Desporto, Política

O Governo Compra Medalhas

Os jogos olímpicos já lá vão. Muitos comentários foram feitos sobre os resultados de Portugal. Nos jornais, pagos por quem de direito, fizeram-se contas e mais contas sobre os custos de cada medalha. Valha-os Deus, como diria a minha avó! Pois é, o governo compra medalhas! Como quem compra coentros ou cebolas!

Fazem-se contas, mas contas falaciosas e turvas como, de resto, é turvo e falacioso o que faz este governo! Relvas e afins devem julgar que obter uma medalha nos jogos olímpicos é como obterem licenciaturas e outras afins: sem qualquer esforço senão o de explorar os velhos explorados de anos, talvez deva dizer de séculos!

Mas quem ficou decepcionado com os resultados de Portugal? Verdadeiramente, quem?

Em primeiro lugar, este pobre governo que está tão desgovernado ele próprio que gostaria de fazer demagogia actual com aquilo que não fará nos próximos quatro anos. Outros que o antecederam, também nada fizeram com o beneplácito da oposição de então que é o governo de agora. E sempre este círculo fechado de governo-oposição a fazerem o mesmo quer como oposição quer como governo.

A seguir, o presidente do Comité Olímpico, Vicente Moura! Este não fez a crítica aberta, mas as suas palavras são-no de forma encapuçada ou assim-assim.

“Estivemos ao nível do desporto português“, disse ontem Vicente Moura ao Correio da Manhã, sobre a prestação nacional na capital britânica. O presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP) afirmou ainda que a participação lusa “esteve ao nível da de Pequim em 2008“.

Isto é, após 4 anos nada se evoluiu, pelo contrário : “Se nada mudar, daqui por quatro anos teremos menos modalidades e atletas nos Jogos, além de nos tornarmos irrelevantes em termos de resultados.”

O que será necessário mudar? “Um pouco de tudo“, indica, “a começar pela mentalidade do panorama desportivo nacional. As alterações têm de partir logo do desporto escolar, no fundo onde tudo começa, antes da prática do desporto a nível associativo.”

Pois bem, Vicente Moura pôs o dedo na ferida e deixou o alerta.

Não há uma política desportiva no País. Não existe uma estratégia, um plano de desenvolvimento do desporto. O Estado/Governo demitiu-se da sua responsabilidade da planificação na consolidação e garantia do direito constitucional ao desporto.

E tudo começa na escola! Este ano a educação física vai ver diminuída o número de aulas. E onde fica o desporto escolar? Como se costuma dizer em bom português, fica entregue à bicharada!

A educação das crianças e dos jovens não contempla o desporto e a sua prática. As escolas não têm instalações nem professores que possam levar a cabo uma mudança positiva neste campo.

Sem uma base radicada numa prática desportiva sistematizada, o surgimento de atletas não se fará e muito menos se conseguirá a substituição dos atletas de alto rendimento.

O Estado pode subsidiar estágios e treinos, mas tal não chega. E também retirar a bolsa aos atletas que não conseguiram os resultados almejados nos jogos olímpicos é comprar medalhas e não apoiar atletas.

Por exemplo, Telma Monteiro perdeu a bolsa de nível 1 (1.375 € mensais). Será justo? O esforço que a atleta desenvolveu e o nosso interesse “olímpico” não exigiriam manter a mesma bolsa? Condicionar assim os atletas é mercantilismo puro, é comprar medalhas uma a uma.

Não sei qual será a bolsa com que os atletas que decepcionaram Passos Coelho & Cia vão ficar, mas as bolsas de nível 2 são de 1100€ euros e as de nível 3 são de 825€ mensais.

Será preciso debitar aqui os valores que os outros países gastaram com os seus atletas?

O presidente da Associação Olímpica Britânica, Colin Moynihan defendeu o aumento do financiamento para o desporto escolar e melhoria do acesso às instalações desportivas. Referiu ainda que nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, metade dos medalhistas britânicos tinha vindo de escolas particulares. Com o impulso dado pela realização do maior evento desportivo do mundo em casa, os números mudaram e 75% das medalhas de ouro do Super Sábado foram conquistadas por atletas de escolas públicas.

A prática desportiva do nosso país está entregue aos clubes que, claro, têm prioridades a que dedicam os parcos subsídios que o Estado lhes dá. (De passagem, vale a pena recordar que estas verbas são provenientes das receitas do jogo, cuja percentagem destinada está prevista por lei). Contudo, temos também de lhes agradecer pelo pouco que se faz que é muito neste contexto de pobreza financeira.

 As autarquias têm apoiado as associações desportivas e têm fomentado e mantido um desporto para todos, mas isto não é de modo algum suficiente para se poder ter atletas de alta competição a competir com os restantes países que gastam substancialmente mais com os mesmos nem mesmo uma política e prática desportiva nacional e universal.

Os atletas de alta competição (e apesar de todo o esforço que fazem com bolsas que não lhes permite viver de maneira a poderem treinar as 6 ou 7 horas diárias) não se compram em cada quatro anos! E muito poucos têm a possibilidade de se custear. Muito poucos são ricos!

Recordo Rosa Mota que dizia que treinava nas estradas do Porto e assim foi durante anos até conseguir a pista de que necessitava. Contudo, outras modalidades não se compadecem com essas soluções.

No desporto,  para o sucesso tem de se começar a trabalhar muito cedo, com as crianças e isto só é possível com uma verdadeira política desportiva em que o Estado tem de assumir as suas responsabilidades, sob pena de cada vez mais nos afastarmos dessa máxima de mente sã em corpo são.

Saúdo todos os atletas os quais, certamente, mais do que ninguém terão ficado tristes e decepcionados e, sobretudo, preocupados com o seu futuro, porque não conseguiram ganhar a medalha que o governo queria comprar para os continuar a apoiar e promover.

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Os Campiões

Há muito que queria colocar este post, mas estive sem tempo.

Não quero, porém, deixar de o fazer, prestando homenagem a esta selecção que praticamente foi ignorada nos orgãos de comunicação social.

Foi já em Maio que a Selecção Portuguesa de Atletismo de Síndrome de Down venceu o título mundial. A competição internacional decorreu durante três dias no Estádio João Paulo II, em Angra do Heroísmo, nos Açores, e contou com a participação de 12 países.

Portugal foi o país mais galardoado, com um total de 30 medalhas – nove de ouro, 12 de prata e nove de bronze.

Portugal somou um total de 334,5 pontos, contra os 196,5 da Venezuela e 169 da África do Sul. O destaque individual foi para a atleta Maria João Silva, natural do Pico, que conseguiu conquistar três medalhas de ouro, nas provas de 1.500 e 800 metros marcha e em estafeta.

Parabéns aos atletas e a quem os prepara, apoia, os incentiva a ter confiança neles próprios.

Fazem-no, certamente, sem ganhar os muitos milhares de euros que são destinados ao futebol.

É, tão só, uma questão de política.

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Without eggs, no omelets

Gosto de futebol. Gosto de ver jogos de futebol, cortado o som dos locutores, comentadores e arredores. Chateia-me ver um mau jogo de futebol. Nem a vitória da minha equipa preferida ou daquela por quem estou momentaneamente a torcer, compensa o cansaço que isso provoca e que me faz mudar de canal televisivo ou apagar a televisão. O último jogo da Taça dos Campeões Europeus inscreve-se nessa zona. Claro que os especialistas, em futebol multiplicam-se mais que os coelhos, explicam o 4 – logaritmo de 2 raiz quadrada de cinco -1 ao cubo contra o não sei quê das alas que travam o não sei que mais e viva o maior treinador do mundo. Por mim o que queria, era ver um bom jogo de futebol. Fiquei-me pelo enorme bocejo de assistir ao melhor treinador do mundo por em prática uma táctica que qualquer treinador da 3ª divisão tenta usar para vencer o Sporting, o Benfica ou o Porto. Tudo atrás e bola para a frente que alguma há-de entrar. Com os jogadores que tem, algum acabará por entrar quase de certeza. Ver aquilo? Há quem consiga ver coisas do outro mundo com argumentos do género que o jogo foi pobre mas tacticamente e etc que me deixam banzado, quando com elas tropeço, porque o que quero, com ou sem táctica, é que joguem um futebol que dê gozo ver. Não estes, mais eficazes contra a insónia que uma caixa de valiuns.

O pior, para mim evidentemente, é que a esses jogos junta-se a náusea que é o mundo do futebol. Alarma-me que por cá, num país com uma taxa enorme de iliteracia, as horas de televisão e rádio ocupem uma percentagem de tempo notável da sua programação com futebolês, que existam três jornais diários desportivos, pouco têm de desporto e muito de futebol, onde num português ruminante se multiplicam declarações dos protagonistas do espectáculo quase tiradas a papel químico, misturadas com um noticiário confrangedor e umas análises de se tirar o chapéu. Como se enche tanto papel e ondas hertzianas com quase nada ou quase tudo do mesmo, é que é verdadeiramente singular. Uma volta rápida pelos comentários dos leitores é arrepiante. Aquela gente gostará mesmo de futebol? A cegueira nunca lhes permite ver nada e fá-los acreditar em coisas extraordinários como os milhões da transferência do Cristiano Ronaldo irem ser pagos com a venda de camisolas. Percebe-se rapidamente que está ali um enorme contingente de gente pronta a engolir qualquer demagogia. Nem percebem, no campo em que aparentemente tem maior conhecimento, que o futebol é um grande negócio com fronteiras legais muito fluidas. Que a maioria das equipas de futebol ou está falida ou à beira falência apesar da contabilidade imaginativa. Que as primeiras divisões europeias tiveram no exercício do ano passado um prejuízo acumulado de 600 milhões de euros.

Muito pior são as contas dos clubes. O primeiro do ranking, o Manchester United, no exercício de 2009, obteve lucros de 53,8 milhões de euros antes de impostos, contra os 23,4 milhões de prejuízo no ano anterior. Nos lucros é contabilizada uma receita extraordinária e dificilmente repetível, a transferência milionária de Cristiano Ronaldo que evitou um resultado negativo de 31,6 milhões, e figuram as receitas comerciais de 15 milhões pelo patrocínio nas camisolas dos jogadores da AIG, a seguradora norte-americana onde o estado injectou 850 biliões de dólares para a salvar da falência. A dívida total é de 778,5 milhões de euros, dos quais 509 milhões à banca que vence um juro anual de 45 milhões de euros. O Real de Madrid é bem pior. O Liverpool faliu e procura comprador. Na calha outras equipas de outros países. As equipas que estão em melhor situação são as alemãs depois da falência da tomadora dos direitos televisivos que obrigou a uma intervenção do governo impondo aos clubes regras contabilísticas mais apertadas, mesmo assim…

Incomum é os adeptos, que deveriam ser o melhor activo dos clubes de futebol, completamente marginalizados desse campo de batalha, continuarem a viver paixões extremas, galvanizando-se com golos e vitórias que são perifericamente desportivas, o seu verdadeiro valor é económico-financeiro. Um golo do Chelsea, do Real de Madrid, do Bayern, do Inter, custam e valem milhões, como por cá um golo do Benfica, Porto ou Sporting custa e vale centenas de milhares de euros. Tudo valores relativos. Provavelmente dado o volume de negócios de cada equipa, um golo do Porto até é capaz de ser mais caro que um golo do Inter. No que eles se igualizam é que há golos que acabam mais valiosos que outros, são os que dão acesso às Ligas europeias.

Não deveria espantar que, neste quadro, por em prática um futebol que regale os sentidos seja secundário. O que interessa é o negócio e encher as arenas de multidões a olhar para a bola a esquecer as agruras da vida. O que interessa é ganhar jogos a qualquer preço. Foram assim os últimos jogos do Inter para os Campeões Europeus e não está sozinho, antes pelo contrário. Mas é com os olhos cravados nesse alvo que os clubes investem e pagam fortunas obscenas em transferências e ordenados de jogadores e treinadores, alimentando uma cadeia de intermediários considerável. Enquanto ganham, poucos olham para as contas. Nem sempre resulta. No Real de Madrid aos investimentos não corresponderam os resultados desportivos. A resposta é uma fuga em frente, mais jogadores, outro corpo técnico. O Special One explicou o princípio numa entrevista a uma televisão inglesa “ Without eggs, no omelets”.

A malta adepta, a de lá e de cá, aplaude porque espera resolver a frustração no próximo ano. Todos os meios justificam os fins, o dinheiro continua a escorrer sumidoros insaciáveis.

Quem gosta de futebol é que sofre a ver este futebol pobre e continua a indignar-se com o dinheiro que a fornalha desse circo consome indecorosamente.

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