Geral, Internacional

Fidel. A História o julgará

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Uma revolução não é um leito de rosas. Uma revolução é uma luta até a morte entre o futuro e o passado”, Fidel de Castro, 2 Janeiro 1961

Mais que o desaparecimento físico de Fidel Castro, o que agora nos surge é o balanço e a perspetiva do futuro da revolução cubana. Uma revolução marcada pelo carisma e pelo registo indelével do seu Comandante.

Fidel Castro personalizou a revolução cubana, desde os seus primeiros momentos, em todas as suas dimensões e de forma plena: o entusiasmo e o vigor, a liderança carismática e o exemplo pessoal, a disponibilidade inquebrantável.

A história de Cuba até à revolução do 1.º de Janeiro de 1959 é a história de um país e de um povo condicionados e humilhados pelo poderio dos EUA. Cuba era, à data da revolução, considerada a “ilha dos prazeres” ao dispor dos turistas do poderoso vizinho norte-americano. A que se somava a concentração das propriedades e dos bens nas mãos de uma pequena elite e de empresas estrangeiras, sob beneplácito do ditador Fulgêncio Batista.

A afirmação e a interferência dos EUA em Cuba remontam aos tempos das lutas de libertação e da expulsão da potência colonial, Espanha, forçada a conceder a independência ao território em 1898. Mas uma independência seriamente condicionada pela Emenda (constitucional) Platt, que garantiu a possibilidade de intervenção dos Estados Unidos nos destinos da ilha.

A vontade de controlo e submissão dos países latino-americanos vinha, já então, de longe, mais exatamente dos tempos da doutrina Monroe (do presidente do mesmo nome – 1817 e 1825), posteriormente complementada pelas orientações do Corolário (do presidente) Theodore Roosevelt, em 1904, que determina condições para interferência nas “nações do Mar do Caribe”

Cuba foi, como a generalidade da América Latina, mais uma das vítimas das interferências a que os Estados Unidos submeteram os seus vizinhos do sul do continente, no que significativamente designavam como “o seu quintal “.

A revolução cubana e a guerra fria

A revolução cubana foi um ato libertador e de recuperação da dignidade. Mas que ocorreu em plena guerra fria. E este é certamente o factor que mais contribui para a compreensão das múltiplas dimensões dessa revolução. Um pequeno país onde se realiza uma revolução social a poucas milhas do gigante americano e que desafia abertamente os seus ditames!

A revolução cubana abalou profundamente a sociedade com grandes alterações no regime de propriedade. Apostou fortemente na extensão da educação, saúde e outros direitos sociais a toda a população. Em poucos anos o país atingiu índices de elevada cobertura nestes domínios, conseguindo mesmo promover a sua exportação para outros pontos do globo, no âmbito de acordos com outros Governos.

Até 1991, ano que assinala o fim da União Soviética, o mundo viveu o que então se chamava de “equilíbrio do terror”. Uma paz assente na ameaça da destruição maciça termonuclear entre os blocos. E Cuba teve então um papel temerário e intrépido nesse sistema.

A revolução cubana, dirigida a partir da Sierra Maestra por Fidel de Castro, Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos, não era um regime exactamentente igual aos então instalados nos países do leste da Europa na sequência da vitória militar soviética na Segunda Guerra Mundial. A sua génese fora de origem guerrilheira, mas com uma entusiástica mobilização e apoio populares. Inicialmente, Fidel e os seus companheiros não se afirmavam comunistas; apesar da existência anterior de organizações comunistas o Partido Comunista de Cuba foi formalmente criado em 1965.

Foi a hostilidade norte-americana e o continuado apoio aos agentes do derrubado regime de Fulgêncio Batista que conduziu à procura de apoios por parte dos dirigentes revolucionários no bloco do Pacto de Varsóvia.

O entusiasmo internacionalista que impregnou o processo político cubano revelou facetas de grande solidariedade com os movimentos revolucionários de outros países – dos movimentos guerrilheiros em países da América Latina, de que resultou a morte de Che Guevara na Bolívia, às intervenções militares mais estruturadas em Angola, Etiópia, Nicarágua ou Argélia em apoio a governos amigos.

Desde os seus primeiros dias a revolução cubana foi alvo de constantes tentativas de desestabilização e em que avulta o bloqueio económico ao país. Também Fidel Castro foi pessoalmente objeto de numerosas tentativas de assassinato.

Novos desafios

Com o desmantelamento da União Soviética e do bloco socialista, em que se integrava economicamente, Cuba foi colocada perante desafios muito complexos. Desde então o fim da revolução cubana foi repetidamente previsto e repetidamente contrariado pela realidade. O país revelou uma capacidade de adaptação que não seria possível sem um forte apoio popular.

Com o fim da guerra fria as matérias relativas às liberdades individuais e à expressão política das oposições tomaram novas dimensões, colocando também novos desafios à direção assumida por Raúl Castro a partir de 2008.

Fidel chega ao fim dos seus dias com um lugar garantido no panteão da história dos libertadores da América. Ao lado de heróis como Simon Bolivar, Emiliano Zapata, José Marti ou Hugo Chaves. E heróis são aqueles que fazem o que parecia impossível no sentido do progresso dos seus povos. O traço que une estes heróis latino-americanos é a luta pela dignificação dos seus povos face a poderios imperiais.

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CUBA/EUA- o discurso de Raul de Castro

Obama Castro

Habituados à ligeireza  intencional, com objectivos mais que sabidos, da comunicação social, ao modo enviezado com que se fabricam e alinham as notícias, apoiados pelos comentários dos inúmeros e variegados interpretadores dos sinais do que se passa no mundo para nos (de)formarem a visão, em que alguns, sem perderem o norte marcado na bússola dos mandantes, são mais sofisticados por formação académica ou prática diplomática, não se pode ficar admirado com o modo com tem sido tratado a aproximação entre Cuba e os EUA.  Desse imenso aglomerado de gente, na rádio, jornais, televisão, Internet,  foram banidos todos os que poderiam ter outro ângulo de visão, mais à esquerda , e outra profundidade de análise, não se limitando aos medias telecomandados, e com base em informação sólida, que desse e doutros sucessos dessem uma visão do mundo não normalizada, que não se conforma com o quadro imposto pelo império.  Ainda se lembram quando Pezarat Correia ou José Goulão (este com blogue que deve ser frequentado por quem quer saber realmente o que se passa no mundo), só para lembrar dois homens de vasta informação e seriedade, apareciam nos jornais ou nos ecrãs televisivos?  Agora resta-nos uma sucata, onde ainda brilha alguma esquerda, representada por variantes menores do Príncipe de Salinas, reluzente nas suas opiniões de esquerda sensata ou esquerda de gente gira, que impulsionam democraticamente o movimento do mundo para que este não saia sair dos seus eixos. Nada do que é publicado e como aparece nos causa surpresa.

No percurso de aproximação entre Cuba e os EUA, na recente cimeira das Américas, o discurso de Raul de Castro ficou sepultado no aperto de mão histórico, no encontro histórico que mantiveram, nas declarações históricas mais insignificantes dos dois presidentes, se nos limitarmos a seguir o que foi publicado na generalidade dos media onde a adjectivação de histórico para aqui, histórico para ali ia brunindo a superficialidade do noticiado. A habitual  filtragem feita pelos mais rigorosos e independentes critérios jornalísticos (esta é para todos nos rirmos a bandeiras despregadas!) acabou por menorizar o que ambos disseram.

Do importante discurso proferido por Raul Castro na Cimeira das Américas, os media internacionais apenas reproduziram um pequeno aparte dirigido a Obama. Omitiram deliberadamente, como é a sua prática, o essencial desse discurso que aqui reproduzimos, repescado do Diario.info Continuar a ler

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