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A PLURICOOP tem futuro!

As dificuldades de acesso ao crédito e o consequente estrangulamento por que passa a PLURICOOP, a maior cooperativa de consumo do país, com origem histórica na região de Setúbal, são um sério problema social e um motivo de preocupação para todos os que se revêm no valor das soluções solidárias.

De há tempos a esta parte começaram a faltar os produtos das prateleiras e os salários dos trabalhadores da PLURICOOP começaram também a ser afectados (vide noticia no “Setubalense” de 16 de Março). A cooperativa viu-se mesmo na contingência de encerrar “provisoriamente” a sua loja da travessa do Mercado, em Setúbal, estudando ainda outros encerramentos.

As crescentes dificuldades de acesso ao crédito que afectam o sector cooperativo (e não só), bem como o facto de os programas comunitários de investimento não terem em conta a especificidade do estatuto da propriedade cooperativa, têm representado problemas acrescidos para a PLURICOOP. Situação agravada pelo elevado número de hipermercados e grandes superfícies que se têm vindo a estabelecer na região.

Para se aferir da importância e dimensão da PLURICOOP atente-se em alguns números. Dispondo de 32 lojas, segundo números de 2008 o corpo social da cooperativa era então composto por 68.083 membros singulares e 84 membros colectivos; o número de trabalhadores era de 446. No mesmo ano a cooperativa atingiu um volume de negócios aproximado aos 33 milhões de euros.

A questão PLURICOOP chegou já à Assembleia da República, pela mão do BE e do PCP. Os deputados do BE, Jorge Costa e Mariana Aiveca, questionaram o Governo quanto a “medidas urgentes e imediatas (…) a adoptar com vista à viabilização do empréstimo a contrair junto da Caixa Geral de Depósitos, garante da retoma da actividade da PLURICOOP e, consequentemente, da manutenção de centenas de postos de trabalho”. Também o deputado do PCP, Agostinho Lopes, efectuou perguntas sobre o tema – “Que medidas prevê o Governo para apoiar a recuperação e a viabilização financeira da Pluricoop, bem como de outras cooperativas de consumo, e assim defender os postos de trabalho e a heterogeneidade da distribuição e do comércio a retalho local?”. Bom seria ver todos os deputados eleitos pelo distrito de Setúbal unidos neste assunto.

Sabemos que, longe de baixar os braços, a cooperativa está a analisar outras opções de solução para o seu futuro, havendo vários cenários possíveis, inclusive com entidades cooperativas do outro lado da fronteira.

Mas a situação da PLURICOOP vem também chamar a atenção para o facto de, ao longo dos anos, o sector cooperativo não ter merecido o reconhecimento que lhe é devido por parte do Estado português e que a Constituição da República consagra – “as associações de consumidores e as Cooperativas de consumo têm direito, nos termos da lei, ao apoio do Estado” (ponto 3 do artigo 602), sendo explicitamente definido que iniciativas legislativas definiriam “os benefícios fiscais e financeiros das cooperativas bem como condições mais favoráveis à obtenção de crédito e auxílio técnico” (pontos 1 e 2 do artigo 852).

Nascida numa época em que o acesso a bens alimentares e outros era radicalmente diferente do dos dias de hoje, o fenómeno cooperativo congregou importantes energias populares na sociedade portuguesa que, a partir dos anos setenta, e nomeadamente após Abril de 1974, contribuíram para uma significativa melhoria, quer nos circuitos de distribuição e acesso aos bens, quer nos preços ao consumidor. Tudo assente na propriedade social dos cooperantes, as cooperativas aspiraram a fazer parte desse movimento de mudança do mundo. E, de certa forma, conseguiram-no.

Na origem da PLURICOOP encontram-se as cooperativas COOTSET de Setúbal, COOPINHAL de Pinhal Novo e a Coop B da Baixa da Banheira que, em resultado da sua fusão por incorporação, em 1990, viriam a formar aquela que hoje a maior cooperativas nacional da área do consumo. Ao longo dos vinte anos seguintes a PLURICOOP desenvolveu um diligente e laborioso trabalho de integração de pequenas cooperativas, 31 no total, com área de actividade pelos distritos de Setúbal, Lisboa e Santarém.

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