espíritos retrógrados de alguns grandes do mundo queiram – aliás como sempre quiseram – fazer-nos regressar â condição de servos. É esse sentido do 1º de Maio de 2010.

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